Rio de Janeiro | 2013



CIP-BRASIL. CATALOGAO NA FONTE
 SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Costa, Vanessa Oliveira Antunes da

C876t

Tudo de novo [recurso eletrnico]: dos bailes para a histria da msica brasileira / Vanessa Oliveira Antunes da Costa. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

recurso digital

Formato: ePub

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN 978-85-7684-832-5 (recurso eletrnico)

1. Grupo Roupa Nova - (Conjunto musical). 2. Grupos de rock - Brasil - Biografia. 3. Livros eletrnicos. I. Ttulo.

13-06236

CDD: 927.8166
CDU: 929:78.067.26

Texto revisado segundo o novo Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.

Ttulo original
 TUDO DE NOVO: DOS BAILES PARA A HISTRIA DA MSICA BRASILEIRA
 Copyright  2013 by Vanessa Oliveira

Capa: Gabinete de Artes
 Editorao eletrnica da verso impressa: Ilustrarte Design e Produo Editorial
 Design e diagramao de encarte: Sense Design
 Agradecimento aos acervos de: Clever Pereira, Everson Dias, Ique Esteves, Jandira Feghali, Juca Muller, Kitty Paranagu, Patrcia Smith, Roupa Nova, Sandra Vieira e Valria Machado Colela

Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo, no todo ou em parte, sem autorizao prvia por escrito da editora, sejam quais forem os meios empregados.

Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa para o Brasil adquiridos pela
 EDITORA BEST SELLER LTDA.
 Rua Argentina, 171, parte, So Cristvo
 Rio de Janeiro, RJ - 20921-380
 que se reserva a propriedade literria desta traduo

Produzido no Brasil

ISBN 978-85-7684-832-5

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TUDO DE NOVO

Por Ricardo Feghali e Nando

Hum... Tudo de novo

To depressa que no sei se tem fim

Ou comea outra vez

Hum... Caras e tipos

Uma certa semelhana

No jeito e na maneira de ser

E no ar (que onda)

A nova jovem guarda

Num delrio total

Romntico geral

Eu tambm (No tem jeito)

Na febre do sucesso, num delrio total

Romntico geral

Hum... Rdios e vdeos

Acompanham o movimento das ondas

Em qualquer direo

Hum... Roupas e cores

Louras frgidas e ruivas geladas

Querem seu corao

E no ar...

Hum... rdios e vdeos

Uma certa semelhana

No jeito e na maneira de ser

Tudo de novo

To depressa que no sei se tem fim

Ou comea outra vez

Hum roupas e cores

Acompanham o movimento

Das ondas em qualquer direo

E olha que ainda vinha chegando gente



SUMRIO

PARTE 1: Caras e tipos 

Captulo 1: Em nome do pai 

Captulo 2: Um lugar no mundo 

Captulo 3: O homem do exrcito 

Captulo 4: Fazemos qualquer negcio 

Captulo 5: Um bibel de menino 

Captulo 6: Sonho de ouro 

PARTE 2: A nova jovem guarda 

Captulo 7: Nos bailes da vida 

Captulo 8: Maestro Lincoln e sua nova banda 

Captulo 9: El adis de Los Panchos 

Captulo 10: Na garupa dos Motokas 

Captulo 11: Young, Richard Young 

Captulo 12: A servio da msica 

Captulo 13: O estouro da bolha 

Captulo 14: Mariozinho botou a rocha no nome 

PARTE 3: Roupas e cores 

Captulo 15: Sorriso aberto e Roupa Nova 

Captulo 16:  como um sol de vero 

Captulo 17: Pelo menos um pouco de sol 

Captulo 18: No clube da esquina tem um padrinho 

Captulo 19: Os vinte por cento 

Captulo 20: O sucesso da cidade 

Captulo 21: Ratos de estdio 

Captulo 22: O sonho no volta atrs 

PARTE 4: Na febre do sucesso 

Captulo 23: O caminho do sucesso  fatal 

Captulo 24: A gente ficou com a chuva e a Gal com a prata 

Captulo 25: Foi numa festa, gelo e cuba libre 

Captulo 26: Os escoteiros do rock 

Captulo 27: Soy latino-americano 

Captulo 28: O corao e a mquina de calcular 

Captulo 29: Um verso meu pra voc dizer 

Captulo 30: Todo artista tem de ir aonde o povo est 

Captulo 31: S de olhar voc t me vendo outra vez 

Captulo 32: Todos sero ou ningum ser 

Captulo 33: Mais que a luz das estrelas 

PARTE 5: Tudo de novo 

Captulo 34: E eu ligo o rdio sem querer 

Captulo 35: Novela hits 

Captulo 36: De volta ao comeo 

Captulo 37: Atravs dos tempos 

Captulo 38: Se apronta pra recomear 

Captulo 39: Os coraes no so iguais 

Captulo 40: Now I long for yesterday 

Captulo 41: O som de uma gerao 

Eplogo



Para meu pai, Odenir Antunes,
 pelo amor  msica.

Para minha dindinha, Patrcia Smith,
 pelos discos do Roupa Nova.

E para Bruno Pereira,
 pela vida que  nossa,
 assim como cada palavra deste livro.



AGRADECIMENTOS

Eu pensei em te dizer tanta coisa, mas para qu se eu tenho a msica...

(Bem simples)

Nesta viagem musical contei com pessoas generosas, que dedicaram algumas (e muitas) horas do seu tempo para compartilhar suas lembranas comigo. Fontes ricas de causos, fotos, contatos e conselhos - essenciais para a realizao deste trabalho. Por isso, quero agradecer, primeiramente, a todos os entrevistados deste livro, em especial a Marcelo Pitta, fundamental para a existncia deste trabalho; a Maurcio Alves, por acreditar nesta obra antes mesmo do Roupa Nova; a Clever Pereira, por resgatar os bastidores da Rdio Cidade sempre que necessrio; a Valria Machado Colela, que abriu sua casa e arquivos com lindas recordaes; e a Juca Muller, por um caf demorado ao som do Acstico. Passei pelos bailes do subrbio carioca com Carlos Lincoln; toquei com Os Motokas de Marcio Antonucci; fui no embalo da Jovem Guarda com Erasmo Carlos; ouvi o Clube da Esquina com Bituca, Fernando Brant e Ronaldo Bastos; revisitei a MPB com Zizi Possi, Fagner e Claudia Telles; e entrei no clima das gravadoras com Mariozinho Rocha, Max Pierre, Moogie Canazio, Ricardo Moreira, Everson Dias e tantos outros citados no final deste livro. Muito obrigada!

Aos meus pais, Odenir e Silva Rita, pelos ensinamentos e canes, e  famlia mais coruja que eu poderia ter: tios Eduardo e Maina, que vibraram a cada conquista minha; Dindo Jnior, Tia Lcia e Lusa pelo apoio incondicional apesar da distncia; D, o msico de baile que desde criana eu acompanho e admiro de perto; ao carinho da famlia de Cataguases e a minha saudosa v, Yolanda, que adorava dizer para o mundo inteiro que tinha uma neta escritora.

A Jackie, Martinha e Joana, que, juntas a minha madrinha, me carregaram para muitos shows do Roupa Nova, e a Leilane Cozzi, pelo carinho e apoio beatlemanaco.

Aos amigos revisores: Fernanda Martins, Flvia Lopes, Ricardo Corra, Katja Aquino e Luciana Hervoso. A Isabela Alves, pela msica que existe em nossa amizade. A Joo Marcos Pereira, responsvel pelos primeiros contatos deste livro. A Andr Pereira, pelas conversas interminveis sobre livros e redes sociais, e a Ana Luiza, pela bela tarde em busca de autorizaes. A Marcela Alves e Alysson Auad, que, assim como eu, cantaram com o Roupa Nova, e a todos os meus amigos por respeitarem as minhas escolhas (e ausncias durante a produo deste livro).

Aos meus leitores preferidos: Aline Oliveira, Bia Smith e Vincius de Oliveira - que devoraram o original, com cerca de 800 pginas, e me ajudaram a deixar esta verso muito melhor!

Aos escritores Marco Eduardo Neves e Carlos Didier pelos toques preciosos. A Srgio Frana, da Record, pela ateno e interesse quando o trabalho ainda estava no incio, a Raissa Castro por apostar neste livro, a Alice Mello pelo respeito e cuidado na edio, e a toda equipe da BestSeller.

A Cora, pela mente quieta, a Rmulo Martins, pela espinha ereta (ou quase) depois de horas escrevendo, e a duas figuras em especial, que no s foram os primeiros a incentivar esse livro, como tambm aguentaram meus altos e baixos e me inspiraram durante todo processo: Patrcia Smith e Bruno Pereira. Vocs foram (e so) fundamentais para manter meu corao tranquilo. Obrigada.

A todos os fs do Roupa Nova, que nunca deixaro de ser os principais escritores desta histria.



APRESENTAO

Ao fundo do fim, de volta ao comeo

(De volta ao comeo)

- Voc consegue chegar aqui em uma hora?

No, eu no conseguiria. No tenho carro, moro longe, sou lenta para me arrumar e tinha acabado de acordar por ter virado a noite escrevendo. Mas aquela era a tpica situao em que eu nunca poderia dizer no. H oito meses eu havia, enfim, decidido parar com aquela coisa de emprego confortvel, salrio estvel e zero de paixo. E no seria naquele momento que eu iria arregar, no mesmo.

- Imprime sete cpias desse captulo pra mim?

Qualquer outro escritor iria dizer que eu estava maluca! Como assim levar um captulo que voc mal havia acabado de escrever para ser lido pelos prprios biografados? Pessoas que voc no havia nem conversado! Eu sei... No  algo aconselhvel. Mas eu precisava mostrar, pelo menos, um pedacinho do trabalho que eu estava fazendo at ento: mais de 30 pessoas entrevistadas, pesquisas em jornais, revistas e livros. E t, no era nem para eu j ter escrito um captulo! E como eu ia saber? Eu s queria fazer e, antes de qualquer coisa, mostrar para eles que eu tinha plenas condies de contar aquela histria.

Isso foi em maio de 2010, quando o empresrio Marcelo Pitta, aps vrias perguntas, trocas de e-mails e reunies, conseguiu marcar meu primeiro encontro com o Roupa Nova. Nessa poca, eu tambm j havia entrado em contato com as principais editoras do pas, embora no tivesse representante literrio ou conhecido no mercado. Oi, tudo bem? Estou escrevendo um livro do Roupa Nova. Posso te mandar o material?. O que eles no sabiam  que a banda ainda no havia aceitado fazer parte do trabalho. E mesmo assim eu fui colhendo dicas e abrindo possveis portas.

Cleberson foi o primeiro a aparecer no escritrio. Oi, tudo bem?, disse ele, enquanto o pessoal da produo me oferecia gua e uma cadeira para sentar. Nando foi o segundo. E de olhar desconfiado, srio, sentou-se do meu lado, como quem no quer nada, e do seu jeitinho passou a me encher de perguntas. Voc se formou onde?, Soube que voc falou com o Mariozinho, n? - e eu acho que no lugar dele teria feito a mesma coisa. Serginho e Kiko chegaram juntos, Feghali veio depois, seguido de Paulinho - e quando eu me dei conta estava sentada, exatamente, no meio dos seis msicos, calados, olhando para mim a espera que eu falasse.

- Ento...

Bom, eu no sei de onde vieram a coragem, a voz e as palavras, mas eu estava to segura do que queria que eu no pestanejei, no gaguejei e segui o meu discurso determinada a convenc-los daquele projeto. E cada um foi reagindo a seu modo, diante do papo daquela estranha que havia cismado em escrever sobre eles. Paulinho, mudo, apenas me olhava como se estivesse prestando ateno em cada letra. Serginho fazia anotaes em um papel, enquanto Kiko com um sorriso parecia curtir a ideia. Feghali e Nando falaram sobre o projeto deles prprios escreverem um livro, ao passo que Cleberson, sentado no cho, parecia interessado em entender mais sobre o assunto. E essas foram as minhas impresses sobre a cena - que poderiam estar todas erradas!

- Gente, o que ela t dizendo  que ela VAI escrever o livro sobre a gente! Cabe a ns decidir se vamos ou no participar!

Avisou Nando para os outros cinco em um tom mais exaltado, e eu j no sabia se aquilo era um bom ou mau sinal. Percebendo que alguns deles haviam acabado de descobrir, naquele exato instante, o motivo da tal reunio.

- E se a gente no topar? Outros j falaram que iriam escrever sobre a gente e no fizeram.

- Eu vou fazer do mesmo jeito.

Eu vou fazer.... Vai saber de onde veio aquela resposta abusada! Talvez porque fosse verdade... Eu j tinha me entregado quele trabalho; com fotos, discos e recortes espalhados por todos os cantos dos meus dias. Estava sem salrio fixo h sete meses, em paz por ter voltado a fazer o que eu mais amava: escrever - e, desta forma, eu iria at o fim! Nem que tivesse de colocar o livro de graa na internet para que outros pudessem ler. Eles no sabiam, mas ali era o meu desejo que estava  prova.

- Aqui ningum foi pra cadeia,  drogado ou gay! Sobre o que voc vai escrever?

- P, eu acho legal registrar a nossa carreira...

- E eu no quero que minha vida seja exposta assim.

Eles discutiam entre eles, comigo, com o empresrio, entre reaes controversas e indecises - tudo ao mesmo tempo. Dinmica nica e peculiar do Roupa Nova para se achar a resposta sobre o melhor caminho para a banda. Para ser sincera, eu entendia, de certa forma, aquela reao confusa de quem j tomou muita bordoada da imprensa, e, no fundo, eu sabia que apenas um encontro no seria o suficiente para ganhar a confiana deles. No entanto, eu no poderia deixar de tentar, e ainda dei o captulo escrito na mo de cada um deles! Uma atitude que tinha tudo para dar errado. Longos e apreensivos minutos de silncio, at ouvir Nando dizer: Voc falou tambm com o Clever Pereira e o pessoal da Rdio Cidade? Sim, eu falei.

Naquele dia, eu fui para casa, sem saber o que o Roupa Nova iria fazer. Sem ter a menor ideia se eles iriam participar do livro e um pouco triste por no ter essa certeza. Porm, apegada ao respeito que eu sempre tive por eles, e por confiar nos meus passos, eu segui adiante. Mergulhada em mais de quarenta livros, cem horas de udio de entrevistas, tapes antigos, LPs, CDs e DVDs; passando dias nas bibliotecas e nos acervos dos jornais; com a estrutura do livro colada nos chos e nas paredes.

Conversei com figuras como Milton Nascimento, Zizi Possi, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Erasmo Carlos, Fagner, Eduardo Souto Neto, Jane Duboc, Cludia Telles; empresrios e produtores como Juca Muller, Valria Machado Colela e Anelisa Cesrio Alvim, Miguel Plopschi, Max Pierre, Moogie Canazio, Ricardo Moreira, Michael Sullivan, Flavio Senna, Marcio Antonucci, Carlos Lincoln, Guto Graa Mello, Everson Dias, e tantos outros conhecidos da banda sem esconder a situao. O Roupa Nova? Ainda no se decidiu, sabe como ... Mas eu t fazendo. E eu vi que, assim como eu, existiam outras pessoas que os admiravam, e que, por isso mesmo, tambm queriam falar. Mostra o livro s quando estiver pronto! Vou ligar para eles para incentivar! Posso mandar para eles mais textos seus! At chegar a Maurcio Alves, amigo dos msicos e outro defensor dessa histria.

- O Paulinho quer falar com voc.

O primeiro Roupa a me abrir sua casa, fotos e lembranas, em novembro de 2010. Depois dele veio o Kiko, Feghali e aos poucos cada um foi entrando neste trabalho, no seu tempo e  sua maneira. E eu s tenho a agradec-los por me permitir.

- Estou falando por mim. No sei a opinio do grupo!

Eu pude ento ver, de perto, os homens, personagens das histrias, que mais de cinquenta pessoas haviam me contado anteriormente. Horas e horas de entrevistas, memrias, emoes, risadas e choros, que nunca mais sero esquecidas por mim. Seis caras de personalidade forte e que tinham tudo para acabar separados, como acontece com a maioria das bandas - se eles no fossem to determinados a brigar pela msica. Donos de uma histria nem to bonita, nem to feia quanto se pensa, mas real - com mais de 40 anos de luta e de estrada.

Escrever o livro do Roupa Nova foi me reencontrar, foi rever aquela garota que, nos anos 1980, passava as tardes na sala, com a vitrola tocando o baixo do Nando, a guitarra do Kiko, os teclados do Feghali e do Cleberson, a batera do Serginho e a voz do Paulinho. Com o disco na mo, decorando as letras, os rostos dos msicos e os nomes dos compositores daquelas canes. Tempos que me trazem saudade e que fazem parte do que eu sou hoje.

Eu fiz este trabalho por mim, pelas coisas que eu acredito e amo. E, depois de ter vivido uma banda to destemida como o Roupa Nova por trs anos intensos, a nica certeza que tenho  que eu no vou mais parar.



INTRODUO

...E NO ME CANSO DE VIVER, NEM DE CANTAR.

(Nos bailes da vida)

A minha nica escola de canto e msica foi a noite - a maior experincia de vida que eu tive. Foi o que aconteceu comigo e com muita gente. Voc tem que tocar todo tipo de msica que agrada o pblico! E no final, esse  o pessoal que mais sabe de interpretao, arranjos, afinao e vocais. Porm, no incio da dcada de 1980, eu percebi que existia um preconceito das pessoas em relao aos msicos de baile. No comigo! Talvez porque eu tenha aparecido em um festival de cano, sem ningum saber de onde eu tinha vindo. Mas com os outros? Era o tempo inteiro, principalmente no Rio de Janeiro e em So Paulo. Eu fiquei bastante chateado pela falta de respeito com o msico da noite. E isso foi me enchendo o saco at o dia que virou cano. Eu fiz a melodia, o meu parceiro, Fernando Brant, fez a letra, e saiu Nos bailes da vida.

Dias depois da msica pronta foi quando eu conheci o Roupa Nova. Eu viajei para Trs Pontas, minha cidade no Sul de Minas, e um amigo meu veio com uma fitinha e disse: Escuta isso aqui! Eu fiquei doido com a banda! S que ele no sabia nada sobre eles. E eu passei a tocar, ento, a tal fita K7 toda vez que estava com amigos, na esperana de algum reconhecer aquele pessoal. Foi quando eu ouvi Sapato velho em uma loja de discos e descobri, finalmente, a banda que tinha o mesmo nome de uma das minhas composies. Um grupo que, assim como eu, havia vindo dos bailes.

No perodo, eu estava fazendo o disco Caador de mim, com todas as coisas que eu gostaria de dizer como artista. E entre elas, estava a cano feita com o Fernando. No dava para ser diferente. Cada vez que eu ouvia a banda eu ficava mais fascinado. Eu ia gravar Nos bailes da vida e no teria sentido se no fosse com eles. Parece que foi tudo calculado.

 um pessoal que me deixa bem feliz, e eu gosto de tudo que eles fazem. A partir da ficamos muito amigos, e assim estamos at hoje.

Milton Nascimento



PARTE I

CARAS E TIPOS

Uma certa semelhana no jeito e na maneira de ser

1953-1977



CAPTULO 1

EM NOME DO PAI

Cleberson Horsth Vieira de Gouvea

Acontece aos montes pelos cartrios deste Brasil: o beb nasce, e os tios, as visitas e os amigos dos pais o chamam de Eustquio, Odenir, Aylton... Um pequeno ser, frgil e mirrado, com nomes to pomposos e fortes que alguma coisa parece estar fora de lugar. Soa inadequado, como se o nome fosse de outra pessoa! E, s vezes, . Nomes herdados de pais, avs, bisavs, trisavs e que s faro sentido depois que a criana cresce. Nome de velho, coisa de roa, tradio de famlia, alguns vo dizer. No   toa que Francisco acaba virando Chico, Chiquinho. Antnio? Tonico, Toninho... Artifcios provisrios para tornar tais ttulos propcios para minsculas pernas.

O que no era o caso de Boanerges Vieira, estudante do Gymnsio Evanglico de Alto Jequitib, respeitoso internato da Zona da Mata mineira s para meninos, na dcada de 1940. Pelo menos, o garoto no parecia ter esse tipo de problema por volta dos seus 16 anos, j com seus quase noventa quilos de msculos e um metro e noventa, to imponentes quanto seu nome. Um menino bravo, turro e que, apesar de catlico, transitava bem no colgio presbiteriano no distrito de Presidente Soares, conhecido atualmente por Alto Jequitib, com seus oito mil habitantes. Ali, pertinho de Manhumirim, Manhuau, sabe? A oeste do pico da Bandeira. Para onde muitos fazendeiros mandavam seus filhos ao chegar  idade ginasial - e onde Boanerges faria os quatro anos do ginsio e o curso de contabilidade, antes de voltar para a pequena Durand, a 39 quilmetros de Presidente Soares.

Ele era um garoto mais reservado e que no gostava de falar em pblico - embora engrossasse a voz e estufasse o peito quando algum lhe perguntava sua graa:

- Boanerges Vieira, pois no?

Deixando claro que ele, filho de seu Gumercindo Vieira e dona Elvira Cristina Vieira - tambm de grandes alcunhas -, era, desde cedo, dono de seu nome.



Foi em meados do sculo XIX que o desbravador francs Durand, em busca de riquezas, seguiu os rumos do rio Jos at chegar  regio de Manhuau (MG), como fizeram outros colonos suos, alemes e espanhis a partir da decadncia das minas de Ouro Preto e Mariana. L os estrangeiros encontraram terras frteis, audes e boas pastagens, se fixaram, criaram laos e transferiram seus nomes aos locais. De onde veio, ento, o aportuguesado Durand, que de povoado se tornaria distrito, alcanando o registro de cidade apenas em 1992.

Nos anos 1920, Durand devia ter por volta de cinco mil habitantes, com praticamente duas ruas em sua composio: a rua de cima, onde ficava a cadeia, e a de baixo, com a pracinha e a igreja. Onde se casaria Gumercindo, um mineiro baixo de um metro e sessenta, com Elvira, uma mineira alta e esbelta, como manda suas origens alems. Com ela, ele teria dez filhos (seis meninas e quatro meninos), e depois, ao se casar com outra mulher, mais outra penca deles.

Boanerges foi o quarto filho do casal, e teve a mesma educao que os demais: rgida. Se ele no andasse na linha, apanhava com bainha de faca ou cabresto de cavalo - o que tivesse mais  mo, sem d nem piedade. Um regime familiar em que a ao prevalecia sobre o dilogo - comportamento que Boanerges tambm incorporou em seu jeito de ser.

E foi assim, sem muitas palavras, que ele chegou em casa de mala e cuia, aps terminar o curso de contabilidade em Presidente Soares - diferente da maioria dos meninos, que depois de formados iam para capitais.

- Vou ficar.

Tudo por causa da fazenda, com muito verde, cachoeiras e pedaos a serem descobertos. Cho para se perder de vista! Boanerges queria ajudar seus pais a aproveitar melhor aquele terreno enorme e, por isso, consertaria a cerca da propriedade, pintaria o muro, construiria o alambique, a estrada e o que mais fosse preciso. Depois at abriria uma lojinha na cidade, onde venderia enxada, rao, arroz e outros produtos relacionados. Para ele, apaixonado por mato, a prosperidade estava na terra, como fora para os imigrantes em outros tempos.



No mercadinho, duas mulheres em p, encostadas no balcozinho de madeira, conversam enquanto descascam as cabeas de alho para levar para casa.

- C soube? O filho do seu Gumercindo t enrabichado com a menina do Ezequiel...

- Mentira... Qual delas? A Juracy?

- No, a Jandyra, lembra? De cabelo escuro, liso, cheio... Eu passei e tava ela pendurada no brao do Boanerges! Porque ela fica pendurada, n? Igualzinho mul de bolso. Ele todo grando e ela pequenininha...

- U... Mas ele no tava noivo daquela loruda, bonitona, l da igreja?

- Tava! C disse bem! No t mais! Parece que ela queria converter ele...

- Ele  catlico?

- Dizem que ! Eu no vejo ele na missa, no, mas...

- Uma coisa  no ir  missa, outra  virar evanglico, n?

- , menina... Dizem que ele ficou brabo com essa histria!

- Mas t srio memo o negcio com a Jandyra?

- Nem te conto! To falando at em casamento! Ouvi uma conversa da Antnia, me dela, sabe? O Ezequiel no vai deixar ela ficar s de namorico, no! Pelo menos essa  catlica.

- Nu! O dente de alho t escorregou da minha mo! Mas esse povo  rpido, hein?

- C que  lenta pra descascar esse troo! Vambora, anda!

E a vida segue em Durand.



- Cicy, minha menstruao t atrasada, t enjoando com um monte de cheiro, gosto...

- Ser, Jandyra?

O sorriso da irm como resposta mostrava uma certeza to natural e espontnea para Juracy que nenhum teste de gravidez poderia ter sido mais exato. Seria um menino, que nasceria meses depois do casamento de Jandyra com Boanerges, no dia 1o de fevereiro de 1950, no hospital de Manhumirim, a uns 31 quilmetros de Durand, onde s existiam as parteiras!

- Jandyra, c viu o nome do menino do tio Samuel? C podia colocar no seu filho tambm!

- Hum... Ser? No vai ficar estranho os dois primos com o mesmo nome, Cicy?

- Nada!  to bonito... - e fazendo um gesto imaginrio, como se tivesse passando a mo em um letreiro, ela continua - CLE-BER-SON. Pensa s!

-  verdade... Bonito mesmo! Vou falar com Boanerges pra registrar.

Assim ficou Cleberson Horsth Vieira de Gouvea na certido de nascimento da criana, branquinha e de cabelos escuros como os dos pais. Um nome pomposo, como deveria ter o filho de Boanerges - no futuro estampado em letreiros, psteres, revistas e, acima de tudo, discos.



Seu Gumercindo adorava ouvir uma viola caipira nas noites de Durand, com aquelas canes de versos to singelos contando o amor, o sofrer e a dor do homem da terra. Msicas que falavam do ranchinho que beirava o cho, da lua fazendo claro e o barulho da passarada no meio do mato.*

J seu filho, Boanerges, era curioso. Gostava de tentar, de experimentar cada instrumento. Precisava trabalhar e no tinha muito tempo para aprender, mas, mesmo sem professor, sozinho ia tateando por acordes, ritmos e harmonias, se deliciando com as quase canes que conseguia. Era completamente apaixonado por msica e, apesar de seu jeito mais grosseiro e srio, mostrava seu romantismo e poesia ao se interessar por msicas de Carlos Galhardo ou pelos boleros de Gregorio Barrios. Comprou um cavaquinho, um pandeiro, um violo e aprendeu tudo sozinho! E tinha o acordeom como seu instrumento favorito. Ah, era to bonito ouvir o mineiro Antengenes Silva levando a valsa Saudades de Mato ou Saudades de Ouro Preto, que qualquer coisa que ele conseguisse chegar perto disso estaria valendo.

L no cu, junto a Deus
 Em silncio minha alma descansa
 E na terra, todos cantam
 Eu lamento minha desventura desta pobre dor

Soava o acordeom de Boanerges pela casa no incio das noites, ao voltar de um dia cansativo de roa. Ele, em seu quarto, sentado na cama, com as janelas fechadas, sem intromisses da mulher, de Cleberson ou da filha, a mais recente integrante da famlia, Celeste Ada - loirinha de olhos verdes, de pele to clara quanto a de sua v Elvira. Reservado em seu mundo musical, pessoal e interior, ele ficava horas. E Jandyra de vez em quando cantarolava baixinho seus versos, enquanto passava um caf na cozinha, deixando as crianas deitadas na cama, como se as canes caipiras fossem verdadeiras canes de ninar.



- Pai, eu quero.

- Tocar?

- Aham... - disse Cleberson, aos 3 anos de idade, balanando a cabea, antes de Boanerges passar a mo em sua cintura trazendo o filho para mais perto.

O acordeom do pai era quase um objeto encantado aos olhos da criana, que o abria e fechava mexendo o fole, com botes pretinhos na mo esquerda e teclados branquinhos na direita e que ainda fazia barulho! Incrvel para o menino... Um verdadeiro brinquedo e nada mais.



Depois que Celeste nasceu, Boanerges resolveu se afastar de Durand com a famlia:

- Jandyra, vamos pra So Joo do Manhuau. No t dando para crescer mais nessa terra.

Embora ele fosse apaixonado pela roa, ela j no dava o sustento necessrio para os seus. Era preciso sair, levando apenas a saudade daquela terra querida, com todo seu ser e sua vaidade.** Porm, apesar de maior, So Joo do Manhuau tambm no deu certo, e em 1954 ele se rende ao que havia negado desde a sua sada do internato: atuar como contador na cidade grande - cimentada, sem tanto verde ou cachoeiras, mas de outras riquezas. Assim, Boanerges, ciente de que essa mudana no seria fcil, parte com sua famlia para o Rio de Janeiro.



- Puta que o pariu!

E a porta sendo batida com toda fora no pequeno apartamento do Centro do Rio de Janeiro indicava que Boanerges havia chegado.

- Que  que foi? - saiu em sua direo Jandyra, agoniada, ao que Boanerges muito nervoso e em tom mais alto continuava:

- Eles me aceitaram na companhia de aviao, mas como assistente de contador! Auxiliar, c acredita? Vou ganhar bem menos do que eu imaginava. Falaram que eu precisava do diploma registrado em cartrio. E eu ia saber?

- Mas no d pra fazer isso agora?

- No, no, o prazo acabou pra isso. O problema  meu!

- E c vai fazer o qu?

- Ficar l, u! Tem outro jeito, Jandyra?

Realmente no tinha, e essa seria a mgoa eterna de Boanerges ao sair de Durand. Por mais que ele soubesse tudo e fosse excelente em sua profisso, nunca poderia ter em sua carteira de trabalho o carimbo de contador. Muito menos ter um escritrio prprio, como imaginara. No como auxiliar.



Boanerges carregava Cleberson desde pequeno para onde fosse. Era seu fiel pequeno escudeiro, que ia junto para ver os bichos, as peas dos equipamentos e as plantaes quando estava na roa. Mas quando foram para o Rio de Janeiro, o principal programa dos dois passou a ser outro: assistir aos jogos do Fluminense. Boanerges no perguntava. Simplesmente pegava a criana pela mo e avisava, j da porta:

- Jandyra, tmo saindo!

J com Cleberson todo paramentado, de bandeira em punho, com a blusa tricolor e o calo branco, como se fosse um dos jogadores. A partida podia ser l no alto do morro do caixa-prego, onde o Judas perdeu as botas, que l estariam os dois. Pegavam nibus, trem e iam at para os jogos vazios, debaixo de chuva. Maracan, Campo Grande, Moa Bonita tanto fazia! O amor pelo Fluzo era maior que isso, por mais que o menino no enxergasse a bola l da arquibancada.

- Pai, cad a bola?

- Ali!

- Hum... Onde pai?

- , que saco. Ali, Cleberson. V o jogo!

- Mas cad a bola?

- Cleberson...

-  pai, eu no t...

- Gooooooooooool!!!!!

Boanerges abraava o menino e o jogava para o alto, como se tivesse conquistado a Copa do Mundo. Era sempre assim quando o Fluminense marcava. E Cleberson ria nos braos do pai, j nem se lembrando mais da bola. Aquele objeto redondo, na poca, era da cor de tijolo e sumia aos olhos da criana, com 5 anos de idade e precoces sinais de miopia. De modo que aos 7 anos, apesar de contrariado, Cleberson passaria a usar os culos para corrigir os altos graus. E ficaria com eles at depois de adulto, assim como continuaria partidrio de Juscelino Kubitschek, como seu pai, antiflamenguista e tricolor. Na verdade, nunca existiu outra opo.



- Toma aqui, Cleberson.

- Hein?

- Segura, filho. Pro c estudar!

O menino ainda tinha 5 anos de idade quando seu pai jogou em cima dele, pela primeira vez, aquele trambolho. Um acordeom pequeno e bonito, feito para o seu tamanho, mas ainda assim um trambolho. Tpico de Boanerges, que no perguntava, no avisava, fazia.

- Conversei com uma dona perto daqui de casa e c vai ter aula. Comea na segunda, viu? Segura esse troo direito! - disse Boanerges arrumando o acordeom nos ombros do filho, olhando satisfeito como se estivesse vendo uma bela pintura.

Sorriu de um canto a outro da orelha ao colocar o instrumento na posio correta, e saiu da sala deixando o garoto parado, abraando o acordeom, um pouco assustado ao receber aquela misso. Sem a menor vontade de estudar msica, em p, rodeado por aventuras e belas histrias espalhadas pelo cho.

- Mas... - disse ele baixinho, antes de dar um suspiro profundo, ao se perceber sozinho. Olhando com pesar para os desenhos do Mickey, Super-Homem, Cavaleiro Negro e Capito Marvel, para depois, lentamente, seguir para o seu quarto com a nova aquisio.



O acordeom foi inventado, de acordo com alguns historiadores, pelo alemo Friedrich Buschmann em 1822, chegando ao Brasil apenas em 1836, com os imigrantes alemes no Rio Grande do Sul. Um instrumento de vento, fole e botes, tendo, s vezes, registros como o de um teclado de dois ou trs oitavas de extenso, praticamente, vestindo o msico que o executa. Tem alas para colocar os braos e, para toc-lo, pode-se dizer que  preciso envolver o instrumento com seu corpo, tornando-se tambm um pouco parte dele.

O primeiro ano de aprendizado de acordeom de Cleberson poderia ter sido o ltimo, no fosse a insistncia de Boanerges com as aulas. A negligncia involuntria do menino em decorar as msicas em vez de ler partituras era demais para a pacincia da professora.

- Esconde o acordeom, Boanerges! Ele t decorando as canes em casa. Eu crente que ele t lendo as notas e ele t tocando de ouvido!

O pai, na tentativa de manter o ensino, passou a esconder o acordeom em cima do guarda-roupa. E o menino s poderia tocar o instrumento durante as aulas, o que era muito ruim para o seu desenvolvimento como acordeonista. Onde j se viu um bom msico que no treina? E assim se passariam dois anos sem muitos avanos musicais, at Boanerges encontrar uma nova professora: dona Glria. Uma mulher com a firmeza necessria aos olhos do mineiro para ensinar seu filho a ler partitura, tocar e, quem sabe, compor? Diferente dele, o menino teria condies adequadas para aprender acordeom, conhecendo primeiro as escalas, depois os arpejos, para aos 9 e 10 anos ter habilidade para os clssicos. Um encontro que seria promovido por Boanerges por causa do acordeom, mas que serviria no futuro como base fundamental para outro instrumento.



Cleberson era calado. Tmido desde novinho, no costumava compartilhar suas impresses ou sentimentos sobre as coisas e vivia fechado em seu mundinho, seja brincando, lendo, vendo televiso, ou tentando tocar o tal do acordeom. Treinava em seu quarto, fechado, assim como seu pai fazia em Durand, sem aceitar qualquer tipo de interferncia. No gostava de ser interrompido, muito menos julgado pelos erros que poderia cometer durante seu aprendizado. E, se pudesse, lacrava o cmodo para ningum ouvir seus estudos. S ele sabia o quo irritante era ouvir algum na rua assobiando o que havia acabado de tocar. Ainda mais assobiando o trecho que ele havia errado! Era como se estivesse sendo vigiado, assistido o tempo inteiro.

- Vai assobiar na casa do caramba! Vai encarnar na sua av! - gritava ele pela janela, tentando expulsar qualquer intruso ou mero observador dos seus avanos ou dificuldades com o acordeom.

Em um desses dias, at experimentou deixar a janela aberta por causa do calor, mas no teve muita sorte com um de seus tios.

- , Cleberson! Voc sabia que o bom msico toca baixinho? Toca pra si mesmo? No fica a tocando alto para as pessoas ouvirem.

BAM! Janela fechada.

Exigente consigo mesmo, o menino nunca foi de se perdoar por seus erros. E at depois de mais velho iria se penalizar por tocar um acorde errado, por mais que ningum percebesse. S que ali, em seu quarto com o acordeom, a situao era um pouco mais delicada. Ningum poderia zombar ou se meter naquela relao que j era difcil.



Nas aulas da 4a srie, os estudantes apresentavam os desenhos que haviam feito em casa. E Glria, uma coleguinha de classe de Cleberson, apesar dos 13 anos, vinha com uns desenhos maravilhosos para a professora. Como isso poderia ser possvel?

-  meu pai que faz esses desenhos, Cleberson. Ele trabalha com isso.

- Seu pai?

- , u. Ele  desenhista.

- Srio? P, Glria, eu tenho que estudar com seu pai! Ele tem que me dar aula!

- Mas ele no d aula, no!

- Ah, mas vai ter que dar... Fala com ele, vai. Fala!

- Depois, Cleberson. - disse a menina, se afastando do garoto, j achando que tinha falado demais.

Glria no comentaria nada com o pai, no. Imagina se seu pai ia parar para dar aula a seu colega de classe? Mas Cleberson, que sonhava em ser desenhista profissional de histria em quadrinhos quando crescesse, no se esqueceu do fato. E todo dia antes de comear as aulas perguntava, debruado em sua carteira, ansioso:

- E a? Falou? Falou? O que ele disse?

At venc-la finalmente, pelo cansao, e alcanar sua meta: seu Alarico!

- Copia de fotografia e no do desenho de algum - dizia o pai de Glria, em uma das aulas para Cleberson.

Ele no costumava ensinar desenho, mas depois de conversar com a filha decidiu passar algumas dicas para o menino, que transbordava vontade de aprender.

- Mas  mais fcil comear copiando algum, no?

- Certamente esse algum j cometeu um erro. O ser humano no  perfeito. Se voc copia o quadrinho de um desenhista que cometeu um errinho, voc aprimora aquele erro, entendeu?  melhor pegar o natural, o real. Se o nariz do cara  torto,  porque  torto mesmo.

Cleberson no respirava enquanto ouvia seu Alarico. Apenas imaginando o que ele poderia desenhar, treinar, sem usar suas revistinhas queridas e desgastadas, cheias de heris.



L pelos 14 anos, Cleberson j pegava com facilidade as partituras mais brabas, como diria ele. Afinal, os estudos se mantiveram constantes, assim como as cobranas de seu pai.

Ele sabia tocar tudo quanto  tipo de msica, inclusive as eruditas, impostas por sua professora. E acabava decorando muitas delas, como preldios de Chopin ou a famosa Rapsdia Hngara nmero 2, de Franz Liszt, com suas mais de dez pginas. No entanto, o que seu pai pedia mesmo era para ele tocar as canes mais populares nas rodas de violo que fazia em casa, nos domingos - com ele no pandeiro, seu Paranhos no violo, e outros amigos tocando.

Dentro daquele machismo mineiro e tradicional, Boanerges era um romntico inveterado e gostava de puxar os sambas-cano da poca cantados por ngela Maria, Cauby Peixoto e Nelson Gonalves.

Paranhos ligava seu violo de sete cordas  sua caixinha de som e intrigava o menino por tocar to bem, apesar de no ter o polegar. A cerveja rolava entre os adultos, embora seu pai misturasse cerveja com guaran para diminuir o amargo da bebida. Uma prtica que Cleberson, proibido de encostar a boca em qualquer copo com lcool, adotaria apenas aos 19, 20 anos. E o papo mais a msica corriam soltos, com o garoto tocando e ainda dando cola para os marmanjos:

- R maior! Primeira de f, segunda de d...

Deixando Boanerges inchado de orgulho ao ver o menino to desenvolto com a msica e seu acordeom. No tinha alegria maior para ele do que estar com seus amigos, acompanhado de seu filho, tocando canes que lhe enchiam a alma. E toda semana era a mesma coisa.

Nas primeiras rodas, Cleberson at tentou fugir, pensando em aproveitar o final de semana jogando bola, desenhando ou soltando pipa. E combinava com Jandyra antes de comear:

- Me, quando der uns quinze minutos, a senhora entra e diz bem alto, pra todo mundo ouvir, que os meus amigos esto me esperando pro cinema. A eu tenho um libi pra cair fora.

Ela entendia o lado do menino e cumpria o combinado:

- Filho, seus amigos...

- Pode deixar, me! Fala que eu no vou mais, no. Fica pra domingo que vem!

Deixando Jandyra com a cara de tacho, sem entender nada, parada na porta da sala.

Nunca foi inteno de Cleberson ficar, porm era divertido demais ouvir as besteiras ditas pelos mais velhos. Uma galhofa contagiante! Por isso, no adiantava combinar todo domingo com a sua me o mesmo esquema, na esperana de que conseguiria se safar. Toda vez que ela entrava com o falso recado, ele j estava curtindo a farra. Fazer o qu?

Essa novela continuou por alguns domingos, com vrios cinemas perdidos. At o dia em que Jandyra caiu na real e parou de acreditar no menino.



- Meu filho, eu sei que seu pai  apaixonado pelo acordeom. E acho que voc deve continuar. Mas instrumento completo  o piano! Voc deveria tentar.

- Dona Glria, eu odeio piano! No gosto desse negcio. Pode tirar o cavalinho da chuva!

Glria era professora de piano, e ensinava acordeom por uma questo de sobrevivncia - j que o piano era considerado instrumento para rico. Mas ela via potencial em Cleberson como pianista e insistia com o menino, apesar das frases curtas e grossas de resposta.

- Bom, t indo, viu? - dizia ele levantando da cadeira, indo diretamente para a porta, j girando a chave na fechadura quando ouvia a palavra piano.

Ela ainda tentava segurar o menino:

- Mas Cleberson, eu quis dizer...

- Depois a gente conversa, professora. Tchau!

Batendo a porta e seguindo a passos largos pela calada, balbuciando baixinho: Que coisa chata! V se me deixa, caramba. Chutando pedrinhas no caminho para bem longe dali.



Jandyra esperou Boanerges acabar de comer para fazer seu anncio enquanto tirava a mesa, como se dissesse Acabou o feijo, e assim, quem sabe, no provocar tanto rebulio:

- Estou frequentando os cultos evanglicos.

No entanto, a fria do mineiro quanto  deciso da mulher atropelou qualquer calmaria.

- Hein? Voc est de sacanagem com a minha cara, n?

- No, Boanerges. Aconteceu.

- Aconteceu? Jandyra, c sabe que foi por causa disso que eu terminei um noivado, n? - disse ele, muito bravo, levantando da cadeira com as mos na cintura.

S que Jandyra estava decidida e no teria volta. Nem sua mente, nem sua f, aceitavam mais a religio catlica. Motivo de brigas entre os dois pela vida inteira. No incio, ele argumentaria com a esperana de convenc-la a deixar o evangelismo. Depois seus gritos seriam ouvidos apenas como defesa da prole:

- S no vai levar meus filhos! Nem trazer ningum aqui em casa pra fazer culto!

Enraizado em suas crenas, Boanerges abusaria de sua autoridade masculina para impedir a converso da prole. Discursou, proibiu e obrigou as crianas a fazerem comunho, sem nunca desconfiar que os dois eram levados escondidos pela av, desde novos, aos cultos evanglicos. Ele tentou, no se pode negar. Porm o tempo, ah, o famigerado tempo... Traria aos filhos os amigos, outras vivncias, outras cabeas e conhecimentos. E nem ele, por mais que fosse o pai, poderia impedir no futuro que Cleberson e Celeste, j adultos, tambm se convertessem.



O riff marcante da guitarra em mi tomou a sala da casa de Cleberson naquele dia de 1966. O rdio estreo de madeira da Philips que Boanerges conseguira comprar vivia ligado, e o garoto, impressionado com a qualidade do som, no saa do meio dos dois alto-falantes. A introduo da msica era um rock danante, com os 12 compassos tpicos do blues, e tomava as percepes do menino, embora ele no entendesse bulhufas das palavras que vieram em seguida.

A cano, lanada no lado B do compacto com We Can Work It Out, era de um grupo que Cleberson nunca ouvira falar. Um tal de Beatles, que dizia mais ou menos assim:

Got a good reason
 For taking the easy way out
 Got a good reason
 For taking the easy way out now
 She was a day tripper

O acordeom lhe apresentou a msica, mas o rdio lhe trazia sons antes nunca experimentados nas aulas de dona Glria. Aquilo sim era demais! To bom quanto passar a tarde inteira desenhando ou com seus quadrinhos. Ele s tinha 16 anos quando fez aquela descoberta solitria, livre e pessoal de sentidos. Sem seu pai, sua professora, sem ningum. E ali petrificado, focado, tentando absorver todas as pausas do instrumento, a batida e as retomadas do rock pulsante, decidiu o que queria fazer da vida: ser guitarrista!



Comprar uma guitarra estava fora do alcance financeiro de Cleberson, mas isso no seria um problema. Elegeu o violo como opo para arriscar seus primeiros acordes e pediu o instrumento do tio Ivanho emprestado. No iria trocar o acordeom pelo violo logo de cara, mas se sentia adulto o suficiente para no cumprir as quase duas horas por dia de aprendizado impostas por seu pai. Iria equilibrar os dois estudos de acordo com seu tempo e, ademais, o pai tambm adorava o som de violo e poderia curtir essa sua nova fase musical.

O menino no tinha a menor ideia por onde comear sua relao com o violo, mas queria tanto aprender o instrumento que, mesmo sem professor, deu um jeito. Observava outras pessoas tocando, se concentrava ao ouvir canes de que gostava e depois partia para cima das cordas tentando traduzir aqueles sons em acordes. Dessa vez, o fazia sem tanto isolamento como acontecia com o acordeom ou qualquer tipo de exigncia externa. Chegava a sentar na porta de casa para brincar com o violo e tirar algumas msicas de ouvido. Talvez porque, nesse caso, ele era o maior interessado em aprender o instrumento! Mais tarde, at tentaria entrar na escola de msica Villa Lobos para estudar violo clssico, s deixando esse plano de lado por causa de pr-requisitos como tocar uma ria*** de Villa Lobos. Algo que ele no tinha a menor ideia sobre o que se tratava.

Levando ento a msica, aos poucos, para dentro de casa, foi amadurecendo despretensiosamente seu interesse por aquela arte - deixando cada vez mais o acordeom e se apegando ao violo. Tudo isso sem aborrecimentos com Boanerges, que nem percebia o que estava ocorrendo debaixo de seu teto. Se em alguns momentos Cleberson arranhava uma cano dos Beatles ou outro rock que escutara no rdio, em outros se aventurava por uma valsa dessas de Dilermando Reis - violonista brasileiro, professor da filha de Juscelino Kubitschek e compositor de belezuras como Saudade de um dia ou o choro Magoado. S para deixar seu pai feliz.



Paulo Rollo morava na Vila da Penha, tinha cabelo comprido, trabalhava srio e, nas horas vagas, tocava guitarra base. No se sabe como o encontro se deu, mas de alguma maneira Paulo conheceu Cleberson, que morava no Centro, ainda no trabalhava e, apesar de se virar no violo, por ora queria ser desenhista. Ouviu de um conhecido, que ouviu de um amigo, que o menino mandava bem nas harmonias e achou esse fato relevante o suficiente para conhec-lo.

- Vem c, no quer tirar umas msicas para mim, no?

E passou a primeira tarefa para o garoto de 17 anos, que no sabia os nomes dos acordes, no conhecia a msica e, acima de tudo, no queria passar vergonha. A cano era Superbacana, lanada naquele ano de 1967, no segundo disco de Caetano Veloso. Um desafio que Cleberson deu seu jeito para tocar em poucos dias no violo. Paulo gostou, viu no menino tino para a coisa e achou essa intuio forte o bastante para pedir outras msicas, se aproximar e dar incio a uma amizade.

At que, um dia, Cleberson conheceu a Supersonic de Paulo, uma guitarra da Giannini que era o sonho de qualquer esboo de msico. E se apaixonou, ficou louco com a possibilidade de toc-la, partindo para cima do instrumento com tudo!

Segurou, passou a mo como se fizesse carinho, admirando suas formas e cor. E quase caiu para trs ao ouvir o amigo, generosamente, dizer:

- Fica a com voc.

Paulo Rollo: o msico que apresentou, oficialmente, a guitarra para Cleberson, facilitou o contato, e torceu por essa relao. Um grande incentivador da entrada desse pr-guitarrista na rotina de bandas. O nico amigo, dos que quiseram namorar Celeste Ada, que o menino no botaria para correr.



- P, voc tem uma guitarra? Eu tenho uma bateria. Vamos fazer uma banda?

Fernando Portugus, como era conhecido pelos meninos no Centro, tinha uma caixa, que se juntou com o bumbo e o tambor de Marcio, outro amigo, formando o que ele chamava de bateria. Marcio assumiria a guitarra base; Cleberson, os solos na sua Supersonic; Pedro, o baixo; e Mafra, que no tinha instrumento algum, os vocais. Essa era a formao de Os UFOS, que se apresentaram, no mximo, no Clube Dom Orione, nos fundos de uma escola em Santa Teresa.

O conjunto era uma brincadeira, mas nem por isso Cleberson fazia por menos. Queria tocar, principalmente, todas as msicas dos Beatles e dos Rolling Stones de maneira precisa. Treinava todos os dias com sua guitarra e pedia o mesmo comprometimento musical dos outros componentes. Vamos dizer que ele era o cri-cri da banda, que implicava se uma nota estivesse fora do lugar embora seu objetivo no fosse fazer show ou ganhar dinheiro. O barato do filho de seu Boanerges era: se vai tocar, que toque ento direito!

- Marcio, no tem essa dissonante! Isso no  bossa nova, caramba! - insistia o menino irritado, sem pacincia para qualquer cano que no fosse rock n roll.

Algumas msicas como a abertura da srie de TV do Batman, passavam pelo crivo de Cleberson. Agora, aquela coisinha baixinha, miudinha, cantada ao p de orelha?



Bus stop, wet day, shes there, I say/ Please share my umbrella,**** tocava na rdio a msica do The Hollies, enquanto os integrante dos UFOS compravam um sanduche na lanchonete. Era intervalo do ensaio da banda e estava todo mundo morrendo de fome.

- Ih, que engraado! Essa msica  em l menor e a gente toca em si bemol! - disse Cleberson para Pedro, pagando o lanche, sem dar qualquer importncia para isso.

- Aham... T querendo aparecer, n? No t nem com o instrumento na mo pra saber!

- Bicho, eu no sei te explicar como sei isso, no. Mas  l menor.

Pedro engoliu quieto aquele momento de sabedoria do guitarrista e esperou voltar para o ensaio para ir  desforra. Foi direto para o baixo conferir o tom da msica j pronto para retrucar. O problema  que a msica estava, realmente, em l menor.



Cleberson adorava ir para a rua com o violo a tiracolo, como todos os meninos daquela poca que sonhavam em ser astros do rock, famosos e rodeados por garotas. Bastava saber dar um r maior vagabundo com a palheta para se chamar de msico e, por que no, fazer rodinhas de violo. s vezes, sem guardar nomes ou pegar contatos dos participantes, eles se encontravam, tocavam, riam e seguiam para a casa no final do dia. Cleberson passava horas, por exemplo, perto da portaria de seu prdio se enturmando com todo mundo que gostasse de msica. Tinha inclusive um menino, do Catumbi, que volta e meia passava por l. Sempre muito arrumadinho, cheio de pose e presena e que tinha o apelido de Paulinho Bibel, mas com um vozeiro que os pretensos msicos adoravam!

Um tal de Paulo Csar que, para Cleberson, era apenas mais um garoto que, como ele, amava os Beatles e os Rolling Stones.



- Esse menino vai ficar doente, Jandyra! No t vendo?

Boanerges no tinha nem coragem de insistir com o acordeom tamanha era a fome de seu filho pela guitarra. Ele passava quatro horas do seu dia com o instrumento, e as outras quatro desenhando, sobrando pouca coisa para a escola, a comida e o sono. Qualquer pai j estaria preocupado com aquela rotina maluca e incessante do menino, principalmente depois da tal banda Os UFOS. Imagine ento a reao de Boanerges ao abrir a porta de casa e encontrar os pais de Marcio, que fazia a guitarra base da banda, querendo conversar.

- Seu filho pediu para sair dos UFOS, soube? Parece que ele se irritou com os meninos. Algo assim! No deixa ele sair, no... Ele toca to bem! J conversamos com os garotos e...

- Olha aqui: ningum veio me pedir pro meu filho entrar no conjunto! Agora ningum venha me pedir pra ele no sair!

- Mas Boanerges...

- Mas nada. O problema  de vocs. Vou dormir porque acordo cedo amanh. Boa noite!

E dizendo isso fechou a porta e se recolheu. Sem mais palavras.



Cleberson, depois de sair dos UFOS e resoluto em ser desenhista, passou a copiar as coisas que via pela frente. Tentaria, inclusive, buscar uma orientao em escolas especializadas, embora no tivesse muitas opes na poca. Bateu at na Escola Superior de Desenho Industrial, s que eles no tinham professor de desenho artstico. Pensou tambm em fazer Pintura ou Arquitetura por conta das formas e cores, mas no final resolveu continuar apenas com suas tentativas isoladas de desenhista, considerando as dicas de Alarico.

Numa dessas, pegou um copo na cozinha de casa e colocou em cima da mesa, decidido a tentar desenhar o mesmo objeto vrias vezes. Fez um trao, apagou, refez, olhou de novo para o copo, desenhou uma pequena curva e fechou o primeiro desenho. Depois partiu para o segundo, terceiro e quarto copos, cada um em uma folha. Apenas olhando para o copo e o desenho anterior que acabara de fazer, tentando deix-lo exatamente igual, com a mesma altura e tamanho. Como se pudesse virar um desenho animado com o folhear das pginas.

Tentou vrias vezes. Passou, praticamente, a tarde inteira desenhando e se avaliando. Mas por fim, frustrado e cheio de inseguranas, apenas levantou da cadeira, impaciente.

- Saco! No tem jeito. Desenhista nasce pronto.

Quebrou o lpis, jogou a borracha fora e preferiu no se decepcionar mais.



O acordeom ficou de lado e no houve qualquer comunicado em casa sobre isso. Cleberson apenas agiu, como faria seu pai: avisou dona Glria e parou de ir s aulas. No deu justificativas para Boanerges, que tinha perdido as esperanas quanto ao interesse do filho pelo instrumento e at pela msica, j que Cleberson parecia no procurar mais bandas para fazer parte.

S que Guaracy e Toninho, amigos do menino, precisaram de um guitarrista para a banda deles. E Cleberson, aos 18 anos, sem mais expectativas de ser desenhista, topou participar do The Watts, que fazia muitos bailes no Centro da cidade: com o repertrio de rock internacional e algumas pinceladas de Jovem Guarda, grana curta e rotina pesada.

Sem carro e dinheiro no bolso, ele passava na casa de um dos integrantes para desmontar o equipamento, colocar na kombi e levar para o clube. Ao chegar l, junto com o resto da banda, montava tudo, acertava a luz negra, ensaiava e voltava para casa. Tomava banho, retornava de nibus para o lugar, fazia o baile, esperava o pblico ir embora, desmontava o equipamento e colocava na kombi. Pegava o nibus, ia para a casa de um dos garotos e montava o equipamento para o ensaio do dia seguinte. E, ainda estudante, chegava toda segunda-feira na aula e se direcionava para o fundo da sala onde, na cara dura, apagava, solenemente.



O grupo The Watts estava na rdio Tupi para gravar algumas coisas quando Cleberson encontrou Clio, maestro de So Gonalo. E enquanto os detalhes da gravao estavam sendo decididos, ficou conversando com ele e ouvindo as msicas que estavam no ar.

- O fagote dessa msica...

- Pra, Cleberson. Como  que voc sabe disso?

- U, maestro, t ouvindo!

- Mas voc estudou?

- No!

- Ento devia! Por que no tenta ser maestro? Voc t conseguindo diferenciar os timbres, sabe o nome de tudo e...

- No, no... De jeito nenhum! Desculpa maestro, mas eu quero  ser guitarrista - disse o menino, voltando a falar sobre o fagote daquela cano, o obo, a trompa...



Guaracy assumia o baixo da banda; Toninho, a bateria; Csar, a guitarra base; e Cleberson, a solo. No entanto, nenhum deles tinha carteira de msico para tocar nos bailes - assim como a maioria dos outros integrantes de conjuntos da poca. S que vai dizer isso para o fiscal da Ordem dos Msicos?

- Multa de Cr$ 110!

O homem, com bloquinho e caneta na mo, apareceu na hora do intervalo para confirmar se eles tinham o tal documento que permitia as apresentaes em pblico. E desesperou os garotos que no sabiam onde arrumar aquele dinheiro.

- Mas a gente recebe Cr$ 100 pelo baile.  mais alto que o nosso preo!

O fiscal devia ouvir isso com frequncia e poderia ter agido como qualquer outro fiscal, sustentando sua deciso. Porm, naquele dia, estava de bom humor e, um pouco comovido pelo apelo da garotada ao seu redor, resolveu arregar:

- Tudo bem, vou liberar. Com uma condio: todos tm que fazer a prova da Ordem!

No precisou nem falar duas vezes! Manda quem pode, obedece quem precisa tocar. Cleberson, que era o nico dos quatro que havia estudado msica por causa do acordeom, deu umas aulinhas para os outros e foi todo mundo fazer a prova. O teste no era nada aprofundado e, sim, apenas um atestado de que o msico tinha noo de clave de sol, clave de f, notas musicais, essas coisas. E cada um dos integrantes do The Watts se preparou em seu instrumento. No entanto, Cleberson, para ter o mnimo de problema, levaria tambm o acordeom - que era o seu porto seguro, instrumento em que ele tocava qualquer cano com segurana. Comeo com violo. Depois troco e toco Brasileirinho, Tico-tico no fub e Granada, meu carro-chefe. No tem erro!, arquitetava em sua mente em silncio, na sala de espera da sede da Ordem.

- Cleberson Horsth!

O menino tinha treinado uma msica difcil do The Pops para j impressionar na abertura de sua apresentao. Mas, na hora de tocar, a cravelha deu um estalo e quebrou. Ele rodava, rodava a pea do violo, s que nada acontecia. E o instrumento no estava to afinado assim. Desesperado com o imprevisto, ele saiu correndo da sala e pegou o violo emprestado de um dos garotos que tambm estavam l - sem saber que o instrumento estava afinado meio tom abaixo. Voltou com o violo novo, sentou, deu uma respirada para acalmar e meteu brasa. No entanto...

- Meu filho, o que  isso?

- Hein? No, pra...

- Voc toca mal demais, meu filho! O que voc t tentando fazer?

E o menino muito nervoso tentava fazer a introduo da msica, novamente. Mas a nica coisa que se ouviam eram rudos estranhos e sem harmonia. Tocou uma, duas, trs vezes, e quanto mais tentava pior ficava.

- Eu no sei o que t acontecendo, juro!

- Desiste, Cleberson.

- Calma! O f estava aqui e sumiu! Eu j vou achar...

- Chega. Isso no vai levar a lugar nenhum. Zero!

Aquilo foi um balde de gua fria para Cleberson, que s pensava Putz... Nunca vou ser guitarrista na minha vida. Ele no sabia nem explicar o que tinha acontecido. Cad a msica que tinha ensaiado tanto? E j estava quase se esquecendo da prova, cabisbaixo, quando percebeu o acordeom perto de sua cadeira. Seus olhos brilharam, e ele rapidamente se abaixou para pegar o instrumento. Aquela seria a ltima chance de ainda salvar alguma coisa. A avaliadora ainda estava fazendo suas anotaes no papel, pensando no que aquele garoto estava fazendo ali, quando Cleberson colocou o acordeom no colo, prestes a comear Granada. Ele nem ia dar tempo dela mand-lo embora da sala, mas ao tocar a primeira nota da cano ouviu sua voz, seca, pausada e direta:

- Quem mandou pegar essa geringona? Eu mandei pegar alguma coisa?



Putz grila... Geringona,  mole?, pensava Cleberson ao pegar a guitarra para ensaiar no dia seguinte. Ele havia sido aprovado no teste, apesar de tudo, mas aquele preconceito com o acordeom era um negcio que incomodava. Estava to longe com seus sentimentos e reflexes, na sala com os outros integrantes, que nem reparou na notcia que Srgio trouxe. Precisou ser cutucado para acordar:

- P, rap! Consegui vender um baile bem caro! Legal pra caramba!

Jos Srgio da Cruz Carqueja, ou Srgio Bruxa, Srgio Nariz ou qualquer outra alcunha. Ele era o entendedor de msica, aquele que no sabia tocar nada, mas bom para dizer se faltava um grave no som deles, se estava legal a presena de palco e que vendia os shows do The Watts. Em outras palavras, Srgio era o empresrio.

- Ih, que legal, cara. Vendeu por quanto? - perguntou Cleberson, j entrando no clima da banda.

- Duzentos!

- P, tu dobrou o show! Muito bom!

- Lgico! Nesse baile vai rolar teclado...

- ? Poxa, tu mandou bem. Quem vai tocar?

- Voc!

- Eu?! Bicho, tu t maluco? No sei nem ligar esse troo!

- Eu ligo! Tenho um teclado em casa. Voc toca acordeom, no toca?  a mesma coisa!

Os culos de Cleberson eram mais grossos por causa da miopia, mas naquela ocasio deu para enxergar perfeitamente seus olhos arregalados com a resposta de Srgio.

- T, beleza. E eu enfio a mo esquerda onde? No tem botozinho no teclado que nem o acordeom, no, t?

- Mas ningum vai olhar sua mo esquerda! Tu finge que t tocando!

- Finge? Eu no sou assim, no, cara!

- Ah, mas voc vai fingir! Porque eu j vendi o baile!



Cleberson ainda no tinha acreditado que havia topado a loucura do Srgio em bancar o tecladista quando o baile comeou. E assim, l estava ele, em frente ao teclado, com a palheta na boca e a guitarra pendurada para poder tocar os dois instrumentos no decorrer das msicas - com aquele sorriso amarelo no rosto, olhando para o pblico como se estivesse enganando todo mundo! Os outros integrantes sabiam que ele estava apreensivo e tentavam acompanhar o que iria acontecer para dar uma fora para o amigo, sem a menor ideia se aquilo iria colar.

Mas, na hora da deixa para o teclado, Cleberson entrou. Com a mo direita firme, sabendo o que devia fazer, e com a esquerda completamente sem direo. Persistiu, foi se achando, sentindo as teclas e buscando a nota certa com a intuio. Tocou errado vrios trechos, porm, a plateia parecia no notar nada e danava animada enquanto o rock preenchia o salo. E ele foi seguindo, gostando, se encontrando, aliando ali a tcnica que foi obrigado a aprender com o acordeom  paixo que tinha pela msica, que conhecera livremente com a guitarra.

No dia seguinte, estava tudo muito claro em sua cabea e ele no podia mais esperar. Saiu correndo de casa depois do caf da manh, atravessou quarteires e chegou ofegante para bater naquela conhecida e confivel porta de sempre, com a deciso pulando de sua garganta:

- Oi, dona Gloria, tudo bem? Vim estudar piano.



Depois do baile improvisado, Cleberson passou a tocar teclado e guitarra nas apresentaes do The Watts, e tentou, inclusive, substituir o rgo pelo acordeom em alguns trechos. No entanto, era complicado microfonar o instrumento, alm de parecer estranho na viso de Cleberson.

- P, sou magrinho, cabeludo e barbudo. Tocando acordeom vou parecer forrozeiro!

Assim, ele focou no piano e nas aulas de dona Glria, principalmente para desenvolver a habilidade com a mo esquerda - revezando seus estudos com msicas clssicas, entre Beatles e Rolling Stones -, apesar dos erros excessivos na execuo das partituras. Erros que no soavam como relapso para Glria, considerando que seu piano era afinado meio tom abaixo.

- Cleberson, qual  o tom dessa msica?

Perguntou ela, colocando um disco na vitrola, desconfiada de que Cleberson poderia ter o ouvido mais apurado que o normal.

- Mi bemol!

- Hum... No! Voc errou.

- Ah, mas no errei mesmo.

- Deixa pra l, vamos voltar pro piano.

Ele voltou, mas encafifado por no ser mi bemol. Para Cleberson, aquilo era muito bvio. No podia ser outra nota! J Glria continuou cismada e guardou para si as suspeitas sobre o aluno - sem entender por que ele havia errado. Ser que sou eu que estou enganada? Por isso, quando o menino foi embora, ela colocou o disco para rodar outra vez e, sentada de frente para a vitrola, ficou olhando para a agulha que deslizava pelo vinil, como se tivesse de decifrar algum enigma - pensando e sentindo a msica, que continuava em r. Refletiu, analisou e, por fim, como ltima tentativa, foi olhar o aparelho de perto e encontrou um boto atrs da vitrola no lugar errado. A vitrola estava mais acelerada, o que fez com que o tom da msica subisse: de r para mi bemol.

Ah, agora sim..., disse para si mesma aps a soluo do caso, balanando um pouco a cabea de cima para baixo, com um sorriso discreto nos lbios, para no dia seguinte contar e explicar com calma para Cleberson que ele tinha um negcio chamado ouvido absoluto.

- Absoluto? Nunca ouvi falar nisso!

- , meu filho. Poucas pessoas tm.  uma capacidade de perceber e dar nome a cada uma das notas que voc escuta. Acho que voc nasceu com isso.

-  uma doena?

- No, no.  s um dom que pode te ajudar a tocar melhor, ou pior, dependendo da afinao do instrumento.

Na verdade, at hoje os especialistas no sabem dizer com certeza como isso surge no ser humano. O que se sabe  que uma pessoa com ouvido absoluto  capaz de receber e interpretar, com rapidez e preciso, estmulos do lado esquerdo do crebro - local onde os sons so processados. E, de acordo com seu padro de afinao aprendida, consegue dizer as notas e reproduzi-las. Por isso, uma nota fora do lugar incomoda a percepo dessas pessoas, assim como um instrumento afinado em outro tom a que no estejam acostumadas.

Glria no tinha respostas para todas as perguntas do garoto sobre ouvido absoluto, mas adiantou o que sabia e, com o decorrer da vida, Cleberson descobriria mais detalhes sobre o fato. No entanto, s saber que existia uma razo cientfica por trs daqueles episdios estranhos, tipo o da Ordem dos Msicos, acalmava um pouco seus anseios. Era incmoda a constatao de que ele no conhecia inteiramente suas fraquezas e aptides, mas, pelo menos, ter noo de que o f no tinha sumido era melhor do que nada. Vou ficar mais esperto em relao a essas coisas, prometia em seus pensamentos, ao voltar andando para casa - como um super-heri de histria em quadrinhos que acabara de descobrir seus poderes.



O menino que no era mais acordeonista, desenhista, guitarrista ou engenheiro. Tinha se resolvido pela msica atravs do piano, e queria levar o The Watts a srio, como uma banda que poderia se tornar mais profissional do que era. Ele desejava que o seu conjunto fosse um grande sucesso, s que os sonhos dos outros integrantes iam para direes diferentes. Um almejava ser engenheiro; o outro, economista; e com isso os ensaios foram definhando, se esvaindo em agendas tumultuadas de outros afazeres. Mas nenhum deles saa da banda! Apenas empurravam com a barriga os bailes, caindo de qualidade a cada apresentao. Tragdia que seria anunciada no baile do Clube Orfeo Portugal, na Tijuca, em 1970.

Naquele dia, eles ensaiaram Soul Sacrifice, do Santana - msica nova no repertrio -, na prpria passagem de som, o que j deixou Cleberson extremamente desmotivado. Antes ele tivesse ouvido seus instintos e ficado em casa porque dali para frente era ladeira abaixo. See Me, Feel Me, do The Who, foi uma das primeiras da noite, e o pblico j reagiu com desconfiana. Ningum danava ou parecia estar curtindo. As pessoas ficaram naquela posio esttica, de cerveja na mo, e alguns com os olhos apertados, como se estivessem tentando entender o que estava rolando no palco. Aquela poderia ter sido a segunda deixa para Cleberson vazar de l, mas ele insistiu e continuou nos teclados e na guitarra. S que na hora da msica do Santana, ele no teve mais opo. Toninho errou a mo na bateria e transformou a batida em um samba! O pblico no perdoou e caiu em cima da banda: vaias e copos para o alto tomaram o Orfeo. Entre os presentes, estava um menino de 15 anos chamado Ricardo Feghali, dos Los Panchos, que no se esqueceria daquele episdio por muitos anos: a nica vaia do filho de seu Boanerges.

- Galera, no d. Chega! Vocs no querem tocar. E outra: vou fazer vestibular para engenharia eletrnica. No quero mais saber de msica, acabou!



Cleberson prestou vestibular para engenharia eletrnica em um dia, e para msica no outro. Desiludido com a banda, s faria a outra faculdade como segunda opo para tirar o diploma, pois j sabia a teoria das aulas de dona Glria. Mas a Me Geometria foi maior nessa histria e barrou sua entrada na faculdade de exatas, ao contrrio da Escola Nacional de Msica, que o recebeu de portas abertas. O plano, ento, passou a ser outro: tudo bem, estudar msica, no entanto, se preparando nas horas vagas para tentar engenharia de novo, no ano seguinte. Largou a rotina de bandas e comeou a malhar quase todos os dias, adquirindo um fsico bem definido! Estava tranquilo com suas escolhas naquele incio de 1971 e fazendo barra paralela com Mafra, ex-cantor dos UFOS, quando deu de cara com Srgio, ex-empresrio do The Watts.

- Olha, eu sei que tu no quer mais, mas tem uma banda...

- Srgio, nem vem! Vou fazer engenharia. Entende isso - disse Cleberson, dando as costas para tomar uma gua.

Ele sabia que Srgio era insistente e era melhor cortar o papo. Queria sair de mansinho, s que ele continuou a falar. Contou que o conjunto era de uma famlia Cataldo, e que o tecladista estava saindo da banda.

- Eles tocam muito l na Tijuca, nunca viu?

- No, Srgio. Esquece! Alm do mais, tenho que ajudar meu pai. Ele largou a contabilidade. T ralando como caminhoneiro! Mal de coluna e tudo por causa do peso que carrega.

- Ento, cara! Pensa direito! Voc no precisa parar de estudar. Vai ganhar uma grana legal com essa banda! Ela  meio famosinha naquela regio e paga direito os integrantes. Voc pega o dinheiro dos bailes e ainda paga sua faculdade de engenharia! E ajuda seu velho, p!

Cleberson no sabia mais nem o que pensar. E sentado num banquinho, pensativo, deixava reverberar as palavras de Srgio, do mesmo modo que deixou quando ele vendeu um baile com teclado. Seria possvel colocar todas essas peas em harmonia? A msica, o interesse pela engenharia, pelos desenhos, seu pai, sua famlia? O super-heri com seu dom de ver as notas musicais no conseguira manter suas esperanas quanto aos desafios do dia a dia. O desenhista quebrara copos no decorrer do caminho e no manteve seu trao firme. O engenheiro no terminara nem a construo do som que tanto idealizara. E o acordeonista, ah, o acordeonista! Esse continuava dormindo de janelas fechadas dentro daquele mineiro, entre sentimentos no to firmes naquele momento. Mas tambm... Quando seria?

- T bom, Srgio, voc ganhou. Vou l ver qual . Qual  nome deles, mesmo?

- OS FAMKS.



Notas

* Referncia  Tristeza do Jeca, composio de Angelino de Oliveira.

** Referncia  Saudade de Ouro Preto, composio de Antengenes Silva.

*** Pea musical composta para um solista.

**** Tarde fria chuva fina, e ela a esperar... - Golden Boys gravariam uma verso em 1967 com o nome Pensando nela.



CAPTULO 2

UM LUGAR NO MUNDO

Luiz Fernando Oliveira da Silva

Mandi  um peixe com pele de couro e de porte mdio, com manchas negras, espores farpados e muco txico nas nadadeiras. Um animal tinhoso, que luta at o fim quando  pescado e s sai da gua depois de morto. Peixe tambm encontrado no rio Paraba do Sul, na altura da cidadezinha de So Joo da Barra, no estado do Rio de Janeiro, e apelido de seu Bernardino Senna Silva, coron das redondezas, metido na poltica e dono de uma serralheria. Bicho bravo, assim como o mandi das guas - respeitado naquele territrio e temido pelos menores.

- Anda, Nando! - chamava Nilson, filho de seu Bernardino, j na porta do casaro em So Joo, em 1961.

Um casaro daqueles imponentes, que guardava o clima das fazendas de senhor de engenho, com uma escadaria enorme na frente e uma coruja de pedra, medonha, na quina. Pelo menos era o que o menino de 8 anos sentia ao ver aqueles olhos petrificados e grandes da ave: medo.

- T indo, pai, t indo.

Subia ele os degraus, p por p, com o olhar focado na coruja, vigiando, como se ela pudesse se mexer a qualquer momento. Nando, ou melhor, Luiz Fernando, era o quarto dos seis filhos do casal Nilson e Neusa. O varo entre cinco meninas, todas Maria: as gmeas Maria Ins e Maria de Lourdes, alm de Maria Helena, Maria Alice e a mais nova, Maria Cristina. Moreno, magrinho, baixinho e de cabelos escuros, o menino no era de se misturar com as irms e passava a maior parte do tempo sozinho, isolado em seu mundo de brincadeiras e histrias, embora tivesse olhos to atentos e perspicazes quanto os daquela coruja.

- Nando, voc vai ficar pra trs - dizia seu pai impaciente e de braos cruzados, enquanto ele terminava de subir as escadas.

Um nervosismo que no tinha nada a ver com a demora do filho, mas sim com a ansiedade e a expectativa de rever seu pai. H anos eles no se falavam! Desde o dia em que Nilson, a contragosto de Bernardino, decidira partir de So Joo da Barra para estudar no Rio de Janeiro. Ajudado por um tio, ele se formaria no Instituto de Educao e daria aula como professor primrio para pagar a faculdade de direito. Uma punhalada no peito do coron, que no aceitou de jeito nenhum ver seu filho longe dele e de seus negcios. E aquela seria a primeira vez que Bernardino, j mais velho e doente, iria conhecer os netos.

Estava bem quente naquele dia, e era mais ou menos a hora do almoo quando eles adentraram o casaro, acompanhados por um dos empregados. Primeiro, Nando encontrou sua av Antnia, uma senhora de aparncia leve e fala suave - irm de Arthur, to tranquilo quanto ela -, para depois avistar seu av, de posio ereta, sentado em uma cadeira, com as pernas levemente abertas e uma bengala no meio, apoiada pelas mos. Sua bengala era toda trabalhada em jacarand e seu palet era de risquinha, tendo por dentro um colete, nos pulsos um relojo dourado e na cabea um chapu reto. Um homem de pele clara, mas ardida de sol, e de poucas palavras de boas-vindas. Para ele, era difcil ver Nilson em sua frente, casado com uma professora, com filhos e uma profisso tipicamente feminina. O clima tenso no iria mudar nem na hora do almoo - tendo Bernardino na cabeceira e sua mulher, Antnia, sentada  direita, com Nilson, Neusa e os netos espalhados naquele meso comprido.

- Vai botar uma camisa, menino! No vai sentar  mesa comigo assim, no. Vai se compor! - disse ele em tom forte para Nando, como se j estivesse falando com um homem crescido.

Uma das poucas frases que o menino ouviria do av, que depois continuaria comendo em silncio assim como Nilson, enquanto a av Antnia puxava assunto com a nora, Neusa.

- E o Rio de Janeiro? L  mais quente que aqui, no?

- Ah, um pouco. Voc precisa ver no vero!

E a conversa seguia.

Nilson, sem graa, no olhava para o pai, como se naquela situao ele fosse to pequeno quanto seus filhos! E Bernardino, por sua vez, mantinha os olhos fixos no prato, com uma garfada aps a outra, sem tecer qualquer comentrio. Pairavam no ar as discusses, a distncia, o ressentimento; e nenhum dos dois parecia estar disposto a arregar. Antnia ainda tentou:

- E suas aulas, meu filho?

Mas Bernardino rangeu a garganta, bateu o punho na mesa e Nilson, srio, apenas conseguiu responder.

- T tudo bem, me.

Essa visita ao casaro seria a primeira e a ltima de Nando. O menino ainda retornaria com seus pais inmeras vezes para So Joo da Barra, mas apenas para curtir o lado da famlia de sua av - e, principalmente, velejar na canoa com seu querido tio Arthur, irmo da v Antnia - um daqueles pescadores que dava vontade de ficar o dia inteiro s ouvindo os causos, as piadas e os ensinamentos. O av que Nando escolheria para sua vida.

Porm, no casaro no existia ambiente, nem recepo que justificasse um regresso para seu pai. Para l, o garoto, ento, no mais voltaria. Embora no tivesse esquecido, nem mesmo depois de adulto, do relojo, da bengala, do palet, do colete, do chapu e da coruja.



A casa de Nilson e Neusa ficava na rua do antigo zoolgico, no Rio de Janeiro, na ltima casa no alto da rua Visconde de Santa Isabel, no Graja - bairro famoso na cidade por ser extremamente arborizado. E a residncia seguia os costumes da famlia materna de Nilson, mantendo o estilo da regio, grande, com muitas plantas e com reas onde as crianas pudessem brincar  vontade. Ter cachorro tambm fazia parte dos hbitos da casa, onde no se matava gamb, aranha, cobra ou lagartixa, sendo estimulado o convvio com a natureza desde cedo. Uma maneira de trazer um pouco de So Joo da Barra, cidade natal de Nilson, para o Rio de Janeiro.

Hbito de Nilson, mas que Neusa, de famlia carioca e tijucana, tambm incorporara. O problema  que, com o marido fora trabalhando como advogado, ela se atrapalhava na hora de dar conta dos seis filhos, afazeres domsticos e jardim. At porque sua rotina antes de casar era completamente diferente. Seu pai, Jos Valentim, um homem negro, de estatura mediana e dono de uma grfica, morreu muito cedo, deixando os negcios nas mos de seus filhos e sua mulher, Alice. E Neusa, caula e tempor, acabou sendo poupada pela me e pelos irmos na fase financeira mais crtica que viveram. Canuta, ou madrinhesa, como era chamada por Neusa, foi a irm mais velha que praticamente a criou, com mimos e proteo para que ela no sofresse.

Sem pegar no pesado e pajeada por outras irms como Jandira e Iara, Neusa pde frequentar lugares bacanas como a Confeitaria Colombo, no Centro do Rio de Janeiro, passeando por a toda coquete, como se dizia naquela poca. E, em 1940, se formaria no Instituto de Educao, onde conheceria e se apaixonaria por Nilson - quatro anos mais novo que ela -, com quem iria viver at ficar velhinha e com quem teria que, pela primeira vez, saber se virar sozinha, com a limpeza e organizao de uma casa enorme e a criao de seis filhos levados.



Choveu muito no vero do Rio de Janeiro, no incio dos anos 1960, alagando as ruas da Tijuca, do Andara, de Vila Isabel e do Graja, deixando os moradores sem eletricidade e sem comunicao. Custou para que os cariocas retomassem suas rotinas. At que num daqueles dias o sol voltou para ficar, quente e poderoso, secando e abrindo passagem para as pessoas. Iluminando todos os vestgios das enchentes, como buracos na rua, barro nas paredes e, inclusive, um belo tronco, solto no asfalto, parado em frente  casa de Nando.

Legal!, pensou ele ao correr em direo  tora para empurr-la para dentro do jardim. Enquanto suas cinco irms, sentadas na varanda, brincavam entre si, entretidas com suas bonecas e panelinhas.

Estavam isoladas em seu mundo feminino e no perceberam a euforia do irmo ao encontrar aquela tora: futura nave espacial, nibus, cavalo de batalha, carro de Frmula 1, carruagem e tantas outras coisas que s ele entendia!

- Vrruuuummmmm!!! Vrruuuummmmm!! - fazia ele com a boca enquanto, sentado em cima do tronco, inclinava o corpo ora para direita, ora para esquerda, como se estivesse fazendo uma curva.

- Esse garoto  maluco! - dizia Neusa para Nilson ao flagrar o filho, aos 9 anos de idade, em ao.

- No  maluco, no, Neusa. Deixa o menino.

- Aham... Depois no reclama!

Os livros eram sua fonte de inspirao, e Nilson, seu principal incentivador e fornecedor de histrias. O pai adorava ler, tinha uma das maiores bibliotecas do Brasil sobre a Segunda Guerra Mundial e no economizava em repassar cultura para o filho. Comprava livros de todos os tipos para ele, alimentando sua criatividade e instigando outras descobertas.

Monteiro Lobato apresentou a Nando aventuras como Os doze trabalhos de Hrcules e As caadas de Pedrinho. A Enciclopdia Trpico, em quadrinhos, ensinou a cultura da Grcia, do Egito, as batalhas de Napoleo Bonaparte e outros acontecimentos do mundo. Histrias notveis, fantsticas e mitolgicas, como os livros que continuaria lendo depois de mais velho, tais como o Anel dos nibelungos, Senhor dos anis, e autores de fico cientfica como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov. Inesgotveis fontes de sabedoria e imaginao.

- E a o general falou com o soldado: Essa  a hora da guerra! Atacar! - berrava Nando, no jardim, se jogando no cho e se divertindo da melhor maneira que aprendera: sozinho.



Arizona, 1926: um garoto de 12 anos junto com um vaqueiro mais velho checavam o funcionamento de um moinho de vento antes de a tempestade chegar. As nuvens pretas j se armavam no cu e a chuva prometia ser pesada quando o cowboy alertou:

- Se olhar de pertinho, voc vai ver o rebanho do Diabo, com seus olhos vermelhos e cascos de raio,  frente dos cavaleiros fantasmas. E, se voc no se cuidar, vai parar l com eles, perseguindo os bois por toda a eternidade.

O menino se assustou com a lenda e foi correndo para casa. Mas ficou to impressionado com a histria que, aos 34 anos, o no mais garoto Stan Jones, comps a cano (Ghost) Riders in the Sky: A Cowboy Legend, uma msica country que ganhou vrias regravaes, como as de Burl Ives, Johnny Cash, Bing Crosby, ou a verso brasileira de Haroldo Barbosa, Cavaleiros do Cu, cantada por nomes das dcadas de 1940/1950 como Carlos Gonzaga.

E foi um compacto gravado pela RCA, de Carlos Gonzaga, com Cavaleiros do Cu, que Nando ganhou de presente de seu pai.

Vaqueiro do Arizona desordeiro e beberro

Seguia em seu cavalo pela noite do serto

No cu porm a noite ficou rubra num claro

E viu passar um fogaru, um rebanho no cu

Uma msica linda, que ele ouvia em sua vitrolinha aos 9 anos. E que o deixava arrepiado s de imaginar aquele rebanho seguido por vaqueiros, vermelhos a queimar, galopando para o alm.



Quando estou nos braos teus

Sinto o mundo bocejar

Quando ests nos braos meus

Sinto a vida descansar

No calor do teu carinho

Sou menino passarinho

Com vontade de voar

Cantava Nilson, batendo levemente no ombro de Nando, de 10 anos, que ainda brigava com o sono, em uma daquelas noite no final de 1963. Ano em que seu time, Fluminense, havia perdido o Campeonato Carioca para o Flamengo em um empate de 0 a 0, em um Maracan lotado! E olha que o rubro-negro estava ruim na competio. Deixa estar... O prximo  nosso, pensava Nilson enquanto murmurava a cano para o filho, que j parecia ressonar na cama.

O mundo continuava agitado do lado de fora do quarto em que Nilson ninava o menino, e ele nem sentia. Os Estados Unidos ainda sofriam as consequncias do assassinato de John Kennedy em um desfile pblico. A Alemanha se preparava para julgar os 22 guardas do antigo campo de concentrao nazista, Auschwitz. E no Brasil, o PSD repudiava os rumos do governo Goulart, assumindo posio de viglia cvica em reunio das bancadas. Fatos e notcias que, para aquele pai, sumiam perante o sono majestoso da criana.

E, assim, ele continuava cantando, afinado, a cano de Luiz Vieira, distrado com os traos do seu menino passarinho, que descansava em seus braos. Era bom v-lo cochilar ao som daqueles versos. Diverso de pai, que mais ningum entenderia. Seu quarto filho, nico garoto entre tantas meninas, dormindo, tranquilo, parecendo estar feliz naquele lugar. Embora Nilson soubesse e sentisse, bem l no fundo, o quanto Nando desejava voar.



Era tarde da noite quando Nando levantou da cama para pegar um copo dgua na cozinha e viu seus pais conversando baixinho na sala. Manteve-se distante, fora do campo de viso dos dois, mas de olhos e ouvidos aguados para entender o que estava acontecendo.

- Voc acha que consegue?

Foi o que Nando entendeu da boca de sua me, de olhar apreensivo e direto para Nilson.

- Neusa, de hoje pra amanh no d. Mas eu vou tirar!

Respondeu incisivamente seu pai, nervoso, e em tom mais alto, sem deixar dvidas quanto s palavras pronunciadas - enquanto Neusa passava a mo levemente sobre o rosto de Nilson, para depois lhe dar um beijo terno. Dias tensos de 1964, incio da Ditadura Militar no Brasil.

Nos bastidores do governo j se falava de perseguies polticas, tortura e morte para aqueles que agissem contra suas imposies. Mas nada era feito de forma aberta! Tais ameaas eram veladas, no declaradas contra o perigo vermelho, que continuava sua luta por liberdade na surdina. E, por isso, muitos esquerdistas foram presos naquele perodo. Algumas prises eram explcitas e noticiadas para os familiares, outras at hoje no foram esclarecidas.

Seu Bernardino, PCdoB ferrenho e av de Nando, usava o terceiro andar do casaro em So Joo da Barra para esconder refugiados polticos e, depois, despach-los para outros lugares. E, por intermediar essa operao, acabou sendo delatado e preso pelos milicos. Desespero para os parentes prximos. Tristeza maior para Nilson, que ainda no falava direito com o pai.

Nando no entendia muito bem aqueles termos polticos, mas percebeu que o av estava preso. E, quietinho, falava com seus botes, torcendo para que seu pai conseguisse tir-lo de l. Nossa, ele conhece tanta gente..., pensava o menino ao ver Nilson, de olheiras, determinado, fazendo um milho de ligaes em casa, com um papel e uma caneta nas mos.

Dias intensos para Nilson, que entrou em contato com todas as pessoas que conhecera em seu trabalho como advogado no governo de Carlos Lacerda,* no Rio de Janeiro, na esperana de que algum pudesse ajud-lo. At que, de repente, uma voz feminina lhe deu razo.

- Oi, Nilson. Meu marido  general, lembra? Vou ver com ele se d pra intervir.

Alvio sobre o peito de Nilson, que aguardaria, ansiosamente, por outra ligao dela. Dias interminveis de espera e de mais imagens criadas em sua mente de seu pai na priso, tossindo, largado, com seus primeiros sinais de um cncer no intestino, esquecido junto com tantos outros homens. At que a boa notcia veio, no mesmo dia em que seu pai foi solto.

- Bernardino Senna Silva! - gritou o carcereiro em direo  cela.

E ele, abatido, apenas levantou a mo.

- T liberado - continuou o carcereiro.

- Mas quem...

- Ningum.

E se em casa Nando j entendia os sorrisos discretos do pai, na priso Bernardino andava rpido, sem olhar para trs. S ficando mais calmo ao chegar  rua, na calada,  luz do dia, embora no tivesse ningum para busc-lo ou lhe dar um abrao. E dali ele seguiria para Campos, sem nunca imaginar durante seus ltimos dias de vida que fora Nilson o responsvel por sua liberdade. Um segredo que seu filho decidira guardar a sete chaves.

Um telefonema certeiro, a libertao de Bernardino: a alforria de um homem que iria brigar contra a Ditadura, o cncer, seu filho e com todos at o fim. Como um mandi.



Nando estava no meio do 3o ano do primrio, quando notou que seu nome estava sendo mencionado, constantemente, nos papos dos adultos, sem estar relacionado a qualquer zorra que havia feito. Tinha algo a ver com escola e no cheirava nada bem para o seu olfato infantil. Seus pais queriam que ele fizesse o exame admissional do ginsio, apesar dele ainda ser novo para isso.

O sistema educacional brasileiro considerava, nos anos 1960, que o estudante deveria fazer cinco anos de primrio para depois prestar seu 1o vestibular, chamado na poca de exame admissional ao ginsio. Um exame temido, como o vestibular para chegar a uma faculdade nos dias de hoje, e que poderia ser feito antes dos cinco anos do primrio, como no caso de Nando.

- Filho, chegou o resultado do exame! Voc passou!

Comemorou Neusa, em casa, abraando o menino ao receber a carta do instituto, com notas to azuis que ela poderia, inclusive, inscrev-lo no Colgio de Aplicao da UERJ, na Tijuca, escola conceituadssima no Rio de Janeiro onde j estudavam outras de suas trs filhas: Maria Ins, Maria de Lourdes e Maria Helena. Felicidade para a famlia, que via Nando avanando nos estudos, e com louvor, ao entrar em um dos melhores colgios cariocas! Mas desafio para o garoto de quase 11 anos que iria encarar o ginsio e seus experientes alunos com dois a trs anos a mais que ele, que j namoravam, tomavam cuba libre e experimentavam as primeiras tragadas de cigarro. O suficiente para Nando sentar l no fundo, nos dois primeiros anos, encolhido, se sentindo distante e pequeno no meio de gigantes.



Carlos Abreu estudaria no Colgio de Aplicao, na turma de Nando, e se tornaria otorrino quando adulto. Porm, no incio de 1966, na sala do 3o ano ginasial, em uma tera-feira, com seus vastos 15 anos, como a maioria dos garotos da poca, ele quis ser msico.

- Vou fazer um conjunto de rock! Eu na guitarra e meu irmo Cludio na bateria - anunciou ele, em p, para a turma em um dos intervalos.

- P, vou tocar a outra guitarra! - animou-se Celso Mamede, que seria engenheiro quando crescesse.

Futuro que tambm seria o de Antnio Andr, ou melhor, Andrezinho:

- Eu quero cantar!

- timo, Andr! S falta um baixista! - continuou Abreu, olhando para as pessoas ao redor, esperando algum se pronunciar.

- Porra, ningum toca baixo nesta sala, no?

At que, escondido entre as carteiras, meio sem jeito, Nando decidiu levantar o brao.

- VOC?

- .

- E voc toca baixo, por acaso?

- Toco.

Abreu, desconfiado, olhou para os amigos, para o resto da sala e, por fim, voltou o olhar para aquele menino magrelo, baixinho e mirrado, com a mo levantada.

- Ento t, n? No tem outro, vai voc mesmo - disse ele, falando em seguida para o grupo, antes da professora iniciar a prxima aula. - Ensaio l em casa no sbado, fal?

Nando mal tinha 12 anos no dia em que resolveu tentar se comunicar com os grandes. No se ligava em msica, em rock, e muito menos sabia o que era baixo.



- Tenho que tocar baixo em quatro dias!

- Calma, Nando, calma! Fala devagar. Que histria  essa? - perguntou no telefone o primo Marco Antnio, filho da tia Iara, sete anos mais velho que Nando e vocalista da banda de baile Os Dallans, de vocal poderoso e conhecido na regio.

-  pra entrar numa banda l da sala. Eu preciso entrar!

- Banda? E desde quando voc  ligado nessas coisas, Nando?

- Anda, que dia voc pode? O ensaio  sbado agora!

- T, t... Vou pedir pro Jorge Cludio te dar uma fora. Aguenta a! - disse ele antes de desligar o telefone, se referindo ao baixista dos Dallans, que prontamente apareceu,  tardinha, na casa de Nando.

- D para treinar no violo? - perguntou o menino, ansioso, j com o violo de seus pais nos braos, assim que Jorge Cludio passou pela porta da sala.

- Pro bsico funciona, Nando. As cordas do baixo so mais grossas e rgidas, e a distncia entre elas  maior, assim como nos trastes. A maioria dos baixos tem quatro cordas e o violo tem seis, n? So instrumentos diferentes! Mas voc  esperto, vai pegar fcil.

- Eu tenho que tocar no sbado, Jorge! Eles j sabem tudo e eu no!

- Pra... Voc vai tocar... Vou te passar uns exerccios e voc treina nas quatro cordas superiores, OK? Vai fazer bonito, vai ver. Senta aqui e vamos treinar!

Animado ao ver o interesse do garoto, Jorge Cludio rapidamente mostrou como segurar o instrumento, a posio adequada da mo, explicou o que significavam aqueles filetes de metal (os trastes) separando as casas, as cordas e partiu para a prtica! Foi passando, devagar, uma sequncia aps a outra para que Nando pudesse repetir depois.

- Faz fora com o mindinho, Nando! Seno o som no sai direito - dizia ele para o menino, mais do que concentrado, determinado a no fazer vergonha no sbado!

Afinal, aquela era a sua chance de se enturmar com os meninos da sala. Quando o professor mostrava como deveria fazer com os dedos, seus olhos pulavam entre as casas do violo e sua boca reforava baixinho o que era preciso memorizar. Para, em seguida, ele prprio pegar o instrumento, disposto a vencer sua insegurana de iniciante - repetindo, incansavelmente, os exerccios que Jorge passara - at conseguir tocar sua primeira msica: a famosa We Can Work It Out dos Beatles, lanada no final de 1965 em um compacto com Day Tripper, repertrio dos Dallans e sucesso nos bailes do Rio de Janeiro em 1966.

Foram dias incessantes de exerccios no violo. Nando comeou, inclusive, a ficar confiante ao identificar canes saindo de seus dedos com bolhas, por mais que no cantasse nenhuma delas. Com o tempo vou melhorando, pensou ele ao guardar o violo na capa, depois de repassar algumas msicas, no sbado, antes do ensaio. O que continuou fazendo, s que mentalmente, no caminho para a Usina, bairro onde o Abreu morava. Dedo 2, na casa 2, primeira corda...

A primeira msica do repertrio foi a nova dos Stones, The Last Time. Well, I told you once and I told you twice dizia a msica, com Nando se empenhando em dar seu melhor. Depois veio o refro, Well, this could be the last time/ this could be the last time, com a banda j aos tropeos. E prosseguiu com But heres a chance to change your mind, em um desencontro completo entre os instrumentos, acordes faltando, e alguns desistindo da cano.

- U, o que aconteceu? Por que vocs pararam? - indagou Nando.

- Eu preciso treinar mais - respondeu Abreu.

- , eu tambm - falou seu irmo.

- No  melhor pegar uma mais fcil? - tentou o Celso.

- Pode ser. Depois a gente volta nessa - concluiu Abreu.

Mas essa era a mais fcil!, pensou Nando, pequeno entre os gigantes.



- Pingo, voc vai com a gente?

- Acho que no, Andrezinho... Meu pai ainda t me brecando - respondeu Nando, cabisbaixo, por ficar de fora mais uma vez das viagens para Rio das Ostras do grupo The Kilroys, ou the Kilzinho, como ficou conhecida a banda do Colgio de Aplicao.

A famlia de Andr tinha uma casa l, para a qual ele levava os amigos, para fazer zorras, como beber gim, fumar ou ir ao bordel da cidade. Coisas de menino. S que Nando, ou Pingo, como Abreu o apelidara, no tinha o consentimento do seu pai para esta faanha.

- Os garotos so mais velhos. Voc s tem 12 anos, Nando!

- Pai, voc que me botou l! No fui eu que escolhi estar entre os mais velhos!

- No interessa, Luiz Fernando. Voc no vai!

Nando fazia questo de, todas as vezes, gritar sua revolta para o pai, para depois se isolar no quarto - enfurecido e impotente diante das regras adultas. Diversos convites negados para Rio das Ostras que incomodavam a liberdade do menino, que iria lutar at o fim, como um Bernardino.



- Pai, a banda foi chamada para tocar no Alto da Boa Vista.

- De noite, n? Tudo bem. Eu te levo l!

Ningum do The Kilroys precisava de escolta de pai e, consequentemente, essa no era a resposta que Nando gostaria de ouvir. Porm, era melhor do que nada. Aos 13 anos, sabia que, se quisesse tocar, teria que aguentar o mico de chegar acompanhado por Nilson.

A festa tinha sido convite de um amigo que soube da banda por outro amigo, que indicou para um conhecido.

- Estamos ficando famosos - brincou Abreu.

E ver a casa lotada aumentava ainda mais a ansiedade dos meninos. No que a banda estivesse maravilhosa, mas os atropelos eram menos frequentes. E os erros? Imperceptveis para ouvidos leigos.

The Kilroys tocou, deu bis e as pessoas empolgadas continuaram elogiando a banda aps o trmino da apresentao. A filha do dono da festa gostou tanto que apareceu, no final da noite, com um bolinho de notas nas mos para cada um dos cinco integrantes. Algo ainda indito para o conjunto! Uma prtica que os adultos chamavam de pagamento.

- Caraca, gente! Cr$125! - comemorou Nando, com os olhinhos brilhando, ao perceber que, alm de amigos, a msica tambm poderia lhe dar dinheiro e, quem sabe, a liberdade.

- E a, Pingo? Rio das Ostras na sexta?

- Fechado! - disse o menino na semana seguinte  festa no Alto da Boa Vista, sem titubear, j contando os minutos para o final de semana.

No falou em casa sobre o assunto, decidido a viajar, dessa vez, sem pedir permisso para Nilson. Assim, na sexta-feira, ao chegar da aula, fez a mochila, pegou o saco de viagens e o dinheiro da banda. Saiu do quarto, encontrou a me na cozinha e avisou que estava indo para Rio das Ostras.

E Neusa, surpresa com a atitude do filho, ficou em silncio. At que foi fcil, pensou o menino indo direito para sala, j que seu pai ainda no voltara do trabalho. Ele deve estar por perto. Ser que eu espero? Ah, quer saber? J deixei avisado. Minha me que passe o recado. Vai ser melhor e..., considerava ele, quando ouviu o barulho da chave na porta. J era, foi o ltimo pensamento de Nando antes de Nilson surgir da rua, com a gravata meio aberta no pescoo, vestindo camisa branca e cala social, com um palet azul-marinho jogado nos ombros.

- Aonde o senhor pensa que vai? - perguntou o pai, com um olhar desconfiado, enquanto deixava a maleta em cima da mesa.

- Rio das Ostras - respondeu Nando, sem gaguejar, encarando o pai.

- Com que dinheiro o senhor pensa que vai? - duvidou Nilson, com tom irnico, ainda em frente  porta, com os braos cruzados, olhando de cima para o menino, que no hesitou  afronta.

Sem tirar os olhos de Nilson, o filho colocou as mos nos bolsos, juntou os Cr$125 que tinha e mostrou dizendo com firmeza:

- Com esse.

Nilson respirou fundo, tentando pensar rapidamente no que fazer, na postura correta que deveria adotar como pai, afinal, Nando s tinha 13 anos! Por isso, olhou para o dinheiro na mo do filho e lembrou-se de seu trabalho como msico. Voltou para os olhos de Nando, imveis, e, respeitando sua coragem, saiu, enfim, de sua frente.

- Ento pode ir.



Vera estava no 2o ano do ginsio, em 1967. Estudava no Colgio de Aplicao, era inteligente, madura, tinha cabelo castanho curto, e usava p de maquiagem e batom - para ficar mais bonita, mais mulher, apesar dos seus 12 anos. A primeira namoradinha de Nando, a primeira paixo, que fazia com que ele passasse horas dos seus dias sonhando.

Naquele ano, o menino, com seus recentes 14 anos, tocava no The Kilroys, namorava a Vera e continuava rodeado por pessoas como Andr, Abreu, Z Carlos, Hel, Regina, Suzana ngela, Alberto e tantos outros do Colgio de Aplicao que o notaram a partir do Kilroys. Amigos que, mais velhos, formariam uma proteo ao redor de Pingo, ou Mnimo, como seria conhecido na escola. Aquele era um belo ano para Nando que, muito mais enturmado, torcia para que aquela sensao de felicidade jamais fosse embora.

Empolgao juvenil que deixava tudo mais bonito! Encontrar com ela no recreio, passear pelas ruas do Rio de Janeiro, beijos no porto da escola, bilhete na porta da sala... Era inspirao para no acabar mais! Vou me casar com a Vera, ter muitos filhos, um cantinho cheio de verde pra gente morar, imaginava o menino em 1967. Sem poder prever que, naquele mesmo ano, sem aviso na agenda, telefonema, ou mensagem via telegrama, tudo iria desmoronar.

A primeira tragdia foi ver Vera em um ponto de nibus, em frenticos beijos com um conhecido dele do Colgio de Aplicao. Cara mais velho, de outra turma e que parecia, praticamente, engolir a menina, toda borrada de batom. Assim, do nada! Sem ela dizer acabou, a gente precisa parar de se ver ou at cai fora. Nada! Nando no soube nem o que fazer ao assistir quela cena. Seu corao parou, sua voz sumiu e, por um segundo, ele se sentiu muito, mas muito menor do que realmente j era.

Para depois disso, ainda fechar o ano de 1967 com a pergunta da professora:

- Pra que turma voc vai?

- Hein? Turma?

- , Luiz Fernando. Sua sala vai ser dividida. Voc tem que escolher entre cincias humanas, engenharia ou medicina. O prximo ano  do cientfico, oras!

- E os meus amigos?

- Vo escolher tambm, u! Vai cada um para o seu lado.

- Como assim? Voc quer dizer que eu vou ficar sozinho?

Vera: a primeira paixo de Nando. A primeira decepo. E a primeira vez em que ele pensou em no tocar nunca mais.



Ame-o ou deixe-o, dizia um dos motes do governo brasileiro, em 1969 - referente  assinatura do AI-5 por Costa e Silva, no ano anterior. Artistas como Gilberto Gil e Caetano Veloso, intelectuais e lderes polticos eram exilados naquele perodo. O jornal O Pasquim, opositor  Ditadura Militar, era lanado, e o embaixador norte-americano Charles Burke seria sequestrado em troca de presos polticos. Tudo em 1969.

A msica transitava entre a Jovem Guarda e a Tropiclia, e os jovens continuavam ferozes em suas guitarras, de olho nas tendncias do resto do mundo. Aqui, surgiam nomes como Jards Macal, Os Novos Baianos, S-Rodrix & Guarabyra, O Tero e Som Imaginrio. Enquanto l fora acontecia o Woodstock, com 32 dos principais nomes da msica, alm do lanamento de lbuns histricos do rocknroll, de conjuntos como The Who, Beatles e Led Zeppelin.

- Mnimo, chega mais! - chamou Ivan Simas, de outra turma do Colgio de Aplicao, durante o recreio. - Cara, t pra te falar isso tem um tempo. T vendo voc meio desanimado com a msica e tal... No faz isso, no!

- Ah, Ivan... No t com saco pra nada, muito menos pra msica!

- Pode at ser, mas deixa eu te falar uma coisa?

E Nando, encostado na parede, os braos cruzados, levanta os ombros como se dissesse tudo bem.

- Todo mundo toca aqui, n? Eu toco violo clssico, o Abreu t na banda de vocs, tem o Kiko** dos Famks, irmo do Alceu, e por a vai. Mas voc tem uma mo diferente, cara.

- T viajando, Ivan...

- No t, no, bicho! E eu vou te ajudar!

- Como assim me ajudar? Ivan, no tem nada que voc pos...

- Voc t ouvindo as coisas erradas.

E o silncio de Nando deu a deixa para Ivan continuar, com nfase e certeza:

- Vou te emprestar trs discos que vo mudar a sua vida.

Naquele dia, Nando voltou para casa com trs LPs debaixo do brao: Goodbye, do Cream; Axis: Bold as Love, do Jimi Hendrix Experience; e Crosby, Stills & Nash, disco homnimo e primeiro trabalho de uma banda formada por David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash (ex-The Hollies). O LP do Jimi Hendrix era de 1967, mas os outros dois haviam acabado de sair do forno, lanados naquele fatdico e musical ano de 1969.



O que o Ivan quer tanto que eu escute?, desdenhava Nando enquanto colocava a banda de folk rock, Crosby, Stills & Nash, na vitrola de seu pai. Estava to distrado, que nem percebeu ter colocado o disco com o lado B para cima. Apenas posicionou a agulha na primeira faixa do LP, sentou no cho e esperou.

O compasso sendo marcado nas cordas presas do instrumento abriu a primeira cano, para que as trs guitarras soassem juntas em seguida, em perfeita harmonia. Entrando depois a voz de Stephen Stills, ex-guitarrista da banda Buffalo Springfield, com o verso:

If you smile at me, I will understand

Cause that is something everybody everywhere does in the same language

Respondido por David Crosby, ex-guitarrista do Byrds:

I can see by your coat, my friend,

Youre from the other side

Theres just one thing I got to know

Can you tell me please, who won?

Dois msicos simulando, em plena Guerra Fria na dcada de 1960, o encontro entre duas pessoas de lados diferentes. poca em que o muro de Berlim, aps uma severa Segunda Guerra, separava a Alemanha e o mundo entre capitalistas e comunistas, um perodo tenso entre as naes j desgastadas - estrangeiras de territrio, mas iguais de alma, como lembrava aquela cano do LP, Wooden Ships. Tudo se encaixava e o significado daquela letra mostrava que uma cano poderia ser muito mais do que harmonia e melodia.

- Caralho! Esses caras esto falando pra mim! - disse ele baixinho enquanto o disco rodava na vitrola.

No refro, se lembrou de Ivan destacando Olha os vocais dessa banda!, com a voz de Graham Nash, ex-guitarrista do The Hollies fechando o som do trio. E Nando chorou ao sentir Wooden Ships chegando ao final. O menino bebeu daquele lado B do disco e depois descobriu maravilhas no lado A, como Marrakesh Express e Guinnevere. Quanto mais ele ouvia, mais queria. Um LP que at poderia falar de amor, como os outros, mas que ia alm! Trazia poesia, poltica, pensamentos profundos e humanos sobre a vida. Os msicos, naquele trabalho, eram artistas que contavam histrias, deixavam reflexes e questes universais em seus acordes. E aquilo sim fazia sentido para o seu corao.



Os outros dois discos que Ivan emprestou para Nando tinham o mesmo propsito:

- Voc tem que ouvir o baixo dessas bandas!

E Jack Bruce era o cara do trio britnico de rock psicodlico Cream, formado tambm por Eric Clapton na guitarra e Ginger Baker na bateria. Caramba, como ele faz isso com o baixo?, perguntava-se Nando ao ouvir variaes sutis no som do instrumento de Bruce. Era como se a pegada do baixista fosse pausada, como se a mo respirasse antes do acorde.

Jack Bruce cantava em cima de linhas marcantes e melodiosas do baixo a msica Politician, letra de Pete Brown, seu grande parceiro em composies. E o riff de Bruce era de arrepiar. No t tocando direito. Isso  que  tocar baixo!, falava Nando consigo mesmo, com gestos e em alto volume, como se estivesse indignado com outra pessoa. A personalidade daquele instrumento fazia com que o menino se sentisse um rob tocando - sem sentimentos, originalidade e energia.

Depois Nando passou para Axis: Bold as Love, LP em que conheceria Noel Redding, o guitarrista selecionado pelo agente Chas Chandler para ser o baixista da banda liderada por Jimi Hendrix. Afinal, nessa categoria no dava para competir com Hendrix. Mitch Mitchell fechava o trio, popularizando o mesmo tipo de formao do Cream, com baixo, guitarra e bateria.

O baixo dele  intencionado, prestava ateno o menino, que buscou mais discos do Jimi Hendrix Experience para ouvir Noel, e no s conheceu canes como Bold as Love, como tambm Are You Experienced? e Hey Joe, de outros LPs. Essa ltima lhe serviria anos mais tarde como inspirao para o desenho de seu prprio baixo, em uma msica chamada Volta pra mim.***

Aqueles trs discos de Ivan realmente viraram a cabea de Nando, ento com 16 anos, que passou a estudar baixo com uma empolgao jamais vista. Os amigos o ajudavam com outros discos, como Andr que, por ter morado fora, tinha acesso a LPs internacionais. E, assim, o menino ia devorando suas novas referncias musicais e aprendendo a tocar com grandes mestres.

- Ah, safado! Agora eu entendi!

Comemorou Nando ao ver que conseguia imprimir nas cordas a batida de Jack Bruce - o baixista taquicardaco, como ele gostava de brincar. O msico em que o menino se espelhava, enquanto outros tinham como professor Sir Paul McCartney.

Do mesmo modo, ele seguiu suas aulas com os riffs de Noel, ouviu e pesquisou sobre as bandas antigas dos integrantes de Crosby, Stills & Nash e se encantou com Neil Young, recente integrante do trio - alm de descobrir que todos eles haviam se reunido nesse conjunto em busca de liberdade de criao e autonomia. Ento  por isso que o nome da banda tem o sobrenome de todos eles!, refletia o garoto sobre seus dolos. Um conjunto em que todos apareciam igualmente, sem destaques ou lderes. No qual prevalecia somente ela, a msica. A mesma que traria Nando mais uma vez para a realidade, longe de receios e frustraes pelo rompimento com a namorada.



A famlia de Nando tinha uma casa bonita, de esquina, no distrito de Muriqui, em Mangaratiba - cidade vizinha do Rio de Janeiro -, para a qual Nilson e Neusa levaram os seis filhos durante muitas frias. Para eles, um lugar de praia, amigos, romances e, consequentemente, problemas.

- Ins! Sua vagabunda! Voc no vale nada, piranha! Vai ver s! - gritava pela rua afora um rapaz bbado, por ter sido dispensado por Ins, irm mais velha de Nando.

Revoltado, com uma garrafa de vodca na mo, ele xingava a menina, Neusa, as irms, o pai, e todo mundo. Um moleque, acompanhado por sua turma, que no s passou pela porta da casa de Ins, como seguiu tropeando pelas pernas, at se perder no meio da noite.

- Meninas, vo dormir.  s um doido gritando - aconselhou Neusa, que, sem Nilson no momento, ao ver sua filha nervosa e chorando, preferiu botar panos quentes na histria.

No percebeu que Nando, o nico homem da casa, guardara calado a raiva que sentira. Ainda mais por ser Maria Ins, sua irm mais prxima. Ao acordar no dia seguinte, o menino mal tomou caf da manh. Apenas se levantou, se vestiu e avisou  irm querida que resolveria aquilo.

Ele sabia o que fazer e aonde ir: mureta do Muriqui Praia Clube, onde o pessoal costumava ficar. Seu sangue fervia, seu olhar estava decidido e seus passos eram firmes e rpidos. Meu pai no t a, mas isso no vai ficar assim!, dizia irritado entre os dentes enquanto andava. E s parou ao perceber o dito-cujo sentado no pequeno muro, no meio de uns quarenta meninos, conversando, bebendo e pegando sol.

- Ei, voc a! Levanta! - disparou o neto de Seu Bernardino para o garoto, apontando e se aproximando do grupo, sem medo de apanhar. Apesar de sozinho, falava grosso, como se no tivesse apenas 16 anos. - Olha s, no faz de novo, no! Voc ofendeu minha me, minha irm, a famlia toda! Se fizer isso de novo, vou ter que me embolar contigo, t ouvindo? Eu sou um s. Vocs so uns quarenta! Mas pode ter certeza que pra defender minha famlia eu pego uma arma se for preciso! - E falando com frieza, mas mantendo o tom de voz, continuou: - Se voc fizer de novo, voc vai ter que me matar! Porque seno eu vou matar voc! T entendendo? Toma cuidado! Eu posso ser pequeno, mas voc no imagina com quem t lidando! Estamos conversados?

E dizendo isso virou as costas e foi embora.

Lgico que o feito correu  boca pequena de Muriqui, e Nando, mais tranquilo, foi para o Rio de Janeiro no final de semana, porque tinha baile. Pegou o trem, desceu para tocar, voltou de madrugada e s retornou de manhzinha, s 8 horas. Porm, ao abrir a porta de casa, teve vontade de voltar na hora para o Rio de Janeiro. L estava o ex-namorado de sua irm, na cozinha, tomando caf com ela, como se nada tivesse acontecido.

- H? O que  isso aqui? - perguntou ele, achando aquela cena a mais surreal possvel.

- Fizemos as pazes - respondeu Ins, meio sem graa, enquanto o rapaz nem olhava para Nando, pasmo.

- T certo... - respondeu ele, desanimado, seguindo para o quarto.

No dava para ficar naquela cozinha. Justo ela fazendo uma daquela? Era demais para o menino, que pensou muito, antes de chamar todas as irms para uma conversa. A primeira e a ltima sobre aquele assunto.

- Quer saber de uma coisa? Ins e todas vocs: no contem mais comigo! Vocs que se virem pra l com seus namorados! Bandido, padre, mulher, no importa! Foda-se.

- Nando, no  assim...

-  sim, Ins! Porra, se voc queria voltar com ele custava vir falar comigo antes? No esperou nem eu voltar, caramba! Eu dei uma de babaca l na praia, n?

- No, irmo, no  isso... Mas tambm, voc queria que eu te falasse o qu?

- Que tal: Irmo, eu amo esse cara, vou tentar, me ajuda? Ele pediu desculpa. E eu ia falar pra deixar pra l! P, eu sou pequeno, mas fui o homem da casa naquela hora! Fui homem pra caralho! E voc passou por cima da minha valentia...

- Acho que voc t exagerando...

- Ah, na boa, Ins, eu no quero mais saber! E isso vale pra todas. No vou me meter mais na vida de nenhuma de vocs - disse ele para Maria Ins, Maria de Lourdes, Maria Helena, Maria Alice e at para a mais nova, Maria Cristina, a Tininha. A caula que ainda era criana na poca e que nem tinha comeado a namorar. Mas que lembraria desse papo anos depois, mais velha, ao se interessar por um msico da mesma banda de Nando, chamado Ricardo Feghali, e se casar com ele.



Depois do 2o ano cientfico, era chegada a vez do cursinho, e Nando saiu do Colgio de Aplicao para o curso Hlio Alonso, no Centro da cidade, para tentar a faculdade de direito. Assim como Abreu, Andr e os outros meninos da banda, que seguiram para outros cursos preparatrios, selando de vez o fim do The Kilroys.

- Mnimo, vou te apresentar um pessoal! Tem banda pra caramba por a! - chamou Carlinhos, guitarrista que conhecera na festa do Alto da Boa Vista.

No final dos anos 1960, havia muitos grupos no Rio de Janeiro fazendo bailes nos clubes, como Os Canibais, Analfabitles, Super Bacana, The Bubbles, The Red Snakes, The Sunshines, The Pops e Os Joias. E, como msico esbarra em msico, era s continuar tocando at achar uma banda que fosse profissional, lhe desse experincia e vontade de ficar.

Assim vieram Os Beatos, banda da Tijuca com a qual Nando tocaria algumas vezes a convite do guitarrista Lus Carlos. Um conjunto formado originalmente por Jorge Mauro na bateria, Reinaldo na guitarra e Mauro Salgado nos teclados. Msicos que esbarrariam em msicos e em outros grupos da regio, como um tal de Famks.



Uma nova namoradinha, que conhecera no curso preparatrio trouxe novas esperanas para o menino, que se via mais uma vez pleno, ao se sentir amado, acolhido e respeitado por aquela garota. Ele s queria saber dela: Margareth. Ou melhor, Meg. E at a msica ficou de lado para o garoto, que assumia o baixo apenas quando era necessrio.

- Fernando, quebra um galho? Amanh o cara no vai! O que a gente faz? - perguntou Paulo Pinto, amigo de seu pai, sobre a domingueira infantojuvenil que rolava no Sport Club Mackenzie, no Mier, das 15 s 19 horas.

- Putz, o conjunto furou pra amanh? Pra a que eu vou tentar te ajudar - disse Nando, ligando em seguida para Lus Carlos, guitarrista que conhecera nos Beatos.

- Lus, vamos fazer?

- Beleza. Vou chamar o Mauro. Ele agora t nos Famks, mas se no tiver baile ele faz.

- O Mauro  organista, n?

- Dos Beatos, lembra? S vai ficar faltando um batera - avisou Lus antes de desligar, deixando a pergunta para o menino do outro lado da linha.

- Bateria, bateria... Quem pode tocar no Mackenzie com a gente?

Repetia Nando sozinho pela casa, pensando em possveis nomes - antes de ouvir a sugesto de sua irm Maria de Lourdes, que estudava na mesa da sala:

- Vai ao Graja Tnis! O Fef, baterista do Die Panzers, Os motorizados, t sempre l.

Fernando, vulgo Fef ou Fefeu, tinha mais ou a menos a idade do primo de Nando, Marco Antnio, e tocava Beatles, Steppenwolf e outros rocks nos bailes das redondezas. Poderia servir.

- Oi, eu queria falar com o Fef! No sou scio, no, mas...

- Entra a! Ele t jogando bola na quadra - disse o atendente do clube, na portaria.

E o menino, mais que depressa, se posicionou do lado da quadra  espera do intervalo.

- P, eu queria falar com voc - se antecipou ele ao ver Fef saindo. - Voc no me conhece, no, mas...

- Claro que conheo, garoto! Voc  o irmo das gmeas, no ? P, j fui a vrias festas na tua casa. Voc mora no Graju, l em cima! Manda a. O que que voc quer, guri?

E Nando, animado, prosseguiu:

-  o seguinte: vai ter uma gig amanh no Mackenzie. Tenho que quebrar esse galho e...

- T dentro. Quando  o ensaio?

- Amanh de manh, s 8h30, pode ser? Voc leva a tua bateria, a gente passa umas msicas e depois vai pro clube.  s pra quebrar um galho mesmo.

- X comigo - respondeu Fef, voltando para o jogo, ao ver um lindo lanamento feito pelo seu time.

No dia seguinte, foi tudo muito rpido. Mauro chegou com o rgo, Lus Carlos, com a guitarra e Fef, com a bateria. Nando tinha os amplificadores e os quatro mandaram ver no repertrio improvisado. Tocando baixinho em casa, dando preferncia para as canes que eles mais conheciam. E conseguiram acertar umas trinta, antes de ir para o clube e montar a aparelhagem.

- P, t vazio, n? - indagou Nando, pronto para tocar, ao olhar para o salo deserto do Mackenzie. Se tivesse 15 pessoas, era muita coisa.

- Ah, foda-se, Nando. Vambora! - disse Lus Carlos, rindo, j pegando a guitarra para dar incio  domingueira, e com o aval dos outros integrantes, que tambm pouco se importavam com o pblico.

A prvia, de manh, na casa de Nando, tinha sido do cacete, como diria um deles. E qual era o problema se ningum quisesse ver o show daquela fantstica banda, recm-criada na vizinhana?

O grupo no tinha nome, durou um dia, quase ningum danou, e ainda surgiu um dinheirinho para os quatro brindarem, com uma garrafa de cerveja quente, no final. Um episdio que poderia ser trgico na viso de alguns msicos. Mas que, para Nando, seria uma doce lembrana, de um dos dias em que ele mais se divertiria tocando em sua vida.



Mauro tambm no se esqueceria daquela gig s moscas no Mackenzie. Principalmente ao saber, nos Famks, da sada do baterista Marcelo e do contrabaixista Tlio.

- P, Alceu, h um tempo eu quebrei o galho em um clube do Mier com dois Fernandos. So do Graja. Os caras tocam muito! A gente podia chamar os dois, o que acha? Eu no tenho o telefone deles, no, mas o Lus Carlos com certeza tem.

- U, Mauro, se voc t dizendo. Liga pro Lus Carlos! - concordou o vocalista Alceu, irmo do guitarrista Kiko, lderes dos Famks,**** em 1970.

- Vi, cad os telefones dos caras?

- P, Mauro, no chama o Nando, no...

- U, por que, Lus?

- Ah, cara. Ele  filhinho de papai, tem tudo que precisa. E eu no! T precisando de grana... Deixa que eu vou de baixo?

- Hum... Voc acha que segura?

- Tranquilo!

- Beleza, ento. Vou falar com o pessoal da banda.

Dias depois, Nando, passeando com Carlinhos pela festa junina de rua, viu Os Famks se apresentando na quermesse.

- Ih! Os Famks! Aquele garoto foi l do meu colgio! - disse Nando, apontando para Kiko na guitarra, passando depois os olhos pela bateria- P, o Fef t tocando com eles! - e, enfim, pelo baixo. - O Lus Carlos no baixo? Mas ele toca guitarra! Que porra  essa?

A resposta ele s saberia anos mais tarde.



- Voc toca baixo, no toca? - perguntou um dos meninos ao se aproximar de Nando, que assistia ao futebol de salo em um dos clubes perto de sua casa.

Ao lado dele, outro rapaz tambm esperava ansioso pela resposta, e nenhum dos dois parecia estar interessado no jogo.

- Toco, por qu? - respondeu Nando, sendo apresentado em seguida a Oliveiro, Juares e ao blues de 12 barras.

- Excitation  o nome do nosso conjunto! T afim?

- Blues com rock ou qualquer outra coisa que quiser! - disse rindo um dos garotos, j sentindo ganhar a simpatia e adeso de Nando.

E, a partir daquele dia, a banda seria formada por Juarez na bateria, Oliveiro na guitarra solo, Jnior na guitarra base e Nando no baixo - tendo depois Carlinhos na guitarra aps a sada de Oliveiro, o mineiro que convidara Nando para a banda. Um quarteto que levaria no repertrio bandas como MC5, Pacific Gas & Eletric e Canned Heat. De postura relaxada e irreverente no palco, diferente de todos os grupos em que Nando havia tocado!

- T indo mijar! - dizia Jnior, no meio da msica, no microfone, quando dava vontade de ir ao banheiro. Fazendo rir o pblico e os outros msicos do Excitation.

Fora o lcool, a maconha, a cocana, o LSD e todo o tipo de droga que eles usavam antes das apresentaes e nos ensaios. Todos chapados nos shows, no meio da fumaa, tendo como principal regra o improviso musical. Segundos, minutos, horas de solos improvisados, como toda banda de blues doze barras que se preze. Uma transgresso maravilhosa para um adolescente como Nando.

Por mais que ele no entrasse na onda das drogas dos outros integrantes, era muito bom estar no meio dos caras, tocando blues, rock, sem qualquer compromisso com o baixo original das canes. Sem precisar tocar exatamente como estava na verso, se permitindo aloprar, inventar e tirar novos sons do instrumento. Apenas deixando o baixo falar, desenhando livremente a melodia que lhe fizesse sentido.



- Vou pra Muriqui, Meg. T esgotado do vestibular. Vou descansar... Uma semaninha s! - disse Nando, aps passar para a Faculdade Nacional de Direito (FND), integrada  UFRJ.

- Tudo bem, Nando. Vou pra Campo Grande ficar com a minha famlia.

- Te amo muito, viu?

- D um beijo aqui, anda - disse a menina, que tambm tinha passado na prova, despedindo-se de Nando.

Sete dias de distncia e repouso para os futuros advogados. Poucos quilmetros que fariam a diferena.

Ao terminar as frias, Nando pegou o trem e seguiu para o bairro Campo Grande. No ligou avisando que ia, apenas correu para a casa dela, tomado de saudade. E ao chegar ao local, afoito, tocou a campainha e no esperou nem a me dela abrir a porta direito para perguntar:

- Cad a Meg?

Mas estranhou o olhar surpreso da mulher.

- U, meu filho... Ela foi embora pra Sucia.

- Como assim?

- Ai, Nando, voc no sabia? - indagou ela, j sem graa diante do menino.

Seu corpo gelou, seu corao, mais uma vez, parou, e ele teve medo de prosseguir. Mas seus ps no se mexiam, como se tivessem grudado no cho aguardando a notcia, fosse ela boa ou ruim. Seu instinto pressentiu e seu ouvido quis ficar surdo para no ter que escutar:

- Ela se casou, meu filho. Com o Marconi... Ele era seu amigo, no?

Enquanto seus olhos ficaram vazios.



Nando se fechou completamente depois da notcia sobre Margareth. Voltou para Muriqui, onde ficou dias isolado, remoendo o que poderia ter acontecido para ela fazer isso. Onde havia errado? E por que to rpido? Por qual instante ele passou despercebido? E s no ms seguinte retornou para o Rio de Janeiro, sem fora para ir para a faculdade. Sua sala inteira havia sido aprovada e era para Meg estar na mesma turma, na FND. O casalzinho do vestibular havia se rompido e ningum sabia! Como encarar os colegas?

O menino, com seus 17 anos, no queria ver as pessoas, no tinha nimo para fazer nada, muito menos para tocar! E tanto Nilson quanto Neusa no sabiam mais como agir ao ver o filho definhando, sozinho, sem pedir ajuda. Nando tinha ido para o fundo do poo e no queria dividir esse espao pequeno, silencioso e frio de sua alma. E enquanto o sofrimento no passava, ele preferia abra-lo, sem faculdade ou amigos que o lembrassem dela.

Margareth: a segunda paixo de Nando. A segunda decepo amorosa que o fez pensar em parar de tocar.



- Nando, voc t tocando ainda? - perguntou o empresrio dos Famks, Acio Javan, ao encontrar o garoto na casa de sua tia Jandira, com o cabelo ainda raspado do trote.

- No, cara, chega. Passei no vestibular e pendurei o contrabaixo. T com a cabea ruim...

- Tem certeza? Os Famks esto querendo falar com voc! O Lus Carlos t pra sair e o baterista falou que voc toca direitinho! Aparece l, bicho! D uma ensaiada!

- Sei no, Acio.

- J t melhor do que um no! - disse o empresrio com um leve sorriso, vendo uma pontinha de dvida no garoto.

- Um ensaio s, pode ser? Sem compromisso! - disse o garoto, como se estivesse negociando.

- Unzinho, Nando.

E l foi ele ao encontro de Alceu no vocal, Kiko na guitarra, Fef na bateria e Cleberson nos teclados.

- U, cad o Mauro? - perguntou ele ao topar com um rapaz magro, branquinho, de cabelos escuros e culos.

Um mineiro, que tinha entrado na banda h umas duas semanas, e no estava de bom humor ao saber da troca de baixista. Ele tinha acabado de aprender o repertrio dos Famks quando Lus Carlos saiu: P, vamos ter que ensaiar tudo de novo? Temperamento quente, que sobrou, lgico, para o questionamento sem propsito de Nando.

- P, qual  o teu problema, hein? Quer tocar com o Mauro ou com Os Famks?

- Ih, desculpa, cara. Eu conhecia o Mauro, perguntei por perguntar. Alis, meu nome  Nando e o seu?

- Cleberson, prazer. Agora assume sua posio pra gente tocar - respondeu o mineiro, no incio de 1971, apontando para o instrumento encostado na parede. O baixo de Nando, velho de guerra, que ao contrrio das mulheres, no queria deix-lo.



- Para, para, para... Rapidinho, gente - pediu Alceu para o grupo, fazendo sinais com a mo, na primeira msica de Nando.

- Nando, o baixo no  esse, no - avisou Cleberson, quando todos pararam.

- Mas eu vejo assim!

- Nando, mas tem que tirar igualizando.

- Porra, vocs so muito arrumadinhos!

E um clima estranho pairou naquele instante entre os integrantes. De um lado, Nando, firme em no copiar os baixistas, apenas pegando a inteno musical deles. Assim como fazia no Excitation. E, de outro, msicos que queriam tocar as canes de forma idntica s originais.

- P, gente, deixa o cara tocar do jeito dele! - interveio Fef, j sem pacincia com aquele climo.

- Mas isso no t certo!

- E por que no, Cleberson? Ele sabe tocar melhor do que vocs pensam! Deixa o garoto... - insistiu o baterista, j pegando as baquetas para recomear o ensaio, sem nem perceber os resmungos baixinhos de alguns msicos ou o sorriso tmido que Nando deu de lado.



- Neusa, eu no posso deixar! A msica no vai levar esse menino a lugar nenhum! - dizia Nilson para a mulher, quando Nando no estava em casa.

Ele apoiava a msica, e no a vida em funo dela. S que era o que estava acontecendo com seu filho desde o dia em que ele conhecera Os Famks - cada vez mais perto dos bailes e longe da faculdade de direito. Por isso, ele decidira pedir ajuda para os colegas do Hlio Alonso, tambm aprovados no vestibular: Pedro Lemos, Maria de Ftima, Joo Lus e Vera Lcia. Trabalhando em off durante um ano e meio, na tentativa de manter o Nando na advocacia.

Mas no adiantava, ele no ia s aulas! Com Os Famks, ele estava comeando a vocalizar, Alceu era caprichoso, os bailes eram bons, e o pagamento vinha todo ms. Muito melhor do que a faculdade e o fantasma de Margareth. Pelo menos, tocar lhe dava calma.

E, assim, sem perceber, Nando foi dando espao para a msica - a nica talvez capaz de aceit-lo por completo. Aquela que lhe daria liberdade, lhe deixando confortvel com seus sentimentos. Harmonias e melodias que voltariam inmeras vezes para a sua vida como um porto seguro.

Tanto que, no decorrer dos anos, Nando assumiria um ritual que manteria ainda como adulto, de ouvir, sozinho em seu canto, trs discos antes da festa de rveillon: o LP do festival de Woodstock, de 1969; Crosby, Stills & Nash, com Wooden Ships; e o Melhor de Luiz Vieira. Trs discos que carregam sons, imagens, perfumes, gostos e registros de quem ele . O Luiz Fernando que se impe, destemido. O Nando sonhador, introspectivo e sensvel. O Mnimo, dos amigos, tricolor, instvel e baixinho. E o Pingo: um ser no to plenamente percebido pelos outros, mas que guarda dentro de si um dos lugares mais incrveis e especiais.



Notas

* Lacerda foi governador do antigo estado da Guanabara entre 1960 e 1965.

** Este Kiko no  o integrante do Roupa Nova.

*** A inspirao de Hey Joe se encontra no trecho: Essa paixo  meu mundo / Um sentimento profundo.

**** Este Kiko no  o integrante do Roupa Nova.



CAPTULO 3

O HOMEM DO EXRCITO

Srgio Herval Holanda de Lima

Plantaes de laranjas se espalharam das zonas de morro s baixas colinas e plancies de Nova Iguau, no final do sculo XIX, alcanando as terras de seus oito distritos, no estado do Rio de Janeiro: Queimados, Cava, So Joo de Meriti, Bonfim, Xerm, Duque de Caixas, Estrela e Nilpolis. O que gerou desenvolvimento econmico para a regio, conhecida, posteriormente, como Baixada Fluminense.

As laranjas eram transportadas pelos trens entre os distritos, para depois serem levadas aos portos da capital para exportao. E as flores brancas dos laranjais, alm de formosas, borrifavam o caminho com um cheiro delicioso, entre doce e ctrico. Algo que os trabalhadores no deixariam de notar em sua paisagem, sobretudo no perodo de 1920 a 1940 - auge da produo. Tanto que Nova Iguau passou a ser chamada de Cidade Perfume.

Um cenrio que se transformaria por completo aps o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, aliado  exploso demogrfica na rea e s disputas polticas locais. Primeiro, devido  crise econmica que resultou no fim do cultivo e exportao da laranja; e, segundo, pelas emancipaes dos territrios adjacentes, como o da pequena Nilpolis em 1947 - vizinha do Rio de Janeiro, que sofria diretamente as influncias da metrpole.

A Baixada Fluminense, ento, foi se tornando mais industrial e comercial nas dcadas de 1950 e 1960, recebendo grande fluxo de migrantes - muitos deles nordestinos. E de seu passado frutfero e perfumado restariam poucos resqucios, como o nome de um dos distritos de Nilpolis: Olinda, que em latim significa cheirosa. Um lugar completamente diferente da Olinda l de Pernambuco - dos frevos e das ladeiras -, mas que seria perfeito aos olhos do pernambucano Jos Pedro para chamar de lar, aps sua estadia no subrbio do Rio de Janeiro. Principalmente aquele apartamento do quinto andar, do nico edifcio da avenida Getlio de Moura. O grandioso prdio de dez andares Walter Casemiro, que talvez fosse, em 1967, o mais alto de toda a cidade. A construo mais nova de Nilpolis, que em vez do perfume recebia seus ares de modernidade.



Jos Pedro veio do Nordeste para o Rio de Janeiro com sua mulher Teresinha, em busca de melhores condies de vida na dcada de 1950. Ele era do Exrcito desde o final dos anos 1940 e tinha a patente de sargento msico por tocar trompete; ela era cearense, atriz com belas passagens pelas radionovelas da Cear Rdio Clube. Era uma poca em que as famlias se reuniam  noite, depois do jantar, ao redor do rdio para escutar bonitas histrias e msica. Ambos tinham o som como um dos elementos fundamentais de suas vidas.

Primeiro, foi o sino da igreja aps oficializarem o casamento; depois, os barulhos do Rio de Janeiro; para ento os dois serem tomados pelo choro de Silvia Helena - a primeira filha do casal, em meados dos anos 1950. At chegar o caula, Srgio Herval, em 3 de fevereiro de 1958, carinhosamente chamado de Serginho. Um garoto branquinho, magro, de cabelos lisos e escuros, que desde novo impressionaria o pai ao tentar criar tambm os seus prprios sons.

- J viu como ele fica com os tambores? - perguntou certa vez Jos para Teresinha.

Se referia ao presente que o menino ganhara aos 5 anos: dois tambores de plstico com peles de couro, daquelas que esticam no calor e ficam mais graves quando o tempo esfria. Um brinquedo que Serginho arrastava pela casa, fazendo minishows para a famlia.

- ... No sei, no. Vai ver ele vai ser msico! - brincou Teresinha, sem imaginar que isso daria uma ideia para o marido.

Jos Pedro era um homem criativo, quase um Professor Pardal, daqueles habilidosos que consertam tudo em casa, no necessariamente da maneira convencional. Quebrou o suporte do ventilador? Por que no pegar uma haste de metal do varal para substituir a pea? Aps alguns ajustes, ningum ficaria sentindo calor. Assim era Jos... O tipo de homem que no esperava por uma soluo. Ele a inventava. Por isso, rapidamente, pegou duas latas de leite em p e, aproveitando as tampas dos potes, fez os pratos, como se fossem de uma bateria. Juntou os potes aos tambores de plstico e deu para o menino um microinstrumento de percusso, para que ele testasse suas habilidades.

Tambores acoplados com latas que seriam, ento, eleitos por Serginho como o melhor brinquedo do universo! E nem adiantava tentar tir-lo do cho, sentado no meio daquela estrutura mirabolante. Na verdade, o melhor a fazer, neste caso, seria ligar a vitrola.

O pai estava sempre atento  evoluo musical do menino, que tentava tocar em sua bateria no mesmo volume das caixas e, sobretudo, no mesmo tempo das canes. Sem nunca ter ouvido falar no tal de metrnomo. Aprimorando cada vez mais as batidas e as viradas no tempo certo, tomando gosto pelo instrumento e deixando o pai para l de orgulhoso. Ao ponto de Jos Pedro decidir presentear o filho de 8 anos, em 1966, com uma bateria miniprofissional. Ainda mais depois de ler a cartinha que Srgio escreveu para o Papai Noel, pedindo o instrumento como presente de Natal.

- Pai, voc bota nos Correios pra mim?

A mesma bateria que Serginho depois carregaria, cheio de cuidado, ao passar pela portaria do prdio em Olinda, ao fazer a mudana de casa, em 1967.

- Pai, onde eu coloco a bateria?

Uma Gope com bumbo de 18, de metal, e com peles de couro de animal, que mudava toda hora de som por causa do clima. Bateria em que Serginho mal conseguia alcanar os pedais. Mas que o fazia se sentir grande e imponente como aquele edifcio Walter Casemiro.



Jos Pedro comeou a comprar discos que seu filho pudesse gostar, para continuar o incentivando com a bateria - procurando bandas mais modernas e de canes danantes, tocadas pelos jovens nos bailes. E foi assim que os Beatles entraram na vida do menino, de vocais maravilhosos com os quais ele se identificara de imediato, embora nunca tivesse pensado em cantar.

Serginho passava horas tentando tocar as canes em sua Gope do mesmo jeito que estavam na gravao. Quebrando a cabea para entender as novidades musicais que percebia em Ringo Starr, como a flanela abafando a caixa mudando os timbres da bateria e o uso de batidas invertidas. Sem dvida, ele era seu baterista predileto, um dolo para imitar at chegar  perfeio.



Mug veio ao mundo em 1966: um boneco de pano preto roupa xadrez de cabelo e nariz vermelho. Originalmente, seria apenas o mascote de uma marca de roupa do mesmo nome. No entanto, devido a uma forte campanha publicitria, essa bolinha meio desengonada ganhou a fama de ser um amuleto da sorte e se tornou pea fundamental na vida de muita gente.

Chico Buarque, por exemplo, eleito pela revista Fatos e Fotos em 1966 como Jovem do Ano, aps vencer o II Festival da Msica Popular Brasileira, posou para a capa da magazine ao lado de Mug e atribuiu ao boneco seu ano de sucesso. O cantor Wilson Simonal, por sua vez, batizou sua turn, naquele mesmo ano, de Mugnfico Simonal e comps com Jos Guimares a msica Samba do Mug. At o cartunista Maurcio de Sousa criou uma srie de tiras sobre as peripcias do boneco para o jornal Folha de So Paulo.

Smbolo de sorte e bonana, Mug teria sido inspirao da filosofia zoroastriana, no mar Morto; alm de figura importante na construo do imprio de Ramss III, nas vitrias de Napoleo, na descoberta da plvora pelos chineses e nas conquistas sexuais de Clepatra. Uma presena quase divina que tambm estaria na apresentao da banda Mugnatas, no edifcio Walter Casemiro, em 1968. Ocasio em que Maurcio Alves conheceu Serginho.



O conjunto Mugnatas foi convidado para tocar, em 1968, no aniversrio de Maurinho, um dos meninos que moravam no edifcio Walter Casemiro. E, por isso, os integrantes da banda chegaram mais cedo no play para armar o equipamento e passar o som.

- Vamos mais uma vez? - Disse o baixista Maurcio para o baterista, Valmir, sobre repetir Sgt. Peppers, dos Beatles, que estava no repertrio, no mesmo instante em que se aproximava Jos Pedro, ao lado de Serginho, ambos visivelmente interessados naquele miniensaio.

Hum... acho que a gente t agradando..., pensou Maurcio aps cantar o refro, j imaginando que o homem mais velho devia ser o pai do menino. Um pirralho magrinho, de cabelos escuros to lisos que parecia o Romeu, do filme Romeu e Julieta dos cinemas - e que batia os ps no ritmo da cano.

- Agora foi, hein? - disse Maurcio, satisfeito, aps cantar o ltimo verso, j tirando o baixo de seu corpo para colocar no suporte, enquanto os outros componentes tambm se preparavam para ir embora.

Todos tinham entre 15 e 17 anos e moravam naquela regio, ou seja, dava para ir rapidinho em casa para tomar um banho e comer alguma coisa antes da festa. E era o que Maurcio pretendia fazer ao ir em direo  porta do play quando Jos Pedro encostou a mo em seu ombro e perguntou se seu filho poderia dar uma canja no show deles.

- T brincando, n?

- No, ele  muito bom!

- Desculpe, mas no vai dar, no. Isso aqui  um conjunto srio. - respondeu ele, se despedindo de Jos Pedro, fazendo um gesto com a cabea - crente de que aquele no iria bastar para o tal homem - antes de sair correndo para casa, pensando Eu hein... S me faltava essa! Aquele moleque deve ter uns 10 anos!

Maurcio voltou para a festa uma hora depois, e o som pde ento comear. Influenciado pelos discos dos Beatles e Rolling Stones, e pela Jovem Guarda no Brasil, o grupo s queria saber de rocknroll - o que agradava em cheio os jovens que iam chegando ao salo. Todos conhecidos de Maurcio, que se divertia junto  banda tocando aquelas canes, no clima de meia-luz do play. A festa t ficando legal..., pensava ele, sorrindo para a plateia, cada vez mais animada. P, o som t redondinho..., confiando piamente no ensaio, sem nem olhar para trs no final das msicas. At tomar um susto, de repente, em uma das execues. Uau! A bateria cresceu! Principalmente ao se deparar com Serginho, sentado no banco da bateria, no lugar de Valmir - que, diferente dele, deixou que o menino desse a canja.

- Isso no existe... - disse Maurcio, baixinho, embasbacado, olhando a bateria, sem acreditar que um garoto mirrado e novo pudesse tocar tanto!

Era impressionante. E, por alguns segundos, ele at esqueceu o baixo mudo.



Depois do show dos Mugnatas no Walter Casemiro, o nome de Serginho passou a circular pelas bocas do bairro e chegou ao conhecimento de um tecladista de 13 anos chamado Lincoln Olivetti. Um garoto que tocava piano desde os 4 anos, com exaustivos treinos em sua casa, e estava recrutando integrantes para formar a sua primeira banda.

Lincoln estudava no colgio Nilopolitano, no Centro de Nilpolis - na srie anterior a de Maurcio. E era vizinho de Serginho, em Olinda, o que facilitou a aproximao entre os dois, e a entrada do baterista na banda, com a aprovao de Jos Pedro. Quer dizer, seu Z, como o pai de Serginho seria chamado no bairro. Fechando a formao do conjunto com Srgio na guitarra, Renato no baixo, Ramilson na outra guitarra, Lincoln no teclado e Serginho na bateria - sob o nome de: The Suns Five, uma banda que se apresentaria poucas vezes no bairro e iria durar apenas seis meses. A experincia necessria para um verdadeiro msico querer mais.



Nas dcadas de 1950 e 1960, tornou-se moda destacar o nome do principal msico da banda no ttulo dos discos e do prprio grupo. Entre eles estavam Ed Lincoln e seu Conjunto, Lafayette e seu Conjunto, Eumir Deodato e Os Catedrticos, Walter Wanderley e seu Conjunto, Waldir Calmon e seu Conjunto, Donato e seu Conjunto - no geral, nomes de tecladistas e pianistas, responsveis pelos arranjos das canes.

Assim, no seria de se estranhar que em 1968, depois do trmino de The Suns Five, Milton, pai de Lincoln, o incentivaria a criar Lincoln Olivetti e seu Conjunto. Com Maurcio no baixo, aps sair dos Mugnatas, Mazinho na guitarra e Serginho na bateria - outra vez o mais novo da formao e o nico que no fazia a voz principal das msicas. Nome de profissional para os quatro garotos se apresentarem nas festas de igreja, aniversrios e casamentos da regio. Determinados, inclusive, a ganhar um trocado para isso, como gente grande.



Seu Z acordou mais cedo que o normal naquele dia de 1968, e no foi para o Exrcito como sempre fazia. Colocou uma roupa bonita, ajeitou a gola da camisa, tomou um caf, comeu um po com manteiga e pegou os documentos que havia separado em cima da mesa.

Deu um beijo nos filhos que dormiam, despediu-se de Teresinha e foi para a rua pegar um nibus que o levasse at o Juizado de Menores. Onde teria que prestar contas de que ele, Jos Pedro Rodrigues de Lima, autorizava seu filho a trabalhar como msico antes dos 14 anos.

- Quantos anos ele tem? - perguntou o atendente do Juizado, enquanto conferia os documentos de Serginho.

- 10.

- 10???

A que seu Z respondeu cheio de orgulho:

- Isso! E toca bateria que  uma maravilha!

- Hum... Esses pedidos so mais difceis... - falou o atendente, jogando o corpo para trs, encostando as costas na cadeira, enquanto lia os documentos que estavam em sua mo.

- Eu sei que ele  muito novo. Mas esse menino tem muito talento! Eu me comprometo a ir a todas as apresentaes dele!

A que o atendente fez uma cara de desconfiado.

- O senhor t me garantindo que ir a todos os bailes de seu filho?

- Todos. Sem exceo.

- Hum... T, por favor, escreva isso aqui tambm - disse ele entregando o papel e a caneta para que seu Z escrevesse tal promessa de prprio punho. O compromisso de estar, integralmente, ao lado de seu filho, perante a lei.

- Mas se o senhor no for...

- Eu sei, eu sei. E isso no vai acontecer - disse ele com tanta tranquilidade, que no restou dvida para o atendente.

- Por favor, Jos Pedro, assine aqui.

Carimbando e autenticando um papel enorme, que mais parecia um jornal, com todas as condies estabelecidas para que Srgio Herval pudesse tocar nas festas, sob os olhares envaidecidos de seu pai. Msico profissional com apenas 10 anos de idade.



- Essa bateria t andando, no? - perguntou seu Z para o filho, aps assistir a um dos ensaios do Lincoln Olivetti e seu Conjunto, no edifcio Walter Casemiro.

- Acho que um pouco, pai... s vezes eu pego pesado.

Respondeu, rindo, Serginho, que era meio cavalinho para tocar, como diziam seus amigos, apesar de ser magrelo e pequeno.

Assim, seu Z passou a tarde inteira de um final de semana pensando em como poderia deixar a bateria firme para que Serginho pudesse tocar. E, no final, inventou um minipalco, como se fosse um praticvel das bandas profissionais, onde ele poderia prender a bateria com conexes de cano, para que ela no andasse mais - independente da fora de Serginho. Um instrumento pelo qual seu Z tinha o maior dos apreos. Ele mesmo armava a bateria nos bailes e cuidava de sua estrutura, limpando os pratos s depois de ter vestido luvas nas mos para no arranhar, nem oxidar os metais. O melhor dos roadies que um msico poderia ter. Zelando por cada detalhezinho da bateria com muita dedicao e amor, como se ela fosse seu prprio filho.



- Hum... Ainda no  isso! - disse Serginho, sozinho no quarto, com um violo nos braos, colocando para rodar mais uma vez o disco dos Rolling Stones na sua vitrolinha da Philips.

Tentava captar qual era a nota certa daquela cano para poder imit-la no instrumento - onde ele exercitaria as posies dos acordes e tambm os solos de guitarra -, quando no estivesse tocando bateria. Eu vou conseguir, pensava Serginho, persistente - buscando ser o melhor msico que poderia ser.

Para estudar, o menino utilizava a vitrolinha da Philips, que tinha trs velocidades - 33, 45 e 78 rpm. Ouvia os LPs na reproduo mais lenta, para poder tocar junto com a msica, aprendendo nota por nota. E, s depois de repetir a sequncia inmeras vezes, acelerava a velocidade - fazendo isso quantas vezes fossem necessrias at decorar a cano. Treinando por sua conta com uma disciplina rigorosa e severa - quase militar.



Os bailes do Lincoln Olivetti e seu Conjunto passaram a ser requisitados pelos clubes da regio, em 1969, de to bons que estavam ficando - tendo em seu repertrio bandas de rock como Deep Purple, Led Zeppelin, Genesis, e msicas que se tornavam hits nas rdios, alm de um set especial animado que eles tocavam com as canes do mexicano Carlos Santana. Isso fez com que Carlos Lincoln,* diretor social do Esporte Clube Anchieta, no bairro de mesmo nome, limite com Nilpolis, os contratasse. At porque ele conhecia o dono do cartrio de Olinda, seu Milton, tambm pai de Lincoln, e no custava nada dar uma fora para os garotos.

- Gente, mas  esse menininho quem vai tocar? - perguntou ele para a secretria do clube, abismada ao ver seu Z segurando Serginho no colo para coloc-lo no meio da bateria.

Um garoto mirrado e apagadinho, que se transformou aos olhos de Carlos Lincoln quando o grupo comeou a tocar.

- Meu Deus! O garoto  um monstro na bateria!

No resistindo depois em passar pelo seu Z para elogiar o garoto, daquele jeito galhofeiro tpico de Carlos Lincoln:

- , dona Jos! Seu filho t de parabns, hein? Muito bom!

Brincando com a pose de militar duro que seu Z mantinha durante os bailes do filho - como se ele fosse um vigilante da segurana e bem-estar de Serginho. Mas que no deixava de se derreter ao ouvir um elogio sobre o garoto.

- Obrigado, Lincoln.

Como todo pai.



Em paralelo com Lincoln Olivetti e seu Conjunto, Serginho comeou a se apresentar como msico em outros lugares. Como na Noite do P Grande, no Ideal Esporte Clube, em Olinda, nas quartas-feiras. At hoje no se sabe exatamente o porqu desse nome de baile mas, se as pessoas estivessem danando e se divertindo, estava tudo bem.

Naquele evento, Serginho tocava com Maurcio e Mazinho, alm de Ivan, tambm da regio, como cantor. A banda no tinha nome e os ensaios aconteciam no edifcio Walter Casemiro - com seu Z recebendo todos os meninos em sua casa, como se fossem filhos dele. Momento em que Serginho comeou a se sentir mais  vontade para cantar nos ensaios.

E melhor: cantar e tocar ao mesmo tempo! At ento, Serginho s cantava quando precisava de backing vocal nos bailes do Lincoln. E como a banda s tinha um microfone, quem estivesse cantando deveria se afastar para trs no palco, para pegar o som da voz dos outros msicos fazendo backing vocal. Uma tcnica meio mambembe que quebrava o galho dos bailes, mas que acabou servindo para que o garoto, naturalmente, aos poucos, fosse descobrindo o seu tom.

Assim, no incio da dcada de 1970, o salo do Ideal Esporte Clube foi todo enfeitado de luz negra para a Noite do P Grande, com uma banda sem nome tocando msicas dos Beatles, do Bread, de Elton John e tantos outros hits. Lugar onde muitos casais e amigos danaram, sem nem notar que, s vezes, a voz das canes vinha de trs da bateria.



No incio de 1970, Maurcio saiu do Lincoln Olivetti e seu Conjunto e entrou no Soluo 70. Banda criada na Tijuca, no Orfeo Portugal, que contava com grandes msicos em sua formao - entre eles o maestro e saxofonista Dulcilando Pereira, arranjador de 32 anos de idade, j experiente na poca, e que seria conhecido no Brasil pelo nome de onde nasceu: Maca. Assim que Maurcio entrou na banda, Maca disse que eles precisavam de um baterista.

E na semana seguinte, Maurcio apareceu no ensaio com Serginho e seu Z a tiracolo, para a felicidade de Maca, que chamou o resto dos integrantes para tocar.

Como seu Z chegou ao lado de Maurcio, carregando os pratos, Maca deduziu que seu Z era o baterista. E ignorou solenemente quando o baixista apontou para Serginho, enquanto seu Z montava o instrumento.

- , o baterista  aquele ali!

No mnimo pensando que ele estava de brincadeira - at ver Serginho sentado na bateria.

- Maurcio, voc t falando srio? Voc trouxe uma criana?

A que o baixista com a cara mais lavada do mundo respondeu:

- , u.

- Ah, ? Ento t! Vamos de Does Anybody Really Know What Time It Is - disse Maca, lanando o desafio.

Msica da banda americana Chicago, de execuo inicial complicada e algo que um garoto de 12 anos no conseguiria nunca tocar! Maurcio tem cada uma..., pensou Maca, irritado, antes de colocar a msica para tocar na vitrola.

Porm, ao ver Serginho tocando com tamanha destreza a introduo da msica, fazendo com preciso as mudanas de compassos, ele no resistiu e teve uma crise de riso.

- Bicho, eu no acredito...

E ningum mais tocou, at o garoto terminar.



O Soluo 70 s existiu durante o ano de 1970, e terminou devido a desavenas dos integrantes com o dono da banda. Perodo em que Serginho se mantivera tambm afastado do Lincoln Olivetti e seu Conjunto. Nessa poca, Lincoln estava tocando com uns paraguaios e havia mudado, inclusive, o nome de apresentao para Lincoln Olivetti e Los Rebeldes.

Depois do Soluo 70, Maurcio, Serginho e Mazinho - que tambm tinha sado do Lincoln - tentaram se juntar ao Lafayette e seu Conjunto. No entanto, apenas Mazinho ficou, j que seu Z e Lafayette no conseguiram entrar em um acordo.

- Lafayette, voc no pode esconder os msicos!

- Seu Z, me desculpe, mas  assim que a gente funciona.

Na estrutura do conjunto, Lafayette ficava na frente do palco, e o resto dos msicos atrs. O baterista ficava diretamente nas costas dele, meio que escondido. O que para seu Z era um crime.

Serginho no ficaria na banda. E Maurcio, que estava junto de seu Z, tambm no ficou.



Ainda com 12 anos, Serginho ganhou uma nova bateria de seu Z. Uma Pinguim branca, com a qual ele tocaria durante muitos anos de sua vida. E seria com ela que o garoto voltaria a tocar com Lincoln Olivetti, em 1971, depois que o tecladista desfez a banda com os paraguaios. J Maurcio decidiria entrar em um conjunto de baile mais profissional da poca, chamado de Super Bacana. Ao contrrio de Mazinho, que depois do Lafayette, tambm resolvera retornar  antiga banda.

Era o recomeo de Lincoln Olivetti e seu Conjunto - com novos bailes marcados por todos os lugares do Rio de Janeiro, seja em clubes como Vasquinho de Morro Agudo, em Nova Iguau, uma festa de Olinda ou um casamento na Ilha do Governador. Por onde tambm passariam cantores como Osmar Santos - um garoto no to rocknroll, ligado nas canes de Chico Buarque, e que, no futuro, faria parte de Os Famks.



- Gente, esse  o Everson! Ele vai ser nosso carregador - disse Lincoln, sorridente, apontando para o garoto que entrava ao seu lado, em um dos ensaios do conjunto, enquanto Everson cumprimentava todos os msicos, feliz da vida por participar de alguma forma da banda.

Everson Dias tambm morava em Olinda, do lado do prdio Walter Casemiro, e conheceu Lincoln por acaso. Diferente dos msicos, ele estudava de noite e, por isso, passava o dia inteiro no estofador em frente a sua casa, ajudando o dono da lojinha a desmontar sofs para ganhar uns trocados. At que um dia Lincoln apareceu querendo trocar algumas coisas que tinha em casa.

E Everson foi. Mas, chegando l, o pedido mudou quando Lincoln olhou o estado dos equipamentos musicais.

- P, cara, isso t muito sujo... No quer limpar, no? Te dou uma graninha!

Isso se transformaria em outro convite de Lincoln, aps o bom trabalho feito por Everson.

- Putz, ficou novo! Vem c, no quer trabalhar comigo, no?

Everson, ento, ganhou a funo de cuidar dos equipamentos de Lincoln, alm de ser carregador de seu conjunto. E passou a conviver com os integrantes da banda e tambm com seu Z, que olhava desconfiado quando Everson fazia inteno de ajud-lo com a bateria.



Um garoto magro, de cabelos e olhos escuros, de Mallet, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, se apresentou para uma audio de Lincoln Olivetti e seu Conjunto - na tentativa de ser cantor e tambm guitarrista da banda. Seu nome era Paulo Massadas, dono de uma voz aguda e estridente, como a do vocalista do Led Zeppelin. O que encantou o tecladista logo de imediato.

- Poxa, cara! Voc tem uma voz fantstica! Vai cantar a parte do rock e tocar baixo, t?

- Mas eu no toco baixo!

- Ento voc vai aprender - disse Lincoln, responsvel por ensinar Paulo Massadas a tocar baixo nos ensaios. Embora ele sempre ficasse nervoso quando a namorada ia aos bailes, errando todas as cordas existentes do instrumento, compensava todas as notas atrapalhadas ao pegar o microfone para cantar I Dont Need No Doctor, gravada pela Humble Pie.

Um vocalista divertido, que nos bailes no podia ver um conhecido na plateia sem fazer uma brincadeira no microfone. Se Everson levava a sua me para assistir ao show, por exemplo, Paulo anunciava:

- Senhoras e senhores, gostaria de convidar todos para o casamento da me de Everson, aqui presente, com Serginho, nosso baterista!

E todos morriam de rir, inclusive os msicos - meninos, entre 11 e 16 anos, que passavam horas do dia tirando as canes exatamente da forma que elas eram no rdio, que ficavam noites e noites na portaria do Walter Casemiro conversando, em uma roda de violo.



Baile de Lincoln Olivetti e seu Conjunto, no Ideal Esporte Clube, em Olinda. Todos esperavam ansiosamente pela parte do rocknroll, com Paulo Massadas arrebentando no vocal. No entanto, o mais curioso era notar a troca de instrumentos entre Serginho e Mazinho. O guitarrista assumia, na boa, a bateria, deixando o filho de seu Z fazer todos os solos de guitarra das msicas. Nesse ponto, Serginho tinha mais destreza que ele. E o show seguia.



- Seu Z, aprendi as medidas!

- Ai, Everson... Voc quer mesmo montar a bateria, hein?

- Quero, u! - insistiu o menino, se interessando cada vez mais por msica.

- Hum... T, vai... Pode fazer dessa vez.

- Srio?

- No me pergunta de novo que eu desisto.

E o garoto j ia saindo todo serelepe para pegar a bateria, quando ouviu:

- Mas tem que usar luvas!

- T, t, eu sei, eu sei...

Seu Z realmente deixou Everson montar a bateria de Serginho a partir daquele dia. Mas no saa de perto enquanto ele fazia a tarefa, dando sugestes em quase todos os instantes.

- Coloca um pouquinho mais pra l, Everson... Mais pra l.

Observando todos os movimentos do menino, que seria o nico roadie de Serginho autorizado por ele. Sem nunca relaxar, apesar do capricho de Everson com a bateria, certo de que ningum faria aquela funo como ele.



Em 1972, Lincoln Olivetti recebeu um convite para trabalhar com o cantor Antnio Marcos, em So Paulo, e terminou com seu conjunto no Rio de Janeiro. Seu Z ento decidiu procurar Maurcio, no Super Bacana, na tentativa de encaixar o filho em uma nova banda. S que o baixista j estava de sada, pois havia brigado com o empresrio, que lhe devia dinheiro.

- Ah, essa profisso  foda, seu Z... Lotando clube com o Super Bacana e sem um tosto no bolso? Como  que pode isso?  capaz deles nem me pagarem o que devem.

- Eu vou l conversar com eles sobre a dvida. Deixa comigo! - falou seu Z, como se tudo j estivesse resolvido.

E estava.



Seu Z foi para o Super Bacana conversar com Vantuil** e Roberto Lany, que estavam  frente da banda. E Serginho entrou na nova formao do conjunto, que tinha Guto, Messias, Tianes, Jonj, Quito e Toninho, aps vrias reivindicaes de seu Z serem atendidas, inclusive o pagamento atrasado de Maurcio. Everson foi junto, como roadie de seu filho, j sabendo de cor a altura da caixa, a abertura adequada, como limpar os pratos no estilo seu Z e todos os outros detalhes importantes.

Os equipamentos da banda no eram dos melhores, ainda mais em uma poca em que no se falava sobre retorno, ou microfonao de bateria. Mas com o tempo, e a presso de seu Z, o conjunto foi adquirindo equipamentos mais novos. Alm disso, o Super Bacana contava com uma Ludwig, com dois bumbos e quatro tons - bateria que Serginho adorava tocar, como se fosse um adulto experimentando a direo de um novo carro.

Alm das exigncias tcnicas, seu Z ainda brigaria no Super Bacana por outras coisas por causa de Serginho - desde decises srias, como agendamento de eventos e pagamento, at pontos mais simples. Por exemplo, nos intervalos dos bailes, quando era servida para os msicos aquela bandeja horrorosa com batata frita gordurenta de lanche, ele se metia no meio:

- Deixa eu pegar pro Serginho! - defendendo seu filho de 14 anos dos msicos maiores, sem pestanejar, como um verdadeiro chefe de famlia.

Intervenes que, s vezes, causavam desgastes entre ele e os integrantes, mas que no o impediriam de continuar por perto. Alis, nada nem ningum o fariam abandonar suas obrigaes e aquela especial misso.



No Super Bacana, Serginho continuaria tirando as notas de sua vitrolinha da Philips, liderando intuitivamente o grupo quando o assunto era msica.

Ele tambm se firmava no cenrio dos bailes com a postura de baterista-cantor, embora o instrumento ainda fosse bem maior que ele, quase o tampando por completo em suas execues. E no havia uma s pessoa que no se espantasse ao ver aquele talento mirim, evoluindo musicalmente a passos de gigante.

Em 1973, com 15 anos, ele j tocava canes rebuscadas e sofisticadas como I Know What I Like, lanada pelo Genesis. E depois ainda seria convidado pelo estdio da Musidisc, com Max Pierre como tcnico de udio, para gravar quatro msicas tocando bateria e cantando em ingls. Congregation era o nome da banda inventada por Max, e uma das composies foi How Can I Tell You, de Mauro Machado, tendo Mazinho como o guitarrista da gravao. Um compacto simples que no iria acontecer no mercado, mas que para seu Z serviria como mais uma confirmao do potencial de seu filho.

Depois de sair do Super Bacana, no final de 1973, Serginho seria chamado para participar de outras formaes musicais, como da banda Moeda Quebrada e do conjunto novo do trombonista Ed Maciel. Alm disso, conquistaria admiradores pelo seu trabalho, entre eles um menino l do Catumbi, dono de um grupo conhecido como Los Panchos.

- Caramba... Ele toca muito! - disse Ricardo Feghali, quando o assistiu pela primeira vez tocando pelo Super Bacana em um dos clubes, e j pensando em cham-lo para tocar assim que tivesse uma oportunidade.



Dos meninos de Olinda, alguns seguiriam outros caminhos diferentes da msica com o passar dos anos, como Maurcio Alves, que se tornaria comissrio de bordo, embora continuasse tocando violo nas horas vagas. Outros se manteriam nesta estrada, como Everson Dias, que se tornaria tcnico de udio e produtor; Paulo Massadas, um dos maiores hitmakers brasileiros; e Lincoln Olivetti, um dos principais arranjadores da msica brasileira no final da dcada de 1970, incio de 1980 - carregando o apelido de O Mago do Pop. E dentro deste segundo grupo tambm estaria Serginho, que se tornaria referncia no Brasil como baterista, sendo nacionalmente conhecido pelo segundo nome Herval, s vezes confundido como sobrenome.

Herval, ttulo escolhido por seus pais com todo amor - do francs Herv, do germnico Heriwig e Heriveus. Uma palavra que acompanharia o baterista por toda a sua trajetria musical e, por isso mesmo, no poderia ter outro significado seno o homem do exrcito. Um militar de atitude e pronto para o combate - figura que Serginho cresceu chamando de pai.



Notas

* Carlos Lincoln depois seria diretor do Guadalupe Country Club e empresrio do Painel de Controle, banda de baile dos anos 1970.

** Vantuil tambm seria empresrio de Lafayette e seu Conjunto.



CAPTULO 4

FAZEMOS QUALQUER NEGCIO

Ricardo Georges Feghali

Antoine corria desesperadamente, bufando muito, com o corpo cansado, mas sem olhar pra trs. J tinha tomado dois tiros de fuzil na perna e estava difcil continuar sua trajetria de fuga, mas era preciso. Aquela situao no iria mudar, cristos maronitas e muulmanos no se entenderiam e ele sentia que, infelizmente, ali, em sua terra natal, no seria possvel viver. Corria muito, determinado a se ver longe daquela loucura! Mas a cada passo que dava tambm deixava mais distante seus pais, sua famlia, seu bero dourado.

Beirute era uma grande cidade e, aps a independncia do Lbano, se tornara a capital do pas. Era tradicionalmente o maior centro de comrcio e comunicao da regio, com intenso trfego terrestre e porturio. Tinha ares de desenvolvimento e riqueza, a chamada Sua do Oriente. Porm, apesar das altas negociaes de petrleo, hotis de luxo e cassinos, escondia em seus meandros a pobreza e uma enorme dificuldade de seus habitantes em lidar com as diferenas tnicas e religiosas.

O menino de origem rica, catlico apostlico romano, sem nunca ter trabalhado, tinha s 19 anos quando resolveu meter o p no mundo e abandonar sua vida em troca de paz. Agarrado ao pensamento de fugir das milcias, ele apenas corria, corria, em direo ao mar, aos barcos que tanto traziam fortuna para sua terra, para que eles tambm pudessem lev-lo de l.

Era incio dos anos 1950 quando Antoine Gergi Feghali conseguiu partir - sem ver as bombas, a destruio e as exploses que atingiriam Beirute no final da dcada de 1970, em uma guerra civil multifacetada e traumatizante. Uma viagem de barco que demoraria dias at o garoto conseguir desembarcar no Brasil, onde assumiria, definitivamente, o nome de Albert Feghali.



Nilza estava para casar com um cidado riqussimo de Ribeiro Preto, quando viu um garoto esbelto, moreno, bem bonitinho entrando na loja de sua me, Jandira Saib Afaish.

- Me, quem ? - sussurrou a menina ao v-lo se aproximar acompanhado de Miguel, marido de Jandira.

- No sei, no, filha...

- Jandira, deixa eu te apresentar uma pessoa! - disse Miguel ao chegar mais perto, passando a mo por trs das costas do menino e o empurrando para frente de si, antes de continuar as apresentaes. - Veio l da minha terra. Como  seu nome mesmo, filho?

- An... Albert! - respondeu Antoine meio engasgado, ainda se familiarizando com seu novo nome.

- Ento, como eu estava dizendo... O Albert acabou de chegar ao Brasil. Veio de uma famlia muito fina e rica l do Lbano. O problema  que aqui ele no tem nem onde cair morto, coitado! Ele podia trabalhar na loja. O que acha?

Jandira nunca dava uma resposta sem pensar antes, ainda mais quando a deciso envolvia dinheiro. Primeiro ficou muda, analisando a situao, pensando no dinheiro do caixa e na necessidade de ter mais algum como funcionrio. E, por fim, fez para Miguel aquele velho e conhecido sinal com a cabea apontado para o lado, do tipo: Vamos conversar l nos fundos.

O menino assentiu e continuou quieto, olhando os objetos pendurados na parede, nas prateleiras... J Nilza no fazia outra coisa a no ser observ-lo. Olhava os calados em seus ps, a roupa que estava vestindo, o cabelo dele batidinho, um pouco desajeitado, e os olhos... Mas que olhos! Castanho-escuros combinando com seu tom de pele.

Albert era um rapaz culto, inteligente, sabia falar uns cinco idiomas, mas no levava jeito para a labuta. E, no incio, distrado em seus receios, nem notava que tambm estava sendo observado. Ele sabia que teria que trabalhar para poder se sustentar no Brasil, mas era tanta coisa para vender por metro quadrado naquela loja, que s de pensar j dava preguia!

- Tem muita coisa, n? Voc aprende - disse a garota, atrs do balco, sorrindo meio sem graa.

Surpreso e nervoso, mas atiado pelo charme da brasileira, ele devolveu o sorriso e os olhares, que ela fingia no serem para ele. Nilza, sem coragem de puxar assunto novamente, simulava ver as contas da loja em um papelzinho e Albert, agora, parecia bastante interessado nos objetos  venda. No entanto, em silncio, eles estabeleciam seu primeiro contato ntimo. Minutos preciosos at serem interrompidos por Jandira, que voltava agitada:

- Albert, voc pode comear quando?

A pergunta seria importante para sua permanncia naquele pas, mas no to significativa quanto aquele encontro. E talvez, se fosse outro garoto menos ousado e outra garota menos impulsiva, aquela apresentao teria sido s uma apresentao. Mas se tratava de um menino sem apegos, que tinha deixado sua terra e no queria trabalhar; e de uma moa com sede de ganhar o mundo, no muito convencida de manter o seu noivado.

E por isso foi tudo muito rpido. Algo em torno de trs meses para que eles fugissem juntos para o Rio de Janeiro em uma viagem romntica digna de filme de cinema. Nilza ligou j da capital carioca para avisar Jandira que no voltaria mais para Ribeiro Preto.

A menina havia ganhado do noivo ricao um prdio como presente de casamento, que no s serviu para bancar a passagem dela e de Albert para a Cidade Maravilhosa, como garantiu do bom e do melhor nos hotis. Um dinheiro que o recm-formado casal torrou com a maior facilidade em bebidas, cassinos e diverso - noitadas em grande estilo  la Beirute.



- A senhora vai ter que fazer uma cesariana!

- No, no, eu no quero! Quero normal.

- Mas dona Nilza, o beb t ao contrrio. Vai arrebentar a senhora toda!

- Quero normal!

O mdico j nem sabia mais o que fazer para convencer Nilza dos riscos daquele parto. Gesticulava, explicava o que era pelvipodlico, falava sobre o procedimento da cesariana, mas nada! Ela no arredava o p. Aquela tecnologia de aparelhos nunca poderia ser melhor do que a velha e tradicional tcnica de parir. E nem adiantaria apelar para o pai da criana! Ele no iria contrari-la.

O casal havia se mudado h pouco tempo para Belo Horizonte, e aquele comportamento poderia at ser uma inquietao sobre o servio do hospital. Mas no era nada disso! Albert, esclarecido sobre esses procedimentos, confiava no mdico e na cesariana. O que no conseguia era se opor a Nilza naquele instante. Se ela estava dizendo que aguentava a dor, ele teria que confiar! Mesmo que isso significasse estar prximo da sala de cirurgia, enlouquecido com a espera durante o parto. E o mdico? Em uma situao horrvel de sua carreira, no teria outra sada a no ser fazer.

- O que adianta o diploma de medicina se o paciente no escuta a gente? - resmungaria ele para uma das enfermeiras antes de entrar em ao.

O saldo daquele dia 26 de maio de 1955 seria cerca de oitenta pontos na me, beb nascido de bunda para lua e um pai correndo pelos corredores e gritando com a criana nos braos:

- Olha! Esse  o meu filho! Meu filho!

Era o menino Ricardo Georges Feghali, segurado por um orgulhoso pai libans.



Depois da morte de Miguel, Jandira decidiu morar com a filha e Albert. Sem qualquer estabilidade financeira, saem de Belo Horizonte para Curitiba, em busca de melhores oportunidades. At porque Jandira poderia ajudar com as despesas da casa - principalmente com a filha grvida de uma menina, j com um barrigo, prestes a entrar em trabalho de parto.

Curitiba, considerada uma das cidades de melhor qualidade de vida do Brasil, parecia ser um lugar adequado para a estadia da famlia. E Jandira, inclusive, conseguiu abrir uma grande loja de tecidos, onde todos poderiam trabalhar. Por mais que a casa estivesse mais cheia e barulhenta, havia perspectiva de melhora. E o nascimento da pequena Jandira, em homenagem  av, no dia 17 de maio de 1957, viria para coroar aquele momento.



- Filho, pega ali pra mame, pega?

E a criana meio atrapalhada, com quase 2 anos de idade, gorro na cabea e casaquinho, esticava as mozinhas para segurar um dos gros que rolava pelo piso de madeira. Nilza, um pouco debilitada aps o parto de Jandira, sorria ao ver Ricardo empenhado na misso de juntar aquele gro com os que ela separava, enquanto sua me fechava mais um saco de caf.

O clima de Curitiba tinha sido cruel com a sade de Nilza e, por isso, eles decidiram se mudar para Londrina, onde havia parentes - na tentativa de ter mais suporte e cuidados mdicos. Mas o frio ainda era pesado! E s Nilza sabia o custo que era, ainda com beb de colo, trabalhar duro escolhendo os melhores gros para entregar para as cafeeiras, ainda mais com Albert viajando tanto, seja acompanhando polticos ou se metendo no meio deles. Apesar de ser laboratorista, ele gostava de inventar outras razes para ganhar dinheiro - no que isso, realmente, acontecesse -, e Nilza era quem enfrentava as durezas da rotina. Ela no poderia desanimar, sobretudo naquele momento em que a famlia crescia.

Londrina, de terra roxa e frtil, vivia sua poca urea das plantaes de caf no final dos anos 1950, e o desenvolvimento da cidade atraa cada vez mais pessoas de outros estados. Naquela casinha de madeira, por exemplo, estava uma me carioca com seu filho mineiro, uma av paulista e uma paranaense no bero. Uma famlia de estrangeiros fazendo o necessrio para se manter naquela terra fria, mas prspera.



- Me, como  que a Lili vai?

- No caminho!

- Mas no caminho ela vai cair!

Ricardo no se conformava em colocar a cachorrinha no meio dos mveis, utenslios e outros pertences da famlia. Ele adorava a vira-lata e tinha medo que ela pudesse morrer no trajeto, mas tambm no dava para deix-la em Curitiba! Primeiro, sua famlia havia se mudado para l, depois para Londrina. E agora eles estavam indo para gua Rasa, no estado de So Paulo, por causa de dinheiro, trabalho... Pelo menos era o que ele tinha ouvido nas brigas em casa. Uma coisa chata dessas qualquer! Mas tambm o que importava? Daqui a pouco eles mudariam de novo, outra casa, outra cidade... Ele e sua irm sempre envolvidos nas questes malresolvidas dos adultos. Mas a Lili  que no poderia sofrer.



As canes que o rdio espalhava pela casa de Albert e Nilza eram to bonitas, que despertaram desde cedo o interesse de Ricardo pela msica. Roberto Carlos com suas letras romnticas era o preferido da famlia, mas outros nomes - posteriormente, integrantes da Jovem Guarda - como Erasmo Carlos e Roberto Livi tambm acabavam no gravadorzinho de Ricardo, que registrava as canes que vinham do rdio para depois ouvir de novo.

Mas surpresa mesmo foi escutar Feche os olhos e sinta um beijinho agora em ingls!

- U, mas essa msica  do Renato e Seus Blue Caps...

Estranhou ele ao ouvir All My Loving, dos Beatles - grupo que iria ouvir pelo resto da vida.

O rdio se tornou importante e manteve seu lugar cativo no dia a dia de Ricardo por todas as cidades que passaram os Feghali. Porm, seria no Rio de Janeiro, ltima mudana da famlia, por coincidncia a capital para onde seus pais haviam fugido quando mais novos, que esse envolvimento do menino iria mais alm.



H controvrsias sobre a cena pica de dom Pedro, s margens do rio Ipiranga, bradando com a espada em punho Independncia ou morte!. O que no impede que as escolas continuem ensinando que foi assim que o Brasil se tornou independente do reino de Portugal, em 1822, e que comemoraes no pas inteiro aconteam, at hoje, em torno da data 7 de setembro.

No subrbio do Rio de Janeiro, na dcada de 1960, por exemplo, os desfiles das fanfarras e bandas marciais dos colgios agitavam as mentes dos estudantes. Tudo tinha que ser impecvel, das roupas s msicas, e as crianas passavam horas ensaiando as marchas para tocar na semana da ptria, de olho no desempenho das bandas das outras escolas. Existia uma competio, e a briga era acirrada, principalmente entre os colgios do mesmo bairro.

Ricardo, naquele perodo, estudava em Iraj, no instituto Marques, concorrente direto do Euclides da Cunha. Comeou tocando caixa de guerra, depois corneta, trompete e passou a ser o contramestre da bateria, puxando os dobrados - e as apresentaes da banda eram uma maravilha! Quer dizer, pelo menos na ida, quando valia nota. Todos os alunos passavam bonitinhos, de polainas, tocando as canes militares, como mandava o figurino. Mas na volta?

Mulata bossa-nova

Caiu no Hully Gully

E s d ela!

! ! ! ! ! ! ! !

Na passarela...

Era uma festa! O trompete de Ricardo anunciava a entrada da msica e l iam os outros msicos bandalhando o desfile no final. As marchas militares ento viravam marchinhas de carnaval e no tinha ningum na rua que no se aproveitasse da farra.



Nilza era comerciante, como sua me, Jandira, e tentava ganhar a vida por onde passava com a famlia. Porm, na hora da negociao, costumava se atrapalhar e meter os ps pelas mos - o que gerava brigas com o marido. Em Rocha Miranda, no subrbio do Rio de Janeiro, por exemplo, eles tiveram uma loja enorme que no deu certo porque ela vendia fiado para quem quer que fosse. Abrindo as portas, inclusive, para pessoas mal-intencionadas, que roubavam produtos, o caixa e at o carro da famlia. Era como se ela no medisse os riscos.

Em outra ocasio, ao ir para um baile em Mag com o marido e os filhos, viu uma garotinha esmirrada perto deles e perguntou se ela queria trabalhar em casa de famlia.

E na volta para casa estavam todos dentro do carro com a estranha. Loucura? Poderia ter dado certo e Nilza sairia contando por a a sorte que deu ao encontrar uma menina trabalhadeira e honesta por acaso. Afinal, o acerto  um risco que se corre quando se arrisca. Mas no era o que geralmente acontecia com suas investidas. No dia seguinte, todo guarda-roupa de um dos quartos da casa tinha ido embora e, mais uma vez, ela teria que se justificar com os demais.

Nilza costumava confiar demais, talvez por inocncia ou precipitao, e no final saa sempre no prejuzo, sem moral diante das pessoas. E nem adiantava pedir para ela mudar. Este seria seu comportamento at depois de mais velha, com os filhos j criados. Como se ela estivesse sempre tentando se provar, desafiar o outro, superar o provvel impossvel.



- Eles comearam a brigar de novo, Ricardo.

- Dorme, Jandira,  melhor - respondia o irmo, j fechando os olhos e rezando para aquela discusso acabar logo.

Era complicado entender por que eles gritavam tanto um com o outro. Como seus pais, eles no deviam se dar bem? Pelo menos era o que acontecia com as famlias dos seus amiguinhos na escola. Por que aqui em casa  diferente?, se perguntava Ricardo e tambm sua irm, Jandira. Duas crianas que se uniram, no meio desse caos, esperando dias melhores.

Nilza tinha uma maneira mais dura e seca de lidar com os filhos, j Albert era doce, um homem adorvel e cheio de histrias de um mundo distante. Ela: uma guerreira no dia a dia, que encarava, entre outras tarefas, as crises de Ricardo com bronquite, a educao dos filhos, alm de segurar a falta de dinheiro na prtica, por mais que atropelasse as coisas na hora de resolver. Ele: um viajante, diplomtico, festeiro, que sabia divertir as crianas e evitava o batente. Fatores divergentes que resultavam em mudanas de cidades e casas, brigas, e cigarros, muitos cigarros. Todos naquela casa fumavam! E, quanto mais problemas, mais a casa ficava empestada de cheiro forte e cinzas.

Por isso, Ricardo e Jandira se tornaram parceiros quando menores. Um conhecia bem a situao do outro, e juntos se sentiam  vontade, tudo ficava mais leve. Ele: ligado na msica, nas bandas. Ela: extremamente estudiosa. E os dois completamente avessos quelas confuses de seus pais.



- Deixa mais espalhado para ficar mais fcil - dizia Ricardo  irm, ajeitando as latinhas ao redor dela.

- Mas com que eu posso batucar?

- Usa isso aqui!

E sorrindo, com as varetas j na mo, Jandira esperava o menino pegar um violo velho para dar incio  contagem e comear a brincadeira. Sua funo seria fazer barulho junto com o irmo e acompanh-lo, e ela estava determinada a cumprir seu papel com destreza e louvor.

- Tem que ser na ordem?

- Bate do jeito que voc quiser - dizia Ricardo, j com o violo posicionado nos braos.

- 1, 2, 3, e...

Batucadas sem muito ritmo e arranhes no violo enchiam a casa e o ouvido dos vizinhos. Duas crianas, em parceria, afastando dali a falta de grana, as brigas e as cinzas. Msica pura.



- Ou voc pede pra sua me um baixo ou uma pianola Hering.

- No d pra tocar outro instrumento?

- No, no. A gente j tem duas guitarras e uma bateria. Ou  o baixo ou a pianola! - disse um dos integrantes da banda Os Polegares, que ainda no tinha sua formao completa, mas j contava com um dedo para cima pintado na bateria, tipo papo firme, como se dizia naqueles tempos.

Ricardo tinha por volta dos 10 anos quando a turma da sua rua, em Rocha Miranda, o chamou para fazer parte do grupo, sob a condio: baixo ou pianola. O menino nem sabia tocar aqueles instrumentos e, fosse outra criana, poderia ter respondido com um simples Que pena, deixa pra l!. E nem fazia ideia de que pianola no era o melhor dos teclados. Mas, em vez do problema, Ricardo viu ali uma oportunidade incrvel de fazer parte de uma banda com apenas 10 anos de idade. Por isso, apesar de s arranhar um violo, alm do que tocava na escola, no se intimidou e foi pedir ajuda para a av, comerciante de primeira classe. Afinal, antes de aprender a tocar, ele teria de arrumar o instrumento!

Para a sorte do garoto, na poca sua av estava trabalhando na Cssio Muniz, loja que vendia um pouco de tudo: de agulha a eletrodomstico, de roupa de cama a carro, de discos a instrumentos musicais. E ter dona Jandira, excelente negociadora, dentro de uma loja que poderia vender a tal pianola? Era quase sinnimo de sucesso.

- ,  o seguinte: no tem pianola. Mas tem um rgo Eletrocord! Eu conversei com o gerente sobre o pagamento e d pra levar! - Contou ela animada para Ricardo, sem nunca imaginar que o Eletrocord era muito melhor que a pianola. E muito menos o garoto tinha essa informao!

- No, v! Eles pediram pianola Hering! Esse no serve! - disse o menino, que repetia o nome do instrumento como se fosse um pomposo abre-te ssamo para um universo repleto de maravilhas.



Ricardo, aos 10 anos de idade, ainda estava pegando o jeito com a pianola, que conseguira depois de muito esforo com sua v, quando foi chamado por um conhecido para quebrar o galho em outro conjunto de Rocha Miranda. S que para tocar bateria em uma festinha.

Por causa da banda da escola, ele tinha alguma noo do que fazer e, por isso, aceitou o desafio. Uma noite que, alm de experincia, renderia Cr$100. O menino mal pde acreditar ao receber no final da apresentao aquele dinheiro todo. Notas requisitadas pelos adultos, motivo de discusses, dificuldades e sacrifcios dentro de casa. Pela primeira vez ele era pago por fazer alguma coisa! Sensao nova, surgimento de uma pequena fasca do que ele poderia ser.

Assim, animado, o garoto ps os ps em casa, j sabendo o que fazer com o dinheiro:

- Me, t aqui em cima da cmoda: Cr$100. E  isso que eu vou fazer da minha vida.



- Poxa, v, essa pianola no d! No consigo tocar em uma banda melhor com isso!

- T muito ruim? Vamos passar na Cssio Muniz de novo pra ver o que a gente consegue!

Ricardo tinha acabado de entrar no The Ambers, conjunto da Penha, quando foi pedir ajuda, novamente, a dona Jandira. O grupo tinha um clima legal, tocando verses dos Beatles, msicas do Roberto Carlos, e o menino achava que precisava de um teclado  altura do som.

- A banda tem at empresrio, v!

- Calma, Ricardo, a gente vai resolver.

Jandira, comerciante de lbia incrvel, no o decepcionou e conseguiu fechar negcio na Cssio Muniz. Dividiu, pegou dinheiro emprestado, enfim, deu seu jeito e arrumou um modelo mais avanado para a alegria do garoto, que acompanhava o processo, ansioso. Mas o instrumento que ela conseguira era maior do que a pianola e no ia dar para carregar para casa! Ricardo teria que pensar logo numa alternativa para no deixar o instrumento parado e longe dele.

Seu Castilho, empresrio do The Ambers sabia que aquilo daria trabalho, mas a favor do upgrade da banda topou ir ao centro com Ricardo. Para no chamar ateno para aquele trambolho, os dois pegaram um cobertor e enrolaram todo o instrumento. Entraram no ltimo vago do trem, sem fazer estardalhao, e seguiram do Centro para a Vila da Penha, onde morava Roberto, dono do conjunto.

Uma viagem tensa para o menino, que de vez em quando olhava enviesado para o cobertor, s para se certificar de que o teclado continuava ali, intacto ao seu lado, enquanto segurava seus dedinhos incontrolveis, nervosos para encostar naquelas teclas. Muitas estaes se passaram at chegarem  casa de Roberto - onde Ricardo pde, finalmente, desenrolar o teclado para ligar na tomada e...

- Porra! No  possvel! Todo esse esforo e esqueci a droga do fio!

No d pra acreditar..., pensava ele, sentado no sof, com as mos apoiando o rosto, incrdulo, sem ver que um dos msicos improvisava um fio da traseria da vlvula. Aquele tipo de sorte inesperada, despretensiosa, costumeira daquelas pessoas que correm atrs do que querem.



- V, juntei uns msicos pra ensaiar aqui em casa. Falta s um nome!

- Por que no chama de Los Panchos Villa?

- Mas o que a gente pode fazer com esse nome?

- Ah, coloca uns chapeles, que tal?

O menino com seus 11 anos no tinha a menor ideia de onde sua av tinha tirado aquele nome, mas os chapeles imitando mexicanos parecia ser um visual divertido para a banda, que tinha Guto na guitarra, Toni no vocal, Z Carlos no baixo e Rui na bateria, em 1966. Esse era o incio de Los Panchos Villa, e os ensaios aconteceriam na sua casa, aps a mudana para o Catumbi, com um repertrio repleto de msicas internacionais, como Santana e Jimi Hendrix.

A banda existiria durante quase dez anos, tendo o filho de dona Nilza como lder, trocando com frequncia os msicos de sua formao. Por l passariam nomes como Valmer, Jlio, Vermelho, Geraldinho, Mosquito, Valter Gordo, Lus, Ccero Pestana,* entre outros. E o chapu tambm no duraria, ao contrrio do bigodo mexicano de Ricardo.

Los Panchos Villa teriam fs e fariam muita gente danar nos bailes da Zona Norte e do subrbio do Rio. Mas, antes de tudo, seria a desculpa perfeita para o encontro do menino com outros cinco msicos - pessoas que no iriam sair de sua vida to cedo.



Ricardo gostava de tudo quanto era msica mas, por influncia da Jovem Guarda, teve uma fase mais roqueira na adolescncia, por volta dos 13 anos, e passou a andar mais moderninho, com cala saint-tropez e cabelo comprido, como fazia boa parte dos jovens. Mas Albert, libans e conservador, no achou muita graa no estilo do filho:

- Voc vai usar essa cala?

- Vou, pai.  legal!

- Legal nada!  coisa de viado. Tira isso!

- No , no! E eu uso o que eu quiser - disse o garoto com a voz firme para um pai despreparado para aquela resposta.

Albert era o tipo de pai que no encostava a mo em seus filhos, enquanto Nilza descia a chinelada quando julgava preciso. Ele apenas levantava os olhos, ou franzia a boca para que Ricardo e Jandira entendessem o recado. Mas ali no deu para segurar, no mesmo... Talvez porque ele no estivesse em um bom dia ou, simplesmente, porque no dava para aceitar que o mais velho se negasse a lhe obedecer. Por isso, sem pensar, sem imaginar que seria capaz de agredi-lo, revidou com um tapa direto na cara do filho. Um tapa instantneo, dodo e seco.

Ricardo tomou susto e teve um leve mpeto com a cabea pra frente, mas respirou fundo na hora e recuou. Albert o olhava firme, com um grito, um choro querendo lhe escapar da garganta - transtornado por bater no filho pela primeira vez. A casa permanecia em silncio, e nenhum dos dois se mexia, apenas se olhavam, como se a tristeza selasse o momento. At que Albert, ainda sentindo o olhar de decepo do filho e a mo latejando, se jogou adiante e pegou Ricardo para um abrao, com uma s palavra saindo daquele corao machista, tradicional e rabe:

- Desculpa.



Na Zona Norte do Rio de Janeiro, Ricardo conheceu Os Caveiras, banda do Mier que tocava tudo dos Beatles. O disco Abbey Road, lanado em 1969, era o preferido deles e estava inteiro no repertrio de seus bailes. Paulinho Macaquinho assumia a bateria, Barbosa o vocal, Pedro guitarra e voz, e Vtor o baixo - todos na casa dos 20 a 30 anos, e apenas Ricardo tinha 14. Eles eram mais velhos e meio conhecidos no subrbio, mas estavam em busca de outro lugar para tocar devido a um problema com Pedrinho Periquito. E teria que ser com outro nome, j que Pedrinho era o dono do conjunto. Foi onde entrou Ricardo, um bom tecladista, embora fosse pirralho - dono de Los Panchos Villa, sem msicos no perodo.

- Vocs costumam tocar meio hippies? - indagou o garoto, tentando se enturmar, antes de ir para o Clube Olaria, primeiro baile que faria com o pessoal dos Caveiras.

S que os caras no entenderam a dvida e ficaram olhando o menino, pensativos, com as sobrancelhas franzidas.

- Ah, deixa pra l!

No dia do baile, Ricardo pegou uma camisa emprestada com seu amigo Paulinho, do conjunto Funny Money, e jogou por cima uma japona preta por causa do frio da rua, crente que arrasaria com a escolha. Mas, ao tirar o casaco no clube, os outros msicos tomaram um susto. A camisa de Ricardo era branca, com dois nomes de msicas escritos com uma tinta acrlica fluorescente, que brilhava no escuro:

Time of the Season

Aquele Abrao

Time of The Season era o sucesso daquele ano da banda britnica pop The Zombies. A letra dizia que aquele era o tempo da estao em que o amor corre solto e se tornou um hino da juventude flower power - smbolo da ideologia da no violncia para os hippies no final dos anos 1960. E Aquele abrao era o hit irnico do tropicalista Gilberto Gil, preso durante a ditadura militar, com suas vestimentas hippies e guitarras eltricas.

Ricardo no soube onde enfiar a cara ao notar o visual nada hippie da banda. Estava morrendo de vergonha dos outros integrantes, que no sabiam se riam ou se tiravam a camisa do garoto. O baile j estava para comear, e ele l, com aquelas letras reluzentes no peito! A soluo foi jogar a japona por cima de novo e entrar no palco do clube cheio, quente, com um sorriso no rosto, como se estivesse curtindo o calor gostoso daquele casaco!



Can this lovin we have found within us/ Oooh, suddenly exist between cantava Peter Cetera, vocalista da banda de rock Chicago na cano Questions 67 and 68. Mas o que mexia mesmo com Ricardo era o instrumental que vinha antes. Ele prestava ateno nos instrumentos da banda, como curioso que sempre fora, tentando entender a participao de cada um deles na msica. Gostava de aprender um pouco de tudo e ouvia o disco por umas dez horas ininterruptas para compreender os arranjos, a harmonia, as levadas... Era um jovem que, se no estivesse mexendo em algo, precisava descobrir como funcionava.

- Por isso  que no virei um pianista clssico - comenta ele, hoje adulto. - E aquela cano do Chicago era demais! A guitarra de um lado, o trompete de outro, o saxofone, o baixo, e um piano Fender Rhodes invejvel!

- V, queria tanto esse piano! Ser que rola? Sonhei a noite inteira com isso...

- Mas voc sabe algum que tem?

- Conheo! Mas  caro... A gente no tem esse dinheiro!

- Vou ver o que d pra fazer.

E novamente a comerciante-mor da famlia entrou em ao. Usou toda sua lbia de negociao com Paulo Bacar, que era quem estava vendendo o piano, e conseguiu pegar um dinheiro com Gilson Dutra, empresrio da banda Super Bacana, para pagar depois.



No final de 1969, Ricardo no sabia como manter Los Panchos. Aps um perodo intenso de Beatles e aprendizado com Os Caveiras, ele teria que comear a banda do zero, j que Os Caveiras, para sua infelicidade, se entenderam com Pedrinho Periquito, retomando a antiga formao. E o nico msico que restaria nos Panchos seria ele!

At poderia esperar sentado por um convite de algum conhecido para tocar em outra banda, mas ele costumava ser prtico e, de alguma maneira, tinha de resolver. Por trs de equipamento sempre tem msico, pensou esperanoso ao olhar para os classificados. Folheou o jornal, passou o olho sobre as propagandas e ligou para um dos nmeros, tentando a sorte:

- Oi, vi o telefone de vocs no jornal. Acabou o conjunto?

- Oi, acabou. O equipamento  do meu irmo, que t precisando do dinheiro. E eu tambm comecei a trabalhar. A no tem jeito, n?

Do outro lado da linha estava Z Carlos, um dos integrantes da banda Kiko Micas By Music, antigos Os Bidus. Z havia comeado a trabalhar em um posto de gasolina e no demonstrava a menor vontade de seguir fazendo msica, mas Ricardo insistiu:

- Tenho algumas coisas aqui de equipamento. Vocs no querem tocar mesmo?

- P, o guitarrista  doido pra continuar! Eu no t nessa, mas posso te apresentar a ele.

- Fechado! Espero vocs ento, amanh. Pode ser?

- U, mas e o nosso equipamento? No vai querer ver?

No dia seguinte, Ricardo encontrou em sua casa o baixista Z Carlos, e o tal do guitarrista que realmente estava muito a fim de tocar. Gostou dele logo de cara. O menino era um pouco mais velho que ele, talvez uns trs anos, mas era como se no tivesse essa diferena de idade. Animado, j chegou arrumando o seu amplificador de guitarra para passar o som e mostrando muita vontade de fazer as coisas. Sem falar na baita qumica musical que rolou entre os dois ao tocarem algumas msicas.

- Bicho, perfeito! Quando voc pode vir pra c ensaiar?

Se ali no existia uma banda completa, pelo menos era um comeo. Ricardo tinha o rgo com o nome Los Pachos Villa pintado nele, o amplificador desse instrumento e a aparelhagem de voz. E os dois, juntos, compraram o equipamento do irmo de Z Carlos para dar incio  reconstruo de Los Panchos. Empolgado, o filho de seu Albert e de dona Nilza vislumbrava uma parceria que prometia evoluir, e apostou as fichas no guitarrista solo para montar a nova formao de sua banda. Um garoto de Bonsucesso, de riso fcil, magrelo, de cabelos compridos, claros e encaracolados, chamado Eurico - mais conhecido pelo apelido Kiko.



Todo dia Kiko percorria a mesma via crucis: pegava o nibus em Bonsucesso, no subrbio do Rio de Janeiro, enfrentava cerca de uma hora de trnsito, descia no Centro da cidade, na avenida Presidente Vargas, e ia andando a p toda a Marqus de Sapuca para ento ensaiar com Ricardo, em uma casa em frente  igreja Nossa Senhora da Salette, de estilo gtico e torre comprida, com seus dez sinos vindos de Portugal. E o guitarrista ainda conseguia chegar cedo para comprar po doce na padaria que tinha por perto, antes de tocar.

Era uma beleza! A guitarra nem saa da casa de Ricardo, e os dois ensaiavam rocknroll o dia inteiro, com Lus no baixo, Gean Carlos na guitarra ritmo, e Vermelho na bateria - msicos das redondezas. A banda estava tomando forma novamente e Ricardo j pensava at em chamar um vocalista ali do Catumbi para se juntar a eles, quando Vermelho quis parar e o convite teve que ser adiado. Afinal, eles podiam quebrar um galho cantando e revezando o microfone, mas banda sem bateria no conseguiria baile nem na esquina!



Jandira estava com uns 12 anos quando notou aquela agitao toda dos meninos atrs de um msico. Os bateristas iam l, tentavam fazer a batida proposta por Ricardo e nada! Apareceu msico alto, baixo, gordo, magro e nenhum se encaixava na banda. E ela sentadinha no canto da sala, s observando o andamento da seleo. Estava difcil encontrar um batera para Los Panchos, o que j estava dando nos nervos de Kiko e seu irmo.

- Posso tentar? - Tomou coragem a menina, aps mais um dos candidatos ir embora sem sucesso.

- No, Jandira. No enche, no. Tentar o cacete!

- , Ricardo, deixa ela tentar! O mximo que pode acontecer  no dar certo!

A menina sorriu para Kiko, pedindo a aprovao do irmo com os olhos e, assim que conseguiu um leve movimento de afirmao de seu rosto, sentou rapidamente na bateria que eles tinham conseguido para os testes. Fez a batida que Ricardo queria, depois outra, outra, outra... Ela assimilava muito rpido, deixando o irmo de queixo cado.

- , garota, onde voc aprendeu isso?

- Vendo vocs, u - respondeu Jandira, a nova baterista de Los Panchos Villa, como se fosse a resposta mais natural do mundo.



Jandira era uma aluna aplicada na escola, to inteligente que passou do 3o Primrio direto para a Admisso, diminuindo de dois para um ano a discrepncia dela para Ricardo. Era estudiosa, responsvel, e com Los Panchos manteria o mesmo nvel de comprometimento. Mas antes era preciso ter uma bateria que fosse sua para que pudesse treinar. Uma misso perfeita para sua v.

Ricardo pediu ajuda  av e as negociaes de Jandira, aliadas ao esforo de Nilza, valiam ouro para o menino, que mirava alto em suas conquistas. No que a situao financeira de sua casa estivesse aquela maravilha, mas tinha o apoio tanto de sua me quanto de sua av, que estavam mais presentes em sua rotina.  sua maneira, opinio e postura diante da vida, cada uma alimentava seus sonhos, e ele se sentia compreendido, sortudo por isso. E, por outro lado, tambm as entendia mais. De fato, de todos os problemas, brigas e conflitos que ele encontrava em sua famlia, uma coisa era certa: independente do grau de dificuldade, elas sempre tentavam.

Assim, Ricardo conseguiu uma bateria mais barata, a irm passou a treinar com frequncia, e os ensaios de Los Panchos voltaram a acontecer. Depois tentaria arriscar uma bateria internacional: uma Ludwig, marca usada pelos Beatles. Seria demais?

- Passarinho t vendendo a dele. Voc viu, v? - sorria o neto matreiro que, desde cedo, aprendia com Jandira e Nilza a, pelo menos, tentar transformar o no que eles j tinham em um talvez.



- Nilza, vou pro Lbano ver as plantaes de uva do pai. Coisa de dez dias e eu t de volta.

Foi o que Albert, pai de Ricardo, disse para a esposa antes de sua ausncia mais longa para a famlia: dois anos. Nilza poderia fazer o qu? Amarrar ele no p da cama? Talvez teria feito aquilo se soubesse que ele iria todo bonito, moreno, queimado de praia, sem muitas explicaes ou desculpas. E ainda voltaria com uma bagagem cheia de tnicas rabes lindas de sua irm libanesa, com brilhos e pedras, que seriam usadas, de farra, como figurino pelos Panchos.

Assim era Albert, displicentemente festeiro. Adorava tocar derbak - percusso da cultura rabe -, fazer samba na mesa e batucar nas coisas, sem nunca levar aquilo a srio! Ao contrrio da irm, Jeanette Gergi Feghali, que seria conhecida como Sabah em seu pas natal e se consagraria como uma grande cantora. Interpretando msicas danantes e tradicionais do Lbano, Sabah tambm participaria de filmes e suas roupas coloridas com pedrarias se tornariam famosas.



- Esse menino tinha que ser mdico-militar, advogado... Qualquer coisa que desse mais segurana pra ele. E respeito, n?

- Deixa o garoto, Albert...

- Nilza, isso no t certo! Agora at a Jandira t tocando bateria!

- Isso  fase. Vai passar!

- Ela  uma menina! Devia brincar de boneca e no tocar bateria! - argumentou Albert, na esperana de convencer Nilza.

Em vo. Suas viagens, ditas a trabalho, invalidariam tais cobranas, deixando Ricardo  frente de Los Panchos e Jandira, uma adolescente, livre para os bailes e a bateria.



Ricardo foi quem sempre cuidou de tudo nos Panchos: ensaios, equipamento, marcar com o motorista da kombi caso a banda precisasse de transporte, separar msica para tirar etc. O garoto se sentia  vontade como lder, e o conjunto era dele por definio. Por isso, depois da entrada de Jandira como baterista, havia chegado a hora de achar um vocalista. Bom, achar no era necessariamente a palavra. Kiko e ele j tinham um nome na cabea. Os dois haviam assistido h pouco tempo, no Astria Futebol Clube, a um show dos Red Yellows, banda do Catumbi em que Vermelho tocara. E o conjunto tinha um vocalista que arrebentava!

O garoto cantava Twist and Shout, dos Beatles, entre poses e sorrisos como se no estivesse fazendo nenhum esforo. Botando todo mundo para danar, exceto Ricardo e Kiko, que no tiravam os olhos do palco.

- Putz, o moleque canta pra cacete, Kiko!

Um baixinho com vozeiro, vaidoso e estiloso na maneira de andar e nas roupas, chamado Paulo Csar, ou melhor, Paulinho. O vocalista ideal para Los Panchos Villa. Hum... Ser que ele sai do Red Yellows?, pensava Ricardo, enquanto Paulinho cantava. Vou ter que dar um jeito! Determinado como sempre, sem medo do no, disposto a fazer qualquer negcio.



Nota

* Guitarrista da formao original da banda Dr. Silvana, dos anos 1980.



CAPTULO 5

UM BIBEL DE MENINO

Paulo Csar dos Santos

Verdadeira mata verde era o significado do nome Catumbi, atribudo ao rio que descia em um vale mido e escuro das encostas do bairro de Santa Teresa, no Centro do Rio de Janeiro. Pertencente aos jesutas at o sculo XVIII, esta seria uma das primeiras regies povoadas na cidade, com diversas chcaras de ricos proprietrios de terras e escravos - tornando-se um dos bairros mais antigos da capital carioca.

Mantendo seu clima buclico e familiar, as plantaes cederiam lugar aos sobrados de classe mdia-alta nos fins do sculo XIX. E o bairro continuaria crescendo com construes importantes para o Rio de Janeiro, como o primeiro cemitrio do Brasil a cu aberto para no indigentes:* o cemitrio So Francisco de Paula, ou como ficou conhecido: cemitrio do Catumbi.

Um bairro tranquilo de se viver ainda nos anos 1940, tendo entre seus moradores, principalmente, imigrantes de Portugal. E que o recm-casado Arthur, filho dos portugueses Antnio Augusto e Carlota de Jesus, escolheria para morar ao lado de sua mulher Ottlia.

- Rua Magalhes... - disse ela, animada, lendo a placa que tinha no muro de uma das esquinas, prxima  rua Frei Caneca.

De mos dadas com Arthur, caminhava pela calada da direita, antes de dar mais alguns passos at chegar  sua futura casinha. Pequena e mdica, com uma porta e uma janela de madeira na frente. O suficiente para o comeo de uma bela histria.



Arthur foi contratado como boy pela rede de lojas de departamento Mesbla aos 15 anos de idade e batalhou na empresa para alcanar cargos mais altos com o passar do tempo. Por isso, com seus quase 30 anos, casado com Ottlia, ele j tinha estabilidade financeira para sustentar um filho, ou quem sabe um casal, que a mulher tanto queria.

O primeiro filho veio em 1950: um menino que ganhou o mesmo nome do pai, Arthur Filho. Garoto levado que, j com um ano de idade, subiu num banco para alcanar a navalha de fazer barba em cima do armarinho, s para imitar os movimentos que vira seu pai fazendo de manh.

- Meu Deus! O que foi que voc fez? - gritou Arthur, apavorado, ao encontrar o garoto no cho do banheiro com o rosto e a camisa cheios de sangue!

Perdido, sem saber o que fazer ao ver seu filho machucado, ele continuaria ali, petrificado, se Ottlia no tivesse chegado naquele instante.

- Precisa colocar esse menino debaixo do chuveiro! - disse ela, j pegando o filho pelos braos, jogando gua na cara dele at limpar todo aquele vermelho para, enfim, enxergar um corte bobo perto da boca.

Um susto, que no desanimaria nenhum dos dois a ter uma segunda criana.

- Ai, tem que ser a minha menina!

Torcia ela, prestes a entrar em trabalho de parto, com um barrigo enorme, deitada em uma das macas da Sociedade Espanhola de Beneficncia, na rua Riachuelo. Ansiosa para ver o rostinho de sua filha, foi pega de sobressalto ao ouvir o mdico anunciar no somente que era um menino, mas que eram gmeos.

Ottlia ficou to atordoada com a notcia de dois filhos ao mesmo tempo, que nem soube como reagir ao nascimento da segunda criana, a menina que ela sonhava. Sem casos de gmeos na famlia ou exames anteriores que pudessem indicar esse fato, como ela poderia estar preparada para aquela dupla? Os cuidados, a comida, as roupas, tudo deveria ser em dobro. Um trabalho que no seria fcil... Sentimentos que seriam banidos de seu corao ao receber, das mos do mdico, um filho para cada um dos braos.

Do lado esquerdo, Mrcia - nome que estava na moda na poca entre os jovens pais. E, do lado direito, o seu segundo garoto - que seria chamado de Paulo Csar, a pedido do irmo Arthur.

At hoje ningum sabe de onde a criana tirou aquele nome para o recm-nascido! Um menino branquinho, de olhos escuros e lbios desenhados, que entrou no meio do casal que Ottlia tanto desejava no dia 6 de setembro de 1952. E que teria o carinhoso apelido de Paulinho.



- Me, no deixa ningum entrar, t? - exigiu o menino, de 4 anos, com a toalha na mo, na porta do banheiro.

- Mas Paulo...

- No deixa, me!

Um pedido que, por mais que Ottlia quisesse, no conseguiria negar.

Este era o Paulinho, dono de seu nariz desde cedo. O garoto no gostava que ningum se metesse nas roupas que iria vestir, no sapato que calaria e muito menos no seu banho! Sempre muito organizado com seus brinquedos, preocupado se tudo estava limpinho e no seu lugar - enquanto a maioria das crianas corria do chuveiro e das arrumaes.

- E essa cala aqui?

- Deixa que eu escolho, me! - dizia ele, observando com ateno as peas do seu armrio, sob os olhares tensos de Ottlia.

A me morria de medo de o menino escolher roupas estranhas, com estampas e cores que no combinavam. Por isso, ficava de tocaia praticamente todas s vezes em que ele ia se arrumar.

- Tem certeza que  essa?

- Me deixa, me.

E ela, com o tempo, deixou. Na verdade, era at bonitinho v-lo andando pela casa, cheio de pose e estilo, orgulhoso de estar bem-arrumado com a roupa que escolhera. Um senso de esttica que nem parecia vir de uma criana. Tanto que Janete, amiga de Ottlia que morava tambm na rua Magalhes, parou de chamar o garoto de Paulinho. E se divertia ao notar como ele ficava envaidecido quando ela o elogiava.

- Mas t bonito, hein, seu Paulo?

- Obrigado - respondia ele, com um leve gesto com a cabea, antes de se retirar para o seu quarto, como se desfilasse pela casa.



Ottlia passava os dias fazendo cintas para vender (ortopdicas, de gestao, coluna etc.). Mas no parava por a: era uma costureira de mo cheia, alm de bastante criativa em outros trabalhos manuais. Caprichosa com as roupas e adereos da famlia, foi a primeira referncia para os filhos em termos de preocupao com o visual.

No Carnaval, ento, ela vestia Marcinha de dourado dos ps  cabea. Via os modelos de fantasias nas revistas e estilizava roupas lindas para a filha, que concorria todo ano no baile de carnaval da Mesbla, na categoria fantasia infantil. Alm disso, confeccionava roupas na cor prata para todos os filhos, para que pudessem sair muito bem-vestidos no Bloco do Gelo, que tinha um pinguim como smbolo. O preto poderia at ser usado nos detalhes, em algum vis, mas o brilho do prata predominava nas pedras escolhidas para as alegorias.

Alis, as pedras e purpurinas tambm sobravam para os meninos e no adiantava correr. Paulinho tinha por volta dos 8 anos de idade, quando a me enfiou nele uma fantasia de ndio toda prata, com penachos no cocar, uma blusa de barriga de fora cheia de franjas e uma sainha toda bordada de mianga. Aquilo era um abuso para a masculinidade e a pacincia do garoto, que no gostou nem um pouco do traje escolhido, mas quem discutia com dona Ottlia?



Ottlia nasceu no Rio de Janeiro aps a mudana de seus pais para o Brasil: os espanhis Jos Pires e Avelina Garcia. E tinha trs irmos: Osvaldo, Eugnio - mais conhecido como Geninho - e Fernando, que lhe pediria para cuidar de seu filho Carlos, por considerar que a irm tinha mais condies para isso.

Assim, o menino foi para a casa de Ottlia e Arthur ainda com nove meses de vida, quando Paulinho e Mrcia haviam completado 4 anos. Todo grando, Carlos era um menino agitado e de personalidade forte, apesar de beb. Mas foi recebido como se fosse mais um dos filhos do casal que, no mais que de repente, passou a ter quatro crianas em casa.

Com o crescimento da famlia, Arthur sentiu a necessidade de procurar uma casa maior, no Catumbi, e encontrou na mesma rua em que estava, do outro lado da calada, um terreno grande que poderia ser reaproveitado. Derrubou as paredes da estrutura, deixando s as laterais, subiu um segundo andar, fez uma garagem para seu carro e quartos maiores para as crianas. Alm de construir um cmodo nos fundos da casa que, em vez do quarto da empregada, se tornaria a oficina de Ottlia, com mquinas e armrios para ela trabalhar.

A casa ficava no nmero 22 da rua Magalhes - que depois seria rebatizada de rua Doutor Lagden - de frente para a rua Jos Bernardino. E se tornaria o local perfeito para as festas temticas de aniversrio dos gmeos. A trabalheira era grande mas Ottlia, como sbia organizadora que era, recrutava familiares e amigos para ajudar nos preparativos, delegando as tarefas de acordo com as habilidades de cada um.

Enquanto isso, Arthur montava um verdadeiro bar, na parte de trs da casa. Ele colocava os barris de chope e enchia os tanques da lavanderia de gelo e bebidas, com uma tbua atravessada separando o espao, como se fosse um balco. E na parede da garagem ele projetava filmes e desenhos que alugava na Mesbla. Aproveitando ao mximo todos os cantinhos daquela casa, construda com tanto esmero.



Boemia, aqui me tens de regresso/ E suplicante te peo a minha nova inscrio. A voz de Arthur se dispersava pela casa, enquanto ele fazia barba, se arrumando para sair para a labuta diria. Filho de portugueses de precria situao financeira, Arthur soube em sua infncia o que era no ter dinheiro, dormir apertado com a famlia em um s quarto e mal conseguir terminar o segundo grau para colocar comida em casa. Questes pesadas, que o fizeram amadurecer mais cedo, com a seriedade transparecendo no rosto e a secura nas demonstraes de carinho.

Era o tipo de cara que dava tudo para os seus; tirava a roupa do corpo se fosse preciso para ver todos bem. Mas criado de maneira rgida, era um pai mais na dele e cobrava somente o fundamental dos filhos, como boas notas no colgio. No tinha aquilo de chegar mais perto das crianas e conversar, levar um papo franco e aberto sobre a vida. Talvez porque ele tambm no soubesse fazer aquilo. Arthur, realmente, era mais srio e distante, mas dava para sentir sua leveza em sua generosidade, nas piadas que contava para os amigos, ou quando estava sozinho, tranquilo, e despretensiosamente cantando.

Gostava de msica e tinha uma voz muito bonita. Por isso, sempre que podia, trazia de seu trabalho discos de grandes crooners, como Nelson Gonalves, Cauby Peixoto, ngela Maria, Dalva de Oliveira, Joo Dias... A rdio-vitrola era o xod da famlia e rodava, em 78 rpm, aqueles discos com apenas uma msica de cada lado, pesados, de goma-laca,** frgeis e maravilhosos. E no quarto, Paulo Csar, ou melhor, Paulo, que era como Arthur o chamava, sorria ao empurrar seu carrinho, ao som de A volta do bomio, na voz do pai.



- Pai, por que meus amigos acham que voc tem sotaque portugus? - perguntou intrigado, certa vez, Paulinho para Arthur.

- Eu nasci aqui e, com sete meses, fui pra l. Aprendi a falar l, e voltei com 7 anos!

A famlia de Arthur era da regio de Trs-os-Montes, de onde partiram muitos portugueses rumo ao Brasil, nos sculos XIX e XX, em busca de um pas em desenvolvimento, com tradies e idiomas parecidos. Seria o Eldorado brasileiro. E Trs-os-Montes talvez tenha sido a regio de Portugal que mais sofreu com o despovoamento naquela poca.

Arthur tinha dois irmos consanguneos, Osvaldo e Maria dos Prazeres, alm de uma irm de criao chamada Lcia. No entanto, foi o nico entre eles que iniciou sua educao em terras lusitanas, guardando um r mais carregado, quase imperceptvel para os filhos - acostumados a viver com o pai. E que seria um dos traos da cultura portuguesa encontrados em sua personalidade, alm dos gostos culinrios e a paixo pelo Vasco da Gama.



No sculo XX, determinadas prticas esportivas foram regulamentadas em diversos pases, como o remo e o futebol. Um incentivo aos esportes que se estenderia ao Brasil, no Rio de Janeiro, principalmente em relao aos campeonatos de remo devido s suas concentraes humanas  beira-mar, em suas reas mais nobres. Tendo entre seus participantes os Clubes de Regatas Boqueiro do Passeio, o Clube de Natao e Regatas, o Clube Internacional de Regatas, e o Clube de Regatas Vasco da Gama. Todos com sedes no Centro da cidade, ao redor da baa de Guanabara, onde aconteceram as competies at 1927. Depois, os campeonatos foram transferidos para a lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul, assim como a sede principal do Vasco. No entanto, seus scios continuaram frequentando por lazer aquela regio da orla do Boqueiro,*** na sede chamada de Calabouo. Como fazia Arthur, praticamente um atleta, que remava, nadava e jogava water polo no Vasco da Gama. E exibia uma sade de ferro!

Arthur era scio remido**** do clube. No fumava, no bebia e no tinha uma gordurinha no corpo - sustentando, facilmente, uma barriga tanquinho, durinha e seca! No perdia nenhum dos jogos de futebol do time, que tambm passou a despontar no pas aps a construo do estdio So Janurio, em 1927. E, por consequncia, todos os seus filhos tambm eram vascanos.

Uma casa que torcia em conjunto pelos jogos transmitidos pelo rdio e, depois, tambm pela televiso. E at Paulinho, que no levava o esporte a srio, torcia pelo Vasco. O menino passava longe das discusses com os amigos sobre jogos, mas adorava assistir s partidas ao lado de Arthur, embora ele nunca o tenha levado para ver seu time ao vivo.

- Estdio no  lugar de criana! - dizia ele, sem abertura para argumentao.



- Presta ateno na minha parte!!

Falava o tio Osvaldo, irmo de Ottlia, para Paulinho, aumentando o som quando tocava no rdio-vitrola a valsa Mame, dueto gravado por ngela Maria e Joo Dias. A dupla cantava Mame, mame, mame e ngela entoava sozinha a continuao: Tu s a razo dos meus dias/ Tu s feita de amor e esperana. Depois os dois, novamente, entravam com Ai, ai, ai, mame e, nessa hora, Osvaldo abaixava o volume e com um vozeiro mandava por cima os dois versos seguintes.

Ao contrrio de Joo Dias, que era magro e tinha um cabelo curto e lisinho, Osvaldo era mais gordinho e calvo, assim como a maioria dos homens da famlia. No entanto, as vozes eram realmente parecidas. To igual que o menino ficava com cara de bobo ao ouvir o tio cantar Mame e as outras canes que Joo havia gravado com a cantora. Ele ficava doido s de pensar que aquela voz na rdio-vitrola era do seu tio e se gabava em seus pensamentos: No  que meu tio gravou com a ngela Maria?



- Trouxe um disco de um grupo internacional! - Avisou Arthur para os quatro filhos, assim que chegou em casa, colocando para rodar na rdio-vitrola um grupo vocal americano chamado The Platters.

Paulinho no entendia nada do que eles queriam dizer naquela lngua, mas era lindo ouvir as vozes se misturando, a melodia e a levada da msica. Apaixonou-se perdidamente por Only You e a dublou inmeras vezes, ainda sem saber ingls, com mmicas e poses, recebendo prmios nas festas beneficentes que sua me organizava. Mas nada se comparou a quando ele depois descobriu finalmente o que dizia a letra. Que momento mgico! O garoto no coube em si de tanta alegria e, carregado de conhecimento, decidiu ir alm. Compenetrado, decorou palavra por palavra, se fez independente dos versos escritos no papel e pde, enfim, se render  cano.



Paulinho estava brincando de bola na rua com os amigos, em um final de semana do incio de 1962, quando viu o carro de seu pai parar na frente de casa. Um Ford verde que Arthur no emprestava para ningum e do qual ele tinha o maior cime. E no entendeu por que seu pai j estava voltando do Vasco naquele domingo ensolarado, principalmente, por que ele parecia estar sentado no banco do carona, enquanto seu amigo, que estava dirigindo, saa s pressas do automvel para tocar a campainha, com alguma notcia bem ruim pela cara de Ottlia.

- Me, o que...

- Agora no, Paulo.

O menino nunca vira sua me daquele jeito: desnorteada. Andando de um lado para outro, pensando alto sobre o que fazer, com um olhar triste e uma cara de choro. Ligando, em seguida, para o doutor lvaro, mdico da famlia, como se eles combinassem de se encontrar, para depois entrar no carro com o amigo de Arthur e partir dali como um foguete. No mesmo carro em que seu pai continuara sentado de um jeito estranho, tombado para o lado direito.

Naquela manh, Arthur estava se preparando para sacar na quadra de vlei do Vasco da Gama, quando sentiu uma dormncia muito forte no rosto, falta de fora para mexer o brao e a perna do lado direito. Uma fraqueza aguda e inesperada que o derrubou no cho, deixando todos os outros jogadores assustados. No hospital, isso seria diagnosticado como sintoma de um acidente vascular cerebral - o temido AVC.

Por causa dele, Arthur ficaria 45 dias ininterruptos no hospital, entre a vida e a morte. Com vigilncia 24 horas de Ottlia, que no podia contar com a ajuda dos filhos, ainda muito pequenos. E talvez mais perdidos que ela.

Paulinho, aos 9 anos de idade, ao ver o pai inerte no banco do carona do carro e depois no hospital, ficou muito impressionado. E no foi por ter ouvido os adultos falarem sobre o AVC. Na verdade, ele no sabia o que era isso. A nica coisa que sabia  que ele tinha medo.



Arthur sobreviveria quele incidente e a vida iria seguir. Porm nenhum exerccio de reabilitao posterior lhe devolveria o movimento integral de sua mo direita. Seus dedos, com a atrofia de um dos nervos, ficaram encurvados para dentro, na direo da palma - a ponto de dar um calo nos dedos. Uma simples modificao no seu corpo que o impediria de praticar todos os esportes de que gostava. Um homem ainda jovem com seus 40 e poucos anos, capaz de trabalhar, de rotina regrada e saudvel, mas que se sentia como um velho de 80 anos e dependente dos outros. O primeiro baque que ele teria que suportar, antes da tragdia do ano seguinte.



- Pai, por que a gente precisa sair? - perguntou Paulinho, com seus 10 anos de idade, observando, angustiado, todas aquelas caixas de mudana ao seu redor.

Mveis com plstico em volta, livros empilhados em um canto, malas repletas de roupas e as paredes vazias - sem mais um quadro.

- Porque sim, meu filho... - disse Arthur, muito abatido, fechando a ltima caixa com os pertences da sala.

- Mas a casa no  nossa?

- ... - respondeu ele, to triste que deixava o filho ainda mais revoltado.

- Ento  roubo!

- Talvez, filho... Segura aqui?

Arthur mal olhava para Paulinho, abatido e envergonhado de estar sendo submetido a abandonar seu lar daquela forma.

- Mas eles podem?

- Podem... Me ajuda a colocar esse plstico?

- No, pai, a gente no pode ir embora! Essa casa  nossa! Meu quarto  aqui! O seu e o da mame! O de todo mundo!

- A gente  obrigado pelo governo a sair, meu filho...

- Obrigado? Mas voc construiu essa casa! Eu vi!

- O governo, no...

- E  o governo quem vai morar aqui?

Ao que Arthur deu um leve sorriso, escondido no meio de tanta melancolia.

- No, filho... Ser um viaduto, por onde passaro muitos carros.

- Carros? Ah, no... A gente vai sair da nossa casa por causa dos carros?

Quarenta e trs famlias perderam suas casas no bairro Catumbi e outros 32 imveis foram desapropriados em Laranjeiras em 1963. Ano em que, finalmente, seria inaugurado o tnel Santa Brbara, ligando a Zona Norte  Zona Sul do Rio de Janeiro. Uma galeria de 1.357 metros de comprimento, que passava por dentro da montanha. O primeiro grande tnel aberto na cidade, o primeiro a ter ventiladores, considerado o maior da Amrica do Sul e um dos mais modernos - inaugurado no governo do estado de Carlos Lacerda, em pleno Regime Militar.

Era o Rio de Janeiro que crescia, pedindo escoamento urgente do trfego de seus moradores. Obras que seriam vigiadas por Arthur, constantemente, at o dia em que a casa que ele construra para a sua famlia, grande, bonita, de tantas festas e momentos felizes, foi ao cho.



Depois da sada do Catumbi, a famlia de Paulinho se mudou para um apartamento na Tijuca, na Zona Norte, tambm perto daquela regio. E todos continuaram frequentando os mesmos colgios, com os mesmos amigos, enquanto o elevado 31 de Maro, como seria batizado o viaduto, ia tomando forma na sada do tnel Santa Brbara.

Arthur voltou a trabalhar na Mesbla, Ottlia passou a fazer suas cintas em um quarto menor, e as crianas, aos poucos, se adaptavam s mudanas - com Paulinho, cada vez mais ligado  msica, conhecendo diversos compositores e intrpretes.

Nat King Cole encheu sua alma com belas canes, fazendo-o se esquecer da vida. Elvis Presley era bom, mas ele no gostava muito do estilo. E o surgimento da Bossa Nova, no final da dcada de 1950, com Joo Gilberto e Elizeth Cardoso, trouxe um frescor musical interessante. Mas foi um disco chamado Beatlemania em 1964, que virou completamente a cabea dele, aos 12 anos de idade. O LP de estreia no Brasil dos Beatles.



Na parte inferior de Santa Teresa fica o Bairro de Ftima, rea primordialmente residencial e perto do comrcio do Centro da cidade - local onde morava seu padrinho Almir e seus pais tia Clotilde e tio Nilo. Uma das razes para Paulinho viver naquela regio, que se tornaria cada vez mais interessante - sobretudo por causa das garotas que tambm moravam l.

Paulinho no era o garoto mais bonito de sua turma, mas talvez fosse o que tivesse mais lbia e charme na hora de conversar com as meninas. Quando mais novo, ainda com 9 anos de idade, treinou muitas vezes como beijar com uma prima 5 anos mais velha que ele. Cresceu observando as meninas no primrio, pensando em qual seria a melhor abordagem com cada uma delas, at chegar ao ginsio. E se divertia com suas investidas em relao ao sexo feminino, sem qualquer compromisso. Um menino de roupa transada, que s queria dar beijo na boca e ser feliz, curtindo a vida ao lado de boas companhias e belas pernas.

Porm, foi no Bairro de Ftima que seu corao acelerou pela primeira vez de um jeito estranho ao se aproximar da casa de Almir e avistar, na janela da casa vizinha, praticamente uma miragem. Uma linda garota, de cabelos castanhos, sinalzinho na bochecha, to baixinha e pequenina chamada Maria do Carmo, ou melhor, Carmota. Uma moa delicada, carinhosa, que adorava msica, sobretudo o LP Beatlemania - o que s poderia ser um sinal dos cus para Paulinho.



A msica Dont Bother Me, tocada pelos Beatles na vitrola, tomava a casa de Carmota - deitada no sof com Paulinho, enquanto seus pais estavam na rua -, esquentando o clima dos jovens de amizade colorida desde o momento em que se conheceram. Beijos e mais beijos que deram confiana para Paulinho avanar o sinal naquele dia.

- No faz isso... No vai dar certo.

Fazendo o garoto perder o rumo, sem ter coragem para retomar o ponto onde havia parado. Mantendo-se em silncio diante da msica, com os olhos estticos, enquanto sua respirao ainda estava ofegante, para depois despedir-se meio atnito de Carmota, que parecia querer mais - embora no dissesse nada. Saindo da casa dela, envergonhado e com pressa.

Carmota continuou amiga de Paulinho depois desse episdio e adorava conversar com ele. No entanto, nunca mais os dois tiveram outra chance de ficar juntos. Pelo menos Paulinho nunca mais tentou, apesar de apaixonado por ela. Assim, viu Carmota namorar Jorginho, seu amigo mais feio da turma, e outros meninos da rua, alm de assistir, de camarote,  garota se apaixonar por um peruano que conhecera em uma das festas de sua famlia. Sem nunca dizer nada... Resmungando bastante quando a via com o outro, debaixo do seu nariz.



De terno e quepe azul-marinho, o condutor, pendurado nos estribos, fazia a cobrana dos passageiros de um dos bondinhos do bairro Santa Teresa, enquanto o motorneiro dirigia o veculo pelos trilhos. Com sua cor verde-musgo ainda no incio dos anos 1960, o veculo de laterais abertas vinha desde a rua urea, passando pela rua do Oriente, pela Progresso, para ento chegar ao Largo das Neves, onde fazia o retorno para o caminho de volta. O bonde passava em frente  igreja Nossa Senhora das Neves e era uma sensao entre crianas e adolescentes que moravam ou estudavam ali perto, como os da escola municipal Santa Catarina.

Esse colgio ficava na rua Eduardo Santos, saindo do Largo das Neves, e foi onde Paulinho, como os amigos o chamavam, se juntou pela primeira vez a outros beatlemanacos para fazer msica. Srgio assumiria a guitarra, Gacho o contrabaixo, e Paulinho o microfone - todos do ginsio no municipal Santa Catarina. Mas e o baterista?

- Tenho um conhecido no Morro dos Prazeres que toca legal! O cara gosta de samba, mas j vi ele tocando rock. Posso chamar? - sugeriu Srgio aos demais.

- Ele tem bateria? - perguntaram os outros dois.

- Tem, tem, tem! A bateria  dele mesmo!

Assim nasceram os Flies, com Paulinho, Srgio, Gacho e, por ltimo, Miguel, sambista de corao, roqueiro improvisado e proprietrio de bateria. Perfeito! Tudo bem que eles ensaiavam mais do que se apresentavam, mas s a experincia de tocar j estava valendo.

Os ensaios eram na casa do Srgio, em Santa Teresa, e toda vez que saa um novo disco dos Beatles era uma loucura! Os meninos no sossegavam enquanto no conseguissem o LP para tirar as msicas. Paulinho tambm arranhava um violo e guitarra, mas no se dedicava aos instrumentos como fazia com as letras e os vocais.

- Canta a, deixa que a gente toca - diziam os outros msicos, e ele deixava para l.

Frequentador assduo do bairro, do bondinho e da casa de Srgio, Paulinho, alm de estudar os quatro anos de ginsio, encontrou em Santa Teresa um ambiente musical e agradvel - tambm repleto de meninas bonitas. De modo que foram vrias as festas em que ele apareceu para dar uma canja, fazer um charme para os brotos, ou apenas se divertir; seja na casa de conhecidos, ou no Clube Dom Orione, nos fundos da escola. Bons amigos, bons tempos aqueles.



Srgio usava culos redondos, tinha a pele clara e os cabelos pretos pelos ombros, no estilo John Lennon de ser. Era baixo, um pouco cheinho, e andava por Santa Teresa vestindo um sobretudo at o p, independente do calor que fizesse, como se estivesse passeando tranquilamente pelas ruas de Londres, acompanhado muitas vezes por seu amigo Z Maria, comprido e magro. Z Maria, por sua vez, era moreno e tinha um cabelo black power que mais parecia um cogumelo na cabea devido ao tamanho. E, juntos, eles desfilavam pelo bairro com elegncia, tirando a maior onda com os moradores pela maneira de se vestir e de se portar. Os mais velhos achavam aquilo engraado, e os mais novos, pelo menos, respeitavam. H de se entender por que em Santa Teresa s dava eles.

A famlia de Srgio gostava de msica, a comear pela me, que era cantora do Theatro Municipal e tinha um considervel poder aquisitivo. Volta e meia algum parente deles viajava para fora do pas, regressando com a mala cheia de discos, muitos deles a pedido de Srgio, na tentativa de conseguir raridades e o mais importante: driblar os lanamentos atrasados do Brasil. Nos anos 1960, os jovens penavam para saber o que acontecia fora do Brasil. E quem tinha meios de obter discos e informaes de terras alm-mar se tornava rei.

Paulinho conheceu muitas canes com Srgio, que pagava caro para ter discos novos ou que mal se ouviam falar no Brasil. E era uma perdio ter acesso ao acervo do amigo, principalmente porque ele arranjava muitos LPs com as letras das composies, o que ajudava muito o vocalista, que comeou a estudar ingls no primeiro ano do ginsio e tirava tudo de ouvido. Quantos no foram os dias e as noites com a bunda quadrada de tantas horas sentado na cadeira, escutando a mesma msica, para ter mais ou menos a letra correta? Conseguir as letras certinhas, j escritas em um encarte, era bom demais para ser verdade, um perfeito paraso para um cantor iniciante e insacivel.



Os integrantes dos Beatles deram incio  turn de divulgao do lbum Beatles For Sale, em outubro de 1964, tendo na agenda apresentaes em teatros, cinemas e pequenos auditrios, como o do programa da ABC Television, Thank Your Lucky Stars. Sem nenhum planejamento ou estratgia de marketing, guiados apenas pelo acaso e gosto pessoal de cada um, ao andar por uma das principais ruas do Centro de Londres, a Shaftesbury Avenue, os quatro pararam em uma loja e compraram os famosos palets de gola redonda. Como poderia acontecer com qualquer consumidor, os msicos passaram em frente a uma vitrine, gostaram do modelo e levaram. Simples assim. A diferena  que eles eram os Beatles e usaram o palet ao tocar na TV britnica, imprimindo uma marca  banda e  moda no mundo inteiro.

No Brasil, a tendncia chegou um pouco atrasada, mas veio com fora. Ottlia, que o diga! Paulinho, vaidoso que s, no sossegou enquanto no ganhou em seu aniversrio de 13 anos, em 1965, a bota com salto e fecho clair do lado, para usar com uma cala tipo cigarrete com um tecido pied-de-poule bem mido. O lojista, para facilitar a compra, anunciava e deixava escrito em todas as etiquetas o nome do calado: bota dos Beatles. Paulinho fechou o visual com o terno de gola redonda, com os bicos da gola da camisa social para fora, gravatinha e presilha. O menino gostava de caprichar no modelito, principalmente para os shows. E depois de pronto, todo paramentado como um bom beatlemanaco deveria ser, se olhava no espelho satisfeito.



Ah... Stela! Como era bonita aquela menina... De olhos claros e cabelos castanho-claros, ela tambm estudava no ginsio da escola municipal Santa Catarina. E Paulinho no demorou a namorar a garota, seja pelas ruas de Santa Teresa ou nos intervalos das aulas. Uma companhia feminina, que deixava sua permanncia no colgio muito mais agradvel.

S que, na mesma poca, por tocar com o Srgio, ele tambm conheceu outras meninas do bairro - e entre elas Guadalupe, ou melhor, Lupita. Uma espanholinha loira, de bochechas rosinhas, de cabelo curto todo picadinho no pescoo. Com uma boca desenhada e nariz pequenino... Parecia uma boneca! E l foi Paulinho cheio de manha, todo transado com suas roupas, conversar com a menina, que se derreteu para ele e tambm se tornou sua namorada.

Mantendo os dois namoros, ao mesmo tempo, no mesmo bairro, sem uma nem sonhar com a existncia da outra. Considerando-se firme com as duas namoradas! Alis, se dependesse de Paulinho, ele continuaria assim, tranquilo, curtindo Stela e Lupita por meses! Porm, a me da espanhola no facilitava sua vida, e encrencava com as sadas da filha, regulando a garota e estragando toda aquela harmonia.

Ponto para Stela, que se tornaria a namorada oficial de Paulinho, em Santa Teresa, apesar de, displicentemente, ele roubar outros beijos por a.



Apolo 6 era o nome do conjunto que Paulinho gostava de ver no Bairro de Ftima, e, da plateia, ficava se coando para poder subir no palco e cantar com eles. S que Paulinho tinha 13 anos de idade, e os integrantes da banda por volta de 16 e 17.

- Deixa eu entrar na banda? Canto todas essas msicas!

- Vaza, moleque. No tem lugar pra voc aqui, no.

- P, qual ? Vocs j me viram cantando. Eu mando bem!

- Ah... Fica pra depois, Paulinho. E nem adianta insistir.

O vocalista, no auge dos seus 13 anos, tentava, sem sucesso, entrar na banda e falava de igual para igual com os garotos, fossem eles mais velhos ou maiores na altura. Era tinhoso ao lutar por seu espao nos palcos e bradava sua presena de cantor. No abaixaria a cabea, tendo certeza do que queria e de sua capacidade. Por isso, podia ser pequeno, moleque, mas j bravo e com personalidade saiu muitas vezes mal-humorado dos shows, resmungando alto pra quem quisesse ouvir:

- Sacanagem! Eu canto muito mais do que esse pastel a! No sei por que eles no me deixam cantar!



Na rua Tadeu Kosciusko, no Centro do Rio de Janeiro, pertinho do Bairro de Ftima, Paulinho conheceu um pessoal que era bom de msica - regio tambm frequentada pelo seu irmo Arthur. E, de vez em quando, ia para l para visitar os amigos, alm de cantar nas rodinhas de violo que rolavam na rua.

L ele conheceria Betinho, Guaracy e um menino beatlemanaco, magrinho, chamado Cleberson. E onde ele tambm iria namorar Sandra, Rosinha e Lucy, apesar de ser conhecido naquela rea como Paulinho Bibel, por andar sempre arrumadinho. Na verdade, as meninas at pareciam gostar do estilo do garoto, e no implicavam com ele por causa do apelido. Achavam bonitinho o jeito dele se vestir - o que contribua ainda mais para a vaidade de Paulinho.

Aquela foi uma poca de tardes interminveis para Paulinho, de namorico e de msica, na Tadeu Kosciusko ou no murinho do Bairro de Ftima, o Murinho da Vergonha. Ah, sim, onde ele tambm beijaria, diversas vezes, uma bailarina maravilhosa. Sabe como ... Ela era linda demais.



Baile com The Watts, no Clube Dom Orione, neste sbado, s 21 horas!, era o que estava escrito no cartaz, colado pelas ruas de Santa Teresa, Bairro de Ftima e Catumbi. Todos os jovens da regio estavam convocados para uma noite de muita msica. O tpico evento que se tornava, praticamente, obrigatrio na agenda dos meninos e meninas - tanto pela apresentao da banda, que tocava um repertrio animado, quanto pelo clima de paquera da festa.

- Rapaz... O que ser de mim...

Disse Paulinho, com 15 anos de idade, pensando alto ao ver o cartaz, ao lado do amigo da escola, Ronaldo. Permanecendo parado na frente do anncio, com a mente longe, j projetando como seria dramtico aquele final de semana.

- Ow! Acorda! Parece que viu fantasma! - falou Ronaldo, dando um tapa nas costas de Paulinho, tirando-o do transe.

- Porra, bicho, ferrou...

- Por que voc t dizendo isso?

- P, como  que eu vou entrar nessa porra?

- U, entrando...

- Ah... A mulherada vai estar toda l! T fudido...

E ele no estava to errado assim.



No sbado, antes do Clube Dom Orione, Paulinho foi para a festa de casamento de uma prima, e carregou Ronaldo com ele. Com o plano de sair mais tarde, a tempo de pegar o baile a que tanto queria ir.

- Perfeito! A gente bebe de graa aqui, antes de ir pro The Watts!

S que eles se empolgaram com o tal plano, diante da fartura do casamento! Beberam um pouco de tudo que o garom trazia na bandeja: ponche, champanhe, cuba libre, usque, leite de ona... Curtindo at a ltima gota do casamento, inebriados por tantas cores e gostos nos copos - embora inocentes quanto ao resultado daquela mistura etlica. Nenhum dos dois tinha idade para beber mas, como era festa de famlia, os adultos relaxaram e nem perceberam o estado que ambos estavam quando resolveram partir a p para o Clube Dom Orione, por um atalho que levaria ao show do The Watts! - banda que os dois garotos adoravam, e na qual tocava Cleberson, que Paulinho conhecera nas rodas de violo.

- P, uma escadaria de mais de mil degraus! Que  isso, rapaz... No vou mais por a, no - disse Paulinho, virando as costas para Ronaldo, sem discutir a ideia estapafrdia.

E seguiu o seu caminho, deixando para trs o amigo, que cambaleando foi para os degraus. Todo bonito, de terno, gravata e abotoaduras, tropeando em pedras que no existiam, parando de andar apenas ao alcanar a esquina do Largo das Neves, onde j dava para enxergar o clube.

- Hum... Vou parar um pouquinho aqui... - disse Paulinho.

Afinal, o Clube Dom Orione estava ali, a poucos metros de distncia, oras! Era preciso s descansar, antes de prosseguir com a sua trajetria. Por isso, ele abraou o poste da esquina, apoiou a cabea de um jeito confortvel e dormiu, em p, sem se preocupar se seu rosto ficaria todo ralado do cimento do poste. E j estava comeando a sonhar, quando sentiu uma mo pousar sobre o seu ombro.

- O que voc t fazendo a, rap? - perguntou Davi, ao lado de Reinaldo, amigos do Bairro de Ftima que estavam a caminho do Dom Orione.

Porm, Paulinho mal conseguia dizer uma palavra.

Os dois riram, enquanto Paulinho balbuciava:

- Casamento da minha prima...

- Ah... E o que voc t fazendo a, rap? - insistiu Davi, rindo um bocado.

- Dom Orione...

- T, Dom Orione... Reinaldo, vamos levar ele? Seno a gente  que vai perder a festa.

Davi passou a cabea embaixo do brao do amigo para ergu-lo, ao que Reinaldo segurou o outro lado. Uma ajuda fundamental para que Paulinho terminasse aquela heroica jornada.



Enquanto isso, no Clube Dom Orione, a mineira Lenita, morena e de cabelo comprido, batia o p no cho e olhava as horas no relgio, sem parar.

- Isso que d arrumar namorado carioca...

A garota havia se mudado recentemente para o Bairro de Ftima e estava ansiosa por estar, pela primeira vez, em uma festa do Rio de Janeiro. Porm, seu novo namoradinho ainda no tinha chegado, o que aumentava mais suas expectativas em relao ao evento.

- Que horas so? - perguntou uma menina de Santa Teresa, perto de Lenita, que tambm estava com cara de estar esperando algum.

- Dez horas... - respondeu Lenita, para a decepo da outra garota.

- Vou te falar, viu... Namorado atrasado  dose!

- Nem me fale! O meu marcou comigo s 21 horas em ponto! E at agora nada...

- Homens... Todos iguais.

- Depois eles falam da gente!

E, aps um silncio de aborrecimento de ambas, a outra garota continuou o assunto:

- Quem  o seu namorado?

- Paulinho.

Com isso a garota j se empinou toda, colocando as mos na cintura.

- Paulinho?

- !

- Paulinho, irmo gmeo da Mrcia?

- Esse mesmo! Voc conhece?

- No, pra a... Tem alguma coisa errada... Voc t falando do irmo do Arthur?!

- , u! Mora na Tjuca, estuda no Santa Catarina...

- Ele  o MEU namorado!

Dando fim, em segundos, ao clima amistoso entre as duas. Isso porque elas no sabiam da Lupita, Edna, Sandra... Meninas que saam com Paulinho, de vez em quando, para dar uns beijos. Todas elas presentes no baile.



- Voc no vai entrar, no, Paulinho!

Brecou seu Salvador, um dos funcionrios do clube, ao ver o estado do garoto na portaria.

- P, Salvador, no vou criar quizomba nenhuma, bicho... T de paz e sossego - disse ele, apoiado nos amigos, tentando se defender, enrolando a lngua, e quase miando na hora de falar.

- No Paulinho... Sem condies.

- Bicho, t aqui mal pra caramba!

- T vendo... Vai pra casa, vai!

- P, s no vou embora porque t com namorada a dentro.

- Namorada no, filho! Tem duas que j esto discutindo!

- Puta que o pariu... Isso no vai prestar...

Lamentou Paulinho, olhando para baixo, arrancando um leve sorriso de Salvador, que conhecia h tempos as histrias do garoto, e no resistiu em deixar o circo pegar fogo.

- Vai entra, anda... Essa eu quero ver.

Davi e Reinaldo entraram com o amigo direto para o banheiro do clube, passando batido pelas duas garotas, enquanto Paulinho gritava sem olhar para os lados:

- Pra a, pra a...  o seguinte... T chegando, d licena!

Depois disso, colocaram o amigo debaixo dgua, tiraram suas abotoaduras, afrouxaram a camisa e lhe deram um salgado e uma Coca-Cola. Tudo com muita calma, embora as garotas do lado de fora estivessem enfezadas, doidas para Paulinho sair do banheiro.

A menina de Santa Teresa foi a primeira que o interpelou, e no economizou nos palavres, dedos no rosto e olhos de raiva. Paulinho, em vo, fazia cara de cachorro que caiu do caminho de mudana. Quinze minutos de falao martelando em sua cabea, no bastasse o porre.

- A gente se fala na segunda-feira! - disse ela, se despedindo do tal namorado, furiosa.

J Lenita chegou mais compreensiva, e aceitou o charme de Paulinho nos cinco primeiros minutos de conversa, oferecendo colo e cafun para que o garoto dormisse, em um dos degraus da arquibancada ao redor da quadra - onde o The Watts se apresentava. A nica, de todas as garotas daquela noite, que resolvera lhe dar carinho.

Assim, Paulinho apagou feliz durante o show inteiro, s acordando no final, quando o grupo estava tocando Cidade Maravilhosa. Como se tivesse sonhado com toda aquela confuso! E foi andando com Lenita para casa, sem nem se lembrar de seu amigo Ronaldo, perdido pelo caminho - e com quem ele se reencontraria s segunda-feira, na escola.



Carlos Henrique morava no Catumbi, era alto, claro, meio forto e da faixa etria de Paulinho. Mas por causa dos seus cabelos avermelhados, parecendo um gringo andando no meio da garotada, ganhou o apelido de Vermelho, como  chamado por alguns amigos at hoje. Baterista, louco por msica, ele se acabava em um heavy metal ou um rock pesado que precisasse de presso na batera. Segurava as baquetas como se fossem cabos de martelo e batia, com toda a fora e sem perder o ritmo, mostrando incrvel destreza naquela grosseria. No era um exmio baterista, mas dava para o gasto, marretando com vontade seu instrumento durante as canes, por mais que quebrasse uns pratos de vez em quando.

Paulinho veio a tocar rocknroll com o Vermelho, aps a dissoluo dos Flies, na Red Yellows, e achava engraado demais aquele jeito dele na bateria. Disposto a ser msico, o garoto, que mal completara 15 anos, tentava se encaixar em outras bandas pelos arredores. Nessa aventura musical ganhou experincia, aproximou-se de pessoas como Vermelho, Z Roberto, Lula, Piu, participou de conjuntos como o Red Yellows, tocou com um pessoal da rua Riachuelo, com msicos da Vila Rui Barbosa no Centro da cidade, e deu canja nos Ufos - que inclusive tinha uma menina bonitinha em quem ele ficava de olho.

Seu pai, Arthur, observava de longe o interesse do filho pela msica e, para os menos atentos, poderia at parecer desligado em relao a isso. Mas na primeira oportunidade que teve, apareceu com um violo de presente para o menino junto com um aviso:

- Quer fazer? Faz! Mas se o estudo comear a andar mal, para tudo!


E quando ele falava para tudo era para parar mesmo.



Paulinho tocou muito rocknroll com a Red Yellows, mandando Beatles, Johnny Rivers e outros nomes que as pessoas nem sempre conheciam. E se divertiu, alm de ganhar prtica e conhecimento, em muitas apresentaes sem ver a cor do dinheiro. Isso mudou ao entrar em 1967, aos 15 anos, no Half and Half - conjunto de repertrio mais variado e que fazia o chamado bailo, formado por ele nos vocais, Reinaldo nos teclados, o xar Paulinho na guitarra base, Z Roberto na guitarra solo, Jorge na percusso e s vezes no teclado, e Urso na bateria.

Essa foi a primeira vez em que ele se apresentou profissionalmente, recebendo pelo baile, vestindo roupa de show, empresrio e tudo mais. Cus, como era boa aquela sensao de conseguir dinheiro fazendo algo que amava! Para quem nunca foi pago por trabalhar com o que se gosta, essa afirmao pode at soar um pouco infantil, inocente, sonhadora ou idealista. Tem gente que nem pensa nisso ao escolher uma profisso, como se no fosse prioridade ou mesmo possvel. Mas h quem fale que essa  uma experincia nica, como se todos os seus elementos pessoais significassem algo maior e valoroso, para no dizer mgico. Como se todas as peas de sua histria se encaixassem e voc fosse mais real por isso. Para os incrdulos, h de se dizer que, realmente, existem aqueles que falam que se trata de algo viciante. E que se voc recebe dinheiro por algo feito com paixo uma vez, mesmo que seja difcil fazer de novo, voc no vai querer largar essa vida nunca mais.

Paulinho ficou na banda por dois anos, tocando em vrias festas sociais da regio, e poderia ter ficado mais, se no tivesse esbarrado em um dos clssicos obstculos de se manter uma banda: msico que manda demais, e msico que no quer ser mandado.

- , a roupa  essa aqui! - disse Urso, lder da banda e responsvel por decidir tudo o que os outros integrantes iriam fazer, apontando para um terno azul, alinhado e com brilho.

Nem todo mundo gostou da ideia, no entanto, fizesse chuva ou sol, achasse cafona ou no, aquele teria que ser o modelo do conjunto nas apresentaes. O Urso havia determinado e no tinha discusso. Ele era o dono da banda e queria fazer valer seus direitos de mandar em tudo. Mas para Paulinho aquela conversa no fazia muito sentido e, com o tempo, o dinheiro passou a no compensar. No existia mais prazer e paixo em estar ali tocando com aquelas pessoas. O Half and Half havia deixado de representar seu trabalho, seus pensamentos e seus prprios elementos musicais. Estava claro o que ele deveria fazer. Era preciso se afastar do grupo em busca de um conjunto onde ele tambm tivesse voz, no apenas nas canes, mas tambm em seu conceito, postura e forma. Uma banda que pudesse significar um pouco de si.



Era final de 1969 quando Paulinho, aos 17 anos, foi chamado para quebrar um galho do Red Yellows, no Astria Futebol Clube, no Catumbi - que se juntaria mais tarde, em 1976, com o Esporte Clube Minerva, formando o Helnico, existente at hoje na rua Itapiru, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Mais um dos bailes, como outros tantos que fizera, cantando e at arriscando canes na bateria. O que ele no poderia imaginar  que na plateia estariam dois msicos em busca de um vocalista para Los Panchos Villa: Ricardo Feghali, com 14 anos, e Kiko, com 17.

- Putz, o moleque canta pra cacete, Kiko!

Feghali tambm morava no Catumbi na poca, e amou Paulinho cantando. Queria cham-lo logo para fazer parte da banda, para ontem, se fosse possvel. Mas antes tinha que acertar a entrada de um novo baterista para Los Panchos, pois Vermelho (sim, o Vermelho da Red Yellows) no queria continuar - funo que, para sua surpresa, seria assumida por sua irm mais nova, Jandira. Foi algo em torno de dias depois da troca de baterista at ele, ao lado de Kiko, bater na casa do garoto para fazer o convite, que no foi aceito logo de cara.

Essa no era a resposta que os meninos esperavam ouvir, e poderia ter sido razo para os dois sarem de l, bravos e frustrados, porta afora. Entretanto, com a expectativa j no p, continuaram na sala, conversando com o vocalista, enquanto as msicas do rdio faziam o som ambiente. P, mas que garoto metido! Putz grila!, pensava Kiko, perdendo um pouco de pacincia por se sentir esnobado, mas firme ao lado de Ricardo, que batucava na perna acompanhando a levada da cano que tocava no momento.

Paulinho tinha gostado dos dois de cara, mas no dava para aceitar de imediato a proposta, isso fazia parte do seu show. Quis saber qual era o repertrio, como era a dinmica deles, e s relaxou de verdade com os msicos aps ver Ricardo fazendo uma batida de boogaloo, muito moderna naquele instante.

- P, legal! Boogaloo! - disse Paulinho empolgado, balanado o rosto de acordo com o ritmo da msica e cantando junto, curtindo a levada de Ricardo.

Mandou em seguida a pergunta:

- T bom, quando  o ensaio mesmo? Vou dar uma olhada em vocs.

Dias depois, l estaria Paulinho, ainda receoso, observando a banda e sentindo se tinha qumica com os integrantes: Jandira na bateria, Lus no baixo, Gean Carlos na guitarra base, alm de Feghali nos teclados e Kiko na guitarra solo. A insegurana inicial que se desfaria em minutos ao se surpreender com a menina na bateria. Jandira, que se tornaria deputada federal pelo Rio de Janeiro quando mais velha, tinha 12 anos naquela poca. Uma moreninha de praia, de cabelos enrolados, que arrebentou no instrumento.

No segundo ensaio, a situao j era outra: o vocalista tinha vindo para ficar, com a garganta pronta para cantar com Los Panchos Villa e com um buqu de flores, na mo, destinado para Jandira. Gentilezas pequenas e notveis peculiaridades de Paulinho.



Notas

* Antes, religiosos e ricos eram sepultados nas criptas das igrejas.

** Nos anos 1960, o vinil substituiria de vez os discos de goma-laca. O material alm de ser mais leve, malevel, representou uma revoluo no som ao possibilitar mais qualidade e um nmero maior de msicas.

*** O Boqueiro abrangia todo o Passeio Pblico, incluindo a Cinelndia, de um lado, e a praa Paris do outro, atingindo o p do Outeiro da Glria. A regio seria aterrada por causa do aeroporto Santos Dumont.

**** Isento de mensalidades ou qualquer outra taxa.



CAPTULO 6

SONHO DE OURO

Eurico Pereira da Silva Filho

- Traz gua, anda, rpido!

Mulheres agitadas tropeavam em homens preocupados e vice-versa, em meio a preparativos e ansiedade geral. A casa 5, de seu Otaclio e dona Alice, estava movimentada no dia 13 de outubro de 1952, aps o feriado de Nossa Senhora de Aparecida, e o filho deles, Eurico, no via a hora de ver a carinha do seu rebento mais novo. Ser que ele vai ser parecido comigo ou com a Cla?, Ah, tomara que venha com sade, Imagine se for um menino? Dois garotos? Essa casa vai ficar uma festa!

Um bero improvisado em uma bacia com estofadinho j estava pronto para receber a criana, que iria morar em um barraco com os pais e o irmo atrs da casa dos avs. A parteira fazia seu papel para garantir uma bela e tranquila chegada ao mais recente integrante da vila Sonho de Ouro, em Bonsucesso, no subrbio do Rio de Janeiro.

Carlos Alberto, o Carlinhos, com um pouco mais de 2 anos na ocasio, no entendia muito bem toda aquela euforia e corria de um lado para o outro entre pernas e braos dos adultos. Olhos curiosos tinha o menino, que, apesar do tumulto, percebia a ateno das pessoas voltada para o quarto de seus avs - de entrada proibida para ele no momento. Quanta confuso dentro de uma casa s! O que estaria acontecendo? Seu pai mal falava! Sua me? Tinha sumido. Pequeno, e por instinto infantil, ele se esgueirava com agilidade do controle dos grandes, desbravando aquele mundo de novidades  sua frente.

Um aventureiro de sucesso  o que sabe usar suas caractersticas a seu favor, e no caso de Carlinhos, foi o tamanho. Um armrio de costas para o outro fechava a passagem do quarto de Otaclio e Alice, mas ambos de estrutura alta formavam um tnel perfeito para seres menores. Nem deu tempo de segurar o menino, que se enfiara debaixo dos mveis justamente quando a parteira tirava o beb de Cla, com o corpinho ensaguentado, ligado  me pelo cordo umbilical.

Carlinhos ficou paralisado. Que coisa estranha, no? Aquela cena era totalmente fora do que ele poderia esperar encontrar. E assustado, agachado e com uma das pernas embaixo do armrio, apenas conseguiu ter foras para gritar por socorro:

- Aaaaaah! Um bicho quer comer a minha me!



Eurico foi o nome dado para a criana que nasceu no quarto de seu Otaclio e dona Alice - como seu pai e o vizinho Eurico Teixeira, da idade dos seus avs, e que tambm tinha um filho Eurico. O Teixeira morava em uma das casas laterais, formando o porto da vila, na avenida Nova Iorque, e se diferenciava entre os xars pelo sobrenome. J seu pai era conhecido como o Eurico do Oswaldo Cruz, devido ao seu trabalho como laboratorista do instituto.

O nome de origem germnica tinha o significado de defensor da lei, muito correto, e no era o dos mais comuns no Brasil, por mais que a populao o tivesse ouvido bastante nos anos anteriores com o presidente militar Eurico Gaspar Dutra, no poder de 1946 a 1951. J a tal alcunha se tornaria popular na vila Sonho de Ouro por haver quatro representantes de nome Eurico. Principalmente pelas rodas musicais com os amigos no quintal do seu Eurico do Oswaldo Cruz e pela fama de levado que teria seu filho mais novo. Euriquinho foi como a me, Cla, passou a chamar o menino. J o pai o chamaria desde beb de meu Euriquinho, passando por meu Kikinho, Mukikinho, Kikinho, para chegar, ento, a Kiko, que foi, realmente, como o garoto seria conhecido pela vida inteira.



Foi por causa da Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914, que o engenheiro Guilherme Maxwell, de origem inglesa, decidiu lotear e urbanizar as terras do antigo Engenho da Pedra, das quais era proprietrio, em homenagem aos pases que lutavam contra a Alemanha. Cidade dos Aliados foi o nome que recebeu o novo bairro, que depois seria conhecido por Bonsucesso,* com logradouros referentes  Frana, Inglaterra, Blgica, Itlia e aos Estados Unidos. Surgia, ento, a praa das Naes, e as avenidas Paris, Londres, Bruxelas, Roma e a famosa Nova Iorque, onde ficava a vila Sonho de Ouro, nmero 57, de fundos para a avenida Guilherme Maxwell.

A casa do seu Otaclio, de nmero 5, era como um corao de me: sempre com espao para mais um. Dona Alice e ele tiveram trs filhos e todos moravam l. Eurico, o mais velho, sua mulher Cla e os dois netos construram um barraco atrs, que depois se tornou uma quitinete. Aroldo, o mais novo, tambm tinha um quarto na casa, assim como a filha Ruth, mais tarde casada com Waldemar e me de Mirna. E ainda havia o quintal onde aconteciam as famosas rodas de viola da Turma da Cagalhufa, que era como Eurico e seus amigos se denominavam.



Kiko achava engraadas as bagunas que seu pai e os amigos da Turma da Cagalhufa faziam no quintal do seu av, mas o melhor era assistir  faceta musical do grupo. Eles formavam o conjunto regional Sonho de Ouro, com o mesmo nome da vila, e todos moravam em Bonsucesso. Aparecia gente batendo na porta de seu Otaclio para cantar e fazer parte da roda.

Seu Eurico tocava pandeiro muito bem, arranhava um cavaquinho, mas arrebentava mesmo nos solos no ukulele, instrumento de origem havaiana parecido com um violo, s que menor e com quatro cordas. Meu corao, no sei por qu/ Bate feliz quando te v se ouvia naquelas reunies, bem como Cerejeira Rosa e outras canes que o grupo executava com primor.

A carreira do Sonho de Ouro aconteceu muito no quintal de seu Otaclio e teve como auge a gravao de um disco. Um nico exemplar! Um disco no comercial que mudava de dono de tempos em tempos: uma hora na casa do Reinaldo, outra com Eurico, depois com Astral e por a vai. Mas que era to especial que ningum queria largar e foi esse todo o mal. Um deles (no se sabe quem) escondeu o disco debaixo da almofada quando o msico seguinte foi buscar, resolvido a jogar um papo do tipo: No t comigo mais no, fulano levou. S que uma me distrada em casa no viu o ocorrido, sentou em cima e o quebrou.



- P, Cla, bota esse menino pra estudar msica! Ele leva jeito!

- , Irene, t doida? Esse a j no gosta de estudar! Se eu botar ele pra tocar, a que ele no vai estudar mesmo!

Irene tinha mais ou menos a idade de Cla e morava no sobrado em frente. Catlica, frequentava a igreja e estava sempre nos coros das missas. Alis, era uma coisa que, particularmente, ela adorava: canto. No dava para ignorar a voz de Kiko, que ela escutava de sua sala, com agudos afinados ao repetir as canes que conhecera em casa. Valia a pena incentivar o garoto de 8 anos de idade com algo de produtivo. A realidade da vila era tranquila, sem grandes problemas com violncia ou drogas, mas no se podia dizer o mesmo dos arredores. Alis, muitos pais na vila nem dormiam s de pensar nisso.

Cla sabia que Irene no estava errada, mas ela conhecia o filho que tinha! Msica no poderia ser algo divertido para Kiko. Tinha que ser algo difcil, que demandasse muitos estudos, caso contrrio: tchau para as aulas de matemtica e portugus. Por isso, sua primeira ideia foi coloc-lo para ter aula com dona Litse, de uma vila ali atrs. O instrumento: piano.

Litse chegou com o mtodo Amyrton Vallim, no qual a aprendizagem  mais rpida e o aluno toca piano de ouvido, mas nada feito! Com Kiko no funcionou. Dedos sobre os teclados, um pouco de teoria, um d no incio... e um garoto sem entusiasmo para continuar. Ele nem esquentou o banquinho do piano! Pediu desculpas para a professora e voltou correndo para casa.

- Me, no vou voltar l, no! O que eu quero  violo!

- Ah, no! No, no, no. Voc pode tirar seu cavalinho da chuva! Violo? No!

Ah, o violo... Sonho de ouro do menino, que pedia com insistncia para a me, a administradora do dinheiro da famlia. Seu pai dava na mo dela o contracheque preso, e no incentivava aquela histria do violo por entender o receio de Cla sobre os estudos. Mas Kiko no se cansava de ouvir no e repetia vrias vezes o pedido Me d um violo? Hein? Me d um violo?, acreditando piamente que poderia venc-la pelo cansao. Ele botou na cabea que tinha que ser um violo e pronto! Talvez por ser um instrumento parecido com o ukulele do seu pai, ou ento um desejo sem procedncia mesmo, defeito de fabricao, como diria Kiko mais velho.



Toda quarta-feira, Cla pegava o bonde em direo ao Centro da cidade e Kiko ia junto na esperana de conseguir um violo. Ele sabia os nomes das lojas de msica de cor e salteado e sempre dava um jeito de arrastar sua me para aquelas ruas. Cla ia andando na frente e ele puxando o brao dela para trs, para que visse os instrumentos.

Mas a resposta no mudava. O que no o impedia de passar deslumbrado pela Casa Clarin, Guitarra de Prata e outras lojas de violes pendurados, bateria nos stands e teclados. Uma perdio para o menino, que s sabia dizer e pensar sobre o que seria quando crescesse: msico.



O pandeiro foi o primeiro instrumento de Kiko, presente do tio Waldemar quando foi morar com a tia Ruth na casa do seu Otcilio.

- Esse menino tem ritmo! Tem que botar ele pra praticar, oras.

Tunc, tic, tunc, tic, tunc..., fazia o garoto pela casa na falta do violo, batendo sem jeito no pandeiro, enquanto o irmo Carlinhos ensaiava no bong, que tambm ganhara do tio. J era uma dupla que fazia barulho no ouvido dos vizinhos. O que ficou melhor ao se tornar um trio, com a chegada do acordeom de dson Melo Jnior - para os amigos, Ecinho.

Filho da dona Nen e do seu dson, Ecinho tambm nasceu na vila, um dia antes de Carlinhos, em plena Festa de So Joo, e morava em uma das casas laterais que formavam o porto. Depois o trio virou um quarteto, at se transformar em conjunto com Gilberto Gndara no ganz, George tocando cabaa e seu irmo, Dilsomar, danando com Taninha, irm de Ecinho - todos crianas, por volta dos 8 e 9 anos de idade, em um grupo tambm conhecido como Sonho de Ouro.



Seu Barros era pai de George e Dilsomar e, por que no, um segundo pai para a garotada da vila. Dono da fbrica de fumo Acar, ele fez tudo o que podia por aqueles meninos, enquanto morava em Bonsucesso e mesmo depois que se mudou. Inventava futebol no campo da refinaria de Manguinhos, final de semana em Miguel Pereira, jogos no Maracan, Hi-Fi e Natal na sua casa, e qualquer outra diverso que os tirasse dos perigos da rua e os afastasse daquela realidade dura do bairro. O dinheiro era suficiente para ele gastar com as crianas, e sua generosidade, maior ainda. Era como se para dentro daquele porto ele tentasse estabelecer um outro ambiente, sem os receios, o medo, a malandragem e os crimes da turma do Lcio Flvio Villar, que morava na vizinhana. Lcio Flvio foi retratado no livro de Jos Louzeiro e no filme de Hector Babenco, o Passageiro da Agonia, e era nacionalmente conhecido pelos roubos a banco e fugas. Daquela turma era o mais velho, mas sabe como : todo mundo ali se conhecia. E a barra era pesada.

Seu Barros no se intimidava, nem mesmo com um fusquinha azul 1959, para promover suas excurses. Enchia o carro de meninos e meninas em todos os lugares possveis. Kiko - que namorou a Selvinha, irm do Lcio Flvio - e Dilsomar, por exemplo, iam espremidos atrs, onde se coloca o som, com os joelhos dobrados sem poder respirar ou rir. Ficavam na mesma posio, sem reclamar, at a hora de descer para se divertir.

Imagine se ele no faria alguma coisa em relao ao conjunto musical. Arrumou vrios showzinhos para a banda mirim Sonho de Ouro em festas de amigos, alm de participaes nas rdios. L ia ele, satisfeito, com o fusquinha abarrotado de garotos e instrumentos! Mas algum ligava? Era uma alegria danada, apesar do aperto. Alis, tudo era legal com seu Barros, como foi a apresentao no programa de rdio de Hlio Ricardo, da rdio Mau. O locutor caprichou no anncio e perguntou um por um o nome dos integrantes, os chamando de cumpadre. Dando prestgio para aqueles pequenos seres, que responderam seus nomes com toda a imponncia.

Todos com instrumentos pintados por seu Eurico, com as cores preto e dourado, como as do acordeom, vestindo uniforme comprado na loja Sua Majestade, com blusa de coco ralado,** manga comprida, punho e gola preto e branco, cala preta. O chamego Fandango na Cinelndia foi a msica puxada por Ecinho no acordeom, seguido pelo conjunto, animando a plateia no estdio. Mas uma senhora, sentada na frente, foi ao delrio de verdade quando Dilsomar rodou Taninha, deixando  mostra, sem querer, a calcinha da menina.

- De novo! De novo!

Uma festa para os componentes da Sonho de Ouro, que brincaram de tocar por quase dois anos, antes dos desentendimentos acontecerem. Realmente seria difcil uma banda com muitas crianas e pais envolvidos ter um futuro promissor.



Foi em um dia desses, como outro qualquer, que seu Gndara resolveu dar para o filho Gilberto um violo pequeno, feito para criana. Porm, foram os olhinhos de Kiko que brilharam ao ver o instrumento na mo do amigo. Ai, tomara que ele no toque, pensava sozinho, j com os pequenos dedos formigando para encostar naquelas cordas. Opacas, sem graa e sem cor, como todas as cordas de nylon quando paradas, mas encantadas ao ganhar movimento.

Dois meses: esse foi o tempo que demorou para o amigo encostar o instrumento.

- Gilberto, voc no t tocando, no, n? Deixa ele comigo? - disse Kiko, com o corpo inclinado quase j ao alcance do violo.

- Pode ficar! Sem problemas!

Doce vitria.

Foi em um dia especial, daqueles mais do que esperado, que Kiko entrou em casa com um violo em punho, peito aberto, sorriso estampado no rosto e a frase j pronta para a me:

- Nem adianta! Voc no vai me tirar ele, no!



Toc, toc, toc. Era Kiko na porta de Valtinho, seis anos mais velho que ele e morador de uma das casas na esquina da vila, na avenida Guilherme Maxwell. Tocava guitarra base e o seu conjunto fazia uma levada no estilo The POPs, com muitas canes soladas.

- Oi, Valtinho! Sua banda t tocando a, n? Posso ver o ensaio?

Naquele dia, Kiko voou para dentro da casa e passou o ensaio inteiro tentando imitar as posies dos msicos, mas sem fazer qualquer som, como se o prprio som da banda tivesse saindo de seu violozinho. Ao ir embora, resolveu abusar um pouquinho, com aquele seu jeito matreiro de pedir:

- Valtinho, pode me dar aula de violo?

- Posso! Senta aqui. Deixa eu j te ensinar uma msica.

O professor pegou uma folha solta de papel, desenhou os acordes, segurou os dedos do garoto nos trastes do brao do violo e passou a toada Prece ao vento, gravada pelo Trio Nag, Kiko estava to afoito em aprender que errava uma tentativa aps a outra, mas decidido foi para a casa e tocou Prece ao vento umas mil vezes, at dar bolhas no dedo.  noitinha j dava para ouvir o menino tocando e cantando, feliz da vida, sem se atrapalhar.

Valtinho ajudou muito Kiko com suas aulas de violo e Cla, aos poucos, foi diminuindo a bronca com o instrumento, na medida do possvel.

- Me, canta aqui? Essa letra eu no sei!

E Cla comeava:

- Risque/ Meu nome do seu...

- Pra a! Deixa eu fazer aqui! - dizia o garoto, tentando lembrar qual era o prximo acorde para continuar o verso.

- Agora vai!

- Ah, no! Isso  muito chato! Quando souber tocar, voc me chama e eu canto!

- P, voc no me ajuda...



Kiko era danado, moleque da p virada, ou como diziam os mais antigos:

- Esse menino  do cu riscado! Deus do cu!

Era o terror dos professores na escola pblica Rui Barbosa, quebrava vidraa, tocava campainha na casa dos outros e tinha paixo por pipa.

Ningum segurava o menino! Era daqueles encapetados, que no futuro ainda seria visto como marginal por alguns da vizinhana, por mais que tenha cometido um delito uma s vez em sua histria.

Ele tinha uns 10 anos quando sua me o levou na dona Pequenina, na avenida Guilherme Maxwell, para fazer o uniforme do colgio. Estava l, distrado, brincando com o beb da costureira, enquanto sua me acertava as contas, ao perceber perto da criana um carretel de linha dez, dos grandes. Era bom demais para ser verdade. Tum! Rolou o carretel pelo cho com o p e p! Apanhou e sorrateiramente escondeu em suas roupas.

Ao chegar em casa, escondeu o rolo no cesto de roupa suja e, no dia seguinte, de manhzinha, saiu para comprar po, pegou o carretel, enfiou em um jornal, enrolando por fora.

- Me, olha s o que eu achei!

- Nossa, mas que sorte! Agora guarda porque voc tem escola. Depois voc v isso.

O que ele no poderia prever  que dona Pequenina daria falta do carretel e, pior, contaria para a sua me o ocorrido, enquanto ele estivesse em aula.

- Cla, deixa com ele o carretel. No faz nada, no. Eu t te avisando porque isso pode levar a outras coisas e...

Ela no precisava nem terminar a frase. Cla j no mais escutava em face da desiluso que sentira naquele instante. E s conseguiu ter uma reao quando o menino chegou em casa.

- E a? Cad o rolo? Vai soltar pipa? Vai passar cerol? - disse Cla, fingindo animao.

- Vou, me! - a alegria do menino era mais que visvel.

- Cad? - ainda com voz festeira.

- T aqui, me! T aqui!

E uma me sria e brava falou pausadamente para a frustrao de Kiko:

- timo! Ento vamos devolver onde voc pegou.

Se o garoto tivesse poderes mgicos teria desaparecido. S de ver o chinelinho de borracha, da marca Verlon, no p de sua me j dava para sentir a dor. Aquele calado era fininho, mole e queimava na pele, como se tivesse sido criado para mes darem boas chineladas em filhos arteiros. E Kiko foi para a casa de dona Pequenina, pianinho. Mas ele no aguentou e abriu o berreiro quando a sua me, tambm chorando, em frente  costureira, mandou:

- Devolve o rolo e fala: dona Pequenina, eu nunca mais vou fazer isso!

A que o menino, chorando e contrariado, obedecia:

- Dona Pequenina, eu nunca mais vou fazer isso!

- Agora me d a sua mo.

Ela ento tirou o chinelo dos ps e, em prantos, comeou a bater nas mozinhas de Kiko, estendidas, gritando:

- Fala pra ela que voc nunca mais vai fazer isso! Fala pra ela! Anda!

Ele chorava alto, enquanto apanhava nas mos, dizendo para dona Pequenina, atnita na frente dos dois, sem saber como agir:

- Eu nunca mais vou fazer, eu nunca mais vou fazer!

At no aguentar mais de dor e sair correndo.

Ao saber do roubo, seu Eurico foi para casa e, ao encontrar o menino, com lgrimas nos olhos, perguntou com uma voz sentida de pai decepcionado:

- Filho meu vai fazer um negcio desse comigo?  isso mesmo que voc vai fazer? Ah, Kiko... Eu no confio mais em voc.

- No, pai, pode confiar!

- Eu no confio mais. A partir de hoje, meu filho, se voc trouxer um alfinete da rua eu vou querer saber de onde veio! T me entendendo?

- T legal - disse o garoto, de cabea baixa, mais do que envergonhado, se sentindo o pior dos filhos, o pior dos meninos.

Ali, ele percebeu o peso de sua ao, e que um carretel no representava somente um carretel. Era preciso amadurecer, crescer. E isso ningum poderia fazer por ele.

A frase de seu pai ecoou na sua cabea de uma maneira que ele nunca mais pegou nada de qualquer pessoa. Palavras duras que doeram mais do que as chineladas de sua me. Um ensinamento e uma lembrana que ele carregaria para sempre, seja depois de adulto, ao criar seus filhos, ou simplesmente ao ver um alfinete.



- Me, espera um pouco!

Era Kiko, puxando Cla, em uma dessas quartas-feiras no Centro da cidade, paralisado na casa Clarin ao se deparar com Jlio Csar, guitarrista do The POPs, experimentando instrumentos. O msico, com o cabelo lisinho para trs, duro de tanta gomalina, fazia solos na loja, despretensiosamente, trocando de guitarras o tempo inteiro, sem reparar em um menino petrificado a poucos metros de distncia. O garoto no respirava, no via mais nada ao redor, apenas sentia a msica, como se ela estivesse sendo direcionada especialmente para ele. The POPs era um dos mais relevantes grupos instrumentais do rock brasileiro em meados dos anos 1960. E solos interminveis era exatamente o que o garoto tanto queria fazer.



Em 1965, a Jovem Guarda estourou no pas, com canes originais, releituras dos Beatles, em um i-i-i totalmente brasileiro. O tal do rocknroll mexia com a garotada, que usava tudo quanto  desculpa para formar conjuntos. Kiko tinha um violo, Elias ganhou do pai uma bateria, Edney cantava e Valter Pinto, conhecido como Micas devido s macaquices, achou um violo Di Giorgio na lixeira de casa com o cavalete descolado. Nada que um bom sapateiro no pudesse resolver. Todos ali da rua e com instrumentos? Estava, ento, formado os The Mads.

Os ensaios aconteciam na casa de Kiko, com direito a suco de laranja do seu Eurico e um repertrio  la Roberto Carlos e companhia. No comeo, ele usava o captador que ganhara da me para ligar o violo na rdio-vitrola da tia, apesar das microfonias. Depois a rdio-vitrola ficou velha e um amigo de seu pai montou um amplificador com o maquinrio, mas no adiantava muita coisa. Por fim, os The Mads apenas ensaiavam, sem fazer shows, com Micas e o violo remendado na base, Kiko e o violo emprestado nos solos, Elias na batera e Edney cantando sem microfone. Um som to baixinho que parecia mais uma apresentao exclusiva de bateria.



- Por que voc no d uma guitarra pro George de aniversrio? Uma guitarra Alexi e um amplificador Giannini! O Devaldo, do conjunto da esquina, t vendendo.

Era a deixa de Kiko para seu Barros, que entendeu perfeitamente as intenes do menino.

- ... Vou dar um presente pro George...

Presente que Kiko meteu no ombro e no largou mais. Pode ficar, Kiko! Quando puder comprar uma, voc me devolve, falou o amigo, enquanto Cla, ao ver o novo instrumento entrando em casa, j foi logo falando:

- Ah Meu Deus! Devolve isso pro George, anda menino! Devolve!

Mas j era tarde demais. Dali para frente, a banda poderia, enfim, tocar alto.



O i-i-i continuou para os The Mads, principalmente quando a ex-vedete Clia Mara, que tambm morava em Bonsucesso, os escutou e chamou para acompanhar seus calouros na rdio Vera Cruz, no programa aos domingos. Apareciam uns trinta Roberto Carlos e umas vinte Wanderla por final de semana para cantar, todos vestidos a carter, de acordo com a moda da Jovem Guarda, assim como a prpria banda. Kiko costumava desfilar, cheio de personalidade, com uma cala saint-tropez boca de sino e chinelo de couro. Para sua infelicidade, s faltava o cabelo grande, mas isso seu Eurico no permitia:

- Isso  cabelo de mulherzinha! Nem pensar!



O pai do Elias foi o encarregado de levar a banda para o primeiro baile dos The Mads com cach naquele domingo. Botou a bateria no fusca, amplificador, os outros instrumentos, as crianas - todas na faixa dos 13 anos - e partiu para a favela Baixa do Sapateiro sem saber o que os aguardaria. O baile havia sido fechado pelos prprios integrantes, sem conhecer o lugar, com um tal de Charuto, que passou por Bonsucesso, ouviu o som e gostou. Um negro forte, enorme, de pescoo grosso, que fora receb-los na porta de um casebre. O palco havia sido montado no quintal, com um toldinho. O banheiro era um buraco que eles iam jogando areia aps ser usado e umas vinte pessoas formavam o pblico. Um caos para os olhos do pai de Elias.

- Pelo amor de Deus! Vocs no vo fazer isso!

Mas a banda insistiu em ficar. Eles j estavam l, com toda a pilha de tocar e ganhar seu dinheiro como msico. Como cortar esse barato?

- T, vocs vo fazer. Mas eu fico!

Disse o privilegiado pai presente, que fora em casa como um relmpago e voltou com uma arma pendurada na cintura. Os garotos poderiam estar encantados pela sensao juvenil de que tudo  possvel e que todos so amigos. Mas ali tinha um adulto com uma viso mais seca e sem tanta magia.



O show dos The Mads, para a aflio do pai de Elias, foi um sucesso, com as vinte msicas do repertrio da banda se repetindo e se repetindo a cada pedido de bis do pblico. O resultado foi uns Cr$ 2 mil para o conjunto, Cr$ 500 por integrante e o convite de fazer os bailes do ms inteiro.

- Elias, voc no vai! - mandou logo o pai do garoto, sem conseguir sustentar a deciso por muito tempo.

Os outros pais tambm ficaram preocupados, mas sabiam que os meninos iriam perturbar enquanto no fossem. Por isso, l foi o pai de Elias, novamente, com a arma na cintura, preparado para a encrenca que viesse durante os shows daquele ms. Cerca de Cr$ 2 mil no bolso de cada um no final da turn e uma nsia de ganhar o mundo.

- Pai, a gente vai morar sozinho!

- Hein?

- ! Eu e os meninos da banda. A gente precisa estar mais junto pra ganhar dinheiro - bradava Kiko aos 13 anos, no muito disposto a ouvir os conselhos do pai, j com a deciso tomada.

E seu Eurico tambm no era de ficar brigando. Tentou conversar, explicar. O filho no quis ouvir? Tudo bem, ele no proibiria. Era melhor deixar o filho quebrar a cara.

- Vai. A vergonha maior ser a sua volta. Eu t dizendo pra voc no ir, que no tem necessidade, mas voc t dizendo que j  autossuficiente! No vou discutir. Quero ver essa sua independncia toda quando voltar. Vai, pode ir!

O destino foi uma quitinete atrs da casa da v de um amigo, em Higienpolis, tambm no subrbio do Rio. Dos quatro, apenas Elias no conseguiu se livrar do pai, embora fosse com frequncia para tocar e compor. Com o dinheiro que haviam juntado no ms anterior, compraram papel higinico, enlatados, macarro, papel de msica para escrever as composies e uma escada, dessas de abrir em dois. Era o armrio deles, com trs degraus para cada um pendurar suas calas e camisas. Eterno paraso para os jovens msicos, com canes todos os dias at altas horas da madrugada, liberdade e de durao de quinze dias. Acabou a comida, eles passaram a se limpar com papel de msica e o quartinho se tornara uma imundcie completa entre os palavres. A v do amigo praticamente os expulsou do lugar, que estava intransitvel.

- Chega! Podem ir embora! No precisa pagar, no!

Fez-se silncio, e eles voltaram para casa, arrasados com o fracasso do investimento, cabisbaixos, com os instrumentos debaixo do brao - e a escada.

- E a? Resolveu voltar? T envergonhado?

- T, desculpa!

- No. Eu falei que voc ia errar e voc no acreditou. Quis ver, no ? E a? Viu?

Seu Eurico no era de bater, mas sabia se fazer respeitado pelas palavras, isto quando no apenas assobiava para os filhos como reprovao. Foi o homem que advertiu o menino a no usar drogas, ciente do que rolava nas rodinhas de amigos, foi quem ensinou sobre confiana, moral, e foi quem no perdoou o menino, j sem aquela bravura da sada de casa, ao falar sobre as responsabilidades da vida. Para Kiko, o cho foi pouco naquele dia, e a sensao era de que a sua impotncia, enquanto o pai falava, o levava para dentro de um ralo, em um cano, terra abaixo.



Elias e Kiko no se desgrudavam. Iam para a escola juntos, aprontavam todas e se encontravam depois para tocar, independente do fim dos The Mads. Um outro pessoal precisou de um baterista e um solista e eles foram. Era o incio do grupo EREDAS, formado por Eurico, Ricardo, Elias, Dnis e Amaurlio Soares. Uma banda que no ganhou dinheiro tocando Jovem Guarda, mas que chegou a se apresentar com estilo, em um uniforme todo rasgado, parecendo uns espantalhos, causando alvoroo no pblico e um corre-corre dos brotos do lugar.



- Kiko, meu pai no quer que eu ande mais com voc. Mas eu vou dar um jeito!

- No precisa, no, Elias. No precisa, no.

Sentimento ruim aquele de se afastar de um amigo. Sentimento estranho de ser visto como marginal, devido  postura galhofeira. Era difcil para o garoto entender, mas ele no iria forar. Encontrou Elias escondido algumas vezes, antes do relacionamento esfriar, definhar por causa da barreira que vinha de cima.



Com a sada de Elias da banda, os msicos se dispersaram. Kiko, ento, foi chamado por Z Carlos e Rui para tocar com Os Bidus, um conjunto que tomou flego com Micas e Edney. O irmo do Z Carlos j tinha equipamento e deu para juntar uma grana com apresentaes em bailes, clubes, sindicatos e festas de aniversrios. E Kiko pde, finalmente, realizar mais um sonho dourado, depois do violo: a compra de uma guitarra.

As canes eram tiradas de ouvido e os vocais escritos conforme parecia o som da pronncia, quando a msica era em ingls. Depois Os Bidus mudaram de nome: Kiko Micas By Music. E participaram de festivais, com composies prprias, levando prmios no Pedro II de So Cristvo: de melhor intrprete com Kiko, e o 3o lugar com a msica Dia cedo, do Micas - trabalhada na parte vocal e aplaudida de p por Carlos Vereza, um dos jurados. A letra ia assim:

Dia cedo volto de cantar

S

Desespero, pois nem sei chorar

Pensando na Vida

Vivida

Sem ver o quanto  bom

Manh

Pare o casamento foi a primeira msica tirada de ouvido por Kiko, que se desenvolveu bastante musicalmente nessa fase. Agitado com os avanos na guitarra, chegou a passar uns acordes para o irmo em casa para acompanh-lo. Coisa simples, um mi maior, um l... Mas Carlinhos no era desse universo e no se ligava. Mais certinho que Kiko, ele era comportado, estudioso, um daqueles que d satisfaes para a me de todos os seus passos - bem diferente do caula, por mais que ele tivesse ritmo e gostasse de msica.



Os vocais do Kiko Micas By Music eram passados na casa do Micas, em Bonsucesso, com assduas interrupes do irmo dele, Wilso, da turma do Lcio Flvio. Ele dormia no mesmo quarto do tecladista da banda e, s vezes doido, chegava atacado para cima dos meninos.

- A, vamos parar com essa porra! - disse em uma das ocasies, chutando o toca-discos que estava no cho rodando Crystal Blue Persuasion, de Tommy James.

- Que  isso, cara! Que negcio  esse? O que que voc quer? - gritou Micas, enquanto o pai deu a ordem l da sala:

- Vai dormir onde voc dormiu ontem!

- Sa da, seu polcia de merda!

Uma confuso abastecida por drogas e lcool em excesso, que no era raro de acontecer. s vezes Wilso aparecia mais manso e ainda dava conselhos para o grupo.

- Isso a, gente! No vai ser vagabundo que nem eu, no. Tem que estudar! E voc, , palhao! - dizia, olhando para o Edney. - Trata de estudar ingls pra cantar direito! Pra no ficar nesse to be, to be nini, nini, titi, bl!

E era advertido pelo pai do mesmo jeito.

- Sa da! Deixa os garotos trabalharem!

Mas, uma vez em particular, ele surgiu com muito dinheiro na bolsa e tirou um mao de notas, daquelas embaladas para se guardar nos bancos, com o discurso:

- ! Isso aqui  pra vocs! Pra comprar equipamento!

Subiu na quina da cama e colocou o pacote no armrio, repetindo:

- ! Pra vocs! Est aqui! Agora, trabalhando! Quero vocs trabalhando, anda! Canta a!

E saiu do quarto para tomar banho, deixando os quatro msicos de olhos arregalados, querendo vibrar muito pela grana recebida, sem nem querer saber de onde ele tinha tirado aquilo.

Ao sair do chuveiro, Wilso encontrou os meninos ensaiando o vocal, mudou de roupa, pegou a mala e partiu. Minutos depois, Micas no se conteve de ansiedade e trepou na quina da cama para abrir o armrio e tocar no mao de notas. O que no foi possvel.

- Ih! Ele roubou a gente! Passou aqui e levou o dinheiro embora! Sacanagem...

Wilso foi um dos poucos da turma do Lcio Flvio que no foi assassinado. Morreu na priso, depois de velho, e, para aqueles meninos, foi muito mais do que um criminoso qualquer que se v em manchete de jornal.



O Kiko Micas By Music existiu por trs anos, at o dia em que o irmo de Z Carlos, que precisava de um dinheiro, decidiu vender o equipamento, em 1969. Um simples anncio que direcionaria a carreira do guitarrista, aos 17 anos, para aquilo que tanto buscara desde garoto - os Panchos Villa. Conjunto com Lus no baixo, Gean Carlos na guitarra base, Jandira na bateria, Ricardo nos teclados, Kiko na guitarra solo e Paulinho na voz.

Essa seria a turma que engrenaria nos bailes, tirando de ouvido os sucessos e as canes que Big Boy tocava no programa Cavern Club, na rdio Mundial. s vezes, tomando prejuzo na hora de receber o pagamento, outras saindo no zero a zero, poucas com lucro, e tendo at o cach alterado no decorrer da noite! Mas no deixava de ser divertido.

Tanto que o grupo saa e curtia outros tipos de programas, alm de ensaiar ou tocar. Muitos jogos da Copa de 1970, no Mxico, por exemplo, foram vistos na casa dos pais de Paulinho, seu Arthur e dona Ottlia, em uma TV colorida da marca alem Telefunken, novidade no Brasil. Uma caixa de madeira com pequenos botes, que os permitia ver, pela primeira vez, a seleo canarinho entrar em campo com suas cores verde e amarelo. Aquela que seria considerada por muitos torcedores como a melhor de todos os tempos. Time campeo que contava com Flix, o grande goleiro do Fluminense como titular!

Era muita emoo para os tricolores Kiko e Ricardo, ao lado de Paulinho, que passaria tambm a admirar aquele time de verde, branco e gren - e at se dizer tricolor com o tempo. Msicos que nunca poderiam imaginar quantos outros jogos ainda assistiriam juntos. Nem mesmo quantos bailes e shows teriam pela frente.



Ricardo e Kiko no se desgrudavam na poca de Los Panchos: se no estivessem no Catumbi, estavam em Bonsucesso. Iam para a praia, jogavam bola, desfilavam pela Turma do Funil que saa da casa de Eurico, ou ficavam s de papo em uma das esquinas do Rio de Janeiro.

- Ricardo! - disse Kiko certa vez, encostado com o p apoiado em um muro, fazendo sinal com cabea para o outro lado da rua.

- Qual? - balbuciou o tecladista ao ver trs meninas de Bonsucesso, passeando por ali.

- A de rosa, a de rosa - respondeu Kiko, quase sem mexer com a boca.

- A Suely?

- P...

E quando elas se distanciaram, Ricardo continuou o assunto.

- J falou com ela?

- Acho que ela t namorando o Julinho, amigo meu...

- Hum... Que merda.

Passou.

No ms seguinte, no domingo aps o Carnaval, no tinha baile de Los Panchos e os dois puderam ir ao Hi-Fi que rolava no York Esporte Clube de Bonsucesso, que tinha como presidente seu Barros. Ele assumiu a direo do clube para os garotos frequentarem, tornando as domingueiras um dos eventos principais do final de semana.

- Viu quem t a? - perguntou Ricardo, cutucando Kiko com o cotovelo.

- P, ser que...

- Deixa comigo!

- O que voc vai fazer, Ricardo?

- Espera a - disse ele, saindo de l em direo  Suely, que estava na outra ponta do salo, cercada pelas formiguinhas, como ela carinhosamente chamava suas amigas.

- Oi, Suely. Vamos danar?

Ela sorriu e, olhando para as amigas, falou:

- J volto.

A msica era uma daquelas mais romnticas, mela cuecas, que os garotos ficavam esperando para tirar as garotas para danar. A oportunidade de ouro de se aproximar, jogar um xaveco ou, nos raros casos, conversar:

- Voc t namorando o Julinho?

Na hora, a menina tomou um susto e at soltou os braos dos ombros de Ricardo.

- P, que isso Ricardo?

- T ou no t?

- De onde voc tirou isso?

- T ou no t?

Ela faz um pouco de doce, mas na dvida resolveu entregar os pontos.

- No.

- Ah, que bom.

E, dizendo isso, segurou na cintura da menina para continuar danando.

- , Ricardo, voc t doido?

- No, no. Era s curiosidade mesmo. Vamos danar, caramba.

E ao acabar a msica:

- Obrigado pela dana, viu?

De longe, Kiko observava tudo, no cantinho, apreensivo. Mas que raio o Ricardo foi fazer l? Ele vai fazer merda... Ao v-lo voltando, se preparou para criv-lo de perguntas. No entanto, ao abrir a boca, foi interrompido pelo amigo.

- Ela no t, no!

- No t o que, Ricardo? O que voc foi...

- Ela no t com o Julinho, p!

E Kiko  pego de sobressalto.

- No?

- No, no... Vai l, anda! Chama ela pra danar! Faz alguma coisa!

O garoto nem pensou direito. Quando percebeu, suas pernas j estavam se mexendo em direo  menina. E, meio nervoso, mas decidido, partiu para cima.

- Vamos danar?

E dessa vez, com um sorriso diferente, ela respondeu.

- Vamos.

O salo estava  meia-luz, e uma msica internacional falava de amor ou qualquer coisa parecida. Vrios casais danavam, uns se beijavam e o clima era o mais propcio para Kiko conquistar aquela garota. H tempos, estava de olho nela! Desde os ensaios da Turma do Funil, no York, quando a vira acompanhada de sua irm. Achou at que ela j havia retribudo seus olhares nos ensaios e chegou a brincar, entre os batuques do bloco, ao passar por ela, dizendo: Oi, minha noivinha! No entanto, preferiu dar um tempo nas gracinhas depois do boato sobre o Julinho. E agora, ali, danando com ela no salo do clube, ele tinha A chance. E ela, com seus cabelos castanhos, encaracolados e de pele morena, era a mais bonita da festa.

- P, t a fim de voc...

- Ah, Kiko, eu no sei, no.

Um no sei, no to fajuto como o seu namorado Julinho.



Apesar dos bailes que Kiko fazia com Los Panchos, Cla e Eurico ainda sonhavam com um emprego estvel para o filho, e insistiam para que ele continuasse estudando. No que msico fosse uma profisso desrespeitosa para eles, mas sabe como ... A tendncia de pai e me  proteger o filho e, para os dois, o diploma tcnico, o famigerado canudo, representava segurana e estabilidade para o caula.

- Euriquinho, voc precisa fazer contabilidade!

- Contabilidade, me?

- , meu filho. No  porque voc cresceu que tem que parar de estudar!

- Eu estava pensando em msica!

- Msica no enche a barriga de ningum!

- S que m...

- Tem uma turma l na Ilha do Governador, vai ver!

Cla falou tanto na cabea do menino que Kiko foi fazer o curso tcnico no ginsio Lemos Cunha, na estrada do Galeo, na Ilha do Governador. Mas no passou do primeiro ano e desistiu:

- Ah, me, contabilidade no tem nada a ver! Vou fazer cientfico!  o que todo mundo faz...

E passou a ir todos os dias para o Lemos Cunha, junto com o Cal, um amigo tambm de Bonsucesso, para fazer o cientfico, embora eles fossem de turmas diferentes. Quer dizer, todos os dias que no tinham ensaio dos Panchos - o que era quase nunca.



- , Cal!

O menino, passando de mochila e uniforme pelas ruas do bairro, tremeu s de ouvir o berro da me de Kiko, que se aproximava para falar com ele - em um daqueles fatdicos sbados em que ia para a escola, sozinho. E pela cara dela j dava para imaginar qual era o assunto.

- Oi, tia, ... er... hum...

- Voc tem aula hoje?

- , hum... S eu!

- Tem certeza? - perguntou Cla, em um tom que lembrava muito o de sua me quando ele fazia besteira.

- Te-tenho, tia, tenho.

- T gago, garoto?

- N-n-o - disse Cal, antes de virar as costas e sair correndo, para bem longe daquele olhar fulminante de Cla, que saiu dali pisando firme at a casa da vizinha.

- Ah, Euriquinho, deixa eu achar um telefone...

Soltando fumaa pelas ventas, at porque ela sabia que sbado era dia de ensaio de Los Panchos, pois no tinha aula!

- Oi, boa tarde. Eu gostaria de saber se tem aula a hoje?

- Oi, senhora, temos aulas em todas as turmas!

- Todas?

- ! Qual  o nome do seu filho?

- E-eurico Pereira da Silva Filho - disse ela, torcendo para que a atendente dissesse Foi um engano, com medo s de pensar em qual seria a sua reao.

- Hum... Hoje, ele tem duas aulas de matemtica, e uma de moral e cvica.

A que ela respondeu com uma voz, quase imperceptvel, do outro lado da linha:

- Obrigada.

Sentando no sof da sala, que tinha na casa de sua vizinha, com a coluna encurvada um pouco para frente e as mos sobre os joelhos. Quieta.



Kiko entrou em casa como um foguete, algumas horas depois do telefonema de Cla para o ginsio Lemos Cunha. E ele tinha apenas alguns minutos para se arrumar antes de sair para o baile. Comeu um biscoito rapidinho na cozinha, pegou a sua toalha no varal e j estava indo para o banheiro quando trombou com a me, que vinha gritando do corredor.

- Sem-vergonha, ordinrio! - dando tapas no seu peito.

- Calma, me! Qu  isso?

- Mentiu pra mim! Voc no t indo s aulas! Isso foi o que eu te ensinei? Mentir? S por causa desse negcio de banda?

Balanava as mos com raiva e berrava tanto que Kiko respondeu na mesma altura:

- Me, eu no quero isso! Quero tocar!

Com aquele mesmo jeito de quando saiu de casa aos 13 anos, de peito aberto.

- Quer? Pois a partir de agora voc t fora disso!

- No, me! Me deixa tocar! Me deixa em paz! - chorando, enquanto implorava para ser ouvido pela me, aos gritos.

- T fora disso!

- Eu no quero me formar em nada! Eu quis me formar em msica e voc no deixou! Por favor, deixa eu seguir meu caminho!

- T FORA DISSO! PODE ESQUECER A MSICA!

Mandou Cla, muito nervosa, e vermelha, de gritos que se misturavam com um choro contido. Provocando a reao de Eurico que estava na sala e, ao perceber o desequilbrio de Cla, veio quente da cozinha para cima de Kiko.

- Chega! Aqui dentro quem grita sou eu! E O SENHOR EST FORA DISSO. ACABOU!

- Pai, no faz isso...

- ACABOU, EURICO!

- Pai, por favor...

- T FORA, ESTAMOS ENTENDIDOS?

O menino desabou em prantos, como se aquela ordem tivesse calado todos os seus sonhos.

- Pai, voc acaba de tirar metade da minha vida! Voc acabou de tirar! Estou na metade da minha vida! Acabou a minha vida!

Chorando muito, desorientado, diante de um pai que no imaginava fazer to mal para seu filho com aquela proibio. O pai se consternava, sem entender o porqu de tanta paixo pela msica. Tinha em mente as mesmas perguntas de sempre: O que seria de seu filho, depois que ele morresse? E dos seus netos? Como ele poderia se manter financeiramente? Mas sem saber como proibi-lo de tentar ser feliz.

- Segue! - disse Eurico, com o tom normal de voz, e srio.

- O qu?

- Eu no vou tirar metade de vida tua nenhuma! Faz o que voc quer!

E olhando para Cla, espantada e brava, por no esperar aquela reao do marido.

- E a senhora cala a boca! Deixa ele tomar banho, porque ele vai tocar.

Saindo de cena, apesar de Cla ter reprovado sua deciso, enquanto Kiko corria para dentro do banheiro, sem acreditar no que tinha acontecido. No acredito, meu Deus! Acho que consegui minha independncia! Chorando muito ainda debaixo do chuveiro, deixando que a gua corrente se misturasse com suas lgrimas. S que, dessa vez, de felicidade.



A rotina de bailes de Los Panchos passou a ser mais puxada, com dinheiro entrando e muitas apresentaes. E tanto Eurico quanto Cla passaram a curtir a opo do filho. Seja no incentivo do pai ao v-lo tentando aprender os solos de Fire, de Jimi Hendrix, ou no sorriso de sua me ao v-lo tocar. Os outros integrantes do grupo se tornariam de casa, comportamento de praxe da famlia de seu Otaclio, e no palco, para seu Eurico que adorava um diminutivo, estariam Cadinho, Polinho e o xod, M Kikinho.



Suely entrou na vida do guitarrista na poca dos Panchos e se tornaria para seu Eurico a norinha caulinha da famlia. Uma mulher que seria parceira de Kiko por todo seu percurso musical, segurando as barras da casa e sendo um brao a mais para qualquer banda que ele estivesse tocando. E ela seria muito bem recebida pelos pais do menino, a ponto de Kiko ver seu velho doido para ter netos, pedindo na cara dura:

- Quando voc se casar e tiver filho, bota o nome dele de Eurico?

- E se for mulher?

- Nyvia.

Como negar?



Foi tudo muito de repente, no final dos anos 1970, e isso  o que mais di at hoje. Seu Eurico, j aposentado, chegou  vila, de um dos bicos que havia arrumado, e foi direto para a obra que estava fazendo em sua casa. Mas ficou maluco quando viu Kiko virando massa, com o corpo todo sujo da labuta, e resolveu assumir a funo.

- Ei, seu piti! Sai da! Me d isso!

- Pai, deixa, eu t virando aqui! P, que coisa!

- Larga, Kikinho!

- Calma a, caramba! Eu no sou mais criana!

- Pra mim, voc sempre vai ser criana!

Foi quando tocou o telefone e era Gato, do programa Globo de Ouro, com um convite para Os Famks, banda na qual Kiko entraria aps sair de Los Panchos. Coisa de segundos. Kiko desceu ao escutar a me gritando telefone, bateu o p para entrar na sala, atendeu o Gato, que comeara a falar no momento em que seu pai subira no andaime e...

- Eurico! Eurico!

Continuava a berrar Cla quando Kiko chegou correndo para pegar seu pai, no cho, pelos braos. A enfermeira que morava ali perto soube do acidente e brotou no local, jogando gua gelada na face do homem, que abriu os olhos vesgos. Desespero total da vila que, representada por amigos, carregou Eurico at a Braslia deles para que Kiko pudesse levar o pai ao hospital. Eu tenho certeza que foi nesse trajeto que ele fraturou as duas costelas, diz o guitarrista ao se lembrar da cena. Uma perfurou a pleura, e a outra, o pulmo.

Seu Eurico lutou por um ms, internado, e faleceu em 1977, de um acidente bobo e fatal. Um dia triste e cinzento para Kiko. Ao voltar do enterro, inconformado e sem acreditar na sua perda, o guitarrista caminhava para casa, desolado, quando foi interpelado por Getlio, vizinho da casa 6, que ele chamava carinhosamente de Urso de culos.

- Vem c. Mame quer falar com voc.

E, ao entrar na saleta, viu na TV, ligada baixinho, um grupo com roupas coloridas se apresentando no Globo de Ouro. Ele l, todo alegre, de macaco vermelho, bota marrom, ao lado de pessoas que se tornariam seus grandes scios de vida. O menino que aprendera a no roubar carretel, que soltava pipa de brao quebrado, que descobriu que morar sozinho no  to simples e que teve em toda sua trajetria a msica como pano de fundo. Agora, com Os Famks, cantando Rock The Boat, convite feito pelo Gato no dia que seu pai cara.

- Olha voc a! - disse tia Ruth, me de Getlio, orgulhosa pelo garoto que lutou pelo violo, pela guitarra e que comeava a realizar, enfim, seu Sonho de Ouro.

Mas que naquele instante s conseguia chorar.



Notas

* O nome mudou devido  igreja Nossa Senhora de Bonsucesso, capela reformada por dona Ceclia Vieira de Bonsucesso.

** Tecido com aspereza, como se tivesse jogado coco ralado por cima.



PARTE II

A NOVA JOVEM GUARDA

(que onda!)

1973-1979



CAPTULO 7

NOS BAILES DA VIDA

Existem duas grandes escolas para msicos: banda de baile e banda de polcia.

Fernando Brant

O futuro do socialismo repousa nos ombros da jovem guarda, porque a velha est ultrapassada, disse o comunista russo Lnin* em um de seus discursos, sem nunca sonhar que desta frase sairia o nome de um programa de TV e de um dos mais importantes movimentos musicais do Brasil: a Jovem Guarda. O programa de auditrio estrearia no dia 22 de agosto de 1965 na TV Record, apresentado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderla. E o figurino do trio seria inspirado em um grupo britnico formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Quatro rapazes de Liverpool levaram mais de 55 mil pessoas, no dia 23 de agosto daquele ano, a um show no Shea Stadium de Nova York. Naquele tempo, a Odeon lanava no Brasil o disco A Hard Days Night com o nome Os reis do i-i-i,** reforando a febre beatlemanaca. E a onda conhecida como Jovem Guarda, nos anos 1960, embora sem o cunho poltico da expresso de Lnin, seria um marco do rock brasileiro.

Atravs da TV, o rock tomaria a cabea, a moda e as vozes dos jovens por todo pas - principalmente com verses em portugus dos hits internacionais. Ganhando as classes populares e os sales dos clubes com suas letras descontradas e ritmo danante - um parnteses musical em meio  Ditadura e s canes de protesto nos festivais estudantis. Ns no sabamos nem que tinha gente sendo torturada. Os artistas vinham de bairros mais simples, sem ligao com esse mundo. Fazamos msica, explica Marcio Antonucci, ex-integrante de Os Vips.

Apesar do trmino do programa Jovem Guarda em 1968, e da separao dos Beatles em 1969, os desdobramentos do gnero, como rock de garagem, folk rock, progressivo, psicodlico, glam rock ou hard rock continuariam nos anos 1970 nos bailes e nas rdios de locutores antenados, como o lendrio DJ Big Boy. E, no Rio de Janeiro, muitas bandas ainda transitariam nesse cenrio ps-Jovem Guarda, como Renato e seus Blue Caps, Casanovas, Lafayette e seu Conjunto, The Fevers, Painel de Controle, Super Bacana, alm de duas bandas em especial: Los Panchos Villa e Os Famks. Muita gente boa que ps o p na profisso de tocar um instrumento e de cantar. No necessariamente se importando se quem pagou quis ouvir. Foi assim.



No circuito dos bailes do Graja, Tijuca e arredores, duas bandas de rock disputaram a preferncia do pblico nos anos 1960: os Analfabitles e os Red Snakes. A primeira se inspirava nos Beatles, mas tinha um vocal mais R&B; e a segunda tinha referncias instrumentais fortes como The Ventures, mas com rocks pesados e cantados do tipo Rolling Stones e Steppenwolf. No entanto, nos anos 1970, as duas bandas perderiam fora para outras mais recentes, como Os Famks. Um conjunto de famlia dos irmos Alceu Roberto Cataldo e Francisco Roberto Cataldo - o Kiko - que no se propunha a ser profissional. Para eles, o dinheiro era para custear os estudos, e a msica, um meio de diverso - e talvez essa fosse a razo do pequeno sucesso.

Os bailes dos Famks no eram feitos para o pblico danar e no tinham a inteno de encher a casa. Era rocknroll pesado do incio ao fim, com msicas escolhidas a dedo por Alceu, preferencialmente do lado B dos LPs.

- Bicho, olha esse disco! - disse Alceu para o grupo, certa vez, segurando o LP de uma banda americana de rock progressivo chamada Gypsy.

Afirmando em seguida com veemncia:

- A primeira faixa, Gypsy Queen,  perfeita pra comear o show! Muito vocal! Solo pra cacete! Foda!

E assim Gypsy Queen passaria a abrir as apresentaes, seguida por outras canes desconhecidas, mas que paralisariam os roqueiros de planto da plateia.

Seu Alceu Cataldo, pai dos irmos e funcionrio do Banerj, era o dono da banda, tendo seu amigo Acio Javan como vendedor dos shows. E o nome Famks nada mais era do que as iniciais dos integrantes da formao original em 1967: Fernando Pilo nos teclados (ele tambm teria uma banda chamada Os Siderais), Alceu no vocal, Marcelo na bateria, Kiko na guitarra e Srgio no baixo - antes das trocas naturais de integrantes. Na bateria, Marcelo sairia para dar lugar a Fernando, ou Fef/Fefeu, como era conhecido. Fernando Pilo deixaria os teclados, dando a vez a Mauro, e este a Cleberson. E, no baixo, depois de Srgio, teria Tlio, Lus Carlos, para entrar, finalmente, Nando.

Os ensaios aconteciam no Tijuca Tnis Clube e os pagamentos dos bailes para os integrantes eram realizados corretamente. No entanto, na formao dos Famks de 1971, Cleberson e Fef queriam ser msicos profissionais, Nando se afastara do direito para no se lembrar da Meg, Alceu estudava e queria ser bilogo, enquanto Kiko mirava  carreira de engenheiro. Uma configurao que nunca poderia dar certo.



Os Famks tocavam em clubes como o Orfeo Portugal, Tijuca Tnis Clube, Graja Country, Mackenzie, Graja Tnis Clube e muitos outros da Grande Tijuca, na Zona Norte do Rio de Janeiro. No entanto, Cleberson, com medo do futuro profissional da banda, continuava com dvidas sobre ter feito a escolha certa. Pensava na prova de vestibular para engenharia do final do ano, na escola de msica, nas dificuldades da carreira musical no Brasil, em Alceu e Kiko sem a menor pretenso de serem msicos, e no conseguia chegar a concluso alguma.

- Quer saber? J que eu no sei o que eu quero, vou ento agradar meu pai! - disse ele em voz alta, em um impulso, antes de sair de casa em direo ao Instituto Brasileiro de Contabilidade, que ficava na rua Buenos Aires, no Centro da cidade.

- Quero fazer minha inscrio!

Naquele dia ele marcou a prova de admisso para a semana seguinte, anotou o dia em um papel e guardou. Ao chegar em casa, contou para Boanerges, que festejou a notcia e foi dormir. Passou um, dois, trs, quatro, cinco, seis, dez, vinte dias, porm, ele nunca mais apareceu por l.

- P, pai... Eu no sei como dizer pro senhor, mas... Eu pensei bem e...

- J entendi meu filho. T tudo bem.



O Tijuca Tnis Clube, perto da praa Saens Pea - corao da Tijuca - guardava em seu depsito os instrumentos dos Famks. E a banda, em troca, fazia bailes para os associados. Esse era o acordo firmado por seu Alceu, que ainda permitia a realizao dos ensaios no prprio clube, em uma salinha pequena, com todos os msicos amontoados. No era o ideal, com um barulho ensurdecedor do lado de fora - sobretudo no vero com a crianada na piscina -, mas servia.

- Gente, vocs querem acompanhar o Fbio? - perguntou Lus Vtor, diretor do Tijuca, ao abrir a porta da salinha onde eles ensaiavam.

Fbio estourou em 1969 com o sucesso Stella, composio em parceria com Carlos Imperial, apresentador e produtor de muitos nomes da Jovem Guarda. E o diretor Lus Vtor, que estava fechando uma apresentao do Fbio para o Tijuca, precisava de uma banda com urgncia para acompanh-lo em dois shows. Grupos como The Fevers, e Renato e seus Blue Caps poderiam fazer esse papel, ou at mesmo a Liverpool Sound, outra banda da regio, que tambm ensaiava no clube. No entanto, com Os Famks dentro de casa, no dava nem para pensar em outro nome! E a banda topou.

Os shows foram timos, lotados, e nada atrapalhou a empolgao do pblico. Nem mesmo a corda do violo de Fbio que arrebentou no primeiro dia! Isso encheu os olhos do empresrio do cantor, Glauco Timteo, tambm gerente da Aquarius Produes Artsticas - empresa publicitria dos irmos Marcos e Paulo Srgio Valle com o amigo Nelson Motta.

- Vem c, vocs topariam fazer jingles publicitrios? - perguntou Glauco, ao lado de Nelson, aos Famks, depois dos shows.

O mercado de produo de jingles crescia muito no Brasil naquela poca, e diversos compositores, arranjadores passaram a atuar seriamente nesse nicho. Os jingles serviam tanto como laboratrio de criao para estes artistas, como tambm mais uma opo de renda para se manterem na rea musical. Um trabalho que pedia criatividade na medida para agradar as marcas contratantes; e devolvia jingles com preos entre Cr$ 40 a Cr$ 60 mil.

A proposta de Glauco para Os Famks considerava a gravao de alguns jingles, e no a permanncia da banda na agncia. Ideal para os msicos que ainda discutiam sobre ser amadores ou profissionais. Seria, ento, marcada uma reunio na Aquarius para a semana seguinte com os cinco garotos da Tijuca, independente de objetivos e sonhos.



- P, t precisando de um grupo de apoio pra turn. Como  que t a agenda de vocs? - disse Marcos Valle assim que encontrou com Os Famks na agncia de publicidade.

Os msicos j haviam gravado alguns jingles pela Aquarius, como o do Guaran Brahma, ou Arroz Rubi. E at esperavam participar de outras gravaes da empresa, mas nunca um convite como aquele.

Marcos, considerado um dos integrantes da segunda gerao da Bossa Nova, j era um nome respeitado na msica brasileira em 1971. Samba de vero tinha sido um grande sucesso nos anos 1960, alm de outras composies; e as peas publicitrias criadas na Aquarius eram as mais requisitadas do mercado. Um instrumentista de peso lanando seu mais novo LP, Garra, com um repertrio de primeira, querendo a participao dos Famks? Para Cleberson e Fef a mar estava boa demais. Nando j pensava com seus botes: Como advogado eu vou parar com uns 50 anos, no Mier, no apartamento do BNH. Quer saber? Foda-se, eu vou! Mas para Alceu e Kiko aquela histria de estudos e msica ao mesmo tempo estava comeando a complicar.

- Tem como colocar nosso nome na turn? - questionou Alceu para Marcos, cercado pelos msicos, embora achasse um pedido difcil de ser aceito.

- Como assim?

- Ah, ter nos anncios dos shows: Marcos Valle e Os Famks.

- Ah,  isso? Sem problema! - disse Marcos, tranquilamente, sem nem se abalar, para o espanto dos jovens integrantes.

S faltava ele dizer: Quer tirar o meu nome e deixar s Os Famks?



Em 1970, Marcos Valle tocou com o grupo Som Imaginrio e, em 1972, estaria com O Tero em seu LP Vento Sul. Mas em 1971, por quase um ano, o instrumentista esteve com Os Famks, rodando por vrios estados do Brasil, tocando canes como O cafona, Com mais de 30 e Minha voz vir do sol da Amrica. Um set list sofisticado, de canes inspiradas na soul music e resqucios dos Beatles ps-66. Perodo que Cleberson lembra com carinho graas aos conselhos e ensinamentos valiosos de Marcos. Nando, inclusive, diria que o tecladista cresceu como msico aps aquela turn. Eu conheo um Cleberson antes do Marcos e outro depois. Um garoto que no s prestou ateno em como ler cifras, armar uma harmonia, fazer inverses musicais, como tambm refletiu sobre como tocar a sua prpria vida.

- P, Marcos... T meio apavorado. No sei se fao engenharia, se sigo com a msica... - disse certa vez para o compositor em um dos hotis por onde passaram com a turn.

Tanto ele quanto Fef estavam em uma fase meio depr em relao  msica. E foram vrias as vezes em que Cleberson se viu de frente para o piano com a pergunta: Pra que eu t fazendo isso?

Marcos, sentado em uma cadeira perto da varanda, com o semblante sereno, olhou para o aflito tecladista, sete anos mais novo que ele, e perguntou:

- Cara, voc gosta do que faz?

- Gosto. Mas no quer dizer que vai ter futuro! P, todo mundo acha que a gente  vagabundo, que isso no  trabalho!

- Se voc gosta do que faz, se j toca legal, como eu acho que toca, tem mais  que seguir em frente! Bicho, no tem como dar errado!

- Ser?

Marcos ento sorriu e, com a calma de quem j havia passado por isso, afirmou:

- Voc tem que acreditar no que voc quer e ir fundo.



- Cara, eu no aguento isso!

- O que foi Fef? - perguntou Nando, em uma noite dessas sem show, em um bar, ao ver o baterista irritado e at um pouco agressivo, aps tomar umas cervejas.

- Voc viu que o Kiko t atormentando com esse negcio de pagamento? Caralho! Ele no v que estar aqui  mais importante que o lance da grana?

E Nando respirou fundo, antes de responder:

- No...

- No, n? - e em tom mais alto, continuou - Eu esqueci... Ele quer ser engenheiro! Puta que pariu!

- Calma, cara...

- Ah, Nando,  foda... Ele s quer saber quando volta, quando recebe, quando vai pra aquela merda de aula!

- Fef,  a vida dele, p.

- , a vida dele...

- ...

- Eu no sei de mais nada... Desanima, viu? P, o que eu vou ser, se no for baterista?

- ...

- E voc? Vai ser advogado ou msico, hein? Fala, porra! Ah, saco! - disse Fef, jogando longe a latinha que estava na mo, levantando da cadeira e deixando Nando sozinho.



- Gente, tem sido muito bom. Mas eu quero dar oportunidade para outras bandas - falou Marcos Valle para Os Famks, deixando Cleberson, Fef e Nando um pouco desanimados.

Eles estavam gostando de tocar com o instrumentista, haviam passado por vrias cidades do pas, como Santos, Belm, Recife e Manaus, e se sentiam as estrelas no palco. E, de repente, esse seria o fim?

- O que ser que rolou, hein? - perguntou veladamente Cleberson para Nando.

- Sei, no. Ele no deu motivo, n? Mas esse lance do Kiko ficar ligando pro escritrio deles pode ter pegado mal.

- Hum... Faz sentido.

- O cara no  bobo, n? No vai querer amador com ele.

Kiko, irmo de Alceu, ligava para o empresrio com frequncia perguntando sobre pagamento. Acostumado a receber logo depois dos bailes, o guitarrista no entendia por que o dinheiro era liberado s nas quartas. Principalmente em uma turn que o afastava das aulas. Um comportamento que pode ter desgastado a relao, para o azar dos msicos, que se afastariam de Glauco, Nelson, dos jingles e de Marcos.



Era uma vez uma baronesa muito cruel, que praticava maldades com seus escravos e com todo o povo de seu reinado. O que ela no sabia  que estava sendo observada por um feiticeiro negro, revoltado com suas injustias e disposto a lhe aplicar uma lio. A baronesa, ento, foi transformada em porca, e seus sete filhos em leitezinhos. E s um anel encantado, perdido no meio da terra, poderia quebrar o feitio. Por isso, passaria anos de sua vida a vagar pelas matas com seus filhotes, chafurdando o focinho na lama em busca de sua salvao.

Hum... Gostei dessa histria, pensou Nando ao ler um dos livros de folclore de casa, enquanto na vitrola tocava o primeiro disco do trio S-Rodrix & Guarabyra. Passado, Presente & Futuro, LP produzido por Mariozinho Rocha, no saa do som do garoto e trazia um rocknroll rural, que falava de buriti, beija-flor, estrada e cigarro de palha. Inspiraes que ele guardaria dentro de si, e que no demorariam a sair.



Depois da turn com Marcos Valle, seu Alceu conseguiu acertar com a Etiqueta Imagem a gravao do primeiro compacto dos Famks! Um LP que serviria para registrar e divulgar o trabalho da banda. A primeira experincia daqueles cinco msicos em um estdio de verdade.

Hoje ainda  dia de Rock, do LP Passado, Presente & Futuro foi a msica escolhida pelos integrantes para o lado A - cano tambm regravada por bandas como Os Canibais. E, para o lado B, o grupo apostou na composio apresentada por Nando: A lenda da porca.

Existiu uma dama e sete filhos

Cheia de luxo e vaidade

E habitava a manso l na cidade

Curtindo em todas festividades

Seu anel tinha o brilho da maldade

Apagando amor, felicidade

Daquela gente presa ao seu trabalho

Escrava da sua crueldade

A justia ento se fez presente

De uma fada surgida no repente

Ajudando toda aquela gente

Seu castigo foi a transformao

Dando em porca fuando pelo cho

Neste mundo arrastando seus leites

 procura da sua salvao

E era o anel que ela usava em sua mo

A msica tambm teria a assinatura de Fef e Lus Carlos, vulgo Pica-Pau, iluminador e amigo da banda. Ambos estavam na casa do baterista, bebendo rum e conversando, quando Nando veio com a ideia da letra e da msica. Um rock assim meio rural.

- No sei por que vocs vo gravar isso! A msica  uma merda! - bradou dona Isa, professora e me de Alceu e Kiko, aps saber de A lenda da porca.

Em vo. A gravao aconteceria, impreterivelmente na data marcada, no estdio Hava, com Norival Reis como engenheiro de som - o Vav da Portela - e Flvio Senna como auxiliar.

- Agora  a vez do dia de r! - brincava Vav com aqueles meninos de 18 anos, com cara de 12, que no conseguiam cantar hoje  dia de rock como Z Rodrix! Por mais que Vav falasse, s saa hoje  dia de r. Palavra pela metade que seria registrada por eles, sem vergonha ou frustrao profissional.

Depois de tudo pronto, naquele ano de 1972, a Imagem liberaria o disco para venda, e o LP no faria sucesso, nem tocaria nas rdios ou na TV. Mas teria os primeiros sinais de Nando como compositor e tornaria Os Famks uma banda real, possvel de se levar para casa.



Nando, Fef, Pica-Pau e Caf, tambm iluminador dos Famks, andavam sempre juntos, quando no estavam nos bailes. E foi em um desses encontros, no apartamento do Caf, que Nando achou ter visto uma miragem na rea de servio do prdio ao lado.

Uma moa de cabelos negros, pesados e lisos, de movimentos delicados e pose de bailarina.

- Hum...  minha cunhadinha. Quer conhecer?

O menino, de corao acelerado, aos 17 anos, se via mais uma vez encantado por uma garota, e o namoro no demoraria a comear, depois das apresentaes feitas por Caf  sua cunhada. Llian era o nome dela; de famlia rica e bem-nascida. E ela seria aquela que o faria esquecer de vez Meg, deixando o caminho livre novamente para a faculdade de direito, caso ele desejasse voltar. E que seria, durante anos, a mulher da sua vida, deixando sua alma mais leve e feliz.



- Heeeelloooo crazy people!! Aqui fala Big Boy apront vag tug mande cori tisk voom pan tung, diretamente para todos ustedes!

Gritava o DJ Big Boy, na Mundial AM 860, no incio dos anos 1970, trazendo as novidades musicais que despontavam no mundo. Em busca de uma identidade mais jovem, a rdio permitia que Big Boy, de postura informal e irreverente, promovesse profundas transformaes no Rio de Janeiro, com programas cheios de rock, como o Big Boy show, Ritmos de bote e Cavern Club. Alm, claro, dos Bailes da Pesada que ele produzia na Zona Norte da cidade com soul e black music. Programador, colunista, produtor de discos e DJ, o paulistano agradava do playboy da Zona Sul ao rapaz que enfrentava trens lotados no subrbio. Um aficionado por msica, antenado nas tendncias e f de carteirinha de uma banda chamada Os Famks.

- Olha isso aqui, Alceu!  do caramba! E vai estourar! - disse ele certa vez, entregando um LP da banda de rock canadense The Guess Who, American Woman.

O disco mal tinha sido lanado pela gravadora, e Big Boy j tinha o produto importado para a banda colocar no repertrio. E como DJ chegou a discotecar em clubes em que Os Famks tocaram - fazendo uma dobradinha imperdvel para quem gostava de rock.

Ele acompanhou todas as fases dos Famks e no escondia a admirao pelo trabalho dos integrantes. Na sua coluna para o jornal O Globo, por exemplo, anunciou como um orculo do rock nacional:

Com a experincia que eu tenho de rdio, eu garanto que uma dessas duas bandas vai fazer histria pela qualidade que tem: Analfabitles e Os Famks. A primeira pela postura e pelo instrumental. E a segunda por causa do vocal e da pegada!

No entanto, infelizmente, ele morreria, em 1977, sem ver sua profecia se realizar.



As gravadoras ficavam de olho em Big Boy, afinal, todas as canes internacionais que ele tocava em seus programas viravam sucesso! E Jairo Pires, diretor da Polydor, na poca selo da Polygram, pensou em algo que eles poderiam fazer para deixar o locutor feliz. Em outros tempos, talvez ele s oferecesse uma grana na mo de Big Boy, praticando o habitual jab. Porm, naquele ano de 1973, a opo foi outra: dar um disco para o DJ produzir.

- Quem voc quer gravar?

- P, Jairo... Tem um conjunto da Tijuca que eu adoro! Os Famks.

Big Boy assinaria a produo do disco, e Fernando Adour, a produo executiva. Um compacto simples que poderia render para a Polydor execues futuras de suas msicas no rdio.

- Vou gravar um compacto com vocs! Vem aqui pra gente conversar! - contou Big Boy, no telefone, para Alceu.

Euforia imediata dos cinco integrantes, que imediatamente compareceram para a reunio com o DJ, na rdio Mundial, parte do Sistema Globo de Rdio desde o final da dcada de 1960.

O paulistano Newton Alvarenga Duarte era quem se escondia atrs do pseudnimo de Big Boy, e seu escritrio ficava no prdio da rdio Globo, na rua do Russel.

O porteiro da rdio, desconfiado, logo quis saber quem queria falar com ele.

- Fala que  o pessoal dos Famks - respondeu Nando.

- T, t bom - disse o porteiro, j pegando o telefone para passar o recado. - Al, seu Newton? Seus fs esto aqui embaixo! O que eu fao?



Big Boy apresentou para Os Famks dois conjuntos que estavam tocando fora do Brasil - ambos com LPs lanados entre 1972 e 1973. Primeiro, falou sobre o Edgar Winter Group, liderado pelo multi-instrumentista Edgar Winter, de rock experimental, transitando por influncias musicais mais leves at as mais pesadas.

- Essa aqui se chama Alta Mira - disse ele, enquanto colocava a agulha da vitrola na terceira faixa. - No  a que eles esto trabalhando, mas acho que pode funcionar. Tem uma levada boa, fora o vocal do refro. Saca s!

Alta Mira, oh set my spirit free

Alta Mira, like the wind that moves the sea

Alta Mira, let it set your spirit free

Alta Mira, we can live in harmony

Ele curtia o som sentado em sua cadeira, balanando a cabea e batendo com as mos na perna.

- Bicho, o som deles  demais! - comentou Big Boy, viajando no som, antes de passar por Free Ride e Frankenstein, que seriam os dois grandes hits daquele LP intitulado They Only Come Out At Night.

- Agora, sente esse som! - disse ele, ao colocar para rodar a banda americana de R&B New York City, anunciando a msica como se estivesse no ar em um de seus programas. - Im doin fine now!

Im doin fine now

Without you, baby

Im doin fine now

Without you baby

- Na boa? Com o vocal de vocs, acho que d pra arrebentar!

O radialista ficava visivelmente extasiado ao falar sobre msica. Era a sua paixo! A razo de ter largado o cargo de professor e as aulas de geografia. E a possibilidade de regravar aquelas canes com uma banda, no comeo de carreira, como Os Famks, o deixava eltrico!

- Vejo vocs na prxima semana?



- P, me d esse negcio aqui!

- Tem certeza, Cleberson?

- Ah, Nando, ningum quer fazer. A gente no pode perder essa msica! - disse o tecladista, pegando a fita K7 para ouvir Im doin fine now, que ele transformaria em Vou indo bem.

- Sobrou pra mim. Eu que nem escrevo carta pra namorada! - resmungava ele baixinho, enquanto escrevia a letra em portugus. Alceu alterou um pouco o nome da cano de Edgar Winter e fez Altamira com Nando, e a banda foi para o estdio gravar as canes.

Alceu cantou a faixa do lado A, Altamira, e tambm faria a voz principal de Vou indo bem, no fosse a interveno de Big Boy:

- Cara, essa voz t uma merda!

- Mas t do jei...

- T ruim pra caralho, Alceu! Desculpa, mas vamos ver os outros. Voc no t sabendo cantar essa msica, no.

Silncio no estdio. Fef olhava para cima, Nando fingia estar vendo um acorde no baixo, Cleberson parecia estar procurando alguma coisa no cho, Kiko estalava os dedos e Alceu saa da frente do microfone totalmente sem rumo.

- Anda gente! Quem vai comear?

E, aos poucos, os outros integrantes iam se mexendo, enquanto Alceu continuava sentado, mudo e de cara fechada. Um cantou, o outro tambm, at chegar a vez de Nando:

Me lembro do dia em que voc

Partiu para sempre me deixando a chorar

Sozinho ento at pensei

Que iria ficar pra sempre a lamentar

Mas eu vou indo bem sem voc, baby

Eu vou vivendo bem sem voc, baby

-  voc! - disparou Big Boy, sem pestanejar.

- Hein? - disse Nando.

-  isso mesmo! Alis, voc canta melhor que ele! Devia assumir o vocal da banda!

Um silncio ainda mais perturbador atingiu o local, e todos se moveram rapidamente para pegar seus instrumentos, antes que Big Boy piorasse a situao. Nando, muito nervoso, cantou mal, se atrapalhou, mas foi at o fim, enquanto os outros integrantes nem olhavam para Alceu no canto da sala. E o disco, enfim, foi lanado, em 1973, com Alceu no lado A, e Nando no lado B.

O que Os Famks no sabiam era que a Polydor no pretendia trabalhar o disco nas rdios e, muito menos, que a produo tinha existido s para agradar Big Boy. Se o DJ tivesse pedido um LP com a empregada dele cantando em espanhol eles fariam. Ento o que acontecia? Quando os msicos conseguiam a aprovao de uma rdio para tocar as faixas, a Polydor, em seguida, entrava em contato e retirava do ar. Os integrantes conseguiram colocar o disco, inclusive, na lista das quarenta mais da rdio Globo. Mas a gravadora tirou. Praticamente ningum soube que essa produo foi realizada, e o LP cumpriu o seu fadado e triste destino de sumir.



- Tio, t pensando em voltar pra faculdade - comentou Nando para Lo, tio por proximidade.

- Vou te ajudar! - respondeu ele, sem perguntar para o menino a razo daquela vontade.

Os mais velhos da famlia fariam tudo para ver Nando novamente estudando, e no seria ele quem iria arriscar perder aquele lampejo por alguns questionamentos. Sabia que o sobrinho emprestado estava namorando firme, apaixonado... Mulheres...

Lo, ento, foi ao reitor, negociou sua vaga na instituio e conseguiu a permanncia de Nando no curso da noite; o que poderia atrapalhar a msica, e os bailes do baixista.

- Nando, no sei como voc vai fazer com Os Famks, mas...

- Deixa que eu dou um jeito, tio - disse ele, apenas pensando em como ficar mais com Llian, em como sustent-la ou conseguir dar a ela o que ela merecia.

Ele no gostava do direito, gostava dela! E a sua preocupao era apenas se tornar mais prximo de seu universo.



- Toma aqui as passagens - disse o gerente de uma agncia de turismo para Cleberson.

- E eu fao o qu?

- U, voc vende na rua.

- Na rua?

- , caramba! Sai perguntando quem quer. No foi pra isso que voc se inscreveu?

- Foi...

- Depois eu vejo quantas voc vendeu e a gente acerta.

- Uhum...

- Ento vai!

Cleberson ouviu o gerente e saiu da agncia com os bilhetes na mo. Andou pelas ruas do Rio de Janeiro e viu pessoas, prdios, lojas, cachorros, carros. Mas sem falar nada com ningum. Nem ao menos um boa tarde ou por favor, me d licena. Segurando as passagens na mo, um pouco amassadas, e com os culos escondendo seu olhar vazio, perdido.

Andou durante meia hora pelas redondezas. E voltou logo em seguida para a agncia com as mesmas passagens na mo.

- Toma de volta. No quero. No d.



O orgulho dos integrantes dos Famks era dizer: No nosso baile, as pessoas pagam pra ver. No pra danar. E no repertrio estavam as canes mais elaboradas de nomes como Led Zeppelin, Grand Funk Railroad, Eric Clapton, Deep Purple, Pink Floyd, Genesis e Three Dog Night. Era rocknroll, beb! E se o pblico fosse embora na metade do show, estava tudo bem.

- Vocs tm que ser como o Painel de Controle***! - Tentava seu Alceu para a banda, de olho no dinheiro que poderia entrar com as apresentaes. E o seu filho era o primeiro a reclamar.

- Ah, pai, t fora! A gente mal toca Beatles!

- E voc acha bonito? P, as msicas de vocs tocam s se for de madrugada nas rdios!

- E qual  o problema? Ns somos respeitados - interferiu Cleberson.

- Mas as pessoas querem danar. Os outros bailes esto sempre lotados!

- Encher no quer dizer que tem qualidade, pai - disse Alceu.

- Mas falta uma msica animada, filho. P, o pessoal tem tocado Cada macaco no seu galho e...

- Seu Alceu, na boa, mas isso  um absurdo! - retrucou Cleberson, antes de sair da sala, resmungando sozinho. - P,  brincadeira... A gente toca o que a gente gosta!



Em contraponto com Os Famks, Los Panchos Villa faziam um baile para danar, tocando os sucessos das rdios, principalmente na regio da Ilha do Governador - alm de clubes do subrbio do Rio de Janeiro, interior do estado e em algumas cidades de So Paulo. No repertrio predominavam os internacionais Led Zeppelin, The Who, James Brown, Santana, Rolling Stones, Beatles. Mas bandas nacionais como Mutantes, S-Rodrix & Guarabyra, e Secos & Molhados tambm entravam, alm de msicas mais romnticas. O importante era conseguir pblico interessado em seu som e dinheiro suficiente para continuar tocando.

A nica similaridade com a banda da Tijuca  que ambas eram de famlia. Se l existia seu Alceu, com os irmos Alceu e Kiko, nos Panchos havia dona Nilza, com Jandira e Ricardo Feghali. Aps a menina assumir a bateria, a me - preocupada e zelosa - decidiu ser vendedora permanente dos bailes do conjunto. E iria, muitas vezes, brigar pelos Panchos nos clubes e at se meter onde no era chamada. A vida desregrada e cheia de perrengues de banda no era o que ela desejava para seus filhos, porm, esta havia sido a escolha dos dois naquele momento. Ento, era melhor estar por perto. At porque ela conhecia bem o mais velho, Ricardo, lder da banda, e ele no era o tipo de garoto que iria desistir.



- Al, ateno! Vocs querem bacalhau? - perguntou Chacrinha, ento na Globo, com o microfone preso por cima de sua barriga, arremessando bacalhau para uma plateia calorosa, em 1970, no programa Buzina do Chacrinha.

Seus calouros seriam votados para o trono, a buzina em suas mos j estava pronta para tocar diante de um desafinado, e o trofu abacaxi estava  espera de quem cantasse mal. Aquele excesso saudvel do Velho Guerreiro, que confundia, no explicava, mas agradava em cheio a audincia.

- Vocs querem pepino?

E l ia voando o pepino para cima do auditrio, que brincava com o apresentador e, s vezes, at simulava disputas pelo produto jogado.

- Vocs querem fub?

 para j! Fub lanado para a plateia e caindo em cima de quem? Ricardo! Tentando dar visibilidade para Los Panchos, Jandira faria uma participao especial no Chacrinha, tocando bateria. Por isso Ricardo estava na plateia, ansioso para ver sua irm. No entanto, acabou parando nas telas globais com cara de bobo e rindo sem graa com a farinha estourada no colo.

- S acontece comigo... - disse ele, enquanto se limpava com as mos, antes de ser interrompido pela irm.

- Ricardo, t precisando de sua ajuda.

O baixista que iria acompanh-la no conseguiu fazer a levada que ela queria de Soul Sacrifice, do Santana, que tinha um solo de bateria. E seu irmo sabia aquela passagem de olhos fechados! Porm, quando ele foi mostrar como era, o baixista tirou o corpo fora.

- Toca voc!

Era oferecer banana para macaco, como diz o dito popular, bem no estilo Chacrinha de ser. E ele no perdeu tempo, embora estivesse com a camisa branca de farinha! Assumiu o instrumento e se preparou para acompanhar mais uma cano daquele incio dos anos 1970.



- A gente quer empresariar vocs, botar na televiso, essas coisas. E a?

O convite veio de um pessoal da Globo para Los Panchos Villa, depois da apario no Chacrinha, e a proposta era clara: o foco estaria em Jandira, por ser uma mulher na bateria - o que chamava muita ateno. E a banda ainda mudaria de nome para ELES e ELA.

Sem pestanejar, a menina chamou o irmo no canto e foi direta:

- Olha, Ricardo, eu sei o valor que voc tem. Se algum dia voc subir na vida no vai ser por mim. Vai ser por voc.

Recado dado, contrato no assinado.



Nilza s vezes exagerava na sua postura com os integrantes da banda. Confundia me com vendedora e colocava seus pintinhos debaixo da asa, embora eles no tivessem pedido, como em situaes chatas e delicadas que o grupo teria que enfrentar.

Los Panchos, com a baterista Jana, do Chacrinha, dizia, por exemplo, a faixa encomendada por ela, para um dos clubes que a banda tocara depois do programa do Velho Guerreiro. Um tipo de interferncia materna que se tornava constante e que ia desgastando a relao existente entre Nilza e msicos como Paulinho e Kiko.

- No achei legal isso que a sua me fez, cara.

- Nem me fale, Kiko. J falei com ela, mas adianta? T quase arrancando aquela faixa! - respondeu Ricardo, meio sem graa e tambm chateado.

Aquelas discusses com a me por causa da banda eram cansativas e pesadas, mas como afast-la? Ele ainda era um garoto, e sua irm tambm tocava nos Panchos!

- Assim que Ricardo e Jandira se formarem eles vo parar!

- E como  que eu fico?

- Voc segue com a banda sem eles, u! - dizia ela com frequncia para Kiko, s vezes na frente de Ricardo!

O que piorava a situao para ele, transformando Los Panchos em uma dor de cabea to grande quanto uma diverso. Aquela falsa harmonia poderia desaparecer diante de um estresse bobo entre os envolvidos, e talvez resultasse, inclusive, na sada de alguns dos msicos! E se ele, lder da banda, que respirava e dormia sobre os bailes, no fizesse nada, quem poderia fazer?



- Eu t meio inseguro com Los Panchos... - comentou Kiko com Suely, sua namorada na poca, antes de se tornar sua mulher.

Naquele perodo, a me da menina ainda achava que o guitarrista era um dos marginais de Bonsucesso e proibia que ele entrasse em sua casa. Por isso, o casal passava horas e horas apenas sentado na escada da porta dela, namorando e conversando.

- Mas voc acha mesmo que a banda vai acabar? - perguntou Suely.

- Ah, no sei... Quando eles se formarem como vai ser? Eu quero ser msico!

- Eu sei... - disse ela, pegando na mo dele e ficando um tempinho em silncio, sem saber como, de fato, ajud-lo.

Vendo sua carinha triste, desconsolada, no aguentou mais e decidiu, enfim, recorrer aos sonhos.

- Hum... Se voc pudesse escolher outra banda, com qual voc gostaria de tocar?

- Ih, pergunta doida essa.

- , u... Qual voc acha do caramba? Pode ser qualquer uma!

- Ah... Se dependesse s de mim... Os Famks!

- Os Famks?

- ... Eles fazem uns vocais muito legais! Mas eu nunca vou tocar l.

- Por qu?

- Porque um dos donos do conjunto  guitarrista, e o nome dele  Kiko! Onde j se viu uma banda com dois guitarristas chamados Kiko?



- 1, 2, 3 e... - contou Fef com as baquetas antes de abrir o baile com Gypsy Queen.

Os vocais tomaram o salo: Warning.../ Warning... Seguidos pelos instrumentos, para ento dar vez  voz de Alceu. Reason escapes me/ Before long youll understand.

Com aquele estilo de cantar meio Roger Daltrey, vocalista do The Who, Alceu rodava o microfone preso no cabo com destreza. Uma presena de palco fantstica! Barbudo, cabeludo e de macaco, ele tinha empatia e sabia levar o pblico, o que deixava a cano mais especial.

Depois, chegou a vez dos solos. Fef acompanhava a guitarra de Kiko, desenhando aquele rock psicodlico, enquanto teclas frenticas e interminveis de Cleberson iam ao encontro do baixo de Nando, sem contar que o iluminador Pica-Pau subia no palco e levava a percusso. Cada um concentrado em sua passagem, aumentando, e muito, aquele um minuto e meio previsto de solo para trs, dez, quinze minutos! At que chegou a vez de Alceu entrar rasgando.

- ...

S que a voz no entrou, e todos ficaram se entreolhando enquanto tocavam.

- Liga o microfone dele! Liga a!

Fez Cleberson para Nando, que fazia sinal para Alceu, que continuava mexendo os lbios como se cantasse, por mais que ningum estivesse ouvindo. Causando um silncio ensurdecedor para a banda e para a plateia.

- No t rolando! - disse Alceu, desesperado e ainda sem voz para Nando, que no impulso, agarrou o microfone e mandou com tudo:

..She wont leave a stone un-turned

Until shes - shes seen you burned... yeah

O baixista sabia a letra inteira e assumiu a voz, ainda olhando meio torto para Alceu, esperando ele voltar para o seu posto como se por um milagre. Mas nada. Passou a primeira, segunda, terceira msica e o vocalista j nem mais estava no palco. E quando um msico virava para o outro fazendo sinal de o que aconteceu?, o outro levantava os ombros do tipo sei l!.

Nando era magrinho e pequeno, pesava 53 quilos, carregava um baixo de uns 10 quilos, e chegou, inclusive, a ter deslocamento do ombro durante os bailes por causa do instrumento. Imagine, ento, o esforo que faria para tocar e cantar rocks pesados por quatro horas e meia, sem estar preparado, no tom de Alceu? Mas ele era o nico que realmente sabia as letras ou, pelo menos, a maioria delas. De fato, aquele era o melhor que dava para se fazer.

E ele foi at o final, suando a cntaros, com os dedos j meio trmulos. Sem nem mais olhar para os lados, para no perder o foco. Deu seu ltimo acorde no contrabaixo, sua ltima frase na voz e, com o sentimento de misso cumprida, se largou no cho, com as costas para baixo e o instrumento por cima.

- No aguento mais, bicho. As minhas costas esto me matando.

Aquele seria o fim do baile em Campo Grande, e o fim da voz de Alceu que, de repente, por forar a garganta durante as msicas, se calou. No mais permitindo que o vocalista pudesse cantar outra vez nos Famks ou em qualquer outro lugar. Sem tratamentos que pudessem recuper-la, ch ou mandinga. Sem mais nem menos, apenas muda.



O sumio da voz de Alceu deixara Os Famks abalados sobre sua estrutura. Principalmente seu Alceu, que tinha agora dois problemas para resolver: filho doente e banda sem vocalista. O melhor seria comear pelo mais fcil deles:

- J sei! Aquele garoto do Catumbi... - lembrou-se em reunio com os msicos.

- De quem voc t falando? - perguntou Nando.

- Aquele menino... Acho que agora ele t nos Panchos! Pedro, Pablo... No, no  isso... Hum... Paulo!

- Do Catumbi? Acho que voc t falando do Paulinho! Ele cantava l na minha rua - comentou Cleberson, j franzindo a sobrancelha.

- Isso! Paulinho!

- Pxa, esse garoto  sebosinho pra caramba! O senhor quer chamar ele mesmo?

- Ah, Cleberson, deixa de bobagem.

- Bobagem nada. Voc tem que ver o sapatinho brilhante dele. Ofusca a vista!

- No  o sapato dele que canta. Acho que vale um teste.

-  Cleberson, vamos chamar o cara pra esse final de semana, pelo menos. Depois a gente v como  que fica.

- T bom, vai. Isto , se ele no tocar pelos Panchos nesse final de semana, n?



Alceu foi, ento, fazer o convite a Paulinho. O menino, nascido e criado no Catumbi, bairro central do Rio de Janeiro e perto da Tijuca, acompanhou vrios shows da banda na plateia e adorava o som deles! Na verdade, era fissurado nos Famks! Quantas vezes ficou no Orfeo Portugal, boquiaberto com os vocais deles e as msicas diferentes? No existe conjunto como esse, pensava ele ao falar com Alceu.

- Putz, vou tocar nesse sbado com os Panchos... - lembrou-se em seguida, frustrado. - Mas posso fazer o domingo!

- P, a fica ruim. Vamos precisar treinar duas pessoas? - questionou Alceu, j pensando em uma segunda opo: Guaracy, baixista que tambm cantava e j havia tocado com Cleberson.

Guaracy topou e a Paulinho apenas coube assistir, em sua folga, a uma daquelas apresentaes no Esporte Clube Cocot, na Ilha do Governador, causando um bafaf entre as mulheres e a molecada que se perguntavam: No  o rapaz dos Panchos? Especulaes e fofocas que faziam parte, afinal todo mundo sabia que Alceu estava com problemas na garganta. Inclusive Paulinho.

E, de braos cruzados, ele observava cada movimento dos msicos, doido para estar  frente daquela banda que enchia tanto seus olhos. Mas p da vida por ver Guaracy, naquele momento, ocupando a posio em que gostaria de estar.

- P, mas esse cara cantando  ruim pra cacete!



Alceu no se recuperou para tocar no final de semana posterior ao da Ilha do Governador. Sorte de Paulinho, que tinha a data vaga e pde cantar no clube, no Rio Comprido.

- Vou quebrar o galho para Os Famks nesse final de semana, t? - avisou ele para Ricardo, que j sentia: Vou danar no vocalista...

- Vai ser no Minerva, n? Vou l te ver.

E escutou, ao p do ouvido, Kiko dizer:

- Se tiver uma vaguinha l me avisa, hein?

Como se o guitarrista pudesse prever a confuso que estaria por vir naquele show.



A cano Coast to Coast, do Trapeze, tomava o salo lotado do Minerva no primeiro set do baile, com o pblico paralisado pela habilidade e tcnica dos Famks, quando a passagem mais marcante da obra, um solo de guitarra, no veio. Pura e plena sensao de vazio. Susto dos msicos que at ento viajavam no rock. Um vcuo percebido sobretudo por Paulinho, que experimentava aquela onda pela primeira vez ao lado da banda.

Aquela parte era forte, imprescindvel, no dava para simplesmente ser esquecida. Faria falta, inclusive, para um ouvido menos atento, o que dir o dos integrantes! Eles ficaram loucos com aquela falha e, desesperados, procuraram o guitarrista para tentar salvar o solo que ainda restava. Mas Kiko, irmo de Alceu, sem se importar com o baile, estava abaixado na beira do palco, beijando sua namorada, Terezinha, no momento exato em que teria que entrar.

- A, vamos tocar, p! - gritou Fef l da bateria.

A que Kiko respondeu com descaso:

- Ah, vai se ferrar! No enche!

Irritando ainda mais o baterista, que atirou uma baqueta na cabea de Kiko, dando incio ao caos. O guitarrista, nervoso, devolveu a baqueta em cima de Fef, que partiu para cima dele deixando msica, bumbo, pedal e qualquer outra parte do instrumento pra trs. A pancadaria tomou conta do palco, enquanto o pblico - reclamava, vaiava, jogava latas e pedia o dinheiro de volta. At Alceu que, sem voz, estava na plateia, subiu para ajudar o irmo e acabou tomando uns tabefes por tabela. Nando e Cleberson fugiram do palco, se escondendo no meio dos equipamentos, envergonhados.

E Paulinho? Resmungava enquanto se desvencilhava dos socos que no eram para ele. Cacete, que furada! Uma briga que se estendeu para o intervalo e culminou na sada de Kiko, ali mesmo. Nervoso com a discusso, ele fechou a case do instrumento e virou as costas para nunca mais voltar, deixando a banda sem guitarrista e com mais dois blocos de msica para levar.

- Vou dar um jeito, gente. Vamos fazer esse show com ou sem o Kiko! - disse Cleberson, que costumava fazer as bases das msicas com a sua guitarra para Kiko fazer o solo.

Ele conhecia as notas, as harmonias, alm de ter ouvido absoluto - o que ajudaria bastante a cumprir uma dupla funo naquela noite: a de tecladista e guitarrista. Sem demora, ele pegou o distorcedor, uma caixinha da Vox que usava no teclado, plugou na guitarra e mandou ver. De vez em quando Cleberson dava umas escapadas nas notas e olhava para os outros msicos como se dissesse foi mal, mas quem estava se importando? Todos estavam aliviados e vibraram, do incio ao fim, com o desempenho do mineiro.

E at Paulinho estava mais tranquilo, j curtindo estar no palco, com a quadra ainda lotada e o rocknroll no talo! Um baile, no incio de 1973, que se tornaria decisivo para Os Famks e para a formao de outra banda.



- Olha, eu sei que hoje foi meio confuso, mas... Por que voc no fica? - perguntou Cleberson a Paulinho no final do baile.

- Bicho, vou ser claro com vocs. Nos Panchos eu sou o vocal lder, aqui eu vou dividir a tarefa com o Alceu, que  praticamente o dono da banda! Eu no t com saco pra dividir o repertrio com outra pessoa. Pode dar briga pra cantar a mesma msica. No costuma dar certo...

- Pode tambm ser melhor! Dividindo o repertrio no fica cansativo nem pra voc, nem para ele. E so duas vozes distintas: grave e agudo. D para vocalizar!

S que a ideia de dividir o palco no soava bem para a vaidade de Paulinho, acostumado a ser o vocal lder por onde passava. No entanto, aqueles eram Os Famks! Por mais que ele estivesse reclamando, no fundo, j se preparava para fazer seu ltimo baile pelos Panchos no domingo seguinte. Sem se esquecer do que havia prometido:

- Vocs no querem ver o Kiko?

Foi assim que ele apresentou  banda, novamente desfalcada, outro guitarrista. Com a diferena de que esse era Eurico, em vez de Francisco.



Nando e Cleberson estavam inclinados a convidar o Marcinho, do Red Snakes, para assumir os solos dos Famks. Mas resolveram dar um voto de confiana para Paulinho e foram para o baile de Los Panchos, no domingo seguinte, no bairro Jardim Amrica, no JAEC - Jardim Amrica Esporte Clube -, para ver de perto se o Kiko era bom mesmo ou se aquilo era conversa fiada.

Logo depois das primeiras msicas, no intervalo, Paulinho foi saber dos dois o que eles haviam achado e os meninos ainda no estavam convencidos.

- Ah, no sei, no, Paulinho... - respondeu Nando, passando a mo atrs da nuca, enquanto olhava para os lados.

-  legal, mas no convence, sabe? - seguiu Cleberson, no mesmo tom.

- Bicho, pelo amor de Deus, vocs esto malucos! Esse cara toca guitarra pra caralho!

O baile continuou animado, mas Nando e Cleberson permaneciam com a mesma opinio sobre o guitarrista. At que, de repente, Kiko entrou cantando e tocando Tinindo trincando, dos Novos Baianos, deslizando os dedos com rapidez e perfeio pelos trastes do instrumento. Ele cantava e na hora do solo fazia com a guitarra o som das notas, com uma desenvoltura como se aquilo fosse a coisa mais fcil do mundo.

Eu vou assim

(candegodengode pirau)

E venho assim

(candegodengode pirau)

Foi o suficiente para que Nando e Cleberson mudassem os comentrios e se empolgassem:

- Puta que pariu! O filha da puta  bom pra caralho!

- Eu falei pra vocs, porra!

Ria Paulinho que, rapidamente, resolveu o problema de guitarrista para Os Famks. Por outro lado, Feghali no gostava nadinha daquele movimento dos msicos de outra banda no baile dos Panchos. Paulinho j tinha avisado que iria sair, e Feghali ouvia, por alto, frases como: , o ensaio  na tera-feira! J dava pra ver:

- ... Vou perder tambm o guitarrista.



Kiko descia as escadas do clube para lanchar no final do baile, quando esbarrou em Cleberson, de blusa lisa e cala quadriculada.

- Oi, Kiko! Depois a gente quer falar com voc!

- Ah, cara, vocs levaram o Paulinho e ainda vieram assistir a gente? Vai assistir o cacete! - respondeu o guitarrista, sem saber que ELE era o motivo daquela presena.

- Bom, acho que pode te interessar. Voc  quem sabe - falou Cleberson, j dando um passo para frente quando...

- Pra, acho que entendi mal. A gente se encontra no posto de gasolina, pode ser? - perguntou Kiko, agarrado em suas mais descrentes e longnquas esperanas.



Como combinado, Kiko encostou o carro no posto de gasolina, logo ao sair do JAEC. Dava para notar a ansiedade do guitarrista, que mexia bastante com as mos enquanto andava ao encontro de Nando, Cleberson e Paulinho - oficialmente, o mais novo integrantes dos Famks.

- Ento, Kiko, estamos precisando de um guitarrista - comeou Nando.

-  isso mesmo? - perguntou ele.

- . E vamos comprar tudo de novo!

- Tudo? Mas por que isso?

- Kiko saiu e a gente acha que o Alceu tambm no deve ficar. E como a maioria dos instrumentos  deles... - explicou Cleberson.

- Entendi... Bom, eu gostaria MUITO de ser scio de vocs.

- Mesmo tendo que comprar tudo de novo? - questionou o baixista, querendo ter certeza do comprometimento do msico.

Kiko respirou fundo, como se j tivesse essa resposta h muito tempo esperando por ser dita:

- Gente, quero viver de msica. E a banda de vocs  a que eu gostaria de tocar.  meu sonho.  a minha carreira!  a nossa carreira!

- Ento acho que a gente j se entendeu. Quando voc pode sair dos Panchos? - perguntou Nando, sorrindo.

- Acho que daqui a um ms. Tambm no quero deixar o Ricardo na mo, n...

Nisso, a kombi de Los Panchos apareceu na rua do posto, passando correndo por eles, lotada de instrumentos e pessoas que o guitarrista conhecia muito bem. E entre elas, dona Nilza, enfurecida pelo que estava acontecendo.

- , AMIGO URSO! - gritou ela de uma das janelas, deixando Kiko constrangido e sem ao ao lado dos Famks.

- Bom, eles iam saber mesmo...



No dia seguinte, na segunda-feira, Kiko acordou e foi direto para a casa de Ricardo. Queria conversar, se explicar, e mostrar seu ponto de vista para o amigo. No entanto, Nilza falava o tempo todo, gritava, xingava e no dava espao para o guitarrista. No dava nem para saber ao certo o quanto Ricardo estaria ou no chateado.

- Cacete! Quer saber? No d mais, Ricardo.

- Vai na boa, Kiko - disse ele, tambm aborrecido com o estardalhao de sua me.

- Eu ia ficar mais um ms, mas desse jeito no vai dar!

- Vai l, cara. Deixa rolar.

E Kiko j ia saindo, pensando em procur-lo depois para conversar melhor, quando Nilza veio atrs gritando l de dentro da casa:

- Pra a! Se vai embora, ento vai ter que pagar multa!

O guitarrista parou, tomou flego e olhou para cima como se lamentasse. Contou at dez, voltou e, sem dizer nada, pegou o amplificador. Ia deix-lo como garantia do dinheiro para no arrumar mais confuso. No entanto, antes de esticar os braos para entreg-lo a Nilza, ela, num arroubo, o confiscou para si.

- Isso aqui vai ser multa! Passar bem - disse ela, pegando o aparelho e virando as costas para o guitarrista, terminando a briga e deixando Kiko ainda mais desolado com a situao.

No quero me afastar do Ricardo, eu no posso, lamentava o guitarrista ao esbarrar com Albert, sentado na porta de casa, olhando entristecido para a rua. Putz..., pensou ele, ainda sem graa, embora no se sentisse culpado por nada. E j ia passar por ele, mudo, quando Albert o segurou pela mo.

- Leva meu filho?

Kiko, surpreso, por um segundo ficou em silncio. E, depois, com carinho, segurou a mo de Albert com suas duas mos e respondeu:

- Assim que eu puder.



Se for melhor pra eles..., refletia Feghali, sozinho em seu canto, aps a sada de Kiko e Paulinho. O que tiver de acontecer na minha vida vai acontecer de qualquer maneira! O menino gostava muito dos msicos e, embora estivesse chateado com o fato, no se sentia no direito de ficar bravo ou magoado como sua me. Era o tipo de coisa que no dava para evitar. Assim como Gean Carlos, que no fazia mais parte daquela formao, ou Jandira, sua irm, que tambm dava sinais de que se dedicaria, integralmente,  faculdade de medicina e deixaria Los Panchos.

Ento, ele percebeu que ainda podia fazer uma coisa: levantou da cama, de supeto, indo direto para a rua, atrs dos msicos que j conhecia dos clubes. Lus e Jlio poderiam fazer o baixo e a guitarra dos novos Los Panchos, que depois de trs anos frenticos de baile no iriam mudar de nome. Hum... E o baterista podia ser aquele cara do Super Bacana. Toca pra cacete aquele moleque!, confabulava Ricardo em sua cabea antes de encontrar com o dito-cujo, ao lado de seu pai. Um menino bem mais novo que ele, muito magro, a ponto de os ossos saltarem na pele, e que tinha como segundo nome Herval.

- Voc  o Serginho, n? Pxa, cara, vem tocar com a gente?



J nos Famks, Alceu, aps a sada de Kiko e ainda sem voz, decidiu deixar a banda para sempre - abrindo espao para que Paulinho dominasse o palco. E o pai, seu Alceu, continuaria por alguns meses com os componentes, at finalizar as pendncias e os compromissos acertados no passado. Nesse meio-tempo, os msicos se propuseram a juntar dinheiro para continuar usando o nome Os Famks, alm de comprar o equipamento dele. E passaram a buscar algo mais profissional e menos amador, como seu Alceu, para se lanar, de fato, no mercado. Agora, a banda estava com cinco msicos que queriam seguir carreira, e isso fazia toda a diferena!

Os dilogos sobre o futuro dos Famks, depois de 1973, cresceram e o clima, sem a famlia Cataldo mandando no grupo, passou a ser mais ameno.

- O Cleberson e o Nando nunca foram caras de se mandar. Kiko e eu tambm no gostvamos de dono! - contou-me Paulinho.

E a primeira coisa a ser feita deveria ser a contratao de algum com mais experincia no meio musical para direcionar a carreira do conjunto. Um empresrio, e no dono como seu Alceu, que pudesse ampliar a rea de atuao. Um cara criativo, ousado, que entendesse do mercado e tivesse tino comercial. Mas quem?



Notas

* O publicitrio Carlito Maia se inspirou ao ler a expresso em um livro revolucionrio de Lnin.

** O LP Os reis do i-i-i virou filme, e a expresso i-i-i passou a significar o rock nacional.

*** Banda de baile que tocava msicas populares e disputava pblico com Os Fevers.



CAPTULO 8

MAESTRO LINCOLN E SUA NOVA BANDA

Eu tratei os Famks como uma banda nacional. No era s uma banda da Tijuca.

Carlos Lincoln

O ano era 1972. Era chegada a hora de um dos bailes mais fantsticos do Cascadura Tnis Clube, e dos representantes das bandas comearem os seus lances no subrbio do Rio de Janeiro. Era sempre a mesma coisa s vsperas do Baile de Formatura, que juntava a moada para danar at altas horas da noite. As bandas famosas, quase famosas ou desconhecidas que tocavam nas redondezas mandavam seus representantes para brigar e usar de toda esperteza comercial para abocanhar a disputada data. E o diretor do clube, que no era bobo nem nada, atiava a competio em busca da melhor oferta.

Assim, foi marcada uma grande reunio com todos os empresrios interessados, que compareceram pontualmente, muitos deles acompanhados de seus msicos, na tentativa de fazer presso no diretor. Entre eles, Alceu pelos Famks, e Carlos Lincoln pelo Painel de Controle.

- Vamos l! Faam suas propostas! - disse o diretor do Cascadura, abrindo a rodada de conversas com os empresrios, que articulavam palavras, gestos e poses para passar uma boa impresso.

No entanto, uma banda ruim ou preo alto para o oramento do clube eram empecilhos difceis de ser contornados, de modo que muitos grupos foram sendo descartados naturalmente. Saa uma pessoa, outra, at que se conseguisse chegar ao mximo de dois concorrentes para fazer o baile.

- S sobraram vocs. Por favor, apresentem suas bandas!

Carlos Lincoln, macaco-velho, sentindo a falta de experincia do adversrio, se antecipou:

- Pode ir, seu Alceu. O senhor  mais velho.

E esperou a banda ser apresentada para depois falar sobre o Painel de Controle. Seu Alceu, apontando para os meninos que estavam juntos com ele, fez sua parte:

- Bom, aqui est o meu conjunto: Os Famks. TODOS so universitrios! Aqui est meu filho, Alceu Roberto Cataldo, estudante de botnica. Esse aqui  o doutor Luiz Fernando Oliveira da Silva (se referindo  faculdade de direito de Nando). E esse aqui  o...

Prosseguiu seu Alceu, dando ttulos e nomes de faculdades para cada um dos integrantes do grupo, formado tambm por Kiko Cataldo, Cleberson Horsth e Fernando Brito, o Fef. Na sua cabea, nada mais estratgico do que mostrar que todos eram universitrios. Perfeito para um baile de universitrios. Ele s no contava com o argumento de Carlos Lincoln, que ali perto escutava tudo atentamente. Apenas a parte do valor, revelada ao final, era dita em sigilo para que a rixa no se tornasse um leilo aberto e declarado. Mas o resto?

- Agora  voc, Lincoln. O que voc tem pra me dizer?

E o empresrio, estufando o peito e caprichando na voz, disse com firmeza:

- Bem, este  o Painel de Controle. Esse aqui  o Z Carlos, esse aqui  o Srgio Menezes de Maia, Katie Marie, Paulinho Ovelha, Mauro Srgio de Almeida e Vaval. E TODOS so msicos!

Depois dessa, dizer mais o qu? O diretor do clube no queria saber do nvel de cultura da banda, mas sim de msica. Tanto que encerrou a negociao com os dois e topou no ato, na frente do seu Alceu mesmo. Ponto para Lincoln, que conseguiu vender seu conjunto, e para o Painel de Controle, que comandou o Baile de Formatura daquele ano.



Carlos Lincoln era diretor do Guadalupe Country Club, no bairro de Guadalupe, subrbio do Rio de Janeiro, quando foi convidado para ser o relaes-pblicas de Os Pacficos, formado nos anos 1970 por Vaval na bateria, Srgio Menezes no baixo, Katie Marie no vocal, Mauro Srgio na guitarra base, Z Carlos nos teclados e Paulo Rebello, o Paulinho Ovelha, na guitarra solo.

- , s trabalho se for uma coisa profissional. Todos vo largar os seus empregos, inclusive eu, para se dedicar ao grupo, pode ser? E vamos para a rua!

Era o incio do Painel de Controle, de repertrio mais popular. Tentativa de ser uma banda mais moderna que Renato e seus Blue Caps, Lafayette e seu Conjunto ou The Fevers, campees dos bailes lotados.

- Vou focar no pblico dos Fevers! - contou ele para os integrantes, antes de imprimir o que seriam hoje as famosas filipetas ou flyers.

Com esse papel voc paga Cr$ 3!, diziam os vrios papeizinhos que havia levado para o baile dos Fevers, o qual cobrava por volta dos Cr$ 20.

- Boa noite, Painel de Controle no domingo. Vai l!

E de um em um ele ia distribuindo sorrisos e filipetas, convidando para o baile do Painel de Controle no Imperial Esporte Clube, em Madureira. P, e se eu tivesse escrito de graa? Ah, no... Ia dar muita confuso, matutava Lincoln enquanto trabalhava na divulgao.

No dia da apresentao, ao entrar na rua, viu um mundaru de gente perto do clube e no acreditou que aquilo havia sido resultado dos papis.

- Esse pessoal aqui t por causa da Portela? - perguntou Lincoln para o funcionrio do clube, j que a sede da escola era ali do lado.

- Nada, seu Lincoln! O pessoal achou que aquele papel j era o ingresso!

- E a?

- E a que eles chegam na portaria e acabam pagando os Cr$ 3!

- Mentira! - disse Lincoln, morrendo de rir, sentindo que aquela seria uma bela noite.

No fim, o baile renderia cerca de 7 mil pessoas, praticamente todo mundo que foi assistir The Fevers. E seria o primeiro de muitos que ele faria com o Painel de Controle! E assim foi formando pblico aos poucos e juntando dinheiro at ser possvel trocar todo o equipamento do grupo. At a banda se tornar mais uma opo dos jovens para danar e se divertir. Pode-se dizer, inclusive, que engoliria Os Fevers, poderosos dos bailes do subrbio, com Lincoln cobrando o mesmo preo dos seus grandes concorrentes.



Meses depois, aps alguns desentendimentos com os msicos do Painel de Controle, Carlos Lincoln deixou o grupo, decidido a fazer uma banda melhor do que a deles. Mesma poca em que Os Famks procuravam por um empresrio, um vendedor que tivesse papo e fosse capaz de fazer uma propaganda convincente para que o grupo decolasse. Seu Alceu os ajudava nessa procura e, sem ter que agradar os filhos, buscava uma pessoa no s com tino comercial, mas algum que pudesse popularizar a banda. E, para ele, esse cara era Carlos Lincoln - o mesmo empresrio que os havia desbancado no Baile de Formatura.

Em 1973, Carlos Lincoln havia conversado com outros conjuntos como o Lafayette, e Renato e seus Blues Caps, mas gostou da ideia de estar com Os Famks, banda no incio de carreira em que ele poderia mostrar efetivamente seu trabalho. Sabia que eles tocavam maravilhosamente bem as canes dos Beatles e outras bandas que ele mal conhecia, no entanto, os considerava muito elitizados. Os bailes comiam quente no subrbio do Rio de Janeiro, e eles s se apresentavam nas festas da Tijuca, Zona Norte da cidade, em clubes valorizados na poca. Seria fascinante estar com eles, mas algumas mudanas eram necessrias para o sucesso. Eu vou tirar essa ideia elitista deles! Ah, vou...

- Vocs s tocam no Tijuca Tnis Clube, Mackenzie, clubes de elite. Tocar nesses lugares  especial, eu sei. Mas no vai dar em nada! O negcio  tocar para o povo!

A banda no concordava inteiramente com Lincoln, porm, decidiu arriscar, aceitando logo mudar o principal: abrir de vez para o subrbio e o estado do Rio de Janeiro.



- Meninos, vocs precisam trocar de equipamento!

- Mas, Lincoln, acabamos de comprar o equipamento do Alceu.

- S que ele t velho, Kiko. Vocs no podem tocar com esse troo do sculo passado!

- P, mas quanto deve ser um novo? A gente no tem esse dinheiro! - retrucou Kiko, angustiado, para os outros integrantes, que seguiram para casa sem saber como poderiam resolver o som. Quer dizer, nem todos.

- Pai, tem como o senhor comprar? - arriscou Paulinho para Arthur.

- Hum... Pede pro resto da banda vir aqui em casa, amanh. A a gente conversa!

No dia seguinte, estavam todos os integrantes dos Famks de frente para seu Arthur. Ansiosos por um sim, embora nervosos com a possibilidade de receber tal voto de confiana.

- Vocs vo me pagar? - indagou, com sua voz grave, Arthur.

- Sim, sim, senhor. Direitinho! - afirmou Kiko, seguido dos outros integrantes.

- Eu t emprestando, no t dando! - frisou ele, pausadamente.

- Ns sabemos! E vamos fazer tudo direitinho.

- Hum...

Tenso dos msicos, que j sentiam que iriam conseguir. Imveis, de olhos congelados sobre Arthur, que andava de um lado para outro da sala, passando, de vez em quando, um olhar enviesado na direo dos garotos.

- Tudo bem. Vou confiar em vocs!

Festa da banda, compromisso selado e um emprstimo alto. Algo em torno de R$ 42 mil, hoje, sendo destinados para cinco garotos! Dinheiro que no estava sobrando na casa de Arthur. Um acordo sem contrato ou assinaturas, baseado apenas na palavra daqueles msicos, e que tinha tudo para ficar pela metade. Pelo menos  o que acharam os amigos de Arthur, mais cticos, ao saber de sua iniciativa.

S que aquele grupo era srio... Ou, pelo menos, tentava ser. E a palavra de honra dos Famks estava em jogo! Assim, contradizendo as piores expectativas dos adultos, os garotos conseguiriam devolver todo o dinheiro para o pai de Paulinho, e antes do prazo! Pagando em prestaes, a partir do lucro dos shows, que aumentaria com um som de qualidade. Um investimento inicial que renderia muito mais do que Arthur poderia imaginar.



Era dia de ensaio geral dos Famks no Clube Panela de Presso, em Del Castilho, e a turma estava animada. O lugar tinha um bom palco e era adequado para Carlos Lincoln assistir ao show dos msicos e observar o que precisaria ser alterado. Isto , se precisasse, realmente, alterar. No fundo, no fundo, os integrantes da banda tinham a esperana de surpreender o empresrio com o seu som e ouvir um timo! Continuem assim!.

Hora de mostrar do que eles eram capazes.  1,  2,  3 e... O rocknroll tomou conta do espao com personalidade, solos difceis e vocais muito benfeitos! Uma onda mais underground - a sexta faixa do lado B de Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd, Genesis e Queen.

- Vocs fazem um baile muito devagar! - gritou Carlos Lincoln, no meio do set list, l de sua cadeira, com as pernas cruzadas e fazendo gestos com a mo.

- Como  que ?

- ... T tudo lindo e tal, mas no vai animar ningum! Eu sei que vocs esto adorando, mas as pessoas pagam para danar! E vocs no esto nem a pra elas!  gente, tem que pensar no pblico! - diz o empresrio, deixando a cadeira de lado e chegando mais perto.

- Ah, o pessoal curte o nosso show! - arrisca Nando.

- E com certeza  um pessoal parado! No mnimo,  msico, cara - respondia Lincoln, enquanto o baixista parecia concordar com a cabea.

- Vamo l! Primeiro: muita msica internacional! O repertrio precisa ser mais popular para agradar o povo. Segundo: o baile precisa ter ritmo, sequncia. Voc no pode comear com uma msica animada depois outra superdevagar, tem que dosar! Comea com um grande impacto, depois acalma, mantm cadncia, depois levanta e termina no pice!

E eles, em silncio, faziam aquela cara de paisagem, repuxando a boca de lado, com olhar pensativo, do tipo: Beleza, mas no era bem isso que a gente queria...

- A msica do Painel de Controle  infinitamente inferior a de vocs, mas o baile deles  muito melhor! Por que ser?  quase um Carnaval! Imaginem s cantar uma Ave Maria no morro no Carnaval? Tem cabimento?  praticamente isso que vocs esto fazendo. O povo quer mais  se acabar de tanto danar! Os Fevers, por exemplo? Era uma titica no comeo, mas aprenderam a ditar o ritmo do baile e deu certo! Vocs entendem o que eu digo?

E as caras continuavam as mesmas, sem qualquer sinal de empolgao. A verdade  que Os Famks tocavam para o seu prprio prazer e ponto final. Era algo despreocupado em relao aos fs e mais voltado para o gosto da banda, mais para o conceito de show, um espetculo a que a plateia pudesse assistir. E o que Lincoln pedia era um baile que, como j sugere a palavra,  uma festa em que as pessoas bailam.

- T, pode at ser, mas msica nacional? Os outros conjuntos s tocam msica estrangeira! - tenta Paulinho, que treinava o ingls das canes com toda dedicao do mundo. Ele, rigorosamente, pegava os sotaques dos intrpretes, as separaes das slabas, entonaes e tentava reproduzir como estava no disco para que a msica ficasse perfeita.

- E vocs tm que ser iguais? Sei l, coloca um Cada macaco no seu galho, que o Gil e o Caetano gravaram, ou Eu s quero um xod, ou aquela Farofa-fa! P, Roberto Carlos, Wanderla... Vocs acham brega? Mas so os sucessos que o povo gosta! E eu, particularmente, adoro. A gente precisa arrumar esse repertrio e  pra ontem!

Hoje Carlos Lincoln lembra com saudade daquele ensaio e do espanto dos integrantes com as novas ideias. Tinha muita coisa que ele queria mexer na banda, mas o set list era fundamental e ele iria bater nessa tecla at conseguir. O empresrio vinha com uma tendncia forte de msica brasileira, o que para Os Famks era, praticamente, uma heresia.



- Vocs vo tocar num teatro! - anunciou Lincoln, animadssimo, ao chegar  casa da Vila da Penha que eles alugaram para ensaiar.

Aps a sada de seu Alceu, no dava para continuar no Tijuca Tnis Clube, j que o contato era dele. E esse cantinho na Vila da Penha, subrbio do Rio de Janeiro, resolvia.

- Teatro, Lincoln? Ficou doido? - perguntou Kiko, deixando a guitarra encostada na parede.

- Nada! Vamos ver do que vocs so capazes! - cantarolou ele, sentando em uma cadeira, no meio dos msicos, e cruzando as pernas.

O sonho de Carlos Lincoln era transformar Os Famks em uma banda nacional! E, por mais que os integrantes quisessem seguir a carreira musical, o empresrio sentia que o conjunto no enxergava nada mais alm dos bailes. Era preciso, ento, desafi-los nesse sentido e explorar o potencial da banda. Era preciso crescer.

- Que teatro, Lincoln? - indagou Cleberson, desconfiado.

- Miguel Lemos!* Fica l em Copacabana!

- Porra, Lincoln! O que a gente vai tocar l?

- Nando, conta a histria de vocs e toca! Sem grilo!

- Mas, cara, quem vai ver a gente l?

- Esse show no  pra ganhar dinheiro.

- Putz, pblico sentado... - falava Kiko, baixinho, enquanto Lincoln se afastava, deixando o circo pegar fogo.

- Prepara o show a e depois a gente conversa.

A apresentao seria numa segunda-feira, dia morto para a bilheteria - o que no diminua o clima de euforia e nervosismo dos msicos. Principalmente ao ver a faixa colocada por Lincoln na entrada do teatro:

O QUE VEIO DE MELHOR DEPOIS DOS BEATLES!

- Cacete, o Lincoln  foda... - comentou Nando com o grupo, antes de entrar no teatro, que no estava cheio. Mas o pouco que tinha j os surpreendia.

- P, achei que no ia ter ningum! - falou Paulinho.

- Vai entender esse povo... - disse Kiko, com um sorriso meio tenso, antes de ir para o backstage do teatro, a coxia do palco,  espera do apagar das luzes.

Primeiro sinal do teatro. O burburinho da plateia ainda era alto. Segundo sinal. Algumas pessoas andaram mais rpido para sentar em seus lugares, aps comprar uma balinha. Terceiro sinal. O breu tomou conta do pblico, enquanto as luzes principais davam um colorido especial em Cleberson, Nando, Fef, Kiko e Paulinho, no palco.

A msica tomou o Miguel Lemos, e o silncio das pessoas ainda era estranho para a banda. Um incmodo nunca antes sentido.

E s aos poucos eles foram se soltando. Conversaram, contaram histrias da vida deles, as pessoas riam e a msica tocava. Um repertrio especial que foi tomando outra vida com o decorrer do show. Paulinho fazia graa, Fef caprichava na bateria, Nando falava sobre o que lhe importava, Cleberson sorria e Kiko fazia a guitarra gritar. Fizeram uma apresentao to legal que o administrador do teatro os convidou para voltar mais uma, duas, trs vezes, ficando quase o ms inteiro! Com rocknroll de sobra, muito vocal e algumas canes mais famosas! Ah, sim, e msicas nacionais como Lincoln pedira.

- Agora vamos apresentar algumas coisas que vocs conhecem, mas no sabem que somos ns que estamos tocando! - dizia Nando, antes de a banda tocar um mix de jingles, como o do Guaran Brahma e o do Arroz Rubi, que eles gravaram na Aquarius.

Sentindo calma em mostrar quem eram, realmente, Os Famks - sem receios ou preconceitos. Curtindo o retorno da plateia, pela primeira vez, e a sua aceitao. Com vontade de tomar outro rumo diferente dos bailes, de se tornar maior.



- Tem que mudar essas roupas, colocar umas coisas mais claras, mais exticas! Vocs tm que fazer algo pra se divertir. T tudo muito srio!

Para Lincoln, que vinha do Painel de Controle, Os Famks ainda eram uma banda muito elitizada, tanto pela postura, pelo repertrio, como na maneira de se vestir. E Paulinho era quem mais brincava com a roupa, como ao vestir um macaco azul-celeste, de lurex, com uma camiseta bem cavada e um cinto prata com estrelas tambm de lurex.

Aos poucos, roupas mais clssicas dos outros componentes comearam a dar lugar a cores, lam e botas - visual que era o mximo no circuito dos bailes!

E o nome? Os Famks no queria dizer nada em relao ao som que o grupo fazia, e muitas vezes era escrito errado, como Fanks ou Funks. Lincoln ficava para morrer quando isso acontecia, mas os msicos eram conservadores nesse sentido e achavam que Os Famks tinham um certo pedigree. No davam abertura para qualquer tipo de alterao! Esse era o nome pelo qual eram conhecidos na praa, e tinha que ser Famks mesmo: com A de amor e M de Maria.



A disputa entre as bandas continuava: vencia aquela que fizesse o melhor baile e levasse mais pblico. A agenda dos clubes costumava ser negociada anualmente, e determinadas datas eram concorridssimas. Por isso, era fundamental o bom relacionamento entre o empresrio e os diretores ou presidentes dos clubes para garantir o sucesso.

- Tinha diretoria que queria nosso show todo ms, mas eu no fazia. Achava que ia desgastar a imagem da banda. Eu no olhava apenas o dinheiro, mas a carreira dos integrantes. Eu os tratava como artistas - conta Lincoln, que manteve com os Famks a estratgia dos descontos distribudos nos bailes dos Fevers. Cada empresrio se valia das armas que tinha, e este tipo de ao dava resultado.

Mas o golpe certeiro, a carta escondida na manga, o s de paus que possibilitaria um Royal Straight Flush era o famoso, temido e habitual jab. Funcionava da seguinte maneira: se o preo do conjunto era X, o empresrio combinava com o responsvel do clube um valor mais alto para ser passado para a diretoria. Assim, o grupo retirava X e o restante ficaria com o tal responsvel.

- A gente sabia quem eram as pessoas que aceitavam o dinheiro. E eu era muito cascateiro! No esperava e j oferecia - entrega Lincoln.

S que era preciso sutileza para fazer a proposta sem queimar cartucho. Afinal, o jab  bem-visto apenas por quem aceita. Vai que o responsvel do clube resolve levar aquilo como ofensa? Pensando nisso, o empresrio dos Famks usava uma expresso no to explcita para falar sobre o assunto:

- Eu sou aberto a qualquer entendimento.

E se o adepto ao jab se manifestasse a favor de uma conversa, Lincoln continuava:

- ,  8 mil. Voc quer que bote quanto?

Mas claro que nem sempre dava certo e a sada clssica do empresrio era:

- P, t me chamando de venal? No  nada disso! Sei l, vai que tem algum imposto...



Com o novo empresrio, Os Famks iriam desbravar outros bairros cariocas, como Ramos, Anchieta, Realengo, Bangu, Jab e Jacarepagu, alm de outras cidades da regio chamada Grande Rio, como Nova Iguau e Caxias. Algo de se esperar, considerando que os integrantes do grupo estavam vidos para ganhar cho e Lincoln com flego de sobra para fazer sua peregrinao rotineira de clubes. O problema  que os msicos no eram conhecidos no subrbio e muito menos fora do Rio, ou seja, dizer o nome do conjunto era o mesmo que nada.

- Os Famks? Ningum conhece essa banda aqui! - foi a reao instantnea do diretor do colgio Dom ton Mota, em Santa Cruz, no subrbio do Rio de Janeiro.

- Eu sei, mas passa a conhecer! Ela  sensacional! O senhor vai ver... O baile  timo!

- Hum... No sei, no, Lincoln. Vou anunciar um conjunto que no vai trazer pblico?

- Poxa, voc j entrou em alguma furada por minha causa? Te fao por um preo mais barato e o senhor enche a casa independente da banda!

A oferta era tentadora e o diretor do Dom ton, por conhecer Lincoln desde os tempos do Painel, resolveu aceitar. Mas, como o seguro no morreu de velho, uma faixa especial foi providenciada para o evento. Os Famks estavam na porta com o empresrio quando perceberam em letras vermelhas, escritas em maiscula, o anncio do baile daquela noite:

MAESTRO CARLOS LINCOLN E SUA NOVA BANDA!



- Marcio, descobri a melhor banda de todos os tempos. Os caras so maravilhosos!

- Olha o exagero, Lincoln... Pelo amor de Deus, assista ao baile deles e faa um repertrio novo? Me d uma ajuda?

- Vai por mim, bicho. So os melhores msicos que j ouvi! S que o repertrio  uma merda! Pelo amor de Deus, assista ao baile deles e faa um repertrio novo. Me d uma ajuda?...

Marcio Antonucci soltou uma gargalhada no telefone com gosto.

- Vai l, fala, o que voc precisa de mim?

- Pelo amor de Deus, assiste ao baile deles e faz um repertrio novo? Eu t sem grana e quando puder a gente resolve isso. Mas me d uma ajuda nessa?

Um opala preto parou na porta da casa de Marcio, em Copacabana, para lev-lo at a Vila da Penha, onde teria um show dos Famks, em meados de 1973. Marcio estava na gravadora Continental, como produtor musical, e tinha se mudado de So Paulo para o Rio h um ano. No sabia andar direito na cidade como todo paulistano, mas no teve como recusar o pedido, principalmente depois da promessa de que um carro iria buscar e o levar de volta.

O clube estava vazio e tinha umas quarenta pessoas em frente ao palco, admirando a destreza dos msicos, sem mover um msculo do corpo. Era mais uma demonstrao de qualidade do que um baile. Umas coisas muito aranha, lembra Marcio.

J no primeiro intervalo, aps uma hora e meia do set, deu seu veredicto, com o sotaque carregado da terra da garoa:

- Olha, turminha, se a ideia  tocar em baile esto faltando msicas populares. O repertrio no t condizente com o pblico, por mais que vocs toquem barbaramente! Cad os sucessos?

- U, essa ltima agora, por exemplo: This Mascarade, do George Benson - tentou Cleberson.

- Ah... Aquela msica romntica no final? Que, alis,  muito coerente com o repertrio de vocs, n? Tudo sem p nem cabea!

- A gente gosta do nosso repertrio, Marcio - disse Nando, seguido pelos outros integrantes com vrios  isso a, Concordo,  verdade e outras afirmaes.

- Pode at ser, mas ficar tocando Billy Butterfly** no vai levar a nada. Vou tentar equilibrar as coisas, t?

Em uma mesa de bar, cercado pelos cinco integrantes, Marcio rabiscou uma lista de msicas. Depois mandou outras canes que poderiam entrar, e a banda ensaiou naquela semana mesmo.

- A gente s tem que ter cuidado pra no abrir muito - comentou Cleberson.

No sbado seguinte o novo set list estava sendo executado, em uma mistura de baile e show, com direito a hit parade, Beatles e as msicas do lado B que eles gostavam. O Lincoln descobriu um conjunto que substituiria Os Incrveis. Todo mundo fala dos Fevers, que  mais recente, mas ningum no Brasil teve o sucesso que Os Incrveis e Os Famks tiveram, comenta Marcio, que iria assistir a eles, novamente, aps dois meses do encontro com a banda. Os bailes j estavam cheios.



- A gente podia colocar mais um tecladista, hein?

- Se esqueceu do Cleberson, Kiko?

- No, no... S acho que cabia mais um... - disse ele para Carlos Lincoln, antes de continuar. - Lembra do Ricardo?

- Dos Panchos?

- ! Agora ele t no Ed Maciel... Eu acho que tem a ver.

- E ele t querendo sair de l?

- Ah, essas coisas sempre mudam, n?



Ensaio geral da banda, e Carlos Lincoln, como sempre, estava posicionado na rea do pblico, sentado em uma cadeira na parte central. Paulinho cantava bem, mas costumava ser mais fechado e introvertido no palco. Porm, naquele dia, ele estava inspirado, sendo motivo de risos do conjunto e do empresrio. O vocalista cantava, danava, dava umas reboladas, contava piada, danava de novo e conduzia o show dos Famks com uma desenvoltura de dar inveja.

-  isso a! - berrou Lincoln l de baixo com uma bela desmunhecada.

Ao que Paulinho, sem perder o timing e o tom, responde do palco:

- Nooooooossa!

Risada geral e a concluso de Lincoln:

- Pronto,  isso! Paulinho, a partir de hoje voc  gay!



O palco estava montado na rua de um dos bairros do subrbio, em frente a um supermercado, que funcionava de camarim para os artistas, enquanto os Famks se preparavam para tocar. O evento era grtis e relacionado ao Ba da Felicidade do Silvio Santos, um sucesso nos anos 1970 - uma bela divulgao para as bandas participantes. A rua estava cheia e o show prometia ser dos bons, a no ser por um pequeno detalhe: o pedal de Kiko falhou no incio da apresentao. Motivo para despontarem no meio do pblico assovios e vaias pela demora, sobretudo por parte dos homens.

Tenso, sem saber como controlar aquele burburinho, Paulinho pedia ajuda, olhando para Lincoln, que de longe fazia gestos afeminados. No... Isso no vai dar certo... As pessoas foram ficando mais agitadas, e Lincoln fazia mais poses de veado para Paulinho. Com essa porrada de gente? T maluco? Eu j no uso umas roupas muito normais, dizia ele baixinho. Mas, por fim, no teve escapatria. E o vocalista soltou a franga:

- Pra com isso! Que gritaria... Nossa! No esto vendo que ele t com problema?

Em um segundo, o clima hostil se transformou em brincadeiras e gritos de , veado. Era o pblico que se rendia s graas de Paulinho, ou Paulete, como seria conhecido a partir de ento.



Custou mas, depois de tanto ouvir Carlos Lincoln, a bicha improvisada do vocalista veio para ficar. Um dos auges dos bailes era quando Paulinho cantava Bandido corazn, que se tornou sucesso na voz do Ney Matogrosso, em 1976. Ele danava como o Ney, que trouxe uma atmosfera andrgina desde os tempos dos Secos & Molhados, e virou um atrativo a mais durante o show.

Paulinho era muito bonitinho e a mulherada caa em cima, mas nessa msica ele desmunhecava muito, diz rindo Carlos Lincoln.

Acredite se quiser, elas tambm aprovaram a brincadeira. Tanto as mulheres quanto os homens morriam de rir com as encenaes irreverentes, piadas e rebolados do vocalista. Sem esquecer que a msica tambm agradava.

- Algum t com fome a? - gritava Paulete para o pblico, que respondia:

- No!

- Algum t com fome a? - ele insistia!

- No!

- Vocs tm certeza que no querem comer mais nada? - dizia o vocalista, virando a bunda para a plateia, cheio de malcia.

Isso quando no desatava a contar piadas nos bailes, ou fazer mgicas, sempre com muita sacanagem. Paulinho prestava ateno nas pessoas, pegava trejeitos, copiava manias e falas, transformando todas essas informaes em um show  parte. A memria dele era feroz para esses detalhes, e Os Famks entravam na brincadeira. Volta e meia, Nando anunciava, rindo, que Paulinho faria uma mgica naquele show. E l vinha o vocalista para aprontar uma das suas. Ele sabia o show do Chico Anysio de trs para frente, anedotas que ningum conhecia, e dispensou vrios convites em sua trajetria para atuar como comediante.



Baile dos Famks, casa cheia e os msicos arrebentando em suas execues. Nada poderia atrapalhar esse cenrio e...

- Ai, ai, ai, ai, ai!

Geme de dor o baixista, que suava frio enquanto tocava, com um deslocamento do ombro ao segurar seu contrabaixo Precision. Lincoln saiu dali direto para o hospital com Nando e, a partir de ento, ficou em alerta para o caso disso se repetir em outros eventos. At porque nem sempre o baixista deixava claro a sua dor e sofria quietinho, esperando o baile acabar.



De forma que, no dia seguinte, o guitarrista j estava na porta da casa do amigo, com um caderninho debaixo do brao, ansioso para aprender.

Kiko precisava tirar a carteira da Ordem dos Msicos para poder trabalhar, e Cleberson se prontificou para ajud-lo. Os dois estudaram a manh inteira e s pararam, rapidamente, na hora do almoo, para comer alguma coisa. Eles precisavam passar muita coisa antes da prova de Kiko.

- Obrigado, dona Celeste - disse Kiko, quando Jandyra, me de Cleberson, o serviu com uma concha de feijo.

Fazendo o tecladista morrer de rir ao ver a me sorrindo sem corrigir o menino, para no constrang-lo.

- O que foi Cleberson?

- Nada cara, nada... - se segurando para no rir mais.

Os dois almoaram e, em seguida, voltaram para os estudos! Parando, mais uma vez, somente no final da tarde, com um lanchinho que Jandyra havia preparado. E Kiko continuava chamando-a de Celeste...

Eles ficaram estudando at anoitecer, quando Kiko, mais que preparado, se levantou para ir embora:

- Tchau, Cleberson! Obrigado mesmo, cara - e se virando para a me do amigo: - At logo, dona Celeste!

Enfim, o tecladista, com um sorriso no rosto, revelou:

- O nome dela  Jandyra!

- E tu me deixou falar Celeste o tempo todo?

Mas Cleberson nem respondeu. S riu muito da cara de tacho de Kiko, que ria tambm.

Na prova da Ordem dos Msicos, na semana seguinte, Kiko no apenas passou com boa nota, como deu cola para outros msicos! E saiu da sala do exame feliz da vida com a liberao para poder trabalhar! Tudo graas s aulas que teve com Cleberson, filho de dona Celeste.



- Cleberson, a gente vai dar o pulo do gato!

- Por que, Kiko? Voc acha que eu no t dando conta?

- Bicho, no  isso!  evoluo! Dois tecladistas e vocal! A gente vai matar a pau! - insistia o guitarrista, com o pensamento em Feghali, que naquele momento tinha sado do Ed Maciel e estava sem banda.

Kiko sempre colocava o assunto em pauta aps sua sada dos Panchos, mas Cleberson se sentia ofendido por ter que aceitar outro tecladista nos Famks.

- Se coloca no meu lugar, Kiko!  a mesma coisa que colocar um guitarrista junto com voc!

- No , no! No existem milhes de guitarras que fazem sons diferentes uma da outra! Mas teclado tem!

E eles discutiam to alto, que na sala ao lado, dava para se ouvir tudo! E l estava Vantuil, empresrio do Lafayette, para levar um papo com Carlos Lincoln. No lugar certo e na hora certa.



No Brasil, em meados da dcada de 1970, ainda no podia se falar sobre qualidade na sonorizao dos shows. A estrutura era simples e no passava de um microfone para a voz do cantor, com amplificadores individuais para os instrumentos instalados no fundo do palco. Ou seja, quando Os Famks passaram a se importar com isso, existiam apenas tentativas isoladas de melhoria, registradas desde 1972 pelos Mutantes com Cludio Csar Dias Baptista.

Primeiro, Lincoln trouxe Accio para ser o tcnico da banda. Um ser completamente alucinado em inventar coisas para aprimorar o som - o que j chamou a ateno de Nando, que chegou junto ao operador nesse processo.

- Vou microfonar a bateria, OK?

Depois foi a vez de Franklin Garrido na banda, dando um salto de qualidade nos bailes. Franklin havia feito a manuteno do equipamento dos Mutantes, quando a mesa de som era operada por Wagner Tavares - estmulo para Nando pesquisar mais sobre o assunto.

- Vai dormir, Nando! No me enche o saco!

- Mas Franklin... Eu estava pensando nesse PA*** no meio e...

- So 2 horas da manh, cara! Vou desligar o telefone!

- T bom, t bom... - disse Nando, fascinado por aqueles inventos, contando as horas para chegar o baile do Magnatas Futebol Clube, no Riachuelo - Zona Norte da cidade -, onde eles improvisariam seu primeiro sistema de PA no meio do salo. E h quem diga que teria sido a primeira banda de baile no Rio de Janeiro a fazer isso.

Os fios que passariam do palco ao meio do salo teriam de estar em um multicabo, que concentraria toda a fiao. Mas um multicabo americano era muito caro e, na falta do recurso, o jeito foi improvisar! No dia anterior, eles compraram vrios rolos de cabo de guitarra, juntaram todos, amarraram no para-choque do fusca de Kiko e os besuntaram de vaselina para pass-los dentro de uma mangueira.

E eles passavam mais vaselina, tendo um arame muito forte como guia. Cerca de 30 metros de cabo! Um trabalho que varou a madrugada. Afinal, s assim eles poderiam concentrar o controle do udio e integrar os amplificadores para um som mais equilibrado.

A primeira tentativa no foi aquela maravilha. Pode-se dizer que foi at ruim, mas foi um comeo. E Franklin, absorto naquele objetivo, continuaria tentando nos outros bailes. At que, no Iraj, ele balanceou o multicabo, que era de alta impedncia, e conseguiu um...

- Puta som! Caralho! Agora foi! - comemorou Nando ao ver o que Franklin havia conseguido.

Um som que deixaria o baile muito melhor, despertando a ateno das outras bandas que correriam atrs do prejuzo. Os Famks j dominavam a Tijuca, o subrbio do Rio de Janeiro e outras cidades menores da regio, passando por cima, inclusive, do Painel de Controle, que havia tomado os bailes aps Os Fevers. E, com aquelas melhorias, o cu seria o limite.

No foi  toa que, aos poucos, eles foram substituindo as gambiarras por equipamentos originais e os instrumentos por outros mais possantes, se virando com o que tinham  mo, mesmo quando o dinheiro apertava, para manter a qualidade do som. O show  que no podia parar.



- Caramba, foram 10 mil pessoas no baile de ontem! Isso foi legal! - comentou Fef em uma das reunies com o grupo.

- , encheu pra caramba... P, eu fico pensando nas coisas que o Lincoln fala com a gente...  foda, n? A gente precisa ganhar dinheiro - disse Kiko.

- A gente tem que pensar  na nossa carreira! P, e o disco da Polydor?

- Difcil, hein, Nando... - lamentou Paulinho, que passou a cantar Altamira na ausncia de Alceu.

A banda, inclusive, foi novamente ao escritrio de Big Boy para apresentar os novos integrantes e pedir uma fora para o DJ. Chegou at a colocar a msica na Parada de Sucesso da Globo. No entanto, a cano parecia no decolar, por mais que Os Famks amanhecessem muitos dos dias nas portas das rdios. E eles no entendiam o porqu. Era preciso, ento, fazer um novo disco, uma msica nova, qualquer coisa. Era preciso, antes de tudo, da gravadora.



- Jairo, quero gravar mais um disco com Os Famks.

- Ih, complicado... - respondeu Jairo Pires ao ser interpelado na Polydor, ainda em 1973, por Carlos Lincoln.

O empresrio queria conversar sobre o contrato dos Famks vigente, mas no ouviu uma resposta animadora do diretor artstico. E o mximo que ele conseguiu foi a marcao de um novo teste.

- Um novo teste? P, Jairo, mas o contrato  o mesmo!

- Mas mudou o cantor, no ?



No dia do teste, um imprevisto adiou os planos dos Famks:

- Lincoln, o Erasmo t gravando agora. Tem como vocs fazerem a ambientao?

A msica era O comilo e contava o episdio de um cara que ganhou em um programa de TV o direito de comer de graa pelo Brasil inteiro, mas que de to voraz desfalcou a exportao. A parceria de Erasmo com Roberto Carlos entraria como bnus do lbum Projeto Salva Terra!, lanado no ano seguinte, e precisava do burburinho do fundo, conversas, assovios, palmas etc. - o que, nos estdios, recebe o nome de ambientao ou clima. No era o tipo de coisa que Carlos Lincoln achava ideal para seus artistas, mas topou fazer uma mdia com o pessoal do selo.

S dias depois  que Os Famks conseguiram fazer o teste, com o cantor e compositor Hyldon de coprodutor da audio. A msica escolhida foi o hit daquele ano: The Morning After, conhecida na voz de Maureen McGovern como tema de amor do filme O destino do Poseidon.

Paulinho caprichou na interpretao e todos ficaram chapados com a qualidade vocal que ele demonstrara: Theres got to be a morning after / If we can hold on through the night. Ele  um dos maiores cantores do Brasil.  o nosso Phil Collins!, disse Carlos Lincoln.

Mas, mesmo assim, a confirmao da gravadora sobre um novo disco no veio, derrubando todas as timas expectativas do teste. Chateado e doido pra botar logo na rua mais um LP dos Famks, Lincoln, que tinha ligao com Marcio Antonucci e Ramalho Neto, produtores de outra gravadora, tomou a deciso:

- Vamos pra Continental Discos!



Notas

* Esse teatro depois ganharia o nome de teatro Brigitte Blair.

** Marcio na verdade estava se referindo  banda Iron Butterfly.

*** Abreviao de Public Address (Endereado ao Pblico). Equipamento que direciona o som  plateia, nos shows.



CAPTULO 9

EL ADIS DE LOS PANCHOS

Los Panchos, pra mim,  a fase com o Kiko e o Paulinho. Depois eu mantive o nome pra no comear do zero. Mas era diferente...

Ricardo Feghali

- Meu filho, voc precisa fazer uma faculdade! - insistiu Albert com Ricardo, aps a sada de Kiko e Paulinho dos Los Panchos, apesar deste j ter arrumado uma nova formao para a banda.

- Ah pai, quero continuar com a msica...

- Mas t difcil, no t?

- ... Um pouco.

O menino nunca repetira o ano ou deixara de estudar por causa da msica, e sempre esteve um ano escolar  frente de Jandira. No entanto, ao chegar aos 17 anos, era como se o mundo inteiro o cobrasse por uma posio quanto  sua vida. Como se ele fosse obrigado a entrar em uma faculdade para prestar contas aos seus pais e tambm  sociedade.

P, eu no posso decidir depois? O pior  que tudo da banda fica nas minhas costas... Ser que vale a pena?, perguntava-se ele, quando estava sozinho, pensando sobre o que fazer enquanto passava um pano nos instrumentos.

Ele tambm considerava a realidade dura de Los Panchos e seus percalos, na tentativa de se sentir mais empolgado a fazer uma faculdade. Mas no sentia firmeza em nenhuma das possibilidades do cursinho de pr-vestibular, que ficava perto de sua casa. Engenharia? Direito? No quero fazer nada disso! E decidiu-se por medicina, na tentativa de aliviar a imposio que sentia ao estar perto de seus pais. Mesmo quando eles no diziam nada, era como se os olhares e as palavras de Nilza e Albert fossem apenas de reprovao s suas atitudes. E isso era muito ruim...

- ! Vou comear amanh o cursinho, t?

Contudo, a matrcula no significaria esforo durante as aulas. Desmotivado com a presso para se afastar da msica, ele mal estudou no decorrer do ano e tomou bomba. O mximo que aconteceu foi se divertir confundindo os professores com o seu gravadorzinho, que fazia um barulho de feedback. Era uma novela! Os alunos morriam de rir e sabiam que era ele, enquanto os professores batiam no microfone da sala de aula, tentando consert-lo.

- Direo! Por favor, chama a direo! Esse microfone t ruim! - reclamavam os mestres, confusos, andando de um lado para o outro.

Ansiosos para consertar o microfone, perante os olhares de julgamento dos alunos, os professores se mostravam atrapalhados e perdidos naquele curso, tanto quanto ele.



- T, t, j sei! Eu vejo isso - respondeu Ricardo, meio estressado, para Valter Gordo, antes de ensaiar com a banda.

A formao dos Panchos, que tinha Serginho Herval na bateria, Lus e Jlio no baixo e na guitarra, no chegou nem a se apresentar e ficou s nos ensaios. E o garoto, mais uma vez, teve de procurar novos integrantes para manter a banda ativa. Valter Gordo assumiu o baixo; Ccero Pestana, a guitarra; e Geraldinho veio para cantar. Msicos que ainda fariam vrios bailes com Ricardo sob o nome de Los Panchos - um conjunto que sustentava os anseios do tecladista, mas que j estava cansando... Ser que no dava pra ser mais simples?

Em 1973, Ricardo tentou medicina de novo, mas dessa vez com a companhia de Jandira, que havia se igualado a ele no ano escolar. Porm, a irm, que decidira deixar Los Panchos, passou e ele no. Desespero para o garoto que, sem coragem de abandonar a msica, comeou a ver sua entrada na faculdade apenas como forma de ganhar tempo com seus pais.

- P, no t passando... Preciso fazer alguma coisa para ningum me aporrinhar!

E ele procurou tanto, que conseguiu passar em uma dessas provas isoladas para a Faculdade Brasileira de Cincias Jurdicas - no mesmo ano em que foi reprovado para medicina.

- Passei pra direito, pronto! Acabou!

Era o seu passe livre para continuar com a msica.



- Esto precisando de um tecladista para uma gravao em Madureira. T a fim? - perguntou Vantuil, empresrio do conjunto do Lafayette, para Ricardo, aps ouvir na casa dos Famks que ele estava sem banda.

- Agora?

- , hoje  noite. Leva seu piano Fender!

- T bom! - respondeu ele, sem saber quem iria acompanhar ou onde ficava o estdio.

Pegou seu piano, colocou na Variant - carro da Volks - que conseguira comprar parcelando, com seu pai, em inmeras vezes - e deu a partida, tendo nas mos um papelzinho com o endereo escrito.

Ao chegar l, achou tudo estranho. No tinha mesa de som e a sala estava vazia. U, cad todo mundo? Mas como ainda era cedo, montou seu pianinho, achou uma cadeira no canto e sentou para esperar. Ficou ali durante alguns minutos, at que um rapaz, moreno, de bigode fino, cala branca, blusa colorida e chapu preto na cabea, acendeu a luz do lugar.

Ricardo o cumprimentou, sem graa, sem saber que se tratava do alagoano Z Paulo, que acompanhava o Rei do Baio Luiz Gonzaga, tocando zabumba.*

Em seguida entraram no estdio Dum Dum (trompete), Paulo (baixo) e Picol, baterista de muitas gravaes da msica brasileira.

O menino observava tudo com muita ateno, sorrindo quando algum olhava para ele. Procurando o instante certo para perguntar o que ele faria ali. Ser que falo com ele? Com ela? Hum... Ele deve ser o dono da banda. Ai, caramba... Melhor esperar eles arrumarem seus instrumentos... At que foi surpreendido pelo prprio Z Paulo:

- Voc sabe o que t fazendo aqui?

- H, Er...  pra uma gravao, n?

- No, no - e rindo um pouco, vendo o menino perdido, continuou. - A gente quer que voc toque com a gente, e isso aqui  um ensaio! Vamos fazer um projeto com o Ed Maciel, conhece?

- Hum... No - respondeu Ricardo, imaginando se estaria pagando mico dizendo que no.

- Tudo bem. A gente quer voc no projeto. Vai ser bacana! Voc canta tambm?

- Canto, canto!

- Beleza! Ento vamos tocar! - comemorou Z Paulo, passando a harmonia para o menino.

E estava selado o incio do trabalho de Ricardo Feghali com Ed Maciel, e o fim das atividades de uma banda, para ele muito querida, chamada Los Panchos Villa.



Trombone era o instrumento de Edmundo Maciel. Na verdade, era o instrumento de toda a sua famlia - considerando que seu pai e pelo menos dois de seus irmos fizeram a mesma escolha musical. Sendo um deles tambm Ed (Edson), o que lhe renderia algumas confuses. Mineiro de Belo Horizonte, instrumentista e compositor, ele veio aos 13 anos de idade para o Rio de Janeiro, onde se tornaria maestro, arranjador e o primeiro trombonista da Orquestra Sinfnica do Theatro Municipal. Mas comparado a seu irmo Edson, de linha jazzista, Edmundo seria um msico mais tradicional, com toque suave e articulao mais limpa.

Edmundo, ou Ed Maciel, como seria conhecido no meio artstico, tinha quase 50 anos quando conheceu Ricardo Feghali, aos 18. poca em que formaria uma das bandas mais cotadas para os bailes dos clubes da cidade, e tambm uma das mais bem pagas! E Ricardo poderia ter ficado por l, durante anos, tocando com Ed Maciel, recebendo muito bem no final dos bailes por isso. Sem levar a banda nas costas! Poderia... No fosse o seu impulso incontrolvel de se envolver com a banda. Ricardo insistia para que o conjunto ficasse mais pop, mais moderno - mas Ed Maciel no queria. O menino apresentava, inclusive, novas canes para que a vocalista - substituta de Jurema** - aprendesse a cantar. Uma atitude legal e positiva para o conjunto, mas que, na viso de Ed, deveria vir do dono da banda, e no do tecladista.



Os bailes da Lespan, na avenida Brasil, eram animados - embalados sobretudo pela black music. Ali reinariam nomes como Toni Tornado, Gerson King Combo, Ademir Lemos, Mister Funk Santos, Big Boy, Black Rio e Carlos Daff. Com muita gente boa, cheio de estilo e marra, se acabando na pista de tanto danar. E para l foi Ricardo com Z Paulo para se distrair, aps sua sada da banda de Ed Maciel.

- P, bicho, no teve jeito, n? - lamentava Z Paulo que, naquele perodo de bailes, se aproximou muito do tecladista, oito anos mais novo que ele.

- Ah, Z... Deu no que deu.

- E agora? Vai fazer aquela sua banda de novo?

- Los Panchos?

- ! Essa mesmo!

- No, no... Vou deixar rolar. Quem sabe a vida me traz outras coisas? - disse Ricardo, tomando uma cerveja, enquanto no palco uma banda batalhava tambm pelo seu ganha-po.



Na semana seguinte, meio desanimado, Ricardo esbarrou, novamente, em Vantuil.

- Olha s, o Lafayette tem duas bandas: o Sambrasa e o Lafayette! E ele quer que voc ensaie com o Sambrasa.

- Tocar samba?

- Mas no  samba!

Lafayette era considerado o organista oficial da Jovem Guarda. Gravou com os principais nomes do movimento, como Trio Esperana, Golden Boys, Renato e seus Blue Caps, Wanderla, Roberto e Erasmo Carlos. Ele e seu rgo Hammond B-3 marcaram presena nas dcadas de 1960 e 1970, e nos mais de trinta LPs pela CBS da srie Lafayette apresenta os sucessos, em que ele gravava verses instrumentais dos hits da poca.

Porm, Ricardo no iria para o Sambrasa. Lafayette j tinha ouvido falar de Ricardo por Mosquito, ex-Los Panchos e o convidou para fazer parte do Lafayette e seu Conjunto, alm de ensaiar com a banda The Brazilian Bitles. E no se tratava da formao de sucesso nos anos 1960, com Victor Trucco ou Luiz Toth, mas uma tentativa de remontar a marca The Brazilian Bitles no mercado - comprada por Vantuil -, com D (baixo), Paulinho Ovelha (guitarra), Floriano (bateria), Tutuca Borba (teclado), e os irmos Cristina (voz) e Cssio Tucunduva (guitarra).

Assim, a partir de 1974, Ricardo atuaria, na casa de Lafayette na Ilha do Governador, como diretor de ensaio e tecladista, sem se preocupar com transporte, pagamento ou outra questo de banda. Tranquilo, ganhando dinheiro do jeito que ele queria. Mais uma vez.



- E a, Ricardo, t tudo bem?

- Oi, Kiko! - responde o tecladista ao encontrar Kiko, na porta de sua casa.

- Vem c, o que voc acha de entrar para Os Famks?

- Os Famks? Voc t falando srio?

- T, u! Por que no?

- Mas e o Cleberson? Saiu?

- No! P, dois teclados... Vai ficar do cacete!

- Hum... Mas ele t bem com isso?

- Er... No muito. Mas a gente d um jeito!

- Sei...

E o nimo de Ricardo estava longe de ser o que o guitarrista esperava encontrar.

- No Lafayette voc  empregado, no ? Com a gente voc vai ser dono! Nosso scio!

- Como assim, Kiko? Vocs j no tm equipamento?

- Temos! Mas vamos comprar outros mais novos! Estamos juntando dinheiro pra isso - comentou Kiko, tentando estimular Ricardo, que no parecia mudar de opinio.

- P, cara, no sei, no... Acho que agora vai ficar meio complicado...

- Mas por qu?

- Ah, bicho... Eu que t segurando as pontas l de casa. E t ganhando bem no Lafayette! No acho que vai rolar investir... Eu t feliz.

- Mas...

- Obrigado pelo convite. De verdade.

- Mas...

- Me desculpa, mas... No vai dar pra mim, no.



- P, o Ricardo foi pro Lafayette! - chegou dizendo Kiko na semana seguinte, muito chateado, no ensaio dos Famks, que naquele instante comeavam o seu trabalho na Continental, com Marcio Antonucci.

Nos anos 1970, solos de guitarra e teclados eram encontrados com frequncia nas bandas estrangeiras de rock progressivo. Yes, Supertramp, Rush, Genesis, Pink Floyd, King Crimson, Jethro Tull, Emerson, Lake & Palmer eram alguns dos grupos que fortaleciam essa tendncia no mundo inteiro. Momento perfeito para Ricardo entrar na banda.

- Voc falou com ele? - perguntou Lincoln, estendendo o assunto.

- Lgico! S que neguim deu o pulo do gato na nossa frente! Saco...



Enquanto Ricardo estava no Lafayette, Marcio Antonucci recebeu Os Famks de braos abertos na Continental e deu incio  gravao de um compacto da banda: disco duplo, com quatro canes mais melodiosas, lembrando o velho estilo da Jovem Guarda.

Harlem Song, nico sucesso do grupo vocal francs The Sweepers, ficou conhecida como Triste cano, na verso de Lilian Knapp, na poca casada com Marcio Antonucci.

Tudo acabado

Me diga agora

Como  que eu vou viver?

Alm disso, a letra de Sylvia, famosa na voz de Elvis Presley, tambm ganhou verso de Lilian. J Rossini Pinto transformou Chrie Sha La La, da banda francesa Anarchic System, em Querida; e Me And You, do brasileiro Dave Maclean, virou Eu e voc.

O disco s tinha os sucessos do momento, e poderia encher os olhos dos jovens que iam aos bailes. No entanto, nada aconteceu. Quer dizer, no com este LP. A ideia dos hit parades dos bailes ainda se tornaria moda, com trabalho dos Famks, dentro da Continental, sob a batuta de Marcio. S que, neste caso, os msicos seriam reconhecidos por outro nome.



- Turminha, t a fim de fazer um trabalho diferente com vocs! - disse Marcio, animado, para Os Famks, em sua sala na Continental. - Trinta msicas em dez faixas, como se fosse um baile! Com todos os tipos de sucesso do momento! Nacional, internacional, pop, rock, brega, samba e por a vai!

- Mas isso no tem a ver com a gente! - reclamou Kiko.

- Calma, calma, eu no acabei de falar! - disse Marcio, meio indignado, levantando as mos. - Sero vocs tocando, mas no sero vocs!

- Marcio...

- Nando, desculpe te interromper, mas vocs no me entenderam. Ningum precisa saber que so vocs! No precisa ter o nome Os Famks. A gente inventa outro!

- Outro?

- , u! Vocs fazem o cover das msicas e assinam como Z das Couves! Sei l! - E falando de forma solene e pausada, caprichando no sotaque paulistano, continuou: - Prestem bem ateno: isso pode dar dinheiro! Vocs no precisam largar Os Famks!

Era 1974: ano do primeiro LP da Continental de hits, gravado pelos Famks, com msicas como Big Apple Dreamin, Gita, Gostava tanto de voc, Band on the Run, Maracatu atmico e Triste cano, incio da srie As 30 mais, que, surpreendentemente, venderia que nem gua em todo Brasil, enchendo os bolsos da gravadora, e que levaria Os Famks a assumir o pseudnimo de Os Motokas.



Notas

* Z Paulo tambm acompanharia Z Gonzaga - irmo de Luiz Gonzaga -, Oswaldinho do Acordeom, Elba Ramalho e Dominguinhos.

** Jurema de Candia, no comeo de carreira, aos 14 anos, cantou no conjunto de Ed Maciel. Quando mais velha, se tornaria a segunda voz de Roberto Carlos.



CAPTULO 10

NA GARUPA DOS MOTOKAS

Foi uma falha lamentvel no termos feito shows com os Motokas. Perdemos muito dinheiro!

Marcio Antonucci

Foi no estilo dos discos das bandas The Clevers (que depois passaria a se chamar Os Incrveis) e The Jordans que surgiu o Big Seven, em 1968, pelo Okeh (subselo da CBS). Esse era o nome do grupo instrumental - formado pelos integrantes dos Fevers e de Renato e seus Blue Caps - que gravou a srie de vrios volumes Os sucessos num super embalo. Com dois LPs por ano at o comeo dos anos 1970, os discos vinham com doze faixas, sem os crditos, e traziam canes conhecidas como Risque e Cho de estrelas.

Em 1970, foi a vez do conjunto Os Super Quentes, tambm pela CBS (dessa vez pelo selo Entr), composto basicamente por membros dos Fevers, Golden Boys, Trio Esperana e Renato e seus Blue Caps. Foram mais de dez discos da srie Os Super Quentes e os sucessos, tambm com doze faixas em cada - entre covers e verses de hits.

Leno Azevedo, em 1973, produziu o Sesso de Rock, LP de sucessos pr-Jovem Guarda creditado a uma banda chamada Matria Prima. Brazilian Singers foi o pseudnimo de um conjunto pensado para os gringos com os melhores sambas da terra da caipirinha, e muitos outros grupos fantasmas existiram nas dcadas de 1960 e 1970, cantando msicas do hit parade. Esse era o filo das gravadoras, que vendiam muitos discos e s pagavam os cachs dos msicos, sem gastar um tosto de royalties artsticos.

Os envolvidos, escondidos atrs de pseudnimos, no eram reconhecidos pelo pblico por aquele trabalho e se motivavam pelo prazer de fazer msica e de ganhar seu dinheirinho. E as companhias fonogrficas puderam nadar de braada naquela poca com os fonogramas  sua disposio. O que dir a Continental com Os Famks e As 30 mais.



J no primeiro disco de As 30 mais, Marcio Antonucci escolheu as trinta canes que iriam entrar no LP e entregou a lista para Cleberson.

- , acho que um minuto e pouco de cada msica j deve dar.

E o trabalho do tecladista aspirante a maestro seria casar o comeo de uma msica com o final de outra, de forma harmnica. Para entregar um trabalho perfeito, o tecladista comprou uma vitrolinha para ouvir os LPs originais e tratou de buscar um lugar silencioso no estdio, onde pudesse ligar o aparelho e escutar os discos em paz.

Assim, sem avisar ningum, saiu rodando pelos andares do estdio, observando as reas vizinhas, quem estaria por perto, at achar um local apropriado. Desligou a mquina de caf, que no era muito usada, e confiante ligou seu instrumento de trabalho na tomada. A nica tomada de 220 volts de todo o prdio, que iria queimar a sua virgem vitrolinha para sempre.



Depois do episdio da vitrola, Marcio gravou uma fita K7 com todas as canes em ordem, dando pausa onde teriam que ser feitas as emendas e entregou para Cleberson.

O tape j vinha exatamente do modo que o LP deveria ser gravado, com o produtor contando  1,  2,  3,  4,   antes de dar pausa entre as canes, o que facilitaria o processo. No entanto, o prazo seria apertado: cerca de uma semana para fazer os inmeros arranjos, com todas as variaes musicais de uma festa ecltica; indo de Srgio Bittencourt, passando por Tim Maia a Jos Augusto e at Paul McCartney & Wings! Mas Cleberson gostou da tarefa e deu seu jeito de marcar as harmonias como cifras.

O ritmo continuaria puxado nas gravaes: com uma ou duas semanas para fazer as bases, os vocais e as vozes principais - uma trabalheira que seria impossvel nos dias de hoje sem a ajuda da tecnologia. E, assim, o volume 1 dos Motokas sairia em maro de 1974, com Os Famks tocando, Paulinho cantando a maioria das msicas, Marcio fazendo a voz das romnticas, Lilian Knapp com a voz feminina, e alguns amigos do produtor ajudando nos sambas. O primeiro dos treze discos dos Motokas at o ano de 1982* - lanados, praticamente, dois por ano -, com onze sob responsabilidade de Marcio, que tinham Os Famks como msicos.

Um estouro de vendas por vrios estados do Brasil, colocando, inclusive, Triste cano - que fazia parte do repertrio do disco - na lista das msicas mais executadas na semana de 1 a 8 de agosto de 1974 - de acordo com pesquisa de mercado do instituto Nopem. A estreia, com o p direito, dos Famks no circuito de LPs no creditados.



- O meu sonho era ser uma das garotas dos Motokas - brincou Ivete Sangalo em um dos lanamentos de seu CD As Super Novas, pela Universal, em 2005.

E no era para menos. Na capa desse disco, a baiana, embora comportada, com uma blusa e cala jeans, est em cima de uma moto, fazendo uma pose tpica dos LPs dos Motokas que marcaram os anos 1970.

A Continental investiu na seleo das modelos que viriam na frente dos discos naquela poca - o que tambm causou impacto nas vendas de As 30 mais. O grande frisson do pblico masculino era colecionar os psteres daquelas beldades e esperar ansiosamente pela escolha da prxima capa. O LP juntava mquinas possantes com mulheres lindas, fazendo uma mistura provocante e intensa para a libido dos homens. Efeito similar que buscou a mesma Ivete na abertura de seu show no Maracan, com roupa preta e tambm em cima de uma moto - isso j em 2007, durante a gravao do DVD e CD ao vivo da Multishow.

Em uma coletiva, no Copacabana Palace, ao ser indagada se a inspirao da roupa de couro era a mulher-gato do Batman, ela retrucou: Nunca! Quando falei que ia fazer show no Maracan as pessoas me olharam surpreendidas. Ento me veio a ideia da roupa de herona, poderosa, e tambm a influncia daquelas moas que apareciam na capa daqueles discos que meus irmos compravam: uma coletnea de Os Motokas - porque eu sou pobrinha (sic), mas sou limpinha. Meu irmo ento veio com a sugesto da moto.1



O Globo de Ouro era um programa da TV Globo que tinha o propsito de apresentar ao telespectador os maiores hits do momento. Chegou a passar nas quartas, sextas e domingos, mas sempre destacando as msicas mais tocadas da parada - nacionais e internacionais - atravs de seus diversos quadros, como: Grande lanamento do ms, Hit parade do passado, O som das paradas e O som dos disc-jqueis. O programa se tornou importante para um pblico vido por msica e passou a ser responsvel tambm pelas modas. Uma cano poderia ir das estaes de rdio para o Globo de Ouro ou vice-versa.

Aloysio Legey era o diretor do programa em 1974, mas Walter Lacet tambm tinha suas contribuies. E foi ele, incentivado por Marcio Antonucci - que naquele ano tambm atuava como produtor musical na emissora -, quem aceitou a sugesto da amiga Lilian Knapp sobre Os Famks.

Nos dois primeiros anos do Globo de Ouro, Os Fevers eram a nica banda de baile convidada para participar. Mas Lacet confiou na cantora, que se apresentou com os Famks em Rock The Boat, do grupo californiano Hues Corporation.

E foi assim que as portas da Globo foram abertas para a banda. Lacet gostou tanto da apresentao dos Famks que os chamou para acompanhar Wanderley Cardoso em outra cano. No entanto, o cantor no apareceu e o grupo fez o cover do paulistano, um dos dolos da Jovem Guarda. E a banda foi ficando no Globo de Ouro, tocando os hits do momento, sendo remunerada por cada apresentao. Precisava de uma banda para tocar Stevie Wonder? Chama Os Famks! At porque, alm da qualidade musical da banda, Paulinho era incrvel imitando os cantores. E no tinha para ningum! Ponto para Os Famks, que ampliavam seus contatos musicais - e que, por meio deles, seriam vistos, revistos e depois lembrados.



Cleberson escrevia os arranjos das canes e depois gravava a verso final, junto com o grupo, para Paulinho colocar a voz. S que a rotina de arranjos, bailes e gravaes estava acabando com o fuso horrio de um tecladista que, naturalmente, morria de sono em tarefas que exigiam foco e ateno. E, em uma dessas vezes, bocejando sem parar e com os olhos piscando, ele pulou uma parte inteira da msica dos Motokas na hora de gravar. Sem ningum perceber! O encadeamento das notas estava to certinho que nenhum dos outros msicos notou que a repetio havia sido engolida pelo sono de Cleberson.

- Paulinho, que isso? Cad a outra parte da msica? - perguntou Marcio Antonucci, indignado, ao ouvir o resultado final.

- Sei l, p!

- Como sei l, Paulinho?

- Bicho, ouve o que t gravado! V se cabe! - disse o vocalista, impaciente, diante da bronca do produtor.

- Chama o Cleberson aqui - pediu Marcio, j bufando dentro do estdio.

- Cleberson, cad a outra parte da msica?

- Sei l! - disse o tecladista, levantando os ombros, com a resposta mais sincera do mundo.

- Voc t de brincadeira, n? E, agora, o que eu fao?

- Sei l, Marcio! O que voc quer que EU faa? Devo ter dormido! P, grava de novo! - retrucou Cleberson, falando to alto quanto o produtor.

- Cara, mas olha a merda! Eu no tenho verba, nem tempo pra gravar de novo!

- Ento sinto muito! Mas vai sair s com uma parte da letra!

O disco dos Motokas sairia, com a cano pela metade e com um refro s. Sem vender menos por isso, ou receber qualquer carta de reclamao dos fs.



Os Famks ganharam mais um vocalista em 1975: Osmar Santos.** Dono de uma voz invejvel, ele cantava msicas de Donna Summer como se fosse a prpria. E seu falsete era limpo e potente, embora tivesse um pequeno problema na hora de soltar o gog: a palavra.

- Cara, voc tem que fazer uma aula de ingls. No d para cantar as msicas falando errado. Vai ficar ruim pra gente. Se quiser, te dou aula de ingls! - insistia Paulinho, que dividia o repertrio com ele, na tentativa de salvar a situao.

- Pode deixar, vou fazer. Vou fazer...

Mas no adiantava. Osmar, continuava decorando as canes sem ter ideia do que estava cantando e, muitas vezes, parecia estar completamente fora do ritmo e da energia do grupo. O que s iria dificultar ainda mais a sua permanncia nos Famks e tambm nos Motokas.***



Depois dos Motokas, foi a vez do primeiro disco de carreira dos Famks,**** com treze canes, em 1975 - produzido por Marcio Antonucci, tendo Os Incrveis, Os Vips, Roberto e Erasmo Carlos como referncias para os compositores: Os Famks eram filhos da Jovem Guarda pela maneira de tocar e de se portar. Era uma opo mais jovem, achei que tinha tudo a ver. Uma linha roqueira que se manteve pelo LP inteiro, com canes como Crises, Os caminhos do cu, Se um dia voc me deixar, Olha eu, Rei da paz, De braos abertos, Minha amada, Tenha calma e Quero que v tudo pro inferno.

Em pocas de Ditadura, O homem de Marechal entrou como a primeira faixa do lbum. Falava sobre um trabalhador da indstria nacional em pssima situao financeira, que ia para cidade de trem, saindo de Marechal Hermes - bairro que possui o nome de seu fundador.*****

Gravamos com o carimbo da Censura! E eu no sei como eles deixaram passar. A gente falava de amor e eles achavam que era revoluo!, diz Marcio, que tambm participou como autor desse lbum em Mos sujas e Seu rosto, seu sorriso.

A composio Ponte dos desejos fechou o disco, obra de Gerson Conrad, dos Secos & Molhados, e seu parceiro Paulinho Mendona. Os Secos & Molhados eram da Continental e a cano entrou para o LP dos Famks a pedido da gravadora, mas seguia uma tendncia diferente das demais faixas. Por isso, Marcio preferiu deix-la por ltimo, sem se misturar com o conceito do LP. At porque, segundo ele: No dava para taxar Os Famks de MPB. Eles so do rocknroll!



Com a separao de Lilian Knapp e sua consequente sada dos Motokas, em 1975, Marcio chamou Claudia Telles para assumir o vocal feminino no terceiro disco. Um convite de trabalho que teve um captulo a parte, alm das imitaes de Alcione e outros tantos vocais feitos em Os Motokas. Claudinha ainda no tinha gravado sozinha um LP e nem ouvido falar dos Famks, pois morava em Copacabana e eles tocavam mais na Zona Norte, quando conheceu no s a banda, como principalmente o Paulinho - com quem namoraria at mais ou menos 1977.

- Amor, tem certeza de que voc quer ir hoje? - perguntava o vocalista para Claudia, sobre ir aos bailes dos Famks.

- Voc no quer que eu v por causa das fs, n?

- Porra, Cludia...

- Fala srio, Paulinho! - respondia ela, de olho na vaidade do namorado.

As meninas mais atiradas, fs do grupo, ficavam em cima dos msicos, para no dizer do vocalista, que cantava na frente. Mas depois que ele comeou a namorar, algumas fs ficaram mais retradas. E pior: depois que Claudinha tambm gravou seus discos como cantora, elas passaram tambm a ser fs dela, e comearam, por conta prpria, a vigiar Paulinho nos bailes em que ela no estava.

A relao entre eles era musical. Afinal, se dizem por a que no tem como namorar o vocalista sem tambm namorar a banda, imagine ento sendo tambm cantora e participando de um trabalho em comum, como As 30 mais? Claudinha foi a bailes dos Famks, ajudou a comprar o primeiro PA do grupo, deu sof velho e geladeira para a sala de ensaio deles, fez Globo de Ouro com a banda****** e, inclusive, os convidou para o vocal do seu primeiro disco solo, Claudia Telles, de 1977, pela CBS. O grupo tambm participaria de seu trabalho seguinte, em 1978, Miragem, pela mesma gravadora, e esbarraria com a cantora em outros encontros musicais no decorrer dos anos - reforando uma amizade que se fez independente do romance dela com Paulinho.



Alm de As 30 mais, com Os Motokas, outros discos de fantasia, sem crditos e repletos de covers de sucessos, ganharam as lojas e os estdios de gravao, nos anos 1970. E em muitos deles l estavam os integrantes dos Famks. Com Marcio Antonucci, pela Continental, eles ainda fariam Os Skates, Copa 78 do Samba e The Hotcovers Band. E com Aramis Barros, ex-integrante de Os Canibais e tambm produtor musical, eles fariam Matemtica do sucesso (Os Commanders assinam o disco), Super seleo medalha de ouro internacional (grupo Os Pumas) e vrios outros LPs de coletneas pelo selo Padro e tambm pela CID.

Em 1976, por exemplo, Os Famks gravariam o disco ...Agora o Melhor. The Pops, pela Padro, com uma mulher na capa e msicas mais populares, foi um trabalho com o mesmo nome da lendria banda instrumental da Jovem Guarda, nos anos 1960, The Pops - j que Oswaldo Cadaxo, fundador da gravadora Equipe, detinha os direitos da marca. Disco tambm produzido por Aramis Barros, com canes como Travessia, Gente humilde e Palpite infeliz. Reforando a moda dos hits e das coletneas em todo o pas.



Produtor musical  um ser que respira acordes, harmonias e canes. No tem boto de pausa em sua programao, e tem um olhar apurado, para no dizer viciado, em sucessos, ou msicos que facilitem a sua vida nas produes. Por isso, quando os olhos de Marcio Antonucci caram sobre Os Famks, ele j imaginou inmeros trabalhos que eles poderiam fazer juntos, alm dos Motokas. E o primeiro, inclusive, seria dele mesmo******* - muito antes de o grupo ser cotado pelas principais estrelas da MPB, na dcada de 1980, para suas gravaes.

Desse modo, o produtor, que havia se aproximado da banda por causa de Carlos Lincoln, passou a ter motivos profissionais para t-los por perto. Chegou, inclusive, a chamar Nando para ser produtor com ele na Continental, mas o baixista no topou. Ele via potencial nos msicos e queria ver at onde eles poderiam chegar, nos estdios. E, como diriam alguns dos integrantes da banda, seria o responsvel por ensin-los a colocar o fone de ouvido... no ouvido.



- Vou comear umas produes e queria que voc fizesse os arranjos pra mim. - disse Marcio para Cleberson, na sala da Continental.

- Como assim?

- Os metais, as cordas...

- Mas, Marcio, nunca escrevi pra metal na minha vida! - respondeu Cleberson, desesperado, sem ter a menor ideia de como fazer aquilo.

At ento, ele s tinha escrito em partitura para piano.

- Eu no quero nego covarde do meu lado! Ou tu encara ou eu chamo outra pessoa!

- Puta que o pariu... - disse ele, baixinho.

E pensando: Eu preciso dessa grana, caramba... Olhando para os lados  procura de algum que pudesse ajud-lo e tentando se lembrar de referncias que ele poderia buscar.  o que eu gosto de fazer. Eu tenho que dar um jeito! Refletia o msico, enquanto j andava para fora da gravadora, na direo de sebos, lojas de discos e livrarias.

Um disco de arranjo, do pianista americano Henry Mancini, foi sua primeira aquisio. Seguido de um livro de um dos maiores compositores de orquestra, o russo Rimsky-Korsakov. P, como juntar tudo isso e fazer uma orquestra tocar?, pensava ele, sem dormir, com o disco na vitrola e o livro nas mos - para s depois trabalhar em cima das trinta canes dos Motokas. Contando ainda com a sorte que, dessa vez, ele teria apenas que copiar os acordes originais.

Nesta produo, influenciado por Marcio, ele ainda iria reger a orquestra, pela primeira vez, em sua carreira. Morrendo de vergonha por ter que fazer as caras e bocas tpicas de um maestro.



Os Famks faziam muito vocal nas gravaes de Marcio. No entanto, Fef, ao notar que Kiko tambm cantava, resolveu ficar de fora dessa parte.

O problema  que os integrantes passaram a gravar demais, sem ter tempo para ensaiar o repertrio dos bailes. E, pela primeira vez, comeariam a receber muito bem como msicos, conseguindo juntar dinheiro para trocar de equipamento. Assim, para no deixar Os Famks no prejuzo, embora Fef no participasse dos vocais, eles determinaram que 70% da renda das gravaes iria para a banda e 30% para quem havia participado - um percentual dividido igualmente. Juntando, desta forma, um dinheiro considervel para trocar o teclado do Cleberson e outros equipamentos, alm de se permitirem sonhar com um carro do ano ou uma casa prpria.



Nando voltou a cursar a faculdade de direito e a pensar em sair dos Famks nos tempos dos Motokas, por causa de seu romance com Llian. Como advogado ou juiz, teoricamente sua vida seria estvel e ele teria mais dinheiro! E quem sabe conseguiria at ser rico como a famlia dela. Isso soava bem aos seus ouvidos. No posso perder essa mulher, de jeito nenhum! Porm, como existiam bailes j marcados, ele resolveu cumprir, primeiro, os compromissos para depois tomar sua deciso final, o que aconteceu aps os shows na Regio dos Lagos.

Eram 7 horas da manh quando o baixista bateu na casa da menina, cansado de tocar, viajar pelo estado e dormir em hotis baratos - sem saber que Llian tinha acabado de voltar de Bariloche com a famlia. Uma viagem que sua me armara para aproxim-la de Jos Lus, estudante de direito e um garoto de mais futuro.

-  melhor a gente terminar - disse ela chorando, assim que avistou o baixista em sua casa, deixando Nando atordoado, com vontade de correr dali para no ter que escutar o resto.

- Mas por que Llian?

Sem sentir mais o corao quando ela comunicou, com o rosto srio e triste:

- Eu t noiva.

Llian: a terceira paixo de Nando. A terceira e ltima decepo amorosa que o fez acreditar, definitivamente, que a msica era o seu lugar.



Para a direo artstica da Continental, se os nomes dos msicos sassem na contracapa iria perder o encantamento do pblico. O disco vendia uma festa pronta, e no os msicos, por mais que Marcio Antonucci insistisse para que os nomes sassem no LP. Tanto que no se fazia show dos Motokas, para que a banda no aparecesse. s vezes a briga era tanta que, para diminuir a reclamao, saam alguns nomes perdidos na ficha tcnica, sem sobrenomes. O nome estava l, mas era impossvel reconhecer o Paulinho, por exemplo, entre tantos outros Paulinhos.

- Cleberson, vou mudar seu nome para assinar como arranjador. Os nomes dos msicos no podem sair, mas o do arranjador pode!

- Olha l, hein... E vai me chamar do qu? - perguntou ele, cismado e com receio do futuro nome.

No entanto, a resposta no demorou. Foi s Cleberson aparecer perto de Norival Reis, o Vav - engenheiro de som do estdio Hava, onde eram feitas as gravaes dos Motokas.

- Oi, Norival, tudo bem?

- , meu personagem bblico! - respondeu o tcnico para Cleberson, ao v-lo entrar com sua barba escura, enorme e malcuidada, lembrando os judeus, citados na bblia.

Com isso, Marcio deu um pulo da cadeira:

- J sei! Cleberson Arimateia!

Se referindo a Jos de Arimateia, um rico senador judeu, venerado como santo catlico no dia 31 de agosto. Um homem que carregava o nome Arimateia por ter nascido l, cidade da Judeia - e que, a partir de ento, tambm seria sobrenome de arranjador.



- Pai, parei com o ingls, no precisa pagar mais - comunicou Paulinho para seu pai, Arthur, que ficou bastante chateado com a notcia.

O vocalista estava no ltimo ano do CCAA e, embora fosse apaixonado pela lngua inglesa, no estava conseguindo ir s duas nicas aulas por semana. O curso o tinha convidado para tambm ser um de seus professores, mas Os Famks e Os Motokas exigiam muito tempo dele. Estava complicado para terminar a carga horria normal. Ou era a banda ou as aulas.

Depois foi o momento de desistir da faculdade, o que seu pai entendeu menos ainda. Ele no chegou nem a entrar em uma universidade.

- E voc acha que a msica vai te levar a algum lugar?

- Pode at no acontecer nada com a banda, pai. Mas eu quero arriscar!



Os Motokas, sem se apresentar nos clubes, venderiam durante sua histria cerca de 5 milhes de discos, com mdia de dois LPs de As 30 mais por ano. Um saa aps o Carnaval, e o outro, mirando as vendas de final de ano, por volta de outubro. E, no acordo, os msicos eram pagos apenas pelas gravaes, deixando os lucros das vendas para a companhia. O que rendeu equipamentos novos para a banda e dinheiro suficiente para rodar o Nordeste com Os Famks, como anunciou a Revista Pop, sob o ttulo Um grupo de briga:

Para enfrentar a mar, a moada dos Famks continua animando bailes, no velho estilo. Mas a meta  comprar novos equipamentos e viajar ao Paraguai,  Argentina e pelo Nordeste brasileiro, fazendo shows que j esto marcados. Em junho, eles se apresentam no teatro Tereza Rachel, que  lugar de roqueiro. O grupo  do Rio e tem Kiko na guitarra, Osmar e Paulete nos vocais, Nando no baixo, Kleberson [sic] nos teclados e Fef na bateria.  rock da pesada.

A viagem aconteceu ainda em 1976, organizada por Carlos Lincoln, vislumbrando l na frente uma banda reconhecida no pas inteiro, com dinheiro, estrutura e pblico.

- Vamos rodar o Brasil! A Amrica Latina!

Porm, a turn para o Nordeste foi um desastre. A comear pelo meio de transporte utilizado: um nibus branco, vermelho e verde, caindo aos pedaos, que ganharia dos msicos o apelido de Drago Misterioso******** - pardia da cano Pavo mysteriozo, de 1974, do compositor cearense Ednardo. E que, depois de quarenta dias na estrada, teria o saldo de mais de 6 mil quilmetros rodados e muitas peas quebradas. Ele andava 10 quilmetros, esquentava e parava, chegando com dificuldade a cidades como Salvador, Recife, Candeias e Periperi.

Os bailes, em sua maioria, ficaram vazios, j que Os Famks no eram famosos naquela regio - salvo os casos onde Carlos Lincoln se valeu de faixas como HOJE: OS FAMKS, OS MOTOKAS ORIGINAIS. E sem um cach fixo acertado, muitas vezes a banda continuou rodando pelo pas sem dinheiro. O pai do Nando mandou uma ajuda financeira, o pai do Paulinho tambm e eles se viraram como podiam - economizando nas refeies, passando fome antes de tocar e saindo dos lugares, s vezes, sem pagar. Uma turn de brigas e planejamentos furados que iriam culminar, na volta para o Rio de Janeiro, na separao dos Famks com seu empresrio.

- Temos que arriscar! Vocs no entendem! Eu t tentando levar vocs para o mundo!

- Lincoln, no  isso, mas  que desgastou...

- Nando, vocs tm que deixar os bailes! Vocs tm um potencial incrvel e...

Por mais que Lincoln argumentasse, a deciso do grupo estava tomada. A viagem s deu prejuzo, e eles no queriam mais perder dinheiro. At o montante guardado para o rgo Hammond de Cleberson tinha sido usado para reembolsar o pai de Nando. Experincias ruins ainda muito recentes na mente de todos.

Com o tempo, depois de mais velhos, a banda consideraria trabalhar novamente com Carlos Lincoln. No entanto, devido aos desencontros e outros compromissos, esse papo seria deixado de lado. Embora, hoje, Kiko diga que ele fora um dos maiores empresrios que a banda tivera em toda sua histria, e Lincoln ainda afirme ser apaixonado pelo grupo, considerando-os sua maior realizao aps 52 anos de carreira. Eu vivi Os Famks.



Notas

* Os Famks fizeram onze LPs completos de Os Motokas. E, sob a produo de Max Pierre, eles apenas cantariam na 12a edio. A 13a edio possui trinta regravaes de todos os discos.

** Osmar Santos  o mesmo vocalista que tocou com Serginho no conjunto de Lincoln Olivetti, em 1971.

*** Em 1975, Osmar assume as msicas brasileiras (fora os sambas), Marcio continua com as romnticas, tipo Antnio Marcos, Roberto Carlos e Odair Jos, e Paulinho cantaria as internacionais, de modo geral.

**** Antes do disco completo, eles lanariam um compacto simples, com as canes Rei da paz e De braos abertos.

***** Marechal Hermes da Fonseca, presidente do Brasil entre 1910 e 1914.

****** Ela se apresentou com Os Famks cantando Xanadu e uma cano do filme Grease. Dessa vez eu estava com uma roupa parecendo a Jeannie  um Gnio!, disse ela em entrevista para este livro.

******* Em 1973, na Jovem Guarda com Os Vips (Marcio & Ronald), Os Famks fizeram a base do compacto, pela Continental, com as msicas Ningum vai tomar o seu lugar e S at sbado. Tambm em 1973 gravaram No v embora e Minha cinderela; e, em 1974, Estou to s e Meu futuro  negro sem voc.

******** Acompanhe os detalhes da viagem no Drago Misterioso pelo site: www.livroroupanova.com.br



CAPTULO 11

YOUNG, RICHARD YOUNG

O Ricardo tinha uma cabea profissional que eu nunca tinha visto antes. Eu sabia do potencial dele e no queria me afastar.

Kiko

A Jovem Guarda se consolidou nos estdios da CBS, que ficava na rua Visconde do Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro, nos anos 1960. Por ali passariam nomes importantes do cenrio do novo rock, como Wanderla, Jerry Adriani, Raul Seixas, Rossini Pinto, Lafayette e Roberto Carlos. A banda favorita do todo-poderoso diretor geral da companhia, Evandro Ribeiro, Renato e seus Blue Caps, tocava nas gravaes.

Seu estdio era uma tentao aos olhos dos msicos, e muitos deles se embrenhariam nos papis do escritrio e nos LPs de outros artistas - assumindo outras funes dentro daquele universo. Como diria Erasmo Carlos sobre a produo musical dessa poca: A gente mesmo  que produzia os primeiros discos, porque ningum entendia droga nenhuma de rock. (...) A gente ficava l e, como no aparecia produtor nenhum, a gente ia tocando a coisa e daqui a pouco tava pronto o disco e tudo. Tambm, no tinha mistrio nenhum...

Assim, a CBS (atual Sony) teria em sua histria produtores como Leno - da dupla Leno e Lilian -, Raul Seixas e Renato Barros, guitarrista do conjunto Renato e seus Blue Caps. Eles povoaram ainda mais a cabea de iniciantes, como Ricardo Feghali, com devaneios e encantamentos sobre a gravadora.

Aps ter sido aprovado na faculdade de direito, ele, com seus 20 anos, no final de 1975, se sentia obrigado a frequentar algumas aulas.

Mas quem disse que prestava ateno? Ele chegava atrasado, magrinho, de cabelo nas costas, cala jeans saint-tropez e sandlia de pneu. E, com seu estilo hippie anos 1970, sentava de forma despojada, tirava o livro da bolsa e ficava olhando para frente - como fazia boa parte dos alunos. No entanto, enquanto o resto da sala se concentrava no habeas data, mandado de segurana e recurso extraordinrio, ele apenas pensava nela, na tal da msica. Arquitetando o que poderia fazer para se tornar mais prximo dos acordes, em vez dos tribunais. P, meus pais vo me encher o saco se eu no fizer uma faculdade... Como saio dessa? Sonhando entrar no estdio de uma companhia como a CBS e, quem sabe, ficar.



- Me! Jandira! V! - gritava Ricardo ao entrar em sua casa, com um sorriso de um canto a outro, como se fosse o garoto mais sortudo do mundo.

Ele deixou as mulheres da famlia atiadas para saber o que havia acontecido. Mantendo o tom de alegria, ele anunciou para as trs:

- Vou largar a faculdade de direito!

Causando espanto e o incio do que seria uma briga. Nilza j ia comear a falar:

- Mas, Ricardo...

Quando o menino a atropelou com a segunda notcia:

- Passei no Conservatrio Brasileiro de Msica pra composio e regncia!

Silncio. Por essa, as trs no esperavam. E o menino estava to contente que seria at um crime estragar tal felicidade.

Jandira foi a primeira a se manifestar, dando um abrao apertado no irmo e os parabns pela conquista. Sua v sorriu e tambm abraou o garoto. Mas a me, um pouco em choque, no conseguiu esboar reao. H dois anos, Ricardo estudava direito. E por mais que ela soubesse que ele no era um aluno exemplar, j estava contando que ele ia ao menos terminar o curso. E agora aquela?

Assim, sem saber o que fazer, como se posicionar, ela deu um beijo na testa do filho e se afastou para pensar melhor. Sem perceber que, naquele instante, no poderia fazer mais nada.



Antnio Carlos era o nome de um dos amigos de Ricardo do curso de composio e regncia. Um cantor e compositor estiloso, negro, magro, de cavanhaque, cabelo black power e cordo pendurado no pescoo. Um rapaz talentosssimo aos olhos do menino e que j tinha compactos e discos gravados em 1976.

Multi-instrumentista, ele tocaria em sua carreira cavaquinho, violo, baixo, bateria, piano, guitarra e percusso. E tinha uma levada funk soul e samba rock em suas canes. Um baiano arretado, conhecido pelo pblico atravs da msica Tamanco malandrinho, finalista do Festival Abertura, da rede Globo, naquele ano. Feita em parceria com outro baiano, magro, s que de pele clara, culos nos olhos, barba e cabelos castanhos ondulados, e que, alm de cantar, tocava violo. Um msico que se chamava Expedito Machado - nome pomposo demais para um artista. E que formaria com Antnio Carlos, ou melhor, Tom, uma dupla de respeito no meio musical.

Descoberta pelos baianos Antnio Carlos & Jocafi, a dupla Tom & Dito gravaria alguns LPs de carreira. Alm de se envolver com a produo de outros msicos, para a sorte de Ricardo - que conheceria gente interessante e frequentaria gravadoras como a famosa e lendria CBS.



- Ricardo, quer assistir a uma gravao l na CBS? - chamou Tom, na sada de uma das aulas no Conservatrio, em 1976.

- P, entrar naquele corredor l?

- , u.

- Posso mesmo? Que loucura!

E dali da avenida Graa Aranha, tambm no Centro do Rio de Janeiro, eles iriam andando at a Visconde do Rio Branco, onde ficava a CBS. De frente para o prdio da gravadora, Ricardo respirou fundo, como se no acreditasse que aquilo estava acontecendo de verdade, e, intuitivamente, baixou a cabea para cruzar a porta principal - como se estivesse fazendo uma reverncia antes de entrar em um santurio - passando por arranjadores, msicos e compositores no corredor, j presentes em sua vida atravs das canes.

Dito estava produzindo um compacto de Lilian Knapp, da dupla Leno e Lilian, com as msicas Hoje eu preciso, de autoria da intrprete, e Meu nego, de Tom & Dito. E o pianista e arranjador Edson Frederico participava como um dos msicos.

Ricardo parecia uma criana em um parque de diverses! E se beliscava o tempo inteiro para ter certeza de que aquilo no era um sonho. Queria estar l, no meio de todos eles, com fone no ouvido, vendo de pertinho o que eles estavam fazendo. E, lgico, principalmente assistir a Edson Frederico - pianista de shows de Vinicius de Moraes e Elis Regina.

Ele nem notou que outras pessoas foram se aproximando para tambm ver a gravao, e que o tcnico comeava a ficar irritado:

- Putz, t difcil de trabalhar, hein? Tem muito bico aqui dentro!

O msico, com seus 20 anos, no ouvia outras palavras que no fossem nomes de acordes ou letra das canes. E, petrificado, no viu as pessoas sendo mandadas embora para que o tcnico e os msicos pudessem trabalhar em paz. At que Tom, um pouco sem graa, bateu em seu ombro e quebrou a magia:

- Bicho, no vai dar pra ficar, no. Uma frase que iria ecoar na mente de Ricardo por meses e que o faria sair, por aquele mesmo corredor, se sentindo rejeitado, expulso, e chorando.



Julinho e Lus, que tocaram nos Panchos, eram conhecidos de Cattany & Rimadi, que precisavam de um tecladista para fazer uma demo na CBS. Uma dupla rural, no estilo S & Guarabyra, com a qual Ricardo j havia tocado em um teatro em Marechal Hermes, subrbio do Rio de Janeiro. E, em 1977, as portas da gravadora se abririam novamente para o garoto.

Cid, saxofonista do Renato e seus Blue Caps, era o produtor daquela gravao. E Ricardo se sentia honrado por estar l com seu pianinho Fender, pela primeira vez, como msico. Ele, na CBS, como tecladista! Uau! E o seu arranjo havia ficado muito bonito na cano, recebendo elogios das pessoas que estavam no estdio. Era muito bom para ser verdade! Trabalho que para ele poderia demorar uma eternidade, sem ningum roubando ou atrapalhando, dessa vez, aquela sua sensao. At que um homem magro, de cabelos lisos e castanhos, se dirige a ele, no meio de uma msica:

- Voc canta?

- Canto!

- Tem alguma msica?

E o menino que preparava uma demo de seu trabalho, desde os tempos em que tocava com Ed Maciel, mais que depressa respondeu:

- Tenho.

Ele nem sabia o que aquilo significava, at ouvir do estranho:

- Para a gravao! Deixa eu fazer um teste com ele.

O garoto arregalou o olho, sua cabea gelou, e a voz sumiu naquele instante. E, ainda meio em transe, se levantou do banco em que estava para passar a harmonia para o pessoal. Todos no estdio vibravam muito com o que estava acontecendo e, por isso, rapidamente, pegaram o que precisavam fazer para ajudar Ricardo.

- , a bateria  assim! - disse ele para um dos msicos, se preparando para colocar a voz.

Enquanto o homem, ainda estranho, s observava, sem dizer nada, deixando-o orquestrar as pessoas e os instrumentos por conta prpria. S se dirigindo ao garoto mais uma vez, aps v-lo cantar:

- Vou gravar com voc.

- Hein?

Aquele homem era Renato Barros, lder de Renato e seus Blue Caps. Um produtor gabaritado, de renome, que viu em Ricardo algo que at ento ningum tinha visto.



O brasileiro Maurcio Alberto venderia mais de 160 milhes de cpias em mais de cinquenta pases, aps estourar no Brasil com uma msica na novela Corrida do ouro, em 1974, na rede Globo. A cano era Feelings, cantada em ingls e divulgada por um pseudnimo tambm em ingls: Morris Albert. Reforando uma tendncia das gravadoras de produzir suas trilhas internacionais para novelas com msicos brasileiros, j que custava caro importar as canes! Uma produo Made in Brazil que, impulsionada pelas novelas, se tornaria moda e renderia lucros para companhias, compositores e intrpretes nacionais.

Assim, Maurcio Alberto se tornaria Morris Albert; Ivanilton de Souza seria Michael Sullivan; Jess responderia por Christie Burgh e Tony Stevens; Fbio Jr. se esconderia em Mark Davis ou Uncle Jack; Hlio Manso seria Steve Maclean; Chrystian da dupla Chrystian & Ralf faria sucesso com Dont Say Goodbye, enquanto seu irmo Ralf atenderia por Don Elliot. E para nenhum deles seria permitido revelar sua identidade.

Alm dos cantores, tambm existiam bandas estrangeiras, como Sunday, Os Pholhas, Lee Jackson ou Light Reflections (ex-Os Bruxos, que acompanhavam Ronnie Von), com o hit Tell Me Once Again. A maioria delas formada por msicos do circuito dos bailes, que no dominavam o idioma, mas que davam seu jeitinho, apelando para o enrolation tupiniquim.

E a proposta de Renato Barros para Ricardo seguia essa linha:

- Vou gravar uma msica sua com nome ingls! - disse ele, apresentando o pedao de uma composio que ele tinha, e que ganharia o arranjo de Lincoln Olivetti.

The night is coming and Im so bad

Thinking of all the things you had

It doesnt matter if it rains outside

Ill have a smoke and do anti.

Com o nome Rainy Day, a msica seria gravada na voz de Ricardo e, meses depois, se tornaria um dos sucessos do LP de trilha internacional da novela da rede Globo Locomotivas, cheia de outros gringos de mentira, assim como ele. Alm disso, a cano tambm seria lanada em um compacto da CBS, em 1977, com o vocal no lado A e apenas o instrumental no B. Ambos os discos com o novo nome de Ricardo, na etiqueta, em letras garrafais: Richard Young.



- Young?  voc mesmo meu filho?

-  me! E voc acha que eu tirei dinheiro de onde pra comprar essa TV?

Ricardo ria, enquanto colocava em cima da cmoda da sala a TV em cores que ele havia comprado com o dinheiro de Rainy Day.

Hum... Estranho isso..., pensava Nilza, com o compacto nas mos, olhando desconfiada para o filho arrumando a posio da TV.

- Esse nome no foi o que te dei! - bradou ela.

E Ricardo, achando graa, explicou:

- Eu sei... Eu vi Young escrito em algum lugar e achei que combinava com Richard!

- Voc que escolheu isso? U, voc no gosta do seu nome?

- Gosto, me... Mas fazia parte do acordo.

- Essas gravadoras...

- , e voc no pode contar pra ningum que sou eu, viu?

- No? Como assim? No posso nem contar para as minhas amigas?

- Ningum! - respondeu ele, sentando ao seu lado, aps ligar a TV.



Rainy Day se tornou parte do repertrio de Lafayette e seu Conjunto, embora alguns msicos no soubessem que o intrprete da cano j fazia parte da banda. E, nos bailes, quando ele comeava a cantar, embalando os sonhos romnticos das pessoas: Please come back, please hear me on the way, era impossvel no ouvir comentrios do pblico:

- Nossa! O cara do Lafayette canta igual!



Antes da CBS, a rotina de Ricardo contava com ensaios de bandas, bailes, e aulas de direito que seriam substitudas pelas do Conservatrio. Mas depois de sua gravao na companhia, com Rainy Day, ele passaria tambm a produzir discos de outros artistas. Tanto como contratado quanto como freelancer, posteriormente.

Desse modo, pela CBS, Richard Young produziria nomes como Cristina Tucunduva, Roberto Carlos, Lafayette, Dennis Gordon (pseudnimo de Fernando Jos) e outros artistas made in Brazil. Alm dos discos de chacundum* (LPs com msicas do Nordeste de autores diversos).

Em 1978, Richard Young gravaria mais um disco de sua autoria, com So Many Things To Say nos dois lados do compacto simples, sendo vocal no A e instrumental no B. Um dos ltimos registros do intrprete, que ainda apareceria no Globo de Ouro, interpretando Rainy Day, como se estivesse fazendo cover do tal cantor. E assinaria outros trabalhos no final da dcada de 1970 - at sumir completamente do mapa.



Enquanto isso, na casa de ensaio dos Famks, na Vila da Penha, Cleberson chegou com uma pssima notcia:

- O pai do Nando ligou. Ele no t conseguindo nem levantar da cama.

Os Famks tinham baile em So Gonalo, Clube Esportivo Mau, no final de semana seguinte. E Kiko achou que essa seria a oportunidade ideal para chamar Ricardo:

- E ele toca baixo, por acaso, Kiko? - perguntou Cleberson.

- Toca! Deixa que eu falo com ele!



- Ricardo, o Nando t doente e a gente quer que voc faa o baixo! - comunicou Kiko, no telefone, para o tecladista, que no entendeu nada.

- Mas Kiko, baixo? Tem tanto baixista por a melhor que eu. Chama o Valter Gordo! Ele toca bem pra caramba!

- No,  voc!

- Bicho, eu sei o repertrio de vocs, mas no sou baixista!

- Mas voc vai!

E Ricardo, sentindo que aquela conversa no iria progredir, decidiu arregar.

- Ai, t bom, Kiko. Eu vou.

Ponto para Kiko.



Os Famks, no final dos anos 1970, comeavam a primeira rodada dos bailes quebrando o pau, com msicas animadas e fortes, dando uma aliviada no ritmo para terminar com canes quentes mais uma vez. A segunda rodada era o momento perfeito para os meninos tirarem as meninas para danar, ao som do verdadeiro mela cueca. Msicas romnticas que inspiravam os beijos e os abraos dos jovens. E, aps umas sete msicas, as canes danantes tomavam novamente os sales, embora o pblico soubesse que seria apenas um refresco para voltar com as msicas mais lentas. Tempo para ficar de olho na moa bonita, pensar se havia gostado do beijo do rapaz, para ento armar a estratgia do prximo instante. Uma dinmica que seria mantida no baile do Clube Esportivo Mau, em So Gonalo, apesar de o tecladista ter assumido o baixo.

Hum... Eles esto se dando bem. Acho que vai dar certo!, pensou Kiko, ao ver Ricardo, de macaco preto, tirando dvidas sobre o repertrio com Cleberson. Um clima tranquilo que continuou, inclusive, no decorrer da apresentao. Era ntido que o tecladista dos Famks, que tambm tocava guitarra junto com Kiko, estava gostando da interao com Ricardo. Naquele palco despontaram sinais de uma qumica musical. O guitarrista, abusado como sempre, se sentiu  vontade at para brincar com os dois:

- , dois tecladistas d o maior p, hein?

Fazendo com que os dois rissem apenas, sem entrar em qualquer questo polmica. Voltando no minuto seguinte para fechar o baile, que ocorrera sem problemas. Na verdade, tinha sido at um baile muito bom!

No fim, a banda agradeceu o quebra-galho de Ricardo. Eles se despediram e cada um foi para o seu carro, pensando no dia de amanh e em seus afazeres. Porm, Kiko sorria sozinho e, satisfeito, s conseguia comemorar: Agora vai!



Everybody dance, do-do-do/ Clap your hands, clap your hands, dizia a msica da banda americana Chic, seguindo a tendncia disco music do momento. Cano obrigatria no repertrio de Lafayette na viso de Ricardo Feghali.

- Bicho, eu no quero tirar essa msica!

- Mas, Lafayette,  o que a moada quer ouvir!

Ricardo gostava de trazer novidades para contribuir com o desenvolvimento musical da banda. Para ele, era preciso inovar, acompanhar as tendncias para crescer ainda mais nos bailes. S que Lafayette no via dessa forma. O que desanimou o tecladista a continuar.

- Desculpe, cara, mas isso no vai levar a lugar nenhum... - disse o tecladista, desanimado, aps quase trs anos trabalhando com Lafayette.

O ano era 1978, e Ricardo, aos 22 anos, ficaria mais alguns dias at sair, oficialmente, do Lafayette e seu Conjunto, e dos ensaios do Brazilian Bitles - que, alis, neste perodo ganhava novo baterista: Serginho, ex-Super Bacana. Um tecladista ento convicto de que fazia parte de sua personalidade aquele impulso incontrolvel de se envolver.



- P, cara, hoje  aniversrio do Nando! Vamos l na casa dele? - comentou, no dia 15 de junho de 1978, o baterista Maurcio Melo com Ricardo, amigo em comum dos msicos.

E o tecladista, que vinha pensando nos papos que tivera com Kiko sobre tocar com Os Famks, se animou. Eles tm foco, tm um PA que ningum tem, so novos...  onde pode acontecer alguma coisa!

- T bom, eu vou com voc!

Ao chegar l, Ricardo foi muito bem recebido por Nando, Fef e Kiko, alm de Aldo Vaz - empresrio que entrou no lugar de Lincoln -, que entre uma cerveja e outra dizia para o tecladista:

- Daqui tu no sai mais.

E no saiu.



Nota

* Chacundum seria o primeiro ritmo ou batida que se aprende no violo.



CAPTULO 12

A SERVIO DA MSICA

O nosso objetivo  maior que o nosso orgulho.

Ricardo Feghali

- Olha isso aqui! - comentou Ricardo com Cleberson, mexendo no teclado e reproduzindo o sampler de helicptero que havia na cano Another Brick In The Wall, do Pink Floyd. Em uma poca que nem se falava em sampler.

Um som que nenhuma banda conseguiria reproduzir nos bailes, deixando uma bela interrogao na cabea dos concorrentes, o que era de praxe. Os dois tecladistas tinham formaes distintas e influncias, s vezes, opostas. E, no geral, Cleberson assumiria o piano acstico, enquanto Feghali, o eltrico. Dois msicos de personalidade forte, com o mesmo instrumento, a mesma vontade de tocar e que poderiam se estranhar de vez em quando. Porm ambos eram apaixonados por msica e gostavam de estar  frente das outras bandas. O que j era um bom comeo.



Naquela poca, os grandes nomes da msica brasileira no fretavam equipamento para tocar nos clubes, mas usavam o dos grupos que se apresentavam antes. Ficava mais barato. E foi o que Marcos Lzaro, empresrio do crooner Benito di Paula, acertou com Aldo Vaz para o baile dos Famks no Ideal Esporte Clube de Olinda - uma das primeiras apresentaes de Ricardo Feghali pela banda. O combinado era: Os Famks comeariam mais cedo e fariam um baile menor, com apenas uma rodada de msicas. Benito entraria em seguida, com o pblico j animado.

Porm, no dia do show, com Os Famks j no final de sua parte, Aldo se aproximou da beiradinha do palco e chamou Kiko, que estava na ponta.

- Continua!

- Como  que ?

- O Benito ainda no chegou.

- T, t, t... Entendi.

Esticando dessa forma a durao do baile, para ganhar tempo para Benito, que s conseguiria chegar ao Iraj no bis da segunda rodada de msicas dos Famks. At a, tudo bem. O problema foi que Luiz, funcionrio de Benito, cismou que os integrantes deveriam descer do palco no meio de uma cano quando o crooner pisou no camarim do clube.

- Vamos parar com essa merda a! - gritava Luiz nos bastidores, com o apoio do diretor do clube, enquanto Paulinho entoava Bandido, bandido, corazn..., vestido de bota marrom at o joelho, cala caf com leite de lurex, blusa prata e cinto com estrelas - caprichando na performance, em meio  gritaria do pblico, sem notar a discusso de Aldo com Luiz.

O rapaz era muito forte, e estava to nervoso que ameaava apagar todas as luzes do clube! E at Carlos Lincoln, que j no era mais o empresrio do grupo e estava l s para assistir ao show, se intrometeu na histria ao ver Aldo, sozinho, naquela situao. Ele ficou na escada que dava para o palco, impedindo a passagem do homem.

De repente, Luiz desistiu de passar por cima dele e se dirigiu para a chave geral do Ideal, onde poderia desligar tudo.

- Ah, mas ele no vai fazer isso, no! - disse Aldo, segurando o grandalho por alguns minutos, antes de ser empurrado para cima de Paulinho, que estava saindo do palco.

Um simples movimento que seria o incio de uma tragdia anunciada. Ao trombar com Aldo, no reflexo, o vocalista virou um tapa em cima de Luiz e saiu correndo para se proteger perto dos seguranas, dando uma de malandro, aps ter atiado a fera. No entanto, Luiz no quis nem saber dos seguranas e partiu para cima de Paulinho. Ningum conseguia segur-lo! E ele pegou o vocalista de jeito, batendo muito nele, enquanto o pblico curtia aquele pandemnio como se fosse um show.

- Seu filho da puta! - berrou Ricardo, pulando no pescoo de Luiz, tentando tir-lo de cima de Paulinho, dando socos no funcionrio de Benito e tomando outros, to fortes, que iriam jog-lo em cima de uma das mesas.

Cleberson, desesperado, tentava separar os dois sem tomar uns safanes, e Fef chegou a acertar um contratempo de metal pesado na cabea do cara, que no caa! Kiko voou no grandalho, depois de dar um tapa na cara dele, ficando atracado em seus ombros. E Nando com um mastro na mo, com cara de perdido, no sabia bem o que fazer. Bato ou no bato? At que o segurana tirou Kiko de cima do cara, que se aproveitou e deu uns tabefes no guitarrista.

Sorrateiramente, Lincoln pegava os microfones, enquanto Aldo tirava os fusveis dos equipamentos.

- Aqui tambm eles no vo tocar!

Desespero da equipe de Benito e do presidente do Ideal, que saiu correndo atrs dos dois, que j se dirigiam para fora do clube.

- Pelo amor de Deus! Devolvam! O que eu fao com o pblico? - implorava ele, enquanto os seguranas domavam Luiz, em cima do palco, dando fim quela luta, repleta de ossos quebrados e feridos.

E Benito? Dentro do camarim, nem percebera a baderna que ocorrera do lado de fora, s tomando conhecimento depois que tudo tinha acabado.

- Luiz, voc t demitido!

Uma noite para ser esquecida pelos Famks! De pouca msica, muita briga e um tecladista estreante de nariz quebrado.



No comeo dos Famks, Fef tocava bateria e cantava ao mesmo tempo. Mas depois, com o tempo e a nova configurao do grupo, ele passou a ficar relapso com a parte vocal e desanimado a continuar cantando. Principalmente pelas duras que tomava dos outros integrantes, que tentavam aprimorar o conjunto de vozes.

E vai tentar explicar? Fef tirava o time de campo sempre que algum reclamava. E a opo desistir passou a ser mais utilizada por ele. Em um baile em Saracuruna, por exemplo, em Duque de Caxias (RJ), jogaram moedinha no palco. E aquilo foi o suficiente para estragar a noite de Fef, que passou o baile inteiro com cara de bravo, procurando quem havia jogado.

- Para com isso, cara. Vamos tocar! - ainda tentou Nando, pedindo para ele deixar o lance da moeda para l! J sentindo que o Fernando da bateria, o Fef, que tanto havia tocado em bailes, muito antes de ele pensar em baixo, tinha chegado ao seu limite em relao  msica.



Assim como nos bailes, o debute de Ricardo no trabalho feito com Os Motokas tambm seria tumultuado - mas por um motivo bem diferente dos socos de Luiz. A srie As 30 mais, em sua dcima edio, tinha uma sequncia de Bee Gees logo na abertura, causando teso geral no estdio! Para ele, como f, tocar as canes Stayin Alive I & II, Night Fever e Emotion no era exatamente um trabalho. Estava mais para uma grande farra musical ao lado de Paulinho, Claudinha e Jane Duboc - a mais nova integrante de Os Motokas.

Jane Duboc voltou dos Estados Unidos para o Brasil em 1977 com seu marido, o guitarrista norte-americano Jay Anthony Vaquer. E, com o cabelo l na cintura, bem loira e tocando guitarra, formou o Fein Jazz Band, que s cantava msicas em ingls. A mesma cantora que, em seguida, imitaria Maria Bethnia nos covers dos Motokas a partir do dcimo disco. E estaria animadssima com Os Famks, fazendo caras e bocas na msica dos Bee Gees. s vezes a gente no olhava uns para os outros para no rir, conta ela. E o estdio se tornava baile puro naquelas gravaes, com festa de Os Motokas noite a dentro.

Osmar, como no poderia deixar de ser, j no estava mais no grupo naquele instante, e Ricardo mostrava que vinha para somar. Um tecladista criativo, com cabea de produtor e um falsete na voz que se encaixaria como uma luva no coro dos Famks. E que se tornaria relevante para a afinao das caractersticas musicais de cada um, em busca de uma unidade. Ali tinha um conjunto! Eles eram uma s alma quando tocavam. Dava pra sacar desde o incio que ia dar certo, diz Jane. So pessoas que no pesam, com quem voc fica feliz e confortvel at no silncio.



- Faa a mais linda cano de amor que puder imaginar - pediu a musa Brigitte Bardot, em 1967, para seu affaire, o compositor francs Serge Gainsbourg.

E naquela noite, ele escreveria Je taime... Moi non plus, cano cheia de gemidos e grunhidos romnticos em um dilogo ertico entre dois amantes, e que seria lanada em 1969, interpretada por Gainsbourg e pela atriz inglesa Jane Birkin, que seria sua mulher por treze anos. Um homem entre dois smbolos femininos de moda, beleza e comportamento. Uma obra condenada pelo Vaticano e proibida nos Estados Unidos, na Itlia, na Espanha e no Reino Unido, mas que seria um sucesso de pblico, nos anos 1970, pelo mundo inteiro.

- Cleberson, quero que voc faa uma msica!

- Mas eu nunca fiz nada! Nem msica pra nenm dormir!

- Tenta! - pediu Marcio, na poca diretor artstico da Tapecar, e explicou que queria uma msica no estilo Je taime.

- Hein?

- , Cleberson.  isso mesmo... Escuta!  para entrar no disco de uma dupla feminina chamada Gemini. A pedido do Manolo.

- Vocs tm cada uma... - respondeu o mineiro, j coando a cabea, encafifado com a tarefa. - Eu no vou ter que gemer, no, n?

- VOC, no... - disse ele rindo, antes de ir embora.

O compacto simples seria lanado na Blgica e no Brasil, com duas canes com gemidos e outros barulhos sensuais - com duas mulheres nuas na capa, se acariciando. E levaria o nome da dupla Gemini, que tinha feito sucesso entre 1977 e 1978 com o hit Lamour interdit, tambm seguindo a linha de Serge Gainsbourg.

Cleberson fez a parte dele, toda em cifra, e rpido; antes que o produtor pedisse mais alguma coisa estranha. E aquela seria sua primeira composio na vida! J Marcio fez a msica do outro lado do disco, acompanhado pelos Famks, com Paulinho nas castanholas.

Porm, o pedido mais difcil ainda estaria por vir e seria para outra pessoa.

- Jane, faz os gemidos do disco?

- Marcio, mas eu? Ai, meu Deus... - lamentava a cantora, a mais tmida e comportada de todas as mulheres que participavam de Os Motokas.

Uma garota doce, educada e que no falava um palavro! Como gravar aquele tipo de som na frente de todo mundo?

No comeo ela tentou. Entrou sozinha dentro do estdio, enquanto os homens todos ficaram do outro lado do aqurio assistindo. Mas quem disse que saa alguma coisa? Jane foi ficando vermelha, roxa, e no sabia se olhava para o teto, para o cho ou se escondia seu rosto dentro da blusa. At que Marcio expulsou todos da sala, dando espao para os escondidos e suplicantes gemidos das msicas Lamour ternel e I Need It virem  tona.



No sei como a gente conseguia fazer tudo aquilo. Talvez porque todo mundo fosse jovem, e jovem no tem medo de errar. Ele vai, diz Jane, se lembrando de uma rotina puxada para os integrantes dos Motokas, que batalhavam o seu lugar ao sol na msica brasileira.

Juntos ou separados, eles fizeram bailes, participaram do disco de outros intrpretes, se apresentaram em programas de TV e gravaram discos de carreira, alm de outros LPs de hit parade disfarados sob pseudnimos, como o LP Os Skates - pela Tapecar, tambm com Marcio.

Alis, assim como eles, tantos outros nomes da msica brasileira, na poca desconhecidos, participaram de LPs de fantasia, como Emlio Santiago, Rosana e Bezerra da Silva. Uma ralao que seria a base da formao profissional, musical e humana de todos eles. Jane acredita que, naquele tempo, no existia uma preocupao de ser famoso, de ser rico ou uma vaidade para aparecer no jornal ou na TV, mas uma reverncia muito grande pela msica - o suficiente para que todos esses trabalhos fossem feitos com dedicao e zelo por parte dos envolvidos. A gente se sentia como um mero trabalhador, um servidor da msica, resume Jane.



Trs diretores artsticos faziam parte da Odeon (atual EMI-Odeon) no final dos anos 1970: Renato Corra (ex-integrante dos Golden Boys), Mariozinho Rocha (ex-integrante do Grupo Manifesto) e Miguel Plopschi, ainda em atividade com Os Fevers. Eram trs casts distintos, e o de Miguel seguia a linha dos sucessos - um conceito que ele gostaria de manter em um LP dos Famks, apesar do contnuo trabalho dos Motokas na Continental.

- Quero gravar com vocs! - disse ele em 1978 para os integrantes, que ficaram na dvida sobre aceitar a proposta, considerando o histrico do produtor.

Afinal, por mais que Os Famks j estivessem tocando os hits em seus bailes, popularizar o repertrio por completo no fazia parte dos planos da banda.

- Nando, o Miguel  dos Fevers! Ele quer parar vocs, no t vendo?

- P, Lincoln, acho que voc t sendo muito maldoso...

- Ah, t, eu sei como ele tem boas intenes! - comentou Carlos Lincoln em conversa com o baixista, em busca de outras opinies.

Alis, algo que Nando e os outros integrantes fariam durante toda sua carreira: ouvir pessoas-chave em decises-chave. E, do mesmo modo, Marcio Antonucci ponderou:

-  uma faca de dois gumes. O Miguel pode estar tanto querendo um substituto dos Fevers quanto acabar com vocs. Ele  meu amigo, mas  uma raposa. Se o Miguel tiver a fim de estourar vocs, timo! Mas se quiser escond-los? Vocs esto fodidos!

As preocupaes poderiam at ter fundamento, e eles iriam considerar todos os conselhos. No entanto, a vontade de arriscar ainda seria maior.

- A gente s vai saber tentando! - diriam os msicos, aps se reunirem, pela ltima vez, para falar sobre o assunto.

Assim, em 1978, Os Famks iriam para a EMI-Odeon gravar o seu segundo disco de carreira, com doze canes.* A estreia de Ricardo Feghali em um LP da banda - que, para variar, seria agitada.



Augusto Csar, guitarrista dos Fevers, mais conhecido como Carneirinho, foi quem Miguel escalou para produzir o disco dos Famks. E sua primeira deciso para a gravao do LP j caiu como uma bomba em cima do grupo:

- Ningum vai tocar!

No fazia o menor sentido aquela frase e os msicos pediam mais explicaes em tom de revolta. Um pssimo comeo para um trabalho em conjunto.

- Calma a, gente. Vocs s vo cantar! J falei com o Lincoln Olivetti, Paulo Csar, Jobson Jorge e o Mamo. J t todo mundo contratado!

- Problema seu, descontrata - mandou Cleberson, de cara fechada.

- No mesmo - disse Carneirinho, determinado a comprar aquela discusso.

- Meu querido, voc t falando com Os Famks. E no com Os Fevers! A gente vai tocar! - falou Nando, com uma voz suave e irnica, antes de perder o prumo.

- Vocs no sabem tocar!

Para qu... Foi Carneirinho terminar a frase, com cara de provocao, para o circo pegar fogo! No dava nem para saber quem gritava ou xingava mais. Os seis msicos ficaram muito nervosos com a postura do produtor, que no cedia. E repetia sem parar que eles no tocariam - empurrando sua deciso goela abaixo da banda. At que Nando, cansado daquela baderna, apontou o dedo na cara de Augusto e apenas avisou:

- Olha s: quem vai tocar baixo no disco sou eu!

Saindo da sala ainda em tempo de ouvir os outros integrantes tomando a mesma atitude, deixando Augusto sozinho na sala. E fim de reunio.



O clima entre os Famks e Carneirinho no poderia ser pior durante a gravao, j que o produtor insistiu em manter alguns msicos no LP, colocando Mamo para fazer percusso com o Fef na bateria, e Lincoln Olivetti tocando com Cleberson e Ricardo - um total de trs teclados!

- Bicho, isso no tem nada a ver com Os Famks... - lamentou Ricardo em conversa com o grupo.

Afinal, a entrada de Lincoln Olivetti havia descaracterizado completamente o som da banda. E ele no s seria o terceiro tecladista, como tambm o arranjador do disco.

- Vou te falar... Eu entendo ele querer colocar a panela dele pra tocar.  o pessoal que ele confia, n? Mas cacete...  o lance deles, no o nosso! - disse Kiko, desanimado e triste, como todos os outros.



Depois da mixagem pronta, Ricardo levou a fita para ouvir em casa. E logo na abertura da primeira msica notou algo estranho.

- P, mas o que  isso?

E, assustado, apertou o forward do aparelho de som para ouvir um trecho mais adiante.

- Caramba, isso t errado! Eles fizeram tudo errado!

O tecladista, indignado, no podia crer naquilo. E ouviu a fita inteira para ter certeza do que eles haviam alterado. Anotou tudo o que no estava de acordo e chamou os msicos em sua casa no minuto seguinte para mostrar a fita, antes de tomar outro destino: a gravadora, onde eles iriam para cima de Carneirinho mais uma vez.



O disco, aps tantas brigas, seria remixado e lanado em 1978, com doze canes.** Tinha como carro-chefe a msica Sempre te tratei numa boa, de Ronaldo, Mani e Lincoln Olivetti, que teria uma modesta repercusso em alguns programas de TV e rdio. No repertrio, ainda estavam Voc tem que ser minha, j com a assinatura de Kiko e Nando na composio, alm de No deixe terminar e O amor que eu quero te dar, por Richard Young.

Um LP que pegava em cheio o frenesi das discotecas, com canes no estilo dance music, que se popularizou no Brasil aps o filme Nos embalos de sbado  noite, de 1977, e a novela global Dancin Days, em 1978. poca em que os jovens s queriam danar como John Travolta nas pistas quadriculadas sob o brilho de um enorme globo espelhado.

A capa do lbum foi feita na boate da moda Papagaio Disco Club, que ficava na Lagoa, no Rio de Janeiro. E todos saram elegantes, sorridentes e bonitos - em um esprito danante e festeiro de abrir as asas, soltar as feras e cair na gandaia. Embora o sentimento dos msicos quanto ao LP no fosse nada mais do que amargo.



Ricardo se aproximou muito de Nando aps entrar nos Famks. Ele se identificava com o baixista, e via nele um cara visionrio e cheio de ideias. tima companhia para futuras parcerias e criaes! E, por isso, passou a frequentar sua casa no Rio de Janeiro, alm de viajar com a famlia de Nando para outros lugares - independente de tocar com a banda. Porm, nunca pensou que um final de semana em So Pedro DAldeia, com seu scio, pudesse significar tanto em sua vida. Um breve e simples final de semana naquele ano de 1978.

O tecladista estava curtindo a sua solteirice, aps terminar o noivado de um ano com uma namorada. E no queria saber de outra coisa a no ser galinhar. Solto no mundo, ele saa com uma menina diferente a cada semana e foi para So Pedro DAldeia com o mesmo pique. Tanto que mal chegou e j marcou um encontro com uma moa na pracinha da cidade.

- Esse clima de So Pedro  muito bom, n? - disse Maria Cristina, a Tininha, irm mais nova de Nando, para Ricardo, que calava o tnis para encontrar a tal garota.

Mas ao ouvir o comentrio de Tininha, ele resolveu deixar o tnis encostado ao seu lado, enquanto se sentava perto dela.

- No preciso de mais nada na vida...

E ela continuou o papo, apoiada perto da varanda, olhando para fora, admirando a paisagem serena e buclica do lugar.

E eles foram conversando, conversando, sem pressa ou compromisso. Apenas curtindo a presena do outro e a brisa que vinha do mar de So Pedro DAldeia. Engraado, eu nunca tinha notado ela, pensou Ricardo. J Tininha evitava olhar demais para os olhos dele. Ficaram ali por horas, sem ver o tempo passar. At que ela recordou:

- Voc no estava saindo?

E ele, j jogando o tnis para longe, afirmou:

- Eu? Nada... Impresso sua! Eu no vou a lugar nenhum.

Meses depois, ainda em 1978, eles comeariam a namorar - sem qualquer intromisso ou objeo de Nando, que desde o episdio com Ins decidira se afastar dos assuntos das irms.

Com Tininha, Ricardo se casaria em 1981 e compraria seu primeiro apartamento com o dinheiro dos bailes. Com ela, teria dois filhos no futuro: a menina Carolina, que teria os traos do pai e uma voz linda; e Thiago, que lembraria a famlia da me e seria apaixonado por bateria. Uma mulher importante para o tecladista e que estaria sempre ao seu lado, como a msica.



Fazia tempos que Fef, desestimulado pelas dificuldades da carreira de msico, no era mais o mesmo nas apresentaes dos Famks. Tocando sem interesse, sem paixo ou motivao para dar o melhor de si, deixando a desejar no palco e, s vezes, at comprometendo o baile. O que, para os integrantes, foi criando uma situao insuportvel de se sustentar. At chegar ao ponto de: ou ele saa, ou seria o fim do grupo.

- Bicho, vamos marcar de conversar com ele? Pode ser l na Cabana da Serra - sugeriu Ricardo para Nando, os dois integrantes que iriam tomar a frente nesse caso.

O papo foi marcado na mesma semana, no local indicado pelo tecladista, que ficava na estrada Graja, em Jacarepagu, no Rio de Janeiro. Nando e Ricardo chegaram pontualmente, avistando Fef passar pelo batente da porta.

- E a, gente? - disse o baterista, srio, sentando com o corpo meio virado, sem olhar diretamente para os dois, como se j soubesse o que aconteceria naquela noite. E continuou, falando para o garom: - Voc me v uma cerveja?

Nando e Ricardo se entreolhavam, como se dissessem Quem vai comear?. Estavam mudos, apagados e at com um pouco de vergonha. Porm, quem teve a iniciativa foi o prprio Fef.

- Eu quero falar com vocs... - disse ele, apertando as mos apoiadas na mesa, sem dar chance para ser interrompido. - Eu quero parar!

Surpreendendo Nando e Ricardo, que j no sabiam nem mais o que falar. Todo o discurso planejado havia cado por terra. E Fef parecia, inclusive, mais firme que eles.

- Isso no vai dar em lugar nenhum! Vamos ficar tocando em bailes at quando? No nasci pra isso, no. No mesmo.

Sem se estender muito ou tomar outras tantas cervejas, Fef entrou naquele dia na Cabana da Serra com um propsito, e no jogaria conversa fora com os dois depois daquilo. J era doloroso demais s ouvir estas palavras saindo de sua boca. Assim, ele fechou para sempre o captulo Os Famks de sua vida.

- A gente vai te pagar tudo o que voc investiu na banda, t? - disse Nando, em tom de despedida para Fef, o primeiro integrante dos Famks a dizer: Deixa o cara tocar do jeito dele!

- Tudo bem. Vai no seu tempo - respondeu Fef para o mesmo baixista com quem havia feito, no passado, uma gig sensacional no Mackenzie.

Foi embora logo depois, sem olhar para trs.

- Foi melhor, n? - perguntou Nando, aps acompanhar com os olhos o caminho de Fef at a porta.

- Foi, cara, foi - disse Ricardo, j com um nome na cabea sobre quem poderia fazer parte dos Famks no lugar de Fef.

Era um msico de qualidade, que ele j tinha visto em outras bandas e que tinha comeado a tocar desde cedo. Ele talvez fosse a pea que faltava para o grupo engrenar realmente. Um certo baterista que havia tocado com a Bolha, acompanhando o Erasmo Carlos, e que atendia pelo apelido de Serginho.



Notas

* O primeiro disco de carreira dos Famks foi gravado em 1974 pela Continental - os outros LPs foram apenas compactos.

** Primeiro seria lanado um compacto simples com as msicas Sempre te tratei numa boa e No deixe terminar.



CAPTULO 13

O ESTOURO DA BOLHA

Serginho sempre foi um tremendo msico. Ele se adaptou que nem uma luva na banda.

Renato Ladeira

Os tropicalistas apresentaram a bandeira de Hlio Oiticica Seja marginal, Seja heri em show na boate Sucata, em novembro de 1968, no Rio de Janeiro. Entre os envolvidos, Gal Costa fazia uma apresentao marcante com as levadas e o peso da banda The Bubbles - grupo que seguia influncias de Jimi Hendrix, The Rolling Stones, Led Zeppelin, Grand Funk Railroad etc. Msicos cheios de postura em um evento polmico e antolgico, que levaria  priso posterior de Caetano Veloso e Gilberto Gil. E esta seria a primeira lembrana de Erasmo Carlos ao escutar a sugesto do produtor Carlos Alberto Sion sobre um grupo para acompanh-lo, em 1976:

- Tem uma banda ideal pra trabalhar com voc! Voc conhece A Bolha, os antigos The Bubbles, n? Eles so roqueiros, esto com formao nova e adoram voc. Que tal?

Erasmo estava sem banda e Sion, com toda a vontade de fazer uma curta temporada no Museu de Arte Moderna - que se mostrava como o novo point carioca. A Bolha seria a soluo e, por isso, Sion esperava a resposta de Erasmo como criana ansiosa aguardando a aprovao dos pais sobre um presente.

A sorte  que as recordaes do Tremendo eram timas sobre o conjunto. Por isso, marcou um ensaio na Polygram com a nova Bolha: Marcelo Sussekind e Pedrinho Lima nas guitarras, Lincoln Bittencourt no baixo, Rubinho Barra nos teclados e Srgio Herval na bateria.



Para evitar que a banda fosse crua para o encontro com o Erasmo, o repertrio do show foi passado para os msicos dias antes. E qual no foi a surpresa do Tremendo ao encontrar tudo em cima j no primeiro ensaio: as viradas corretas, o tom perfeito, os acordes precisos - algo maravilhoso para seus ouvidos. P, que banda! Gostei! Som pesado..., pensava ele ao assistir aos integrantes da Bolha, que mastigaram o disco dele, tocando as canes iguais s originais! Isso deixou o intrprete em uma alegria s, dizendo sem parar que aquele j podia ser o show.

Tiro certo de Carlos Sion, que tambm sorria com gosto pelo imediato entrosamento entre eles. O profissionalismo da Bolha e seu som pesado encantavam Erasmo; que, por sua vez, se jogava nos embalos daquele rocknroll, empolgando ainda mais os msicos. Era um ciclo sem fim, de muita adrenalina e boas vibraes de um casamento musical promissor.



Caramba, mas ele sabe tudo! E  um menino!, pensava alto Erasmo ao observar o baterista, um garoto de 18 anos e que era o ponto de apoio da banda nos ensaios.

Se um dos outros integrantes tivesse alguma dvida, l ia Serginho com o violo mostrar como era para ser feito, depois pegava o baixo para explicar a marcao e voltava para a bateria, pronto para passar a msica. Era um movimento natural dos outros componentes da Bolha procur-lo e, atento, Erasmo percebia a grande musicalidade do garoto.

- T de sacanagem que ele ainda canta na bateria? - deixou escapar, rindo, o Tremendo, como se pensasse: No  possvel que eu t vendo isso!

Serginho fazia a voz principal enquanto tocava, na passagem de som, de maneira to espontnea como se aquilo no lhe exigisse qualquer esforo. Aquele era o diferencial do vocalista que passou a levar o repertrio inteiro da Bolha, aps a sada de Renato Ladeira, um dos fundadores do grupo original. O garoto era realmente um espanto, considerando a idade e a capacidade de fazer bem as duas coisas ao mesmo tempo. Dedicao, coordenao motora e talento que saltavam aos olhos de Erasmo, que respeitou e admirou o msico desde o incio.

Baterista cantor ou cantor baterista  um negcio que quase no se v no mundo, devido  dificuldade das duas aes simultneas. Tem at msico que sabe fazer, mas prefere tocar ou cantar para atuar melhor em uma das funes. Ou faz apenas o backing vocal quando utiliza as baquetas. Naquela poca, ento, era mais raro ainda encontrar esse tipo de profissional, como Phil Collins (Genesis), Roger Taylor (Queen), Karen Carpenter (The Carpenters), Don Henley (Eagles), Peter Hoorelbeke (Rare Earth), Don Brewer (Grand Funk Railroad) e Gil Moore (Triumph). Ah, sim, alm de Serginho, que ainda era s um menino.



Everson Dias no cuidava mais da bateria do Serginho devido a seus compromissos profissionais, e quem melhor do que seu Z, sargento e pai mais que zeloso, para reassumir essa funo? Os componentes da Bolha acharam at meio engraado, no incio, essa coisa do pai do baterista trat-lo como um rei, montar o instrumento inteiro e limpar cada pecinha da destemida Pinguim, poupando o filho de esforos maiores. Afinal, no  algo que se encontre por a todo dia, principalmente em um ambiente masculino e de rock, como era o da banda. Mas nem por isso seu Z ficava acanhado. Com ele por perto, Serginho poderia se dedicar completamente aos estudos e ao desenvolvimento da carreira, sem se preocupar com instrumentos e outros pormenores. Isso era o que lhe interessava. Seu Z era gente simples e, com um sorriso, costumava levar na boa as brincadeiras, a ponto de se tornar uma pessoa querida e folclrica entre eles.

- A minha luva vai deixar os pratos mais limpos!

- Que coisa boa! Obrigado - respondia o sargento a Bimbo, iluminador da Bolha, sem tirar o olho da bateria que ele lustrava mil vezes at se convencer de que estava um brinco.

Um ritual que ele fazia com calma e concentrao, sem estresse. E o iluminador que ficasse esperto! Seu Z sabia que Bimbo gostava de inventar efeitos e exploses durante as apresentaes, e passou a vigi-lo de longe, discretamente. Dava broncas homricas entre um show e outro ao v-lo mexer em seus vidrinhos coloridos, conta-gotas e no famoso preto velho.

- , Bimbo, bota essa plvora pra l! Assim voc queima meu filho e explode a bateria!



A Bolha caiu na estrada com Erasmo e fez inmeros shows no Rio de Janeiro e nas regies Norte e Nordeste do Brasil, s vezes emendando um evento no outro. Tudo graas ao trabalho de Pala - da produtora A Quadrilha de Rock -, que se juntou  trupe. Um empresrio roqueiro, careca, que s andava de roupa de couro preta, com botas pretas por causa de sua alopecia - doena que reduz os pelos do corpo - fizesse chuva ou um sol escaldante.

Em uma dessas ocasies, a banda teve que sair da Zona Sul, de um colgio de freiras onde o show terminaria cedo, para Bonsucesso, onde o som comearia tarde. Nunca tinha menos de 10 mil pessoas naquelas apresentaes, e Erasmo, para fazer uma mdia com o seu Z, resolveu dar uma tarefa para ele, no estacionamento da escola, antes dos carros partirem:

- Seu Z, por favor, organize a caravana! O senhor  militar e sabe chefiar uma misso! Precisamos chegar com segurana ao destino! O senhor  o nosso guia e confio em voc!

No que foi imediatamente atendido por um sargento de prontido:

- Pode deixar comigo! Meninos, ateno! Vamos acertar nossos relgios e manter a mdia de velocidade para ningum se perder. Sigam pela avenida Brasil at Bonsucesso e parem na praa das Naes para nos reorganizarmos e chegarmos todos juntos.

Seu Z, como j supunha Erasmo, assumiu a responsabilidade como se fosse a coisa mais importante da vida, e todos chegaram sos e salvos em Bonsucesso.



Autodidata, Serginho arriscou estudar no Conservatrio Villa Lobos em 1976, enquanto tocava na Bolha. O msico no lia nada de partitura de bateria e decorava as canes nas passagens com a banda. Por isso, estava empolgado no incio, ansioso para ter aula com Bituca* e aprimorar seus conhecimentos. Mas, j nas primeiras semanas, no conseguiu acompanhar as aulas de tmpano por causa das viagens com Erasmo e descobriu que era preciso trs anos para estar na sala do famoso msico. Conseguiu assistir apenas a uma aula de solfejo antes de partir para uma turn de vinte e poucos dias pelo Norte e Nordeste e, ao voltar, encontrou sua turma de iniciantes, que nunca havia segurado uma baqueta, lendo e escrevendo partitura. Foi quando recebeu o ultimato sincero do seu professor:

- Ou voc volta para a turma inicial ou segue sua vida, j que  msico profissional, e estuda aos poucos, quando tiver tempo. Uma coisa ou outra!

A outra.



Em uma das viagens para outros estados, no teve passagem disponvel para seu Z acompanhar o filho, e como dizer isso para ele? Eu nunca esqueci a carinha dele de decepo por no poder ir. E aposto que ele no pensou: Ah, que pena que eu no vou passear. Mas sim: O que ser do Serginho sem mim?, relembra Erasmo sobre a grande dedicao de pai para filho.

Para seu Z, no tinha tempo ruim: se o baterista precisasse, estaria ali para atender. Era um multitarefa, se passando por roadie, motorista, secretrio, garom, alm, claro, de pai. E quando o show estava rolando, ficava vidrado em Serginho para dar conta de todos os aspectos. Em alguns lugares em que eles tocavam, por exemplo, o palco no era dos melhores. E se o praticvel casse? Seu Z corria para ajeitar a bateria feito um louco. Naquelas horas, o pai saa de cena para a entrada do profissional, e a relao era sria entre os dois. s vezes, no desespero, Serginho berrava da bateria pedindo as coisas e seu Z voava - mais eficiente do que qualquer outro roadie poderia ser.



- Quer fazer um negcio?

E que negcio! Seu Z estava oferecendo para Erasmo a bateria do Serginho, que havia dado tantas alegrias para A Bolha e que estava prestes a ser substituda: a valente Pinguim. O que, diga-se de passagem, seria um fabuloso presente para Gil Eduardo, o filho do Tremendo, que completava 14 anos e se iniciava como baterista. Proposta irrecusvel para Erasmo, e a grana que faltava para seu Z ir para o Paraguai em busca da primeira bateria importada do filho: uma pomposa e invejvel Roger.



Em 1977, Erasmo e sua banda fizeram uma homenagem a Elvis Presley, no especial natalino de Roberto Carlos. Mesmo ano em que A Bolha lanou seu segundo disco:  proibido fumar, pela Polydor. O ttulo vinha da cano, tambm presente no lbum, de Roberto e Erasmo Carlos - demonstrando claramente a tendncia musical seguida pelos integrantes no projeto. E, para a capa, foram fotografados Sussekind, Pedrinho, Lincoln e Serginho, debruados em uma mesa de sinuca, mirando na mesma bola branca.

Rubinho no estava mais no conjunto para a gravao desse trabalho, Constant Papineanu assumiu os teclados como participao especial e Erasmo contribuiu nesse LP com Considerao, msica feita a pedido da banda, que se juntaria a outras composies da Bolha e alguns velhos rocks da Jovem Guarda.

Dias depois da gravao do disco, Renato Ladeira voltaria a fazer parte da trupe, e passaria a dividir os vocais das msicas com Serginho. Eu costumo dizer que gostava mais dele tocando bateria na Bolha do que no Roupa Nova, talvez por causa do repertrio, Ladeira hoje.

E aquele seria um dos ltimos momentos da parceria com o Tremendo, que duraria at 1978, ano em que A Bolha ainda gravaria a faixa A terceira fora, do LP Pelas esquinas de Ipanema, de Erasmo.



Foi ouvindo a banda King Crimson, com canes de pessoas paranoicas e excludas da sociedade, que Renato Ladeira fez em casa Um homem louco, msica que passou a ensaiar com A Bolha sem nunca toc-la ao vivo.

O homem louco aparece

E quebra o silncio da sala

Por tempos viveu afastado

Desta cena onde a arma  a fala

Ele espera um dia saber

E um dia saber esperar

Porm, nos anos 1980, outro grupo nacional olharia para ela de outra maneira.



Um dia, Pala ligou para Erasmo, dizendo que estava indo para o Esprito Santo. Erasmo no sabia que aquela seria a ltima vez que ouviria a voz da empresria. Na viagem, Pala dormiria no volante e perderia a vida antes mesmo de chegar l. Uma tragdia que abalaria no s o emocional do Tremendo e dos msicos da Bolha, como tambm sua prpria estrutura.

A irm de Pala ainda finalizaria o que j havia sido encaminhado por ele, como trs shows j marcados para o roqueiro. E Erasmo ainda chegaria a pagar A Bolha com o dinheiro de seu prprio bolso. Uma dvida que s iria se acumulando com o tempo, e desgastaria o relacionamento - desanimando todos os envolvidos a continuar.

Foram praticamente dois anos de puro rocknroll entre Erasmo e A Bolha at o elo se romper. Um perodo que deixaria agradveis recordaes e saudades, conforme escreveu o Tremendo em seu livro Minha fama de mau: A Bolha carimbou a minha vida e foram dois anos maravilhosos de muito trabalho e dedicao, risos de alegrias, ensinamentos, aprendizados, companheirismo e amor. Mas, depois da morte de Pala, as coisas naturalmente esfriariam entre eles, gerando um desestmulo geral, e pior: o fim, o estouro e a exploso final de A Bolha.



Com o fim do trabalho com Erasmo Carlos e da prpria Bolha, cada um dos msicos seguiu seu caminho. E Serginho, cansado de morrer na praia com as bandas, decidiu tentar carreira solo. O baterista havia gravado um compacto simples para Erasmo na RCA junto com o grupo - e foi de l que recebeu um convite para fazer um compacto, cantando e tocando guitarra.

- Voc vai ser o nosso Peter Frampton brasileiro! - comentou o produtor Hugo Bellard.

Este seria responsvel pela gravao do compacto simples, com as msicas Meu pensamento  voc e Uma noite na discoteca. A primeira cano seria tambm includa na novela Pecado Rasgado, da TV Globo, e no filme Sbado alucinante, dirigido por Cludio Cunha.

O msico, assinando como Serginho, comeou a ser mais visto pelo pblico, e inclusive gravou outros trabalhos com Hugo Bellard na RCA, como o LP da atriz Elizngela com a msica Pertinho de voc - que se transformaria no compacto simples mais vendido da histria da msica brasileira com mais de um milho de cpias vendidas. No entanto, depois de vrias exigncias e regras declaradas pela gravadora e, principalmente, aps um certo telefonema, o baterista daria um passo para trs, dando fim  carreira solo mais relmpago de que se tem notcia.



- Al!

- Oi. Serginho? Aqui  o Nando dos Famks, tudo bom?

- Tudo bem, cara.

- T ligando para te chamar pra tocar com a gente. Vamos?

- Mas pra a... Vocs esto pensando em colocar duas baterias?

- Hein, duas baterias?

- , u. No  o Fef falando?

- No, Serginho. Aqui  o Luiz Fernando, baixista.

- Ai, desculpa. Confundi tudo.

- P, Fef t saindo e voc conhece a banda, n? Vem tocar com a gente?

- Hum... Infelizmente, no vai rolar, no, cara. T tentando carreira solo e no vai dar.

O papo prosseguiu e, minutos depois, Nando, decepcionado, desligou o telefone:

- T bom. Valeu.

Mas Ricardo, que estava do lado de Nando, no sossegou com a resposta.

- Como assim ele no topou?

- No topou, u!

- Mas ele  O cara pra Os Famks!

- Ento avisa isso pra ele...

- Nando, liga de novo!

- Que  isso, cara? Ele acabou de...

- Liga de novo, por favor? Liga!

- , Ricardo!

- Anda, Nando, liga! - disse o tecladista, cutucando o cotovelo dele para que Nando pegasse o telefone novamente.

- T bom, t bom, t bom. Ele vai achar que eu sou maluco - comentou o baixista, j discando os nmeros.

- Tudo bem - respondeu Ricardo, sorrindo, enquanto o telefone tocava na casa de Serginho.

- Al!

- Serginho?  o Nando de novo.

- Oi...

- Porra, cara, vamos tocar com a gente!

Serginho estava tentado a aceitar, mas queria pensar melhor sobre a questo. Gostava de tocar em bandas, mas as brigas  toa enchiam o saco!

- Nando, sabe o que ,...

- Ah, bicho, na boa, carreira solo?

-  e...

- Vamos? Topa entrar nos Famks?

Nunca se sabe exatamente o futuro de uma deciso tomada e qual a hora certa de agir para garantir que nossos sonhos e desejos sejam realizados. O ser humano vai, por instinto, jogando com as possibilidades, de acordo com o que pensa e sente. E s vezes, por causa de um medo, receio, insegurana ou tolice, deixa escapar pequenas oportunidades que poderiam significar grandes feitos depois. Ficando apenas na mente aquele sim que no veio por falta de ateno s mudanas da vida.

Serginho estava atento naquele dia de dezembro de 1978, e deu a resposta que achava ser condizente com o seu corao. Sem saber o quanto ainda representaria aquele convite.



Se Serginho fosse supersticioso, talvez tivesse visto como mau agouro seu carro enguiar no trecho Niteri-Manilha, na volta para casa de seu primeiro baile com Os Famks. E com certeza teria voltado para sua carreira solo, aps os novos desentendimentos que haveria com a gravadora Odeon depois de sua chegada - se ele no tivesse gostado tanto da ideia de tocar com Os Famks.

- A msica se chama Cadaro de ao - disse Miguel para os msicos, ao lado de Ribamar, assistente de direo musical.

- Cadaro de ao? Esse nome parece at...

-  isso mesmo, Ricardo.  uma brincadeira.  de duplo sentido.

Silncio dos integrantes, que faziam cara feia para aquela ideia, at Nando falar:

- Hum... A gente no quer gravar isso, no.

- Mas a gente pensou em fazer o disco inteiro assim!

- Pior ainda, Miguel! - disse Kiko, visivelmente irritado.

E assim teve incio outra rodada de discusses com a gravadora, sem levar a lugar nenhum. O motivo que faltava para a Odeon deixar Os Famks na geladeira.

- Caramba, cara! Tudo tem que ser sangrando! - comentaria Kiko, na sada da companhia, com os msicos.

Todos tristes e aborrecidos, j perdendo as esperanas em um futuro para Os Famks na Odeon. No daquele jeito.

E isso aconteceu no ano de 1979. Prestes a entrar na dcada de 1980! Uma poca que, contradizendo todos os sentimentos, traria para a banda um novo nome e novos ares. E que marcaria a carreira daqueles seis msicos a ferro e fogo. Uma dcada que, definitivamente, seria tudo para eles - menos perdida.



Nota

* Edgard Nunes Rocca - baterista que tocou durante anos na orquestra da TV Globo.



CAPTULO 14

MARIOZINHO BOTOU A ROCHA NO NOME

Apesar dos bailes, no havia uma identidade artstica como Famks. Eles trabalhavam mais como msicos do que como um grupo em si.

Mariozinho Rocha

O tempo: 1976. O espao: teatro Joo Caetano, Rio de Janeiro. O show: divulgao do lbum Casa encantada. O grupo: O Tero, formado por Flvio Venturini (teclado), Srgio Hinds (guitarra), Luis Moreno (bateria) e Srgio Magro (baixo). A banda havia acabado de lanar seu quarto disco, aps o sucesso do LP Criaturas da noite (1975), mantendo a mesma linha de rock progressivo, msicas instrumentais, vocais apuradssimos e a influncia definitiva do rock rural.

Tudo se encaixava em harmonia naquele disco: as faixas iniciais Flor de La Noche e Luz de vela, com a voz solo do percussionista Luis Moreno. A msica de Flvio Venturini com o arranjo de cordas de Rogrio Duprat em Sentinela do abismo, Csar das Mercs como flautista em Casa encantada e a poesia da faixa final Pssaro - novo ttulo de Um cantador - composta para o disco Terra (1973), do trio S, Rodrix & Guarabyra - censurada pelo Regime Militar.

Um tocador de violo

no pode cantar, prosseguir

quando lhe acusam de estar mentindo

Quer virar pssaro e rolar no ar, no ar

Quer virar pssaro e sumir

O Tero estava entregue nas canes. Era como se fosse uma viagem em conjunto, entre amigos. Flvio, ao cantar, sorria de lado para Hinds, como se fosse o sinal para a guitarra entrar rasgando. E o baixo de Magro era preciso e encorpado, enquanto Moreno destrua na bateria. O pblico no respirava enquanto o solo dos instrumentos no terminava. E eles estavam entrosados, inspirados, felizes ao passar isso para outras pessoas. Dava para notar. E, at hoje, este lbum  considerado pela crtica como um dos melhores discos do grupo.

Na plateia, Nando e Kiko assistiam a tudo de perto, encantados com o trabalho que estava sendo feito. O Tero tinha sua identidade prpria, trazia um algo de novo com msicas criadas por eles mesmos e um qu maravilhoso de independncia. No era  toa que os dois estavam com os olhos cheios de lgrimas ao presenciar tudo aquilo.



Richard Young ainda produziria alguns discos aps sua entrada nos Famks. E, em 1978, seria a vez de Lafayette interpretar Roberto Carlos - um disco com onze msicas, entre elas Caf da manh, Lady Laura e Fora estranha, gravado no estdio Hava com seus dezesseis canais. O lbum faria verses de um trabalho do Rei que ainda nem tinha ido para as lojas, de modo que, para as gravaes, o sigilo era fundamental. Eduardo Souto Neto e Lincoln Olivetti dividiriam o arranjo e a regncia das msicas, enquanto Os Famks fariam a base.

Para cada um dos participantes foi entregue uma fita K7, com o disco homnimo de Roberto Carlos, que seria lanado tambm pela CBS naquele ano. Cuidado! Ningum pode ouvir essa fita!, era o aviso repetido com insistncia por Lafayette. Afinal, o Rei j era O Rei naquela poca. S que nenhum dos msicos quis se aproveitar dessa circunstncia. O que importava era o trabalho que seria feito com Lafayette. Mal sabiam eles que aquela fitinha que tinham em mos, ao sair em disco, seria um sucesso com mais de um milho e meio de cpias vendidas.

Eduardo Souto Neto no conhecia aquela banda que iria fazer a base. At lembrava que, uns trs anos antes, Marcio Antonucci havia lhe pedido para gravar a sua msica Olha eu no disco de um grupo de baile. Inclusive, havia feito o arranjo de cordas para o disco deles, mas nada que despertasse sua ateno.

Naquela poca, ele tinha uma rotina de doze, catorze horas por dia em estdio, gravando com os mais variados artistas, alm dos jingles comerciais. Era natural que no se lembrasse dos Famks como msicos. Afinal, saber o nome  uma coisa, tocar junto  outra - o que, at ento, no havia acontecido.

Estava acostumado com a turma do Paulinho Braga, Luizo Maia, Jamil Joanes... E agora Famks? Alis, que nome era aquele? Quem eram? O que queriam? Esse negcio de tocar parece simples, mas requer afinidade. Para no dizer intimidade. Como msico, ele tinha receios, e muitos! Mas, enfim... Era melhor deixar a insegurana de lado. Lafayette deveria saber o que estava fazendo e dizia com veemncia:

- No precisa perder tempo com as bases! Os caras j esto tirando a levada. Eduardinho, se preocupe mais em escrever a orquestra.

E foi o que aconteceu at o dia da gravao. Quer dizer, no comeo ele preferiu v-los tocar um pouco sozinhos. Queria sentir segurana, ter certeza de onde estava pisando. O maestro estava com a regncia pronta, mas o seu lado msico precisava de conforto.

Na primeira passagem, Eduardo ficou mais calmo e no conseguiu fazer outro comentrio. A tal banda era, realmente, muito boa. No s pela qualidade sonora, mas tambm pela harmonia entre eles. E melhor: os msicos eram timos! Tranquilos, competentes e engraados nas horas vagas, sem comprometer a seriedade do trabalho. Como no rir do Kiko com as suas gracinhas no decorrer da gravao? E Paulinho com as piadas, imitando os personagens do Chico Anysio entre um vocal e outro? Nando com aquele sorriso fcil, Feghali j com toda a elegncia de falar de um produtor, Cleberson com a timidez digna de um mineiro, mas inseres certeiras na conversa do grupo. E Serginho com aquela cara de moleque? Era de se espantar. Eles eram to bons que tinha tempo de sobra para relaxar e conhecer melhor aquelas pessoas. E pode-se dizer que ali foi o comeo no s de futuras e inmeras parcerias, como de uma bela amizade.



O tempo que se passava no elevador ou no consultrio mdico era a oportunidade para se ouvir as poucas FMs que existiam no Brasil no final dos anos 1960. Enquanto esse formato estava mais difundido no exterior, aqui era conhecido por transmitir o chamado muzak - msica ambiente, orquestrada, suave e leve, sem qualquer comunicao atravs deste meio. Os prprios empresrios de radiodifuso viam as FMs como economicamente inviveis, e no se preocupavam em estimular os fabricantes a inserir essa banda nos aparelhos. Se voc queria escutar msica com qualidade, sintonizasse nas rdios AMs como a Tamoio, de formato prximo ao das FMs contemporneas de hoje, ou ento a Mundial, em que maneiro era ouvir o DJ Big Boy, com os bailes nos clubes do subrbio, mixagens ao vivo e locuo original.

Nos anos 1970, o cenrio mudou. Sobretudo a partir do dia 1o de maio de 1977, quando entrou no ar, pelo Sistema JB, no Rio de Janeiro, a rdio Cidade - com uma proposta totalmente inovadora para uma FM. A emissora de frequncia 102,9 tinha como carro-chefe a sua equipe de locutores, que brincavam entre si e com o pblico, deixando a programao mais atrativa. A passagem de horrio entre um locutor e outro era motivo de interesse e boas gargalhadas do ouvinte, que passou a ligar o rdio s para ouvir frases como Diga-me l, conte-me tudo e no me esconda nada, de Fernando Mansur, ou a briga do sapo Eustquio, personagem de Eldio Sandoval, e o macaco Chucrute P-na-Lata, de Romilson. A emissora virou febre entre os jovens, at porque transmitia msica em estreo, diferente da AM, e apresentava uma seleo musical revolucionria. Pblico que acabou atraindo anunciantes, dinheiro, investimentos e, com o tempo, outras rdios como essa pelo Brasil afora.



- Por que vocs no retomam o antigo nome? A Cor do Som?  um nome bonito, tem poesia - disse o padrinho Caetano Veloso para Dadi, que tinha tocado nos Novos Baianos e acompanhado Moraes Moreira.

Porm, dessa vez, Dadi queria ter sua prpria banda, com seu irmo M, Armandinho - filho de Osmar, do trio eltrico Dod e Osmar - e Gustavo, que teve passagem pela Bolha. Era o incio de A Cor do Som, de nome inspirado em uma cano de Moraes e Galvo. E isso foi em 1977, mesmo ano de surgimento da rdio Cidade.

Formada por uma garotada entre 20 e 27 anos e com influncias do rock ingls e uma pitada baiana, a banda lanaria um LP instrumental naquele mesmo ano e outro em 1978. Porm, seria em 1979, com o lbum Frutificar que o grupo resolveria cantar. E a cano Beleza pura seria um sucesso de vendas e execues da rdio Cidade - FM do momento. Receberia inclusive, pelos leitores da Playboy, o ttulo de o melhor conjunto vocal/instrumental do ano.

Assim, seguindo as tendncias do Rio de Janeiro, a rdio Cidade os convidou para tocar a mensagem de aniversrio da emissora, em maro de 1979, com produo de Guti Carvalho - primo de Dadi e M. Tudo indicava que to cedo no existiria banda para tomar o lugar deles na 102,9, com seu pblico jovem, barulhento e danante.



Um tiro certeiro da rdio Cidade e que virou moda foi o uso de mensagens de final de ano, nas quais os locutores cantavam. A primeira veio de uma maneira displicente para o Natal de 1977, em uma brincadeira de Sandoval e Romilson Luiz. A msica foi gravada nos estdios da Cidade, em um piano Bsendorfer da rdio JB, e todos cantaram. Depois veio, em 1978, a mensagem de Ano-Novo, no mesmo estilo. Em 1979, no entanto, a coisa tomou outra proporo, com a letra de Sandoval em cima de Good Times, cano da banda Chic, sucesso na poca. A sugesto de usar essa msica foi do coordenador Clever Pereira e a gravao foi no estdio de oito canais do Ed Lincoln, na Lapa, a partir da cpia do disco, giletada* por Ivan Romero e Srgio Luiz - uma repetio da parte instrumental com a voz em cima - para ento, s depois, ir para o ar.

Estou aqui pra dizer que o Natal chegou

 tempo de amizade, de muita animao

Ta a alegria que voc tanto esperou

E a turma da Cidade est sempre com voc

Alegria, o papo, a msica e muita informao

Al Ivan, Paulo Martins, Srgio Lus e Sandoval

Chegou Mansur, Paulo Roberto e Romilson no final

Papai Noel, eu espero receber o meu presente

Papai Noel, eu quero um poo de petrleo e uma garrafa de aguardente

A msica, rapidamente, se transformou em um sucesso! Tocou em festas e discotecas, com gravaes feitas diretamente do rdio, alm de ser a cano mais votada pelos ouvintes para ser reprisada em horrio especial. E foi alm! Acabou virando disco da Odeon por iniciativa de Mariozinho Rocha, um dos produtores da casa, aps perceber que o pessoal da prpria gravadora ligava para a Cidade pedindo a msica. E a mensagem no tinha nem uma semana no ar! Como ento ficar parado diante daquele fenmeno? Mariozinho conhecia Clever desde os tempos do suplemento Plug, do Correio da Manh, no qual ambos escreveram. E tinha total liberdade com o coordenador da rdio para passar a mo no telefone, em uma sexta-feira, e fazer o convite:

- Vamos regravar a mensagem da rdio Cidade em um disco? Amanh, pode ser?



- Eduardinho, tem o lance da rdio Cidade para fazer! A gravao precisa ser igual  original. J pegaram autorizao e tudo... Falei com o Clever e est tudo certo para esse sbado!

- , se  para fazer cover, tenho uma sugesto, Mariozinho. Conheci uma garotada fantstica, que tem capacidade para fazer isso melhor do que ningum!

- Ah, no vem com esse negcio, no. Melhor pegar um grupo j pronto, entrosado...

- E voc t reclamando sem conhecer! Voc tem que ver!

- Ah, t... Eduardinho, voc vai me meter numa enrascada! Melhor tocar com quem a gente t acostumado para no ter erro...

- Cara, voc acha que eu sou capaz de arriscar o meu emprego botando msicos ruins? Voc no confia no meu trabalho? Eu assumo integralmente a responsabilidade por eles!

- Bom, se voc diz assim...



Era um dia de ensaios dos Famks, quando veio a ligao de Eduardo Souto Neto. Ele estava com o grupo na cabea desde o encontro na gravao do Lafayette, e aquela era a primeira oportunidade de chamar os integrantes para fazer um trabalho em parceria. O mais difcil, que era convencer Mariozinho, j havia sido feito. Agora, era s comunicar o pessoal.

- P, Dudu, no vai dar pra gravar. Ns temos baile em Itaperuna!

- Kiko, isso a  o lance para a mudana de vocs. No  o que vocs querem?

Mariozinho Rocha era um nome importante no cenrio das gravadoras e os msicos sabiam disso. Eles no queriam ter seu prprio trabalho e ser reconhecidos? A pergunta do maestro no poderia ter sido mais certeira.

- Muito! Pode contar com a gente, Eduardinho.

E o baile, pelo menos naquele sbado, foi quem danou.



O estdio de dezesseis canais da Odeon ficava em Botafogo, na Mena Barreto. No dia seguinte ao da ligao de Mariozinho para Clever, l estavam todos os participantes da gravao de Bons tempos: Eduardo Souto Neto para fazer o arranjo, Os Famks fariam a base, os locutores entrariam com o vocal e o trio Mestre Maral, Luna e Dazinho para o acompanhamento no final da msica, no qual tudo acabava em festa, em ritmo de samba.

A msica de Bernard Edwards e Nile Rodgers, com letra de Sandoval, teria duas verses para o disco. No lado A Bons tempos - Natal, e no lado B Bons tempos - Ano Novo. A mixagem seria feita no domingo para o disco estar nas lojas na sexta seguinte. Tudo em tempo recorde! E, acredite se quiser, foi o que aconteceu.

A gravao ocorreu sem problemas, em quarenta minutos! Antes a base e, depois, os locutores. Na verdade, ocorreu melhor do que o prprio Mariozinho podia esperar. Caramba, t chapado com a qualidade musical desse grupo, pensava ele, enquanto a banda fazia um som limpo e vigoroso. O baixo do Nando era igual ao original, ou melhor, os acordes da guitarra do Kiko eram precisos. E a bateria do Serginho?

- Rapaz... Esses garotos so fantsticos! - comentou para Clever, que estava ao seu lado.

- Mariozinho, esse pessoal que t tocando  demais! No deixa isso passar. Grava alguma coisa com esses caras!

Clever tinha razo, no dava para deixar passar batido. A banda era completa! Eles no s tocavam muito, como cantavam! Seis msicos tambm canrios, como diz a gria, e era lgico que eles tinham que fazer um trabalho juntos! Tanto que, na primeira pausa da gravao, Mariozinho, extasiado, no se aguentou e foi correndo fazer a proposta:

- Que tal gravar um disco l na Odeon? O que acham? Hein, hein?

- A gente j tem contrato com a gravadora - diz Nando.

- Srio? Bom, a facilita a vida! Quer dizer que o pessoal j conhece vocs?

- Conhece como Os Famks! Ns fazemos bailes. A gente j gravou um disco pela Odeon!

- P, mas esse nome  duro, a no d! Vai ser suburbano assim l no inferno! Isso no tem nada a ver! Vocs tocam funk por acaso?

Kiko at tenta explicar:

- No, mas tem um significado e...

- T, t, t... Olha s: quero fazer um negcio com vocs a longussimo prazo! Mas longussimo! Por favor, no me encham o saco! Deixa que eu ligo - disse ele.

E saiu de l satisfeito com a gravao de Bons tempos, mensagem de final de ano que seria utilizada pela rdio Cidade nos anos de 1979 e 1980. E com louvor!



- Serginho, entrega as cifras pro Marcio, por favor? E avisa que eu fui para o hospital. Meu filho vai nascer! - disse Cleberson, afobado, jogando uma papelada em cima do baterista.

Saiu correndo dos estdios, naquele ano de 1979, deixando no jeito todas as trinta msicas que seriam gravadas pelo grupo para Os Motokas - o que no seria o bastante para o produtor Marcio Antonucci.

- Porra, por que o Cleberson no t aqui? Ele precisava estar aqui!

- P, mas  o filho do cara que t nascendo! - diria Serginho.

- Fosse l depois!

Cleberson era casado e j tinha Marcio, com 1 ano de idade, quando Marcelo veio ao mundo, no meio daquela rotina maluca de estdio, discos e bailes. E Maurcio seria seu terceiro filho, nascendo em 1987. Seria complicado, mas Cleberson teria a felicidade de acompanhar o nascimento dos trs filhos. O que no pode se dizer de todos os integrantes.



Madrugada com chuva forte no Rio de Janeiro, e um Passat preto todo equipado enguia na avenida Brasil. Aquela era a situao na qual se encontravam Nando e Feghali, ao voltarem de um dos bailes feitos em Gramacho, Duque de Caxias (RJ), com casa lotada. Apesar do imprevisto, eles deveriam estar entusiasmados com aquela noite, o show havia sido um sucesso. Entretanto, a cara de ambos dizia outra coisa: desnimo e cansao. As coisas pareciam no evoluir alm dos bailes e eles no sabiam mais o que fazer. At porque no era essa a vida que eles desejavam. Ser que deveriam desistir do dinheiro de todo ms e arriscar com tudo, sem ter certeza de nada? E coragem para isso? Perguntas que no resistiram a um corpo esgotado, cabea estafada, chuva e um carro quebrado.

- Cara, no aguento mais isso... - disse Feghali, enquanto empurrava o carro com Nando.

- Voc t dizendo que...

- Essa vida que a gente leva, caramba! Eu sonho com um lance nosso, algo que dure, uma carreira... Voc no?

- Lgico! Mas voc sabe que no  fcil...

- T, Nando... S que a gente precisa fazer alguma coisa! E se o Mariozinho no ligar? Vamos ficar esperando?

- E se ele ligar?

- Eu s no quero ficar parado...

- A gente no t!

- Ah, no? Ento me diz uma coisa: voc t feliz?



Em Belo Horizonte, no mesmo ano, o compositor Fernando Brant escutava a fita que Milton Nascimento havia lhe passado, tentando entender o que a msica queria lhe dizer. E, aos poucos, a lembrana da sua juventude, daquele senhor alto, negro, que trabalhava com ele no Juizado de Menores, se fazia claramente nos acordes.

Era dcada de 1960, quando Fernando lia os processos e ajudava o juiz na capital mineira. Ele tinha por volta de seus vinte anos e havia acabado de entrar na faculdade de direito (no que um dia tenha tido, realmente, a pretenso de seguir essa carreira). E ficava por l, trabalhando e conversando nas horas vagas com o seu Francisco, que fazia o caf dos funcionrios, daqueles bem fortes, como mineiro gosta! O papo acontecia com frequncia sobre todos os assuntos, seja no quartinho desse senhor ou no banco no final de tarde. Trechos de vida que seu Francisco contava para um menino Fernando maravilhado, que tentava absorver os pequenos e grandes significados das histrias.

Um desses casos era sobre ele, seu Francisco, que na juventude trabalhava numa estao de trem em Ouro Fino (MG). Ele era encarregado de levar as malas dos passageiros para casa e sempre ficava  disposio dessas pessoas. No entanto, havia um trem expresso que passava s 5 horas da manh, todos os dias, mas nunca parava. No era novidade para ningum. Mas, mesmo sabendo disso, seu Francisco acordava de manh antes do horrio, se vestia com o uniforme e ia para a estao esperar. O seu pensamento era apenas um: Um dia, o trem pode parar. E no vai ter ningum aqui para carregar as malas. O trem passava, no parava e ele ento voltava para casa para esperar o seu horrio normal de trabalho. E assim, durante anos, seu Francisco seguiu todos os dias e toda manh sozinho na plataforma.

Homem que  homem no perde a esperana, no

Ele vai parar

Quem  teimoso no sonha outro sonho, no

Qualquer dia ele para

E assim Pinduca toda manh

Sorriso aberto e roupa nova

Passarinho preto de terno branco

Vem a renovar a sua f

Essa msica sairia no disco Sentinela (1980), de Bituca. Afinal, ela nasceu para ser cantada por Milton! Mas, com o tempo, passou a representar muito mais para um pessoal que tocava no Rio de Janeiro. E o nome da cano era Roupa Nova.



O cast de Mariozinho na Odeon era o mais novo, com a turma dos mineiros - Milton Nascimento, L Borges, Beto Guedes... E, por isso, estava muito entrosado com o repertrio dessa turma. As msicas gravadas e as no gravadas do pessoal de Minas se juntavam s outras tantas fitas que ele guardava por anos a fio. Um material que se tornava a sua principal fonte de pesquisa quando estava em busca de ideias musicais.

Ele precisava de um nome para o tal dos Famks se apresentarem em um festival da Globo. Podia ser uma grande oportunidade de estreia. E, por isso, procurava uma inspirao, enquanto ouvia aquelas canes e passava o olho em suas referncias. Estava em casa  noite, acompanhado de seu copo de usque e centenas de discos, fitas e composies - espalhados por cima da mesa, do sof e at pelo cho! Uma baguna organizada que tinha sentido apenas para ele. E ficou por horas, sentado, vasculhando sons e letras, enquanto pensava alto e ordenava seus pensamentos. V se pode! Famks? Esse nome no vai a lugar nenhum... Quero que eles deem uma roupa nova para o som dos mineiros, fazer algo mais pop, com pegada, mas sem perder o trao de MPB. Tem espao para isso! A Cor do Som foi para o lado baiano. Eu acho que vai dar muito certo entrar com Minas agora... Explorar aquele vocal de uma outra maneira e...

Todos os dias, toda manh

Sorriso aberto e ...



- ROUPA NOVA!!!!

Entrou Mariozinho esbaforido pela Odeon, gritando para sua secretria. E, empolgado, falava enquanto entrava em sua sala, s 2 horas da tarde, como se tivesse acabado de acordar:

- Ariza, d uma olhada se essa marca existe!

E l foi ela, fiel escuderia de Mariozinho, pesquisar se o nome j havia sido utilizado na msica brasileira. Tanto procurou que acabou encontrando uma coletnea com os grandes hits do momento - muito parecido com a dos Motokas. A diferena  que tinha sido produzida pela Odeon, no havia feito sucesso, e Roberto Livi  quem detinha o direito do registro.

- Roberto, me cede a marca?

- Pra quem , Mariozinho?

- Um grupo chamado Os Famks. Voc no deve conhecer e...

- Conheo sim e no cedo. Eles sacanearem o Lincoln.

- Cacete...

Roberto Livi era um empresrio argentino, de cabelos compridos e testa larga, que atuara como produtor na Odeon, depois da sua carreira relmpago de cantor na fase final da Jovem Guarda. Foi bem tocado nas rdios, com canes como Parabns querida, e se pudesse no faria mais nada alm de cantar. No entanto, o que o sustentou mesmo no Brasil foi a produo e o lanamento de outros nomes da msica, como Magal e Peninha - ambos do selo Polydor, da Polygram. O que fez com que tambm se aproximasse de conjuntos como o Lafayette e de empresrios como Carlos Lincoln - naquele perodo um de seus funcionrios.

- A, Lincoln, os caras esto pedindo uma das minhas marcas.

- Do que voc t falando, Livi?

- Dos Famks!

- Pelo amor de Deus, Livi, ceda! Tudo o que quero nessa vida  que eles mudem de nome!

- Mas eles deixaram de trabalhar com voc!

- Ah, tudo em nome da msica. E eu no perdi o amor, no.

- Ai, ai, ai... Vou liberar esse negcio ento.



No dia seguinte, Mariozinho ligou para o Feghali:

- Amanh aqui no estdio, pode ser?

E ao chegar, no seu horrio mais tarde de sempre, atropelou os seis integrantes entretidos na sala de espera da Odeon, falando sem parar.

- Anda, anda, vamos entrando! Sentem a.

Os seis rapazes entram, sem saber muito bem o que esperar. Afinal, o que daria para se fazer em um plano de longussimo prazo?

-  o seguinte, vocs vo tocar em um festival da Globo, em abril, uma das msicas selecionadas. E o nome da banda ser Roupa Nova!

Estranho... Essa foi a primeira impresso de Cleberson ao ouvir a sugesto, se lembrando de cabide, guarda-roupa, sees de roupas novas... Os Famks se apresentavam no Rio de Janeiro desde 1968! O nome j era conhecido. Como mudar isso de repente?

- Mariozinho, mas e o nosso nome antigo? - ainda tentou Cleberson.

- O qu? Famks? Que insistncia, gente... Com esse nome nem na rdio Patrulha voc vo tocar! Nome horroroso! Nasal!

-  sonoro, u!

- Alis, quem inventou essa porcaria?

- P, mas voc sabe o que quer dizer? Fernando, Alceu, Marcelo, Kiko e Srgio.

- Tudo bem. Tem algum Alceu a? Marcelo? S vocs mesmo... So as iniciais de pessoas que nem esto mais na banda!

Dvidas, dvidas... E Mariozinho que no sossegava.

- Vocs vo ganhar uma Roupa Nova! - dizia ele, fazendo trocadilhos, falando sem parar e usando todos os argumentos para convenc-los.

Ele achou melhor no citar os compositores mineiros, ponto de partida de sua ideia, e preferiu enaltecer o talento de cada um para tornar a proposta mais atraente. Mas contou da msica Roupa Nova, que estava para ser lanada, e falou sobre o espao no mercado para o tipo de trabalho que ele queria fazer, explorando os vocais e tal - rea ocupada at ento pela Cor do Som e pelo Boca Livre. Vibrando todas as vezes que repetia o nome.

- Gente, acorda! Vocs so mundialmente conhecidos pelas pessoas do bairro!

Dvidas, dvidas... Que iam se dissipando quanto mais o Mariozinho argumentava. Aquela poderia ser a hora de dar o segundo passo, fazer cumprir o desejo de ter uma banda de carreira. O que, at ento, no havia acontecido, por mais que eles gravassem discos dos Famks. E, realmente, talvez fosse melhor comear do zero com outro trabalho e outro nome. Talvez.

Sem mais dvidas. Os Famks estavam dispostos a ganhar uma cara nova e ter o seu conceito artstico! Pelo menos, era isso o que Roupa Nova passava para eles. Independente de Mariozinho ter pensado nas canes mineiras ao sugerir o nome, o que ficou daquela reunio, para a banda,  que a Roupa Nova de verdade seria para o seu prprio som. Uma interpretao diferente da inteno original, mas e o que isso importava? Em uma histria, as verses costumam ter perspectivas diferentes de acordo com o personagem, e nem por isso deixam de ser reais - um significado to vlido quanto o outro. Convite aceito.

-  Roupa Nova e ponto final! A msica do festival  esta aqui, do Jamil Joanes. E ensaiem logo, porque  na semana que vem! - disse Mariozinho, j sem pacincia, jogando uma fita K7 em cima da mesa e se direcionando para sada.

- Anda, gente! Bora trabalhar!



No dia seguinte, Nando trombou com Franklin Garrido - na poca engenheiro da Odeon - e contou o que havia acontecido. Do novo nome, da insero de Mariozinho, do trabalho que ele queria fazer, do festival MPB 80... Tanta coisa! O tcnico sorriu e disse com calma, colocando a mo no ombro do baixista.

- Agora vocs vo ver as coisas acontecerem.



Nota

* Processo artesanal de edio.



PARTE III

ROUPAS E CORES

Acompanham o movimento das ondas em qualquer direo

1980-1983



CAPTULO 15

SORRISO ABERTO E ROUPA NOVA

Mariozinho era nosso guruzo! E o nosso lucro no festival MPB 80 era aparecer.

Ricardo Feghali

O conceito de festival de cano se firmou no Brasil nos anos 1960, com inmeros eventos promovidos por emissoras de rdio, redes de televiso, teatros e movimentos estudantis - nos quais foram consagrados artistas que passariam a estar dentro da intitulada categoria MPB, como Elis Regina, Chico Buarque e Milton Nascimento. Continuou com fora na dcada de 1970, trazendo  luz dos holofotes nomes como Djavan, Luiz Melodia e Alceu Valena, e se estende at hoje em menor escala, principalmente nas cidades pequenas, cumprindo o seu papel de revelar intrpretes, compositores e instrumentistas ao pblico.

Em 1980, foi a vez do Festival da Nova Msica Popular Brasileira - MPB 80 (rebatizado nos anos posteriores de MPB Shell devido ao novo patrocinador), realizado pela TV Globo em parceria com a Associao Brasileira de Produtores de Disco (ABPD), que tentava reviver o clima dos grandes festivais dos anos 1960. O evento teve a inscrio de 20.183 msicas de 16 mil compositores. Desse total, sessenta obras foram selecionadas para as quatro eliminatrias, com 15 canes que seriam defendidas por dia, por intrpretes escolhidos pela direo do festival. E essas etapas comeariam em abril, com uma por ms at terminar, dia 23 de agosto, com as vinte finalistas e a escolha das vencedoras. Na premiao, dinheiro para as trs primeiras canes mais bem colocadas, para o melhor arranjo e para os melhores intrpretes masculino e feminino; trofu para a composio campe e contratao por uma gravadora para todos os vinte classificados.

As eliminatrias seriam exibidas pela emissora ao vivo, s sextas-feiras, a partir das 21h10, com direo de Walter Lacet, superviso de Augusto Csar Vannucci e produo de Guto Graa Mello e J.C. Botezelli. Na cabea de Mariozinho, aquela era uma excelente oportunidade para lanar em rede nacional um conjunto chamado Roupa Nova.



Faltavam poucos dias para a cano Beatlemania, de Jamil Joanes, ser apresentada no MPB 80. A msica estava programada para 11 de abril, e o compositor no cabia em si de ansiedade. A nica coisa que ele no sabia  que outro grupo, em vez dele, defenderia sua cano. A rede Globo definia os intrpretes junto s gravadoras e muitos nomes eram conhecidos apenas nas vsperas. Isto quando eram divulgados! Tudo bem, mas algum avisou esse detalhe para o Feghali?

- E a, Jamil! Olha que legal: vamos apresentar sua msica, t sabendo?

- Como  que ?

E sem mudar o tom de empolgao no telefone, ele completou:

- No MPB 80!

- U... Achei que seria eu!

- Ih...

Depois daquela ligao, o telefone de Feghali tocaria outra vez:

- Puta merda, hein? Tinha que abrir esse boco?

- E eu ia saber?

- Era s me perguntar! Bom, vou tentar resolver isso aqui. S v se nem voc, nem mais ningum da banda, me atrapalha de novo! - disse Mariozinho, extremamente irritado, antes de desligar, temeroso de no conseguir mais coloc-los no festival.



-  o seguinte: consegui outra msica pra vocs. Mas v se dessa vez vocs no fazem merda! Chama-se No colo dEl Rey e ser apresentada na terceira eliminatria, em junho. No contem com a vitria. O legal  vocs aparecerem! Vamos lan-los para o pblico e, de quebra, vocs vo aparecer pela primeira vez na televiso!

Houve alvio e satisfao dos msicos ao ouvir aquilo.

- E quem so os autores? - perguntou Nando, curioso.

- Pra qu? , eu no consigo uma terceira msica, no!

- Relaxa... Ningum vai fazer nada. Curiosidade mesmo.

- Hunf! Joo Luiz Magalhes e Cssio Tucunduva.

Sobrenome familiar para Feghali:

- Tucunduva? Serginho, no  o irmo da Cristina, que ensaiava com voc l no Lafayette, na Ilha do Governador? Eu at produzi o compacto dela pela CBS.

- Hum... Acho que  ele mesmo!

- Voc tocou com o Cssio? - perguntou Kiko.

- Toquei, um pouco antes de entrar para os Famks. Tentaram remontar a banda The Brazilian Bitles, lembra dela? Fiz alguns bailes com eles, acho que durante um ano.

- Puta que o pariu... Vocs j se conhecem? Ento esqueam esses nomes e vo trabalhar. Quem tocar no telefone eu mato!



- Joo, a nossa msica entrou! - comemorava o compositor Cssio Tucunduva, ex-integrante da banda Os Lobos, ao encontrar o parceiro Joo Luiz Magalhes.

Os dois haviam se conhecido na faculdade de comunicao da Universidade Federal Fluminence (UFF), em Niteri, no incio dos anos 1970 e faziam canes juntos desde ento, muitas delas sobre a represso militar e a falta de liberdade da Ditadura: as chamadas msicas de protesto. Em 1979, participaram do Festival de Msica Popular, da TV Tupi, com Contradana, e em 1980 participavam mais uma vez de um festival com No colo dEl Rey.

A cano foi feita no governo Ernesto Geisel (1974-1979), que anunciava a abertura poltica lenta, gradual e segura, mas que no cumpria exatamente esse processo de transio rumo  democracia. Ataques clandestinos aos membros da esquerda pelos militares de linha dura fizeram vtimas como o jornalista Vladimir Herzog, em 1975, e o operrio Manoel Fiel Filho, em 1976. E, apesar de o festival ocorrer em 1980, no governo Figueiredo (1979-1985), que havia decretado a Lei da Anistia aps o fim do AI-5 e estava acelerando o processo de redemocratizao, o campo cultural continuava vigiado, e ainda teria como um de seus captulos futuros a frustrante exploso da bomba no Riocentro, em 1981, durante um show de homenagem ao Dia do Trabalhador.

Assim, com o uso de metforas e poesia, Cssio e Joo traziam em sua msica versos inspirados no mote anarquista O rei morreu, viva o rei, a favor da ausncia de um governo formal, sem decises hierrquicas, que substitua o estado pela cooperao. Nesta melodia do festival, eles representavam a liberdade como ninfa domada a servio dEl Rey - Rey com y mesmo, retomando a expresso antiga dos tempos de imprio e monarquia de Portugal. O que no dava para entender  como a msica havia passado sem problemas, afinal, a Censura ainda atuava, de forma mais branda  verdade, e o clima de desconfiana por parte da classe artstica permanecia.

Diga por qu

Ficar a sentada No colo dEl Rey

Sorriso de ninfa domada a servio del rey

Boneca de medo empalhada na corte

Eu sei

Sem sangue, sem graa

Com nada por ordem dEl Rey



Dias antes de acontecer a terceira eliminatria do festival MPB 80, Joo e Cssio foram chamados ao estdio da EMI para ouvir a gravao de No colo dEl Rey feita pelo Roupa Nova.

A verso feita pela banda era pretensiosa, um som maravilhoso, encorpado e forte. Cssio e Joo escutavam atentamente a leitura que o grupo havia feito e ficavam impressionados com a qualidade da gravao. Lembrava algo meio Supertramp, sabe? Distante da cano que eles haviam inscrito no festival, com um estilo mais Bob Dylan, de acompanhamento acstico de percusso, violo, violino... Era inesperado ouvir No colo dEl Rey daquele jeito, a mensagem passada daquela forma, o que no queria dizer que fosse ruim. Os compositores estavam abertos para entender aquele conceito e prestavam ateno no jeito de cantar, nos acordes, no arranjo, tentando assimilar todas as informaes que a msica passava. Por fim, pediram alguns minutos para conversar a ss, antes de aceitarem.

Apesar de acharem a verso bem diferente do que haviam imaginado, gostaram do som da banda. Alm disso, o grupo podia estourar naquele festival, o que tambm seria bom para eles dois...



- Ah, Marco Antnio, quase me esqueo de te falar: o Roupa Nova  Os Famks.

- Srio?  o pessoal do Nando?

- ! Eles esto no festival MPB 80 com a msica No colo dEl Rey.

O compositor Tavito estava sendo entrevistado pelo locutor e amigo Marco Antnio, na rdio Nacional FM, e aproveitou para contar a novidade em um dos intervalos do programa. Marco Antnio conhecia Os Famks desde os anos 1970 por causa de Nando. Ele havia estudado no Colgio de Aplicao, em uma das turmas de suas irms e, tambm tricolor, chegou a encontrar o Mnimo nos jogos do Fluminense, no Maracan.

J Tavito havia sido apresentado  banda por Mariozinho, ainda na EMI-Odeon. O que acontecia  que existia um grupo menor e fechado de msicos que conversava, trocava figurinhas e sabia o que se passava nas gravadoras. No crculo de amizades do compositor mineiro existiam nomes como M, Thomas Roth e Milton Nascimento - todos futuros autores de canes gravadas pelo Roupa Nova. Uma categoria da qual Tavito tambm faria parte nos anos 1990, com a regravao de Comeo, meio e fim.



O teatro Fnix, da rede Globo, estava lotado naquela sexta-feira, 13 de junho de 1980. A segunda fase, em maio, havia trazido intrpretes como Eduardo Dusek, de fraque, cueco e asas de anjo nas costas, esbanjando stira e bom humor com a balada blues apocalptica Nostradamus, alm de outros destaques no palco, como a cantora cearense Amelinha, que emocionou a plateia ao entoar versos de Foi Deus quem fez voc. Por mais que a imprensa no tenha dado prestgio a essa edio, a disputa entre os concorrentes estava esquentando para a terceira fase do festival que, diferente dos anos anteriores, trazia gente j conhecida do pblico, como Z Ramalho, Joyce e Jane Duboc, mas no deixava de revelar e lanar estreantes como Sandra de S, Raimundo Sodr e o grupo Roupa Nova.

No jri, duzentos profissionais de diversas reas, incluindo jornalistas, crticos, artistas plsticos, DJs, melodistas e letristas. Todos com a complicada misso de eleger os melhores intrprete e arranjo, bem como classificar cinco canes para a final. Eles recebiam antes das eliminatrias uma fita K7 com as concorrentes e, no dia, tinham de preencher um papel com suas cinco favoritas. Entre os espectadores, estavam as famlias e alguns amigos do Roupa Nova, como o locutor Marco Antnio, e compositores tensos como Cssio Tucunduva e Joo Luiz Magalhes. Todos esperavam ansiosamente ouvir No colo dEl Rey, quando um dos apresentadores anunciou o Roupa Nova.

A banda entrou firme e tocou com segurana, como msicos tarimbados que eram j naquela poca. Paulinho no vocal fazia a voz principal com preciso, e os outros integrantes mostravam um som refinado e de arranjos elaborados. No entanto, as palmas, durante a apresentao, foram as de sempre, nada muito esfuziante ou que apontasse algum tipo de favoritismo. Nossa! Que msica linda!, pensava Marco Antnio ao assistir ao Roupa. S acho que no vai cair no gosto popular. Os arranjos e a interpretao so muito sofisticados! J o foco dos compositores Joo e Cssio estava nos seis integrantes, com os ouvidos bem abertos para cada acorde. Eles nem se falaram durante a msica que, por um descuido da organizao, foi executada apenas uma vez, enquanto a norma permitia repetir. Para no perder nenhum detalhe, os compositores esperaram a banda deixar o palco para conversar, o que demorou um pouco graas  reao do pblico no final: cinco minutos de palmas enquanto os msicos agradeciam. Surpreendente... Euforia que deu esperanas para os integrantes do Roupa e tambm para Joo e Cssio:

- O que foi isso agora no fim?

- Cara, no sei, mas achei do cacete!

- Olha, fiquei at mais animado... Achei que eles entraram muito certinho, bonitinhos, produzidos demais, no? A msica pedia uma postura mais ousada, menos careta. Algo meio Mutantes, sabe? - indagou Joo.

- , mas foi tudo muito rpido, nem deu para conversar com eles sobre a mensagem libertria da cano. Quando eu fechava os olhos, estava tudo bem. Mas, ao abrir, no! Os trejeitos, as roupas, os elementos ali no estavam batendo com o dizer dos versos. Eles estavam muito comportados no palco para uma msica de protesto!

- Tambm achei que faltou entendimento da letra... Mas vamos aguardar, n? Quem sabe?

- ... No teve irreverncia, mas a msica foi perfeita na execuo...



- Bicho, vocs j esto! - disse, andando em direo ao grupo, Arnaud Rodrigues, membro da comisso do MPB 80 e um dos contratados da rede Globo.

- P, voc acha Arnaud? - perguntou Nando, desconfiado.

- Com certeza! Foi o melhor da noite! So cinco classificados.  s aguardar - afirmou ele, dando um tapa de leve nas costas de Nando, ao se afastar sorrindo.

A verdade  que no incio o grupo no esperava ganhar. Era s se apresentar e fazer seu papel de intrprete. Quantas vezes Mariozinho repetira:

- Nem contem com isso!

Mas, na prtica, como no se envolver? No ouvir elogios e no achar que, l no fundinho, poderia existir uma esperana?



- Joo, voc viu o que o Jorge Amado falou na mdia sobre a nossa msica? Nas palavras dele: Esto me dizendo aqui que  para falar que a melhor msica  a de fulano e beltrano, mas eu no tenho compromisso com ningum! Vou falar da que eu gostei mesmo, que foi aquela No colo dEl Rey. Minha preferida. Declarao corajosa e que  lembrada at hoje pelos compositores Joo e Cssio. Primeiro, devido  satisfao de ouvir elogios de um escritor que eles admiravam, e segundo por causa da frase estranha: Esto me dizendo aqui. Como assim? Quem e por qu? No colo dEl Rey teria sofrido algum tipo de boicote? Ser que a msica havia sido discriminada por conter uma mensagem de protesto? O que se passava nos bastidores? Apesar da relativa abertura poltica lenta e gradual dos anos 1980, qualquer sinal de represso era motivo de insegurana e desconfiana para os que tentavam ser ousados.

Era de se esperar que eles ficassem receosos e fizessem suposies com a impreciso dos fatos. A cano O mal  o que sai da boca do homem - defendida por Baby Consuelo (Baby do Brasil) e Pepeu Gomes, na quarta eliminatria - chegou a ser proibida aps passar para a final do festival. Acabou liberada, mas foi para as rdios s em verso instrumental. Alm disso, se tornou razo de processo ao casal (absolvido em 1981). A polmica? Apologia ao uso da maconha ao cantar que Voc pode fumar baseado/ Baseado em que voc pode fazer quase tudo.

Enfim, queira ou no, no festival MPB 80 a Censura ainda dava seus ltimos suspiros.



- Sei no... A plateia no parecia to empolgada - comentou Nando para os outros componentes do Roupa, embora ele estivesse com uma sensao boa aps ter conversado com Arnaud.

Apenas Paulinho parecia no prestar ateno no papo, vidrado nas telas que transmitiam o evento.

- ... Mas no final foi outra coisa! P, a gente no saa do palco! Acho que o povo foi pegando gosto... - tentou Kiko. - Talvez o pblico no tenha dado uma resposta to boa no incio porque no nos conhecia. Voc viu quanta gente, depois, comentou o lance do resultado?

- Isso  verdade, Nando! Acho que tem chance... At o portugus que cuida do backstage falou! - comentou Feghali.

- ... Eu tambm queria muito ganhar...

- Mas vocs se lembram do que o Mariozinho falou! - lembrou Cleberson.

- Gente, eles vo dar o resultado! - disse Paulinho, aflito e em silncio, com os olhos grudados nos televisores.

O vocalista, ao contrrio dos cinco integrantes, ficou mudo com suas expectativas em uma classificao. T bom, t bom, o Mariozinho disse. Mas as coisas mudam..., pensava ele, concentrado nas palavras dos apresentadores, apertando as mos suadas e tensas.

- Msicas classificadas:

Saudade, por Jos Renato. Intrprete: Jane Duboc.

Hino Amizade, por Z Ramalho. Intrprete: Z Ramalho.

Diversidade, por Chico Maranho. Intrprete: Diana Pequeno.

A festa da carne, por Paulo dos Santos e Paulo Souza. Intrprete: Mariana.

Anunciao, por Paulo C. Feital, Jota Maranho e Diana Feital. Intrprete: Zez Motta.

Apesar das expectativas, o anncio das finalistas confirmou o temor dos envolvidos: a msica estava fora da final. E Paulinho, sem se conter, caiu em prantos. Kiko, embora muito triste, apoiou Paulinho, tentando dar conforto para o vocalista. Cleberson e Serginho pareciam no se abalar. J Nando comentava, visivelmente decepcionado, em tom amargo e seco para Feghali:

- No falei?



Passar to pertinho da possibilidade de se classificar no MPB 80, apesar de todos os avisos de Mariozinho, no tinha sido uma boa sensao. Afinal, no dava para negar que estar fora do festival da Globo era um desperdcio de oportunidades. Acertar em uma edio daquela poderia ter representado uma guinada na carreira musical do Roupa Nova com o pblico e tambm com a crtica. Como aconteceu com Amelinha, ao atingir a marca de 300 mil discos vendidos, com a msica Foi Deus quem fez voc, e com Jess, que vendeu 100 mil LPs aps a classificao de Porto Solido e o ttulo de melhor intrprete. Ou ento com Joyce, que ganhou prestgio com Clareana, e tambm com Eduardo Dusek, que fez barulho com Nostradamus.

No caso, os compositores de No colo dEl Rey puderam tirar algum proveito, embora desclassificados. Cssio pde vender seu LP em vrias feiras independentes, com o respaldo da apresentao do Roupa Nova, e junto com Joo Luiz recebeu direitos autorais pelas exibies em shows posteriores. Em contraponto, a banda, embora tocasse a cano em suas apresentaes, no conseguiu grav-la em um disco de carreira aps sair da EMI-Odeon. A gravadora no permitiu e, alm disso, a msica havia deixado um gostinho amargo na memria dos msicos. Era preciso, antes de tudo, digerir tais emoes.

O formato Festival da Cano j desenhava desde os anos 1960 o conceito da MPB no mercado: universitrios, com msicas de alto nvel de sofisticao lrica e meldica, no geral de temticas polticas e sociais. Um rtulo discutvel, que poderia englobar estilos como samba, msica regional e rock, mas que rejeitaria os gneros vistos como popularescos. Uma msica popular e brasileira, embora falasse com poucos. Em suma, se passar pelo festival significava para o intrprete um tipo de aprovao para pertencer a esta classe, pelo menos naquele dia a MPB havia fechado as portas para o Roupa Nova.



CAPTULO 16

 COMO UM SOL DE VERO

Foi tudo muito rpido. Logo depois veio o Mariozinho com a Cano de vero. No deu nem tempo de ficar vivo do MPB 80.

Nando

Baixinho, calvo, de bigodo e camisas coloridas, s vezes com detalhes praianos. Era assim que Mariozinho ou o Maneco varava as tardes na EMI-Odeon, lembrando muito aqueles policiais tpicos de filmes americanos, debochados, de poucas palavras, apreciadores de usque e donuts. Uma presena que passou a ser esperada com ansiedade pelo Roupa Nova aps a apresentao no MPB 80 - apesar da desclassificao da banda no festival. Os integrantes viam no produtor uma possibilidade de escapar das canes do cast de Miguel, como Cadaro de ao, e j haviam assinado um novo contrato com a gravadora, depois da mudana do nome da banda.

- T saindo! - disse ele ao encontr-los no corredor da EMI-Odeon.

- Saindo? - perguntou Feghali, sem acreditar no que escutara.

- , u. T indo pra Polygram.

- Mas a gente acabou de assinar outro contrato!

- Meu Deus! J assinaram? Tentem cair fora!

- Mas como? E falar o qu, agora?

- Sei l! Acaba a banda!

O produtor,  sua maneira, confiava no projeto e insistiu para que eles trocassem tambm de companhia - o que foi relativamente fcil, pode-se dizer... quela altura do campeonato, o tal do Roupa Nova no era importante a ponto de a diretoria da EMI-Odeon encrencar com a questo.

Resciso feita. Contrato assinado com a Polygram.



No incio, a escolha da maior parte do repertrio do Roupa Nova seguia o estilo de Mariozinho. Ele chegava com a receita do bolo e depois sentava com o grupo para discutir os arranjos. Com o tempo, a banda ganharia confiana para tambm decidir as canes que iriam entrar no LP, mas naquela fase da carreira era fundamental ouvir o que o produtor tinha a dizer e aconselhar. Uma dinmica que aconteceu nos trs primeiros lbuns feitos na Polygram, todos sob ttulo homnimo ao nome do grupo. No vendeu muito,  fato. Cerca de 10, 20 mil discos eram nmeros baixos para aquela poca, considerando os altos custos de produo - para ser disco de ouro, por exemplo, o LP tinha que atingir a marca dos 100 mil. No entanto, esse resultado baixo estava dentro das expectativas de Mariozinho para aquele comeo, e a gravadora lhe dava liberdade para trabalhar o desenvolvimento da banda atravs dos discos. Como ele mesmo brinca hoje em dia, no dava nem para pagar o chopp!

Isso porque uma das preocupaes do produtor era posicionar o Roupa Nova no segmento MPB, apesar da pegada mais pop, como uma banda de grande qualidade musical. A consolidao de sua carreira no mercado, com o passar dos anos, traria o rendimento financeiro esperado pelos integrantes - um processo lento e que poderia ser duradouro, considerando o talento dos seis msicos. Por isso, a inteno de Mariozinho era atuar como um embaixador do grupo, usando sua posio e diplomacia para aproxim-los de nomes importantes da MPB, seja gravando canes de compositores como Paulinho Tapajs, Flvio Venturini e Beto Guedes, ou participando na gravao de intrpretes como Milton Nascimento, Fagner e Gal Costa.

- Tem uma msica do Milton com o nome Roupa Nova. Acho legal vocs gravarem.

- Ah, mas  uma msica desconhecida... - comentou Cleberson, apoiado pelos outros.

- Mas deu nome ao conjunto!

O embaixador tinha o respeito da classe musical e respaldo para ser bem recebido por outros artistas, o que facilitava a apresentao da banda. Depois, era s esperar. Aps conhec-los, as pessoas passariam para frente os elogios e as recomendaes, j que a competncia do grupo era evidente. Alis, Mariozinho havia comeado a botar essa estratgia em prtica na prpria EMI-Odeon, durante o curto perodo que esteve com o grupo l. Esse era o seu plano, que no iria funcionar sem a dedicao, lgico, do Roupa Nova.



Recomear foi uma das msicas que Mariozinho arrumou para o grupo gravar em seu primeiro disco como Roupa Nova - composio de Jamil Joanes com o Eladio Sandoval, da rdio Cidade. E eles estavam passando essa msica quando o produtor entrou no estdio.

Deixa a mania de abafar seus sentimentos

Procure logo esquecer nossos momentos

Chegou a hora de apagar a tatuagem

Estou pronto pra viagem

Vou recomear

- Voc leram a harmonia e mais nada, n? No parece nem que so vocs tocando a. - provocou Mariozinho, buscando a guitarra, o teclado... enfim, a pegada musical que havia percebido naqueles msicos.

- Cacete... - lamentou Feghali, ao lado de Cleberson, ambos incomodados com aquele comentrio displicente.

O problema  que naquele dia a cabea de Feghali estava longe. Seus pais estavam finalmente se separando, em litgio, e o processo, por mais que fosse esperado, no estava sendo nada fcil para Nilza e Albert. Se por um lado Ricardo ganhava o Roupa Nova, por outro, perdia o mnimo de estrutura familiar que existia ali. Fora a dor de cabea ao acabar se envolvendo, agora adulto, em discusses que no eram suas.

J Cleberson se sentia empolgado com aquele desafio. Estava realmente gostando de fazer arranjos e produzir em estdio. E s conseguia se lembrar daquele maestro de So Gonalo perguntando: Por que no tenta ser maestro? ... Por que no?

No dia seguinte, aps revirar a msica, Feghali e Cleberson apresentaram para Mariozinho um Recomear com sintetizador, tpico da poca, e outras marcaes que ainda seriam caractersticas do grupo.

- Agora sim vocs trabalharam!



Uma cano que fale de coisas simples, naturais, sem complicaes. Esse foi o conceito escolhido para a msica de Feghali quando Mariozinho ouviu a melodia.

-  muito bonitinha! Gostei. Passa algo suave, delicado... A letra tem que ser no mesmo esquema. Vou passar para o Chico Anysio escrever.

O produtor explicou a proposta para o Chico que, dias depois, apareceu com a letra na Polygram. Estavam todos os seis na sala de Mariozinho, cansados da rotina puxada de bailes todo final de semana, quando o humorista e tambm compositor mostrou algo do tipo:

Eu gosto de coisas simples

Arroz com feijo

Abbora com carne seca...

Isso  o que pode se chamar de uma ocasio totalmente constrangedora. No se tratava de uma questo de letra certa ou errada, mas a leitura de Chico era distante daquela que eles pretendiam com a msica. Alm disso, como falar para o grande Chico Anysio que no era bem aquilo que eles queriam dizer? Nenhum deles sabia por onde comear.

Enquanto a cano tocava, um ficou olhando para a cara do outro pensando no que dizer ou como reagir. Mariozinho dava aqueles sorrisos amarelos e sem graa para manter o clima, Feghali fazia uns comentrios perdidos, Nando mirava um ponto fixo e inexistente, e por a vai... At que a msica acabou.

Silncio.

- E a? O que acharam? - indagou Chico Anysio para todos.

T, eu sou o produtor nessa sala, n... Era o que Mariozinho pensava minutos antes de pronunciar:

- Chico, legal, muito bonito. Vamos dar uma olhada!

Falar o que numa situao como essa? Ele no conseguiu nada melhor para dizer.

Chico sorriu, se despediu de todos e, com a sensao de dever cumprido, foi embora, de carona com Feghali. Meu Deus, vai acabar a gasolina com o Chico aqui dentro!, percebeu o tecladista ao olhar para o painel do carro, j no meio do trajeto.

Preocupado com o mico que seria deixar o humorista a p e tambm sem querer puxar assunto sobre a msica que ele havia mostrado, Feghali seguiu dirigindo... mudo! Rezando pela vida longa da gasolina ou por um posto de combustvel por perto, at conseguir deixar Chico em casa.

Em seguida, foi em busca de um posto, para s depois voltar para a gravadora - onde saberia da sugesto de Mariozinho:

- Gente, eu t com a ideia na cabea. Acho melhor eu mesmo fazer essa letra! No vou repassar para outra pessoa, pois vai ficar um troo chato com o Chico, nem vou colocar meu nome como autor nos crditos do disco. Sai s o nome do Feghali. Depois eu explico para ele o que aconteceu. Putz, que saia justa danada...

Dias depois, o resultado:

Tudo bem simples

Tudo natural

Um amor moreno

Fruto tropical

Todas as cores

Que eu puder te dar

Toda fantasia

Que eu puder sonhar

Aprovao imediata do grupo, msica pronta para gravar. Para ficar perfeito, na cabea de Mariozinho, s faltava acertar mais um detalhe:

- Nando, voc  quem vai solar.

- O qu? Eu no! Fazer o vocal tudo bem, mas o solo? Eu no canto o suficiente para isso. Coloca o Serginho!

- Vai, sim! Eu quero uma voz suave e pequenininha para Bem simples. E essa voz  a sua!

Nando no gostou muito daquilo, mas acabou aceitando. Tanto que no estdio, antes de gravar, ainda nervoso com a deciso, continuava argumentando com os outros integrantes contra essa deciso.

E foi assim que nasceu a terceira faixa do LP de 1981 e o single de abril. A primeira das poucas vezes em que Nando solou no Roupa Nova e um dos hits do lbum. A msica foi um sucesso, principalmente entre as mulheres que adoram canes romnticas. Nessa gravao, a banda ainda contou com a participao de Luiz Roberto, do grupo Os Cariocas, fazendo o assobio. Elementos que poderiam passar despercebidos por outro produtor, mas que deixaram a cano do jeitinho que ela deveria ser: leve, bonita e simples.



A irreverncia de Mariozinho na escolha do repertrio do Roupa Nova no primeiro disco poderia ser vista tanto em E o espetculo continua, que foi uma brincadeira do produtor com os msicos, como na faixa Tanto faz, de Feghali com letra de Fausto Nilo.

Quem quiser

Vai ser menino ou capaz

Ser mulher

Ou marinheiro audaz

Tanto faz

Dar na cabea ou dar

Vai ter mais

Gente querendo paz

Paulinho cantava essa msica, com uma levada rock meio pop - exatamente o que os integrantes queriam naquele momento. Tudo bem que a letra de Tanto faz poderia ser questionada pelos ouvintes mais velhos ou sisudos, mas quem ligava? Era divertido trabalhar com Mariozinho e, alm disso, eles confiavam nele. Se o produtor insistisse com uma faixa,  essa aqui!, era essa mesma. Tanto que s depois de anos, quando a msica no estava tocando mais, Cleberson, sempre desligado, atinou para o que ela realmente queria dizer.

- Pra a! A ideia  Tanto faz se  htero ou gay?



Desde a sua inaugurao no dia 1o de maio de 1970, o restaurante Castelo da Lagoa anexo ao Chikos Bar, na avenida Epitcio Pessoa, se tornou um dos lugares preferidos de personalidades da poltica, do esporte e da cultura nacional. Circularam por ali nomes como Juscelino Kubitschek, Roberto Marinho, Pel, Chacrinha, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Miele, Roberto Carlos e muitos outros. Entre eles, Mariozinho Rocha e Clever Pereira.

Nos anos 1980, foram inmeras as noites dos dois no estacionamento do Castelo da Lagoa, regadas a usque e msica rolando no toca-fitas. Sanders, garom do restaurante, ia at o carro para servir a bebida para eles, colocada em um compartimento aberto do automvel. Naquela poca, as empresas de produtos eletrnicos j tinham entendido a necessidade de vender, principalmente para os jovens, aparelhos de som automotivos de ltima gerao, capazes de captar a faixa FM. Havia se tornado febre equipar o carro com um som escandaloso e de alta fidelidade, ambiente perfeito para se ouvir msica. Mais perfeito ainda para um produtor como Mariozinho mostrar trabalhos novos de seus artistas. Era por isso que aquela caminhonete andava repleta de fitas.

- Escuta essa demo do Roupa! O disco nem est pronto, mas voc tem que ouvir isso.

 como um sol de vero

Queimando no peito

Nasce um novo desejo

Em meu corao

 uma nova cano

Rolando no vento

Sinto a magia do amor

Na palma da mo

 vero!

Bom sinal!

J  tempo

De abrir o corao

E sonhar...

- Caramba! Isso  fantstico! - disse Clever, empolgado, enquanto a cano ainda tocava! - Isso vai funcionar na rdio!

- Eu tambm acho! Viu o vocal do Roupa?

- Lgico! Tem uma energia boa, essa coisa de vero que a juventude adora.

- Msica do Thomas Roth e do Lulu Guedes.

- Legal, gostei muito. A cara do Rio! J posso tocar na rdio?

- A hora que voc quiser.

- Hum... A gente t em novembro, perto do vero, quando a Cidade sobe de audincia - disse Clever, j pensando em como apresentar a msica para a diretoria, locutores e todo mundo da emissora.

De repente, em um sobressalto, perguntou:

- Ah, sim, fiquei to maluco que quase me esqueci do nome da msica. Qual ?

- Meu caro - disse Mariozinho, com um leve sorriso no rosto -, o nome no poderia ser outro... Cano de vero.

Depois foi a vez dos locutores ouvirem a msica nos estdios da rdio e todos tiveram a mesma reao de Clever Pereira, embora os diretores da emissora no vissem a msica com bons olhos. A Cidade ento tocaria sem parar a msica que, antes mesmo de o disco ficar pronto, se tornaria incontestvel no gosto do ouvinte. O prprio Thomas Roth comentaria depois em um programa de rdio: A coisa comeou a arrebentar quando eles gravaram uma cano nossa. O Lulu e eu, realmente, temos um carinho muito especial pelo grupo e pela msica.

A estao mais quente do ano no hemisfrio sul poderia at comear no dia 21 de dezembro e terminar no dia 20 de maro. No entanto, o primeiro sucesso do Roupa Nova seria hino no Rio de Janeiro, de 1980 para 1981 - e no tocaria s naquele vero.



Senhores,

Venho por meio desta entender as razes pelas quais no tem tocado nas rdios as canes Gosto de batom e Mel de amor, do compacto de Luiz Maurcio. Sinto, profundamente, que os senhores da Polygram desprezam o trabalho solo deste artista, ao contrrio de outros grupos do seu cast. Alis, por que as msicas do Roupa Nova tocam de forma exagerada? Cano de vero no sai das FMs, enquanto Gosto de batom ou Mel de amor nem  citada. Por que essa disparidade? O compacto de Luiz Maurcio poderia ser mais bem divulgado nas rdios do Brasil. Conto com a compreenso dos senhores em tomar alguma ao quanto a isso.

Obrigada.

Ass.: Scarlet Moon.

Carta de reclamao2 de uma divulgadora da Polydor, subsidiria da Polygram. Foi escrita pela mulher do guitarrista, ex-integrante do Vmana, que at ento havia acompanhado Gal Costa e participado do disco Ave Noturna, do Fagner. E que, disposto a lanar carreira solo, se tornaria famoso s com o disco de 1982, pela Warner, assinando com outro nome: Lulu Santos.



Depois de Carlos Lincoln, viria Z Lus para atuar como empresrio dos Famks; seguido por Aldo Vaz - que tinha trabalhado com a banda Casa das Mquinas, em So Paulo, e com Os Canibais, no Rio de Janeiro. Everaldo seria o substituto deste - no comeo da fase Roupa Nova.

Desses quatro, apenas Lincoln teria tentado ser manager da banda. Z Lus, Aldo e Everaldo seriam todos vendedores de baile, em busca de nmeros e clubes. Por isso, Everaldo no botava muita f naquela nova fase do conjunto e dizia com frequncia para os msicos:

- Esse negcio a de Cano de vero e Roupa Nova  rapidinho, n? Acaba, n? Volta os Famks pra gente poder fazer os bailes.



Garotos que gostam de msica se aproximam, ainda mais se frequentam o mesmo colgio. Sentam para conversar, tomar uma cerveja, tirar uma melodia, trocar ideia sobre uma composio... como aconteceu entre Claudio Nucci e M na dcada de 1970. Alunos do Colgio Rio de Janeiro, na Zona Sul da cidade, eles se encontraram em uma das tantas vezes no apartamento de Lozinha (Heloisa Carvalho, irm do M) e fizeram uma cano muito bonita, mas sem letra. Estavam apenas brincando de criar melodias e, quando viram, j estava pronta.

Entregaram a msica nas mos de Paulinho Tapajs, que namorava Lozinha, para que ele, ento, pudesse terminar o trabalho. No entanto, a cano no saiu de uma hora para a outra. E a inspirao s veio no dia em que Paulinho recebeu a notcia da morte de sua v. Para manter a cabea ocupada, ele se refugiou no quarto de M, colocou a fita para tocar e deixou as palavras surgirem. Sem deixar muito o lado racional falar. E assim foram aparecendo as rimas flores de maio azuis/ e os seus cabelos..., no sou mais veloz/ como os heris..., palavras como cowboy, pr do sol e estrelas. O compositor estava aberto para o som e seus sentimentos. A letra, simplesmente, foi vindo... Da maneira mais espontnea e verdadeira de um poeta.

Analisando depois o que havia feito, Paulinho conseguia enxergar referncias como a msica Sapato mole, do seu irmo Maurcio Tapajs, com Paulo Csar Pinheiro e Mauro Duarte. A palavra sapato poderia ter vindo da, vai saber! Apesar de que um tema no tinha nada a ver com o outro. Enfim, ele no tinha certeza de nada. A msica veio de uma vez s, se fazendo naqueles acordes, sem precisar de correo posterior. Nasceu daquele seu momento solitrio e ntimo. Talvez seja por isso que ele veja essa cano com tanto carinho at hoje.

Sua primeira gravao foi em 1978, no lbum Querelas do Brasil, do Quarteto em Cy, grupo do qual fazia parte Dorinha Tapajs, irm de Paulinho Tapajs. No foi a msica de trabalho, nem rodou nas rdios, se tornando uma daquelas faixas do lado B, C de um artista. Pouca gente conhecia. At o dia em que Mariozinho Rocha pinou de seu arquivo musical: Sapato velho.

Mariozinho frequentava a casa de Haroldo, pai de M e Lozinha, antes mesmo de assumir a direo artstica da Polygram. Ele conhecia o pessoal todo e tambm as composies que saam de l, e percebeu em Sapato velho uma bela jogada para o repertrio do Roupa Nova.

O produtor queria posicionar o Roupa entre os outros grupos com som jovem, de canes meldicas, originais e com vocais mais apurados, como A Cor do Som, 14 Bis e o Boca Livre. E aquela composio de M - de A Cor do Som - e Cludio - do Boca Livre - poderia dar esse tom. Essa msica  muito benfeita, mas acho que pode ficar melhor ainda com o Roupa! Eles vo saber dar uma revitalizada nesse negcio. A letra  boa, a harmonia... Vou separar.

A Cor do Som, 14 Bis e Boca Livre eram grupos muito bem posicionados. Mariozinho acreditava que a verso do Roupa Nova serviria para mostrar sua identidade dentro desse universo. O prprio Paulinho Tapajs chegou a comentar que o Roupa Nova caiu bem com o Sapato velho. Ele brincou: Tinha que ser sapato novo! A leitura do grupo ficou forte, e o arranjo dos instrumentos com as vozes, extremamente marcante. Aquele seria o segundo sucesso do lbum de 1981 e o xod dos seis integrantes. Voc lembra, lembra... Uma msica que, antes de tudo, veio para situar o Roupa Nova no mercado.



- Clever, o disco do Roupa Nova ficou pronto! Vem aqui na Polygram dar uma olhada!

Eram meados de janeiro quando l foi o coordenador da rdio Cidade para o estdio da gravadora na Barra. Ele conhecia Mariozinho... Aquela era a hora em que o produtor tocava o lbum todo e olhava para ele com aquela pergunta: Qual? J at achava graa! Mariozinho era macaco velho nesse sentido. Sabia fazer o relacionamento da companhia com a rdio e tinha a percepo exata da imagem que a Cidade queria passar. Tanto que, na maioria dos casos, acertava qual msica Clever escolheria para tocar na programao. S que...

- Sapato velho!

Clever tinha gostado da msica por gostar. Alm disso, a cano tinha harmonias elaboradas e um trabalho vocal refinado. Seria timo para mostrar para a diretoria da rdio, que tinha resistncia em tocar o Roupa Nova. A direo, depois de Cano de vero, havia questionado o porqu de Clever e dos locutores apostarem naquela banda - muito pelo estigma social de eles continuarem tocando como Os Famks em bailes no subrbio. Era como se o grupo apresentasse uma imagem totalmente diferente do pblico-alvo da Cidade: classe A e Zona Sul. E aquele rtulo precisaria ser combatido internamente antes de botar a msica no ar.

Para Clever, a qualidade musical daquela faixa impressionava a ponto de confundir a cabea daqueles que tinham preconceito. O coordenador da rdio gostava de equilibrar o que era considerado popular pela diretoria e o que era chamado de elite. Era uma maneira de lidar com essas diferenas de conceitos. E o Roupa Nova tocando Sapato velho era exatamente isso.



No dia 22 de maro de 1981, no quadro O show da vida, do Fantstico, o clipe seria Sapato velho. Imagens de um menino - ora correndo com flores na mo, ora ao lado de uma menina - apareceriam intercaladas com a dos seis moos sentados nas pedras de uma cachoeira, cantando. Gravao realizada no incio do ms, s 6 horas da manh de uma segunda-feira, na estrada entre Nova Friburgo e Terespolis, com os msicos sem dormir devido ao baile feito na noite anterior.

- Acho que no entenderam a msica - disse Nando para Feghali, durante a filmagem.

- Ah, cara, deixa pra l! Vamos fazer isso logo.

O que significava manter Os Famks, mas com o foco no Roupa Nova. O revezamento entre bailes e gravaes em estdio exigia um comprometimento maior do grupo. Todos estavam sobrecarregados, e esse era o desafio. Continuar com as duas bandas at obter um lucro mnimo com o Roupa Nova, ou ento at o corpo no aguentar mais. Esse ainda era o plano deles.



- Que merda... - disse Nando, ao entrar pelo estdio com uma revista nas mos. - To metendo o pau no nosso disco. Nego diz que a gente parece com o Queen, com o Santana e sei l mais com quem! Que o Roupa no tem personalidade porque tem vrios estilos.

- Eu no entendo... - comentou Cleberson.

- Ah, sei l... Esto metendo a ripa at em Sapato velho. L a Ana Maria Bahiana pra ver - falou Nando chateado, deixando a revista em cima de uma das mesas.

- Ela  casada com o Jos Emilio Rondeau, no ? Putz grila, viu? Esse povo no gosta mesmo do nosso trabalho - completou Kiko, que tambm estava por perto.

- Qual  o problema dos bailes, caramba? - perguntou Feghali.

Nos bastidores, os msicos ouviam comentrios de que o casal Ana Maria e Jos Emilio no gostava do passado suburbano e baileiro do grupo. O que aumentava a revolta dos integrantes ao ler qualquer matria de um dos dois. Se para eles era difcil aceitar as crticas para o trabalho feito pelo Roupa Nova, com tanto esforo e carinho, pior ainda era aceitar restries diretas  sua histria e origem.



Alm da rdio Cidade, o Roupa Nova tambm tocou em rdios com foco em um pblico mais adulto, como a rdio Nacional FM. A msica E o espetculo continua, de Tavynho Bonf e Ivan Wrigg, por exemplo, no era o single do primeiro lbum da banda, mas caiu no gosto da 100,5 (frequncia que depois se tornou a FM O Dia).

A rdio, pertencente  Radiobrs e que ficou no ar at 1988, s tocava msica brasileira e era famosa pelos programas em que Darci Marcelo entrevistava intrpretes e compositores. Apesar de a Nacional AM, existente desde 1936, ter sido mais reconhecida no decorrer da histria, a FM foi importante porque prezava pela qualidade e pelo respeito aos artistas nacionais, e parecia ter aprovado o Roupa Nova, apesar da desclassificao do festival MPB 80...



- Al! - atendeu o telefone Fernando Brant, em Belo Horizonte.

- Oi, Fernando. Aqui  o Clever Pereira, do grupo JB. Tudo bom?

- Tudo joia. E com voc?

- Maravilha! Gostaria, junto com o Ivan Romero, de convid-lo para um jantar esta noite. A JB FM BH vai deixar de existir para dar lugar a uma rdio com um conceito inovador e que tem feito sucesso no Rio de Janeiro. A emissora se chamar, a partir de agora, rdio Cidade e gostaramos de compartilhar esse fato com voc.

- Comigo?

- Sim, pode-se dizer que estamos de roupa nova! E como marco da inaugurao dessa nova fase, a primeira msica do dia ser Roupa Nova, cantada pelo grupo Roupa Nova!

- Que notcia boa! Vai ser um prazer jantar com vocs. Fica marcado para as 20 horas!

Para o grupo JB, era a estratgia perfeita ter a rdio Cidade na capital mineira. A JB FM reproduzia a programao gravada da JB FM do Rio de Janeiro e contava com uma srie extensa de msicas clssicas. J a Cidade era mais rentvel e trazia toda a atmosfera de renovao que fazia muito bem ao grupo. Para Clever e Ivan fazia mais sentido ainda inaugurar a emissora com Roupa Nova. Na verdade, aquela seria a desculpa perfeita para que os dois pudessem conhecer Fernando Brant, autor de msicas lindssimas com Milton Nascimento.

Assim, a estreia da Cidade, 90,7 FM, instalada no Alto das Mangabeiras, aconteceu no dia 14 de maro de 1981, em Belo Horizonte, com o acompanhamento de Kiko, Paulinho, Nando, Feghali, Cleberson e Serginho. E a msica seria o single do grupo em agosto daquele ano.



- E agora? O que a gente faz? - perguntou Nando, cansado, para o restante da banda, ao voltar de um baile em Xerm, em maro.

Naquela poca, Cano de vero j havia entrado na trilha sonora de As trs Marias, novela da rede Globo. E, no decorrer do ano, mais duas msicas daquele primeiro LP ainda iriam parar nas telinhas: Bem simples, como tema de O amor  nosso - da rede Globo -, e a faixa Tanto faz, na trilha de Os adolescentes - novela da Rede Bandeirantes.

- Acho ruim a gente parar de fazer os bailes - comentou Paulinho.

- No, gente. Vamos parar! - retrucou Kiko. - T foda, eu sei que os bailes esto lotados, um puta de um sucesso, mas d pra parar!

- Como  que para, Kiko? - questionou Cleberson.

- A gente grava pra caramba. Tem Globo, outros artistas, outros produtores. Todo mundo procura a gente! D pra sobreviver! P, eu tenho filho, esposa e t dizendo que d! Ficar no meio do caminho  que no rola. O Roupa Nova precisa deslanchar!

- Ah, no d, no... - relutaram alguns integrantes, enquanto outros permaneciam calados, pensando.

Mas Kiko no desistia:

- A gente junta o que cada um ganha, bota numa caixinha e depois divide!

- Tu fala isso porque tu grava pra caramba - disse novamente Paulinho.

- Tudo bem, a gente divide por seis!

- Mas isso  comunismo!

- Ento vamos ser comunistas por um momento! S pra gente conseguir fazer isso!

E o silncio permanecia enquanto eles refletiam na volta para casa. Os seis msicos estavam inseguros quanto s suas escolhas, o que dava para sentir no jeito de cada um se expressar. Tomar uma deciso como aquela no era algo simples de se fazer, nem para eles nem para ningum. Quem nunca se viu em uma situao como esta: poder mudar a direo da sua vida e sentir receio por isso? Apostar exclusivamente no Roupa Nova seria sair de uma zona de conforto rumo a uma nova rota ainda repleta de incertezas. Eles estavam acostumados com o nome dos Famks, com aquele pblico presente nos bailes, com a rotina musical constante e dinheiro entrando no bolso.

- Olha, no vou falar mais nada, tambm j t cansado. Mas vai ter uma hora que ns vamos chegar para fazer baile em um lugar qualquer e l vai estar escrito: Roupa Nova, ex-Os Famks, com o sucesso Cano de vero. Eu faria isso se fosse diretor de clube.

Depois dessa, os seis msicos seguiriam a viagem em silncio.



Foi em homenagem a uma princesa, filha de dom Pedro II, que uma cidadezinha mineira, perto de Cataguases, recebeu o nome de Leopoldina. Com seus pouco mais de 45 mil habitantes, nos anos 1980, o municpio da Zona da Mata, como toda cidade pequena, fazia exposies agropecurias, feiras da paz e qualquer tipo de atrao cultural para entreter no s sua populao, como tambm os moradores da redondeza. No era  toa, por exemplo, que os diretores dos clubes se revezavam na organizao dos bailes. Leopoldina precisava se manter viva, animada e atualizada com as bandas de fora, sobretudo as que vinham do Rio de Janeiro. E foi em uma daquelas noites que o Roupa Nova - ou melhor, Os Famks - tocaram.

Tinha gente para todos os lados daquele clube! Pessoas na calada da entrada tomando uma cerveja, fazendo um social antes do baile; e outras l dentro, j aproveitando o escurinho prvio do salo para se aproximar de meninos ou meninas. Enquanto que uma faixa enorme na entrada dizia, como cumprimento de uma profecia: Roupa Nova, ex-Os Famks, com o sucesso Cano de vero.

Os mesmos dizeres que poderiam tambm ser encontrados em cima do palco.

- Na boa, no vou tocar, no. Vamos cair no mesmo erro do Super Bacana, do Painel de Controle e de tanta banda boa por a! Pelo amor de Deus, vamos parar! - pedia Kiko, agoniado, olhando para Nando em busca de apoio.

O baixista tambm no estava satisfeito com a situao, mas cad a coragem para abandonar tudo ali?

- Vamos l, Kiko. S mais uma vez - pediu Nando ao guitarrista, que subiu ao palco puto da vida.

E tocou srio, sem gracinhas, sem curtir nenhum daqueles instantes, apenas pensando, ao dar seus acordes secos, O Roupa vai dar certo, eu sei que vai, enquanto no salo todos danavam. No final, como de praxe, o diretor do clube apareceu para agradecer o belssimo baile daquela noite, pagar os msicos e servir um lanchinho como gentileza.

Os seis estavam exaustos, arrumando os instrumentos, um sem falar com o outro. Clima estranho que permaneceu at um homem forte, com um engradado de cerveja na mo, aparecer.

- Posso deixar aqui? - perguntou ele, j apoiando a caixa no cho. Por cima, o homem colocaria um tabuleiro enorme com farofa, churrasquinho e batata frita.

- A, ! O lanche de vocs! - disse ele, antes de sair, dando abertura para que Paulinho, Serginho e os outros se aproximassem para comer.

Um pegou o churrasquinho e passou na farofa, o outro beliscou uma batata frita e aos poucos eles foram relaxando. Menos Kiko, que olhava a cena e no acreditava no que via. Abismado, em choque, como se algo dentro dele tivesse parado. Alguns segundos inertes, indcios claros do que seria uma exploso.

- P,  isso que vocs querem? Pro resto da vida  isso aqui que vocs querem? - gritou para os demais, encarando seus rostos displicentes, j perdidos em outros pensamentos enquanto mordiam e mastigavam. - Pois bem... Porque isso no  o que eu quero! - Berrando, chutou o engradado, jogando farofa e batata frita para o alto. Encostando, em seguida, o corpo em uma mureta, sem mais foras, caindo em desespero e em prantos. - Ns vamos perder tudo o que conseguimos. Pelo amor de Deus, no vamos fazer isso. Pelo amor de Deus...

Leopoldina - cidadezinha mineira que recebeu o nome em homenagem  princesa, morta prematuramente no inverno, de febre, cansao, delrios e convulses, aos 23 anos - viu os ltimos e relutantes suspiros de um conjunto chamado Os Famks. Prenncio do que seria o fim daquele vero.



CAPTULO 17

PELO MENOS UM POUCO DE SOL

Ali eu senti que ia dar certo.

Paulinho

O incio de 1981 realmente fora agitado para o Roupa Nova e para a rdio Cidade - ambos passando por momentos importantes em sua histria. A banda estava lanando em janeiro o seu primeiro disco, com dez msicas. Abria com Sapato velho, passava por Pra sempre, Bem simples, Um pouco de amor, E o espetculo continua, Recomear, Tanto faz, Cano de vero, Quem vir e fechava com Roupa Nova. A emissora, por outro lado, perdia em fevereiro dois importantes locutores para a Antena 1: Romilson Luiz e Eladio Sandoval.

No carro de Mariozinho, no estacionamento do Castelo da Lagoa, Clever se mostrava preocupado com a sada dos locutores da rdio, enquanto tomava um gole de usque e ouvia o disco j pronto do Roupa. Sandoval era uma das personalidades mais inovadoras da Cidade e lder da equipe. O receio de Clever era que a sua ausncia abalasse a confiana dos que ficavam. Alm de existir o risco de um choque de identidade com os ouvintes. Suas apresentaes no ar traziam um mix de inteligncia e irreverncia, na medida certa. De modo que ele conseguia fazer revolues na emissora, numa tica de bom gosto para a diretoria e para o pblico. E Romilson dava o suporte para que Sandoval finalizasse a piada. Tanto que a passagem de horrio de um para o outro era mais aguardada pelos ouvintes do que a apresentao individual de ambos.

- Mariozinho, que tal fazer um grande show com o Roupa Nova e levar os locutores para apresentar? Ia ser timo para eles terem um contato direto com os ouvintes! Cano de vero  um sucesso na rdio e estamos chegando no final da estao. A hora  essa! - disparou Clever de repente, dando um pulo na poltrona do carona.

- Show? U, a gente pode fazer! Vai ser muito bom tambm pro Roupa. Eles precisam tocar mais com esse novo nome. Quer dizer, at agora eles no fizeram um show do Roupa Nova.

- Pois ento! Quero saber como anda a popularidade da rdio e aproximar os locutores do pblico! Acho que esse evento ajudaria muito. E tinha que ser algo grande, tipo Arpoador!

- Huumm... Tocar no Arpoador? Hum... Pode ser algo interessante e... - disse Mariozinho, j pensando em como articular aquilo. - Vamos ligar para eles!



Era vspera do Carnaval, quando o telefone de Feghali tocou, com Mariozinho pedindo a presena dos seis l no Castelo da Lagoa.

- Agora? - perguntou ele, espantado com aquela urgncia.

- , caramba! Vamos fazer um puta show!

- Bom, tenho que falar com os caras. Vocs vo ficar a at que horas?

- At quando vocs aparecerem.

- Tem certeza? Tem gente na Regio dos Lagos!

- Vou ento pedir mais um usque.

- Vocs so doidos... - disse Feghali, rindo.

A ligao de Mariozinho foi por volta das 10 horas da noite. O Roupa s conseguiu chegar ao Castelo da Lagoa por volta das 3 horas da madrugada. E todos foram para casa com os detalhes do show acertados, por volta das 7 horas da manh, quando o sol j brilhava.

De todos, apenas Clever, que respirava rdio Cidade, se encrencou. Ao abrir a porta de casa, encontrou a mulher grvida com a mala dele pronta:

- Eu no te aguento mais. Vou dormir.

E, sem dizer nada, ele olhou para ela e passou a mo no telefone, em cima da mesinha.

- Ivan, posso dormir a?



No dia seguinte, os msicos, que j haviam separado aqueles dias de Carnaval para descansar, voltaram a conversar sobre o assunto, na Regio dos Lagos.

- A gente precisa descer pra ensaiar! - falou Ricardo Feghali.

- No vai rolar.

- Como assim, Kiko? Justo voc?

- Na boa? Aluguei uma casa enorme pra passar o Carnaval com a minha famlia, com telefone e tudo. No vou abrir mo disso, no.

- T doido? Esse show  muito importante!

- E a gente consegue dar conta se voltarmos pro Rio na quarta, como combinado!

- Ah, no, puta que o pariu... Voc t de brincadeira!

- No, no, no, e no, Ricardo. D pra gente ensaiar depois!

O tempo fechou e por pouco os dois no saram no brao. Feghali estava decepcionado e irritado pela ausncia do guitarrista, e Kiko, decidido a ficar com sua famlia daquela vez.

- Te encontro na Quarta-Feira de Cinzas, cara, s 14 horas, no ensaio! Estarei l, alerta e obediente! Mas Carnaval eu vou ficar.

- Voc t amarelando... - comentou Nando.

- Vocs podem falar o que quiser! Eu no vou!

O clima pesado no melhorou nem depois que o guitarrista sugeriu:

- Vamos mais tarde! Vai ser bom pra todo mundo!

E nem quando a banda decidiu ficar, j que Kiko no ia. Justo ele, que sempre pedia presso e comprometimento de todos os outros integrantes!

- Se der merda...

- No vai dar, Ricardo. No vai. Eu assumo essa - disse o guitarrista, com peso na conscincia por tomar aquela atitude com o grupo, mas confiante no talento do Roupa Nova e morrendo de saudades de sua famlia.



As barcas baleeiras, conhecidas como Alabamas, fizeram o seu papel na pesca das cachalotes, abundantes em mares brasileiros em meados do sculo XIX. O Segundo Imprio utilizava o leo das baleias para a produo de concreto e tambm como combustvel dos lampies para a iluminao pblica das ruas do Rio de Janeiro. Por isso a pesca desses animais era um negcio valioso para a economia da poca e acontecia no s atravs das barcas. Os pescadores, com seus arpes afiados, subiam no alto das pedras da praia para acertar as baleias que se aproximassem. E usavam como local principalmente uma pedra que parecia invadir o mar, separando dois trechos extensos de areia. Um lugar perfeito para a pesca, e com um belo visual, que viria a ser chamado, por causa dessa histria, de Arpoador.

De um lado Copacabana e a praia do Diabo, do outro as praias de Ipanema e Leblon, tendo muito verde ao redor com o parque Garota de Ipanema e como paisagem de fundo o Morro Dois Irmos:  nesse contexto que se encontra a Pedra do Arpoador, Patrimnio Histrico Municipal e da Unesco, motivo de inspirao para msicas e poesias. Trata-se de um dos lugares preferidos dos cariocas, sobretudo dos mais jovens, que veem ali um espao para estar com amigos, jogar capoeira, surfar, namorar ou simplesmente admirar o pr do sol mais lindo do Rio de Janeiro. Uma atmosfera ideal para shows, muito explorada nos anos 1980 e at hoje.

De fato, no havia escolha mais apropriada de local para o palco do Roupa Nova junto com a rdio Cidade. Ainda mais no fim daquele vero.



Durante a semana anterior ao show, cada um fez a sua parte: enquanto o Roupa Nova ensaiava o repertrio e acompanhava a parte tcnica da estrutura da apresentao, os locutores da rdio Cidade bombardeavam a programao com chamadas do evento. Nada poderia dar errado no to esperado dia.

Roupa Nova e rdio Cidade nesse final de semana em um supershow no Arpoador! Roupa Nova apresenta seu primeiro LP e ns, locutores da Cidade, seremos os mestres de cerimnias dessa festa. E o melhor de tudo  que voc no vai precisar pagar nada! O que voc est esperando? A gente se encontra l.



- Nando, t certo aquele esquema do som? - perguntou Kiko.

- T, sim, cara. A gente conseguiu fechar com o equipamento que queramos. Vai ser o mesmo utilizado para o Earth, Wind and Fire, no Maracanzinho.

- Coisa pra caramba, n?

- Quinze toneladas! S assim mesmo pra gente manter a qualidade do som no Arpoador. So caixas de quatro vias para produzir os 10 mil watts em estreo!

- , eu sei... Vai ser um dos melhores shows ao ar livre feito aqui no Rio!

- Nem me fale!



O Jornal do Brasil, que pertencia ao mesmo grupo da rdio Cidade, tambm deu uma fora na divulgao do evento e estampou em uma matria de meia pgina, do Caderno B, no prprio dia do show: O Roupa Nova fecha o vero carioca, por Luiz Antonio Mello, com direito a foto. timo para o grupo que estava se relanando no mercado com outro nome.

O texto falava sobre o primeiro LP da banda, da presena dos locutores da Cidade, do passado dos bailes com Os Famks e destacava: O Roupa Nova conseguiu, em pouco tempo, um fenmeno, principalmente por se tratar de um grupo novo: est com trs msicas programadas em todas as rdios de sucesso do Rio. Sapato velho, Roupa Nova e Cano de vero no saem da relao das mais solicitadas e provam que o grupo atingiu seu objetivo, ou seja, chegar ao chamado grande pblico com um trabalho indito dentro da msica popular brasileira.

Na matria, Nando, citado como Luiz Fernando, contava que a banda tocaria muitas msicas arranjadas que no estavam no LP, como Lumiar, que recebeu uma roupagem progressiva. A cano era para ter entrado no disco, mas o Roupa s conseguiu terminar o arranjo dela quando o lbum estava pronto. Alm de Nando, ainda falavam sobre a banda Paulinho, citado como Paulo Csar, e Ricardo Feghali. O Roupa Nova entra em palco com dois tecladistas, ao estilo do Supertramp. Ricardo fica, de um modo geral, com as partes mais eletrnicas, deixando para Cleverson [sic] os trabalhos em pianos acsticos. Esse trabalho dos dois  mais ou menos intuitivo, no h nada estabelecido formalmente, escreveu Luiz Antonio Mello.

Por fim, o jornalista conta que, alm do show do Roupa Nova, seriam distribudos psteres autografados pelos locutores da Cidade e que o evento no Arpoador seria a despedida do vero e as boas-vindas ao outono. Quer convite melhor para o carioca?



Sbado, 21 de maro, dia do to esperado evento. Palco montado e o cu... nublado. Ainda era manh quando alguns locutores e integrantes do Roupa Nova pisaram na praia do Arpoador. Todos estavam muito ansiosos para aquela apresentao e fizeram o possvel para que o show fosse um sucesso. A equipe da Cidade havia divulgado bastante a festa na semana anterior, e as expectativas eram as melhores possveis para aquele sbado. S que acordar e se deparar com o tempo fechado e cinzento era uma completa desiluso para todos os envolvidos.

Aos poucos, os envolvidos no evento foram chegando ao Arpoador. A banda foi cedo para o local, onde permaneceu at a hora de tocar. J a equipe da Cidade fazia um rodzio, de acordo com o horrio de cada um, pois era preciso ter sempre algum na emissora. Assim, a todo instante, um dos locutores aparecia, batia papo, falava sobre o tempo e participava daquela tenso pr-show. Ningum estava calmo com aquele clima, e cada um reagia a seu modo.

- Saiu uma matria muito legal sobre o show no jornal de hoje, vocs viram? - lembrou Ivan, enquanto olhava desconfiado para o cu.

- No JB, n? T aqui comigo! No resisti em passar na banca antes de vir pra c - disse Cleberson, tirando o jornal da mochila.

- A o cara acorda, l a matria, fica empolgado, liga para os amigos e tal... Mas quando abre a janela e v esse dia cinza? Volta pra dormir - brincou Ivan, rindo, mas j pensando no pior.

- Olha, vou te dizer... S vocs mesmo para estarem aqui com a gente nessa torcida a favor do sol. Artista espera no hotel pela hora do evento, no sabia, no? - comentou Fernando Mansur ao se aproximar deles, com o sorriso de sempre.

- Ah, Mansur, no d pra ficar em outro lugar. Qualquer coisa, estamos aqui!

E o locutor sabia que a frase do Serginho era sincera. Esse pessoal do Roupa Nova  engraado, nem parece artista, pensava Mansur, nervoso como a maioria dos locutores, quando uma chuva fina comeou a cair. No bastasse isso, um vento de praia gelado soprava no Arpoador e fazia com que as esperanas de todos a respeito do show fossem cada vez menores. Ivan Romero era um que parecia entregar os pontos:

- ... No tem alternativa, no. Tudo tem um limite! Se o show atrasar uma hora por causa do tempo, ou o pblico no aparecer, a gente no faz, desiste!



Enquanto isso, quem estava com o rdio ligado na Antena 1, ouvia as notcias de Sandoval e Romilson:

- Ateno para voc, ouvinte, que pensa em sair de casa. Est chovendo terrivelmente na Zona Sul! E a previso  de que essa chuva no v parar.

Em tempos de concorrncia entre as FMs, um exagero ali, outro aqui, no faria mal algum, faria? Cada um jogava com as armas que tinha. Ainda mais em dia de show grtis da rdio Cidade com o Roupa Nova no Arpoador.



Eram 15h30 quando Ivan resolveu subir em uma pedra enorme do Arpoador, oposta ao mar, quase na beira da rua, em busca de alguma perspectiva (trecho depois fechado pelo parque Tom Jobim). Ainda chovia, o cu antes cinza estava ficando preto, e quase ningum havia chegado  praia para assistir ao show. Tudo indicava que a festa da Cidade teria que ser cancelada, infelizmente. Foi quando Ivan avistou l de cima uma multido caminhando devagar. Era como se fosse uma procisso que passava pelo Leblon, Ipanema, e ia em direo ao Arpoador. Inacreditvel!, pensou ele, como se ainda tentasse acreditar em seus olhos. Era uma imagem inesperada e de arrepiar, principalmente para um locutor j sem nimo. Rindo muito, ele desceu trpego da pedra, correndo para dar a boa notcia:

- Ah, vai ter que rolar o show! O pessoal no t nem a se t chovendo!

Tanto no estava que a praia lotou! Cerca de 15 mil pessoas compareceram naquele dia para ver os locutores e o grupo chamado Roupa Nova. Um pblico que no perdeu a empolgao nem mesmo quando um p-dgua desabou minutos antes de o show comear.

- Puta que pariu! Chuva pesada no Arpoador? - perguntava Mariozinho, ainda meio atordoado com o alvoroo.

Mas a plateia parecia estar preparada para o evento, gritando, batendo palmas e fazendo todo tipo de manifestao positiva, apesar da chuva. E agora? O que fazer? As pessoas da organizao no se sentiam  vontade em dar o aval para a banda comear a tocar, e os instrumentos ainda estavam cobertos no palco, por precauo. Ser que vai dar pra fazer? Chove torrencialmente..., era o que o olhar de todos dizia. As guas de maro vinham com fora para fechar aquela estao e traziam desconfianas sobre a confirmao do show, por mais que a plateia estivesse a fim. At porque, se a chuva piorasse ou se mantivesse forte durante muito tempo, no haveria boas condies para a banda se apresentar. Estava tudo ao ar livre.

Foi quando, de repente, como uma boa chuva de vero, a pancada cessou, o cu se abriu e um sol tmido despontou entre as nuvens, consentindo que uma faixa de luz batesse exatamente em cima de todos no show. Fernando Mansur e Ivan Romero entenderam a deixa e apresentaram rapidamente o grupo, que entrou no palco de imediato. E a cano no poderia ser outra:  como um sol de vero queimando no peito/ Nasce um novo desejo em meu corao... Como se toda aquela cena tivesse sido armada entre a rdio Cidade, o Roupa Nova e So Pedro.



E quanto mais o tempo passava, mais a praia enchia com pessoas sentadas na grama, nas pedras e em todos os lugares, sem a menor inteno de ir embora. Uma festa que se estendeu do pblico aos organizadores do evento, Clever e Mariozinho, mais do que felizes.

O show estava para terminar naquela hora, mas deixava um sentimento de que a Cidade continuava no auge, forte, com tudo sob controle, sem dar motivo para nervosismo ou receio por parte dos locutores. E dava para notar que todos ali se sentiram, novamente, grandes e pertencentes a um time, apesar da sada de Sandoval e Romilson. Exatamente a unio que o coordenador da rdio Cidade queria de volta. Eu acho que o show despertou na gente um certo amor, uma identificao pelo que se fazia, comenta nos dias de hoje Marco Antnio. Ivan Romero tambm se lembra com carinho dessa passagem e afirma: Foi emocionante, uma daquelas coisas que acontece uma vez na vida e outra na morte.

Para Mariozinho, isso foi o que ficou do show no Arpoador. Foi a que o pessoal da rdio Cidade viu o potencial deles e abraou, encampou de certa forma, o Roupa Nova, conta o produtor, por mais que Clever Pereira garantisse o respeito na rdio pelo trabalho da banda antes do show. Os locutores eram as estrelas do evento e a gente sabia disso, mas nos ajudou muito estar l, comenta Mariozinho. E com certeza ajudou, no h dvidas. O show foi um marco na histria dos locutores com os msicos e serviu para confirmar e celebrar esse encontro. Nas palavras de Ivan Romero: Ns explodimos juntos. A rdio Cidade foi um grande apoio pro Roupa Nova e vice-versa. ramos inseparveis, existia uma parceria gostosa.

Poucas bandas tm o privilgio de estrear seu primeiro LP com as condies mais apropriadas. Porm, o Roupa Nova no incio de carreira fez um show com um equipamento sonoro de ponta, no fim da tarde, em um dos cartes-postais do Rio de Janeiro, com um pr do sol inesperado, praia lotada com 15 mil pessoas, astral altssimo e, o melhor, cercado por amigos.*



Nota

* A foto da contra-capa deste livro  do show realizado no Arpoador pelo Roupa Nova com a rdio Cidade.



CAPTULO 18

NO CLUBE DA ESQUINA TEM UM PADRINHO

O Roupa Nova  um dos maiores representantes do que falamos em Nos bailes da vida.

Milton Nascimento

O substantivo masculino padrinho vem do latim patrinu - diminutivo de pater, que significa pai e possui leves variaes em seu significado. No dicionrio Mini Aurlio  descrito como testemunha de batismo, casamento, duelos etc., a funo do paraninfo no caso da formatura. Ao mesmo tempo, a palavra tambm se encontra em religies como o catolicismo e o candombl, em grupos como a maonaria e em nichos profissionais, sendo relacionada  proteo e ao zelo. Na msica, por exemplo, o termo se tornou comum, como o padrinho Luiz Gonzaga para Dominguinhos, Zeca Pagodinho para Dudu Nobre, e Ney Matogrosso para Roberta S. Um ttulo dado  figura masculina - que pode ser escolhido pelo prprio apadrinhado ou pessoas prximas - e que denota respeito, carinho e reconhecimento de valor. O padrinho  aquele que orienta, defende, cuida e acompanha seu afilhado na prtica ou realizao de algo. Ou, no mnimo, abre as portas, facilita sua aceitao e indica o caminho.



H dias que Milton Nascimento vinha matutando um tema para virar msica, em 1980. Andava bem chateado com a maneira como eram tratados os msicos dos bailes, onde ele prprio comeara sua carreira aos 14 anos. E, sozinho em seu canto, buscava a melhor melodia para fazer uma homenagem. Eu apareci de repente em um Festival da Cano e ningum sabia de onde eu tinha vindo. Quando eu comecei a falar da minha vida me respeitaram, mas e os outros? Um tratamento pejorativo que ele via, sobretudo, no Rio de Janeiro e em So Paulo, e que sufocava seu corao de compositor. T de saco cheio desse papo! Em Belo Horizonte no tem isso. Em seguida, mandou uma bela cano para Fernando Brant letrar.

- Fernando, tem que falar dos cantores da noite. Assim como eu.

O amigo ouviu a melodia e terminou a composio, mas com uma temtica diferente da pensada por Milton. E nesse ponto existem controvrsias sobre a histria, por isso vale um parntese.

Na memria de Fernando, a cano era para o Ney Matogrosso gravar e foi feita s pressas para o lbum dele. S que por algum motivo no foi para o disco do Ney e voltou para os compositores: Acho que ele nem ouviu. Foi bom porque eu no estava satisfeito com a letra e pude fazer de novo, aproveitando as melhores partes. Por outro lado, Milton no se lembra disso e garante que no mandou esta verso para ningum: Podia ser para qualquer um cantar, mas a letra no era o que eu queria. Na hora, falei com ele e devolvi: Fernando, no  nada disso! O negcio  pra quem toca na noite! Acho que, antes, ele no me ouviu direito. Fecha parntese. Dando origem  segunda letra que se tornaria conhecida, enfim, como Nos bailes da vida.

O tema original trabalhado por Fernando Brant era ecolgico e tinha palavras como mato e terra. Falava de boleia de caminho ou que vai dar no sol no sentido de natureza. Letra que teve de mudar para se aproximar da realidade dos bailes que Milton tanto queria. Custou, mas a cano encontrou seu caminho atravs das palavras de Fernando e se tornou hino para muitos profissionais que conhecem perfeitamente o hbito de cantar em troca de po, nos bailes da vida ou num bar. O compositor Mrcio Borges costuma ressaltar que a letra cunhou uma das frases mais citadas, talvez, de toda a cultura brasileira: todo artista tem de ir aonde o povo est. Rotina e filosofia de vida que Fernando absorveu junto aos amigos do Clube da Esquina, como Milton.

Foi nos bailes da vida ou num bar

Em troca de po

Que muita gente boa ps o p na profisso

De tocar um instrumento e de cantar

No importando se quem pagou quis ouvir

Foi assim

Cantar era buscar o caminho

Que vai dar no sol

Tenho comigo as lembranas do que eu era

Para cantar nada era longe tudo to bom

At a estrada de terra na boleia de caminho

Era assim

Com a roupa encharcada e a alma

Repleta de cho

Todo artista tem de ir aonde o povo est

Se for assim, assim ser

Cantando me disfaro e no me canso

de viver nem de cantar



Trs Pontas  uma cidadezinha ao Sul de Minas Gerais. Tem como padroeira Nossa Senhora DAjuda, sua populao  de cerca de 54 mil habitantes e fica l para os lados de Varginha, Alfenas e Lavras, a 272 quilmetros de Belo Horizonte.  conhecida como a Capital Mundial do Caf devido  grande produo do produto, e ainda hoje abriga casares e igrejas da poca urea dos bares cafeicultores. Seu nome  o mesmo da serra com trs cumes, situada pertinho do municpio - lugar tranquilo e sossegado, para onde se mudaram os pais adotivos de Milton Nascimento, Llia e Zino, quando ele tinha um pouco mais de 2 anos de idade. A cidade em que Bituca* cresceu e o local em que recebeu uma fita K7, meio velha e sem nome, das mos de um amigo:

- Voc tem que ouvir isso!

Milton havia chegado de Belo Horizonte naquela semana, aps ter finalizado a composio de Nos bailes da vida e, como de praxe, seguiu a indicao musical de um amigo. Escutou, gostou e depois o procurou para saber mais detalhes daquele som.

- Quem  esse pessoal?

- No sei, no conheo!

- Como assim no conhece?

- Eu sei l como essa fita veio parar na minha mo! S achei que voc iria gostar.

A pior coisa que tem para um admirador de msica  ouvir uma cano, gostar, e no saber quem canta, quem comps e como se faz para escutar mais. Por isso, na tentativa de descobrir alguma coisa, Milton passou a colocar a fita no carro com frequncia, na esperana de ouvir de algum outro conhecido: Ah! Eu conheo essa msica! ou Ih! Eu conheo essa banda!, mas nada. Estava cada vez gostando mais do que ouvia e nervoso por no saciar sua curiosidade. At que um dia, alguns meses depois, em uma loja de discos do Rio de Janeiro, comeou a tocar: Voc lembra, lembra / Daquele tempo / Eu tinha estrelas nos olhos / Um jeito de heri.

Era uma das msicas de que ele mais gostava daquela fitinha. Tomou um susto to grande que largou em qualquer lugar o lbum que estava vendo no momento. E, cantando baixinho, se dirigiu mais que depressa ao atendente, j com o dinheiro na mo:

- Me vende isso a logo!

E foi correndo para casa ouvir aquele pessoal: Roupa Nova...  o nome de uma msica minha!, dizia Milton, enquanto olhava a capa do disco, na qual os integrantes pareciam flutuar. Olhava para cada um como se eles estivessem sendo apresentados pelo amigo de Trs Pontas. S faltava dizer Muito prazer, Milton Nascimento. Tentava memorizar os nomes e os instrumentos: Hum, esse aqui  o vocalista, esse aqui toca baixo..., enquanto ouvia as canes. E, naquele dia, na vitrola de um Bituca aliviado, s tocou Roupa Nova.



Era o dia 25 de abril de 1981 e o Roupa Nova lanava seu primeiro LP no teatro Casa Grande, na Afrnio de Melo Franco, no Leblon - Rio de Janeiro. Eram duas apresentaes naquela noite, uma s 20 e outra s 22 horas, e todos estavam nervosos com a estreia daquele trabalho. O que s piorou depois da notcia de um dos membros da produo, que chegou correndo ao camarim para dizer que Milton Nascimento estava l.

- P, bicho, tira o cara da fila! - disse Cleberson.

- No, ele faz questo de pagar pra entrar!

Os msicos tomaram um susto e guardaram aquela presena com muito carinho. Tanto que em entrevista para a Ana Flores, na FM 105, em 1991, dez anos depois, Nando diria: Ele chegou na bilheteria. Incrvel isso! Pagou ingresso, sentou e assistiu ao show. Foi uma coisa que eu no vou esquecer nunca mais!

Nem imaginavam que Milton j os procurava h meses.



- Vaqueiro do Arizona, desordeiro e beberro... - cantava Nando no violo, ainda em 1981, nos intervalos dos ensaios do Roupa Nova.

Era a lembrana do disquinho que escutava aos 9 anos de idade, de Carlos Gonzaga. Presente de seu pai, de quem lembrava com saudade.

- P, para com essa msica, Nando. Que coisa chata! - dizia Feghali, rindo do baixista com aquela cano.

- Ah, gente, eu adoro essa msica!

- L vem o Nando com essa porra... - completava Kiko, seguido dos outros que morriam de rir.

- P, a msica  boa!

E as respostas variavam, sempre na galhofa: Cara, isso  msica de cowboy!, Isso  meio brega, no?, No sei de onde voc tira essas msicas e por a vai... O baixista argumentava e, s vezes, tocava, rindo, s de implicncia com eles. Ciente de que o Roupa Nova no estava a fim de ouvir, e nem de tocar, Cavaleiros do Cu.



Parece que foi ontem..., pensava Milton, ao olhar as fotos de Trs Pontas, quando tinha 11 anos, em 1953, rindo s de lembrar da sua nota vermelha na matria canto, apesar do boletim em azul. Agora, veja s... Canto! Estava viajando em suas memrias e na prova oral arranjada pelos padres do ginsio para dar uma segunda chance para todos naquela situao.

- Canta alguma coisa! - pediu o padre, ao se deparar com Milton no teste.

O menino, que j estava esperando o professor levar as mos aos ouvidos de desgosto, soltou a voz com a primeira msica que lhe veio  cabea: Cavaleiros do Cu. O padre olhava atento para aquela criana cantando uma obra distante de seu universo infantil e brasileiro. Emocionado e chorando:

- Menino, de onde voc tirou isso? Que coisa linda!

- U, arrumei a letra em uma revista de msica e decorei. Saiu por sair.

- Meu Deus do cu! Faz outra coisa?

E Milton, de novo no impulso de se livrar da reprovao em canto, comeou a fazer gestos com a mo, que no iriam representar nada para a maioria das pessoas de Trs Pontas. S que o padre incrivelmente conhecia aquele tipo de solfejo chamado manossolfa, onde as notas so feitas pelos dedos, demonstrando o som que est sendo tocado.

- Onde voc aprendeu isso? - perguntou o padre, espantado e incrdulo.

- No sei...

- No, no... Voc aprendeu com algum!

- Mas eu no lembro! - disse o garoto que, mesmo depois de adulto, em 1981, continuava sem lembrar onde tinha aprendido.

Ser que foi minha me? Mas ela teria me falado depois, refletia ele, enquanto passava as fotos, tentando achar alguma imagem do padre, que no final reuniria todos os alunos para cantar um hino, com Milton, de voz mais alta, conduzindo o canto e ajudando o resto da turma a passar na matria. Tudo por causa daquela cano, Cavaleiros do Cu, decorada de uma revistinha e que voltaria s suas lembranas nos anos 1970, ao assistir ao longa de Steven Spielberg: Contatos imediatos do terceiro grau.

Foi uma experincia inspiradora para o compositor ver os aliens abrindo caminho, iluminando o cu para a nave me passar como os bois de Riders in the Sky, enquanto Franois Truffaut - no papel do cientista francs - se comunicava com o alien atravs da manossolfa! Justo Truffaut, que em 1963 o encantara no cinema com Jules et Jim, motivando-o a compor suas primeiras canes ao lado de Mrcio Borges.** Como se esses elementos fechassem um ciclo em sua mente: Jules et Jim, Mrcio Borges, suas composies, os amigos, a infncia em Trs Pontas, a prova oral, a manossolfa, sua me, e o que ele havia se tornado aps esse caminho.

Uma vivncia marcante que voltaria s recordaes de Milton, em 1981. Perodo de autoconhecimento de Bituca que resultaria no disco Caador de mim, de nome sugestivo e de canes importantes para ele como Nos bailes da vida e Cavaleiros do Cu.



Desde o dia em que descobriu o nome do Roupa Nova, Milton passou a prestar ateno na banda. Viu um anncio de que eles iam tocar e foi ao show, ouviu uma chamada no rdio e esperou a msica, conversou com pessoas do meio musical e conseguiu informaes. Ele estava fascinado com o grupo e, quando soube que os msicos tocavam em bailes, no perdeu mais tempo! Prestes a gravar Nos bailes da vida, essa era a desculpa que faltava para procur-los. Ele no via mais sentido algum em ter aquela cano no disco se no fosse com eles. Por isso, mexeu os pauzinhos, pediu ajuda da gravadora e conseguiu o contato dos componentes do Roupa Nova quando o seu lbum ainda estava em produo.

Nando foi o primeiro roupa que ele conheceu. A banda achou interessante fazer o encontro com Milton na casa de Higienpolis, perto da avenida Brasil - que iria substituir a casa de ensaios da Vila da Penha entre 1978 e 1979. E o baixista, com seu Chevette Hatch, cor tijolo, ficou encarregado de buscar Bituca no estdio. O trajeto, no entanto, no foi o das melhores:

- Nando, vai com calma a! - dizia Milton para o baixista.

Este, nervoso no volante, corria como nunca - emocionado por estar com Bituca no carro, querendo s olhar para ele, e no para a estrada! Milton, apavorado, no banco de trs, no tirava os olhos da rua e a mo da poltrona da frente que servia como apoio. E toda vez que ele berrava:

- Nando!

O baixista olhava para trs para v-lo, esquecendo completamente da direo.

- O qu?

Deixando Bituca ainda mais aflito:

- Olha pra frente!!

O estdio da Ariola ficava em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, e o destino, Higienpolis, ficava na Zona Norte, o que daria uns quarenta minutos de carro de um ponto ao outro, o que para Milton parecia uma eternidade. Onde eu fui me meter... Da prxima vez marco no estdio ou venho de txi, pensava. Suplcio que s terminou quando o carro parou e ele pde, finalmente, descer.

Local onde estariam todos os integrantes daquela fitinha K7 de Trs Pontas, sem nome ou qualquer identificao. Quem diria que renderia tanto?, pensava Milton, ao cumprimentar um por um os integrantes, agora ao vivo, antes de sentar para conversar e, lgico, tocar. Caramba...  to bom estar aqui. E, juntos, eles ensaiariam pela primeira vez Nos bailes da vida.

Todos davam palpites tanto na criao do arranjo quanto na definio do que eles iriam cantar, construindo passo a passo a msica que seria gravada. Todos falando e participando ao mesmo tempo daquele processo, empolgados e satisfeitos por estarem juntos. P... Ficou da maneira que ela tinha sido pintada, sentiria Milton ao ver, no fim, uma cano sobre os msicos de baile sendo tocada e pensada por msicos de baile.

Na volta, Bituca encostou a cabea no vidro do carro, meio desacordado, feliz, com o corpo exausto e saciado de canes. Tinha sido maravilhoso t-los chamado para seu disco e isso relaxava sua alma de msico. Prenncio de uma amizade que se estenderia por anos - apesar de Milton nunca mais ter se atrevido a andar de carro com Nando.



Alm de Nos bailes da vida, Milton teve outra ideia para a participao do Roupa Nova em seu disco. E, ainda na ida para Higienpolis, Bituca contou a novidade para a pessoa certa.

- Tambm quero gravar com vocs uma msica que eu amo, mas acho que vocs no conhecem. Chama-se Cavaleiros do Cu.

Nando deu um pulo da poltrona, olhando para trs em seguida, enquanto dirigia, dizendo-se feliz, porque tambm adorava aquela msica:

- Ento... Vocs vo fazer o vocal!

O baixista quase caiu para trs de espanto com a coincidncia e no sabia muito bem como reagir. Por ele estava tudo OK, mas e os outros? S quero ver quem vai dizer no pro Milton..., j rindo sozinho antes de se encontrar com a banda. Ao chegar l:

- Adivinhem s! O Milton vai gravar tambm: Vaqueiro do Arizona...

- Porra, Nando, para de onda! - cortou Kiko, deixando Milton sem entender nada.

- Mas  essa mesmo! - dizia Milton.

E Nando, rindo, confirmava:

-  essa mesmo!

- Gente,  verdade. Eu amo essa msica! Vou gravar, sim. E com vocs! - disse Milton, perplexo com a reao do grupo.

Um olhava para a cara do outro, Nando no canto abafava um riso e ningum respondia. Milton gesticulava com as mos como se dissesse E ento?, antes de eles rirem, como se no levassem a srio o convite mais uma vez. E isso durou at chegar o dia da gravao do vocal. Foi uma coisa fcil e bonita, diria Milton, embora no tenha entendido at hoje qual era o problema da msica.

Assim, no dia da gravao, os integrantes do Roupa fizeram Nos bailes da vida com Bituca, colocaram as vozes na Cavaleiros do Cu e tiveram que aguentar o baixista se vangloriar algumas vezes:

- T vendo? O CARA vai gravar essa msica! O CARA!



Cavaleiros do Cu no foi uma cano bem recebida pelos crticos em geral, mas Caador de mim e Nos bailes da vida se tornaram os destaques do lbum de Milton em 1981 para a crtica e o pblico. At quem falou mal do LP chegou a elogiar as faixas, como Okky de Souza, na revista Veja: Abre o disco com uma das maiores tolices j gravadas, Cavaleiros do Cu, um canto pico que fala de vaqueiros correndo ao lu a perseguir rebanhos no cu.  um Milton pouco inspirado, irreconhecvel mesmo. Cresce apenas ao integrar a faixa-ttulo, uma composio intrigante, e em Nos bailes da vida, nica faixa que honra o passado de sua parceria com Fernando Brant.

Nos bailes da vida tambm marcaria o movimento das Diretas J (1983-1984), junto com Corao de estudante e Menestrel das Alagoas, tambm gravadas por Milton. As canes se fizeram nos palanques e incitaram a Nova Repblica por conta de suas mensagens. Enquanto Menestrel indagava sobre o homem que fala a lngua do povo, Corao de estudante trazia a esperana da juventude. E Nos bailes da vida mostrava os estudantes e polticos que, cantando, se disfaravam na multido a favor das eleies, no se cansando nunca de viver ou de cantar. Coisas que ningum poderia prever. A msica, simplesmente, se fez pelo momento.

E, para o Roupa Nova, a composio virou um emblema, um hino da sua carreira. Eles, inclusive, gravariam um vdeo em homenagem a Milton Nascimento, no programa Bar Academia, da TV Manchete, nos anos 1980. Clipe encenando a sua histria ao som de Nos bailes da vida e que, depois de trinta anos, ainda faria parte de outro encontro musical destes sete baileiros.



So Paulo tinha cada orquestra maravilhosa e no Rio de Janeiro tinha baile. Eu no sei o que fazia esse pessoal para afastar essas pessoas que tocavam na noite. Nunca entendi esse preconceito, conta Milton, que no ficava calado quando algum falava mal desses msicos. Se algum dissesse que determinada gravao era brega, ele cantava a cano para provar que no era. Eu tinha o meu jeito de me defender. E ele fazia isso tambm com a msica dos integrantes do Roupa, chamados de baileiros. Ao lanar seu LP Caador de mim, por exemplo, apareceu para tirar foto para uma matria, com uma blusa branca escrita em letras garrafais: ROUPA NOVA, aluso ao ltimo disco da banda. At porque baileiros, para o Bituca, significava um dos maiores elogios que se poderia fazer.



Santa Tereza fica na regio leste de Belo Horizonte. Do bairro bomio, despontaram nomes como Skank, Sepultura, Pato Fu e ali se formou o Clube da Esquina, no encontro das ruas Divinpolis e Paraispolis. Famoso tambm por seus carnavais, o lugar abriga casas de samba, feiras de artesanato, bares e restaurantes, se mantendo at hoje como uma das opes de lazer dos mineiros. E foi nesse bairro, no Santa Tereza Cine Show, que Milton Nascimento ouviu do Roupa Nova:

- A gente dedica esta noite pro Milton Nascimento, nosso padrinho na msica.

Bituca no se aguentou de tanta alegria. Mal o show terminara e ele j estava no camarim para abra-los pela homenagem. Fiquei muito feliz porque eles so msicos bons demais! Era tudo o que eu queria: um pessoal que tocava na noite e passou para outro estgio! E eu era padrinho dessa mudana!, diria ele.

E, cheio da mineirice que lhe  peculiar, brincaria: Fiquei muito cheio de si.

Um ttulo que era dele e de mais ningum.



Notas

* A irm de Milton, Elisabeth Aparecida, contou para o site do museu Clube da Esquina que uma vez um amigo bateu na casa deles procurando por Bituca. E a me perguntou o porqu do apelido. Ah, porque ele  Botocudo, ento, para ficar mais carinhoso, Botocudo ficou Bituca. Se referindo aos lbios de Milton Nascimento e associando com os ndios sul-americanos botocudos, que usavam botoque - pea arredondada - na parte inferior da boca, que aumentava os lbios.

** Aps trs sesses de Jules et Jim, de Franois Truffaut, ao lado do amigo Mrcio Borges, em Belo Horizonte, Milton e Mrcio compuseram Paz do amor que vem (Novena), Gira-Girou e Crena.



CAPTULO 19

OS VINTE POR CENTO

Era aula de produo, arranjo, de tudo!
 Praticamente uma faculdade.

Kiko

- Kiko, que tal fazerem parte da orquestra da Globo? - perguntou para o guitarrista com toda pompa, por telefone, Marcio Antonucci, que em 1981 assumia oficialmente o cargo de diretor musical da rede Globo, no lugar de Guto Graa Mello.

- Como assim orquestra?

- Meu querido, vocs seriam uma das bases da emissora, com salrio todo ms! E a?

Embora animado e confiante, Marcio sabia que no teria nenhuma deciso antes do grupo se reunir. Por isso esperou, sem forar a barra, at o final da semana, para receb-los no estdio Level, onde aconteciam as gravaes da Globo, na rua Assuno, em Botafogo.

- Beleza, onde a gente assina? - perguntou o baixista, empolgado por aceitar o convite, seguido por sorrisos e comentrios da banda.

Porm, estranhamente, Antonucci, sem graa, parecia no compartilhar daquele clima.

- Marcio? Algum problema? - indagou Kiko.

- Gente, eu s preciso de cinco - explicou ele, pausadamente, olhando para todos os seis, esperando j ouvir alguma coisa que o ajudasse a sair daquela situao constrangedora.

- Olha, eu sei que vocs tocam juntos, mas...

- Marcio,  o seguinte: a gente quer muito! Na verdade, depois dos bailes, a gente at precisa desse trabalho. Mas ou voc contrata os seis, ou ento nada feito!

No acredito nisso... Que banda maluca, cara!, pensou Marcio, antes de ser mais direto:

- Nando, mas eu no preciso de um cantor! - E olhando para Paulinho, com a palma da mo levantada, disse: - Nada contra, t?

- Ah, Marcio, ele faz outra coisa!

- Outra coisa, Nando? Isso no  feira, no!

- Sei l, vira percussionista! - rebateu o baixista, apoiado pelos outros integrantes do Roupa Nova, que diziam em coro que Paulinho poderia se virar.

Enquanto o vocalista dizia baixinho tudo bem naquela confuso de vozes e frases soltas.

- Gente, eu j tenho percussionista na Globo! Isso no faz o menor senti...

- Pode at ser, Marcio! S que na nossa base quem vai tocar  o Paulinho.

Uma postura do Roupa Nova irrevogvel, imutvel para Marcio ou qualquer outro produtor.



- Barquinho em f para o Eduardinho.

- Passa para o copista.

E o papo continuava em uma das salas daquela fbrica de temas para televiso, como se nada tivesse acontecido. A orquestra da rede Globo ainda trabalhava a toque de caixa, no estdio Level, no incio dos anos 1980, para dar conta da programao diria. E era preciso agilidade mxima para fazer todas as bases, arranjos e gravaes em poucas horas, diferentemente do que acontece hoje, quando cada produtor consegue em casa afinar as notas, ajustar as vozes, gravar e mixar. Isso quando ele no faz tudo ao mesmo tempo.

Os msicos eram contratados - muitos deles com mais de um emprego para poder se sustentar, tendo hora certa de entrada e sada. Ou seja, vida corrida! Nem adiantava pedir para passar, pela terceira vez, um determinado trecho, que a reclamao vinha.

- , a gente tem que ir embora. Isso no  disco, no!  televiso.

A pressa, nesse caso, TINHA de ser amiga da perfeio. A emissora dispunha de muitos musicais nessa poca! E a rotina da orquestra no poderia ser outra: passar, gravar, passar, gravar - apenas intercalando as pessoas envolvidas. O esquema funcionava mais ou menos da seguinte forma: das 9 s 13 horas, nas segundas, quartas e sextas, era a vez da base tradicional da orquestra gravar. J nas quintas, no mesmo horrio, eram os msicos do estilo MPB. O coro era feito por homens e mulheres das 13 s 16h30, e das 17 s 21 horas era a vez dos metais. As flautas entravam das 22 s 2 horas da madrugada, e das 3 s 8 horas eram realizadas as mixagens. Praticamente non stop, 24 horas por dia, inclusive com produo aos sbados e domingos.

Alm disso, ainda faziam parte do cast global diversos maestros renomados do pas, que recebiam as demandas da emissora, faziam os arranjos e escolhiam, de acordo com a grade de horrio, o que iriam gravar e com quem. Entre eles, Maestro Cip, Eduardo Souto Neto, Eduardo Lages, Alceo Bocchino, Geraldo Vespar, Jlio Medaglia e muitos outros.

O Roupa Nova, aps aceitar o convite de Marcio, seria a base pop-rock da orquestra, gravando todas s teras de manh. E os maestros teriam, ento, uma opo mais moderna para suas produes. Era s separar os temas e agendar. O que seria um encontro inusitado entre profissionais experientes - acostumados com msicos de anos rgidos de estudo - e profissionais iniciantes, que mal liam partitura, mas de estrada, com anos intensos de todo o tipo de msica.



Paulinho comeou a tocar percusso na base da Globo, em outros trabalhos do Roupa Nova e em outros discos. E uma dessas gravaes extras foi com Aramis Barros em uma de suas coletneas no estdio Hawa - virando a noite de segunda para tera.

- Putz, a gente tem Globo daqui a pouco- comentou Serginho, morto de cansao.

- U, vamos dormir no carro! A gente para na porta do estdio e espera dar a hora - sugeriu Feghali, grogue de sono, j pegando as chaves nos bolsos da cala.

S que eles no esperavam encontrar o Maestro Cip, animado, logo cedo, para gravar a abertura do Fantstico com uma partitura cabeluda, cheia de variaes e marcaes estranhas.

- Vamos l, gente! - dizia o maestro, batendo na mesa que, encostada em um microfone, levava aquele barulho para os fones nos ouvidos dos msicos.

- Maestro, pelo amor de Deus! - agonizou Feghali, fazendo sinal com a mo para ele bater mais leve.

- Ah, tudo bem. Ento vamos, gente! 1, 2, 3!

S que ele esquecia o pedido do tecladista e na empolgao batia de novo.

E o barulho voltava com tudo mais uma vez. Uma, duas, trs, quatro vezes... At que ele no aguentou mais e, irritado, abriu mo do fone e o jogou, com raiva, contra o vidro.



- Marcio, precisamos fazer uns temas diferentes.

- Que tal musicar um Grande Prmio do Brasil, tipo o filme Le Mans?

- Hum... Faz uma prova! - disse Aloysio Legey, diretor da TV Globo, para Marcio Antonucci, que na mesma hora procurou o maestro de planto.

Eduardo Lages era o nome da vez, e isso foi no final de 1982.

- Preciso de uma trilha para a Frmula 1!

- Putz, nessa semana eu tenho turn do Roberto Carlos no Nordeste. D pra me substituir?

- Tudo bem, d sim. Vou ver quem entra depois de voc.

E o acaso direcionou para o nome seguinte da lista de maestros: Eduardo Souto Neto que, s com o Viva o Gordo como programa fixo, tinha flexibilidade para misses como aquela.

- Eduardo, quero um tema para cada fase do GP Brasil. Abertura, apresentao dos carros, o esquentar dos motores, a largada, o fim do sonho, para o caso de uma quebra de carro, e a vitria! Vamos tocar para o mundo, independente de quem vencer! Isso nunca foi feito! Topa?

Naquela poca, ainda no havia transmisso televisiva prpria para o Grand Prix, assim a Globo mandaria para os outros pases as imagens com o udio da competio e o outro canal de som ficaria livre para os locutores. Uma oportunidade belssima para os brasileiros se destacarem no cenrio mundial de exibio da Frmula 1.

Tem aquele filme do Paul Newman... Como  o nome mesmo? Winning? Isso! Gosto do clima de corrida dessa produo, falava o maestro sozinho, andando que nem doido pelos corredores do estdio depois de conversar com Marcio. Inspirado na trilha de Dave Grusin e empolgado pela oportunidade, ele cantarolava baixinho o que seriam arranjos, enquanto mexia com as mos. Era como se elas o ajudassem a afinar e alcanar o tom exato de sua cano, enquanto se dirigia para o piano. Sem perceber os olhares estranhos das pessoas no corredor.

- E a, gente! Vamos trabalhar? T com algumas coisas na cabea - avisou o maestro, animado, para o Roupa Nova, logo que abriu a porta da sala de gravao. - Vou comear pela vitria. T pensando em algo mais ou menos assim... - disse ele, antes de tocar algumas teclas e completar cantando o que poderia ser.

Em seguida, pegou uma folha e o lpis na mesa ao lado e se debruou sobre o piano, escrevendo as harmonias, com os integrantes ao redor. Eduardo fazia com a boca o som que buscava, as paradas, e cada um dos msicos j ia se imaginando em ao com seus instrumentos. Serginho, com as baquetas nas mos, fazia gestos como se estivesse batendo em pratos e tambores. Cleberson no tirava os olhos dos dedos de Eduardinho, acompanhando atentamente a criao. E desse modo, em meia hora, eles j tinham um rascunho do que poderiam gravar - o que ainda contaria com as flautas, violinos, trompetes, trombones e saxofones da orquestra da Globo.

Depois vieram os outros temas e as ideias das imagens para abertura, como a apresentao do carro passando pelo aeroporto, avenida Brasil, Presidente Vargas, Aterro do Flamengo, Niemeyer at chegar ao autdromo de Jacarepagu. Tudo deveria estar bem alinhado antes do prximo GP Brasil. Afinal, quanto mais amarrado o conceito, mais fcil seria a chefia geral da emissora aprovar. O que aconteceria apenas uma semana antes do dia da transmisso.

- Boni, d uma olhada no que a gente pensou pro GP - disse Marcio, ao lado de Legey, para o vice-presidente de operaes da Globo, dando play na cpia de monitor que havia feito da gravao com os msicos.

- Maravilha!

- Ento vou mixar! - disparou Marcio, j se levantando da cadeira.

- De jeito nenhum!

- Como no, Boni? No t equalizado! As cordas esto de um lado, os metais de outro...

- Foda-se! No vai mexer.

Trilha acertada, nunca mais mixada, pronta para as pistas.



Refrescou um pouco naquele 13 de maro de 1983, final de vero, no Rio de Janeiro. Bom sinal, pensou Gordon Murray, projetista do carro de Nelson Piquet, ao chegar cedinho ao autdromo de Jacarepagu, onde aconteceria a abertura do dcimo GP do Brasil. No que o carro da escuderia Brabham-BMW no fosse aguentar o calor da capital carioca, mas com certeza seu desempenho poderia ser muito melhor e ele sentia isso.

Piquet largaria em quarto - o brasileiro mais bem colocado na competio -, e a casa j estava lotada, com 80 mil apaixonados pela Frmula 1 na formao da fila do grid. Segundos preciosos de ronco alto e constante dos motores povoando a mente dos espectadores mais ansiosos, como se os carros se provocassem. At que finalmente chegaria ela, a to esperada largada, de gritos, surpresas e comemoraes - confirmando que aquela seria uma corrida sensacional.

Keke Rosberg, da Williams, na pole-position, abriu diferena para o segundo lugar, Alain Prost, da Renault, na largada - enquanto Piquet com facilidade assumiu a terceira posio de Patrick Tambay, j de olho no segundo lugar. Ele logo ultrapassaria Prost e, aps alguns minutos, colaria em Keke, assumindo ento a desejada liderana na sexta volta. Tudo conspirava a favor do brasileiro, que s parou no boxe na volta 44 para trocar o pneu, retornando para a pista como primeiro colocado. Um reinado que no seria ameaado nem pelos retardatrios, com a bandeirada marcando seu tempo de 1h48, coroando sua primeira vitria oficial em casa.

No autdromo, as pessoas invadiriam a pista aps Piquet cruzar a linha de chegada, e pela televiso se ouviria, na banda geral de transmisso, tambm pela primeira vez, o que seria conhecido como o Tema da vitria. Uma cano empolgante, enrgica, feita por encomenda para um vitorioso - mas que s se destacaria para os ouvidos das emissoras estrangeiras de TV, impressionadas pela iniciativa da Globo. Um tema que passaria batido pelo grande pblico naquele ano, do mesmo modo que no seria notado nos anos posteriores do GP Brasil, ao ser novamente trilha sonora de Piquet e de outros vencedores, como o francs Alain Prost. Sua melodia, embora tivesse fora e presena, no tocava as pessoas, no era nem ao menos percebida ou reconhecida, e poderia ter continuado assim, como uma msica qualquer, fadada ao fracasso, se no tivesse encontrado em seu caminho, por acaso, outro campeo.

Em 1984, um jovem paulistano de 23 anos decidiria trocar o kart pela Frmula 1 atravs da Toleman. Em 1985, j com a Lotus, ele alcanaria pela primeira vez o lugar mais alto do pdio, e em 1986, levando o segundo lugar, faria uma dobradinha verde e amarela no GP Brasil com Nelson Piquet em primeiro - sendo, por tabela, embalado pelo tema de Eduardo Souto Neto com o Roupa Nova.

A Frmula 1 teria, ento, mais presena no Brasil depois de 1986, com dois pilotos tupiniquins disputando, alm das pistas, a preferncia do pblico. E, com o sucesso, Legey viu que seria mais interessante tocar o tema s para brasileiros vencedores, independente do local, e no s para quem vencesse o GP nacional. Nesse perodo, o automobilismo alcanava seu auge no gosto popular, com autdromos cheios, Piquet rumo ao tricampeonato, um jovem fenmeno despontando no cenrio... E a msica ia, por fim, ganhando vida.

Diferente de Piquet, que era sarcstico, s vezes agressivo e de imagem blas e elitista, aquele rapaz era do povo, de fala mansa, tranquila e positiva. Era um brasileiro comum; nem feio, nem bonito e ainda de sobrenome Silva. Seu jeito de ganhar era com raa, vibrando como um moleque, sorrindo e chorando em frente s cmeras, sem receio de parecer piegas. Ele tinha carisma, era arrojado e se arriscava nas curvas, ao contrrio do estilo meticuloso e inteligente de vencer de Piquet. E, no geral, parecia um heri de filmes, que levantava a bandeira de seu pas de dentro do carro, fazia impossveis poles nos ltimos instantes dos treinos e com o incrvel poder de voar na chuva. , ele era um personagem que se encaixava perfeitamente nas harmonias e nos rompantes grandiosos do Tema da vitria. E, aos poucos, eles - msica e homem - foram ento se esbarrando.

A cano, apesar de ter sido pensada para tocar, em 1983, para qualquer um que vencesse a corrida, por uma feliz coincidncia estreou com o Brasil atravs de Nelson Piquet. Mas foi com aquele rapaz, chamado Ayrton Senna, que ela realmente iria ser consagrada. Um tpico paulistano, que poderia ter continuado no anonimato como outro qualquer, se no tivesse ultrapassado seus limites na mesma velocidade que fazia com os adversrios na pista, e que, por afinidade, se apossou daquelas notas para a sua vida. O tema valorizava suas conquistas, e ele, por sua vez, justificava tais acordes. Era uma relao de sinergia, de simbiose, de completa fuso.

Porm, quando o rapaz morreu, em 1994, em um acidente trgico, digno de um grande protagonista, a msica surtou. Saiu cantando por todos os lugares como se ainda pudesse encontrar seu par, em uma curva Tamburello, se refugiou em um disco da Som Livre a pedido das pessoas, que precisavam dela para se lembrar dele, e virou, ao mesmo tempo, um canto de lamento e alegria. Naquela poca, no tinha download e todo mundo queria ter a msica em casa! Me pediam o tema em fita K7, gravavam direto da TV, botavam em casamento, poltico usou, foi uma loucura!, diria Eduardo Souto Neto. Era o que restava de um dolo.

E assim ela, embora em silncio por no mais vencer na F1, se fez forte, evidente entre os brasileiros, e de Tema da vitria passou a ser chamada pelo nome dele, Tema do Senna - s voltando s pistas seis anos depois, em 2000, com Rubinho Barrichello cruzando a linha de chegada em primeiro lugar. Tempo de luto - no necessariamente superado para muitos fs do automobilismo. Pessoas que ainda nos dias atuais no entendem por que toc-la para outro piloto, e que acreditam, nos momentos de saudade, que a cano vaga at hoje desnorteada por a.



O pernambucano Arnaud Rodrigues esteve no estdio com Eduardo Souto Neto e o Roupa Nova no por ser comediante e ator, e muito menos por cantar no grupo musical Baiano & Os Novos Caetanos,* mas porque estava  frente da direo musical de Os Trapalhes e o Mgico de Orz. E pode-se dizer que ele e o resto da equipe estavam de muito bom humor.

- Isso aqui no  um conjunto!  um convento! No rola uma bebida, uma maconha, nada?

- P, eu tomo meu usque. Ricardo, Kiko e Nando tambm bebem...- tentou argumentar Paulinho.

J Serginho era incisivo:

- Quando a gente grava, ningum bebe. Ainda mais na gravao dos outros!

- T bom, t bom... No precisa ficar bravo. Mas ! Eu ainda vou ver no jornal a notcia: Roupa Nova  preso nas ruas de Manaus portando potinhos de mel e guaran em p! - finalizou Arnaud, morrendo de rir com a banda, sem deixar de ter sua razo.



- , no tem grana! Mas quem quiser fazer arranjo, a orquestra est  disposio - avisou Dario Lopes para os msicos da Globo.

- P, Dario, legal isso. Eu quero - falou Cleberson, baixinho, e um pouco acanhado, para o maestro, no final do dia.

- Tem a abertura dos Trapalhes. Quer tentar?

- Posso?

Dali o tecladista saiu com a bela misso de musicar o quarteto formado por Didi, Ded, Mussum e Zacarias. Tenho que mandar bem nesse negcio, pensou o mineiro, dando uma olhada a caminho de casa na descrio da abertura - ansioso para comear. J imaginando em sua mente como poderia abrir esse tema. Vou comear em d maior, depois vou fazer um troo rebuscado, diferente... Ao chegar em casa, nem foi jantar. Encarou o piano, com folhas e lpis, caprichando nas partituras! E ele entregou a abertura j no dia seguinte, junto com outros pseudomaestros que tambm haviam levado tarefas para casa. Todo orgulhoso de ter feito um trabalho rebuscado. Acho que foi bom! Ai, tomara que eles gostem. Aquele final custou a sair e...

- De quem  esse arranjo, hein?  seu? - perguntou o spalla,** interrompendo os pensamentos de Cleberson.

Achando que seria elogiado, este arrumou os culos, estufou o peito e com um sorriso na cara respondeu:

-  meu!

- Olha s, v se da prxima vez voc complica menos, t? A gente rala pra cacete, ganha pouco e ainda tem que entender o que voc quer dizer!

- ...

- Sem contar que a gente ainda toca hoje no Municipal!

- ...

E saiu de perto de Cleberson, fulo da vida, em direo  orquestra. O mineiro continuou ali, parado, tentando entender o que ouvira. E s acordou com a frase do maestro Eduardo Lages:

- T comeando, n?

- Ah.

- Vou te dar um conselho: fica dentro das cinco linhas que voc no erra nunca!



- Esse acorde no t legal, no, Cleberson - comentou Geraldo Vespar, antes de passar a partitura para a orquestra.

- No? Mas como voc quer a armao desse acorde? Eu no t entendendo! Escreve pra mim? Bom que eu aprendo.

- Presta ateno: v de onde na msica voc t vindo! Se vai para um l maior, de qual acorde voc veio antes? O l maior voc pode fazer de vrias maneiras, no ? Tem que dar um encadeamento harmnico!

- T, t... Vou tentar aqui. Mas de resto, t OK?

- Hum... Menos isso - apontou ele para um trecho da pauta.

- Mas, maestro, eu quero assim!

- S que no vai sair desse jeito! Escreve dessa maneira aqui... - disse Geraldo, rabiscando com o lpis em cima das anotaes. - Eu sei que o que eu escrevi no foi o que voc pensou, mas confia. Vai dar certo!

- Isso no faz o menor sentido - resmungou Cleberson, antes de ver a orquestra tocando aquela passagem exatamente como havia imaginado.

Isso  maluquice..., pensou ele - o mesmo menino que no entendia, nas aulas de dona Glria, o porqu de tocar semicolcheia se na partitura estava escrito colcheia. Mas ele iria continuar tentando. E para escrever seus arranjos pediria ajuda para os maestros todas as vezes que fosse preciso! Repetindo com insistncia para si mesmo: Tem que sentir a msica, tem que sentir...



- Pediram pra gente tocar mais um dia! Pediram pra gente vir na quinta.

Nando deu a notcia para o grupo.

- Tambm... A gente t gravando com todo mundo! - comentou Feghali.

- E a, vamos?

Para os msicos, a orquestra continuava interessante. O horrio era compatvel, eles aprendiam bastante, tinham contato com funcionrios da Globo e com outras pessoas que circulavam por l - o que poderia render outros trabalhos - e o salrio estava legal. Os maestros adoravam a versatilidade do grupo, que tocava os sucessos, pop, rock, baio, samba e o que mais precisassem - com uma pacincia, um conhecimento e um jogo de cintura que s poderia ter vindo dos bailes.

Pintava todo tipo de msica para eles fazerem. Gravaram uma das aberturas do Fantstico, do Chacrinha, do Vdeo Show, do Jornal Nacional, tema do Pra Frente Brasil e at o barulhinho da vinheta da rede Globo saiu de um dos teclados do Roupa. Os maestros faziam questo de separar todos os seus temas para serem gravados na tera, enquanto os msicos dos outros dias ficavam de bobeira em seus horrios.

A vida dos seis integrantes era nos estdios. Das 9 s 14h30 estavam no Level, das 15 s 20h30 na RCA, e das 21 s 3 horas da madrugada, na maioria das vezes, na Polygram, fazendo o disco de outras pessoas. Isto quando eles no ultrapassavam o horrio combinado com a Globo para gravar com os maestros. Ter mais um dia na emissora poderia aliviar essa ralao de tera. Ou talvez piorar.

- Vamos, n? - repetiu Nando.

E, no fundo, eles j sabiam essa resposta.



Na sada da Oswaldo Cruz para a praa Marechal Cordeiro de Farias estenderam-se 2.700 metros de cimento. Uma famosa avenida, inaugurada em 1891, que por pouco no se chamaria Accias ou Prado de So Paulo. Significado de expanso, limite entre as zonas Centro-Sul, Central e Oeste, repleta de empresas, bancos, consulados, hotis e hospitais. Avenida agitada de uma cidade que nunca dorme, e que no poderia ter nome mais adequado do que Paulista.

Cenrio perfeito para contar a trajetria do bancrio Alex Torres, vivido por Antnio Fagundes, em uma das minissries da TV Globo de 1982. A produo Avenida Paulista, dirigida por Walter Avancini, tinha como um de seus focos explorar ao mximo as nuances de So Paulo, e Jlio Medaglia seria o maestro convocado para dar seu som, e ele contaria com os seis rapazes.

Foram dias de gravao, nos meses de abril e maio - verdadeiras aulas para o Roupa Nova.

- Gente, a cena  esta aqui: uma festa, pessoas falando ao mesmo tempo, burburinhos e tal. S depois disso  que eles vo apresentar o Fagundes - disse ele certa vez, enquanto rasgava o jornal no sentido vertical, deixando tiras de quatro dedos, e distribua, para todos, os pedaos com meias palavras. - Bom, vamos gravar esse falatrio, OK? Vocs comecem lendo de cima pra baixo, sem terminar o que eu rasguei. Se era amanh e ficou aman depois de rasgado, leiam aman. Acabou o jornal? Comecem tudo de novo. Estamos entendidos?

Assim, ele regia, subindo e descendo a mo, aumentando e diminuindo o volume dos rudos. Sua feio mudava, eles sussurravam, seu movimento era rspido, o alarde crescia. Lia, gravava e voltava numa repetio cadenciada e envolvente, da calmaria  tenso. Um trabalho em conjunto, uma clula pensante, barulhenta e incoerente de seis vozes.



- Vamos embora? - perguntou Kiko, sorrindo, para seu filho, aps descer da poltrona da frente do Chevette, parado no Leblon.

Era tarde da noite e o guitarrista, exausto aps o show do Roupa Nova no Casa Grande, no via a hora de chegar em casa. At porque, no dia seguinte, cedinho, s 9 horas da manh, ele teria que estar no estdio da Globo, gravando. No entanto, como ficar cansado ao ver Kikinho andando vagarosamente em sua direo, imitando seus gestos no palco, como se tivesse segurando uma guitarra? Esse garoto  demais, pensou ele, se divertindo com a cena, antes de conduzi-lo, todo desengonado com seu andar de 3 anos, para dentro do carro.

Era dia 21 de abril de 1982, plena quarta-feira, daquelas que atrapalha qualquer carioca de emendar o feriado de Tiradentes. E o trnsito, naquele horrio, j entrando na madrugada, prometia ser nulo. Vou pegar o Rebouas que  mais rpido, pensou Kiko, assim que ligou o carro, sem se lembrar de que depois da meia-noite o tnel estaria fechado no sentido Zona Sul-Zona Norte para servios da Prefeitura, e ele teria que dar a volta em seu caminho para pegar a avenida Brasil.

- Entra na rua atrs da igreja pra gente pegar a Voluntrios - lembrou Suely, quando Kiko j posicionava o carro para poder atravessar e ir para a casa.

A rua estava vazia, sem movimento, e rapidamente ele desenhou a nova rota em sua cabea. Iria pegar o Aterro do Flamengo, o elevado e... Brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr! Cantaram alto os pneus de um Opala, aps uma freada brusca, que por pouco no bateu em sua traseira.

- De onde esse carro veio?

- No sei, Suely, no sei - dizia Kiko, apreensivo, tentando ver quem estava dirigindo daquele jeito. Engraado, parece um dos caras que vo l na Globo e...

- , filho da puta! Seu merda! Sai da frente! - berrava o motorista do Opala, j embicando o carro para passar Kiko.

Um moreno mal-encarado, de terno e gravata, acompanhado de um amigo, que soltava coisas ainda piores - to simptico quanto ele. No conheo, no, concluiu Kiko, de cara fechada, ao ver o carro passando em alta velocidade, enquanto Suely, assustada, pedia: Meu filho, fica quietinho, a!

O Opala seguiu e o guitarrista achou que j dava para continuar viagem.

- Passou, Suely, passou - disse encostando a mo na perna de sua mulher, tentando acalm-la.

E assim pisou no acelerador de novo para entrar na Voluntrios.

- Kiko, cuidado! - gritou Suely ao ver o mesmo Opala dando uma fechada violenta no Chevette.

- Puta que pariu... - reclamou sozinho Kiko ao perceber o que estava acontecendo.

Os homens no tinham desistido dele e, agora, nitidamente, haviam voltado para provocar - em uma rua deserta e longa o suficiente para se tornar uma bela pista de corrida. Eles aceleravam, freavam, riam enquanto jogavam o carro para cima do Chevette, quase batendo do lado de Suely.

- Kikinho, deita! Vem c pro meu lado! - mandava Kiko, desesperado e aos berros, para o filho, j com o Opala tocando no Chevette.

Os homens se vangloriavam cada vez mais do terror no rosto de Suely e no dele. A Voluntrios da Ptria parecia no ter fim, e Kiko no tinha a menor ideia de como sair dali.

- Kiko, ele t forando pra passar. Tem um nibus parado ali na frente!

- Ele  que se dane! - disse o guitarrista, pisando o mais fundo possvel no acelerador.

E ultrapassou o nibus, deixando seu perseguidor para trs. Livre de suas ameaas, mas ainda com o sangue fervendo. Sem dar um pio para mulher ou o filho, mas bufando de dio por dentro, sentindo que ele poderia ser alcanado pelo Opala a qualquer momento, mas e a? O que ele faria? Como reagiria? Kiko j nem mais pensava e apenas seguia pelo Aterro.

Nunca se sabe o que irrita as pessoas, o que faz com que elas percam a cabea, qual ser o estopim para disparar todos os receios, raivas e agonias de um homem. Mas, naquele dia, pelo menos para Kiko no deu para segurar. No mais. E, parado no cruzamento da avenida Oswaldo Cruz, ainda no Aterro, ao ver do seu lado aquele maldito Opala, emparelhando novamente, no pensou duas vezes.

- Kiko aonde voc t indo?

Enfurecido, o guitarrista desceu do carro, abriu uma das portas do Opala e pela gravata arrancou de l um dos homens, que voou para o cho. Kiko partiu para cima dele, dando um soco atrs do outro. O rapaz tentava se defender com os braos, como se desejasse furar os olhos de Kiko mas, sem alcan-lo, conseguia deixar no corpo dele somente arranhes. O motorista, irritado, saiu do volante e chegou por trs dele com uma chave de brao, mas Kiko no caiu. Muito pelo contrrio! Avanou no outro homem, o jogando para cima do Opala, como se estivesse apenas comeando a brigar - batendo com gana, com vontade de matar, se fosse preciso.

Foram murros incansveis, no meio da rua, com os dois carros parados na escurido - sem mais ningum se meter. O vento gelado da enseada de Botafogo soprava na nuca dos poucos que assistiam  cena, e no existia barulho mais alto no Aterro, naquele instante, do que a raiva de Kiko. Ele gritava, urrava, enquanto batia e se defendia. E s depois de ver os dois homens sem rir mais, estirados no cho,  que ele, cansado, com o peito lanhado, dolorido e de respirao pesada, resolveu voltar para o Chevette.

Entrou, sem olhar para o rosto de seu filho. Bateu a porta, sem encarar Suely. Ligou o carro e partiu.



- Que cara  essa? - indagou Paulinho ao ver Kiko chegando ao estdio Level para gravar mais uma vez com Jlio Medaglia.

O trabalho naquele dia seria sobre uma das cenas mais fortes do seriado Avenida Paulista, na qual o milionrio Frederico Scorza - vivido por Walmor Chagas - tentaria passar com um trator, literalmente, por cima do fusquinha de Antnio Fagundes. Alm das diferenas financeiras existentes entre os dois personagens, j naquele trecho da histria, Paula, a amante de Frederico interpretada por Dina Sfat, seduzia e se envolvia com ambos. Transformando aquele duelo de motores em um episdio de cime, inveja e humilhao.

- Ah, cara, ontem  noite foi foda...

- Que roxo  esse aqui no seu ombro? - indagou Feghali, se aproximando.

- Putz, no encosta, no. T tudo doendo. No t conseguindo nem virar de lado.

- Kiko, desembucha logo! Voc t todo machucado! - insistiu Nando.

- T bom, t bom... Ca na porrada com dois marmanjos.

- Como  que ? Quando foi?

Nisso, os integrantes do Roupa Nova, alm de Jlio Medaglia, j estavam no estdio ao seu redor. Todos querendo ouvir, afinal, o que tinha acontecido com o guitarrista.

- Depois do show, acredita? Fui fazer o contorno pra pegar a Voluntrios, estava parado, esperando para atravessar quando apareceu um Opala. A o cara...

Kiko ento comeou a contar o caso: freada na traseira do Chevette, perseguio, zombaria dos homens, o que ele sentiu, sua mulher, seu filho... Tudo recente em sua cabea. Por isso, quanto mais ele falava, mais nervoso ficava, como se estivesse vivendo tudo outra vez. Seu tom de voz j era nervoso, alto, bravo. Sua pele, avermelhada, com as veias saltando do pescoo.

-... eu peguei o cara e...

- Pega a guitarra! - bradou Jlio Medaglia, passando o instrumento para as mos do guitarrista.

- Pera, Jlio...

- Liga, liga!

- Jlio...

- Anda, caramba! Liga e toca essa porra! - gritou ele, jogando a ala da guitarra para trs da cabea de Kiko, posicionando o instrumento na sua frente.

E Kiko, sem falar mais nada, apenas encarou Jlio, antes de fazer o que o maestro tanto queria: partir para cima da msica.

- O CARA T TE XINGANDO! T jogando o carro em cima do teu filho!

Seus dedos corriam com velocidade as cordas da guitarra, que gemiam, berravam frenticos sons. Desconexos, violentos.

- Ele riu da sua mulher, fez chacota com seu desespero! Ele t se divertindo Kiko...  sua custa!

E a guitarra respondia rasgando os acordes, quebrando a ordem, a harmonia.

- A voc pegou ele pela gravata! - gritava Jlio, enquanto sacudia as mos com dio, como se ele tambm estivesse sentindo, como se aqueles homens estivessem ali.

- FAZ BARULHO, KIKO! O cara t te batendo!

O agudo rompia a sala do estdio com voracidade, com presso. E um solo visceral tomava o ambiente, as pessoas - estticas. O suor do guitarrista descia pela testa, seus olhos fechados no acompanhavam seus movimentos, e suas pernas bambeavam, ah, como bambeavam... At ele no mais aguentar.

E, aos poucos, Kiko foi retomando seu estado natural e o som foi ficando pelo caminho, sem voltas, sem estmulo, sem fora para ento cessar. Dando espao, enfim, para o silncio. Catrtico e pesado silncio.

- Agora vai embora - disse com calma Jlio para Kiko, que respirava ofegante, sem se mover. - Eu te usei muito hoje - completou o maestro, tirando a guitarra, levemente, de suas mos.

Na cena de Avenida Paulista, que foi para o ar em 1982, Jlio inverteu o som, desconstruiu a no estrutura de Kiko e fez uma sequncia de udio incrvel para o trator que amassava o fusquinha. Ali, naquele seriado, eu evolui uns 15 anos, diria o guitarrista anos depois.

E ainda acrescentaria com gosto ao se lembrar daquele dia: Jlio Medaglia... Acho que nem se lembra mais da gente. Mas eu me lembro muito bem. E sei o que ele fez por mim.



Em reunio do Roupa Nova, Nando chegou com a notcia.

- Pediram pra gente tocar mais um dia!

- Hein?

- Como assim? - perguntaram Kiko e Serginho quase ao mesmo tempo.

-  isso o que vocs ouviram - disse Nando, com aquela cara de deciso difcil.

- P, a vai pegar pro nosso lado, n? - reclamou Paulinho.

- , tambm t na dvida. No vai dar pra gente conciliar as agendas. E o Roupa Nova  prioridade! Ou no? - pontuou Feghali, olhando ao redor e esperando uma resposta positiva.

- Tambm t achando isso... Talvez seja melhor sair.

Nando e os outros integrantes da banda aprenderam muita coisa nas gravaes da Globo, durante os quase dois anos que estiveram l, como contratados ou terceirizados. Alm da nossa criatividade, 60% da nossa capacidade de tocar tantos tipos de msicas diferentes vm dos bailes, mas 20% vm da rede Globo!, diria Serginho anos mais tarde.

O baterista, assim como o restante do grupo, buscou em sua forma de tocar o jeito certo de passar sentimentos, muitas vezes dspares, entre uma passagem e outra; fosse gravando um tema apaixonado para um musical, uma melodia caipira e divertida para um seriado, ou um clima tenso para uma novela... Enfim, um trabalho, que para o telespectador seria invisvel. Como se tudo que acontecesse ali, naquele aparelho quadradinho chamado TV, fosse mgico.

S que a Globo, apesar de proporcionar aprendizado, comeou a tomar muito tempo deles. E a pergunta sobre a qual eles deveriam pensar passou a ser outra: os garotos queriam ser, na verdade, seis msicos ou uma banda?



Notas

* Quadro humorstico da TV Globo, com participao de Chico Anysio, em que ele interpretava o cantor Paulinho Cabea de Profeta

** Spalla  o instrumentista responsvel por afinar a orquestra antes da entrada do maestro.



CAPTULO 20

O SUCESSO DA CIDADE

Mariozinho ouvia a rdio o tempo todo. Ele e todos os produtores. S que ele era chegado a mim e mais inteligente.

Clever Pereira

A rdio Cidade completa neste 1o de maio o seu quarto ano de existncia e praticamente o mesmo tempo de liderana absoluta de audincia entre as emissoras de FM do Rio. Afinal, quinze dias depois de sua criao, as pesquisas do Ibope j lhe davam um surpreendente e invejvel primeiro lugar, posio que desde ento jamais perderia.

Foi o que saiu na matria do Jornal do Brasil, naquele dia 1o de maio de 1981, sobre o aniversrio de quatro anos da rdio Cidade - unanimidade no Rio de Janeiro e tambm presente, naquele instante, em outras capitais. A banda que entrasse no dial 102,9 MHz da FM e ganhasse a confiana dos locutores como promessa musical viraria sucesso, principalmente entre o pblico jovem. Afinal, no incio dos anos 1980, de fato, eram eles quem ditavam as modas e os hits das pistas de dana, tornando-se o foco de muitos msicos, empresrios e produtores.



Seu nome era Fernando e, quando mais novo, desejou ser padre - antes de ingressar no curso de letras e se formar para ser professor. Mas nada seria melhor e despertaria tanto a sua ateno como aquele aparelhinho sonoro e mgico chamado rdio. E com ele  que Fernando realmente ficaria. Um rapaz barbudo, magro, de pele clara, com um metro e oitenta e cinco de altura, culos e uma voz de estremecer quarteires - embora tivesse um andar leve e uma paz interior que pareciam vir l das montanhas de Ponte Nova (MG). E ele ganhava os ouvintes na rdio Cidade com mensagens de alegria, comentrios perspicazes ou bordes.

Tudo estava bem para o locutor em 1981 - h cinco anos sem fumar, bebendo pouco, sem comer carne e com dez quilos a menos de seu peso. E o caminho para a rdio passou a ser um passeio pelas ruas do Rio de Janeiro, cidade ensolarada, colorida e repleta de rvores e brisa.

- Puxa, o sol est solto! - disse ele um dia ao olhar para o cu, em seu trajeto.

E repetiu a frase ao entrar no ar, transformando aquele momento de contemplao em outro bordo. Afinal, tudo o que vinha daquela emissora colava que nem chiclete. Porm, aquela frase - simples e natural - seria mais ambiciosa que as outras e, sem Fernando Mansur perceber, iria mais longe: se tornaria msica.



- Mansur, a gente quer lanar uma campanha no vero com o seu bordo! - disse o responsvel pelo marketing de promoes da rdio para o locutor.

- Qual?

- Vai ser: O sol est solto no Brasil inteiro com a rdio Cidade! Vamos fazer adesivos, psteres, camisetas, brindes! S que precisamos comprar os seus direitos. Tudo bem pra voc?

- Claro! Pode usar.

Direitos cedidos, campanha pronta para ser realizada no prximo vero.



- Clarear, baby, clarear? - questionou Tavynho Bonf, compositor, ao ver a letra de Mariozinho para a sua melodia.

- O que  que tem, Tavynho?

- Ah, Mariozinho... Baby?

- Baby! Qual  o problema?

- Eu no gostei dessa palavra, no. Essa msica no  popularesca!

- Ah, vai pro inferno, Tavynho!



- Escuta essa msica! - sugeriu Mariozinho a Clever Pereira.

Ambos estavam mais uma vez em um bar, para falar sobre o trabalho do Roupa Nova. E naquela ocasio se tratava do segundo disco de carreira da banda.

- Clarear? - perguntou o coordenador, j desconfiado sobre essa prvia.

A Cidade tinha uma identidade com o vero carioca pelo esprito descontrado dela, e a audincia sempre subia nesta estao. Mariozinho tinha feeling, um radar ligado na emissora, e sentia que a rdio iria fazer alguma coisa naquele vero. Mas aparecer com uma cano chamada Clarear?

Quando no houver

Mais o amor

Nem mais nada a fazer

Nunca  tarde

Pra lembrar

Que o sol est solto

Em voc

- Pra! O sol est solto? - disse Clever.

- Er... T. Eu sei e...

- Mariozinho, por favor, no vai me arrumar problema!

- Calma! Eu vou ligar pro Mansur!

- Pro Mansur e pro resto da rdio!

- T, t, t... Deixa comigo! - disse ele, virando a cabea para baixo, como se procurasse alguma sujeira na toalha da mesa, esperando o susto do coordenador passar, para ento voltar os olhos para Clever. - Mas e a... gostou?

E Clever, por mais que no quisesse dar o brao a torcer...

-  do caralho!

Todo mundo ouvia rdio Cidade naquela poca. A diferena  que Mariozinho no s ouvia, como sabia usar isso a seu favor.



- Mansur, quero usar sua frase!

- Oi, Mariozinho! Qual delas?

- O sol est solto!  para uma msica do Roupa. Posso?

- Srio?

- Srio! E a? Posso? Te dou o crdito embaixo.

E Fernando Mansur, feliz da vida:

- Pode!

Direitos cedidos, msica pronta para lanar. E, embora fossem esquecidos os crditos de Mansur, o locutor lembraria por toda vida com saudade e carinho daquele sol e daquela cano.



Hum... Clarear tem que ter um clima de festa, de vero carioca..., pensava Mariozinho, enquanto dirigia sua caminhonete em direo  gravadora. Um produtor baixinho que sempre gostou de carros grandes e ideias mirabolantes. R! J sei!, falou sozinho, pisando no acelerador para chegar mais rpido ao seu destino.

- Ariza, liga para o Clever! - pediu ele para sua secretria, ao chegar, indo direto para sua mesa.

- Clever, vamos fazer uma festa dentro do estdio pra Clarear!

- Mas o Roupa j no gravou?

- Gravou! Mas falta o clima! Eu vou ver bebida, comida e tal. Chama todo mundo da rdio!

- Qualquer um?

- , u! Tem que ter jeito de festa. Se eu quisesse nego afinado eu contratava profissional.

Quanto mais o pessoal da rdio Cidade estivesse envolvido com a msica, melhor! Seria sucesso para todo mundo. E aquela era a desculpa perfeita para estarem, mais uma vez, juntos. Sendo assim, o produtor agendou os preparativos e comunicou o Roupa Nova sobre o que fariam, dando incio  gravao do clima dias depois. Clever levou amigas para fazer o coro feminino, enquanto Maurcio Alves, amigo dos msicos do Roupa e comissrio de bordo, convidou aeromoas e levou uns cinco garrafes de vinho que tinham sobrado do servio de bordo.

Um garom serviu a bebida, deixando todos  vontade; e as pessoas, aos poucos, iam lotando o estdio, no importando se eram fs da rdio, conhecidos, amigo do amigo, ou funcionrios da gravadora. Estavam presentes locutores da Cidade, como Marco Antnio, Srgio Luiz, Ivan Romero e Fernando Mansur, alm de Ariza e Renato Ladeira, ex-integrante de A Bolha, que trabalharia com Mariozinho como produtor por dez anos. Todos cantando, batendo palma e fazendo o clima, no dia 17 de maro de 1981. E assim nascia a primeira msica de trabalho do Roupa Nova, do segundo lbum, que seria j cantada na festa da rdio Cidade no Arpoador, quatro dias depois, lanada antes do disco inteiro, ainda em novembro de 1981 - aproveitando a campanha de vero da rdio Cidade. Mais uma ao certeira com a FM 102,9 que, apesar de no se refletir em venda de discos (em torno de 15 mil, nmero baixo para a poca), seria outro sucesso de execuo do grupo iluminado pelo sol.



Lumiar tambm entraria no segundo disco do Roupa Nova, seguindo a tendncia de Mariozinho de pegar as msicas dos mineiros. A cano de Beto Guedes e Ronaldo Bastos foi lanada no disco de Beto de 1977 e se tornou um dos hinos da juventude cabeluda paz e amor e pr-natureza. No entanto, com o Roupa, Mariozinho acreditava que a msica poderia ganhar uma verso mais robusta, tornando-se, ento, a segunda msica de trabalho do grupo, em 1982.

Na mesma linha, entrariam Estado de graa com letra de Fernando Brant; Faz a minha cabea com versos de Ronaldo Bastos, e Simplesmente, de Milton Nascimento e Fernando Brant - uma composio que falava do amor suave por uma menina, que acalma e ilumina.

Sentar na varanda da casa

A lua dentro dos olhos

Deixar as coisas do mundo me encantar

S no se sabe exatamente para quem essa cano de Milton e Brant foi originalmente criada. Para Fernando, a msica foi feita em uma tarde e mandada para o Roberto Carlos, mas no deu certo no disco do Rei. J para Bituca... No me lembro disso. Na minha cabea ela sempre foi para o Roupa. Tanto que eu nem gravei depois!, retrucaria ele sobre a cano.



- No, no, isso no! - disse Erasmo Carlos, rabiscando em um papel e com o violo no colo.

Aquela j era a milsima vez que ele sentava para tentar terminar uma cano. Mas nada! Tudo bem que o tema era polmico e poderia dar mais trabalho. No entanto, aquela obra j passava dos 90% de transpirao e tirava sua pacincia.

- Cacete! T difcil isso aqui...

E levantando da poltrona, ele desistiria mais uma vez.

Dias depois, o telefone de Erasmo tocou. Do outro lado da linha, Mariozinho.

- E a?

- Ah, bicho, t complicado. Vamos fazer o seguinte: vocs gravam o playback que eu vou aprontado a letra, pode ser?

- Tudo bem!

E na semana seguinte o Roupa Nova recebeu uma fita com o la r r r indicando como Erasmo pensara a cano. E o esqueleto da msica ento foi gravado, sem letra por cima.



- Vamos l! No  possvel! L r r... - entoou Erasmo em sua casa, disposto a finalizar aquela encomenda, tocando no violo a melodia, esperando vir A inspirao. - P, a msica ficou legal...

Uma levada gostosa, que se parecia com Love Will Keep Us Together, da dupla americana Captain & Tennille. At que ele parou, olhou para cima e comeou a pensar alto.

- Uma mulher perfeita na praia, mas que  homem... Como  que eu conto essa histria?

E ali ele ficaria por algumas horas, at largar o violo novamente.

Passaram-se mais alguns dias e, dessa vez, ele atendeu Serginho no telefone:

- Erasmo, temos que acabar o disco! S falta essa.

- Cara, sinto muito... Mas a letra no t pronta.

- Sem chance?

- Infelizmente, acho que no.

- Putz... T, a gente d um jeito aqui.



Com a desistncia de Erasmo, o Roupa Nova ento assumiu a msica. Serginho e Ricardo Feghali trabalharam em cima da harmonia do roqueiro, e Mariozinho, mantendo o tema gay proposto por Erasmo, escreveu uma letra provocativa e bem-humorada com o nome Vira de lado.

Vira de lado

Que esse lado eu no quero mais

V se troca o disco,

Coisa que h muito tempo voc no faz

Um lado brincalho do Roupa Nova que se encaixava perfeitamente no esprito jocoso de Mariozinho, embora no fosse a caracterstica principal da banda. Um tipo de humor que o produtor exploraria muito nos anos 1980, a partir de 1983, ao produzir outro grupo, chamado Blitz.

No Roupa Nova, Vira de lado se tornaria sucesso por causa dos shows, com as performances de Paulinho - virando a bunda para a plateia, desmunhecando e fazendo vrias poses sacanas. O vocalista chegou a usar uma bunda de plstico de carnaval, em cima da roupa, dando mais fora para a msica e reforando as dvidas do pblico quanto  sua masculinidade.



Enquanto isso, Erasmo, j sem prazo de entrega, continuou batalhando pela msica.

- T, eu vou narrar uma situao... Mas como eu chego  concluso, no final, de que ela  um travesti? Se a praia inteira estava sendo enganada, como vou livrar minha cara?

E nada! At ter uma pista de como poderia ser a cano:

- Hum... Eu sou um cinegrafista e narro tudo o que vejo pela minha lente. Mas, e o final?

E ele ficaria com essa pergunta por mais uns trs meses, procurando nos detalhes do seu dia a dia uma pista da resposta. Doido para usar aquela harmonia de que havia gostado tanto. Porm, sem um desfecho digno de apresentar.

At que um dia essa aflio chegou ao fim, graas a uma musa nada convencional. Erasmo, acompanhado de Nara, estava em um baile de Carnaval no Morro da Urca quando a avistou entrando no camarote: Roberta Close, a travesti mais famosa do Brasil.  isso! Agora eu acho esse final. E, disfaradamente, ficou olhando para ela, em busca de um sinal. Foi a que ele escuta sua cunhada, Sheila, comentar maliciosamente:

- , mas olha o tamanho do p!

E Erasmo, espantado com a sagacidade feminina, olhou para os ps. E escutou, mais uma vez, Sheila desmascarar aquela mulher perfeita.

- E o gog? Tem gog!

E fez-se a luz.

Naquela noite, ao chegar em casa, Erasmo no dormiu. Foi direto para o violo:

No fosse o gog e os ps

A minha lente entrava na dela,

No ponto da mulher nota dez

D um close nela

Uma msica que se chamaria Close, o maior hit do disco do roqueiro Buraco Negro, em 1984, no LP de arranjo de Cleberson Horsth. Se voc pegar o playback deles e cantar o Close em cima, vai ver que  igual!, diria Erasmo sobre a cano - lanada dois anos aps de Vira de lado com o Roupa Nova. A mesma harmonia, o mesmo tema gay, e dois sucessos.



A mensagem de final de ano da rdio Cidade de 1979 fez tanto sucesso que, em 1980, a emissora resolveu relanar o mesmo hit, gravado pelo Roupa Nova. No daria para colocar no ar qualquer coisa, s para tampar buraco. At porque as outras rdios passaram a imit-la, fazendo tambm suas mensagens. E por isso seria melhor guardar suas fichas para 1981.

Porm, o que eles no contavam  que iriam enfrentar Romilson e Sandoval na Antena 1 como concorrentes. Uma rdio que comeava a encostar na Cidade, no Ibope, e que poderia ganhar a audincia com uma mensagem de final de ano arrasadora. Quem fizesse melhor, poderia detonar a outra rdio, destruir, pisotear, massacrar, como se estivesse em uma batalha final. Bom, pelo menos era como Clever Pereira enxergava aquela situao.

E como um verdadeiro guerreiro, desesperado, levando s ltimas consequncias, Clever decidiu arriscar tudo, jogar alto, enfiar a espada goela abaixo dos dois locutores que haviam abandonado a Cidade. E, para isso, escolheu uma cano de Villa-Lobos como a melodia de seu triunfo, e ousou ao colocar sua letra em cima daquele conclamado compositor erudito.

Eu toco Roupa Nova e Villa-Lobos!, pensava ele, enquanto se virava em trocentos rascunhos da cano, revisados incansavelmente por Ivan Romero, at chegar  verso final. O nico problema  que tanto o arranjador quanto os msicos que Clever queria tambm haviam sido chamados por Romilson e Sandoval: Eduardo Souto Neto e o Roupa Nova.

- Deixa eu fazer! Voc confia em mim? - pediu Eduardinho para um Clever desconfiado e nervoso com tanta presso.

- Ai, cacete... Confio, vai, pode fazer.

- E quanto ao Roupa, relaxa! Msico no tem dessas coisas.

Com tantas pessoas em comum na produo, a tendncia era de que o segredo vazasse, por mais que as informaes tivessem sido escondidas at dos locutores. Porm, isso no aconteceria at a data prevista por Clever, e a magnitude da rdio seria mantida no mercado.

O compacto Trenzinho do Caipira (Novos Tempos)* seria lanado no dia 21 de novembro pela CBS, com msica de Villa-Lobos, de Clever Pereira, arranjos de base do Roupa Nova, arranjo vocal de Fernando Adour e o orquestral de Eduardo Souto Neto. Mistura do clssico com o pop, do erudito com o moderno - do jeitinho que Clever e sua equipe gostavam.



Apesar das inmeras execues do Roupa Nova na rdio Cidade, ainda existia uma briga de influncias nas internas da emissora, entre a banda chefiada por Mariozinho Rocha e o timao de msicos de A Cor do Som. Para o produtor, era importante que o grupo tomasse o lugar dos baianos na FM e, por isso, ele passava horas queimando a mufa com possibilidades. Afinal, tudo em que a rdio botava a mo, virava ouro. E a Cidade j havia contribudo muito para a carreira de A Cor do Som, no passado, como fazia agora com o Roupa Nova, em 1981.

O superintendente Carlos Lemos e Carlos Townsend - que assumiria a coordenao da rdio de So Paulo -, por exemplo, faziam gosto de A Cor do Som para agradar um pblico mais elitizado. Ao passo que Clever Pereira e a equipe de locutores abraariam as canes do Roupa Nova, sem qualquer preconceito quanto  origem dos integrantes, entretendo as mesmas pessoas que escutavam A Cor do Som e quebrando algumas barreiras existentes em relao  banda.  bvio que tinha uma amizade, mas tudo acontece primeiro por algum interesse. E, se a gente tocou o Roupa, o mrito  todo deles, conta Ivan Romero.

Assim, por causa desse cabo de fora interno, seriam escalados para o show de final de ano da emissora, no Morro da Urca, entre outros nomes, dois grupos em especial. E no era preciso nem contar para Mariozinho quais eram.



Bye-Bye 81 foi o nome da festa que a Cidade armou no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, para os dias 26 e 27 de dezembro de 1981. Um rveillon antecipado que comearia s 20 horas e teria A Cor do Som, Biafra, Marcelo, Jnior, Guilherme Arantes, Fbio, Dalto e Roupa Nova.

A Cor do Som abriu o show para cerca de 2 mil pessoas, apesar do mau tempo do final de semana, interpretando as msicas do seu ltimo LP Mudana de estao. Em seguida, vieram os outros artistas mantendo o clima agitado da plateia e o ritmo das palmas. Para s ento chegar a vez do Roupa Nova, com os sucessos Cano de vero e Clarear. Chamando o pblico para cantar junto, atiando quem estava parado, fazendo uma verdadeira festa!

Depois, eles ainda se juntariam  Turma da Cidade e juntos, no palco, todos cantariam O Trenzinho do Caipira. E teriam que repetir a dose, j que o pblico continuaria entoando a mensagem com o pedido de bis, naquele grand finale!

Na sada, Nando, cansado mas feliz, descia do palco, quando um estranho apareceu lhe entregando um papel.

- Pediram pra te entregar.

E nele estava escrito, com garranchos, mas ainda assim legveis:

You are the Champions! Ass: Mariozinho.



O Jornal do Brasil, naquele domingo, dia 2 de maio de 1982, registrava:

A Cidade chegou  liderana absoluta das FMs - 34% dos ouvintes, 11% para a segunda colocada -, criou um lugar definitivo para a rdio entre os veculos de comunicao, marcou um estilo (...).

As msicas eram aquelas que no tocavam em lugar nenhum. Primeiro o beautiful disco com seus contratempos definidos (Our Day Will Come  um exemplo da msica tocada em 1977, marcando a alegria do comeo, conta Clever). Depois veio o funk, com seus baixos (a msica negra entrando forte, o grupo Sun como representante). E, depois de passar pelo rock moderno e a new wave, a Cidade chegou  tendncia atual (ou seja a de no ter tendncia nenhuma, bem no estilo de hoje em dia, acentua Clever), marcada tambm pela msica de brasileiros como Boca Livre, Gonzaguinha, Roupa Nova, Robertinho de Recife, 14 Bis e outros independentes.

Sim, foi por causa de uma mensagem de final de ano da rdio Cidade que os integrantes do Roupa Nova entraram para a histria da emissora. E s Mariozinho sabe o esforo que ele faria para manter esse lugar. No entanto, no seria apenas por isso que eles iriam ficar.



Nota

* O Roupa Nova tambm gravaria a mensagem de final de ano de 1982-1983 da rdio Cidade: Fruto da imaginao.



Paulinho (Bloco do Gelo - 1960)



Feghali e sua me Nilza



Nando



Serginho



Cleberson



Kiko



Cleberson aos 15 anos



Feghali tocando trompete com a turma da escola



Nilza, Albert, Jandira e Feghali



Kiko, Eurico, Cla e Carlinhos



Banda Os EREDAS. Da esquerda para a direita: Ismar no sax, Elias (escondido) na bateria, Ricardo (no  o Feghali) na guitarra em frente  bateria, Kiko na guitarra no meio, Denis na guitarra no canto, Roberto no rgo e Murica (Amaurilio) no baixo



Everson orgulhoso aps montar a bateria de Serginho



Baile de 15 anos com a Banda Half and Half, em Duque de Caxias-RJ (1968). Da esquerda para a direita: Paulo Roberto na guitarra, Jorge Alan (escondido) na percusso, Paulinho com as maracas, Z Roberto na guitarra, Urso na bateria, Lus Antnio no pandeiro e Reinaldo Perillo no rgo



Banda Sonho de Ouro. Em p, da esquerda para a direita: Kiko, Sergio Nagibe, Gilberto Gndara, George Barros. Sentados: Carlinhos (irmo do Kiko) e Edson Mello Jr.



Los Panchos.
 Da esquerda para a direita: Jandira, Kiko, Lus, Gean e Feghali.
 Na frente, Paulinho



Los Panchos. 
 Da esquerda para a direita: Walter Vilardi, Feghali, Jandira Feghali, Paulinho e Kiko



Os Famks.
 Em p, da esquerda para a direita: Kiko, Nando, Fef, Cleberson.
 Sentados: Osmar e Paulinho

SHOW DOS FAMKS NA DCADA DE 1970



Cleberson



Paulinho



Nando



Kiko



Nota da Revista Pop (1976)



Da esquerda para a direita: Fef, Paulinho, Nando e Kiko



Richard Young: pseudnimo de Ricardo Feghali em carreira solo (1977)



Capa do disco solo de Serginho (1978)



Volume 9 da Srie As 30 Mais, no qual a banda usava o pseudnimo de Os Motokas. Na capa: Myriam Rios



Volume 4 da Srie As 30 Mais, no qual a banda usava o pseudnimo de Os Motokas. Na capa: Rose Di Primo



Primeiro disco de carreira de Os Famks (1975)



Primeiro compacto dos Famks, Etiqueta Imagem (1972) Hoje ainda  dia de rock no lado A e A lenda da porca, composio de Nando, no lado B



Ensaio para capa do disco dos Famks, pela Odeon (1978). Da esquerda para a direita: Cleberson, Nando, Paulinho, Kiko e Feghali. Na bateria: Fef



Disco da Rdio Cidade com a mensagem de final de ano Bons Tempos, usada em 1979 e 1980 pela emissora. Foi na gravao deste EP que o produtor Mariozinho Rocha conheceu Os Famks e os transformou em Roupa Nova



O comeo da banda Roupa Nova (1980)

ROUPA NOVA NO INCIO DO ANOS 1980







Show da banda Roupa Nova com a equipe da Rdio Cidade, no dia 21 de maro de 1981. Arpoador, Rio de Janeiro



Crach do show no Arpoador, no Rio de Janeiro



Repercusso do primeiro grande show do Roupa Nova, em incio de carreira



Milton Nascimento, Roupa Nova, Ronaldo Bastos e Beto Guedes na produo da msica Todo azul do mar, do CD Cais (1989), de Ronaldo Bastos



Paulinho e Zizi Possi - dcada de 1980

ROUPA NOVA NA ESTRADA



Serginho almoando em Salvador, BA (1983)



Nando no nibus de turn da banda



Kiko em Fortaleza, CE (1983)



Feghali e Cleberson no nibus de turn da banda



Paulinho no camarim de um dos shows



Show do Roupa Nova no Circo Relmpago, em Salvador (1983)



Roupa Nova e o amigo Maurcio Alves, na Transamrica



Kikinho com uma guitarra de brinquedo ao lado do pai



Serginho, multi-instrumentista - dcada de 1980



Carteira de trabalho do Kiko. Data de entrada na Rede Globo como msico



Feghali e Cleberson na gravao da mensagem de final de ano da Rdio Cidade (1981)



Roupa Nova (1983)



Roupa Nova no Chacrinha



Disco Azul: o primeiro disco de ouro do Roupa Nova (1986)



verson, Cleberson e Kiko na gravao da msica Uma vez mais (1984)



Matria da Revista Manchete - 28/07/1984



Capa do disco promocional Tudo aconteceu no Bobs (1985): Herva Doce no Lado A e Roupa Nova no lado B



Aniversrio de 34 anos de Nando, com Paulinho, Feghali e Serginho



Propaganda da marca Tecido Ferreira Guimares na dcada de 1980



Rascunho da letra de Paulinho para S voc e eu, do disco Luz (1988). Quando ainda no tinha nome, a msica foi apelidada de James Taylor



Release da turn (1985-1987) do Disco Azul do Roupa Nova



Foto-clip da Revista Carcia com a msica No d, de 1984



Roupa Nova e o produtor Miguel Plopschi



Valria e Anelisa so homenageadas pela gravadora RCA devido ao trabalho realizado com o Roupa Nova (Disco Herana)



Kiko em show do Roupa Nova



Paulinho cantando Coraes psicodlicos



Sapato velho a cappella

MOMENTO FAMLIA



Feghali, Tininha, Thiago e Carol



Casamento de Kiko com Suely no final dos anos 1970



Twigg e Pep, filhos de Paulinho (1991)



Kiko e a filha Nyvia - dcada de 1980



Nando e Regina na AMAN (1984)



Paulinho com sua me Ottlia



Cleberson, Gabi e a mulher Rafinha



Cleberson com os fi lhos Marcio, Mauricio e Marcelo (2013)



Roupa Nova e o empresrio Juca Muller



Roupa Nova e o produtor Max Pierre



Paulinho no show do Roupa Nova na Quinta da Boa Vista (13/06/1993)



Nando no momento Um pouco de luz na sua vida



Roupa Nova e o empresrio Marcelo Pitta



Moogie Canzio brinca com Paulinho e o pessoal do Fresno, no show de 30 anos do Roupa Nova (2010)



Roupa Nova em Londres (2008)



Cruzeiro Roupa Nova (2012)



30 anos de Roupa Nova com os shows lotados



CAPTULO 21

RATOS DE ESTDIO

A nossa vida era nos estdios. Entravmos de manh e ao sair a inflao j tinha triplicado.

Cleberson Horsth

- Banda, s rola se forem os seis.

- Sem chance?

- No d, Max... O cach  fechado - respondeu Kiko, por telefone, para o produtor Max Pierre, que buscava equipe para o disco da Rita Lee.

Os seis msicos - que j vinham gravando em estdio com outras pessoas desde a dcada de 1970 -, aps deixar a rede Globo, decidiriam abrir de vez as agendas para as participaes em outros discos, como forma de ganhar dinheiro enquanto o Roupa no estivesse os sustentando. No entanto, existia uma nica condio para gravar: o grupo inteiro teria de ser contratado - com algumas excees no caso de arranjos e produes. Assim, a banda se fortaleceria no mercado, protegida e blindada contra qualquer diferena entre os integrantes - evitando que o cime ou a vaidade de um deles destrusse o que ainda mal existia.

Desse modo, sem preconceitos e com experincia para se adequarem a cada trabalho, o grupo se tornaria o xod dos grandes medalhes da MPB - muitos deles em busca de um tom mais jovem e popular que os fizesse vender. De 1982 a 1984, as vendas dos LPs despencaram no Brasil, e se de um lado havia a impresso de que tais nomes j estariam enfraquecidos, do outro, o Roupa Nova parecia ter a mo certa para trazer de volta esse vigor.

Assim, o grupo transitaria entre figuras do mercado fonogrfico durante toda a carreira, carimbando fichas tcnicas de nomes como Rita Lee, Nana Caymmi, Nara Leo, Gal Costa, Zizi Possi, Erasmo Carlos, Roberto Carlos, MPB4, Guilherme Arantes, Maria Bethnia, Elis Regina, Ney Matogrosso, Lulu Santos, Tavito, Beto Guedes, Sandra de S, Gilberto Gil, etc. Mantendo a fonte de renda tocando, cantando, fazendo o arranjo ou a produo - como bons ratos de estdio que eram.



Os pais estavam tranquilos, Roberto retocando seus acordes no piano, afinando a guitarra e feliz! Eu, pra variar, mudando alguns pedaos de letra, na certeza absoluta de que a Censura seria boazinha. O clima era timo, j sabamos que uma equipe de cientistas da pesada seria a companhia nas bases e, dessa maneira, a criana j nasceria sorrindo! Eram 6 Doutores com uma Roupa Nova to branca que at dava gosto de ver e ouvir: Nando, Serginho, Kiko, Cleberson, Paulinho e Ricardo. Fizeram um tamanho clear dentro do estdio que at os deuses da chuva de Sampa deixaram o sol vir tomar banho com a gente. E a criana j estava quietinha! Era o que estava escrito no encarte do disco Rita Lee e Roberto de Carvalho, gravado em So Paulo, em junho-julho de 1982, nos estdios Sigla, de 24 canais.

Max Pierre, que assinava a direo do disco e j conhecia os integrantes desde a dcada de 1970, os convidou para essa gravao. Estdio com o Roupa  sempre muito bom porque no tem as reunies deles, que s acontecem nos projetos da banda. Quando voc os chama como msicos so maravilhosos!, brincaria o produtor.

Para ele, existia o lado confortvel de chegar e dizer: Agora vamos botar um vocal?, sem precisar chamar ningum de fora para isso: Eles do outras ideias e abrem as vozes. Fica fcil!  uma segurana t-los no estdio.

Das dez msicas do lbum, o Roupa participaria de nove, seja tocando como conjunto ou no, contribuindo para a realizao de alguns hits da roqueira, como Flagra (tema de abertura da novela Final feliz), Cor-de-rosa choque, Barata tonta e S de voc. E o disco foi o mais vendido da carreira de Rita Lee: cerca de 2 milhes de cpias.



Havia uma troca musical muito grande entre o Roupa, Rita Lee e Roberto de Carvalho durante as gravaes. E estavam todos conversando sobre a msica S de voc e a sua construo meldica, seu conceito, quando surgiu a ideia de um sapateado. Tinha tudo a ver com a cano mas, naquele momento, no estdio, como improvisar aquilo?

- Pra a que eu vou resolver! - disse Serginho, pegando suas duas baquetas e se agachando na sala, que era bem viva e tinha muita reverberao. - Deixa eu fazer aqui no cho que eu acho que d.

E deu. A msica pedia isso antes mesmo de ter nascido. Hoje fica at difcil imaginar S de voc sem o som dos sapatos batendo no cho. Ou melhor, baquetas.



Aps uma tarde animada no estdio, com piadas do Paulinho, brincadeiras de Kiko e muitos risos com o Roupa Nova, Rita Lee se sentiu  vontade para escrachar.

- Vocs so demais! E so muito srios no palco! Por qu?

- Ah, no palco  diferente, n? - respondeu Feghali de imediato.

- E por qu?

- Ah,  a sua imagem. J falam mal da gente sem fazermos nada de mais!

- Sei... - dizia ela olhando para os seis, enquanto pensava, com um dos dedos na boca.

- Eu entendo o que voc diz, mas pra gente  difcil pra cacete, Rita...

- Vocs tm que relaxar... Ligar o foda-se! Sabe como ?

E todos morreram de rir, enquanto ela tombou a cabea de lado, arqueando as sobrancelhas, levantando as mos, como se dissesse: Depois no v dizer que eu no avisei.



Eu os chamei porque eu queria a identidade do Roupa Nova no meu trabalho.  um conjunto pop, no  de rocknroll, e eu gosto do som limpo, clean, da perfeio deles, disse Tavito sobre a gravao do seu disco Tavito 2, de 1981, pela CBS. O cantor e compositor mineiro - e um dos fundadores do grupo Som Imaginrio - entregou, literalmente, seu LP nas mos do grupo, que tocou em todas as faixas sob a produo de Ricardo Feghali, e no mais Richard Young.

E tinha uma razo para as canes desse LP serem mais srias. Naquela poca, Tavito j havia abandonado a Zurana* e rearranjava sua vida. Alis, a primeira sada do cantor com sua nova namorada, Celina, foi para o show do Roupa Nova, no Arpoador, em maro daquele ano. Tavito j era amigo de Nando, Feghali e tinha Paulinho como seu companheiro de noite. No dava para faltar ao evento, que acabou ficando em sua memria com um sabor especial. Momento importante que acabou se refletindo no disco e na escolha da banda para esse trabalho.



Sessenta minutos especiais - o tempo que reservamos para colocar voc em contato com o seu dolo, conhecer seu momento, saber do seu show ou ouvir o seu disco! Era a abertura do programa da rdio Nacional FM, apresentado por Darci Marcelo, que no dia 11 de julho de 1983 recebeu Magro e Miltinho, do MPB4, para falarem sobre o LP Caminhos livres e os grupos musicais convidados desse trabalho, entre eles o Roupa Nova na cano Janela de apartamento.

A princpio eu no via com o Roupa Nova essa msica, via alguma coisa mais balada, mas no foi uma coisa que aconteceu. A msica  bem leve e o trabalho de criao em cima da msica foi exaustivo. Eles demoraram muito fazendo essa base, criando muita coisa em cima. Acho que  um dos arranjos mais significativos desse disco e eu gosto demais do que eles fizeram. Achei que o trabalho vocal da gente casou muito bem com a proposta deles, disse Miltinho.

No mesmo programa, Miltinho e Magro conversaram sobre a parceria deles em Palhacinho, tambm desse lbum, e que se tornou um frevo no decorrer de sua composio, com arranjo de Luizinho Avelar. E Magro, rindo um pouco, terminou os comentrios sobre essa faixa dizendo:

- Eu acho que tem que notar a tambm a participao do baterista. O Luizinho escreveu o arranjo e convidou um pessoal da pesada! A participao do baterista Serginho, do Roupa Nova,  incrvel! O cara, realmente,  de uma sade fora do normal!

J o sabia seu Z desde a dcada de 1970, quando pregou o instrumento do filho no cho para no cair enquanto ele sentava a mo.



I love you, Gal Costa, baby, baby..., cantou Caetano Veloso, em novembro de 1968, na extinta casa noturna carioca Sucata. A msica Baby, de sua autoria, foi gravada por Gal Costa em julho daquele ano, no LP Tropiclia, e se tornou smbolo do movimento e cano-hino dos jovens.

Em 1983, Mariozinho, que havia produzido a cantora baiana nos dois ltimos trabalhos, teve a ideia de regravar essa cano em comemorao aos seus quinze anos ps-Tropiclia, alm de dar um tratamento eletrnico ao lbum seguinte, chamado Baby Gal. O projeto era composto por dez msicas falando de amor dialogando com uma parafernlia moderna, algo nunca feito antes por Gal.

O Roupa Nova, que tambm havia participado dos discos Fantasia,** em 1981, e Minha voz, em 1982, foi convidado novamente para tocar com Gal Costa. A diferena era que, em vez de tocar msicas isoladas no LP dela, eles fariam a base musical de nove faixas do disco (s no fizeram a de Eternamente), o que causou estranhamento em alguns crticos e fs mais ortodoxos. Afinal, a representante da Tropiclia, considerada a primeira-dama da MPB nos anos 1980, estava na companhia de um grupo pop cada vez mais popular. E o termo popular incomodava...

A primeira cano do lbum a ser gravada no estdio de 24 canais da Polygram no poderia ser outra: Baby. E o Roupa Nova fez questo de no ouvir a msica original antes de fazer o seu arranjo. Considerando complicado uma composio ser sucesso de novo, em outra poca e com a mesma cantora, os integrantes do grupo preferiram t-la apenas na lembrana para sofrerem o mnimo de interferncia na criao. O que parece ter tido efeito, conforme as palavras de Gal Costa, publicadas no programa desse show: O Roupa Nova fez um arranjo benfeito, moderno, a coisa de ser futurista eu acho legal. Tem uma hora no arranjo que parece que vai descer uma nave espacial. Ficou muito diferente da minha gravao original, quando eu ainda cantava de uma maneira muito intimista, pra dentro, e com uma vozinha pequena. A msica, ao lado de Mil perdes, de Chico Buarque, foi a mais marcante desse LP.

Alm de tocar no disco, o Roupa assinou tambm o arranjo de Sutis diferenas, baio de Caetano com Vinicius Canturia.



Mariozinho pegou uma conjuntivite daquelas na poca da gravao do disco Palavras de amor, de Fagner, em 1983, pela CBS. Por isso, no pde acompanhar de perto o andamento do trabalho. Ele sabia que no podia dar chance de mais algum pegar a doena! Fagner e o pessoal do Roupa Nova no perdiam tempo para dar uma sacaneada de leve no produtor, quando ele aparecia no estdio de culos escuros.

- , o disco t ficando muito bom porque voc no t aqui!

E os sete morriam de rir, em um ambiente descontrado que permaneceu durante toda a gravao. Eu tinha uma identificao, principalmente com o Feghali, que tambm  libans como eu, diz Fagner, ao falar sobre o clima de amizade que existia e que se reforou com os anos.

Eram conversas sobre msica, vida e, claro, futebol, papo preferido de Fagner, torcedor do Tricolor do Ao (Fortaleza) e do Tricolor Carioca, assim como os integrantes do Roupa. Sem contar as brincadeiras que surgiam, como conta o compositor: Cada um tem o seu papel e sua liberdade dentro do Roupa, o que  muito legal! E eu me lembro que ficava catucando eles: Vocs so muito organizadinhos, muito certinhos... Vou destruir essa harmonia!

Era a primeira vez que Fagner gravava um disco inteiro com uma banda e, por causa disso, sua preocupao era manter seu espao dentro do conjunto, para que o lbum mantivesse a sua cara e no a do Roupa Nova. Antes era um trabalho meticuloso, no qual ele escolhia msicos diferentes e os melhores para determinada faixa. Esse disco foi uma quebra de paradigma pra mim. Beleza, vamos fazer um disco inteiro com eles? Ento que tenha a pegada do grupo, mas com a minha identidade! Vou dar os meus pitacos!, contaria o cantor cearense, que ficou muito satisfeito com o resultado. Eles tm uma linha diferente da minha e conjugar isso para uma coisa nica foi algo interessante. Todos estavam abertos para esse projeto em comum.

Os componentes do Roupa tocaram em todas as faixas, nem sempre todos juntos, e em algumas o arranjo ficava por conta de Cleberson e Feghali. Sempre trabalhei com o Robertinho de Recife e j existia toda uma identidade de guitarra, que o Kiko soube respeitar. A gente trabalhou em um clima muito bom, de muito respeito e abertura, j que o disco era meu, comentaria Fagner. Palavras de amor, por exemplo,  uma cano que tem muito a marca da banda, na opinio do cantor e compositor. E ele gostou tanto do arranjo que resolveu fazer a leitura do Roupa Nova, como se tivesse gravando para eles. Foi a primeira msica do lbum que trabalhamos nas rdios, s que Guerreiro menino foi muito forte! Atropelou e virou o sucesso do disco. Cano com todos os seis integrantes e arranjo de Eduardo Souto Neto.

O disco foi muito tocado e a msica de Gonzaguinha  uma das preferidas do pblico at hoje. Essa cano ocupou as rdios porque era boa de tocar, e tambm de estimular o social, falava da falta de trabalho... Foi um disco bem marcante, afirmaria Fagner, lamentando no ter aproveitado mais o vocal do Roupa Nova. Tinha umas duas, trs msicas em que caberiam as vozes deles! Existe uma identidade muito grande do vocal do Roupa com o que os Beatles faziam.

Na viso de Fagner, gravar com os msicos do Roupa foi atuar com um time j entrosado e pronto, que pega uma msica e d a sua leitura de grupo, calejada depois de tantos anos tocando juntos, o que adiantou muito. Eles j vm com uma forma, voc goste ou no.



Cleberson foi pegando gosto em fazer arranjos, e Ricardo, em suas produes como freela, sempre que podia o convidava para participar. Assim foi com o disco do Lafayette, da cantora da Jovem Guarda Adriana e dos Skates, que fez com Marcio Antonucci pela Tapecar. S que existia um porm nessa histria toda. Apenas um trecho do trabalho que o matava de desnimo e vergonha:

- P, eu tenho que reger?

- Lgico! - dizia Ricardo, em suas produes, sem nem dar muita confiana para Cleberson, j sabendo de sua resistncia.

- Caramba, esse negcio de ficar fazendo caras e bocas no  comigo! - reclamava o tecladista, sempre tomando flego antes de entrar no estdio.

Na gravao do Hit Mania, por exemplo, l estava ele timidamente levantando os braos e gesticulando, quando viu Feghali, produtor do disco, de longe, fazendo sinais e balanado com fora o brao:

- Rege! Rege essa porra!

E Cleberson ficava vermelho e tenso, embora continuasse regendo.



Eu nem sabia que o Cleberson fazia arranjo, escrevia para metais, essas coisas todas. Acho que foi um produtor que me indicou ele, s no lembro quem, conta Erasmo Carlos sobre seu disco Buraco Negro, lanado em 1984, pela Polydor (selo da Polygram). Cleberson foi o responsvel pelos arranjos do LP e do show de mesmo ttulo - lanado no Palace em So Paulo e depois indo para o Caneco, no Rio de Janeiro, com uma temporada de 19 espetculos durante um ms. Talvez o show mais caro que eu tenha feito na minha carreira, diz o Tremendo.

Erasmo no sabia do potencial do tecladista do Roupa Nova e se surpreendeu com o trabalho: Ficou muito bonito! Foi um trabalho maravilhoso que ele fez pra mim. E se lembra da decepo de no v-lo no primeiro dia de sua estreia em setembro. Eu nunca tinha me apresentado com direo musical. Eu achava que ele tinha que estar l e tambm tocando! Mas teve show do Roupa Nova na mesma data e no rolou.

O roqueiro, chateado, questionou sua produo, que o avisou que estava tudo sob controle. E o show pde continuar.



Ao sair da EMI-Odeon em 1980-1981, Simone ganhou a produo de Marco Mazzola, na CBS, que gostava de usar os sintetizadores e recursos eletrnicos da dcada de 1980 - estilo dos trs lbuns da cantora de que o Roupa Nova participou. Em 1982, o grupo entrou no disco Corpo e Alma de Simone, nas canes Embarcao e O sal da terra, e Cleberson tocou em Olho do furaco. O conjunto tambm assinou o vocal do lbum, que atingiu uma venda superior a 700 mil cpias, com essas trs msicas muito elogiadas pela crtica.

Em 1985, em Cristal, Feghali e Cleberson apareceram na base musical de Voc  real, e a banda se destacou no coro de Princesa - cano que o Roupa gravaria no seu disco Ouro de Minas, em 2001. Mas foi em 1986, no LP Amor e Paixo, que a balada Amor explcito, com a participao especial do Roupa no coro, surpreendeu e se tornou o hit de um disco que chegou s 900 mil cpias vendidas. A msica tambm entrou na novela Corpo santo, da Manchete - trilha da qual o Roupa Nova fez parte com a cano Um lugar no mundo como tema de abertura, o que ajudou Simone a ser, no final dos anos 1980, a cantora brasileira com maior nmero de discos de platina recebidos. Amor e Paixo foi seu recorde de vendagem at o lanamento de 25 de dezembro, com canes natalinas, em 1995, com 1,1 milho de cpias.



Depois de oito anos de carreira, Amelinha, recm-separada de Z Ramalho e em um perodo de mudanas em sua vida, saiu um pouco da atmosfera regionalista do Nordeste e apostou em gua e luz, um disco mais pop, com produo de Mariozinho Rocha e os msicos do Roupa Nova, lanado em 1984, pela CBS. Ainda no repertrio, canes de L Borges e Mrcio Borges, Gilberto Gil e Tavito, que comps gua e luz, cano que daria nome ao LP. O lbum foi o incio de um processo de remodelao que teve seu auge com o show Saudades da Amlia, em 1989, com msicas de Tom Jobim, Caetano Veloso e Chico Buarque. E, em entrevista para um blog em 2009, a cantora citou a faixa A Gia, composio prpria, como destaque da capela feita com o Roupa Nova.



No tinha para ningum: o som da dcada de 1980 seria do Roupa Nova - visto como soluo dos produtores em busca de algo rpido, certeiro e de qualidade. Quanto mais eles tocavam, mais as pessoas gostavam e indicavam para conhecidos. Virou moda gravar com o grupo, alm de conveniente para as gravadoras, que pagavam por profissionais j entrosados, que ainda faziam o coro - de tendncias internacionais que agradavam s novas produes.

Mas se de um lado as participaes nos discos enchiam os bolsos dos seis msicos, por outro, sem que os integrantes percebessem, banalizavam sua prpria msica. Para no falar da pasteurizao da produo da msica brasileira. Okky de Souza, da Veja, por exemplo, chegou a comentar que no disco da Amelinha, ouvem-se os mesmos violes do tipo Ovation, os mesmos teclados imitando orquestras e os mesmos coros em falsete que os principais produtores do pas elegeram como os nicos adequados. E ainda afirmou que no lugar de Amelinha poderia ser a voz de Gal Costa ou de Simone no LP, sem que o resultado soasse postio ou inadequado, fazendo de gua e luz um bom disco, mas rigorosamente igual a tantos outros que se tm ouvido. Ser?

De fato, a contragosto dos mais puristas, costumava-se procurar o Roupa Nova para modernizar o trabalho de um intrprete, torn-lo mais pop, vendvel. E assim seria at o incio dos anos 1990. Kiko chegaria a comentar, anos depois, que artisticamente pode ter sido ruim pra gente estar em muitas gravaes do mercado, no mesmo perodo. Mas musicalmente foi algo maravilhoso. Cleberson diria: Nos chamavam por causa da nossa influncia Toto, Beatles, Bee Gees, Rolling Stones com o molho brasileiro.

Uma pitada que, independente das crticas, no deixaria de beneficiar muita gente da MPB.



Por mais que eles estivessem na maioria das vezes juntos, muitos produtores e intrpretes insistiam em usar os msicos separados em suas gravaes, j que o som do conjunto era marcante e poderia se sobressair em relao ao nome principal. S que conseguir isso era sempre uma briga. Um conjunto era como um time de futebol naquela poca. Jamais um jogador do Fluminense iria para o Flamengo.  meio que uma famlia. E a gente ficava de olho!, conta Cleberson.

Serginho, por exemplo, seria cobiado por alguns intrpretes da msica brasileira, como a prpria Rita Lee. Mas nada seria comparado a Lulu Santos.

- Vai, diz quanto voc quer pra sair do Roupa? Vem tocar comigo, anda!

O baterista era o preferido do roqueiro. E o prprio Serginho chegou a afirmar em entrevistas que o trabalho de Lulu tinha afinidade musical com o seu. Pelo que se conta, Lulu at tentaria outros bateristas para no ficar dependente de Serginho. No entanto, sempre voltava atrs quando a situao apertava - como no LP Lulu, de 1986, no qual dois msicos insinuaram, sem sucesso, a levada que ele queria.

- Ah, vai, chama o Serginho logo!



- Nem falou nada com a gente, hein? - comentou Kiko, ao encontrar Serginho em uma das reunies do Roupa Nova.

- Falei o qu?

- Deu canja pro Lulu Santos, n?

- Ah, isso - respondeu Serginho, sem dar muito espao para o assunto.

- Hum... Morro da Urca? - perguntou Nando, botando mais pilha na conversa.

Afinal, para o grupo, era estranho ver um de seus integrantes tocando muito com outro artista seno eles. Como diria Cleberson, todos eles eram muito sentimentais. E Serginho, sabendo disso, preferiu ser evasivo.

- Ai, caramba, Nando... Coisa  toa.

- Uhum... A gente sabe - completaria o baixista, sem dizer mais uma palavra.



Entre um disco e outro, a gravadora tambm funciona como um lugar de encontros entre msicos, arranjadores, intrpretes, produtores... Assim, Zizi Possi conheceu os integrantes do Roupa Nova ainda na poca em que ela e a banda estavam na Polygram. Apresentados pelo produtor Joo Augusto, a intrprete fez o seu primeiro disco com um deles em 1982 - Kiko, em trs faixas do LP Asa morena -, e essa prtica se manteve nos quatro discos seguintes, at 1987. Destacam-se o LP Pra sempre e mais um dia (1983), no qual teve um dos componentes em nove das onze faixas, e D um rol (1984), no qual Serginho tocou oito das dez msicas. O que  impressionante neles  que tanto individualmente como em grupo o rendimento  maravilhoso! A msica flui. E isso  uma coisa rara em banda, contaria a cantora.

Na opinio dela, mesmo sozinhos, eles iriam desempenhar como instrumentistas um papel muito importante na msica brasileira. Cada um tem sua prpria histria e no  dependente do Roupa Nova. So msicos talentosos, alm de compositores e arranjadores, que se reuniram e escolheram criar uma alma de grupo.



Nos anos 1980, no processo de gravao, Zizi e o produtor escolhiam o repertrio e, em seguida, pensavam nos arranjadores, que costumavam j vir com alguns msicos - instrumentistas que saberiam reproduzir o que ele escrevia. E os integrantes do Roupa Nova eram lembrados com frequncia. Eles eram um objeto de desejo de alguns arranjadores por causa da facilidade de gravar bonito e com agilidade. Eram sinnimo de estar bem atendido, diria a cantora.

S que, por mais que esse projeto durasse meses, Zizi no passava tempo suficiente com as canes para ter qualquer tipo de convivncia com elas. O intrprete tinha que tomar cuidado para que sua leitura da cano no ficasse impessoal. Hoje eu consigo ensaiar antes, descobrir o melhor jeito de cantar cada obra. Mas antigamente a gente tentava personalizar a msica atravs do arranjador. Era assim que o mercado agia, contaria Zizi. E os meninos do Roupa me ajudavam a humanizar esse arranjo e a trazer isso pra mais perto de mim.



Comeo, meio e fim foi a ltima msica do Lado A do LP homnimo de Zizi Possi, em 1986, com o auxlio do produtor Mariozinho Rocha. No estdio com a cantora apenas o Roupa Nova - que assinou a base musical, o coro e o arranjo (Cleberson Horsth) dessa cano. A composio de Tavito, na opinio da intrprete,  a melhor representao dessa mistura Zizi e Roupa Nova. Eu gostei muito,  bem parecido com eles. Deu uma liga bacana nessa msica e  um elo bonito entre a gente. Alm disso, a msica foi um sucesso e colaborou para popularizar e aumentar as vendas da intrprete.

Na revista Cult, em setembro de 2010, Zizi falou sobre esse salto comercial que comeou em 1982 e durou at o final daquela dcada. Eu quis ser pop - muito, assume. Enquanto o mercado estava sendo abduzido por leis quantitativas, ns, artistas, estvamos respondendo a essas demandas acreditando que nosso valor artstico era numrico. Eu sabia que tinha uma direo: ou me tornava uma vendedora ou seria descartada pelo mercado. Ento, quis sim ser uma grande vendedora. Quis sim ser popular.



Zizi, como Fagner, se preocupava com a identidade forte do Roupa Nova e, por isso, optou por trabalhar em algumas canes com os msicos isolados. Por outro lado, acreditava que eles, como banda, se colocavam  disposio daquilo que a produo do intrprete queria e abriam espao dentro da sua dinmica para o projeto de outros artistas. Todo mundo deveria ser assim, mas no . Quando o cara  msico de verdade, tem isso, diria ela.

Cada lbum foi um degrau na carreira de Zizi Possi, que contribuiu para formar uma identidade e mold-la como intrprete, artista e ser humano. E, nas palavras da cantora, as gravaes com o Roupa Nova foram uma convivncia enriquecedora, principalmente para que ela percebesse que  possvel existir gente to bacana em um grupo que se dedica de fato  msica.



Notas

* Produtora de udio de trilhas e jingles montada por Tavito, em 1975, em sociedade com Mrcio Moura e Paulo Srgio Valle. Em seu quadro estavam colaboradores como Ivan Lins, Djavan, Mariozinho Rocha, Renato Corra e Eduardo Souto Neto.

** No LP de 1981, o Roupa Nova participou da faixa Aa - de autoria de Djavan, um dos compositores recentes preferidos de Gal na poca. Foi o hit do lbum. No disco de 1982, foi a vez da cano Solar, de Milton Nascimento e Fernando Brant.



CAPTULO 22

O SONHO NO VOLTA ATRS

No era agradvel vender 15 mil. Tudo bem que a gente fazia sucesso nas rdios, fazia show. Mas tinha que trabalhar mais para poder vender.

Ricardo Feghali

Uma lona azul e branca tomou o espao entre as praias do Arpoador e do Diabo, em Ipanema, no Rio de Janeiro, no dia 15 de janeiro de 1982, aps a Surpreendamental Parada Voadora - marcha de quinhentos artistas que no eram a favor nem contra nada, e que s queriam se divertir, apesar da abertura lenta e gradual da Ditadura no Brasil. O local era administrado, incialmente, pelo grupo de teatro Asdrbal Trouxe o Trombone, com Regina Cas, Luiz Fernando Guimares, Evandro Mesquita e Perfeito Fortuna, formando um cenrio de agitadores culturais, jornalistas e outros personagens influentes cariocas - no geral, moradores da Zona Sul e da classe mdia e alta. Jovens que, despretensiosamente, fariam daquele vero um dos marcos do rock brasileiro.

Os alunos das oficinas do Asdrbal dariam o tom do lugar ao desenharem tendas de circo voadoras, e o projeto ganharia o nome de Circo Voador, com data para acabar: 31 de maro de 1982. Eu ficava no Circo dez horas por dia, mergulhando a cada meia hora, pegando onda, disse - em depoimento para o livro As aventuras da Blitz, de Rodrigo Rodrigues - Evandro Mesquita, lder da Blitz, uma das novas bandas que iria se apresentar no local, ao lado de nomes j conhecidos do pblico como Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso.

E se no bastasse, no dia 1o de maro de 1982, entraria no ar a nova Fluminense FM - uma emissora de Niteri (RJ) completamente reformulada e que tocaria sobretudo rocknroll. Sob o dial 94,9 MHz, a FM apostaria em demos de novas bandas, como Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e Os Abboras Selvagens, Sangue da Cidade, e gravaes de eventos como os shows do Circo Voador. E atenderia tambm pelo apelido de Maldita, a partir daquele ano de 1982.

Me lembro dos primeiros programas do Chacrinha que fizemos, declararia Evandro Mesquita anos depois. Os nicos grupos ramos ns e o Roupa Nova ou A Cor do Som. O resto eram cantores e cantoras. De repente, outras bandas foram surgindo. E de fato a cena cultural do Rio de Janeiro no seria a mesma depois daquele vero.



- D uma olhada nessa msica. V se voc gosta! - disse Renato Corra para Mariozinho, com quem dividiu um dos casts da EMI-Odeon no final dos anos 1970, antes de uma balada romntica e gostosinha tomar o escritrio do produtor.

Se voc v estrelas demais
 Lembre que um sonho no volta atrs
 Chega perto e diz: Anjo!

- Bonito isso, hein?

- Minha com o Claudio Rabello. Pode gravar se quiser.

- A letra  legal! Mas eu posso mudar a levada?

- Como quiser, meu caro.

- Vai ficar bom com o Roupa!

No dia seguinte, em reunio com a banda, Mariozinho lanou a ideia.

- Olha s, pensei da gente fazer meio rockabilly isso aqui, sabe? Meio The Polecats, Neil Sedaka. Acho que foge do bvio e combina com a msica. O que me dizem?



- A gente gostou! Mas essa letra no tem nada a ver com o Roupa. Posso mudar? - perguntou Mariozinho para o intermedirio de uma dupla de compositores de So Paulo, que havia deixado uma fita K7 para o produtor ouvir.

- Claro! Com certeza! - respondeu ele, sem perder a venda.

A letra falava sobre atingir com dedo o sol e tinha uma poesia meio estranha para os ouvidos de Mariozinho, que passou a obra, em seguida, para as mos de Paulinho Tapajs. Dando vida a uma nova composio chamada Assim como eu.

Jamais eu fui campeo de patins

Nem de asa delta, no sei nem voar

S sei brilhar feito o sol nos jardins

E no me sinto melhor nem pior

Eu sigo apenas aquele que bate em meu peito e me diz

Ser feliz  saber ser

No entanto, no dia de mixar, a dupla de compositores foi convidada para ver o resultado. Era um casal gay - um responsvel pela letra, outro pela msica -, que no havia sido avisado da tal mudana.

- Ai! Vocs mudaram tudo! - gritou um dos compositores para Mariozinho

- Pra a. Tudo, no. S a letra. A msica  a mesma.

- Mas a letra  minha!

- Tudo bem, mas a gente no gostou! - respondeu o produtor, j se irritando com aquilo.

- Ah, eu gostei de como ficou... - disse baixinho o outro compositor, cruzando as pernas, sem olhar para o seu parceiro.

- Ah, no, mas isso no vai ficar assim!

E a confuso foi tomando forma, com os berros do compositor revoltado e a falta de pacincia de Mariozinho. At que o produtor no aguentou mais:

- T bom, faz o seguinte. Pega a voz a - pediu ele para um dos tcnicos, antes de continuar. - Agora apaga!

- Mas Marioz...

- Apaga, anda!

E o tcnico, sem graa, embora no tivesse nada a ver com aquilo, mexeu nos botes.

- Pronto.

- Apagou? timo! No tem mais msica! Vocs podem voltar para onde vieram.

E virando as costas para os dois compositores, sem reao, se dirigiu a Cleberson:

- Pega a melodia e faz outra por fora dessa! Vamos manter o vocal, e no vai ser plgio!

- E vocs? Ainda esto a? Acabou tudo, podem ir. E, enquanto eu tiver aqui, eu no gravo vocs mais, no - disse Mariozinho, muito bravo, para os dois.

A msica Assim como eu seria a penltima do Lado B, com outra melodia em cima do mesmo vocal j realizado pelo grupo. E ficou. Quanto  dupla de compositores no se sabe, ningum viu. Sumiu.



Desde agosto de 1981 j estava assinada a concesso para Adolpho Bloch de uma emissora de televiso. No entanto, a TV Manchete, como seria conhecida, s iria entrar no ar em 1983. Isso porque, alm dos entraves naturais de um projeto como esse, o empresrio ucraniano no queria uma TV qualquer, e sim uma que tivesse equipamentos de ponta e uma programao de alta qualidade - direcionada para as classes A e B, com um posicionamento jovem e moderno - inspirada no padro da BBC de Londres. Tratava-se de um grande plano de comunicao, um imprio que tinha tudo para crescer.

- Mariozinho, vamos lanar um jornal! E quero um instrumental na abertura. Voc tem?

- Tenho, tenho... Me d alguns dias! - respondeu ele para Carlos Sigelmann, diretor da rdio Manchete.

- Gente, preciso de um tema para o jornal da Manchete! O pessoal t cheio de gs!

Desta encomenda, sairia o instrumental Videogame, que tambm entraria no terceiro disco do Roupa Nova. E acertaria em cheio s expectativas da equipe da TV do ano 2000, como dizia o slogan da emissora. Eles tinham visto LPs internacionais e no estavam satisfeitos. E quando mostrei a gravao do Roupa Nova ficaram encantados! Era exatamente o que eles estavam querendo ou at melhor, conta Mariozinho.

O tema facilitaria a entrada do grupo na Manchete - em um instante crucial de crescimento e expanso, de ambas as partes.



- Vamos cantar Sapato velho a capella, sem microfone?

- Ficou maluco, Ricardo? J viu quantas pessoas esto l fora?

- E da? Ah, Cleberson, a gente pede para todo mundo fazer silncio - teimava Ricardo, embora todos fizessem caras estranhas para ele.

- Hum... Isso  loucura, mas eu gosto da ideia - comentou Kiko para o grupo, nos bastidores do Palcio das Artes, em Belo Horizonte.

- T bom, t bom, vamos fazer isso! - disse Nando, aps minutos de discusso, antes de entrar em cena com o grupo.

H meses, os msicos vinham buscando uma forma de se diferenciar das outras bandas e de ganhar a aprovao da crtica. Comentrios em tom pejorativo como So grandes msicos, mas..., ou Todos da Zona Norte, ou Eles vieram dos bailes do subrbio incomodavam bastante os seis integrantes. E talvez uma postura mais sria fizesse com que eles fossem valorizados. Kiko, por exemplo, vivia no eterno dilema de como se portar no palco. Doido para zoar e fazer suas tpicas macaquices, ele tinha medo de parecer piegas ou exageradamente fora do padro aceito pelos formadores de opinio. E acabava se controlando para fazer o mnimo: tocar.

Sendo assim, no Palcio das Artes, eles estreariam a capella, apostando na capacidade vocal do grupo e no profissionalismo de cada um. Trabalhando as vozes, olhando uns para os outros, enquanto a plateia, em silncio, parecia estar em transe. Nem uma mosca se atreveria a passar enquanto eles cantavam. Foram aplaudidos de p, no final, como artistas de respeito.



- Gente, quero conversar com vocs - disse Mariozinho, fazendo sinal para os msicos do Roupa Nova entrarem em sua sala. E, com uma cara fechada, sem saber como falar, deu a notcia. - Eu t saindo da Polygram.

Ele foi atropelado por seis reaes distintas e instantneas, com frases como: Como  que ?, Mas por qu?, E a gente? Ou at mesmo pelo triste silncio.

- Eu recebi uma proposta da EMI-Odeon e vou pra l! Mas a gente continua se falando!

- Mas no  a mesma coisa...

- Nando, vocs esto bem. O disco t praticamente pronto. E o pessoal da divulgao vai cair matando com o LP de vocs.

- Ah...

- Olha, rapaziada, acho que  isso...

- Sem chance de voc ficar? - questionou Ricardo Feghali, apesar de no saber como aquela deciso de Mariozinho, de fato, causaria impacto em suas vidas.



Ao chegar  EMI-Odeon, ainda em 1982, Mariozinho trombou nos corredores da gravadora com Jorge Davidson, gerente internacional da EMI. E escutou do colega, empolgado:

- Tem um grupo do caralho, tu no pode perder.

- Traz um K7 pra mim.

Mas como a tal banda no tinha nenhuma gravao, o produtor resolveu ento bancar uma demo, no estdio Transamrica, no Riachuelo. E mais uma vez chamou Clever Pereira para participar da audio. Um grupo diferente, bem-humorado e que no tocava exatamente rock, mas que seria uma das primeiras contrataes de Mariozinho em seu retorno para a EMI-Odeon. Um pessoal da Zona Sul do Rio de Janeiro que se chamava Blitz, e insistia em cantar aquele refro engraado: Voc no soube me amar.



- Cleberson, preciso de voc para uma gravao! - convocou Mariozinho, aps acertar o primeiro compacto da Blitz.

Como diria Rodrigo Rodrigues, em seu livro As aventuras da Blitz, o produtor tinha sacado que o tecladista era o ouvido absoluto do grupo, o cara que fazia os trabalhados arranjos de cordas e vocais, uma espcie de maestro pop.

Ao receber a fita K7 com a demo da msica gravada no estdio Transamrica, ele chegou a coloc-la no nibus que o Roupa Nova viajava, para todos ouvirem. E a aprovao do som foi imediata por parte dos integrantes. Apenas confirmando o que Cleberson j sentia: Esse compacto vai arrebentar!

Para comeo de trabalho, ele conferiu a tessitura vocal da Blitz, para depois montar o acorde e ver como estava soando - tendo Evandro Mesquita como a voz principal. E depois foi para o piano da EMI-Odeon com a Blitz para passar como havia ficado aquela armao.

- As meninas, primeiro! - pediu ele, sentado ao piano, dando espao para Fernanda Abreu e Mrcia Bulco, antes de passar ao conjunto de vozes, com todos ao redor, e gravar.

O vero mal tinha terminado no Rio de Janeiro, em 1982, e o Circo havia sido despejado do Arpoador. Mas o compacto de capa rosa choque da Blitz com Voc no soube me amar do Lado A, e no Lado B a voz de Evandro repetindo Nada, nada, nada... s confirmaria a tendncia musical da dcada. E o Roupa Nova, de algum modo, teria que estar presente naquele novo cenrio.



A Polygram estava com duas vagas para divulgadores em 1983, uma para rdio e outra para TV. Paulo Black Power - que j tinha experincia na rea - conseguiu a de rdio, ao passo que, para a de TV, Marcelo Castelo Branco preferiu escolher um candidato que tinha se formado em 1980 e no tinha nenhum vcio do meio. Um rapaz novo, franzino, baixinho, de culos e cabelos encaracolados, chamado Ricardo Moreira, que adorava msica brasileira!

Sua primeira misso na gravadora foi acompanhar Ivan Lins em um programa de televiso. E a emoo em estar perto de um de seus dolos quase ps a perder sua pose de profissional. Do mesmo modo que aconteceria nos vrios encontros que teria com o Roupa Nova, como no quadro de Edna Savaget - jornalista pioneira com programas femininos.



- Paulinho, Serginho, Huguinho e Luizinho! - brincou Ricardo Moreira, divulgador recm-contratado da Polygram, com os integrantes do Roupa, no teatro Fnix, antes de a banda se apresentar no Chacrinha.

Isso porque as pessoas, no geral, faziam uma confuso enorme com os seus nomes. Paulinho e Serginho, que cantavam, ento, nem se fala! E j que eles teriam de esperar um bom tempo para gravar, nada melhor do que rir enquanto isso.

- Ah, vamos dar uma volta l fora! - sugeriu um dos msicos.

E l foram eles para a lanchonete que existia dentro do prprio teatro Fnix - onde a galhofa continuaria.

- Ah, eu quero um sunday! - pediu Ricardo, enquanto quatro msicos da banda estavam esperando na fila.

- Pequeno ou grande?

- Me d um grande?

A que Paulinho canta, bem alto, parodiando a msica Monday Monday:

Sunday Grande...

Seguido pelo coro afinadssimo do Roupa Nova  la The Mamas and The Papas:

Ba-da Ba-da-da-da

De abacaxi...

Ba-da Ba-da-da-da

Cantando com seriedade, sem desafinar, juntando um bando de gente ao redor! Cada um fazendo uma voz no coro, com Paulinho na voz principal. Era a piada mais engraada do momento e, ao mesmo tempo, algo lindo! - diverte-se Ricardo Moreira ao se lembrar daquela ocasio. Aquela seria a nica vez na histria em que o The Mamas and The Papas cantaria Sunday Grande.



- Fica aqui que eu s vou experimentar sobre o corpo. Alis,  timo que voc fique a! Assim voc me ajuda a escolher. Homem  sempre o melhor juiz em questo de roupa feminina, n? Quer dizer, se voc no se importar... - pedia Juliana para Nando, motorista da famlia.

Convite irrecusvel para o rapaz apaixonado pela menina.

- Imagina, pra mim  uma honra.

E, assim, ela ficou horas em frente ao espelho, fazendo poses e colocando roupas diferentes em frente ao seu corpo, sob o olhar de Nando, envergonhado, enquanto uma msica romntica toca como pano de fundo, ambientando aquela cena.

Essa foi uma cena interpretada por Mait Proena como Juliana e Mario Gomes como Nando, na novela Guerra dos sexos, da rede Globo. A produo entrou no ar no dia 6 de junho de 1983 e seguiria at janeiro do ano seguinte, tendo Juliana e Nando como uma das tramas para serem resolvidas por Silvio de Abreu e Anjo, do Roupa Nova, como trilha do romance.

Como diria Cleberson: Quando todo mundo estava gravando rock, a gente veio com Anjo. Uma balada dos anos 1960!

Era exatamente o que Guerra dos sexos precisava. A novela foi um marco na teledramaturgia e direcionaria todas as outras produes, da faixa das 19 horas da Globo, para histrias mais divertidas. Um sucesso de audincia que ajudaria aquele terceiro disco do Roupa Nova a vender mais que as fatdicas 15 mil unidades.



Beth Arajo era quem atendia diretamente a Globo na divulgao geral da Polygram. E foi ela quem deu a notcia para Ricardo Moreira:

- Avisa para o Roupa que o Fantstico t confirmado! Vamos fazer o clipe de Anjo!

Fazer Fantstico era a diferena entre o purgatrio e o cu, comentaria Moreira.

E as bandas disputavam aquele espacinho de ouro na programao. Na verdade, qualquer insero na Globo era sempre bem-vinda, fosse em musicais como o do Chacrinha, em novelas e no jornalismo. Valia a pena brigar por minutinhos na emissora, embora nem sempre se conseguisse uma vitria.

S que, em se tratando de Roupa Nova, nada era mais difcil do que conseguir espao no jornalismo. Estes profissionais no viam nada de interessante nos personagens do grupo, comenta Moreira, que era divulgador de TV e lidava com o jornalismo.

No existia o poeta do grupo, o doidinho, o gay, o drogado, o personagem que poderia ser usado pela imprensa. No mximo, existia o cara mais bonito, ttulo dado a Serginho, que por sua vez rejeitava a pose de gal. Eles sempre tiveram um problema muito srio de imagem., afirma Moreira.

No Jornal Hoje, por exemplo, conseguir uma entrevista para a banda ia automaticamente para o campo do impossvel. E nem adiantava vir com o papo de que Anjo estava estourado no pas!

A equipe que trabalhava no noticirio nos anos 1980 era MPB de corpo e alma, e achava uma empfia os seis integrantes serem rotulados como parte da msica popular brasileira. Ou pior: serem elogiados por figuras-chave deste segmento. Como assim? Milton Nascimento falando bem deles? Mariozinho Rocha produzindo? Como se o grupo fosse o antagonista de todas as coisas que a equipe gostava e aprovava.

Enquanto isso, na Manchete, no ar desde o dia 5 de junho de 1983, o papo era outro. O instrumental Videogame no s serviu como tema de abertura do Jornal da Manchete, como seria o ponto de partida para o Roupa Nova criar diversas vinhetas para a TV e tambm para a rdio, escancarando as portas da emissora para o grupo, que dava o tom jovem  TV do Ano 2000. Assim, o Roupa divulgaria o seu trabalho no Milk Shake, da Anglica, no Clube da Criana, com a Xuxa, no Circo Alegre, do Carequinha, e em tantos outros programas.



Salvador era uma das paradas obrigatrias da turn de quatro meses do Roupa Nova em 1983 para a divulgao do terceiro disco no trecho Norte-Nordeste. O show ocorreria no bairro Pituba, na regio litornea da cidade, no badalado Circo Relmpago - de lona azul e branca, com detalhes em verde e estrelas coloridas. No alto, um grande banner levava a marca da banda, e no palco o Roupa Nova se apresentaria para um pblico empolgado, apesar de todo o calor.

Kiko, sem raciocinar direito sobre o clima do local, escolheu uma cala preta, de couro, de roqueiro, de que ele tanto gostava. Bom, pelo menos essa era a sua opinio antes do show, j que, no decorrer da noite, ele passou a ser torturado por ela. Lgico, o guitarrista se mexia, pulava, e a cala - abafada pela temperatura - ia apertando. Principalmente debaixo daquela lona que esquentava ainda mais o ambiente. Tudo estava roxo ali dentro. Literalmente tudo, chegando at a queimar sua pele em movimentos mais bruscos.

- Puta que o pariu... - reclamava Kiko, fazendo caretas no palco que j no tinham mais nada a ver com os seus solos.

Ele estava contando os minutos para o final da apresentao, quando poderia ento tirar o demnio daquela cala do corpo. Quando, enfim, ouviu os aplausos esfuziantes, correu desesperado, direto para o camarim, onde era incrivelmente mais quente!

- Suely, me ajuda aqui! Pelo amor de Deus! - berrava ele, deixando tnis pelo caminho, tropicando, tirando as meias e andando em direo  cadeira, to afoito que estava quase caindo. - Uff... Uff... Uff... - respirava ele, tentando sobreviver  cala assassina, esticando as pernas para facilitar o trabalho de Suely de pux-la.

L fora a plateia, ainda animada, gritava ao mesmo tempo, quase em sintonia com a dor do guitarrista:

- Bis, bis, bis!

- Uff... Uff... Uff...

- Foi! - comemorou Suely, quase caindo no cho ao conseguir tirar a cala do marido.

- Aaaaah! Nem acredito!

E Kiko, aliviado, pegou uma folha de papel que tinha por perto para abanar suas pernas.

- S vou me refrescar um pouco antes de voltar...

Sem notar um mero detalhe da roupa.

- Hum... Amor?

- Oi.

- Acho que essa cala no entra mais em voc. Pelo menos, no hoje!

A cala estava do lado avesso, dura que nem um pedao de madeira e molhada de suor. Era impossvel vesti-la novamente.

- Cacete! - disse Kiko, vendo a movimentao dos outros msicos para voltar ao palco.

- Bora, Kiko! - chamou Ricardo.

- Vamos tocar um rock, n?

- , , ! Deve ser. Agora levanta da!

- T, t, t...

E l foi ele para o palco, diante dos olhos espantados e risos incrdulos de Suely ao ver aquela cena: seu marido de cuequinha branca, modelo sunga de praia. Confiante em quebrar tudo em um rocknroll qualquer ou numa msica sacana como Vira de lado.

- E a, o que vocs querem ouvir? - perguntou Paulinho para o pblico, sem notar o elemento estranho na banda, no instante em que o pessoal da parte tcnica j dava gargalhadas com os gritos histricos de algumas garotas.

Vira de lado, Vira de lado, Vira de lado torcia Kiko em seus pensamentos. Porm, um grupo de mulheres na frente encheu os pulmes de ar para serem ouvidas pelo vocalista:

- Sensual! Sensual! Sensual!

- No, gente! Vira de lado! - tentou Kiko, colocando a guitarra na frente.

- Sensual! Sensual! Sensual!

E no teve jeito! Os gritos exaltados das mulheres j haviam dado a sentena. Sensual era o sucesso do momento nas rdios, aps ter sido escalado para a trilha de duas novelas em 1983: Direito de nascer, no SBT, e Voltei pra voc, na rede Globo. E para a infelicidade de Kiko tinha um teor completamente fora do que ele desejara.

Nada a dizer antes de sentir

Ter ou no ter

Repetir...

Uma cano romntica, cantada por Paulinho, com pessoas levantando os braos e danando suavemente, sem sair do lugar. Belo clima para ficar s de cueca! Cacete, onde eu fui me meter..., dizia Kiko entredentes, com um sorriso amarelo para todos, diante dos risos descontrolados dos outros integrantes, que s no palco notaram a falta de calas do rapaz. O que deixava o guitarrista ainda mais sem graa, balanado com o corpo e a guitarra de um lado para o outro.

Nos anos 1980, o Circo Relmpago seria o palco do rocknroll e do punk na capital baiana. Um antro de rebeldia e de autoafirmao da juventude. Por l passariam bandas como Trem Fantasma, Delirium Tremens, Skarro, Gonorreia, Ratos de Poro e Camisa de Vnus. Conjuntos que escandalizariam os bons modos, chocariam a sociedade local. Mas no tanto quanto a cuequinha de Kiko em uma cano romntica do Roupa Nova.



O produtor Miguel Plopschi desceu do txi e conferiu o endereo que estava no papel: Barata Ribeiro. Estava no lugar certo. Viu que no andar de cima funcionava uma academia de ginstica bem ral e, na dvida, olhou mais uma vez o papel em suas mos, acreditando que havia algum engano. E se dirigiu para uma portinha horrorosa, pichada e caindo aos pedaos que existia no final daquele corredor, na rua de Copacabana. Isso t estranho. Desceu as escadas e entrou em um cmodo que parecia mais um bunker, um poro abandonado, sujo e esquecido, com insetos, teias, e ratos transitando por ali. Algo muito distante do que se considerava por estdio.

- O que eu vim fazer na RCA? - berrou Miguel, com um sotaque carregado de suas origens romenas, sentando no degrau da entrada da sala. - O meu estdio na EMI-Odeon era lindo...

E chorou por alguns minutos, triste, desolado, sem saber por onde comear. At tomar uma deciso, antes de ir embora dali.

Na semana seguinte, Miguel, sem pestanejar, entrou no escritrio do presidente da RCA Victor com vrias demandas para ontem:

- Isso precisa mudar!  preciso um investimento, fazer outro estdio, mudar aquele lugar! Se no for assim eu no fico!

Saiu de l com U$100 mil nas mos e um sonho de refazer uma gravadora do zero.



- T querendo contratar o Roupa Nova. O que acha? - perguntou Miguel Plopschi para Mariozinho Rocha, duas raposas no meio musical, que viviam trocando figurinhas e informaes valiosas sobre o mercado. E Mariozinho achou timo.

Ele era o pai e a me deles! Cuidava, ensinava... E o Roupa Nova estava sem cho aps sua sada, alm de insatisfeito com o resultado das vendas. Eu poderia ajud-los, relembra Plopschi.

Enquanto Mariozinho voltava para a EMI-Odeon, Miguel havia sido convidado por Manolo Camero para ser o diretor artstico da RCA. E, por mais que a gravadora fosse chamada de O Cemitrio dos Artistas, ele acreditava em uma nova retomada da empresa. Na dcada de 1970, os diretores no criaram, no fizeram casts. E faziam discos errados! Tipo colocar o Luiz Gonzaga para gravar forr com violino! Eu entrei para mudar isso, diz ele. Um romeno de temperamento forte, saxofonista dos Fevers e que, apesar do passado turbulento com Os Famks e da fama da companhia, encarava o Roupa Nova na RCA como uma possibilidade de um novo comeo.



De manh, o Roupa Nova gravou em Botafogo, na rua lvaro Ramos, o programa de Edna Savaget - que havia voltado para a Bandeirantes. E de tarde os msicos retornariam para a emissora, onde participariam do Frmula nica, com Alberto Brizola. Por isso, resolveram almoar por ali mesmo, em um dos bares da redondeza.

- Bicho, a gente no vende! - bradou Ricardo Feghali em uma das cabeceiras da mesa.

- Mas t quase l! Batemos as 50 mil cpias dessa vez! - respondeu Cleberson, na outra ponta.

- Ah... E vamos ficar nessa at quando? Um disco de ouro  100 mil, voc sabe, n? E ns somos seis pra ganhar dinheiro com a banda!

- Caramba, Ricardo, trabalhar com o Miguel de novo? P, voc conhece ele, n? Produtor, diretor artstico e saxofonista dos Fevers! Se a gente for pra l, j d pra saber o que ele vai querer com a gente!

- Ele vai querer vender discos, Cleberson!

- Ele vai  avacalhar o nosso som! Isso sim!

- Olha, eu entendo a sua preocupao... Eu gosto da linha mais MPB do Mariozinho, mas eu no acho que a banda vai crescer desse jeito.

- Ah, bicho, eu no sei, no... O nosso trabalho tem muito mais a ver com um 14 Bis, por exemplo, do que com Os Fevers!

E Ricardo deu uma boa garfada, mastigou com calma, para ento dizer:

- Eu acho, sinceramente, que d para ser uma banda popular, sem ser Os Fevers.

- Ah, Ricardo... Vai ser difcil a gente escapar de ser brega, hein?

E Cleberson, perdendo um pouco o prumo, tomou um gole de refrigerante, olhando para fora do estabelecimento.

- Cleberson! A gente toca pra cacete! Canta, faz de tudo!

- T, t... Mas trabalhar de novo com o Miguel?

- O problema foi o Carneirinho, e voc sabe disso.

- E o que  que eu sei, Ricardo?

O Roupa Nova surgiu antes do chamado BRock, apadrinhado por um produtor de grandes medalhes da MPB e inserido, incialmente, em um microssegmento formado pela Cor do Som, 14 Bis e pelo Boca Livre. Uma banda sem lder, de msicos com influncias distintas, quando no opostas, e que se veria, diversas vezes, em conflito sobre qual caminho escolher. Porm, eles eram seis caras com o mesmo objetivo: seguir.



PARTE IV

NA FEBRE DO SUCESSO

Num delrio total, romntico geral

1984-1989



CAPTULO 23

O CAMINHO DO SUCESSO  FATAL

O disco amarelo foi uma opo. Uma tomada de posio.

Nando

Gravador sempre ligado, compositores espalhados pelas mesas escrevendo canes, pessoas tocando e conversando nos corredores. Um ponto de encontro dos profissionais que viviam  base de acordes. Assim se tornaria a RCA Victor, depois da reforma encampada pelo recente diretor artstico, Miguel Plopschi. Um lugar de msica! E que funcionaria 24 horas ininterruptas, com solos, harmonias e vocais saindo daquela portinhola da galeria de Copacabana.

Cerca de 65 artistas transitariam todos os dias pelos estdios da gravadora. E nas gavetas, armrios, gretas, brotariam partituras e demos dos compositores para serem ouvidos. Nomes como Carlos Colla, Claudio Rabello, Ed Wilson, Paulo Srgio Valle, Augusto Csar, Ronaldo Bastos, Chico Roque, Michael Sullivan, Paulo Massadas... Figurinhas fceis de se encontrar nos LPs da RCA Victor. Em seu elenco estariam artistas de vrios segmentos, formando talvez um dos casts de msica mais consistentes do mercado.* Eu procurava ter uma sala sempre aberta para os msicos. Para eles irem l e nos encontrarmos todos os dias, conta Miguel. Assim seria com o Roupa Nova - segundo artista contratado, depois de Jos Augusto.

Miguel sabia o que e como queria suas produes dentro da companhia.

Ele era um profissional muito interessante na RCA Victor, diria Nando anos depois. E ao lado de um forte sistema de divulgao em rdio e TV, enraizado em todo o Brasil, ele estaria  frente de uma grande empresa vendedora de discos. Definitivamente, uma das gravadoras mais poderosas do pas nos anos 1980. E que faria questo de levar o Roupa Nova para seu cast a peso de ouro.



- Se vocs querem trabalhar comigo, sou uma pessoa que busca o sucesso! E o sucesso s  verdadeiro quando atinge o pblico e a gente consegue uma grande venda - enfatizou Miguel em sua primeira reunio com o Roupa Nova na sala da RCA Victor.

E continuou, enquanto os integrantes o observavam atentamente:

- Para eu ser mantido na RCA Victor por muitos anos, tenho que vender discos! Seno no entra dinheiro. E se no entra dinheiro, no tem salrio para as pessoas e as coisas no acontecem. E vocs tambm precisam ganhar dinheiro! No adianta s fazer um bom trabalho. Tem que fazer sucesso e vender! Isso  um sinnimo.

O romeno queria mudar o direcionamento do grupo e refletia enquanto falava. Artisticamente, o Mariozinho estava certo no incio, mas eles tm um caminho mais longo pela frente! Afinal, ele queria lev-los para um lado pop-rock, mais vivel comercialmente.

- E  assim que iremos montar o repertrio de vocs! Canes que o pblico vai querer cantar e que vo emocionar as pessoas - continuou. - Vocs tm que fazer um sujeito sair de casa para ir  loja!

Eles j conseguiram prestgio como msicos nesses trs discos. Espero que eles me entendam, pensou em uma de suas breves pausas, antes de terminar:

- Enfim, vamos ensinar para vocs como se vende. Deixa com a gente! Eu garanto que vocs vo ganhar o disco de ouro!

Uma tarefa nada fcil: nos anos 1980, era preciso vender cerca de 100 mil cpias para ganhar o disco de ouro (a partir de 2010, com a queda geral das vendas no mercado fonogrfico, esse nmero passou a ser 40 mil).



- Isso no vai dar certo... - comentou Cleberson na reunio fechada do Roupa Nova.

- , no sei, no... - complementou Kiko. - Vocs viram o papo, n?

- Mas a gente ainda pode negociar as canes.

- T, Ricardo... Vamos ter que brigar pelo disco inteiro! - disse Cleberson, ainda resistente por estar na RCA Victor e tornando aquele assunto, novamente, polmico.

Seguiram-se horas de discusso entre eles, inconformados por estarem naquela situao, at que Nando, antes calado, como se tentasse decifrar um enigma, resolveu participar:

- Vamos queimar esse disco?

- O qu? - perguntou Cleberson, assustado e em voz alta.

- , queimar... Vamos deixar o Miguel fazer o que ele quiser!

- Voc ficou doido?

E ele, calmamente, contou o que pensara:

- Gente, vamos ficar quietos dessa vez? Sem encrencar com o cara! Vamos deix-lo fazer o que quiser. Ele faz o disco dele e, depois, a gente faz o nosso.

- Ah, no... Voc deve estar de brincadeira...

- Cleberson, s assim a gente vai ter moral para depois falar o que a gente quiser!

- Mas, Nando... Voc no acha que pode queimar o Roupa?

- A gente no  obrigado a fazer o disco, Kiko! Se a gente falar no, o LP no sai, no ?

- !

- S que a gente no decidiu apostar na RCA Victor? Ser mais pop? Vamos ver aonde a gente chega com esse disco!

- Hum...

- , cara, acho que voc t certo... A gente tem que fazer um disco que a gente curta, mas que tambm seja disco de ouro - concordou Feghali.

- Eu no vejo outra forma... Gente, eu tambm no concordo com a produo do Miguel. Mas, se no for assim,  melhor sair da RCA Victor de uma vez!

Uma frase dita por Nando, seguida de vrios comentrios baixinhos, como , faz sentido, Pode ser, Tudo bem, e o grupo, aos poucos, foi chegando a uma concluso.

- Eu ainda no concordo com isso, bicho. Acho que no  por a... - insistiu Cleberson.

- Deixa de ser teimoso... No custa dar crdito pro Miguel! Vai que ele consegue? E se, depois, ficar uma merda a gente reclama, faz o nosso! - contra-argumentou Nando.

O tecladista ficou em silncio, fez umas caretas, olhou para baixo, um pouco desanimado, e deu seu veredicto:

- T, t... Eu continuo no concordando, mas j vi que no vai ter jeito. Vocs querem fazer isso, n?

E a anuncia de todos ao balanar a cabea foi o suficiente para o mineiro. Selando ento aquela difcil e dura deciso.



- Vamos gravar um disco do Roupa Nova! Por favor, componham e tragam msicas! - anunciou Miguel, com toda pompa, para o seu cast pop de compositores.

O brao direito neste trabalho seria o produtor Michael Sullivan, j conhecido pelos integrantes do Roupa desde os tempos de baile. Conhecido como Porquinho no meio artstico, Sullivan ouvia as fitas que chegavam, trocava uma ideia com Miguel e repassava para o compositor fazer ajustes quando necessrio. Tambm era o responsvel por passar as canes com os intrpretes, alm de atuar como compositor da RCA Victor ao lado de Paulo Massadas.**

- Sullivan, a gente tem que puxar o lado mais rock deles, as msicas romnticas, baladas...

- ... Eu t com isso na cabea tambm. Olha s, o que voc acha dessa? - disse ele, colocando para tocar: Uma vez mais / No h nada que fazer / Uma vez mais / Dessa vez como vai ser?

- Hum... Muito bonitinha. E combina com a voz do Serginho... Por mim, entra!

Uma vez mais, de Claudio Rabello e Piska, seria a primeira cano a fazer parte do repertrio. Alm disso, entrariam tambm outras baladas como No d e No dia em que voc me deixou. Foram apenas duas faixas no LP inteiro com a participao dos integrantes na composio da melodia: Kiko em Com voc faz sentido; e Cleberson e Serginho em Tmida.

Um disco que ia se desenhado com pouco vocal, aparentemente mais simples em seus arranjos, e com mensagens para emocionar o pblico. Com letras mais diretas e melosas.



- E a? Como  que t l na RCA Victor?

- P, Mariozinho... No vou te enganar, no... D vontade de mudar vrias coisas... - comentou Nando em uma das conversas que a banda tivera com o produtor, apesar de oficialmente eles no estarem trabalhando juntos.

O grupo estava sem empresrio na poca, aps desentendimentos com Hlio Marcio, que entrara depois de Everaldo. E Mariozinho continuava por perto, como um consultor do Roupa Nova, um amigo no qual eles confiavam. E que, como todo bom amigo, no tinha papas na lngua para mostrar seu ponto de vista.

- Olha, gente, o negcio  o seguinte: no d pra perder de 2 a 0! Se voc no est vendendo, mas t feliz da vida com o que t fazendo, tudo bem: 1 a 1! Se voc no gosta do que t fazendo e no vende nada... Bom, t perdendo por 2 a 0. Agora, t vendendo pra caramba, show pra caramba, mas no gosta muito do repertrio? Vai em frente! 1 a 1! T empatado!

E, para Mariozinho, aquela teria sido a melhor deciso do Roupa Nova, como declarou: Eles passaram a cantar msicas mais populares. O que eu acho que fizeram muito bem! Eles abriram o leque, expandiram, apesar de ter marcado o grupo de forma negativa. Eles tm muita mgoa disso.



A regravao de Top Top, famosa com Os Mutantes, foi o rock sugerido pelo grupo para entrar no repertrio. Ao passo que Esperando a sexta-feira e Liberal seriam as canes mais divertidas do disco - a primeira, uma composio de Mariozinho Rocha, e a segunda, de Ruban e Patrycia Travassos, integrante do grupo teatral Asdrbal Trouxe o Trombone.

Porm, Liberal seria censurada pelo governo, na poca sob o comando de Figueiredo, ainda em um processo de abertura poltica lenta e gradual. Poderia estar no disco, mas no nos shows do grupo. Tudo por causa de uma cola de sapato escrita no lugar errado.

Voc  um gelo seco no meu drinque

Um nocaute no meu ringue

Voc  um chiclete que colou no meu casaco

Vai cheirar a cola de sapato



O Roupa Nova hesitou, discutiu, brigou, aceitou, voltou, relutou de novo e custou a aceitar o convite de Miguel. Mas a partir do momento que os seis decidiram fazer o quarto disco da banda pela RCA Victor, estava decidido. Ningum iria sabotar ou fazer corpo mole durante as gravaes. Os msicos tentariam fazer o melhor LP, a partir das sugestes de Miguel e Sullivan, e, inclusive, brincariam durante o trabalho, como era de praxe do Roupa Nova - enlouquecendo Miguel.

Em uma das gravaes do quarto disco, por exemplo, todos estavam no estdio, enquanto Kiko passava sua parte na guitarra. S que, naquele tempo, para refazer um compasso que no estava bom, era preciso tocar de novo, em cima da msica, at chegar ao ponto para emendar. E aquilo estava acontecendo na gravao, no instante em que Miguel apareceu.

- Ih, Kiko, tocou leve demais! - gritou o tcnico, Flvio Senna, que j conhecia o grupo desde os tempos dos Motokas. - Pronto! Soltei a msica de novo! Vem tocando!

E o guitarrista fazia a sua parte de dentro do aqurio.

- Putz, agora tocou muito forte! Vai, de novo! Vem tocando!

S que numa dessas, em vez de mandar o solo da guitarra, o que Kiko fez? Vem tocando? Pra j! Tirou a roupa e saiu pelado de onde estava para sentar perto do pessoal. Foi tudo to rpido que, quando os msicos notaram, Kiko j estava ao lado deles.

- T tocando!

- Esse cara  maluco! Maluco! - berrou Miguel, em meio a uma risaiada geral no estdio.

E aquilo aconteceria outras vezes, como em uma das discusses de Miguel com o grupo sobre o repertrio, na qual o guitarrista baixou as calas e sentou no colo do diretor:

- Miguelzinho... Vamos parar com isso!

Miguel deu um pulo da cadeira e saiu correndo, perguntando depois para Flvio: Esse rapaz  assim mesmo?

Apesar de os msicos terem gravado, no passado, um LP na EMI-Odeon, como Os Famks, eles no tiveram tanto contato com Miguel. E, de fato, todos passariam a se conhecer apenas na RCA Victor. Agora, imagina o que foi para Miguel Plopschi, com aquele humor clssico europeu, de poucas risadas, se deparar com essa banda em estdio? No era por menos que ele, quando passava por Kiko, no corredor da RCA Victor, apontava para o guitarrista e alertava as pessoas:

- Esse cara  maluco! MA-LU-CO!



Vereda tropical, da TV Globo, estrearia s 19 horas do dia 23 de julho de 1984, tendo o gal Mario Gomes e a bela Luclia Santos como protagonistas da histria. Mario, na pele de Luca, um jogador de futebol, franco e de temperamento estourado, se apaixonaria pela operria Silvana, interpretada por Luclia, me de Zeca (Jonas Torres) e mulher de sangue esquentado - abandonada grvida quando mais jovem. Uma novela bem-humorada, na linha de Guerra dos sexos, com uma abertura caliente, colorida, de desenhos que remetiam  tropicalidade de seu nome. E que, como toda abertura de novela, precisaria de uma cano.

- No acredito nisso... - lamentava Cleberson, desiludido da vida, sentado em cima de um case, enquanto Serginho passava a voz de Vereda tropical, composio de Michael Sullivan e Paulo Massadas e msica com a qual o grupo iria concorrer para a abertura da novela das sete, da rede Globo: Perfume, Vereda Tropical.

- Bicho, vocs esto malucos...  isso que vocs querem gravar?

Porquinho estava presente no estdio, o que deixou aquela situao mais constrangedora.

- Cleberson...

- J sei, Nando... J sei... - disse ele, se levantando dali para dar uma volta, muito chateado com o repertrio que o Roupa Nova estava gravando e se sentindo com as mos atadas.

Afinal, algum tinha que ceder...



Ney Matogrosso acabou levando a melhor em Vereda tropical, cantando em espanhol a msica de Gonzalo Curiel. E alguns ajustes foram feitos na letra do Roupa Nova para que a cano pudesse entrar no LP - transformando ento Vereda tropical em Pecado original.

Perfume, pecado original

Que mata de cime

Aroma natural

Uma msica que, para o grupo, no passaria de uma tentativa frustrada de entrar na novela. Mas que, no Mxico, tomaria outras propores na voz de uma cantora chamada Ana Gabriel, conhecida tambm como A Diva da Amrica ou A Rainha do Mxico.

Em 1987, Ana Gabriel ganharia o disco de platina com o LP homnimo Pecado original, se tornando, na dcada de 1980, um fenmeno do pop na Amrica Latina. Com uma verso praticamente idntica  do Roupa Nova! Fazendo de Pecado original um hit latino-americano com o 14o lugar na Hot Latin Songs, da Billboard, em 1988. A ponto de colocar Michael Sullivan em uma situao inusitada, anos mais tarde, em uma de suas viagens.

O compositor, ao mostrar seu visto, na Polcia Federal dos Estados Unidos, causaria um rebulio inesperado no guarda. Ai, caramba, ser que deu algum problema?, pensava Sullivan, preocupado com sua entrada em solo americano. Ele olhou meu nome e t chamando todo mundo! Ser que eles vo me barrar? Bobagem... Na verdade, ele quase iria cair para trs ao ver o guarda e todos os outros funcionrios da polcia, ao redor dele, cantando: Pecado original.



Ricardo Feghali, ao lado de Flvio Senna, assinaria como tcnico de mixagem do quarto disco do Roupa Nova. Porm, no final, surgiram algumas dvidas sobre o conceito do LP, e mais uma vez o grupo entrou em discusso.

- , vocs briguem a, depois a gente briga aqui! - disse Miguel, tentando botar panos quentes na confuso, mas nada adiantava.

J Flvio Senna tomou um susto com o nvel do bate-boca e saiu do estdio, fechando a porta, desolado:

- Pronto, acabou a banda!

Todos preocupados com o disco e se ele estava de acordo com o posicionamento da banda, lutando por seus argumentos como se a vida deles dependesse do LP. Uma busca pela perfeio interminvel. E, se algum abrisse a porta do estdio naquele momento, acharia at que eles estavam quase se matando. Eles eram to chatos com esse lance de qualidade que, s vezes, exageravam, conta Miguel.

Era o jeito deles de fazer as coisas andarem, na tentativa de serem os mais justos reciprocamente. Depois de um ano, percebi que a banda, apesar das brigas, no ia acabar mais, relatou Flavinho.

Mas, enfim, eles iriam sobreviver, e o quarto LP do grupo, chamado Roupa Nova (assim como os outros trs) seria lanado em 1984. Um lbum apelidado pela banda de o disco amarelo, devido  cor predominante de sua capa, e que seria, na opinio de Mariozinho, o disco mais competitivo da banda! Especialmente por causa de duas msicas: Whisky a Go Go e Chuva de prata.



Notas

* No decorrer da dcada de 1980, segundo classificao de Marcos Maynard, fariam parte do elenco da RCA Victor: Amado Batista, Fbio Jr. e Jos Augusto - na rea de romntico popular; Chico Buarque, Gal Costa, Fagner - na MPB; Alcione, Paulinho da Viola, Grupo Raa, Liga das Escolas de Samba, Bezerra da Silva - no samba; Lulu Santos, Engenheiros do Hawaii, Arnaldo Antunes e Roupa Nova - no rock; e Gian e Giovani - no sertanejo.

** Canes que viriam da parceria de Sullivan com Massadas: Um dia de domingo, conhecida na voz de Gal Costa; Deslizes com Fagner; e Amanh talvez com Joanna. Conhecido na histria da MPB como um dos grandes hitmakers brasileiros, Paulo Massadas  o mesmo msico que tocara com Serginho no conjunto de Lincoln Olivetti, em Olinda.



CAPTULO 24

A GENTE FICOU COM A CHUVA E A GAL COM A PRATA

O sucesso do artista depende da cano. Se voc no tem A cano voc no tem nada!

Miguel Plopschi

- Que  isso aqui, Miguel? - perguntou Serginho, aps abrir uma das gavetas da mesa do diretor artstico, enquanto batia papo com ele e Nando.

- Ah, so fitas que as pessoas mandam e...

- Ih! Al! Ed Wilson! Vamos ouvir.

- Liga a.

E uma melodia bonitinha, delicada, com uma pitada da Jovem Guarda, tocou na sala de Miguel, despertando a ateno dos dois msicos.

- Caraca, Miguel! Isso  bom pra cacete! - comentou Nando, j olhando para Serginho, que entendeu a inteno do baixista.

- Quem poderia colocar letra pra gente, hein?

- Hum... Ronaldo Bastos!

- Gente, calma l... O Ronaldo no tem nada a ver! - disse Miguel, no querendo desanimar os dois.

S que Nando cismou.

- Isso  Beatles! And I Love Her, Till There Was You... J viu a verso que o Ronaldo fez pro Beto Guedes?* Nem o sol, nem o mar, nem o brilho das estrelas... - cantarolou o baixista. - Vamos ligar pra ele! Ele vai dar a elegncia que a letra t pedindo!

- , Miguel! Liga, vamos ligar!

- Ai, ai, ai... Eu no vou conseguir convencer vocs do contrrio, vou?

E balanando a cabea como se dissesse No tem jeito, Miguel pegou o telefone e ligou.



Eu tenho que fazer outras msicas. Muito chato esse negcio de ser srio! Eu no sou poeta, sou compositor popular. Esse  o meu trabalho e  como eu preciso ganhar dinheiro!, pensava Ronaldo Bastos quando se deparou com uma msica que a RCA Victor havia mandado.

- Nossa, que melodia linda! E  do Ed Wilson... Gostei.

O compositor normalmente demorava dias, s vezes meses para fazer uma letra, mas no foi o que aconteceu naquela tarde. Ao receber a cano da gravadora, ele teve saudades dos tempos de garoto, nos anos 1950-1960, quando escutava rdio e fazia desse veculo de comunicao seu arauto musical, com mensagens de cantores distantes como Sergio Murilo, Ronnie Cord, Carlos Gonzaga e Celly Campello. Ah, Celly Campello... Intrprete que ele escutava com os ouvidos atentos enquanto os versos se faziam em ondas sonoras: Tomo banho de Lua/ Fico branca como a neve... A melodia de Ed Wilson remetia exatamente a essa poca feliz -  sua infncia e a essa msica que ele tanto adorava.

Vou fazer um Banho de Lua** agora, disse Ronaldo Bastos para si mesmo, antes de pegar o lpis e o papel na mesa. Um compositor que aprendeu a fazer canes com canes, independente de qualquer outra referncia que o pudesse influenciar.  claro que a bagagem de vida e o conhecimento que cada um de ns carrega conta no instante da criao, mas as msicas de Ronaldo, como ele mesmo diz, sempre tiveram como ponto de partida outras msicas que ele amava. Essa seria a sua inspirao primordial, nem sempre aparente ou explcita.

Por isso, rapidamente, ele fez sua homenagem  Celly Campello e aos seus tempos de menino. Foi do comeo ao fim, em minutos, dando forma a outra cano sobre cano.



Chuva de prata foi feita para o disco amarelo do Roupa e agradou de imediato Miguel Plopschi e os integrantes da banda. Faltava apenas fazer o arranjo e a pr-produo.

- Essa msica lembra o qu, hein?

Foi a pergunta dos msicos antes de acertar as linhas meldicas e os instrumentos que iriam compor aquela cano. Existem coisas que so parmetros. No que voc v copiar uma msica! Mas  como achar um tema. Tocar no  o problema, o negcio  achar como tocar. Qual  a sua sacada?, explicaria Ricardo Feghali.

E, assim, a partir de suas influncias pessoais, eles conversaram entre si, traaram o plano daquela nova obra e partiram para o ataque.

Como beatlemanacos que so, ao ouvir Chuva de prata, lembraram-se logo de And I Love Her, composta por Paul McCartney na dcada de 1960 para sua namorada Jane Asher. Lanada no filme e no lbum A Hard Days Night, a msica ganhou verses pelo mundo inteiro, como a de Roberto Carlos, Eu te amo. E Kiko chegou a comentar em uma entrevista para o Jornal do Ouvinte, em 1986: Uma no tem nada a ver com a outra, mas tem um toque aqui, um bong ali, que lembra a msica dos Beatles.

E assim nasceria Chuva de prata, uma cano que fala sobre cano, outra cano e mais outra cano.



Por coincidncia, os microfones para violo estavam ligados quando Kiko treinava Chuva de prata em sua guitarra. E, de alguma maneira, o tcnico Flvio Senna achou que aquele incidente poderia ser reaproveitado.

- Hum... Isso no ficou ruim, hein? Deixa eu ver uma coisa!

E encostou o microfone nas cordas da guitarra.

- Kiko, toca de novo!

Fazendo com que a cano naquele Fender soasse como se viesse de um instrumento acstico. Um improviso que poderia dar mais um charme para aquela msica.

- E a, gente? O que acham?

E Feghali, mais que prontamente, foi na onda de Flavinho:

- P, vamos deixar! Ficou bacana!

Assim como os outros integrantes. Eles sempre foram abertos  inovao! Principalmente o Feghali. Ele  do tipo de produtor que deixa uma nota errada na msica, se tiver ficado bom!, conta o tcnico, que ainda veria esse truque com as cordas da guitarra em outra gravao.



Nessa mesma poca, Mariozinho foi convidado por Miguel Plopschi para produzir o primeiro disco da Gal Costa na RCA Victor - a terceira aquisio do diretor para a gravadora. E a sua misso era tornar a baiana uma artista mais pop!

Gal tinha prestgio com a imprensa, lotava os shows e chegava fcil  marca de 100 mil discos. Porm, tanto o empresrio dela, Guilherme Arajo, quanto Miguel, acreditavam que a cantora poderia vender mais com um marketing agressivo e um direcionamento popular. Assim, com a responsabilidade sob as costas, Maneco buscaria canes com a caracterstica de tornar a baiana um sucesso de vendas. Afinal, Gal, aps 18 anos de contrato com a Polygram, viria para a RCA Victor por uma fortuna - um dinheiro que deveria continuar rendendo para gravadora.

E, ao ouvir as canes do disco amarelo, ainda em produo na companhia, Mariozinho teve a sensao de que encontrara o que precisava:

Chuva de prata que cai sem parar

Quase me mata de tanto esperar

Um beijo molhado de luz

Sela o nosso amor

- Miguel, essa msica  a cara da Gal Costa!

- Olha, Mariozinho... Eu mandei compor essa msica para o Roupa Nova e eles adoraram! Querem, inclusive, t-la como uma das msicas de trabalho. Vai ser muito esquisito pedir agora para eles tirarem do disco.

- Mas eles no precisam tirar do disco!

- Pode at ser, mas a gente tem que conversar com os meninos antes.



Os seis msicos tiveram a mesma reao negativa quando Mariozinho pediu que eles cedessem a msica para a Gal. Foi tamanha a confuso que no dava nem para saber quem estava dizendo o qu.

- P, gente, me d essa msica pra eu gravar com a Gal!

Mariozinho estava empenhado em conseguir aquela autorizao.

- No, Mariozinho. Essa msica  chave! - disse Nando.

- E pelo visto o disco da Gal vai sair praticamente junto com o nosso! - reclamou Feghali.

Mas, apesar do clima tenso, Mariozinho insistia:

- Gente, pode ser legal pro Roupa ter uma cantora como a Gal gravando a mesma msica. Pode ajudar no sucesso da carreira de vocs.

Argumento que no mudou a expresso cerrada dos integrantes. Eles no estavam a fim de deixar Gal colocar Chuva de prata no disco dela, embora ela tivesse um nome mais estabelecido no mercado do que o deles. Os msicos estavam relutantes, mas Mariozinho tinha pacincia.

- Por favor, gente. O disco vai me ferrar! Eu preciso de uma cano dessas!

E ele pediu tanto que conseguiu. O que s aconteceu graas ao respeito e ao carinho que o Roupa Nova tinha pelo produtor. Se eu botasse a voz naquele disco, pediria uns 500 mil! Mas eles haviam gravado tudo da Gal! Como no aceitar fazer essa base?, comentaria depois o tcnico Flvio Senna, que acompanhou o processo de longe.

- Tudo bem, a gente autoriza. Mas porque  voc! S que tem uma condio: Chuva de prata vai para o lbum da Gal com o nosso arranjo e vocal. Com a mesma base feita para o nosso disco. E voc, de maneira alguma, pe como msica de trabalho! Seno voc ferra com a gente!

- Nando, vocs que mandam! E vai sair escrito no disco da Gal Costa: com participao do Roupa Nova - respondeu Mariozinho, satisfeito e pra l de sorridente.



- , Baixo, de quem  essa musiquinha bonitinha que voc me mostrou?

-  do Edwauwauwau - falando rpido e embolado - e do RONALDO BASTOS, parceiro do Milton!

Por um tempo, essa foi a resposta padro de Mariozinho Rocha quando a Gal perguntava sobre a composio de Chuva de prata. Estava fora de cogitao contar para uma das estrelas da MPB que aquela msica bonitinha era de um dos representantes da Jovem Guarda. Aquele mesmo cara citado nos versos de Roberto e Erasmo Carlos em Festa de arromba: L fora um corre-corre/ Dos brotos do lugar/ Era o Ed Wilson que acabava de chegar. Era ele, sim, o tal do Edson Vieira de Barros, irmo de Renato Barros, do Renato e seus Blue Caps. Alis, que fundou esse grupo com seus irmos, no incio dos anos 1960, na Piedade, subrbio carioca.

Enfim... Fora de cogitao! Ele podia ser admirado por Ronaldo Bastos - mas Mariozinho conhecia bem a cantora e sabia que o nome de Ed poderia ser motivo para ela desistir de gravar a cano. E isso no estava em seus planos. Chuva de prata ficaria perfeita na voz da Gal e no podia ser desperdiada por caprichos. Melhor no arriscar e manter o bico fechado.



- , Ronaldo, de quem  essa msica?

- De um compositor a, Gal. No sei. Me mandaram a cano e eu coloquei a letra.

Como escreve Nelson Motta, no livro Vale tudo (Objetiva), Gal tinha um gosto musical sofisticado e um dos fundamentos do seu sucesso era o rigor na seleo do repertrio. E a baiana at tentou conseguir a informao com Ronaldo Bastos, compositor da turma do Milton*** e autor de canes elogiadas pela crtica como Todo azul do mar. No entanto, o que a cantora no sabia  que Ronaldo havia sido orientado por Mariozinho para manter o discurso sem revelar a parceria e concordado. Assim, foi dessa maneira que Chuva de prata entrou no disco de Gal Costa, no final de 1984 - com o Roupa Nova assinando a parceria na contracapa, fazendo a base e com o microfone encostado nas cordas da guitarra.



Profana**** foi o LP da Gal Costa lanado em 1984, de capa jovem e provocativa, com a foto da cantora diante do espelho pintando a boca de vermelho. O nome vinha da msica Vaca profana, de letra pensante e polmica de Caetano Veloso - faixa proibida pela Censura de ser executada em pblico por meses. Considerado na poca seu melhor trabalho desde Fantasia, em 1981, o disco tinha como carro-chefe a msica Onde est o dinheiro, sucesso de Aurora Miranda no carnaval de 1937, e trazia uma intrprete brincalhona com baies, frevos, rocks e marchas carnavalescas, de muita energia, lembrando bastante a Gal alegre dos tempos da Tropiclia.

Os crticos festejaram a novidade, dizendo coisas do tipo folies e roqueiros que se preparem: chegou ao fim a fase Dolores Duran de Gal Costa (se referindo ao LP Baby Gal, gravado pelo Roupa Nova, com muitas canes romnticas). Alm de Caetano, o disco vinha com compositores renomados da msica brasileira como Gilberto Gil e Waly Salomo, e tambm dava espao para revelaes como Roberto Frejat, do Baro Vermelho - de quem ela dizia gostar das letras cabea. No final daquele ano, Gal chegava de cabelos cortados, figurino sinttico e barbarizando com seus agudos. O que no queria dizer que venderia.



Das doze faixas do disco de Gal Costa, apenas duas msicas eram romnticas: Chuva de prata e Nada mais - o que saa da temtica geral do lbum e desagradava um pouco a imprensa. Um detalhe que, se dependesse dos crticos e de Gal, continuaria sendo... um detalhe.

Rosangela Petta, ao falar sobre o disco na Isto , por exemplo, passou rpida e ligeiramente pelo fato: OK, ela ainda no se d ao luxo de dispensar abolerados (como Chuva de prata, de Ronaldo Bastos e Ed Wilson). J Okky de Souza, na Veja (texto publicado no mesmo dia da Isto ), nem se lembrou de que essa faixa existia ao discorrer quase uma pgina inteira sobre seu disco novo. Muito menos citou a participao do Roupa Nova, em Chuva de prata, banda presente na carreira da cantora desde o lbum Fantasia, em 1981, que recebera o disco de platina, com mais de 250 mil cpias vendidas.

E a prpria baiana bradou aos quatro ventos frases como a que foi publicada em O Estado de So Paulo, em matria de Fernando Molica: No estou atrs do sucesso. Se meu trabalho  comercial,  tambm reflexo de minha alma. No d para fazer um disco pensando em vender 500 mil cpias. Impossvel prever isso.



- Nando, vou ter que me valer de Chuva de prata! - disse Mariozinho, no telefone, preparado para enfrentar o baixista.

- Porra, Maneco, no faz isso, no!

- O disco da mulher t encalhado...

- P, mas voc combinou com a gente...

- Eu sei, mas no vai ter jeito! O disco dela t preso! No vende! T em 30, 40 mil. Eu preciso de uma msica forte, e essa msica  Chuva de prata!

- Ah, bicho, desculpe. Mas infelizmente eu no vou te dar esse aval, no - respondeu Nando, desligando o telefone em seguida, cuspindo marimbondos!



Alguns minutos depois o telefone tocou mais uma vez. No entanto, no era Mariozinho:

- P, Nando, por favor, quebra o galho!

Era Ed Wilson, um dos autores da cano, que se sustentava com o dinheiro dos direitos autorais de suas msicas. Chuva de prata poderia estourar com a Gal Costa! E Nando sabia o que aquilo representava para o compositor.

- Puta que o pariu... - diria ele baixinho, aps desligar o telefone.



- Dona Gal! - gritou Chacrinha, com sua voz arranhando a garganta, aps a apresentao da baiana em seu programa, com Chuva de prata, sua mais nova msica de trabalho.

Aproximou-se ento de Gal, com um vestido vermelho brilhante e uma flor na cabea:

- T ouvindo aqui que essa msica estava no disco de uma banda! Como  essa histria?

- No sei nada disso, no. Quem trouxe essa msica foi meu produtor.  sucesso meu, que eu gravei!

Nando passou mal, naquele dia, ao assistir em casa ao Cassino do Chacrinha.



Mariozinho j tinha tentado popularizar Gal Costa de uma maneira mais protegida dos crticos, utilizando os msicos do Roupa Nova em Baby Gal, na Polygram. No entanto, seria Chuva de prata que conseguiria esse feito, levando o disco Profana s alturas. Uma cano chamada de pr-fabricada pela crtica, mas que se tornaria no s um hit do LP, como tambm da carreira da baiana, ajudando a intrprete, pela primeira vez em sua histria, a alcanar a marca de 500 mil cpias vendidas. Apesar da balada melosa e fora do clima daquela gerao new wave dos anos 1980, apesar de ser do Ed Wilson da Jovem Guarda, apesar de ser tocada pelo Roupa Nova e de mais alguns outros pesares que os crticos pudessem levantar, a msica seria trilha sonora de muita gente e serviria para popularizar a figura de Gal Costa - como queria a gravadora e seu empresrio, Guilherme Arajo! E fez sucesso no s no Brasil, como ressaltou Xexo, na revista do JB, j em 1985, quando o disco chegava aos 400 mil: Se der tempo, uma rpida excurso europeia com passagem obrigatria por Roma, onde o bolero Chuvas [sic] de prata no para de tocar nas rdios. Justia seja feita: o Brasil no possui voz feminina de melhor qualidade para entrar na sua pauta de exportaes.

O clima blas dos jornais seria desbancado pelo pblico, que clamava por Chuva de prata. Como diria Nando, A gente engravidou e pariu aquele sucesso. Mas quem amamentou foi ela.

E nem mesmo Gal, aps descobrir que Ed Wilson era o autor da cano, poderia evit-la. O que seria um pontap para um hit maior ainda, no ano seguinte, em 1985, do dueto com Tim Maia em Um dia de domingo, de Michael Sullivan e Paulo Massadas, no disco Bem bom***** com 800 mil cpias vendidas, consagrando de vez Gal Costa como uma grande vendedora de discos e, a contragosto da crtica, uma artista popular.



Dizem que depois de um tempo, apesar dos pedidos do pblico, Gal Costa parou de cantar Chuva de prata em seus shows - para, quem sabe, a cano cair no esquecimento. E at mesmo em seu site oficial, na retrospectiva de sua carreira, ano a ano, no item biografia, a msica no  citada. Assim como tambm no  mencionada por Mauro Ferreira, que assina a crtica sobre a carreira da cantora no site do Dicionrio Cravo Albin, referncia nacional sobre a Msica Popular Brasileira. Apesar de no mesmo site, no item dados artsticos (seo em que se encontram as informaes gerais do artista e no possui assinatura de jornalistas), ter a indicao de Chuva de prata como um de seus maiores hits dos anos 1980.

Porm, at hoje, Gal, diretamente em contato com seus fs atravs do Twitter @gal_costa, recebe mensagens como chuva de prata#gal ou Escutando Chuva de prata da Gal Costa. Lembra minha infncia. Isso sem contar os inmeros vdeos espalhados pela internet da intrprete cantando Chuva de prata, a comunidade nas redes sociais (Chuva de prata - Gal Costa) e os downloads. Coisas dessa tecnologia moderna que propaga momentos, canes e sucessos, mesmo que a gente no goste ou no queira.



J o Roupa Nova, apesar de trabalhar Chuva de prata como single, no conseguiria nos anos 1980 a mesma repercusso que a cantora teve com a cano, que ainda se tornaria tema da novela Um sonho a mais, da rede Globo. E Gal, em suas entrevistas, continuaria sem citar o grupo - diferente do que fazia Milton Nascimento - e passaria longe de ser uma ajuda na divulgao da banda. Gravamos vrios discos dela, e sempre com muito carinho! E ela esconde a gente? Depois dessa, eu comecei a repensar o lance de gravar com os outros..., comenta Nando, chateado por ela no ter falado sobre eles no programa do Chacrinha.

Sentimento compartilhado pelos outros integrantes do Roupa Nova, embora Miguel Plopschi afirmasse, categoricamente, que todos sabiam no meio artstico que eles haviam gravado e idealizado os arranjos daquela cano.

Na imprensa, tambm no sairia que a msica havia sido feita originalmente para o disco deles, apenas alguns comentrios sobre a banda, como: alm dos grandes hits do Roupa Nova, msicas como Chuva de prata, linda balada que eles gravaram tambm com Gal Costa - texto de O Globo referente ao show do grupo no Caneco, em 1985. Nada mais do que isso. E at hoje continuariam saindo informaes estranhas sobre essa histria. No livro Vale tudo, lanado em 2007, por exemplo, Nelson Motta escreveu que Gal relutou muito em gravar a bonita balada Chuva de prata, de Ed Wilson, e s aceitou depois que, a seu pedido, o finssimo Ronaldo Bastos, parceiro de Tom Jobim e Milton Nascimento, fez uma letra de alto nvel. Uma msica que, de acordo com vrias fontes, j teria cado nas mos de Gal com melodia, letra, arranjo e tudo pronto.

As expectativas do grupo foram altas para aquela cano na dcada de 1980. E s os seis msicos sabem o quanto batalharam por ela. No entanto, como eles mesmos brincam: A gente ficou com a chuva, e a prata, realmente, ficou s para Gal Costa.

E, no, definitivamente no seria Chuva de prata que daria um disco de ouro para o Roupa Nova.



Notas

* Ronaldo Bastos fez a verso de Till There Was You para o disco Viagem das mos, de Beto Guedes. A cano ficou conhecida como Quando eu te vi.

** Banho de Lua  uma verso de Fred Jorge para Tintarella di Luna, msica de Bruno De Filippi e Franco Migliacci, lanada como single da cantora italiana Mina, em 1959.

*** Turma do Milton: as pessoas que surgiram com Bituca e que estavam ao redor dele, como Fernando Brant, Mrcio Borges e Ronaldo Bastos. Em uma matria de O Globo, de 7 de janeiro de 1982, a expresso foi usada, por exemplo, em uma referncia a Beto Guedes. A expresso foi muito utilizada por jornalistas na poca, como um selo de qualidade.

**** Nesse disco, a cano Nada mais (Lately) ganhou o arranjo de Cleberson, que tambm tocou ao lado de Nando e Serginho. E a faixa O revlver do meu sonho teve arranjo de Ricardo Feghali.

***** Nesse LP, apenas Cleberson participou nos teclados na faixa Musa de qualquer estao.



CAPTULO 25

FOI NUMA FESTA, GELO E CUBA LIBRE

Whisky a Go Go tem uma melodia fantstica e ficou estigmatizada como msica de segunda categoria.

Nando Reis

Whisky a Go Go  uma famosa casa noturna no cenrio mundial do rock, localizada em Los Angeles e aberta desde 15 de janeiro de 1964. Por l, passaram nomes como The Doors, Janis Joplin, Led Zeppelin, Jimi Hendrix, Guns N Roses, Oasis e Red Hot Chili Peppers. Ao longo de sua histria, a boate se tornou palco de diversas tendncias musicais, como o punk e o new wave na dcada de 1970, hard rock e heavy metal na de 1980, e o grunge na de 1990. Mas nada se comparou  fama inicial, aos seis anos seguintes  sua inaugurao, com o show de Johnny Rivers.

O cantor americano no s abriu a casa, como se apresentou inmeras vezes naquele palco, onde tambm gravou discos ao vivo de sucesso. E sua presena constante na boate foi um fato marcante da poca, tanto para o pblico, como para o prprio msico, que soube aproveitar o lugar a seu favor. O primeiro lbum de sua carreira, Johnny Rivers at The Whisky A Go Go (1964), alcanou o 12o lugar da Billboard, enquanto uma das msicas deste disco, Memphis, cover de Chuck Berry, a 2a posio. Isso seria apenas o comeo de tantos outros hits, como Secret Agent Man e Do You Wanna Dance?. Um clima de festa e rocknroll que seria a inspirao de outros artistas. Entre eles, os compositores brasileiros Michael Sullivan e Paulo Massadas, em 1984.



De incio, a dupla pensou em fazer uma cano falando dos bailes, como se fosse Nos bailes da vida, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Porm, a msica no foi bem recebida ao ser apresentada ao Roupa Nova. Quer dizer, no foi NADA bem recebida. Tanto que os integrantes vetaram e questionaram a msica - o que at ento eles no haviam feito no disco amarelo.

A cano parecia ter chegado ao seu fim antes mesmo de sua existncia. E Sullivan por pouco no desistiria de vez da ideia. At que um deles levantou a bola:

- Mas essa levada lembra muito Johnny Rivers!

Desencadeando no grupo sugestes nessa mesma linha.

-  verdade!  a discoteca Whisky a Go Go!

- P, essa onda  legal! Tenta de novo?

E mais uma chance foi dada  cano.



- Paulo, mostrei pro Roupa - ligou Sullivan para Massadas, assim que chegou em casa.

- E a?

- Ah, bicho, eles no gostaram, no.

- Nem falando dos bailes e tal?

- No dessa forma. A gente tem que falar de uma casa de shows e... - disse Sullivan, contando na sequncia sobre a boate, Johnny Rivers e todas as outras ideias que haviam surgido na reunio com o grupo.

- Hum... Entendi. Acho que peguei - disse Massadas, desligando o telefone para voltar ao lpis, papel e violo. Meia hora depois, ele ligou com o resultado. - Achei o refro!



Bastou o Massadas achar o refro para a dupla reescrever em minutos a nova msica. E, no dia seguinte, j estaria Sullivan, nos estdios da RCA-Ariola, mostrando para o grupo.Tcha ga nam ga, tcha ga nam ga..., fazia o velho violo do compositor, com as cordas sobrando um pouco para fora, enquanto ele tocava a abertura daquele i-i-i, cantando com sua voz rouca, todo empolgado, de um jeito doido e caracterstico de Porquinho: Foi numa festa, gelo e cuba libre / E na vitrola Whisky a Go Go...

E a reao da banda parecia ser mais receptiva, como se eles estivessem mais convencidos sobre a msica. Mas, ao entrar na ponte antes do refro, o quadro mudou de novo.

Mas no faz mal, se faz doer tudo bem...

- Putz, Porquinho, isso ficou ruim! - disparou Nando.

- Bicho, t muito brega essa parte! - concordou Serginho.

E todos ficaram ali por mais um tempo, sem chegar a uma concluso. Eles tinham tanto grilo com a primeira letra que, na segunda, continuaram com dvida, relembra Sullivan, que tocaria a msica umas cinco vezes para que eles pudessem avaliar. At Miguel chegar:

- Gente, a msica t boa...

- O refro  muito bom! Mas tem um trecho a... - comentou Paulinho.

- Essa msica j nasceu hit! Vocs s no vo gravar se ficaram malucos!

Embora no to entusiasmados, os msicos se lembraram da deciso de queimar o disco e acabaram concordando com o diretor. Ou seja, estdio marcado e mais uma cano certa para o repertrio. Bom, pelo menos era isso o que achava Miguel Plopschi at o dia da gravao.



- Oi, Miguel, desculpe ligar para voc. T podendo falar? - perguntou Sullivan, afoito, ao telefone.

- Lgico! O que aconteceu?

- Olha, t no estdio com o Roupa Nova e eles se recusam a gravar Whisky a Go Go.

- Como  que ?!

- ... Decidiram aqui. Eu no sei mais o que fazer...

- Me espera a! Eles ficaram doidos...

Miguel nem pensou muito! Pegou o carro e saiu como um foguete de sua casa na Barra da Tijuca diretamente para Copacabana, onde ficava o estdio.

- Vem c, o que t acontecendo? Vocs ouviram a msica e gostaram!

- Ah, a gente pensou melhor, Miguel. Ainda t ruim - respondeu logo Feghali.

- Ruim? - questionou Miguel, que simplesmente no acreditava no que estava ouvindo.

-  meio brega - afirmou Cleberson.

Na hora, s a cara de espanto do Miguel j dizia muita coisa. Aquela situao era inacreditvel! Eu tenho que manter a calma para lidar com isso. S me faltava essa, pensava o diretor, respirando devagar e tentando ter pacincia diante dos questionamentos incessantes que faziam parte da rotina do grupo. No entanto, naquele momento, eles precisavam ser prticos.

- Pessoal, vocs no podem combinar uma coisa e mudar de opinio no meio do caminho. Da fica difcil trabalhar!

- Tudo bem, mas do jeito que t a gente no grava - respondeu Paulinho.

- A gente pensou em fazer o seguinte, Miguel... - disse Nando.

E pegou o violo para mostrar as mudanas que eles queriam propor para a msica, tirando inclusive a ponte antes do refro.

- P, mas vocs esto mudando a melodia... - disse Sullivan, enquanto o diretor tentava:

- Nando, vocs gravam e depois a gente v! Se ficar ruim, tiramos do disco! O que no d  para mudar de ideia justo agora.

- No, Miguel. A gente j conversou muito sobre isso... - falou, olhando para baixo, segurando o violo. - Ou muda ou a gente no grava!

- E vocs vo perder um hit desses?

- Hit  como estamos fazendo!

- Ento vamos ver!

Uma msica que iria contar em 1984 as histrias de 1964, remetendo elementos como vitrola, gelo e cuba libre. Um refro forte, sem ponte, e uma levada  la Johnny Rivers.



Sullivan e Miguel opinavam, junto com o grupo, sobre quem cantaria cada msica do disco. E, para o diretor, via de regra: Baladas com refros altos iam bem com o Paulinho, e as msicas romnticas e suaves se encaixavam na voz do Serginho. Porm, naquela confuso, ops, gravao, o batera faria a voz principal - para a insatisfao do vocalista. P, Whisky a Go Go tem um puta clima! Eu que devia estar gravando, pensou ele, injuriado aps a deciso.

Depois, os integrantes at se tocariam, mas j seria tarde demais.

- Ih! O Serginho cantando uma msica de festa? Com ele atrs da bateria?

E s nos shows  que as coisas voltariam para o seu lugar.



Senti na pele a tua energia

Quando peguei de leve a tua mo

A noite inteira passa num segundo

O tempo voa mais do que a cano

- No  desse jeito que toca essa msica! - gritou Miguel, dentro dos estdios, parando de imediato a gravao.

- Como no? - indagou Feghali.

- T muito bom!

Uma das marcas do Roupa Nova, em sua carreira, seria o som limpo, clean, com preciso nos acordes. No entanto, a cano pedia um carter mais sujo, despojado, dos bailes. O Miguel tinha uma viso diferente desse lance de pumba pumba. S que o Roupa Nova no conseguia tocar com erros, lembra Flvio Senna, tambm presente no estdio. A coisa no saa de jeito nenhum!

- Certinho demais! Chega a ficar ruim! - berrou o diretor artstico na terceira tentativa da banda.

- , t certinho mesmo... Me d o baixo a, Nando! - mandou Feghali, esticando os braos, saindo de trs dos teclados.

- T bom... Ento eu vou de guitarra!

E s assim a msica entraria nos conformes.

-  isso a! Vocs so bruxos! - comemorou Porquinho, que tocava guitarra junto para dar a levada (depois a sua parte seria tirada).

S faltava ento um detalhe: o clima de ao vivo. O que se tornaria uma grande festa dentro do estdio, com salgadinhos, bebidas, e todos danando e cantando. Cerca de oito, dez pessoas, como Miguel, Sullivan, Maurcio - amigo do grupo -, alm dos msicos, respondendo aos ! ! de Serginho. Com uns quatro ou cinco canais registrando a zorra musical. Relembrando outros momentos da banda, bem diria Flvio Senna: O engraado  que, depois de anos, faramos o Whisky a Go Go como Os Motokas. Ao vivo! Como um baile.



- E voc fica com o mais novo sucesso do Roupa Nova: Whisky a Go Go! - anunciou o radialista, no Rio de Janeiro, aps dois meses do lanamento da cano no mercado.

Era sexta-feira com a desculpa perfeita para os ouvintes arrastarem os mveis da sala para danar, esquentando o corpo para as discotecas. Meninas chamavam as amigas para ouvir a msica, os meninos imitavam os acordes no violo, e a tia que arrumava a casa aumentou o som no mximo para a vizinhana ouvir. Porm um homem, dentro do carro, ao perceber aquele hit tocando no rdio, no mexeu uma palha. Apenas escutou com ateno a tal do Whisky a Go Go.

E no teve mais dvidas sobre o que fazer no dia seguinte.

- Guto, troca tudo! - disse ele, ao chegar  rede Globo, deixando Guto Graa Mello atordoado.

- H? Do que voc t falando?

- Do nome da novela das sete e do tema da abertura! Achei o que faltava.

- Faltava? Mas estava tudo certo e...

- A novela ser Um sonho a mais.

- Mas e o Esconde-Esconde? Voc acha esse nome...

- E liga pra RCA! Quero a msica do Roupa Nova na abertura! - afirmou o vice-presidente de operaes da emissora, que batia o martelo sobre as trilhas das produes.

Estava to empolgado que quase se esqueceu de dizer o nome da cano! Doido com o refro e a levada de Whisky a Go Go, que se encaixava perfeitamente no clima alto astral que ele imaginava para a abertura da prxima novela. Seu nome era Jos Bonifcio de Oliveira, o Boni, como era chamado na Globo. E aquela msica era tiro certo! Ele sentia. E o refro ento...

- Um sonho a mais no faz mal...



- Miguel, a msica j vai entrar!

- Mas voc tem que entender, Guto, que... - insistia Miguel, afoito, ao telefone, depois de saber que Whisky a Go Go faria parte da abertura da novela.

- P, Miguel, eu j disse que vai rolar... No adianta voc ficar me ligando! Isso no vai acelerar o processo.

- T, t, mas  que  importante e...

- Miguel, eu j entendi! - respondeu, irritado, Guto Graa Mello, responsvel pela direo da trilha daquela produo.

Miguel Plopschi estava ansioso pelo comeo da novela. Afinal, apesar do estouro de Whisky a Go Go nas rdios, o disco do Roupa Nova de 1984 ainda estava longe de bater as almejadas 100 mil cpias vendidas. E Um sonho a mais, que teria seu primeiro captulo no incio de 1985, poderia ser, sim, uma oportunidade de ouro para o grupo.



A abertura de Um sonho a mais recriou um bailinho dos anos 1960, com jovens danando, namorando, mascando chiclete e se divertindo ao som de Whisky a Go Go, incitando a festa. Uma gravao que seria modificada vrias vezes at chegar  ideal, com bailarinos rodopiando no salo e cenas acrescentadas em forma de gags humorsticas. E que inclusive teria, em sua ltima verso, o Roupa Nova, tambm vestido a carter, no palco, se apresentando para aquele pblico. Motivo de sobra para o grupo comemorar! Quer dizer, nem tanto para Nando.

- No acredito... - diria ele, quase sem mexer os lbios, ao assistir  abertura.

Ficou pasmo, petrificado, praticamente em choque, ao reconhecer uma das bailarinas do elenco. Ela, Llian, sua terceira paixo, rodando e sorrindo ao som do Roupa, com roupas da dcada de 1960 e... linda. Mas... como? Sentindo ainda seu corao palpitar, como se fosse aquele garoto da faculdade de direito que daria o mundo de presente para a sua amada. Aflito, ansioso, esperanoso! Embora ainda ecoasse em suas lembranas aquela maldita frase: Eu t noiva.



Dias depois, o Roupa Nova seria convidado para fazer o clipe de Whisky a Go Go para o Fantstico, em uma das boates do Rio de Janeiro. E quem a emissora chamaria novamente para fazer parte do corpo de bailarinos da cena?

- Llian? - disse um pouco sem graa o baixista para ela, ao reencontr-la na gravao.

- Oi, Nando, quanto tempo...

Naquele dia, ele contou que estava bem, e ela sorriu, sem muita disponibilidade ou vontade de dizer como estava: se casada, solteira ou feliz.

- Eu te ligo! - falou ela, deixando o baixista com seus sonhos, mais uma vez,  deriva.

E foi embora daquela gravao, sem fazer grandes promessas ou dar vazo  saudade. S que dias depois ela ligou, pedindo ajuda, desolada com seu casamento e com o rumo de sua vida. E Nando outra vez deixou que ela se aproximasse. Enfrentou sua me, sua famlia, que j o vira sofrer por aquela mulher, e a acolheu, revisitando seus fantasmas e frustaes por t-la perdido e permitindo que ela bagunasse novamente seus sentimentos.

Os meses se passaram, Llian se separou e Nando saiu da casa dos pais, pela primeira vez, para ficar com ela. Alugou um apartamento pequeno, confortvel e bonitinho, que comportaria o casal, um cantinho no qual eles poderiam ficar juntos, tentar. E ali ele esperou, esperou, esperou pelo seu retorno. Porm, ela nunca apareceu.



Um sonho a mais estreou no dia 4 de fevereiro de 1985, contando a histria de Volpone:* um homem que havia sado do Brasil, aps ser acusado de matar seu sogro, e decidira retornar depois de vinte anos para provar sua inocncia e reconquistar Stella. Mas que para isso inventaria uma doena grave para viver dentro de uma bolha e, assim, no ser preso pela polcia. E mais: ainda pagaria um ator para ficar no seu lugar na bolha, para que ele, disfarado, transitasse pela cidade para descobrir o verdadeiro assassino de seu sogro.

Ney Latorraca foi o ator escalado para viver Volpone, que se disfararia no decorrer da novela de quatro personagens: a secretria Anabela Freire, o mdico Nilo Peixe, o advogado Augusto Mello Sampaio e o motorista Andr Silva. Uma estratgia arriscada e engraada, conduzida com a ajuda de seu amigo Mosca, interpretado por Marco Nanini.

A trama nonsense, de narrativa agitada, teria elementos pops e homens vestidos de mulheres, causando estranhamento no pblico em geral, acostumado com enredos mais tradicionais e normais. Desta forma, a novela sofreria problemas com a audincia no seu primeiro ms. E at o roteirista Daniel Ms foi trocado a partir do captulo 37 por Lauro Csar Muniz. Uma tentativa de reanimar a produo, que seria censurada pelo governo por causa dos personagens travestidos, e que se arrastaria para conseguir uma boa audincia.

Diferente da abertura, com a msica Whisky a Go Go, que se tornaria sucesso imediato e um clssico entre os noveleiros de planto.



Apesar de a novela Um sonho a mais ter enfrentado alguns problemas, inclusive baixa audincia, Whisky a Go Gose tornou um sucesso e o Roupa Nova enfim sairia da marca de 15 ou 30 mil discos vendidos na poca da Polygram, com o LP amarelo da RCA-Ariola. No entanto, ao contrrio do que prometera Miguel Plopschi, esse lbum no chegaria a ganhar o disco de ouro, alcanando cerca de 60 e poucas mil cpias vendidas. Deixando aquele gostinho de quase nos msicos, que, apesar de no gostarem do LP, no viam a hora de bater os 100 mil.

- Viu? Adiantou? - diria Cleberson para o grupo, com aquele disco amarelo ainda entalado na garganta.



- Miguel, esse foi o disco da RCA-Ariola. O prximo  nosso! - falou Nando ao entrar na sala do diretor, acompanhado pelos outros integrantes.

- Hein? Como assim?

- No foi ouro, Miguel - completou Ricardo, apoiado por todos.

- Pra a, gente...

Seguido por Kiko:

- S pra ver quanto vende.


E tambm por Cleberson, mais do que satisfeito:

- , Miguel! Agora, ns vamos meter a mo!



s vezes a cano encontra o pblico e o pblico encontra a cano. Sem pedir consentimento para o compositor que a fez ou para o intrprete que a lanou. Apenas acontece. E quando isso ocorre no h crtico que os consiga separar. No h rtulo de brega ou de popularesco que diminua a importncia desse encontro. A msica simplesmente prevalece na memria sentimental das pessoas e ali se faz referncia, lembrana e real.

Os versos simples de Massadas, mais a levada de Sullivan, misturados com os arranjos e a leitura do Roupa Nova, fariam de Whisky a Go Go uma destas canes sem data de validade e muito mais do que um hit de 1985. Msica animada e obrigatria dos bares, festas de casamento, formaturas e aniversrios durante dcadas. Conhecida por jovens, velhos e pessoas de todas as idades. Pouco regravada, diga-se de passagem. Talvez pelo preconceito bobo dos artistas com os rtulos que cairiam sobre a msica, ou sobre o Roupa Nova. Ainda assim, uma cano nacionalmente reconhecida desde o seu lanamento.

Nando Reis contaria que na dcada de 1990, em um programa feito com outros grupos, resolveu tocar Whisky a Go Go com Marcelo Fromer, sendo acompanhado por Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso. Mas tudo sob olhares desconfiados dos outros integrantes das duas bandas. Eles no sabiam se aquilo era algo irnico ou no. Uma reao que ele tambm perceberia nos seus shows de carreira solo, ao tocar a msica, e principalmente ao incluir a obra em seu DVD Bailo do Ruivo, de 2010. Nas palavras de Nando Reis: As pessoas reagiam como se eu tivesse tirando um sarro. Olha essa coisa brega aqui!, Eu t aqui mostrando como eu sou inteligente..., nada! Isso me deixava um pouco irritado.

Um msico que assumiria gostar legitimamente de Whisky a Go Go, assim como de outras msicas brasileiras tambm menosprezadas pela classe dita pensante do pas, como Fogo e paixo e Lindo balo azul. A influncia no se resulta numa relao de semelhana entre o que voc venha fazer. A forte influncia pode ser aquilo que voc nunca vai tocar. Mas ela te marcou e te fez de alguma maneira. E essas msicas, muito diferentes, tiveram essa importncia pra mim.

- ... Vou morrer tocando Whisky a Go Go - comentaria Serginho, anos depois. O primeiro sucesso que projetou o Roupa Nova em nvel de grande pblico! O marco da nova fase da banda, que saa de uma fase mais MPB para uma mais pop-rock, como afirmaria Miguel Plopschi. Um divisor de guas do que havia sido feito antes, com Mariozinho, na carreira do grupo. A 32a msica mais tocada no Brasil, nas rdios, naquele ano de 19853 - um hit que seria sinnimo de festa at hoje e estaria na histria da msica brasileira. Doa a quem doer.



Nota

* Personagem inspirado na pea Volpone, do ingls Ben Jonson, produzida em 1606.



CAPTULO 26

OS ESCOTEIROS DO ROCK

Hoje todo mundo toca o Whisky a Go Go, at os roqueiros! Mas... Na poca? Fomos muito criticados.

Cleberson Horsth

As bandas entraram na moda e nas lojas de discos nos anos 1980, no Brasil. Tanto pela necessidade do jovem de se expressar e criar sua prpria identidade, como tambm (e principalmente) pela viabilidade econmica para a indstria fonogrfica. Enquanto os artistas da MPB precisavam pagar maestro, arranjador e msicos acompanhantes para gravar um disco, as bandas se bastavam. Para dimensionar essa vantagem financeira: o gasto da maioria de discos de rock no passava de Cr$ 1 milho, enquanto o de trabalhos mais sofisticados da MPB chegava aos Cr$ 10 milhes. Isso quando no ultrapassava esse valor como aconteceu com o LP Luz, de Djavan, lanado em 1982, aps contrato milionrio com a CBS. Mixado em Los Angeles, o lbum custou Cr$ 50 milhes para a companhia.*

Por isso, era conveniente para as gravadoras incentivarem as bandas - mesmo sem entender o que elas representariam esteticamente. A confuso era to grande que nos colocaram para tocar, no Maracanzinho, num show de aniversrio dos Fevers, uns caras de 50 anos cantando do do do, da da da/ o que eu sinto no sei explicar, relatou Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, sobre o show da EMI que seria a unio da nova e da velha gerao do rock - com Os Paralamas e a Blitz diante dos veteranos 14 Bis e a Herva Doce (com ex-integrantes de A Bolha). A gente tinha que agir rpido para dar certo, antes que eles se tocassem de que haviam comprado gato por lebre, de que ns no seramos outros Fevers.

Para os profissionais da imprensa, depois do disco da Blitz, com Voc no soube me amar, ficou claro que algo novo surgia no cenrio brasileiro. Algo ainda conceitualmente inslito no incio dos anos 1980, mas que agradava os roqueiros de planto, despertando especulaes sobre rock nacional nos principais meios de informao da poca: os jornais cariocas. Crticos ansiosos para que o rock gerasse uma ruptura conceitual com o establishment da poca, a MPB, e se tornasse parte do mainstream. Jornalistas com os dedos coando para escrever o que seria aceito por eles como rock, qual postura seria adequada para a nova figura musical e o que poderia se esperar daqueles jovens roqueiros. Preocupando-se, muitas vezes, em mais definir o que era ou no o rock brasileiro do que simplesmente curtir.



O rock deu uma blitz na MPB, diria Gilberto Gil.4 J o jornalista Arthur Dapieve explicaria o movimento como um reflexo retardado no Brasil menos da msica do que da atitude do movimento punk anglo-americano: do-it-yourself, ainda que no saiba tocar, ainda que no saiba cantar, pois o rock no  virtuoso.5 E os batizaria como BRock (b rock) - termo infeliz, na opinio de Lobo: Quem se resigna ao BRock no pode ter destino mais ambicioso do que esse.6

E, de fato, no existia um padro esttico de som nestes grupos, que tambm transitariam pelo pop, brega, ska, reggae e outras influncias. Como afirmaria Mrcia Bulco, integrante da Blitz, sobre o rtulo imposto naturalmente pelo mercado para a sua banda: No adianta a gente dizer que  rock. Depois o rock termina, e a gente como fica?7

Um posicionamento ainda mais complicado para os que j tocavam antes dos anos 1980, em uma linha vista como MPB, como A Cor do Som e o 14 Bis. Entre a cruz e a espada, eles teriam que correr para ser includos na moda da Gerao Coca-Cola, dos filhos da revoluo e burgueses sem religio. Como fez Lulu Santos, ao colocar em seu disco de 1983 participaes como Paralamas do Sucesso e Kid Abelha, deixando claro o grupo em que se encontrava, alm de trazer um repertrio extremamente pop - o verdadeiro rock daqueles tempos.

J o Roupa Nova flutuava nesse cenrio de rtulos que, teoricamente, s serve para agrupar os discos nas lojas. E no se autoafirmava pertencente a algum gnero. At porque os seus integrantes tinham influncias distintas! O grupo disputava espao com A Cor do Som, era comparado com o vocal do 14 Bis, confundido com o Rdio Txi e frequentava todos os festivais, casas de show, estaes de rdio e TV por onde passava o dito rocknroll - dos Paralamas, Kid Abelha, Blitz e companhia. Sem um lugar confortvel e tranquilo na estante.



O Roupa Nova era uma banda com um acento rocknroll, que tocava, cantava e arranjava muito bem. E eles estavam interessados em tocar coisas consideradas boas. Porm, o jeito over de se expressar, tanto para o mal quanto para o bem, impedia que eles entrassem entre os queridinhos da MPB, comenta Ricardo Moreira, que, por coincidncia, tambm divulgaria o disco amarelo do Roupa Nova pela RCA-Ariola, aps sair da Polygram.

Ao lado de Mariozinho Rocha, o grupo, intuitivamente e tambm por gosto musical, tentou se posicionar na caixinha da MPB, citando com frequncia as participaes feitas nos discos dos medalhes, como se isso fosse contar como um ponto a mais na sua classificao de mercado. No entanto, com o surgimento das bandas e a escolha por Miguel Plopschi, manter esse discurso ficou praticamente impossvel, embora eles continuassem tentando... No release do disco amarelo, Nando insistiu: Ns estamos, hoje, numa posio muito confortvel. Usamos nove teclados eletrnicos e nem por isso deixamos de estar classificados na confraria da MPB. H dez anos seramos marginalizados. S que, na prtica, a histria era bem diferente.

Os poucos hits como Cano de vero e Anjo pareciam incomodar os formadores de opinio, que viam o grupo recm-sado dos bailes tomando um espao que no lhe pertencia. O Roupa Nova se infiltrava na MPB e isso gerava estranhamento. Ningum ficava puto com Os Fevers, no existia preconceito nesse sentido. Mas o Roupa conseguia morder a MPB e, por isso, existia em torno deles um preconceito boal, lembraria Ricardo Moreira. O que s pioraria com a produo de Plopschi - que tinha fama de popular, beirando o popularesco, e era ex-integrante dos Fevers. O que tornava impraticvel a continuidade da carreira deles naquela prateleira.



Ento, o Roupa Nova poderia ser o rock dos anos 1980? Afinal, era uma banda com influncias do rock internacional, formada por jovens, com canes no estilo Bem simples, Vira de lado, E o espetculo continua ou Cano de vero - to pops quanto os grupos deste novo cenrio. Ou, como eles mesmos diriam, uma banda com arranjos que tm uma tendncia ao rock progressivo, no caso de Sapato velho e Roupa Nova, mas que beirava a balada. Faria sentido?

No dia 17 de fevereiro de 1981, por ocasio do lanamento do primeiro disco da banda com Mariozinho Rocha, o jornalista Luiz Antonio Mello publicaria, no Jornal do Brasil, a matria Rock Brasileiro de Roupa Nova, na qual afirmaria: O Roupa Nova surge maduro, competente, cuidadoso, e com uma consciente queda para o rock progressivo. Esse rock brasileiro, to marginalizado e concentrado nas mos de poucos como o 14 Bis e algumas passagens da Cor do Som. E fecharia o texto com as seguintes palavras: Pelo grau de profissionalismo com que foi conduzido o projeto do Roupa Nova, esse disco, se gravado em ingls, iria disputar uma boa fatia do mercado internacional, ao lado de Queen, Supertramp e outros. Um trabalho digno de respeito, que traz no sangue a difcil magia de se conciliar letras em portugus a ritmos de diversas tendncias. Mais um reforo no anmico mercado de rock brasileiro, devido ao medo e preconceitos. Profissionalismo  isso a.

S que essa abordagem se tornaria raridade aps o disco amarelo da RCA e o surgimento de bandas que iriam invadir a sua praia. Deixando o grupo, assim como A Cor do Som e o 14 Bis, relegados  segunda categoria do rock. Andr Midani, um dos maiores executivos da indstria fonogrfica brasileira, diria sobre este incio: Tanto A Cor do Som quanto o 14 Bis eram grupos de msicos fantsticos, mas eram o rabo de uma gerao, e no a vanguarda de outra.8 O primeiro grupo havia bebido da gua dos Novos Baianos, enquanto o segundo tinha vindo com o ar das montanhas de Minas Gerais, do Clube da Esquina, embalados pelo rtulo MPB. O 14 Bis e A Cor do Som apenas trabalhavam, roqueiramente, em cima de coisas j estabelecidas, explicou ele. Bandas que seriam deixadas, pelos crticos, no limbo entre a MPB, o rock e o pop.



O grupo receberia severas restries da crtica especializada por no atender s expectativas roqueiras nem com o som, nem com a atitude. E seriam vrios os jornalistas a cham-los de bregas, jovens de esprito velho ou pouco ousados. Na edio nmero 2, da revista Rock Verde e Amarelo, a chamada principal foi: Trs estilos do novo rock, trazendo o Roupa Nova na capa. No entanto, o teor da matria passou longe de ser favorvel ao grupo. E logo no incio a equipe meio que j se justificava: Roupa Nova, Leo Jaime e Ultraje a Rigor podem ser enquadrados como grupos de rock porque comparecem s FMs assim vestidos. Mas h uma diferena substancial entre seus trabalhos. E, em poucas linhas, definiria o Roupa como um conjunto que surgiu na mesma poca do 14 Bis e Rdio Txi, mas que no tinha conseguido ir alm do som de baile que aprenderam a fazer desde a sua formao.

A revista ainda trazia cifras das msicas dos trs e uma crtica sobre o Roupa, com um breve histrico, assinada por Aldo Della Monica. Segundo ele, Cano de vero tinha se tornado o estigma do grupo: e vem-lhe marcando o trabalho desde ento: a exaltao a uma vida preguiosa junto ao mar (de preferncia mais ao Sul do Rio de Janeiro), os namoricos adolescentes, o bronze dos sis de vero. Parecia at uma crtica feita  Bossa Nova nos anos 1950. Della Monica ainda escreveria de forma errnea que Mais recentemente, os rapazes voltaram s paradas de sucesso com a verso Eva - cano, na verdade, do grupo Rdio Txi. Alis, talvez ele tenha se lembrado tambm do hit Garota dourada, para tecer o comentrio anterior.

Por fim, ele picharia de todas as maneiras o disco feito pela RCA - tendo chaves como sua marca. E diria que o comodismo do sucesso levou o grupo a buscar, nos mestres das msicas descartveis, as composies para seus LPs. Referindo-se a Miguel Plopschi e Guti Carvalho como grandes mestres dessa fabricao, sustentada pela exausto e no por mritos prprios. Chamaria a cano Liberal de boboca, Tmida de simplria e Whisky a Go Go de uma recuperao do ritmo brega de Johnny Rivers, um sucesso fruto da insistente divulgao da telenovela global. Afirmava categoricamente no ver uma boa perspectiva para o Roupa Nova, considerando o advento dos novos grupos, cheios de novidade em matria de msica jovem.



O Ultraje a Rigor surgiu no incio dos anos 1980, aps se apresentar em festas e barzinhos tocando covers de bandas dos anos 1960, como os Beatles, alm de punk e new wave. Um rock irreverente e de sotaque paulistano, liderado pelo guitarrista Roger, e que emplacaria nove das onze msicas do lbum Ns vamos invadir sua praia, de 1985, conquistando o primeiro disco de ouro e o de platina do rock nacional!

Sem modos e com seus integrantes ostentando a fama de desajustados, o grupo vinha crescendo no cenrio brasileiro das bandas. E era preciso ensaiar muito para dar conta do recado. Porm, quando algum dos integrantes no conseguia executar determinado trecho das msicas, Roger gritava:

- Vou chamar o Roupa Nova que eles tocam melhor que vocs!

Respeito que vinha da classe artstica, at mesmo dos mais roqueiros entre os roqueiros.



A escolha em deixar a gravadora comandar o disco amarelo traria reflexes amargas para os seis integrantes do Roupa Nova durante os anos de 1984 e 1985. Se eles prprios no haviam ficado satisfeitos com o disco, imagine os crticos...

O roqueiro Jamari Frana diria, em crtica publicada no dia 1o de novembro de 1984, no Jornal do Brasil, durante a temporada do Roupa na boate Mamute: cheio de ganchos para fazer sucesso, dominado por baladas bem ao gosto do formato atual das gravadoras para baladas de rock, um desperdcio do talento dos excelentes msicos do Roupa Nova.

Afirmava, ainda, que a banda disputava a preferncia do jovem tpico da classe mdia, o chamado pblico consumidor, cabides de griffes [sic] diversas, que pode ser desviado do caminho da loja de discos por uma camiseta tentadora da vitrine da Company. E, embora dissesse que o Roupa Nova  uma das bandas mais profissionais do pas, bateria o prego no caixo ao dizer: argumentos de buscar um formato que atenda A cabea das pessoas voltada para coisas mais simples [frase publicada no release da banda, no disco amarelo] cabem cada vez menos num momento em que vrias bandas abrem brechas nas gravadoras e multinacionais do disco sem precisar conceder para alcanar o sucesso.

Na Folha de So Paulo, na seo de lanamentos de discos, sairia em nota publicada no dia 20 do mesmo ms: Ningum consegue gravar doze hits como No d. Por que no tentar alguma coisa diferente? E afirmaria que, daquela forma, o grupo no iria assegurar o espao merecido. Mais uma vez, os excelentes msicos do Roupa Nova pecam pelo excesso de concesses.

Na verdade, aquela havia sido a primeira concesso real da banda em seus LPs. Uma escolha pensada, discutida em demasia, e que poderia gerar resultado a longo prazo. Quem sabe, a liberdade diante da gravadora? O Roupa Nova pensava no futuro, em se manter, em se sustentar e no ser s um sucesso do momento. Mas no sabia exatamente como fazer isso. Eram tentativas de acerto e erro, que s com o tempo poderiam ser contabilizadas. O que no queria dizer que no seria doloroso para os integrantes abrir os jornais e encontrar crticas como a de Jamari Frana, Ana Maria Bahiana, Jos Emilio Rondeau e Aldo Della Monica. Comentrios que marcariam a carreira e a memria dos seis excelentes msicos a ferro e fogo.



Foi em 13 de janeiro de 1984, na campanha das Diretas J, que o deputado Ulysses Guimares declarou que enviaria ao ento presidente Joo Figueiredo um compacto da faixa Intil, do Ultraje a Rigor - msica tocada, anteriormente, em um comcio da campanha para quase 10 mil pessoas em So Paulo. Uma cano que no era de festival, que no era MPB, mas que trazia pensamento crtico entre brincadeiras e sabia fazer barulho.

Herbet Vianna, ao se apresentar no Rock in Rio de 1985, chamou a ateno do pblico sobre a eleio de Tancredo Neves como presidente:

- A gente vai ver aquela careca na TV por um bom tempo. Mas a gente espera que alguma coisa de bom seja feita, n? J que a gente no sabemos escolher presidente,** j que escolheram pela gente... - antes de fazer o cover de Intil.

J Renato Russo cantava sobre o Petrleo do futuro, os Soldados que no queriam lutar em um disco politizado, com crticas  sociedade, alm de canes de amor, ao passo que Cazuza bebia mais uma dose e queimava at a ltima ponta no Baixo Gvea, fazendo poesia nos bares e vivendo uma vida, literalmente de sexo, drogas e rocknroll.

Saindo de uma Ditadura sufocante, as pessoas lutavam, nos anos 1980, para falar o que pensavam. E as bandas do BRock passaram a ser uma vlvula de escape para muitos dos jovens. Menos para o Roupa Nova - o que parecia irritar os jornalistas. A crtica cobra uma postura da gente. Mas o nosso lance  uma postura muito mais musical, mais leve em termos de mensagem poltica. Somos capazes de nos expressar com os nossos instrumentos, sem falar nada, tentou Nando durante uma entrevista para o Jornal do Brasil, na primeira pgina do Caderno B de 17 de setembro de 1986, respondendo a algumas notas de jornal que os acusavam de alienados. Na mesma matria em que o jornalista escreveria: S a muito custo eles revelam suas preferncias polticas. Feghali, Paulinho e Serginho votaro em Moreira Franco, Nando e Kiko em Gabeira, e Cleber [sic] em ningum (votaria no Funaro). Rara ocasio em toda a histria do grupo.

Jamari (novamente ele) afirmou em 1985: Cano de vero, msica tpica do credo do Roupa Nova: transmitir alegria, falar de poltica nem pensar, problemas nunca. E Jos Emilio Rondeau, sentenciou no mesmo ano, no nmero 28 da revista Som Trs: O grupo, ex-de baile (ento com o nome de Famks), cria msicas parecidas com jingles do governo, daqueles comerciais, onde todo mundo aparece sorrindo arreganhado, com os dedos em V, se abraando e beijando: simplesmente no h brecha alguma para ingress-lo na orgulhosa marginlia do rocknroll.

A irresponsabilidade da juventude, a individualidade e as mentes politizadas, no ocupavam lugar na marca que eles construam - por mais que os seis msicos tivessem opinies prprias e personalidades fortes. Eles prezavam pela unidade a todo custo, se protegendo de rixas que pudessem rachar essa harmonia. E poltica seria um pssimo assunto para ser colocado na roda.

Desta forma, mesmo que em muitos instantes a garganta coasse para bradar um recado poltico ou uma mensagem sobre o pas nos palcos, eles ficariam mudos. O que, para Nando, seria um sacrifcio durante muitos anos. Era uma corda apertando meu pescoo no poder falar o que eu realmente pensava. Mas eu no fui injustiado. Eu sou o Roupa Nova. E a culpa por essa escolha  minha tambm.



Faz parte do ser humano querer dar nome s coisas, classificar os fatos, entender onde ele coloca o qu, o que combina e o que destoa. E no adianta tentar escapar desta mquina etiquetadora que  o nosso crebro, um pedao do nosso corpo marqueteiro por excelncia. Com certeza, se voc no posiciona a sua marca, quem  voc no mundo, outros faro isso por voc. E, no caso do Roupa, at a tecnologia, a perfeio e a qualidade de som seriam jogadas contra a banda.

Jos Antnio Silva, da Folha de So Paulo, por exemplo, publicaria uma matria sobre a moda clean de se produzir cultura. No entanto, usaria dois pesos e duas medidas para fazer suas consideraes. Na opinio dele, Arnaldo Jabor no cinema e Gilberto Gil na msica teriam feito trabalhos perfeitos por conta da tecnologia, tudo redondinho. Mas, sabe como , ambos j teriam talento provado e comprovado para fazer isso. E Jabor poderia estar precisando de dinheiro, enquanto seria possvel que Gilberto Gil estivesse fazendo aquilo s por curiosidade.

Porm, ao falar sobre o Roupa Nova, o papo seria outro: som absolutamente limpinho e descartvel, sem dor. Tudo por conta de um arsenal ciberntico com luzes estroboscpicas, raios laser, estdios de quatrocentos e doze canais e meio..., o que esconderia a msica viva, que pula de alegria, se lamenta e quebra. E citando Jos Emilio Rondeau ele ainda diria que no trabalho do grupo No h lugar para vulnerabilidade - esse precioso elo que une criador/ criatura/ pblico. Na linha do que tambm escreveria Jamari Frana, no Jornal do Brasil: Rock ao vivo  improviso tambm e os seis excelentes msicos do Roupa Nova ousam pouco, dando a impresso na maioria das msicas de que se est escutando o disco.

Definies impostas sobre o rock (to desregrado) que no acabariam mais quando se tratava de Roupa Nova. Parafraseando o compositor Z Rodrix: Rock no Brasil (se  que houve rock no Brasil) sempre foi e sempre ser mais cobia e manobras financeiras que mesmo a msica. Se voc olhar bem direitinho, com iseno de nimos, vai at chegar a achar que ento tudo  rock. Da pra provar que nada  rock, fica fcil. E  melhor provar que nada  rock, antes que algum decida (e consiga) provar que rock  nada.



Lobo diria: Eles [Roupa Nova] so mais honestos do que a maioria dos roqueiros, pois a msica de baile que fazem reflete a realidade em que vivem. E o Ibope revelaria os melhores da msica no final dos anos 1980, de acordo com uma pesquisa feita no eixo Rio-So Paulo, com 1.300 pessoas. Novamente, citava o grupo Roupa Nova na categoria rock, embora alguns veculos de comunicao, como o jornal Estado de So Paulo, tenham frisado um nada a ver em relao a isso. O conjunto preferido foi Tits, com 21,1% dos votos; seguido do Paralamas, 5,8%; Legio Urbana 5,5%; Roupa Nova, 5,2%; e RPM 4,2%.9



Em entrevista de julho de 1987 para Heleno Rotay e Mara Torres, no Especial com o Roupa Nova, na 98 FM, Nando tentou explicar: Se voc pegar o LP da gente, ele tem essa mistura, esse tropicalismo, essa coisa de muitas cores. Mas ao mesmo tempo tem uma cor que  a do Roupa Nova. O que poderia ser traduzido na frase de Ricardo Feghali: A gente tem uma unio de influncias. O Nando gosta de country, eu gosto de coisas mais swingadas, com mais ritmo e levada, o Kiko vai para o lado do rock, o Cleberson mais clssico e por a vai. Uma rica mistura musical que fugia completamente aos rtulos - o que, na opinio do jornalista Daniel Piza, trata-se de uma questo a ser vista pelo jornalismo cultural com todo cuidado.

Para Daniel - autor do livro Jornalismo Cultural (Contexto, 2003) -, existe um perigo na subdiviso em gneros do mercado cultural. Para ele, soa como porta-voz de grupos que mal se comunicam. So fs que, em geral, se vestem e se comportam de acordo com essa preferncia, ao que ele afirma sucumbir ao que se poderia chamar de tribalizao ou guetizao. E que poderia distorcer a caracterstica brasileira, e socialmente positiva, de diversidade cultural em um sentido empobrecedor. H o samba, pagode, bossa nova, a MPB, o rock e outros rtulos em curso, como se nada tivessem a ver um com outro, analisa Daniel, antes de qualificar o tal rock brasileiro dos anos 1980 como algo to prximo da MPB quanto do pop-rock anglo-americano. Cores, das mais contrastantes nuances.



- Eles so os escoteiros do rock! No vo fazer nada de errado nunca! Sempre alerta - brincou, certa vez, o debochado Lobo, ao falar sobre o Roupa Nova, referindo-se ao profissionalismo,  perfeio e, por que no,  caretice do grupo.

S que, naquela poca, qualquer palavra a mais chateava os msicos - que se perdiam entre tantas crticas. Nando se defenderia em uma entrevista de 1986 ao Jornal do Ouvinte, publicao da rdio Cidade, dizendo: Ns nunca nos afastamos de uma coisa chamada realidade, aquela coisa de ter que pagar o aluguel, o lcool do carro, a corda da guitarra... A gente sempre foi muito assim e procuramos at hoje viver dessa forma. J ouvi muita crtica de pessoas dizendo que a gente faz a coisa com organizao demais, que somos muito profissionais.



Ah... Os rtulos! A pedrinha no p do sapato do Roupa Nova durante a dcada de 1980. Eles eram muito competentes, muito limpinhos. E tinham vindo antes, com uma msica diferente. No iriam conseguir pegar carona na nova gerao, nem dialogar com a MPB, acreditava Ricardo Moreira. Um posicionamento que tambm no seria tomado pela banda, que defendia a pluralidade de influncias musicais em suas composies, talvez por no se sentir parte de nenhum dos movimentos (e quem sabe no fosse mesmo).

A confuso seria tanta que, com o tempo, a prpria imprensa se enrolaria mais ainda em seus conceitos, sem saber como tratar o grupo no cenrio musical brasileiro e em que nicho situ-lo. No, eu no posso escrever sobre o Roupa Nova porque eu escrevo sobre rock e o Roupa Nova no  rock. No, eu tambm no posso escrever sobre o Roupa Nova porque no  brega e eu escrevo sobre brega. No, eu tambm no posso escrever sobre o Roupa Nova porque no  MPB e eu escrevo sobre MPB.

A banda desejava, antes de mais nada, ser reconhecida pelo trabalho que fazia, mas no tinha a menor noo de como alcanar isso. E insistia em mostrar a capacidade musical de todos os integrantes nos palcos e entrevistas, tendo como principal arma de divulgao o talento. Afinal, era o que eles haviam aprendido nos bailes e nos estdios. No entanto, depois do disco amarelo e da decepo com os crticos, eles perceberiam que s isso no seria o suficiente.



Notas

* De acordo com a matria Rock e brega na ilha da fantasia, da Folha de So Paulo de 26 de junho de 1998. Para se ter uma ideia do que seria a representatividade desses nmeros hoje em dia: Cr$ 1 milho seria equivalente a cerca de R$ 25.400, Cr$ 10 milhes, a R$ 226.000 e Cr$ 50 milhes, a R$ 1.300.000

** Citao de trecho da msica Intil.



CAPTULO 27

SOY LATINO-AMERICANO

A gravao com o David Coverdale foi o dia mais nervoso da minha vida.

Kiko

O Mgico de Oz era o filme que estava na cabea do baterista Jeff Porcaro quando ele escreveu Toto, nome do cachorrinho de Dorothy, nas fitas de sua nova banda. Era apenas uma marcao para facilitar a identificao das demos, antes de virar o nome do grupo. Em Latim, toto que dizer total, abrangente, argumentou o baixista David Hungate, o que se encaixaria na caracterstica dos componentes: msicos de estdio elogiados no mercado e capazes de tocar em qualquer estilo ou situao. E assim ficou batizada a banda, Toto, formada tambm por David Paich (teclado), Steve Lukather (guitarra), Bobby Kimball (vocal) e Steve Porcaro (teclado).

A banda americana, durante os 32 anos de existncia, teve alteraes em sua formao, sucessos como Hold the Line, Rosanna e Africa, 24 trabalhos comerciais entre LPs, CDs, vdeos e DVDs, com mais de 30 milhes de gravaes vendidas. Mas apesar da carreira os integrantes continuariam a tocar com outros intrpretes consagrados da msica, seja como Toto ou individualmente, e so reconhecidos por isso. A lista  enorme e seus crditos so encontrados em boa parte dos hits desse perodo. J participaram de discos de personalidades como: Michael Jackson; George Benson; Ray Charles; Cher; Santana; Stevie Wonder; Miles Davis; Chicago; Elton John; Tina Turner; Eric Clapton; Quincy Jones; Paul McCartney; Joe Satriani; Lionel Richie; James Taylor; Earth, Wind & Fire; Diana Ross; Bee Gees e outros.

No se sabe quem foi o primeiro a fazer a associao, mas existem razes plausveis para o Roupa Nova ser comparado frequentemente ao Toto. Eles contriburam para o sucesso de inmeras canes nacionais - sobretudo nos anos 1980 -, e no s de artistas, como tambm de marcas e eventos como o Rock in Rio. E o melhor: participaram de diversas gravaes internacionais, atravs de indicaes, com nomes como David Coverdale, ex-vocalista do Deep Purple, e Steve Hackett, o ex-guitarrista do Genesis. dolos antes presentes apenas nas msicas de baile.

Fazendo no estilo tupiniquim, assim como o Toto no estilo norte-americano, o que de melhor eles sabiam fazer: msica.



Steve Hackett arranhava algumas msicas e s tinha 20 anos quando viu o anncio de uma banda em busca de um guitarrista, em 1970. Tratava-se de um conjunto de trs garotos da escola britnica Charterhouse: Michael Rutherford, Tony Banks e Peter Gabriel - que haviam acabado de escolher tambm um novo baterista. Um tal de Phil Collins. A formao duraria cinco anos, de muitos rocks experimentais e progressivos, e atenderia pelo nome Genesis. Referncia mundial para muitos jovens aspirantes a msicos.

Em 1978, Steve partiu para a carreira solo e, logo em seguida, em 1981, casou-se com uma brasileira, Kim Poor. Isso o influenciou a olhar com mais ateno para os msicos do Brasil, e at mesmo a gravar seu disco Till We Have Faces no Rio, em janeiro de 1984. Uma imerso completa no ritmo nacional, com instrumentistas brasileiros!

A sua inteno era gravar o oitavo disco solo com Rui Motta, ex-baterista dos Mutantes, mas ele estava aberto a conhecer outros instrumentistas e tambm a aprender. Foi com esse esprito que ele conheceu Waldemar Falco, Fernando Moura, Ronaldo Diamante, Sidinho Moreira, Jnior, Jaburu, Peninha, Zizinho e Baca. E convidou tambm o baterista Serginho para participar da gravao, captando ao vivo duas baterias em sincronia, a de Rui e a de Serginho, em uma vibe maravilhosa, dando vida  faixa The Rio Connection.



Ainda em 1984, uma festa iria mexer com o cenrio musical carioca: a comemorao do aniversrio de dois anos da rdio Fluminense FM - a Maldita - com as principais bandas do momento tocando no dia 2 de abril, s 20h30 no Caneco: Blitz, 14 Bis, Paralamas do Sucesso, Baro Vermelho, Herva Doce, Roupa Nova, Joo Penca & Seus Miquinhos Amestrados, Lobo e Os Ronaldos, Companhia Mgica, gua Brava, Malu Viana, Celso Blues Boys, Aly na Skyna e Serguei. Uma excelente ocasio roqueira para aproximar Steve Hackett do Roupa Nova, aps a participao de Serginho no Till We Have Faces.

- Vocs querem que a gente leve o Steve Hackett junto? - foi a pergunta do grupo para a equipe da FM, que s faltou carregar o Roupa Nova no colo, como se tivesse cado dos cus aquele presento para a Maldita.

O guitarrista nunca havia se apresentado no Brasil com o trabalho solo! E, agora, estaria ali, na festa da Maldita, do nada?



Steve Hackett gostou do convite de Serginho e combinou de ensaiar,  noite, algumas msicas com o Roupa Nova. Ele s no esperava que os integrantes do grupo fossem tirar as canes de sua carreira solo antes de encontr-lo.

- Eu trouxe uma fita com as msicas - disse ele, entregando o K7 nas mos do baterista, que sorriu, olhou para o tape em suas mos e sugeriu:

- Antes disso, a gente pode mostrar um negcio pra voc?

E l foi a banda, extremamente ensaiada, mostrar a que veio.

Steve caiu duro para trs ao ver o Roupa Nova j tocando Camino Royal, do seu disco de 1982, com a harmonia certinha, as viradas, a introduo... E os teclados?

- No acredito... O Rick Wakeman demorou pra pegar! - comentou ele, eltrico, na primeira pausa que o grupo deu, pegando a guitarra com voracidade para tocar direto, feliz da vida, sem passar fita nem nada. - Vamos l!



O Caneco lotou naquela noite de 2 de abril, com jovens de todos os cantos do estado do Rio de Janeiro, amontoados no salo. Os ouvintes mais atiados chegaram cedo, para ficar perto do palco, e defendiam o seu lugar com unhas e dentes.

Para todos os grupos se apresentarem em um dia apenas, os shows eram curtos, com cerca de duas a quatro canes. As trocas eram rpidas, separadas pela famosa frase da rdio, Maldita!!!, mantendo o clima do pblico l no alto. Locutoras como Liliane Yusim e Mylena Ciribelli comandavam as atraes - as vozes femininas que faziam sucesso com o pblico predominantemente masculino da 94,9 FM.

- Vamos tocar I Know What I Like? - perguntou Feghali para Steve, nos bastidores, ansioso pela resposta.

Todos os integrantes do Roupa estavam doidos para tocar aquele clssico do Genesis, da formao mais badalada de todos os tempos, do disco mais vendido da banda!

- No, isso eu no posso.  do Genesis, no meu!

- Como no vai tocar?  o maior sucesso! - contestou Cleberson.

E ele, vendo a cara de pedinte dos seis, ainda tentou argumentar:

- Mas nem ensaiamos!

- A gente sabe! A gente sabe! - falou Kiko.

At que o Roupa Nova abriu seu show cantando Sapato velho a capella: Voc lembra, lembra... Uma abertura que preparava o pblico para algo que os espectadores nem sonhavam. Nem mesmo os outros msicos que se apresentariam naquela noite!

De repente, chegou a hora, o momento mais esperado por todos do Roupa Nova. E o som dos teclados tomou o ambiente, as luzes ficaram meio azuladas e Steve Hackett foi chamado ao palco, dando incio  msica I Know What I Like.

O Caneco veio abaixo! Os locutores disputavam o melhor lugar para ver e ouvir a cano. E os integrantes das outras bandas saram correndo de dentro dos camarins para ver quem estava tocando. Foi tanto desespero e euforia, que um msico trombou no outro no caminho, e Flvio Venturini, do 14 Bis, acabou tropeando e caindo de cara no cho. Uma confuso s!

No palco, os seis integrantes sorriam de um canto ao outro da orelha, orgulhosos por compartilharem aquele instante com a lenda Steve Hackett. Ele - tocando com a guitarra nmero 1 de Kiko -, enquanto o integrante do Roupa, mais do que satisfeito, com a nmero 2.

Naquela noite, o Roupa Nova ainda tocaria mais umas duas msicas com Steve, gravadas nos discos de sua carreira solo. E o pblico (e os outros msicos), extasiados, absorveriam aqueles preciosos minutos que marcaram uma poca. Um dia inesquecvel e histrico para quem decidiu sair de casa e seguir at o Caneco. Daqueles que, de to perfeito, d vontade de emoldurar e pendurar na parede.



Nos dias 13 e 14 de abril, foi a vez do Roupa Nova se apresentar no ginsio Hebraica, na rua das Laranjeiras, na Zona Sul do Rio de Janeiro. E Steve Hackett, que continuava no Brasil, foi ao show para prestigiar os msicos. Sentou na arquibancada com sua mulher, assistiu e, no final, ainda deu uma canja com a banda - para a felicidade do pblico.

O britnico estava fascinado pelo trabalho do grupo. Fez questo at de oferecer um jantar em sua casa e, em uma entrevista para a TV sobre sua passagem pelo pas, destacou o quo impressionado ficara com o Roupa Nova. Deixando envaidecida a banda acostumada a tomar bordoada de crticos em geral. Como diria Kiko:

No cenrio internacional, o importante  quem toca e canta pra caramba. Quando estamos falando de mundo, no existe preconceito com o Roupa Nova.

E, de fato, o primeiro show de Steve Hackett no Brasil, em sua carreira solo, no aconteceria apenas em 1993, como diriam os jornais. No entanto, apenas poucos sortudos puderam confirmar isso.



O maestro Eduardo Souto Neto recebeu, no final de 1984, a difcil misso de parir um hino; uma msica para ser tocada e cantada pelos jovens durante anos, uma cano que tinha que ser sucesso antes mesmo de existir. E que seria o tema de um dos principais festivais de msica do Brasil, com estrelas internacionais que no costumavam se apresentar na Amrica do Sul. Um evento que seria conhecido como Rock in Rio.

Putz, criar um hit assim  complicado..., pensou ele, enquanto rabiscava notas em sua casa. A letra seria feita por seu parceiro Nelson Wellington, e o prazo para entrega era adequado. Mas quem disse que a msica saa? Vai ter gente do mundo inteiro... Cacete, que encrenca! E os dias iam passando, sem demo nas mos para mostrar para Roberto Medina, idealizador do festival - deixando a situao ainda mais tensa para a dupla de compositores. At que chegou a data final combinada com a organizao, quando Eduardo se reuniria novamente com Medina.

- Fiz a msica! - disse ele para o empresrio, ainda suando por ter conseguido finalizar a letra.

- Cad?

- Precisa gravar antes.

- No d tempo. Quero ouvir hoje!

- Mas onde?

- Tem um piano aqui que foi do Frank Sinatra. Vamos pra l!

Pronto, era o que eu precisava para me deixar ainda mais nervoso!, imaginou Eduardinho, enquanto Medina pedia para um dos funcionrios da Artplan acompanh-los. O instrumento era um piano de cauda Steiner e havia sido comprado para o show de Olhos Azuis* no Maracan. Porm, como havia ficado em um dos elevadores da agncia, por um segundo Eduardo achou que aquilo o salvaria de uma primeira apresentao crua e insegura.

- No tem problema! Voc toca l mesmo!

E se dirigindo ao funcionrio que estava com eles, deu as ordens, deixando o caminho livre para que Eduardo lhe mostrasse a cano. O maestro subiu no elevador, ressabiado, tentando respirar calmamente e esfregando as mos para que elas parassem de tremer. Para s ento pousar seus dedos sobre as teclas do piano.

Se a vida comeasse agora,

E o mundo fosse nosso outra vez,

E a gente no parasse mais de cantar, de sonhar...

Que a vida comeasse agora

E o mundo fosse nosso de vez

E a gente no parasse mais de se amar, de se dar, de viver

   

Rock in Rio

Do piano, Eduardo no conseguia ver as reaes de Medina. E foi surpreendido pelas vibraes esfuziantes do empresrio:

- Maravilhoso! Esplndido! Espera a!

Voltando com mais diretores para que ele tocasse de novo, e de novo, at a empresa inteira escutar o tema. Ufa!, suspirou Eduardinho, por sentir que o tema havia sido aprovado.

Depois disso, a msica seria tocada, cantada e gravada pelo Roupa Nova, para s ento parar nos rdios, nas televises e na cabea dos jovens.

Eu chamava o Roupa pra tudo! Se eu tivesse que fazer um disco de Escola de Samba, ligava pra eles. Com cavaquinho e tudo!, diria ele, ao relembrar a histria de uma cano que cumpriria seu destino de j nascer um hino.



No tnhamos som, no tnhamos luz, no sabamos o que era montar um espetculo. O mercado brasileiro no tinha credibilidade no mercado internacional nem para promover um show mdio, menos ainda para promover o maior evento do mundo na poca, diria o empresrio Roberto Medina sobre produzir a primeira edio do Rock in Rio, em 1985. Um evento realizado em dez dias, com cerca de cinquenta shows, e que seria marcado pela intolerncia dos metaleiros com os artistas nacionais e a eleio de Tancredo Neves como presidente.

No primeiro dia, 11 de janeiro, diante de 200 mil pessoas, estiveram os brasileiros Ney Matogrosso, Erasmo Carlos, Baby Consuelo e Pepeu Gomes, alm das bandas internacionais: Iron Maiden, Queen e Whitesnake. E, logo de cara, Ney sentiu as vaias e os xingamentos do pblico -ansioso para ver Bruce Dickinson, Freddie Mercury ou as madeixas de David Coverdale. Um comportamento que foi pior diante do Tremendo Erasmo Carlos, que seria atacado com latas vazias, copos de plstico, pilhas e outros objetos: Tive vontade de mandar todos tomarem no cu, mas contei at dez e optei por uma reclamao moderada, pois vi que a maioria da galera, que estava atrs da horda, era civilizada e estava ali cumprindo  risca a proposta do festival, de som e paz.

No pblico estava Kiko, curtindo as apresentaes, sem qualquer hostilizao - apesar de tambm estar inquieto para ver os grupos estrangeiros. Assistindo a Erasmo Carlos, depois Baby Consuelo com Pepeu Gomes, para enfim se encontrar hipnotizado e paralisado diante da voz de David Coverdale e dos solos de guitarra de John Sykes - da banda Whitesnake -, considerado por muitos o melhor guitarrista daquele festival.



Havia dias que Eduardo Souto Neto vinha trabalhando na campanha de 1985 do cigarro Hollywood para a Souza Cruz, disposta a investir pesado e fazer vrias propagandas para as rdios, com verses diferentes de um mesmo tema musical. Ao maestro cabia a criao do tema, das verses e dos arranjos. Depois entrariam os intrpretes, como Gilberto Gil, Ivan Lins, Marina Lima e Lulu Santos, para colocar uma letra em cima e gravar os jingles do jeito deles.

Eduardo convidou o Roupa Nova e juntos eles fariam vrias verses - rocknroll, balada etc. O Roupa Nova, inclusive, seria um dos convidados a cantar uma das msicas. No entanto, a grande sacada da Souza Cruz foi conseguir a participao de David Coverdale, que tinha dois shows marcados com sua banda, a Whitesnake, para o Rock in Rio, nos dias 11 e 19 de janeiro. Todos ficaram em polvorosa por contar com aquela referncia mundial do rocknroll para a campanha do Hollywood. Afinal, era O David Coverdale, ex-vocalista da banda Deep Purple.

- Quer dizer que teremos um dia para gravar a msica com ele, aqui no Rio? Beleza! Vou pedir para o Roupa fazer a base dessa gravao.

Foi a resposta de Eduardo para um dos representantes da Souza Cruz ao saber da novidade, confirmada em cima da hora, naquele sbado. Tudo teria que ser cronometrado pois, de acordo com o contrato acertado, no haveria uma nova chance para gravar essa verso com o vocalista. E teria que ser na tarde do dia seguinte, mais precisamente dia 20 de janeiro, para dar tempo de ele pegar o voo noturno para a Inglaterra. Sem chance de adiar ou remarcar se tivesse algum problema na gravao. O detalhe  que, quando o responsvel pela campanha, Eduardo, soube da notcia, estava em So Paulo fazendo uma temporada com a Simone, de quarta a domingo  noite. Como aparecer nos dois lugares a tempo?



No mesmo final de semana que Eduardinho arquitetava o esquema perfeito das pontes areas, Kiko aproveitava o dia ensolarado na sua casa na Regio dos Lagos, tomando cerveja com os amigos, pegando uma praia, sem compromisso ou qualquer preocupao. Passou praticamente o dia inteiro bebendo e, lgico, acabou ficando agitado,  noite aps tanta birita - horrio exato da ligao de Ricardo Feghali.

- Vem pra c que a gente vai gravar amanh com o David Coverdale!

- O qu? Mas, Ricardo...

- Bicho, a gente vai tocar com o David Coverdale!

- Fodeu...

S de pensar que, no dia seguinte, depois da bebedeira, ele estaria ao lado daquele monstro do rocknroll, o lcool j parecia evaporar de seu corpo. Caraca... Como  que eu vou conseguir fazer isso?, pensava tenso, aps desligar o telefone, com um cigarro entre os dedos trmulos. O cara toca com o John Sykes, cacete!



A princpio, Eduardo Souto Neto organizou tudo por telefone. Marcou o estdio principal da Transamrica e faria uma ponte area de manh e outra  tarde, aps a gravao. Loucura? Imagine ento com o tempo fechado, com uma chuva fininha tpica de So Paulo? Pois esse foi o clima do fatdico domingo. Show da Simone, Coverdale para gravar no Rio, e o grupo da Souza Cruz  beira de um ataque de nervos ao saber que o maestro no conseguiria chegar.

- Calma, calma. Vai dar tudo certo, o Roupa Nova consegue fazer isso sem mim. Eles j gravaram essa msica umas trs mil vezes! No tem mistrio. Vou ligar para o Feghali!

No que o cliente tenha ficado satisfeito com aquela resposta logo de manh, mas era o que dava para fazer. A Souza Cruz teria que confiar em Eduardo e torcer, rezar, fazer promessa, ou apenas contar com a sorte de que no teria mais nenhum imprevisto naquele dia.

- Feghali, aqui  o Eduardo. Cara, no vai ter teto para voar para o Rio. No posso faltar com a Simone. Voc assume a, t? Estarei  disposio de vocs durante a tarde toda.

O Roupa Nova havia chegado cedinho ao estdio, inclusive Kiko - embora estivesse com uma ressaca de matar e uma tremedeira incontrolvel naquele frio da sala, principalmente aps bater os olhos em Coverdale. Pensava sem parar: Vou ter que tocar muito! Imagine se ele no gostar e mandar chamar outro? No, no, no... Se controla, Kiko... Vou ter que tocar muito!

- Calma, cara... - tentou Feghali, ao notar como o guitarrista estava travado.

- Vou ficar, vou ficar...

P, o Steve Hackett era mais a nossa praia... J o Coverdale toca rocknroll pesado! E s de se lembrar do show do Whitesnake, no Rock in Rio, sua cabea doa.



Esquema combinado para a gravao com o Roupa Nova e todos avisados sobre a ausncia de Eduardo: hora de passar a msica para Coverdale colocar a voz.

Sempre que ouvir esta cano lembre de mim

Se eu estiver longe daqui, vou estar pensando em voc

No entanto, ele mal escutou a cano:

- Eu no vou cantar essa msica! No sou o Tony Bennett.

Levantando-se da cadeira e partindo para a porta de sada, antes de descer as escadas com o empresrio atrs. E se Feghali ficou desesperado e frustrado por ver o roqueiro ir embora, o que diria o pessoal da Souza Cruz... Eles ligaram para Eduardo, em So Paulo:

- , ele t criando caso com a msica!

- Mas por qu?

- Sei l! Acho que ele pensou que ia gravar uma msica dele...

E o que eu tenho a ver com isso?, pensava Eduardo, agitado. At que depois de alguns minutos, milagrosamente, Coverdale voltou, convencido a gravar. No muito simptico e com jeito de quem estava prestando um favor. Fim dos problemas?

- Hollywood ?? Ento meu nome  David?  Hllywood!

A entonao da palavra Hollywood gerava polmica, e tambm a letra da msica. De modo que mais ligaes seriam feitas para So Paulo:

- , ele t criando caso com o negcio da letra!

As letras gravadas pelos outros intrpretes haviam sido traduzidas para ingls, para que David pudesse ficar  vontade para escolher qualquer uma delas. O ideal era que ele se sentisse bem para fazer o que quisesse. Mas no funcionou. Ele cismou com a pronncia dos brasileiros e se apegou nessa questo por um bom tempo.

- , Eduardo, ele t criando caso e ponto! No d para voc vir aqui?

No, no dava. Ser que isso era difcil para eles entenderem?

- Ai, meu Deus, ele t querendo rever o contrato!! Parece que quer mais dinheiro!

Aquela ligao foi a mais nervosa de todas e aconteceu bem no finalzinho do dia. Os representantes da Souza Cruz j viam o barco afundando, o contrato sendo desfeito e as cabeas rolando por causa do fracasso da gravao. Todos os envolvidos comearam a ficar apreensivos com o passar dos minutos, pois a tarde estava acabando e tudo indicava que Coverdale no iria colaborar. Sufoco geral e sem sinal de esperana. At que em uma das ligaes Eduardo pediu para chamar Feghali no telefone:

- Ricardo,  o seguinte: eu acho que esse cara t inseguro. Ele no conhece vocs, nunca ouviu falar em Roupa Nova. Deve estar achando que t na maior furada! Eu sei que o som j foi passado, mas combina com o tcnico uma nova passagem. Finge que vocs vo acertar algum detalhe de afinao, volume etc. e toca! Qualquer coisa! 1, 2, 3 e pau! Todo mundo junto!

E fez-se a luz! Aquilo podia diminuir a implicncia do vocalista. Feghali entendeu o recado e, mais que depressa, combinou com os outros cinco integrantes, melhor do que o maestro poderia prever. Um olhou para o outro, o Serginho marcou o tempo com as baquetas e eles comearam a tocar:

Smoke on the water, fire in the sky

Smoke on the water

Naquele exato instante o vocalista do Whitesnake estava se levantando, mais uma vez, da cadeira para sair da sala. O som produziu um belo susto, que o deixou esttico. David, com os ps batendo no cho, e aquele cabelo ondulado, bonito e escuro, no conseguia tirar os olhos da banda que tocava Smoke on the Water, sucesso do Deep Purple. Sem perceber que Kiko tremia tocando guitarra, aflito, certinho, e todo duro.

- Uau! Nunca ouvi essa msica ser tocada to bem em toda a minha vida!

Alvio... Fim dos telefonemas. Dali para frente, o cenrio mudaria: o vocalista relaxou e nem parecia que pegaria um avio mais tarde. Autografou o disco do Deep Purple que Cleberson levara, brincou com os integrantes, e podiam jogar o contrato para o alto que ele nem repararia. Ficou to animado com a banda que chegou a pedir material deles para levar a fim de, quem sabe, o Roupa abrir show do Whitesnake na Europa! Usou a letra da banda para cantar o jingle, parou de arrumar confuso e pediu em um ingls carregado de sotaque britnico:

- Quatro maos de Hollywood para mim, por favor!



Nota

* Frank Sinatra foi conhecido, em sua carreira, pelos apelidos The Voice e Blue Eyes.



CAPTULO 28

O CORAO E A MQUINA DE CALCULAR

Depois que eu trabalhei com o Roupa Nova, eu nunca mais consegui trabalhar com artista nenhum.

Valria Machado Colela

Nando costumava esbarrar, nos eventos musicias, em Valria Machado Colela, empresria de Moraes Moreira, que atuava em parceria com Anelisa Cesrio Alvim, empresria de Alceu Valena. Juntas, elas administravam a carreira da Marina Lima com as firmas Azevm e Luz Produes, e estavam entre as poucas mulheres que operavam nesse ramo artstico no perodo.

- Vou fazer carreira solo pra voc me empresariar, hein?! S assim, n?

E Valria, com aquele olho grande, claro e um sorriso fcil, ria das brincadeiras de Nando, que se transformariam em convite srio no final de 1984. Momento em que a banda precisava, com urgncia, construir sua identidade e ter um posicionamento no mercado brasileiro - e, por coincidncia, momento em que as duas tinham acabado de deixar seus artistas:

- Vamos marcar uma reunio em Higienpolis pra gente conversar?

L, todos se encontrariam para acertar a entrada das empresrias. poca de divulgao do disco amarelo e o estouro do rock no pas.



- Deixar Alceu e Moraes pra pegar o Roupa Nova? Voc esto fodidas... - disse rindo Dody Sirena, empresrio do meio, para Anelisa, que no desceu do salto:

- Mas a  que t o grande barato! Trabalhar com Moraes, que saiu dos Novos Baianos,  fcil! Com o Alceu, tambm. O grande desafio vai ser pegar gente talentosa, como o Roupa, e conseguir uma boa colocao no mercado!

Isto quando ela no escutava comentrios dos conhecidos por ter se mudado, tambm nessa poca, para Vargem Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

- Voc t ferrada, hein? Incorporou de vez o subrbio!

Sinais de preconceitos e falta de conhecimento sobre a banda que elas estavam assumindo. ... A tarefa no seria fcil, mas quem iria desanimar? Ambas, com seus 20 e poucos anos, tinham pique e personalidade forte, apesar dos estilos diferentes para encarar a pedreira. Uma dupla organizada e atenta, formada por Valria - com suas sandlias e cordes ripongas, cabelo ondulado, voz grave e ritmo acelerado - e Anelisa - observadora, aparentemente mais calma, e de cabelo mais liso. Para elas, era claro: faltava identidade musical para o conjunto, sobretudo aps o disco amarelo. Descaracterizou muito o Roupa, tirou todo o vocal, que  a coisa superbonita que eles tm. Tirou o trabalho musical mais elaborado que eles faziam, explicaria Valria.

Era como se Miguel tivesse popularizado a banda no mais clssico estilo Fevers. Tudo bem, eles estavam vendendo e tocando nas FMs. No entanto, no mercado, no existia respeito pelo trabalho autoral do Roupa Nova. Era preciso mudar.



- Por onde a gente comea? - perguntou Valria, sentando com sua agenda, ao lado de Anelisa, com suas contas.

- Estava pensando sobre aquilo que conversamos antes... Sobre limpar a imagem deles...

- Voc t falando de tudo, n? Outras gravaes, vinhetas para rdio, msica de novela...

- , de tudo! Isso toma muito tempo deles! Eles precisam focar no Roupa Nova.

- E compor tambm, n, Anelisa?

- Alis, Val, pensei em bater um papo com os seis sobre o dinheiro. Tenho a impresso de que eles no planejam. O dinheiro entra e sai. Ser que eu vou estar atropelando?

- Acho que no... Eles pediram a nossa opinio, no ?

- ... Pensei at em mantermos uma caixinha com grana para imprevistos...

- Ah, falando nisso, a gente precisa ver a estrutura de equipe de som e luz que eles j tm.

- Tem um pessoal muito bom ali, n?

- Sim, sim... Vou marcar com eles e... - disse Valria, olhando para a agenda, como se buscasse mais algum outro ponto. - Ah! J estava me esquecendo... As roupas! E se o visual fosse menos colorido?

- Hum... Deixar mais leve?

- ! Pra dar uma amenizada! Sem tirar a personalidade deles!

- Faz sentido... As pessoas j falam que o repertrio  brega... Menos  sempre mais!

- Tudo bem que o pblico no se importa muito com isso...

- O pblico que eles j conquistaram, n? D para aumentar esse nmero! Mas pra isso precisamos quebrar umas barreiras. As pessoas, as casas de espetculo precisam pelo menos conhecer a msica do Roupa! Alis, a gente precisa expandir a atuao do Roupa aqui no Rio de Janeiro. Tocar em outras casas de shows, sair da Zona Norte para chegar at outras pessoas...

- Caneco?

- Ih, Val, ser? Eles s topam colocar artistas que vo encher o lugar.  uma casa tradicional, que recebe s artistas da MPB...

- Por isso mesmo! Pelo que sei, eles s tocaram l como convidados... O Roupa pode lotar o Caneco! A gente precisa fazer um trabalho forte aqui no Rio, alm de pr o p na estrada.

- Eu tambm acho... Bom, a gente tenta. Voc tem razo, pode abrir portas, facilitar a entrada em outros lugares depois de uma apresentao no Caneco. Vamos nessa!

- E ainda tem o lance da imprensa...

- Ah , mas eu no vejo como conseguir espao por agora, no. Os jornais tm sido muito duros com eles... S fazendo muito sucesso!

- Mas a gente vai! Ah vai! - falou rindo Valria, como se estivesse fazendo uma provocao, antes de lamentar. - E isso incomoda tanto a eles, n? Para o artista  complicado sofrer qualquer tipo de rejeio, no tem jeito...

- ... S que por enquanto no tem muito o que fazer. Eles tm que se preocupar com o pblico e com o trabalho deles! O resto vir... Ah! Esqueci de dizer, eles querem comprar uns instrumentos novos. Temos que ver isso.

- E ver tambm com a gravadora a agenda de show deles.

- Depois de ver as datas,  legal a gente montar um esquema de revezamento. Eu pego uma viagem e voc a outra. E a gente consegue estar por perto de tudo sem se cansar demais.

- E os discos! Tem que mandar para esses lugares! Voc falou com o comercial da RCA?

- Ai, meu Deus, quanta coisa...



- Vamos pegar o vocal e a msica de vocs de volta! - sugeriu Valria, ao lado de Anelisa, em reunio com o grupo.

Na cartilha das empresrias, o Roupa Nova precisava dedicar o seu tempo ao prprio Roupa Nova, para crescer como banda e ter a sua personalidade definida no mercado. S que, para isso, eles teriam que desistir de algumas coisas, do mesmo jeito que fizeram ao deixar os bailes e os Famks.

- Vinhetas para rdio? Vocs fazem como ningum, mas vamos diminuir a quantidade para ter mais tempo para a carreira do Roupa.

- Msica de novela?  legal, mas vende o disco da Som Livre, no o de vocs. O cara no vai comprar o LP do Roupa Nova por causa da msica. Ele nem conhece vocs! Fazer cano por encomenda para novela no  necessariamente vantajoso. E o trabalho de vocs? Como fica?

- Temos que investir com tudo em vocs! Se no fizerem isso, ningum vai fazer!

Para as empresrias, a fim de ganhar mais pblico e qui a imprensa, o Roupa Nova deveria se voltar para a sua carreira. Uma estratgia que no seria simples e envolveria no como resposta. E elas estavam dispostas a estar do lado dos msicos para brigar, se fosse preciso.

- A sorte foi que a gente teve uma sintonia grande com os meninos e as mulheres deles - afirmaria Anelisa. - Ningum faz nada sozinho.

Desta forma, nada era imposto, mas conversado. E eles, abertos s mudanas, entendiam o ponto de vista delas. Ou pelo menos tentavam.

- A gente era bom ouvinte, a gente queria aprender - conta Kiko. Embora os seis integrantes discordassem ou resistissem s vezes.

- Gravao de outros artistas? S se for como participao especial. No d para vocs serem s msicos, vocs so o Roupa Nova.  uma maravilha se tornar o queridinho da MPB no estdio, mas tem que ser reconhecido por isso.

- Mas  de onde a gente tira o dinheiro pra viver, Anelisa!

- Kiko, a msica de vocs t pasteurizada nas rdios! A gente escuta a rdio e tem dez execues de Roupa Nova, mas s uma com o nome de vocs! No tem espao pra uma identidade prpria.

Tanto Anelisa quanto Valria acreditavam que as gravaes em estdio impediam o crescimento da banda e, por isso, bateriam nessa tecla. Eles no se diferenciavam quando iam fazer a msica deles, comenta Valria. O problema  que os msicos de estdio ganhavam uma fortuna para gravar! Voc fechava um pacote milionrio com Gal Costa, Rita Lee... E, por mais que o Roupa atuasse em shows, eles viviam da renda dessas gravaes, complementa Anelisa.

S que gravao de estdio  um ciclo. Como explica Nando. Tem uma poca em que voc  a mo do momento e todos os artistas querem usar. Foi assim com todos os baixistas! O Alexandre Malheiros, do Azymuth, depois Paulo Csar Barros, Jamil Joanes... e eu tive minha poca de dois ou trs anos, depois o Arthur Maia... E vo se sucedendo os baixistas! Ou os bateras, ou os guitarristas e assim vai. Ningum interrompe isso. S acaba.  uma fasca.

E, do mesmo modo, tambm acabaria para o Roupa Nova, como conta Cleberson. Anelisa e Valria tentaram tirar isso da gente, mas as prprias pessoas comearam a procurar outras alternativas. O nosso som, entre os figures da MPB, estava banalizado at! Lei da oferta e procura.



O rock e as danceterias continuam em plena moda no vero chuvoso da cidade, escreveu Diana Arago na abertura de sua nota sobre a programao das bandas no Rio de Janeiro, no incio de 1985. O quinteto carioca Dr. Silvana & Cia seria uma das atraes do Mistura Fina, na Barra da Tijuca, o grupo Absyntho se apresentaria no centro roqueiro Noites Cariocas, e na Tijuca, na Mamute, a noite seria do Roupa Nova com direito a repetio na prxima semana, j que a turma vem agradando.10

A Mamute* ficava na Conde de Bonfim, 229, no bairro da Zona Norte e era um dos poucos motivos que levavam os moradores da Zona Sul a atravessar o tnel. Uma das principais boates do Rio, que realizava os shows cobiados pelos jovens roqueiros e atendia por aquele estranho e recente nome inventado de Danceteria. Um lugar fundado em 1984, em uma galeria, ao lado de uma pizzaria - ponto obrigatrio do pblico antes de cair na gandaia -, e que se diferenciava das discotecas por ter som ao vivo. Seu palco era cercado pelas luzes coloridas dos canhes de luz, pela luz negra das paredes e pela luz estroboscpica do teto.

O Roupa Nova j havia se apresentando l em 1984, deixando boas lembranas para os donos da casa. Como bem registrou Jamari Frana, no Jornal do Brasil: O pessoal tcnico da Mamute rasgou a maior seda para a organizao do grupo, que funciona como empresa com roadies especializados para montagem do palco, aparelhagem prpria, tudo do mais moderno, uma estrutura que eles montaram em doze suados anos de carreira...11 E em 1985 a resposta do pblico seria ainda melhor, com gente danando na discoteca at no caber mais. Entre eles, Ezequiel Neves, produtor da Som Livre, que fez questo de ir ao camarim cumprimentar os msicos:

- Bate aqui, bate! Vocs so fogo! - disse Ezequiel, dando tapas em seu prprio rosto.

A que Nando respondeu com outro tapa no produtor roqueiro. Bem de leve, mas conceitual.



- O que voc achou? - perguntou Ricardo Feghali para o produtor Max Pierre, que tambm havia assistido ao show na Mamute e tinha ido ao camarim.

- timo!

- No, voc no quer dizer o que achou! - insistiu Nando.

- Foi timo gente.

- Fala a, p - reforou Kiko.

- , a nica coisa que eu acho  que o Paulinho com esse macacozinho rosa t parecendo um veadinho.

Deixando os seis msicos mudos e de caras fechadas. Mas foi eles que pediram, n?, diria depois o produtor.



A gente se vestia igual a todo mundo. No sentia nenhum preconceito quanto  roupa. Mas trocar as nossas cores foi um sentimento delas, n?, recorda Kiko, sobre a mudana no visual do grupo, no ano de 1985.

Cada um dos integrantes gostava da liberdade de escolher o que vestir nos shows, sem ter algum dizendo: Tem que ser essa cala ou essa blusa. Mas, se a Blitz causava uma boa impresso colorida, na opinio de Anelisa e Valria o Roupa Nova poderia ter outro impacto devido  histria e ao perfil da banda. Pensando nisso, as duas empresrias e o grupo chegaram a uma soluo vivel, fcil e que fosse clean como elas tanto queriam:

- No vamos regular vocs, mas chega de cores! Todo mundo de preto, branco e cinza, no mximo! Jeans tambm t liberado. Vamos limpar o palco.



- Gente, acho que vamos conseguir o Caneco pro final de maio! No da maneira que queramos, mas...

- Jura? E vai dar para tirar as mesas para o pessoal danar? Plateia sentada  foda...- perguntou Feghali para Anelisa.

- Estamos conversando com o Mrio Priolli e isso no deve ser problema. A gente deve tirar umas 48 mesas do centro, vamos ver...

- Mas e o dinheiro? - quis saber Kiko.

- , acho que a gente vai ter que desembolsar... 5 dias!

- Vamos encher aquela casa!

- Sem dvida! Ah, estamos olhando tambm o lance do painel dos Beatles. Entramos em contato com o Mario Bag**, e  s ter o OK definitivo do Caneco para confirmar com ele.

E Feghali completou:

- Vai ficar legal o painel mais o set list  la Famks. Bacana o She Loves You, junto com a chamada do programa Cavern Club, do Big Boy.

- Vai dar tudo certo! Nessa semana vamos acertar com a casa. Vamos fazer, vamos fazer!



- No vai, no, Miguel!

- Ah, Valria, s dessa vez...

- No, Miguel! O Roupa Nova no vai gravar a base do disco da Joanna!

- Isso  importante pra eles.

- No, no . Se voc quiser uma participao especial a gente pode at pensar no assunto. Mas como msicos de estdio eles no entram! No mesmo. Acabou.

Depois de alguns dias, Miguel Plopschi ligou para Valria, insistindo:

- Pelo amor de Deus, Valria!!

- Miguel, uma participao especial, quer? Joanna e Roupa Nova ttulo na frente, tudo como deve ser. E nem adianta tentar convencer os meninos pra fazer a base. Eles esto com a gente e entendem os motivos dessas decises.  pegar ou largar.

Foi quando se acertou a participao do Roupa Nova na cano Um sonho a dois, de Paulo Massadas e Michael Sullivan para o LP homnimo Joanna, da RCA. O disco seria lanado em 1986 e um estouro de vendas: cerca de 600 mil cpias vendidas. Entre os grandes sucessos do lbum, a msica Um sonho a dois, entraria para a discografia do Roupa Nova no RoupAcstico 2, em 2006, cantada por Serginho, acompanhado pela cantora Claudia Leitte.



Roupa Nova estreia hoje no Caneco era o ttulo da matria do Jornal do Brasil, no dia 29 de maio de 1985, na editoria Show - cinco dias de apresentaes, de quarta-feira a domingo, e pela primeira vez no palco do Brasil. Aps rodar o pas com o disco amarelo, com mdia de pblico de 5 mil pessoas por show, apesar das crticas da imprensa.

O texto no vinha assinado e, ao contrrio do que costumava acontecer, trazia um enfoque positivo sobre o Roupa Nova. J na primeira frase se lia um Como recomenda Milton Nascimento... - como se o nome do mineiro funcionasse como uma abertura de portas para o leitor com preconceitos. Recurso usado tambm pelo prprio grupo. E, no segundo pargrafo, a afirmao: O Roupa Nova garante que seus shows tm a mesma qualidade de som dos discos.

Porm, o que nem o jornalista nem ningum sabia  que a estreia do Roupa Nova na respeitada casa de espetculos seria paga. O famoso pagou para tocar. A diretoria do Caneco, com receio de que a casa no enchesse, s aceitou a turn do grupo com a condio de ficar com toda a bilheteria. E as empresrias aceitaram, pois faziam questo de colocar seus artistas no palco da nata da MPB. Bancaram, literalmente, para ver, e viram: cinco dias lotados, com fila na porta.



Nando, empunhando seu poderoso [baixo] Alembic, disse ao microfone que a banda era formada por pessoas muito simples e no adiantava cobrar nada diferente do Roupa Nova. Ento t, era assim que Jamari Frana, j com um leve toque de ironia, comeava seu texto sobre os shows do grupo no Caneco, no Caderno B do Jornal do Brasil. Na matria publicada em 1o de junho de 1985, sob o ttulo Talento, tecnologia e breguice total, o crtico discorreu poucos elogios entre muitas restries ao trabalho dos seis integrantes.

Falar do Roupa Nova no palco  cair num inevitvel morde e assopra, escreveria ele, comentando como fatores positivos o talento musical e o profissionalismo, e como lado negativo o tdio provocado pelo repertrio new brega, especialmente o material mais recente. E terminaria o texto chamando Whisky a Go Go de um horrvel tema do drama bobo [da novela] das sete, citando o pot-pourri das msicas gravadas pela banda com outros artistas. ... praticamente todo mundo, credenciando Roupa Nova como uma espcie de Toto brasileiro. H quem goste.

Ah, sim, Jamari Frana era crtico e, em sua definio, um roqueiro convicto.



Para o mesmo show do Roupa Nova no Caneco, um texto bem diferente do Jornal do Brasil foi apresentado pelo O Dia, de autoria de Roberto M. Moura. Sob a chamada Um sonho a mais no faz mal, o jornalista disparou logo no primeiro pargrafo:  preciso avisar aos inimigos do rock que o Roupa Nova no  um conjunto como dezenas desses que andam por a. Perguntem isso ao diretor ou aos produtores de qualquer gravadora.

E as disparidades entre as opinies no paravam por a. Roberto defendeu a banda e ainda cutucou: Cleberson, Ricardo, Serginho, Paulinho, Kiko e Nando costumam ser acusados de msicos de estdio. Isto , instrumentistas e vocalistas incapazes de repetir ao vivo aquilo o que se constri com o engenho e a arte de 24 canais de gravao. Durante 1 hora e meia de espetculo, a rapaziada desmente isso com a descontrao de quem est tomando uma cerveja no bar da esquina. E fechou o texto sem preconceito, ao afirmar: Os empresrios devem estar mais atentos. O Rio no merece apenas cinco apresentaes do Roupa Nova. J que, como na velha piada, o rock  inevitvel - vamos pelo menos ouvi-lo tocado por quem conhece seu ofcio.

Ah, sim, Roberto M. Moura era crtico e especialista em cultura popular.



- Vamos fazer primeiro! Se a qumica funcionar com a banda, vocs me pagam - avisou Walter Lacet para Anelisa e Valria, aps o convite de dirigir um dos shows do Roupa em 1986.

Lacet era um profissional conceituado no mercado, se dava bem com os msicos desde os tempos da Globo e poderia ser um reforo contra a imagem de brega atribuda  banda. E a sua primeira interveno no show aconteceu na passagem de som, ao ouvir: Everytime you hear this song remember me...

- P, vem c, eu no t ganhando dinheiro para dirigir o Roupa. Mas se a Hollywood t pagando pra vocs tocarem o jingle deles eu vou comear a cobrar!

- Ah, Lacet,  uma das facetas do nosso trabalho!  bom para conhecer - respondeu Kiko.

- Jingle  jingle e tem que estar na rdio. No no palco! Pode cortar isso.

A retirada dos jingles incomodou os msicos, mas no era um fator preponderante. Afinal, os msicos gostavam de apresentar em seus shows jingles e canes de outros artistas que eles haviam gravado. Esbanjando talento na execuo de trabalhos completamente diferentes, para que o pblico no tivesse dvida quanto  sua qualidade musical - como uma forma de compensar todas as crticas que recebiam da imprensa.

S que Anelisa e Valria no achavam que esse seria o caminho para ganhar prestgio da imprensa ou o carinho dos fs. Nem elas, nem Walter Lacet.



Falem bem ou falem mal, mas no dia 17 de setembro de 1986, quarta-feira, o Roupa Nova voltaria aos palcos do Caneco para mais uma turn. Apresentando-se como convidado da casa de espetculos, sem pagar ou deixar qualquer bilheteria para trs. Lotando a casa, inclusive na matin dos domingos, com o show comeando s 18 horas para os pais poderem levar seus filhos. Tinha criana a dar com pau! A casa ficava linda, recorda Valria.

Uma apresentao que seria lembrada perfeitamente por Erasmo Carlos, que levaria seus dois filhos com Narinha para assistir. Para o Tremendo, Sapato velho era hors-concours e em Anjo ele chegava a chorar! Se eu tiver apaixonado ento eu choro duas vezes mais!  uma choradeira com soluo e tudo! No entanto, naquele dia ele fora ao show para agradar os meninos. Eles eram vidrados no Roupa Nova! E, pra mim, eles so impecveis. Um dos maiores grupos que o Brasil j viu at hoje! Erasmo conta que aquele show foi uma loucura, com todo mundo de p cantando Whisky a Go Go. O pior  que meus filhos, alucinados, me deixaram na mesa e foram l pra frente pular! Uma das poucas vezes que ele veria o Caneco to entupido.

Naquele ano, seriam dez dias de shows do novo LP deles. Consequncia das inseres precisas de Anelisa e Valria e do trabalho levado a srio pela banda. Era a Valria sempre com aquele corao dela, e Anelisa com a maquininha de calcular, diria Nando. Foi uma virada.

Principalmente depois do famoso disco azul. Duas mulheres que ajudariam o Roupa Nova a se estruturar completamente, arregaando enfim as portas do mercado fonogrfico para os escoteiros do rock.



Notas

* Em So Paulo, o circuito das danceterias passava por nomes como Radar Tant no Bom Retiro, Rdio Clube em Pinheiros, Raio Laser na Zona Sul, e Latitude 3001 na 23 de maio. No Rio de Janeiro, ainda vale citar a Metrpolis, em So Conrado, e a Mamo com Acar, na Lagoa.

** Artista plstico responsvel pelo logotipo de 1985 do grupo.



CAPTULO 29

UM VERSO MEU PRA VOC DIZER

De repente, resolvemos nos soltar mais, acreditar mais nas nossas composies.

Ricardo Feghali

- No acredito que vocs no consigam fazer uma msica to ruim como essa que vocs gravaram do Sullivan e Massadas!

Era Valria em uma viagem de nibus, na turn do disco amarelo, tentando despertar o lado de compositor dos msicos, utilizando uma psicologia, digamos, mais agressiva. Os seis olhavam para ela assustados, chateados pela forma dela se referir  dupla de hitmakers. Os caras so craques com o popular, mas no faziam parte da minha discoteca, com todo o respeito, conta a empresria. E junto com Anelisa ela incentivava o interesse dos integrantes a escreverem tambm as letras de suas canes.

O complicado para os seis, no entanto, era se encontrar no meio de tantas influncias musicais na hora de desenvolver um trabalho autoral. A banda veio dos bailes, onde tocou rocknroll, Jovem Guarda, pop, disco... E sempre imitando as canes originais. Depois passou por Mariozinho, que tirou um pouco a poeira dos clubes e soube utilizar essa experincia a favor da MPB. Mas no vendeu e nem atingiu o grande pblico. E na sequncia o grupo saiu da Polygram em direo  RCA, que vendia o popular como ningum. Alteraes estticas marcantes para artistas que ainda no haviam amadurecido por completo. Sem se esquecer da diferena de estilo existente entre os prprios integrantes. Como formar uma unidade? Seria melhor se vender, renegar as suas verdades para chegar a um consenso que agradasse o pblico? Como alcanar esse equilbrio? Como formar uma identidade consolidada e respeitada no cenrio musical brasileiro? E eram nessas dvidas que as empresrias entravam para dizer:

- Vocs no precisam ficar fazendo o refinado da MPB, nem ficar com a coisa simplria do popularesco. Vamos chegar ao meio-termo, achar a cara do Roupa Nova. Vocs so competentes e no tm que ter medo. Se joguem, se soltem, se sintam seguros e sigam nessa estrada.



- P, vocs no podem ficar dependendo da msica dos outros! E se o cara no acerta na msica? No  possvel! Vocs so msicos maravilhosos, talentosos intrpretes e sabem o caminho das pedras! Vocs aprendem vendo o outro fazer - dizia Miguel Plopschi, tambm estimulando o lado compositor do grupo, que no disco amarelo s havia acontecido em Tmida e Com voc faz sentido.

Os incentivos vinham de todas as partes e calavam fundo na vontade incubada de criar de alguns dos seis msicos - como Nando. Desde a experincia com o trio Excitation, o baixista deixara de tocar msicas originais. As minhas linhas de baixo sempre foram as minhas linhas de baixo. O que foi importante para lhe dar liberdade para compor e se arriscar, nesta nova fase do Roupa Nova.



O sujeito canta e as palavras precisam cantar! No adianta a palavra ser muito bonita, se ela no quiser cantar. Fazer uma letra  uma arte, disse Miguel Plopschi. Nando foi o primeiro a quebrar o gelo do letrista, apresentando a cano Sonho, em cima da melodia de Serginho: Leve feito o vento vem/ J quase de manh... Uma msica que abriria caminho para outro integrante se aventurar por mares nunca dantes navegados: Ricardo Feghali.

O tecladista chegou por volta de 1h30 da manh no seu quarto de hotel em Maring com uma ideia martelando em sua cabea. Ele estava na cidade, em uma das viagens com o grupo, e ficou completamente sem sono, com palavras e frases perdidas vagando pela mente.

Eu disfaro e nem sempre consigo evitar

Que estou perto de enlouquecer

Quando olho os seus olhos nos meus

Acaba o mundo e nem notei

Escrevendo sem parar e rabiscando coisas que s ele entenderia at umas 4 horas da manh! Para s depois ter o que poderia ser a letra de uma cano.

- P, so 4 horas ainda... Vou esperar mais - comentou ao olhar o relgio, doido para acordar o pessoal e mostrar a composio. - Hum... Ser que eles vo gostar?

E ficou ali, de olhos abertos, com o papel nas mos, cheio de garranchos, olhando fixamente para o telefone, esperando os primeiros raios de sol despontarem na janela.

- Nando! , Nando! Acorda a, p. Deixa eu te mostrar uma coisa?



De acordo com Nando, o grupo precisava dizer o que estava pensando, o que no acontecia quando eles s interpretavam o que as outras pessoas diziam. E duas msicas em especial, no quinto disco do grupo, surgiram com esse objetivo. Uma delas era E voc o que  que faz?, letra de Feghali e melodia de Serginho, com versos que lembravam muito aquela velha discusso de insegurana, autoafirmao e alienao em relao aos crticos.

Pra que tantas brigas sem explicao

Talvez seja sua autoafirmao

Essa sua insegurana  que me faz forte demais

Vou fazendo o impossvel e voc o que  que faz?

Basta, estou cansado de alienao

Mostra uma parte desse corao

Que  capaz de ser sensato

E te fazer voltar atrs

Por favor, me inclua nessa

Ou ser tarde demais

Mas seria em Tudo de novo, com letra de Nando e melodia de Ricardo, que o grupo resumiria o momento que o Roupa Nova estava vivendo. A msica falava sobre os caras e tipos do mercado fonogrfico, semelhantes no jeito e na maneira de ser; sobre os rdios e vdeos que acompanham o movimento das ondas; sobre as louras e ruivas querendo o seu corao; e principalmente sobre eles e outras bandas na febre do sucesso, num delrio total, romntico geral. A primeira parceria de Ricardo Feghali e Nando, entre tantas outras que viriam no futuro.

Nas palavras de Nando: Essa letra eu acho que  tudo o que a gente j devia estar dizendo h muito tempo.  uma constatao de que h muita coisa acontecendo agora igual a uma srie de coisas que j aconteceram, e de repente a gente t envolvido nesse contexto.12

Um cenrio musical que se repetiria de novo, e de novo, e de novo...



Cleberson, que j havia assinado a cano Tmida no disco anterior, se sentiu mais  vontade para apresentar outro trabalho para o grupo e tambm para Miguel Plopschi, que, apesar do crescimento da RCA-Ariola, tentava acompanhar o desenvolvimento do Roupa Nova.

Ele colocou para tocar a sua mais nova criao, na sala do diretor. No entanto, Miguel cismou que a segunda parte ainda no era aquela.

- T faltando um refro a, Cleberson... Refaz e me mostra amanh?

Para o compositor, no h nada pior do que uma obra pela metade, uma melodia inacabada ou uma letra que no se fez verdadeira. Por isso, Cleberson passaria horas sobre o piano tentando encontrar a pecinha daquele quebra-cabea de notas, o trecho que poderia fazer toda a diferena na cano. Foi para a casa e tentou, tentou e nada! Fez vrias segundas partes e no gostava de nenhuma. At que dormiu, cansado, na esperana de sonhar com a soluo.

S que a ausncia absoluta e irritante de ideias continuou no dia seguinte, na gravadora.

- Ai, caramba, daqui a pouco vou ter que mostrar pro Miguel... - dizia ele, olhando para as teclas do piano, to brancas quanto o vazio que sentia naquele momento.

Faltava apenas uma hora antes de sua reunio com o diretor.

Uma hora, que se transformou em 30 minutos.

- E se eu emendasse essa nota e...

Quinze minutos.

- E se eu mudasse tudo?

Cinco minutos.

- Acho que eu no vou...

E de repente veio uma fagulha, um lampejo do que poderia ser o refro, colorindo aos poucos aquele branco insuportvel que o estava matando por dentro. O que seria traduzido dias depois, nas palavras de Ronaldo Bastos, como:

Te dou o meu corao

Queria dar o mundo

Luar do meu serto

Seguindo no trem azul...



Um holands mal-humorado e de cara fechada recebeu, no guich da estao de trem de Amsterd, o dinheiro de Ronaldo Bastos e lhe deu uma passagem para Rotterdam. O rapaz ainda grunhiu algo em sua lngua nativa, ao entregar o ticket. Mas, com a passagem nas mos, Ronaldo no se preocupou muito e, sorrindo, se despediu em direo ao trem verde.

A viagem seria o ponto de partida para sua inspirao, meses depois, ao receber a melodia de Cleberson. E outras referncias explcitas fariam parte de seu imaginrio ao escrever a letra daquela cano, como o jazz Take The A Train - gravado por vrios intrpretes, como Ella Fitzgerald - sobre um trem em Nova York, ou o famoso Expresso do Oriente, citado em livros e filmes, que percorre o trecho Paris-Veneza e se trata de um trem azul. Eu fui pela sonoridade. O trem azul soa bem. Trem verde no  legal!, contaria Ronaldo, que juntou ainda outros elementos na msica para falar do compositor que empresta seus versos para um intrprete cantar. Pessoa como ele, que sente amor, mas no sabe muito bem como vai dizer.

Eu acho to bacana essa relao: um grupo grava uma msica e d voz ao compositor, interferindo na vida das pessoas, diz ele hoje, embora no tenha pensado claramente em nada disso ao escrever a cano. Ela apenas fluiu e se tornou inteiramente Roupa Nova, como define Ronaldo. Cleberson  um melodista excepcional e eu gosto muito dessa msica!  o ntimo do contato entre o compositor e o pblico. E o som deles iria levar isso mais longe.



Ronaldo Bastos estava entretido em suas composies quando algum tocou a campainha de sua casa. Naquela poca, ele morava em uma comunidade e, de vez em quando, algum batia  sua porta para pedir favor, ajudar ou apenas v-lo. Mas, ao atender dessa vez, ele se deparou com um rapaz doido, vindo l no sei de onde, que mal ficava parado enquanto falava.

- Estou aqui, mestre! - disse o homem, de braos abertos e feliz da vida por ver Ronaldo.

- H? O que  isso, cara?

- Segui o que voc falou! Tomei cido!

- Eu? Eu no falei nada disso!

- Ah... Falou, sim! Aquela msica do trem azul... T aqui pra viajar com voc!

Ronaldo quase caiu pra trs ao ouvir aquela explicao do maluco.

- Ai, cacete... Olha s, eu no mandei ningum tomar cido!

- Como no, a msica fala que eu tinha que seguir o trem e...

- Bicho, no  nada disso! No sou guru e no tenho uma religio. No me bote nessa roubada. Isso  um problema seu! Passar bem.

- Mas o trem...

- Era s um trem, entendeu? E verde! - disse Ronaldo, antes de bater a porta na cara do sujeito.

O que no impediria que outros malucos tomassem o trem azul. A rapaziada cismou que o trem azul era cido!,13 lembra rindo o compositor, que sem saber havia feito o seu Lucy in The Sky with Diamonds.*



Linda!

S voc me fascina

Te desejo muito alm do prazer

Vista meu futuro em teu corpo

E me ama como eu amo voc

Cantou Paulinho no estdio, na gravao de uma das faixas do disco - com letra de Tavinho Paes e melodia de Kiko -, vista por eles como uma levada mais pesada, mas com um coro meio religious, meio negro, um rgo tambm meio igreja, lrico.14 Talvez uma influncia de Brian May, guitarrista do Queen. E todos os envolvidos estavam presentes assistindo e dando pitaco durante o processo. Porm, quando terminou tudo, Miguel Plopschi comentou: , no emocionou.

Como diretor artstico, Miguel queria vender. E, como ex-integrante dos Fevers, ele levava ideias para os msicos - que s aceitavam as que queriam. Ele no forava. Sempre trouxe 5 milhes de coisas, e muitas delas deram certo, mas nunca nos obrigou a nada! E quando no gostvamos de algo, a gente detonava contaria Nando.

No caso de Linda demais, eles no concordaram com a opinio de Miguel. Alm do mais, aquele LP, como prometido, seria de responsabilidade deles.



Alm das composies do Roupa Nova, outras canes seriam aprovadas pelos integrantes para o disco, como Show de rocknroll, de Paulo Massadas e Michael Sullivan, de clima animado, e letra interessante sobre um casal que era praticamente gua e vinho. Alm do rock Coraes psicodlicos - composio de Lobo, Bernardo Vilhena e Jlio Barroso, cantado pelo primeiro -, que seria gravado com uma releitura leve aps uma conversa do grupo com Ronaldo Bastos sobre o modismo da Bossa Nova na Inglaterra:

- E se em vez de regravarmos Joo Gilberto pegssemos um sucesso, que acabou de sair do ouvido do povo, para mostrar como seria em bossa nova?

O pblico gostou e Paulinho passou a sentar na beirada do palco para cant-la bem pertinho das pessoas, criando um momento intimista no show e provocando o delrio das fs que estavam no gargarejo. J o roqueiro Lobo, feliz com a grana no bolso pela gravao, disse no incio: A msica era assim e eu nem sabia. Embora tenha lamentado depois: P, esses caras cantam errado a msica - comportamento (in)constante e (in)esperado de Lobo.

Porm, a msica intrusa que mais faria sucesso naquele disco seria uma composio de S & Guarabyra! E por pouco no foi gravada pelo Roupa Nova. Uma cano que no teria pedras em seu caminho, ondas no seu mar, vento ou tempestade que a impedissem de voar.



Quando a dupla de rock rural S & Guarabyra viajava para fazer shows, uma coisa era certa: na hora de dormir no hotel, um ficava com o quarto de baixo e o outro com o quarto de cima. Assim, caso precisassem se falar, o esquema de comunicao era o mais simples e rstico do mundo: ou se batia no teto ou se batia no cho. E no incio dos anos 1980, em um hotel em Goinia, foi Guarabyra quem precisou de um cabo de vassoura para fazer S descer.

- T com um tema que eu no t conseguindo desenvolver... D uma ajuda! - pediu ele para S, logo que o parceiro chegou.

O tema era sobre a mulher resolvida. Uma Simone de Beauvoir da vida que, mesmo antes de qualquer movimento feminista, j sabia usar o poder da mulher que ela tinha na mo, relembraria S, referindo-se  escritora e filsofa francesa, no programa Eu sou o Show, da TVE, exibido nos dias 5, 7 e 9 de abril de 1987.

Assim, naquela noite, ele e Guarabyra passariam horas no quarto tentando descrever como seria essa mulher - que anda pelas ruas e manda em todos ns, e para qual nada  nunca, nunca  no. Uma msica que ficaria pronta no mesmo dia e levaria o nome de Dona.



No festival MPB Shell de 1982, S & Guarabyra se apresentaram na 3a eliminatria com aquela cano feita em Goinia, pois a dupla considerava uma msica bonita e popular. Classificaram-se para a grande final que aconteceria em setembro do mesmo ano, tendo entre os concorrentes compositores como Tunai, Paulinho Rezende, Sueli Costa e Cacaso.

A msica havia sido bem recebida pelo pblico na primeira apresentao e poderia ter tido o mesmo tratamento na final. Porm, um lado inteiro do som no Maracanzinho pifou exatamente no instante em que tocavam S & Guarabyra - que do palco no entenderam nada quando o pblico comeou a vaiar. Consequentemente, a msica no ficou entre as vitoriosas do evento.

S que, naquele dia, o produtor Mariozinho Rocha estava na plateia e ficou maravilhado com a cano. Hum... Isso ainda pode me render alguma coisa! Por isso guardou o nome, arquivou um K7 e escreveu com uma pilot as referncias para no mais esquecer - DONA, Festival 1982/ S & Guarabyra. E at pediu uma verso do Roupa Nova, j naquela poca, para ver como ficava. Mas o grupo foi contra a gravao.

Dois anos depois, a convite de Daniel Filho para atuar como freelancer nas trilhas sonoras das novelas da Globo, Mariozinho receberia uma sinopse de uma novela que seria exibida s 20 horas, escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva. O nome: Roque Santeiro. E Mariozinho vibraria muito aps saber que precisaria de um tema para Porcina - personagem de Regina Duarte -, uma viva porreta, peruaa e que no pregava fogo.



Duas msicas de S & Guarabyra, ainda em 1984, foram escaladas para a trilha sonora da novela das oito: a homnima Roque Santeiro e Verdades e mentiras. S isso j seria motivo para passar Dona para outro intrprete gravar. No entanto, Mariozinho quis mais!

- Essa msica  a cara da Porcina, mas com a gravao do S & Guarabyra no vai emplacar! Eu preciso do Roupa Nova, cacete! Algo mais vigoroso, com um arranjo to forte quanto  personagem, uma guitarra tipo a do Kiko!

Dias depois, l estaria ele novamente com a banda.

- Posso contar com vocs? - perguntou para seis msicos no to animados com o convite.

- Ah, Maneco, acho que no  muito a nossa praia... - disse Nando.

- Ah, gente... Por favor?

Mas as caras dos integrantes, que haviam acabado de gravar o disco amarelo, no foram das mais favorveis. E por conta disso, naquele dia, Mariozinho desistiu, at que conseguiu convenc-los, finalmente, em 1985.



- Hum... O som da bateria no estdio t muito pequeno, no? - indagou Serginho, ao fazer as primeiras passagens na gravao de Dona, em plena madrugada de um dia puxado para o Roupa.

- , Flvio, a gente tinha pensado em um som diferente pra bateria, como se fosse de um estdio grande, entendeu? - explicou Feghali.

- Estdio grande, ? - disse o tcnico, olhando ao redor em busca da ideia brilhante, assim como os msicos.

O corredor da RCA tinha vidro nas paredes, em paralelo aos prdios vizinhos. Era to pertinho que dava para ver a vida dos moradores pelas janelas, e largo e alto o bastante para ampliar o som da bateria.

- Vamos montar o instrumento l!

Perfeito! Se no fosse 1 hora da manh e tivesse gente querendo dormir.

- Vamos gravar! Se der problema a gente v.

No deu outra. Mal Serginho tocou nas baquetas, e um vizinho desceu do prdio e parou na portaria do estdio:

- Porra! T querendo dormir e tem um maluco na bateria? Eu vou chamar a polcia! - bradou ele para o segurana, que j sabia o que fazer.

- Calma, senhor e...

- Calma nada! J viu que horas so?

- , o pessoal t trabalhando. O senhor gostaria de assistir?

- Ah no, no mesmo. Acho que voc no me ouviu e...

-  o Roupa Nova, conhece?

- Roupa Nova?

-  - disse o segurana, j vendo ali uma pontinha de dvida.

- Hum...

- Eu te levo l.

- , t bom. Acho que vou subir um pouquinho...

O homem tinha uns 50 anos e muito sono. Mas ele no perderia o show de graa nem por um decreto! Puxou uma cadeira, no corredor da bateria, sentou, cruzou as pernas e assistiu de camarote a Serginho tocar - trocando a companhia dos sonhos de Morfeu pela do Roupa Nova.



S conhecera Nando ainda garoto, por ele ter sido colega de sua sobrinha. E o resto da banda seria apresentada a ele e Guarabyra por Mariozinho. Msicos como Kiko, Cleberson, Feghali, com os quais eles contariam para gravaes de seus trabalhos autorais.

- S vimos a msica depois de pronta. Mas sempre tivemos total confiana no trabalho do Roupa Nova - comenta S. - Ficou tudo perfeito! Base, vozes, tudo. A voz do Serginho parece feita pra msica.

Dona desses traioeiros

Sonhos sempre verdadeiros

Oh! Dona desses animais

Dona dos seus ideais

E, alm disso, caiu to bem  viva Porcina, que a banda, apesar do disco pronto, resolveu acrescentar a msica em seu repertrio. Foi por favor que eles gravaram a msica! E hoje eles no conseguem fazer mais um show sem cant-la, diz Mariozinho. O que, para ele, representaria uma simbiose completa entre personagem e cano.



Com a incluso de Dona no LP, o Roupa Nova fecharia seu quinto trabalho de carreira, homnimo, com onze canes, sete delas de autoria dos integrantes. Eu parei de me preocupar em buscar msicas com outros compositores. O Roupa Nova passou a dar conta do recado e isso foi muito bom pra companhia, comenta Miguel Plopschi.

Dessa vez, a cor do fundo da imagem do LP seria azul-escuro com o nome da banda em azul-claro - o que lhe renderia o apelido de disco azul. E, se na capa estariam os seis rapazes elegantes, vestidos de preto e branco como pediram Anelisa e Valria, na bolachona estariam seus prprios versos. Razo de comemorao e orgulho por parte de todos os envolvidos antes mesmo do LP ir s lojas.

O lbum foi todo decidido pelos seis msicos, mixado por Franklin Garrido e Feghali. O primeiro disco com o grupo assinando a produo executiva, alm dos arranjos, instrumentos e vocais - e que seria definido, em seu release, como o nascimento do Novo Roupa Nova.



Nota

* Existem lendas que relacionam a letra onrica de Lucy in The Sky with Diamonds a uma viagem provocada por cido lisrgico. O prprio nome seria uma aluso a LSD (Lucy, Sky e Diamonds). No entanto, John Lennon sempre negou. De acordo com o livro The Beatles: a histria por trs de todas as canes, de Steve Turner, a inspirao para a cano veio do desenho que o filho de John, Julian, fez de sua colega Lucy no cu com diamantes.



CAPTULO 30

TODO ARTISTA TEM DE IR AONDE O POVO EST

Antes, era execuo nas rdios do Brasil, mas show s Rio-So Paulo. Com Anelisa e Valria, a gente passou a tocar no pas inteiro! Tocvamos e convencamos. Foi por isso que vendeu.

Nando

Sandra, uma garota de seus 20 e poucos anos, carioca e f de A Cor do Som desde o seu surgimento nas FMs, no acreditou quando viu uma banda rivalizando com seus queridinhos.

E, como f que se preze, Sandra botou no seu radar o nome Roupa Nova, vigiando o que saa nos jornais sobre o grupo para se informar antes de falar mal. At ver o cartaz: Cine Show Madureira recebe o grupo Roupa Nova, nesse final de semana! Local pertinho de sua casa. Ela resolveu ir e chamou uma amiga. As duas foram comprar o ingresso do Cine Show Madureira, ansiosas por entrar em ao, se sentindo como duas espis observando o inimigo.



Era sbado  noite e uma fila comeava a se formar na porta do Cine Show Madureira quando Sandra e Patrcia chegaram.

- Pelo visto eles tm pblico.

- Ou ento  um bando de curioso como a gente!

- Bom, eles esto tocando muito nas rdios, j ouviu? - comentou uma com a outra, enquanto um senhor atencioso organizava a fila.

, seu Z!, gritava algum conhecido de vez em quando, a que o homem respondia sempre muito animado.

- Meu Deus, mas quem  esse seu Z? - questionou Sandra, atenta a todos os detalhes a respeito daquela banda.

Ainda faltava cerca de uma hora para o incio do show, mas as pessoas j iam se aglomerando na entrada. Adolescentes, em sua maioria, conversando sobre o Roupa Nova e o que esperavam daquela apresentao. Aumentando ainda mais as expectativas das duas meninas, at que o homem, chamado de seu Z, avisou: Abriu, vamos entrar gente!

O Cine Show Madureira havia sido um cinema no passado e, por isso, tinha esse nome e as poltronas enfileiradas. Um espao que seria rapidamente tomado pelos jovens e pelas canes do grupo, que faria um show impecvel, impressionando pela qualidade e pela msica as duas garotas que, em minoria, nem se lembrariam de vaiar ou puxar qualquer coro de Cor do Som! Cor do Som!.

- Hum, t, foi legal - disse Sandra, aps bater palmas no final da apresentao, j se preparando para ir embora.

Porm, uma movimentao estranha lhe chamou ateno.

- Ih, olha ali! O tal do seu Z t colocando uma escadinha encostada no palco.

- Onde?

Seu Z subiu no palco e avisou:

- Quem quiser ir pro camarim  s subir aqui e virar  esquerda. Fica atrs do palco.

Para o espanto das meninas, que nunca tinham visto algo similar.

- Ih... Coisa esquisita isso. Vamos l ver?

Patrcia e Sandra subiram as escadas e se surpreenderam com outra fila, um pouco menor. E, na porta, novamente seu Z com um pster nas mos para entregar para cada um.

- Gente, que  isso? Pster? Aqui eles do pster?

Uma olhava para a outra com os olhos arregalados, sem entender nada do que estava acontecendo. Naquela poca, no tinha essa de o pblico ganhar material de divulgao das bandas. Era s assistir ao show e ir embora para casa. S aquilo j estava de bom tamanho para as moas, que nem imaginavam que ficariam tanto tempo no evento. Mas foi ao entrar no camarim que as duas definitivamente surtaram.

- Oooooi! Que bom que vocs vieram! - cumprimentou Paulinho, logo que elas entraram, abraando as duas como amigas de infncia.

Petrificadas, elas olhavam para os msicos como se eles tivessem vindo de outro planeta.

- Eu no t acreditando! Eu nunca tive esse tratamento na Cor do Som! - cochichou Patrcia para Sandra, enquanto os integrantes conversavam e se divertiam com elas, outras fs e amigos que tambm estavam no camarim.

Ficaram praticamente em choque, at quando saram do Cine Madureira.

- T, a gente gosta da Cor do Som. Mas o que foi aquilo? - comentou Sandra, caminhando para o ponto de nibus com Patrcia.

- P, eu me lembrei da nica vez que a gente conseguiu se aproximar da Cor...

- Eles mal falaram com a gente! Olharam meio de cima, n?

- E fazendo pose, lembra?

- S o Armandinho foi uma simpatia!

- ... - respondeu Patrcia, sem graa, ainda tentando assimilar o ocorrido, andando ao lado de Sandra, muda.

- Vamos voltar amanh? - arriscou a amiga, dizendo exatamente o que estava se passando em sua cabea.

Elas comeariam, ento, a frequentar todos os shows do Roupa Nova na Mamute, a cantar todas as msicas e assistir s passagens de som. E acabariam conhecendo a empresria Valria, para a qual perguntariam:

- A gente pode montar um f-clube do Roupa Nova?

Fundando em 1984 o primeiro f-clube que a banda teria em sua carreira. Ah, sim, e elas continuaram gostando de A Cor do Som. S que de outra forma.



- Valria,  melhor eu alugar uma caixa postal?

- No precisa, Sandra. Eu tenho no escritrio. Eu recebo as cartas aqui e voc busca!

Hoje em dia, o f que busca dados sobre seu dolo entra na internet, acessa o site oficial, l blogs especializados, visita portais de notcias, baixa msicas, copia fotos de shows e consegue at falar diretamente com o artista pelas redes sociais. No entanto, na dcada de 1980, essa tecnologia s poderia ser encontrada nos sonhos ou filmes, e o jeito seria improvisar.

Por isso, em dois discos do Roupa Nova, sairia a caixa postal do Roupa Nova F-Clube Oficial, com um convite para as pessoas se inscreverem. E Sandra passou a ser a encarregada de ler as cartas e respond-las, com as informaes colhidas diretamente com Valria. Ela escrevia, pagava o selo, o envelope, colocava nos Correios e depois pegava um cheque com a empresria correspondente ao valor gasto, e outra leva de correspondncias. Dava um trabalho, mas eu gostava! O amor faz isso!, conta a primeira f de carteirinha da banda.

A menina passava para os fs, de todos os cantos do pas, a agenda de shows do grupo pelo Brasil afora, material de divulgao como postais, entrevistas feitas por ela aos integrantes, alm de cartes customizados do Roupa Nova de aniversrio e de ano-novo. E fazia questo de pedir uma foto 3x4 para registrar os dados pessoais de cada f em um arquivo. O que significaria, em pouco tempo, mais de quinhentos cadastrados. Pessoas tratadas como VIPs - assim como Sandra foi acolhida em seu primeiro show - e que se sentiriam prximas aos Meninos do Roupa Nova. Realmente especiais.



Todo ms Valria abria a agenda de shows do Roupa Nova para Sandra, que informava aos cadastrados do f-clube. E as duas trabalhavam como podiam! s vezes, a menina pegava com a empresria um papel timbrado usado pelo escritrio, com os dados, todo bonitinho. Porm, em outras ocasies, as datas iam no papel que tinha  mo mesmo - anotado s pressas e com garrancho. O importante era que as informaes circulassem. Uma iniciativa que era apenas a ponta de uma estratgia muito maior montada por Anelisa e Valria para a criao de pblico.

Primeiro, as duas montavam um cronograma definindo quando os msicos iriam compor, gravar, ensaiar, divulgar ou at descansar. Depois, entrava a parte dos estdios, na qual elas mal interferiam. A gravao era direto com eles e a gente s via depois de pronto, conta a empresria. Vai lanar? Vai. T pronto? T! Ento a gente entra.

Em seguida, era feita uma reunio com os divulgadores da RCA para fazer uma audio do LP, na qual todos os envolvidos davam notas para as canes, at se chegar  concluso de qual seria a msica de trabalho do grupo. Um jogo de brigas, articulaes e manipulaes, a favor ou contra uma das faixas. Para s ento as empresrias irem a campo com os integrantes.

A partir da as perguntas giravam em torno de: Onde comea a turn do Roupa Nova? Em quais programas de rdios eles iro? E de TV? Quando o grupo divulga no Rio de Janeiro? E em So Paulo?. Elas montavam uma programao minuciosa, que ningum poderia alterar sem permisso. E depois colavam em dois personagens fundamentais desse processo: o comercial e os divulgadores.

Para o comercial da RCA, elas passavam a lista das cidades da turn do Roupa Nova e pediam para colocar o disco  venda em todas as localidades. Da menor para a maior! Fazendo o controle posterior de quantos LPs haviam vendido e onde.

J com os divulgadores, elas entravam em contato e pediam para eles irem aos municpios do interior panfletar o Roupa, marcar entrevistas nas rdios e TVs. Isto quando no tinha mais de um divulgador por estado, como em So Paulo, com representantes tambm em Campinas e Ribeiro Preto.

Era cansativo pra caramba, mas a gente tinha idade pra isso!, recorda Kiko, que ainda afirma com orgulho: Elas faziam muito bem o trip: gravadora, empresrio e artista. Embora no incio elas tivessem se estranhado bastante com a diretoria da RCA.



Se gravar discos com as bandas era economicamente vivel para as companhias, na dcada de 1980, o mesmo no poderia ser dito sobre os shows. Como exps Mauricio Kubrusly em Grupos para mastigar em conjunto, matria da Folha de So Paulo, Ilustrada, de 20 de novembro de 1983: cada viagem do conjunto gasta muito mais do que o passeio do artista individual; cada show mobiliza uma equipe bem maior; etc. E, de fato, para as companhias brasileiras, completamente dissociadas do showbiz naquela poca, no fazia muito sentido apostar nas turns das bandas. Em uma realidade em que no existia risco de pirataria ou msica baixada pela internet, o negcio era vender discos e ganhar pblico com ferramentas mais simples, como ter os artistas nos jornais, nas rdios e na TV - como as novelas e o clipe no Fantstico. Hoje, as gravadoras buscam novas formas de negcio que garantam a sua sobrevivncia e tm estabelecido contratos diretos com os artistas, recebendo dinheiro em cima de shows e outros eventos. No entanto, em meados dos anos 1980, elas ainda reinavam absolutas.

Por isso, a RCA no tinha a menor preocupao com os shows do Roupa Nova, e nem separava verba para isso, antes da chegada de Anelisa e Valria. Para a companhia, gravar o disco e cuidar de sua divulgao no eixo Rio-So Paulo j era mais do que suficiente para rodar a mquina. No se valorizava em momento algum o aumento na venda de LPs que as turns, ou a ateno com o pblico, poderiam trazer - muito menos, respeitar a figura do empresrio.

Porm, Anelisa e Valria, aps assumirem a gesto do grupo, estavam dispostas a provar  gravadora que as turns poderiam, sim, resultar em vendas significativas. E que o trabalho delas poderia fazer diferena no s na imagem do Roupa, como em seus nmeros.



- A gente precisa fazer feira agropecuria e...

Mal Anelisa e Valria comearam a falar, j ouviram reclamaes e lamentaes dos seis msicos, preocupados com a estrutura dos eventos.

- Vai perder muito a qualidade tcnica... - chiou Cleberson.

- Voc j viu como eles montam essas feiras? - indagou Nando.

- Mas a gente pode ir s para as boas feiras! E a gente cobra mais caro pra valer a pena! -tentou Valria, antes de chamar ateno para o potencial de pblico. - Cerca de 10, 20, 30 mil pessoas frequentam esses eventos!

Por fim, conseguiu convenc-los a colocar as feiras tambm nas turns. Se o cach era de 30 mil, a gente cobrava 60 pra feira! s vezes vendendo dois shows, mas bancando dez, porque a gente saa com a infraestrutura completa do Rio de Janeiro. J que essa parte tcnica era fundamental pra eles!, explica Anelisa. O Roupa Nova no tinha o estresse da droga, nem do alcoolismo. Ningum era dependente de nada, e tinha essa leveza. Agora, os caras desciam o cacete em quem no prezasse pela qualidade tcnica.

A infraestrutura corresponderia, no decorrer dos shows, a dois caminhes - um de instrumentos e outro de som e luz. E tudo era marcado pelo escritrio das duas. A nica coisa que elas pediam para os produtores locais era palco, energia eltrica, segurana e carregador. Atualmente tem coisas que vo ficando obsoletas muito rapidamente. Naquela poca era diferente, valia a pena ter. Mas hoje j pode ser um problema, pois voc tem que acompanhar esse avano, comenta Anelisa.

Assim, tirando o sertanejo, o Roupa Nova seria uma das primeiras bandas a se apresentar nas feiras agropecurias do Brasil. Aumentando o pblico por onde passava, e abrindo o caminho para muitos outros artistas seguirem.



A estrada seria, definitivamente, uma das aliadas do Roupa Nova na sua construo de carreira. Em toda turn do grupo iria, religiosamente, uma das empresrias, e isso em um ritmo frentico de dezesseis shows por ms, para caixeiro-viajante nenhum botar defeito! Se Anelisa chegava na segunda-feira ao escritrio, na quarta Valria j partia com os msicos, enquanto o caminho seguia direto para o destino de show, muitas vezes lugares do pas em que nem o grupo nem as empresrias tinham ouvido falar! Uma vez sequestraram uma freira, em um assalto a banco em Goioer, no Paran. E a gente esteve l!, conta Valria sobre a notcia de uma cidadezinha de 35 mil habitantes e que ela s conhecera por causa do Roupa.

Anelisa complementa: Era uma vida pesada, puxada. O que existia era uma garra de trabalho, de realizar e de se firmar como artista. Hoje em dia, eu digo que no teria pique nenhum. Voc no tem vida.

Aquela rotina estava longe de ser o costume da maioria das bandas do mercado. Alis, muitas delas se recusavam a tanto desgaste e ficavam, basicamente, com os shows e as mdias do eixo Rio-So Paulo, qui do exterior. Herbert Vianna, por exemplo, em uma entrevista para a revista Bizz, comentou sobre essa parte chata de ser msico: a coisa do mercado, de gravadora, de ir em rdio, de dar entrevista... Eu no tinha vontade de vir aqui, sabia? (Risos.) No tenho nada para falar.15 Uma prtica inquestionvel para o Roupa Nova.

Em suma, s no ano de 1986, eles rodariam por municpios no interior de So Paulo, Minas Gerais, Paran, Santa Catarina... Em um total de 87 cidades e um pblico de 500 mil espectadores! S no se apresentaram no Acre, em Rondnia ou Roraima, inviveis financeiramente: para transportar o equipamento de doze toneladas de caminho, eles levariam uma semana para ir e outra para voltar, e de avio ficaria uma fortuna! Assim, para esses estados, restaria apenas uma opo: usar o som e a luz do lugar. O que era inaceitvel para os msicos.



Com as viagens, o pblico do grupo aumentou e tambm ficou mais histrico - ainda mais quando juntavam mulheres na beira do palco. E foi em uma dessas situaes que Paulinho ficaria preso na plateia. Ele desceu tranquilamente para cantar no espao existente entre as cordas do segurana e o palco. Porm, o povo ficou to afoito com aquela atitude do vocalista que o esmagou contra a parede. Ele at tentava cantar, todo torto e fazendo caretas: Gosto muito do seu jeito, rockn roll meio nonsense..., mas os gritos da mulherada abafavam a cano e tambm as risadas dos outros integrantes ao ver aquela cena. Do mesmo modo que, em outro show, Kiko desceria do palco para fazer o solo em uma das msicas e no conseguiria voltar. Sinais de que o trabalho de formiguinha de passar de cidade em cidade estava dando certo.



Geremias, o Ger, chegou a viajar com o Roupa Nova, sendo um dos responsveis pela montagem de som dos shows, e era quem tomava conta da casa de ensaios do grupo, que ficava em Higienpolis. Um homem alto, negro, magro e que se transformava em um co de guarda para defender os seis msicos. Mas que tambm fazia seu papel de bom moo com as fs que apareciam por l, doidas para conhecer o lugar sagrado do conjunto, respirar o ar daquela casa velha, ficar perto dos instrumentos, anotaes e canes.

- Geremias, voc vai me dar esse papel...

- Isso  velho, Sandra! - disse ele para a fundadora do f-clube em uma das vezes em que ela esteve por l catando qualquer vestgio que pudesse interessar outros admiradores.

- E da?  um setlist deles e voc vai me dar, n?

- Toma aqui, sua chata! Ia pro lixo mesmo...

Isso sem esquecer os momentos mgicos e proibidos das aulas com o baixo do Nando!

- Ai, eu sou apaixonada por esse baixo do Nando... - contou ela para Geremias, em uma das passagens pela casa, com outra amiga.

- Quer tocar? - no resistiu ele, fazendo graa.

- Er, ah, hum... o qu? Voc t falando srio?

- T, mas se voc contar isso pro Nando eu nego!

- Eu juro, juro, juro pela minha me mortinha que no falo nada.

E, guiada por Geremias, Sandra treinaria a introduo de Owner Of A Lonely Heart, da banda britnica de rock Yes. Um feito que Nando nunca soube!

- No, Sandra, no  assim! Faz de novo.

Tocando algumas vezes a msica at conseguir cantar:

Move yourself

You always lived your life

Never thinking of the future

Com este instrumento, Nando tocaria durante quase cinco anos no Roupa Nova, gravando inclusive a cano Amor nas estrelas, com Nara Leo. Porm, naquela poca em que Sandra fundou o f-clube da banda, Nando j no o usava mais. Isso porque os seus problemas de deslocamento do ombro haviam piorado e muito. Afinal, tratava-se de um poderoso Alembic Signature Standard 4, extremamente pesado e que ele, carinhosamente, havia apelidado de Martelo de Thor. Alis, uma peculiaridade do baixista, que gosta de dar nomes para seus instrumentos favoritos, como o Pete e o Keith - inspirados nos dolos Pete Townshend (The Who), Keith Richards (Rolling Stones) e Keith Turner (Quasar), dos quais ele sempre teve cime.



A banda deu carta branca para as duas empresrias e confiava em suas decises. Nando falava comigo: Eu sei que voc no me escuta em casa! Mas o respeito musical a gente tinha, e eles sentiam. Eles sabiam que a gente chegava junto!, relata Valria.

No entanto, uma caracterstica da dupla incomodava muito os integrantes do Roupa Nova: elas s vezes os tratavam como msicos acompanhantes, e no como os artistas. Sim, eles eram tranquilos, sem aquela pose soberba de vrios nomes do meio artstico e faziam o seu prprio som. Mas sentiam falta de mais conforto, cuidado, ou mais tempo para descanso durante as viagens.

No incio, eles viajavam com a equipe no mesmo nibus. Ou seja, no trmino dos shows, eles iam para o hotel, tomavam banho e, tortos de sono e esgotados, ficavam esperando a equipe desmontar tudo para, em seguida, irem embora para outra cidade. Algo por volta de 4 ou 5 horas da manh, para rodar 300 quilmetros ou mais. O nibus era leito, com travesseiro, cobertor, tudo bonitinho. Legal pra caramba! Mas era muito cansativo!, conta Kiko.

Razo de pequenas grandes exigncias e brigas bobas entre a banda e as empresrias.

- Os msicos chegaram!

- No, ns somos Os Artistas.

Uma reivindicao que custaria a ser entendida principalmente por Anelisa, talvez por conta de sua experincia com Alceu Valena e os msicos - duas figuras distintas, que no Roupa Nova se confundiam. Como diria Nando. Em vez de tratar a gente como seis Alceu, ela tratava a gente como a banda.



- Eu vou alugar meu quarto e vou ficar!

- No, Kiko, no tem necessidade...

- Anelisa, Paulinho e eu temos vidas completamente diferentes! Ns somos msicos do Roupa Nova e cantamos desde 1968. Mas no somos iguais! - exigiu certa vez o guitarrista, em um dos hotis da turn, aps discusso com Paulinho.

Isso porque os seis integrantes costumavam dividir os quartos at ento: o vocalista e ele, Cleberson e Serginho, Nando e Feghali. Aquilo tirava a privacidade de cada um e matava o pouco de individualidade que existia no grupo. Se Kiko deixasse o chinelo jogado, Paulinho o guardava; se Paulinho quisesse dormir cedo, Kiko estudava guitarra de madrugada. Pequenos desentendimentos relacionados a hbitos e manias que poderiam ser fatais para a unio deles.

Era um pingo no oceano! Mas voc t exposto ali. No denigre a nossa amizade estar longe. Pelo contrrio, faz com que a gente tenha saudade. Melhor do que acabar com a banda por causa de uma besteira!, diz Kiko.

A gente aprendeu muito com elas, mas elas aprenderam muito com a gente.



Em uma de suas viagens, o Roupa Nova, morto de cansao, ficou preso no aeroporto - com todos os voos lotados, sem passagem. A sorte foi que Nando conhecia Marlia Morais, comissria da Vasp, que arrumou exatamente seis cartes de embarque. O que servia, naquela poca, para que qualquer um pudesse embarcar, sem ter registro de nome no sistema ou outro documento de identificao. Quem tinha o carto, voava.

- Vai embora, voc com a banda!

S que, antes de partir, Nando resolveu ir ao banheiro e pediu a Anelisa para segurar, rapidinho, os cartes. O que ela fez? Sorteou entre todos os envolvidos quem poderia ir: o iluminador, o canhoneiro*, o roadie, dois integrantes da banda e ela.

- Nando, vai l e peita! - diziam os outros msicos, incentivando o baixista a tomar uma atitude.

Porm ele, de cara fechada e magoado, no arredou o p.

- No, eu aprendi com meu pai. Quando voc vai medir algum voc mede at o fim. Agora eu vou ficar. Eu quero ver o que ela pensa de mim, o que ela pensa do Roupa Nova!

E ficou no aeroporto com o resto do pessoal at voltar para casa de madrugada, alimentando aquela mistura de raiva com decepo - sem dizer qualquer palavra. Pelo menos at pisar em sua casa, quando no se aguentou mais e ligou para a empresria:

- Anelisa, so 3 horas da manh.

- E da? - respondeu ela, com voz de sono.

- E da que eu t entrando em casa agora! Seu artista t entrando em casa.

- E da?

Deixando Nando calado por alguns segundos, antes de dizer:

- E da nada.

Para o baixista, Anelisa foi uma empresria fantstica ao lado de Valria. Eu nunca tive outra igual. Porm, ela marcaria a histria do Roupa, tanto pelo profissionalismo e dedicao, quanto pela indiferena em relao ao seu papel como artista: Pra ela, eu era igual ao canhoneiro.



Todos faziam questo de estar presentes nos shows. Eles achavam sacanagem no ir porque um podia derrubar a funo do outro, conta Valria. Segundo ela, no existia no Roupa Nova nenhum tipo de ordem como Ah, hoje  dia do aniversrio da me, do pai, do filho ou da mulher. Na poca, um forte consenso entre eles de: Tem show? A gente faz.

Entretanto, em algumas poucas vezes, a banda seria obrigada a tocar desfalcada. Como o dia em que Nando passou muito mal, com problemas no rim, ou o incidente ocorrido com Paulinho, em Volta Redonda, alguns anos depois.

A cidade estava um gelo, no Dia dos Namorados, quando o vocalista reclamou:

- T um calor, n?

Para em seguida cair de dor, cuspindo sangue nos camarins, por causa de uma lcera. No tinha condies de Paulinho entrar, e ele foi levado s pressas para o hospital, enquanto a banda segurava as pontas no palco, com um repertrio menor e dividido por cinco cantores.

E os outros vinte shows daquela turn seriam cancelados por causa de Paulinho. Porm, naquele dia, a casa estava cheia, os fs ansiosos, e o show no parou.



As fs tentavam entrar pela porta dos fundos dos hotis, cantavam de madrugada na janela dos msicos e inventavam mil histrias para entrar no nibus do grupo. Ento, eu sou jornalista! Em tentativas desenfreadas de estar perto do Roupa Nova.

Porm, nada se comparava  histeria da mulherada ao assistir a Serginho cantando Tmida, nos shows. Elas desmaiavam, gritavam e ficavam l de baixo admirando o baterista - que fingia no notar nada, com poucas reaes que incentivassem mais berros. Em um dos shows, por exemplo, uma mulher gritou com todo o ar de seus pulmes na beira do palco, assustando o baterista, que at parou de cantar. E ele no mesmo instante olhou de volta para ela e, no microfone, retrucou na mesma altura:

- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!

Alm disso, as fs ainda enfrentavam a fila para visitar o Roupa Nova no camarim, que continuou recebendo as pessoas, apesar do grande sucesso de Linda demais.

- Srgio, vamos pra casa! - dizia Valria, de vez em quando, ao perceber a loucura das fs. - Anda, Srgio, vamos pro hotel! Ns temos que ligar para os meninos, por favor?

Bancando a esposa, prendendo os lbios para no cair na risada, ao notar os olhares de espanto e reprovao das garotas apaixonadas.



Ricardo Feghali j havia cado em um fosso, em Teresina, no Piau, no final do show do Roupa Nova. Foi resgatado por um roadie e ainda conseguiu tocar, apesar dos machucados. Uma experincia horrvel para o tecladista, mas que no seria nem de longe to ruim quanto o episdio na pequena cidade de Mococa, em So Paulo.

Fazia frio naquele dia, e o grupo estava voltando para o bis. Para no ser visto pela plateia antes de comear a tocar, Feghali, com o violo em punho, resolveu passar por trs da percusso e acabou caindo de costas, com o instrumento e tudo, batendo a cabea na queda.

- Feghali! - gritou um dos roadies, desesperado, ao ver o msico no cho, atordoado.

- Eu t bem, eu t bem...

Tomando ar e recobrando sua conscincia a ponto de querer voltar:

- Me d o violo, me d!

- Calma Feg...

- Me d! - disse ele, imponente apesar da dor e sem perceber que as suas mos no estavam mais respondendo ao seu comando.

Feghali ento seria levado para Rio Claro, onde eles tambm iriam tocar. Uma cidade que era o triplo do tamanho de Mococa e ficava a umas duas horas de distncia. S ali teria o diagnstico: um joelho fissurado e a clavcula quebrada.

- No vai ter jeito. Vou te enfaixar! - comunicou o mdico.

- Hum... Eu posso tocar?

- Seu limite  a dor.

- Ento eu vou tentar.

O tecladista, enfaixado, todo ferrado e  base de analgsicos, iria aguentar fazer s mais aquele show de Rio Claro. Depois aceitaria suas condies fsicas e se ausentaria, pela primeira vez, dos palcos do Roupa Nova.



As empresrias acompanhavam os resultados dos shows do Roupa Nova na ponta do lpis, buscando naqueles nmeros os indcios claros de sucesso do grupo. No existia o menor receio de que as coisas dariam errado. Era uma confiana plena, afirma Valria. E elas procuraram tanto e trabalharam mais outro tanto que, em um belo dia, os nmeros responderam. Depois de seis meses rodando com o disco azul, com cerca de 70 mil cpias vendidas, as duas se depararam com o seguinte panorama: nos locais em que o grupo colocava de 2 a 3 mil pessoas, passou a ter 5, 6, 10 mil. E o controle delas junto ao comercial dizia que aproximadamente 10% do pblico que ia aos shows comprava o LP! Mas elas sabiam disso. A gravadora, no.



Com quase um ano de viagens com o grupo, Miguel Plopschi chamou Anelisa e Valria para uma conversa em sua sala, na RCA, acreditando que seria um encontro de pura formalidade com as empresrias. Na reunio tambm estariam Manolo Camero, presidente da companhia, e Edison Coelho, diretor de marketing.

- Tem que ver o novo disco do Roupa Nova... - avisou Miguel, causando estranhamento das duas moas.

- No, no! O Roupa Nova no vai gravar agora - recusou Anelisa.

- Como no? Esse disco j deu o que tinha que dar, gente.

- No mesmo... Tem muito lugar que ns no fomos ainda - reiterou Valria.

E as duas bateram tanto o p, que eles convocaram o Roupa Nova para a reunio, na tentativa de reverter a situao. S que o posicionamento do grupo continuou firme, apoiando as empresrias.

- Vocs enlouqueceram! - exaltou-se o diretor artstico, olhando para todos os msicos como se eles tivessem perdido o juzo.

E o ataque continuaria se Valria no o tivesse interrompido:

- Pra gente, no ritmo que esse disco vai, com tudo que a gente t fazendo, ele deve chegar a uns 300, 400 mil!

Manolo, com ar de superior para as duas, disparou um riso sarcstico, cutucando com vara curta quem estava quieto:

- Minha filha, vocs podem entender de show, mas de disco? Porra nenhuma!

- E voc no entende de Roupa Nova!



Dias depois, as duas empresrias bateram de novo na sala de Miguel, segurando o contrato do Roupa Nova:

- OK, vocs querem mais um disco, n? Ento a gente faz mais um compacto. No  o que t no contrato? Dois discos e um compacto? - perguntou Valria.

- A gente faz uma regravao, sem problemas! E depois disso acabou! Estamos liberados, OK? Porque pro estdio o Roupa Nova no vai! - reforou Anelisa.

- Calma, meninas, calm...

- Calma nada, Miguel.  isso o que voc ouviu. Chega de RCA!



O teclado brilhou aos olhos de Ricardo Feghali, na vitrine da loja. Um instrumento que seria perfeito para os shows do Roupa Nova, j que ele no precisava de suporte, o que daria mais movimento ao tecladista, por ficar colado no corpo como uma guitarra.

- Posso experimentar? - pediu Ricardo, antes de compr-lo, comprovando tambm a sua qualidade de som.

E, animado, levou o instrumento crente de que havia feito um bom negcio - sem imaginar na dor de cabea que viria a seguir. A relao com o teclado comeou a se desgastar j no incio, no primeiro dia de turn no Caneco, 17 de setembro de 1986, no Rio de Janeiro. Na passagem de som, ele funcionou maravilhosamente bem.

Porm, no se sabe por que, na hora H, ele falhou, ficou mudo, amarelou diante do pblico, deixando Ricardo em uma situao incmoda em cima do palco. Um problema que s aconteceria de novo no ltimo dia da temporada, justamente quando o pessoal da RCA foi para entregar o primeiro disco de ouro do Roupa Nova. Mais de 100 mil cpias vendidas do LP azul e festa por parte da banda e das empresrias! S que o teclado? Nada.

Uma  crise que chegou ao auge na apresentao do grupo no Brinco de Ouro, estdio do Guarani de Campinas. Na passagem de som, se agarrando s suas ltimas esperanas, Feghali testou o teclado, que mais uma vez se mostrou excelente!

- Hoje vai!

O teclado seria usado apenas no solo de Sensual, e Sidinho, roadie da banda, o separou na estante, junto com os outros instrumentos. No entanto, o que aconteceu? Chegou a hora do solo, canho de luz em cima de Feghali, todos os olhares voltados para ele, teclado nas mos pronto para trabalhar e... Nada! Mais uma vez mudo!

Feghali ficou to irritado que no quis nem saber. Tirou o instrumento e o jogou longe! Sem d, nem piedade. Lanando o teclado ao cho, no meio da arquibancada, foi pegar outro para continuar tocando.

Sidinho, cumprindo o seu papel, saiu correndo, pegou o instrumento, e na lateral do palco o plugou novamente.

Uiu!, fez o teclado, como se dissesse: t funcionando! E Sidinho o colocou de novo na estante de Feghali, que continuava cuspindo marimbondos no palco. S que ao olhar para trs e se deparar com o instrumento de volta, o tecladista surtou! Foi correndo at a estante e deu um chute no teclado, que voou l embaixo mais uma vez. E l foi Sidinho busc-lo no cho.

Uiu!, fez o teclado de novo, aps ser ligado pela segunda vez, antes de Feghali partir para o seu golpe final.

O msico, de raiva, pegou o instrumento e comeou a bat-lo no cho! Batia repetidamente e com vontade, levando o pblico ao delrio, como em um show de rock. Terminando de vez com aquela relao.



Krishna, filha de Anelisa, tinha 12 anos quando ouviu o disco azul do Roupa Nova pela primeira vez. A menina no era f da banda, mas tinha uma cano em especial que ela adorava:

Linda!

S voc me fascina

Te desejo muito alm do prazer

Vista meu futuro em teu corpo

E me ama como eu amo voc

- Essa msica  legal, me... - disse ela, antes de Anelisa, em uma cidadezinha do Paran, se deparar com uma faixa gigantesca do f-clube, ao descer do avio: LINDA DEMAIS!

Uma composio que no estava sendo trabalhada pelo Roupa Nova, e que estourou no Sul do pas por causa das rdios. Isso porque as empresrias, quando no acertavam com os produtores, procuravam a principal emissora da regio para fechar os shows do grupo. Um acordo no qual a rdio arrumava o lugar, os carregadores, a energia eltrica e fazia a venda antecipada dos ingressos e divulgao, em troca de um percentual da apresentao. Como estratgia, tocava muitas vezes a msica do Roupa Nova com uns dois meses de antecedncia.

- Linda demais est fazendo sucesso aqui? - perguntou Anelisa, sem entender nada, para o programador da rdio.

-  o primeiro lugar disparado h no sei quanto tempo!

Assim, o interior do Paran determinaria a prxima msica de trabalho do Roupa Nova - a que faria disparar as vendas de LPs do grupo e se tornaria uma loucura no Brasil inteiro.



Aps trabalhar o Sul do pas com Linda demais, o sucesso do grupo foi parar na estratosfera!, contradizendo todas as previses da RCA sobre as vendas de discos. Se a gente no tivesse as duas por perto, talvez tivssemos feito outro disco, como a RCA queria. O show  uma tremenda propaganda do disco, e elas tinham noo disso, conta Kiko.

E Mariozinho, que havia voltado para Polygram, ao saber da confuso que tinha rolado do Roupa Nova com a gravadora, fez uma nova oferta. Um contrato maravilhoso em termos de grana e percentual para o grupo, que desconcertou Miguel Plopschi e Manolo Camero.

- Pelo amor de Deus, venham aqui e vamos conversar! - pediu Miguel, com um valor ainda mais alto que o da Polygram para oferecer.

S que o grupo no estava com pressa. E, em uma posio favorvel, os msicos preferiram escolher com calma e ponderar os dois lados da questo antes de tomar um rumo.

- E a? O que vocs acham? - perguntou Valria para a banda, muito receosa de retornar para a Polygram.

Anelisa e ela, apesar da proposta de Mariozinho, tinham srias dvidas sobre como a gravadora iria trabalhar com o Roupa Nova. No adiantava ficar numa coisa elitizada, que era o que a Polygram tinha: Bethnia, Caetano, Chico Buarque, Milton... No era o perfil da banda! A RCA, sim, era popular. E o Roupa Nova era popular, lembra Valria.

- Os trs discos que fizemos l foram legais, mas... - comeou Cleberson.

- No vendeu nada, n? A gente tocou bastante, mas no ganhou nada por isso! - disse Feghali, que se reuniu com os outros integrantes determinado a no voltar para a Polygram.

A verdade  que, depois de quase dois anos de turn com o mesmo disco, lotando as casas por onde passavam, todos estavam com o mesmo sentimento: no havia mais liga entre eles, Mariozinho e a Polygram. Se voc se prender s suas verdades, voc no anda. Voc tem que estar sempre disposto a negociar, seja com os scios ou com o mundo. E foi o que ficou de tudo isso, comenta Nando. Restando apenas uma soluo.



Entre os anos de 1985 e 1987, o Roupa Nova se tornou um dos nomes brasileiros que mais rodou o pas. Com uma estrutura profissional e equipamentos de ltima linha, a banda se negou a fazer playbacks por onde passou, fez apresentaes perfeitas para clubes cheios ou vazios e recebeu os fs inmeras vezes no camarim - apesar do cansao. Aperfeioou sua habilidade de entreter e de se comunicar com as pessoas, deu entrevistas para centenas de rdios e TVs, viajando ora com um nibus, ora com dois, mas sempre na estrada. E o mais incrvel: transformou o pblico de shows em verdadeiros admiradores, e o disco azul, em seu to esperado primeiro disco de ouro, platina e duplo de platina. O grupo alcanou a marca de mais de 750 mil cpias vendidas - o maior pique de vendagem pela RCA! - com seis canes do mesmo LP estouradas: Dona, Seguindo no trem azul, Linda demais, Coraes psicodlicos, Sonhos e Show de rocknroll.

A prova para a RCA de que os shows traziam resultados considerveis para as vendas de discos - a ponto de a gravadora separar um percentual fixo do lucro com os LPs para reinvestir nas turns, dinheiro que iria diretamente para este fim, sem nunca ter sido dividido entre os seis. Um trabalho incansvel e persistente, ao lado de Anelisa e Valria, que renderia a premiao de um disco de ouro, no Caneco, em 1988, para as duas empresrias pelo disco seguinte do grupo, Herana. A primeira vez em que um empresrio brasileiro receberia tal homenagem de uma gravadora. Eu trabalhei para o Alceu e no recebi nenhum disco, mesmo ele sendo o terceiro vendedor do Brasil. A Valria com o Moraes tambm no. Nem uma cartinha. E ns tivemos isso com o Roupa Nova! No na MPB, relembra orgulhosa Anelisa, sobre uma banda que saberia, como ningum, tornar simples shows nos mais dignos espetculos.



Nota

* Aquele que dirige um canho de luz num espetculo.



CAPTULO 31

S DE OLHAR VOC T ME VENDO OUTRA VEZ

A famlia tambm  um negcio muito srio pra gente estar aqui hoje.

Kiko

Ela era apenas uma garota que sonhava encontrar um cara legal, ter seus filhos e ficar sossegada em algum cantinho que fosse seu. Para ela, a felicidade nunca foi algo grandioso, mas um detalhe que lhe preencheria a solido, como fazer churrasco com os amigos no final de semana, brincar com as crianas e ser amada por um homem que lhe desse orgulho.

Ela nunca imaginou passar tanto tempo longe do seu companheiro, sempre em outra cidade, estado ou pas. Nem que teria seu filho sozinha, em uma sala de parto, e muito menos que sentiria tanta saudade durante os dias e, pior ainda, nas noites. Mas o que ela poderia fazer, seno tambm aceitar os sonhos que eram dele? E que, apesar de lev-lo para a estrada, o deixavam to bonito em cima do palco, sob holofotes, tocando e cantando msicas que levavam o seu nome. Sendo aplaudido por desconhecidos e reconhecido pelo seu talento!

Assim, ela construiria a sua famlia do jeito que dava. Engolindo o cime, educando os filhos por sua conta, acompanhando os shows nas redondezas, e ainda tentando ficar linda, firme emocionalmente, para receb-lo depois do trabalho, exausto, querendo colo e carinho.

Os filhos, ao nascer, teriam que se acostumar a ver o pai de vez em quando. E aquela pergunta Onde ele t?, deveria ser entendida por eles desde cedo. Seu pai t trabalhando, Seu pai t tocando longe daqui, Ele t arrebentando em um show por a e j volta. E as crianas, apesar da distncia, no deixariam de am-lo. E ainda admirariam aquele homem, que escolheu ser msico e batalhou durante anos para isso. Filhos que sentiriam o quanto eram queridos nos poucos instantes, e que entenderiam o olhar do pai de cansao com o passar do tempo.

Por trs da vida do Roupa Nova, sempre existiram pessoas que esperaram, ansiosamente, pelo fim das turns. Pessoas que falavam rapidinho no telefone, ficavam longe, s vezes por semanas, com o corao apertado. Esposas, namoradas, filhos e pais, que povoavam a mente dos seis integrantes por onde quer que eles estivessem, e que tornavam aquelas viagens mais pesadas. Mas que tambm os deixaram mais fortes.



Eurico nasceu em Bonsucesso, subrbio do Rio, no dia 19 de maro de 1979, em uma noite animada para a famlia de Kiko. De pele clara e muito parecido com o pai, o menino cresceria com o apelido de Kikinho, assistindo ao primeiro show do guitarrista, no colo de sua me, Suely, em 1980.

J em 1983, foi a vez da menina Nyvia vir ao mundo, com olhos to claros que pareciam o cu. Kikinho, sem alcanar o vidro do berrio, pediu a ajuda do pai para ver, pela primeira vez, a garota que ele chamaria de irm. No mesmo dia em que ganhara uma guitarrinha de plstico para brincar de ser msico. E Kiko cairia no choro ao ver aquela menina de sorriso largo e cabelos lisos. Uma mistura to bonita da vida que construra ao lado de Suely... Duas crianas que trariam novos sonhos para o guitarrista e teriam os mesmos nomes que seu pai, Eurico, tinha pedido para os netos.



Entre um show e outro, Nando foi chamado pelo amigo Z Carlos, dos tempos do Colgio de Aplicao, para um jantar no Rio de Janeiro. E poderia ter sido um jantar qualquer, daqueles em que se conversa sobre a vida e amizade, se Z Carlos, j casado, no tivesse convidado para o mesmo evento sua ex-namorada Regina.

Ela tinha seus quase 30 anos, era um pouco mais baixa que ele, magra, de voz doce, cabelos lisos, loiros, e tambm solteira. Desde o reencontro com Llian, o baixista, ainda sozinho no apartamento, no se envolvia de verdade com mais ningum. E, como fora to desprovido de qualquer inteno para aquele jantar, acabou sendo pego de surpresa pela presena da moa. Ele no sabia explicar, mas Regina transmitia sossego para aqueles seus sentimentos to agitados, uma paz que at ento ele no conhecia e uma vontade de ficar mais.

Assim, Nando foi ficando, ficando... Deixando o corao se aquietar ao lado dela e da msica. Um lugar que ele chamaria, enfim, de casa.



Eram 8h04 da manh de um sbado, de 1987, no Rio de Janeiro, na Casa de Portugal, quando a menina abriu os olhos pela primeira vez. Ainda no dava para saber se ela se parecia mais com a me ou com o pai, embora os amigos da famlia arriscassem: A feio  do Ricardo! Morena, de olhos negros, cabelos lisos e cheios, tambm escuros, a garota era to pequenininha que dava medo at de segurar. Mas era linda... Novidade para o irmo Thiago que, com seus quase 5 anos, acompanhava tudo. A mocinha to aguardada por Cristina, ou melhor, Tininha, que sozinha a deitaria em seu colo com o maior carinho do mundo.

Era dia 14 de novembro quando Ana Carolina nasceu, mesma data em que o Roupa Nova iria se apresentar,  noite, em Guarapuava, no Paran. O que matava de tristeza o msico, que no poderia estar com sua famlia naquele momento, sem computador, internet ou qualquer tecnologia que o pudesse ajudar.

Naquela noite, Ricardo mal pde se aguentar quando, no palco, Serginho ofereceu a msica Herana para a menina que havia acabado de nascer. E, emocionado, ele chorou muito com a cabea abaixada no teclado, buscando foras para continuar tocando a cano. Morrendo de saudades da mulher e ansioso para ver o rostinho daquela pequena, que j ganhava lacinho rosa e brincos na maternidade.



- Al! - atendeu Suely, meio desacordada, de madrugada.

- Al! Quem t falando  a mulher do Kiko? - disse do outro lado da linha uma voz estranha, de uma mulher que parecia bbada e um pouco agressiva no seu tom.

- Quem t falando, hein?

-  a Suely, mulher do Kiko?

- Minha filha, o que voc quer? - disse Suely, j perdendo a pacincia.

- Eu t com o seu marido em um hotel, aqui em Fortaleza!

Para ento desligar o telefone, com raiva, tirando o fio da tomada e tentando respirar com calma, dizendo que aquilo no era nada. Kiko t dormindo, eu sei disso. Como tantas vezes faria diante de fs malucas que passariam do limite. Ai Deus, me d foras... E se concentrava na cumplicidade que tinha com seu marido e na famlia que estavam construindo juntos para s assim conseguir dormir.



O Roupa Nova passou a ser uma banda muito famlia, transformando seus shows no Rio de Janeiro em uma verdadeira festa, com parentes lotando as principais mesas e crianas correndo pelo camarim. Isso quando uma delas no resolvia subir no palco, coisa que Kikinho, filho do guitarrista, adorava! Na hora em que o grupo tocava Clarear, se os roadies no colocassem o menino no palco, com sua guitarrinha de plstico a tiracolo, ele abria o berreiro! Um clima que j dava para se notar no incio de 1988, quando quase toda a prole j havia nascido.

Na poca, Cleberson j tinha seus trs garotos: Marcio, Marcelo e Mauricio, enquanto Paulinho, solteiro, se virava para cuidar da filha Twigg que morava com ele, sem imaginar que Pedro Paulo, filho de outra namorada, ainda iria chegar. Ricardo ficaria apenas com o casal Thiago e Carol, ao passo que Nando j havia sido pai de Luiz Guilherme, e Kiko havia se tornado o maior pai babo de Kikinho e Nyvia. Apenas Serginho ainda no havia tido nenhum filho, que se tornariam trs nos anos seguintes: Heitor, Rebecca e Victor.

O que mais tarde, em entrevistas, eles brincariam dizendo se tratar da Fralda Nova.



Muitos acham que seu Z nem desconfiava de que no futuro Serginho seria chamado de o melhor baterista do Brasil e faria parte do maior grupo do pas. Todo seu esmero seria sem expectativas e apenas amor demais de um pai que queria ficar perto do filho. No entanto, outros acreditam que seu Z enxergava o sucesso l na frente, conhecendo a disciplina e determinao do seu filho. Por isso, se empenhava em facilitar a rotina de Serginho, abrindo um caminho mais confortvel para seus passos. E alguns entendem que teria sido uma mistura disso tudo que faria com que ele acompanhasse o baterista, firme e forte, entre tantos shows, at meados dos anos 1980 - quando as cobranas familiares e a idade comearam a pesar.

Era um tempo em que o trabalho estaria mais complicado com milhes de equipamentos eletrnicos, botes e pedais para apertar no meio da apresentao. Sem falar que j existiam Sidinho e Nestor - dois contrarregras para cuidar da banda inteira -, em contraposio a seu Z, que s cuidava de Serginho. E que, no auge do Roupa Nova, tiraria todas as outras funes de cima de seu ombro, mantendo somente a original: a de pai.



Cla, me de Kiko, comeou a sentir dores no corpo depois que Eurico faleceu, seu grande parceiro de vida. E ainda no incio de 1981 fez uma srie de exames para descobrir o que estava acontecendo. Tudo apontava para uma sinusite, e Jandira, irm de Feghali, logo arrumou um mdico para oper-la. Porm, no dia da cirurgia, Nando e Ricardo apareceram na casa de Kiko, com uma feio pesarosa.

- Vamos beber um chopp? - chamou Nando.

- U, vamos!

E olhando para a Suely, Kiko convidou:

- Vamos, amor?

- No, pode deixar. Vai l, vai l com eles! - respondeu ela, tambm com um jeito suspeito, como se j soubesse de alguma coisa.

P, isso t estranho. Vou beber com eles e ela no vem?, pensou Kiko, antes de eles sentarem no bar Garota de Bonsucesso, na avenida Nova Iorque, prximo  casa do guitarrista. Os trs pediram um chopp e, assim que o garom trouxe as bebidas, Feghali tomou coragem para falar:

- Kiko, a gente precisa conversar com voc.

Mas o guitarrista parecia pressentir.

- Minha me t doente, n?

- U? Como  que voc sabe?

- P, minha me foi operar com o amigo da tua irm, e vocs vm de l com uma notcia? Pode falar! Ela t doente, no t? Qual  o problema?

E Feghali toma ar para poder dizer de uma vez s:

- Sua me t com cncer.

Vazio. Silncio. E os olhos congelados de Kiko sobre o amigo, aos poucos, foram se enchendo de lgrimas. Seu rosto, devagar, foi se desfazendo, se desmanchando, enquanto os olhos, sempre vivos e alegres, haviam se tornado opacos, sem qualquer brilho ou esperana. At ele no aguentar mais e cair no choro sobre a mesa.



Ao chegar em casa, Kiko sentou com Suely para conversar sobre o que eles fariam. Os dois estavam comprando um apartamento na Barra, onde j moravam Nando, Cleberson e Feghali. E Kikinho havia feito prova em uma escola do bairro para se adaptar durante a mudana.

- No vamos, no - disse ela, sem qualquer dvida na voz.

- Mas, Suely, a gente queria tanto esse apartamento...

- Kiko, sua me vai precisar de voc!

- Eu sei, mas...

- Ns no vamos mesmo! Aluga, vende, faz o que quiser!

- Voc tem certeza?

- Absoluta.

Kiko estava morando com Cla no quarto onde havia nascido, e seu irmo tambm tinha ficado na casa aps a morte de Eurico. Mas depois daquela notcia foi praticamente impossvel ir para a Barra. Assim, Kiko e Suely venderam o apartamento de l e compraram um imvel em Bonsucesso, perto de sua me, no qual morariam at 2010.

J Cla, ao descobrir que estava com cncer, escolheu fazer o mais improvvel quando se est com medo: viver. Trabalhou na cozinha dos hotis Atlntico e Barramares virou arrumadeira no Copacabana Palace, onde conheceu dona Mariazinha Guinle, a grande dama da hotelaria brasileira. E dela passou a ser governanta, ganhando em dlar. Desfilou nas escolas de samba na Sapuca - seu maior sonho - durante alguns anos. E enfrentou o cncer como uma guerreira, at no resistir mais, em 1988.

Cla viria a falecer no dia 22 de junho, um dia antes do aniversrio de Carlinhos, irmo de Kiko, deixando em todos muitas saudades.



Todos os seis integrantes do Roupa Nova passaram por bons e maus bocados. Sempre os mesmos seis, vivendo as dores e as alegrias uns dos outros, compartilhando algumas vezes seus sentimentos, e outras buscando o isolamento para no se perder dentro do grupo. Comemoraram os nascimentos dos filhos, que passaram a chamar os outros msicos de tios. E curtiram, inclusive, a solteirice de Paulinho - o nico que no se prendia a compromisso srio, mas que carregava a pequena Twigg para todos os lados, entre shows e festas da banda. Presenciaram as brigas entre os casais, as pazes, os problemas de sade de cada um deles, e aprenderam juntos a lidar com as perdas de familiares.

Uma intimidade que tambm iria se refletir nas discusses, e s vezes nos ressentimentos por coisas bobas. Dizendo as palavras mais duras uns para os outros, para depois estarem de papo, como se nada tivesse acontecido. Como irmos.



CAPTULO 32

TODOS SERO OU NINGUM SER

 preciso coragem pra admitir os fantasmas que ficam dentro do armrio. E a gente gosta de abrir o armrio pra ver o tamanho do bicho.

Nando

Aps a separao dos Beatles, no final dos anos 1960, todas as gravadoras do mundo passaram a pensar duas vezes antes de assumir um compromisso com uma banda.16 Principalmente pela relao tnue que se provou existente entre os msicos, na rotina das companhias, depois do sucesso - fase em que a vaidade do artista se depara com a adorao dos fs.

Nando Reis, ex-integrante dos Tits, disse uma vez que  exatamente esta a relao do artista com o mercado: a nsia de obter tudo. No se trata de dinheiro,  uma riqueza de outra natureza,  a necessidade de alcanar todo mundo, porque voc quer que todo mundo goste de voc.17 O que para as bandas se torna um processo mais complicado, considerando pessoas diferentes, com desejos e sonhos distintos, vivendo em conjunto a experincia devastadora da fama.

 preciso determinao de todos os integrantes, acima de tudo, para se construir uma carreira slida em grupo. No s pelos conflitos de gostos e vontades entre os msicos envolvidos, como tambm pelos fatores externos que podem destacar suas inseguranas, como um concorrente que se torna o queridinho do momento, um componente que aparece mais na mdia, falta ou excesso de dinheiro, discusso com gravadoras, brigas por direitos autorais. Motivos que, facilmente, poderiam aniquilar o investimento de vida feito at ento.

Por isso, no  de espantar que muitos msicos abandonem seus grupos para se lanar em carreira solo, na qual podem ter toda e qualquer responsabilidade sobre seus passos. E que tantas outras bandas prefiram ter um lder  frente das decises ou passem por diversas formaes em sua histria. Melhor do que aceitar a completa dissoluo do trabalho.

O raro mesmo  encontrar bandas que prezem pela democracia e pela liberdade de expresso de todos os participantes. Sem privilegiar a imagem de um em detrimento do outro para que o conjunto prevalea. At porque, talvez, este seja o caminho mais difcil.



Em 1985, A Cor do Som lanava o LP O Som da Carne, pela Warner, e o Herva Doce aparecia com o hit Amante profissional, no disco homnimo da RCA. A Rdio Txi divulgava o lbum 6:56, da CBS, e o Kid Abelha vinha com sucessos como Lgrimas e chuvas e Garotos, no lbum Educao sentimental, da Elektra/WEA. A Blitz se apresentava no Rock in Rio, assim como o Baro Vermelho, que mostrava uma carreira consolidada aps o LP Maior abandonado, pela Som Livre. E o Roupa Nova viajava pelo pas com a turn do disco azul, pela RCA, ganhando seu merecido espao - com o objetivo de uma carreira madura e de longo prazo. Era uma poca de muito rock e o Roupa Nova corria por fora, estouradao!, comentaria Valria.

Isso porque o grupo no tinha o menor preconceito ou preguia de estar em todas as cidades e meios de comunicao, alcanando um sucesso de pblico que seria, de fato, disputado com apenas uma banda, dos anos 1980, conhecida pelos hits Louras geladas e Olhar 43.



O RPM foi uma banda idealizada por Paulo Ricardo e Luiz Schiavon para fazer sucesso: Tnhamos uma cultura musical muito slida, conhecamos as pessoas do meio. Sabamos como a mquina funcionava por trs, e foi tudo meticuloso: Precisamos de um guitarrista assim, um baterista assim, as msicas tm de ter esse formato para funcionar. No era aquela banda de moleques que cresceram na mesma rua e ensaiaram na garagem,18 contou Schiavon sobre o que seria um dos grandes prodgios de vendas no Brasil. Chamando a ateno de crticos, produtores e de um dos maiores empresrios brasileiros do show business, Manoel Poladian, que na poca trabalhava para Roberto Carlos e Ney Matogrosso.

Poladian costumava comprar vrias datas durante o ano em casas noturnas e produzia os shows do artista que fechasse com ele. Sua empresa, Hum Studios, j tinha todo o equipamento - palco, iluminao, som, efeitos especiais com laser e equipe tcnica. Um pacote pronto e tentador para que a banda s entrasse com o instrumental, oferecido sem xito para outras bandas de rock nacional, como Legio Urbana, Paralamas do Sucesso, Camisa de Vnus, Blitz, Marcelo Nova e Ultraje a Rigor. Porm, com o RPM, a recepo seria outra por parte dos integrantes, que comeariam o contrato j recebendo um salrio mensal. Algo em torno do que seriam 2 mil dlares hoje. O incio de uma megaproduo nas estradas.



Quando o RPM entrou em turn, comeou a viajar por lugares onde o Roupa Nova se apresentava, dando margem s comparaes por parte do pblico e tambm das empresrias.

- O RPM teve aqui na semana passada e botou 8 mil pessoas - comentou um dos produtores culturais de Goinia ao encontrar Anelisa e Valria.

S que o Roupa Nova bateria os 9 mil naquela semana. Ao passar por Braslia, o Roupa colocaria 7 mil pagantes no ginsio, enquanto o RPM, 10 mil. Aquilo destoava do resto das bandas, que levavam para seus shows uma mdia de 2 a 3 mil pessoas. E, se Poladian vinha com a chamada Um show de luz e raio laser, ao falar sobre o RPM, Anelisa e Valria diziam: Roupa Nova, um show de tcnica, vocal e instrumental. Os dois grupos lotavam as casas por onde passavam, durante os anos de 1985 e 1986, embora no houvesse uma disputa declarada entre eles. No eixo Rio-So Paulo, o RPM bateu o Roupa Nova. Mas no resto do pas era pau a pau, comenta Valria.

Assim como o Roupa Nova, que se posicionava sem preconceitos quanto aos lugares e aos meios de comunicao, o RPM tambm queria ser popular. Conforme declarou o prprio Paulo Ricardo: Algumas bandas no tocavam ali ou no iam acol. Eu era contra esse excesso de pudor. Eu queria ser popular, no apenas nas rdios de rock. Mas na construo das carreiras eu achava importante aparecer no maior nmero de meios possveis.

Para as duas empresrias, no existia nada no mercado que se comparasse ao trabalho do Roupa Nova. Nem mesmo o RPM, que aparecia com um som mais pop. Nas palavras de Valria: O Roupa Nova tinha o caminho deles, e a gente olhou para dentro o tempo inteiro. Ainda que mantivessem os ouvidos ligados nos comentrios do lado de fora, sobre o pblico e os passos de Manoel Poladian. Mal no iria fazer.



Quero comprar a turn da banda. Vamos conversar. Poladian, era o que estava escrito no telegrama recebido pelo Roupa Nova, em plena turn do disco azul.*

- Olha, vocs resolvam! - disse Valria, tirando o corpo fora com Anelisa.

As duas no queriam influenciar na deciso, embora estivessem com os dedos coando para pegar o telefone e dizer: NO! O jogo dele  aberto, voc vai se quiser! Ele investe, bota o artista l em cima, mas tambm suga. E faz o que bem entende, afirma Valria.

Dias depois, em conversa no telefone, Poladian partiu para a negociao com Feghali, com algumas condies:

- P, eu quero muito trabalhar com vocs! Mas no me interessam a Valria e a Anelisa...

- S que a gente no vai largar, Poladian. Se as meninas forem com a gente...

- No tem sentido elas virem pra c! Eu sou empresrio tambm!

Um papo que se estenderia por cerca de uma hora, com Poladian tentando convencer o tecladista. Entretanto, no seria daquela vez que os dois fariam alguma coisa juntos, apesar de toda exploso que o aparato da Hum Studios poderia causar com o Roupa Nova no pas. No com Poladian se tornando dono da carreira deles.



Marcelo Leite de Moraes, no livro Revelaes por minuto, explica que os integrantes do RPM sempre foram muito cidos na crtica aos outros grupos. E que, como todas as bandas da poca, eles comentavam e reparavam nas roupas, msicas e no sucesso dos outros. Porm, segundo as palavras de Roger, do Ultraje a Rigor, publicadas no livro de Marcelo: Logo que eles estouraram, saram metendo o pau em todo mundo, numa estratgia de marketing competitiva que, para ns, at ento inexistia. Essa postura contaminou todo mundo. Como todos os artistas estavam indo bem, a gente se cruzava muito menos, e virou uma guerra saber quem vendia 500 mil, quem vendia 1 milho.

Rixas muitas vezes incentivadas pelos jornalistas ao frisar o fenmeno RPM nas entrevistas com outras bandas do cenrio nacional, em troca de algum veneno gratuito nas respostas. Como no nmero 855 da revista Amiga, de 1986, no qual Tnia Elisabeth escreveu: Roupa Nova contra Paulo Ricardo. Na matria h uma breve descrio de que at os seis msicos, sempre alheios a esse tipo de coisa, no poupam censuras ao solista do RPM.

Porm, se mudarmos o foco da notcia, iremos encontrar mais frases de autoafirmao do grupo do que censuras diretas ao quarteto, j que se tratava de dois estilos completamente opostos de se levar uma carreira. E vai dizer que a jornalista no sabia?

No texto, Serginho diz que acha errado o que o Paulo Ricardo faz, se destacando do grupo. E que no Roupa Nova h consenso em relao s reportagens: ningum pode falar sozinho, porque os seis tm opinies diferentes. No  porque o Paulinho, do nosso grupo, canta, que s ele deve dar entrevistas, aparecer na televiso, tirar fotos ou ser capa de revista.

O baterista ainda fala sobre os males de se chegar ao topo rapidamente: Outro dia, um crtico chamou o RPM de fenmeno, e me soou como Aladim e a lmpada maravilhosa, que o gnio aparece e some. Um filme que j vi vrias vezes: a exploso, a cobrana do pblico e, depois, a frustrao, dos dois lados, porque  um sucesso to imediato que fica difcil repetir a dose. O negcio pra valer leva anos para ser lapidado. J Paulinho aparece com a frase: Eu no admitiria fazer parte do grupo, se ele fosse chamado de Fulano e o Roupa Nova, como passou a acontecer com o RPM e outras bandas.

Uma matria com as frases milimetricamente posicionadas e com a apimentada chamada: Todo mundo usa o RPM para aparecer. Fcil falar...



O Roupa Nova havia acabado de tocar em Santa Catarina, no dia 3 de dezembro de 1986, em uma quarta-feira, para 9 mil pessoas, quando Nando foi abordado por um jornalista:

- Vocs vo tocar aqui de novo?

- A gente fica at domingo, com shows todos os dias.

Sem nunca esperar que, naquele instante, ouviria uma provocao gratuita:

- P, cheio vai estar l na praia com o RPM.

O grupo liderado por Paulo Ricardo, por coincidncia, tambm estava em Santa Catarina na quinta-feira, dia 4 do mesmo ms. E se apresentaria em Balnerio Cambori com a turn Rdio Pirata, do LP ao vivo que havia vendido mais de 2,5 milhes de cpias no pas - um marco na indstria fonogrfica nacional como recorde de vendagem.

- Esto previstas 20 mil pessoas para o RPM, sabia? - continuou o jornalista, sedento para ver qual seria a reao de Nando.

E o baixista, que no deixava passar qualquer provocao, respirou fundo e respondeu, sorrindo:

- No tem problema. Ano que vem eu vou voltar aqui pra tocar para 9 mil pessoas. E l na praia vai ter outro artista do momento tocando para as 20 mil.

No dia 28 de agosto de 1987, em carta  gravadora CBS, seria anunciado o fim do RPM. Mesmo ano em que o Roupa Nova lanaria seu primeiro LP de carreira com nome prprio: Herana - sem se preocupar com concorrentes e focado em sua prpria histria.



Herana contava com 100% de composies do grupo, que reafirmava as facetas de letristas e melodistas dos integrantes. O nome do disco foi importante por ser mais um filho da gente. A gente interpretava mais a msica dos outros antes e agora estamos com o nosso trabalho total. Sem aquele papo de cortar os outros compositores. De jeito nenhum! Mas eu acho que vai passar a ser assim daqui pra frente porque est dando certo!  uma coisa que a gente faz com carinho, com amor mesmo, explicou Serginho em entrevista para Heleno Rotay e Mara Torres, no Especial com o Roupa Nova, no mesmo ano, na 98 FM. Uma produo em massa, feita nas estradas pode-se dizer.

Por conta da turn de dois anos do disco azul, as composies comearam a ser criadas na casa de cada um, nos intervalos das viagens, com os gravadores que eles possuam. Depois, eles se reuniram, fizeram as bases, acertaram as melodias e partiram para os possveis arranjos. Obtiveram no final do trabalho mais de quarenta msicas prontas. Para s ento os letristas do grupo da poca, Nando e Feghali, entrarem em ao, escrevendo os versos das canes pelos hotis da vida. A coisa fica mais o Roupa Nova. Eles tm ideia do que a gente pensa, diz Paulinho.**

Das mais de quarenta canes, entrariam no disco: Volta pra mim, Sexo frgil, A fora do amor, Mgica, Na mira do corao, Herana, De volta pro futuro, Um lugar no mundo, Cristina, Latinos, Tolo cime e Um toque. Um lbum que, desde o seu nome, tentaria mostrar um lado do Roupa Nova que no falasse s de amor, mas que fosse politizado e preocupado com o mundo.



Com o disco azul, cinco integrantes do Roupa Nova experimentaram o gostinho de receber os direitos autorais por sua composio. E isso motivou os msicos a continuarem escrevendo melodias e letras para os discos do grupo, alm de gana para lutar pelo nmero mximo de suas canes entrando no repertrio, independente da qualidade.

Apenas Paulinho havia ficado de fora - o que se repetiria no LP Herana -, gerando um leve mal-estar entre os msicos, que esperavam uma atitude do vocalista tambm nesse sentido.

Na entrevista da 98 FM, por exemplo, o radialista Heleno Rotay entrou no assunto sobre o novo disco ser 100% Roupa Nova. Serginho explicou que essa abertura fora gradual:

- A partir do momento em que eu me senti capaz de colocar uma msica pra pelo menos comparar P, Ricardo escuta essa msica aqui, Cleberson, ouve essa msica tambm..., Cleberson mostrava tambm e tal. E quando essas msicas comearam a ser sucesso tambm no rdio, sem ser msicas de outros compositores, a gente se sentiu maduro e...

- Encabulado - completou Paulinho. - No LP passado, que a gente chama LP azul, que tem Linda demais, Seguindo no trem azul, Sonho e tal... Esse LP teve 70% de composio da rapaziada. E nesse ltimo virou 100%. Inclusive letra do Nando e do Ricardo, que so os letristas atualmente do grupo.

Antes de ouvir o comentrio de Nando:

- Por enquanto, n, Paulinho?

E o grupo passou a brigar tanto por causa das composies em excesso, como pela falta delas.



A gravao de Herana contou com a participao do cearense Fagner, com Serginho na voz principal e Paulinho cantando no final Shes leaving home, dos Beatles, como msica incidental. Composio que dava o nome para o disco, com melodia de Kiko, letra de Feghali e que no falava sobre amor.

Eu nunca proibi ou disse pra eles: No faam msicas que no falem de amor. S que msicas de amor tm um apelo comercial muito forte, o que um LP no deveria deixar de ter, diria Miguel Plopschi. Mas sabe aquela coisa de que o filho j cresceu, casou e tem filhos? Voc no fica atrs. E depois de 1987 era o que estava acontecendo com o Roupa Nova.

Cad o gnio da inveno

Que sumiu e a semente ficou

No depender de uma deciso

Um boto e o sonho acabou

Herana era uma msica com muitos vocais, um arranjo impecvel, amigos envolvidos, de composio prpria do grupo e de versos que ampliavam o universo do Roupa Nova, em um disco no qual eles assinavam pela primeira vez, integralmente, a sua produo executiva. A identidade da banda que tanto se buscava. A renncia do disco amarelo que comeava a valer a pena.



Custos Vigilat  a mensagem em latim escrita no braso da pequena cidade de Bauru, no interior do estado de So Paulo, onde o Roupa Nova iria se apresentar em 1987 com a turn do LP Herana***. Uma noite que seria lembrada pelos seis msicos, e no s pela casa lotada e pessoas empolgadas com o mais novo hit da banda: Volta Pra Mim, composio de Cleberson e Feghali.

Show de Rockn Roll foi a primeira msica que o grupo tocou aps a abertura, j jogando o clima l para cima. E Na mira do corao e Sexo frgil, ambas cantadas por Paulinho, vieram em seguida falando de amor, sem deixar diminuir o ritmo do show. Tanto que Kiko, brincando com Feghali, conseguiu destruir com pulos e agitao um pedao da tbua que cobria o palco. E ele s no caiu no buraco porque foi rpido o bastante para abrir as pernas quando o cho cedeu.

Depois disso, a balada Sonho, cantada por Serginho direto da bateria, tornou o show realmente romntico, com casais se beijando e meninas com os braos para cima. E Paulinho, no fundo do palco, tocava percusso enquanto aguardava a sua entrada na prxima msica: sucesso das rdios e uma de suas grandes performances na histria da banda.

O que s aconteceria aps Cleberson fazer a introduo nos teclados, a deixa perfeita para que o vocalista se aproximasse do pblico, lentamente, segurando o microfone, antes de cantar:

Amanheci sozinho...

Dando trs passos firmes, com os olhos fixos na plateia, como se tentasse hipnotiz-la com a sua interpretao. Sem perceber o buraco que o aguardava a poucos centmetros dali.

Na cama um vazio...

Pronto! Caiu! Paulinho afundou com o corpo inteiro, no pedao em que a tbua estava quebrada, ficando de p no buraco com o palco cobrindo at a sua cintura. E sem deixar de cantar! Parecendo at o famoso ano, de cabelos loiros, Ananias - personagem de Renato Arago, que afundava as pernas em buracos no cho para diminuir a estatura.

Meu corao que se foi

Sem dizer se voltava depois

O pblico veio abaixo ao ver aquela cena, e os msicos no conseguiam fazer outra coisa a no ser rir muito! Principalmente porque o canhoneiro, sem notar aquela atrapalhada, conforme havia sido combinado anteriormente, botou o canho de luz em cima de Paulinho dentro do buraco, ainda cantando.

Sofrimento meu

No vou aguentar

Se a mulher

Que eu nasci pra viver

No me quer mais...

Para s ento ser puxado para cima novamente, por Feghali. O pessoal deve ter pensado: Nossa, como tem palco naquele garoto!, diria depois Paulinho em um programa de rdio. O mais desligado de todos os seis msicos, que provavelmente no teria respeitado o lema Custos Vigilat do municpio, mesmo se ele estivesse em portugus: Sentinela Alerta.



- Vem c, vocs tm casa? No? - perguntou Anelisa para os msicos, que de maneira geral no se programavam com a sada de dinheiro. De seis em seis meses, eles trocavam de carro! E era carro zero, conta a empresria, que andava com sua mquina de calcular atrs dos seis, na tentativa de que eles percebessem a importncia da estabilidade financeira, principalmente por conta dos filhos e da famlia. Era muito dinheiro que eles ganhavam e muito que eles torravam!, relembraria ela.

Dinheiro que continuaria a bater na conta do grupo e no bolso dos compositores aps o trabalho de divulgao com o LP Herana - novamente sucesso de pblico! Em dez meses de viagens por mais de cem cidades do Brasil, o Roupa Nova vendeu mais de 500 mil discos, ganhando de novo o duplo de platina. Alm de receber o disco de ouro pela Polygram com uma coletnea de hits gravados de 1980 a 1983, e o Prmio Sharp de Msica**** Vinicius de Moraes como melhor grupo, na categoria Cano Popular. Prmio, alis, que eles no foram receber porque apenas um poderia subir no palco para agradecer. Ou eram os seis ou no era ningum.

Como j dizia o release do show Herana, o Roupa Nova no frequenta a mdia intelectualizada. No faz parte das tendncias musicais ou polticas e no compromete seu trabalho com grandiosas campanhas promocionais. No entanto, o grupo no sai das paradas de sucesso. Entra ano, sai ano, entra moda, sai moda e o Roupa Nova emplaca um sucesso cada vez maior.

O que no se percebeu, de fato,  que o Roupa Nova estava se tornando A moda.



Depois do estouro do LP Herana, em 1988, o Roupa Nova se reuniu com o pessoal da RCA, como de praxe, para dar incio  gravao do novo disco. Porm dessa vez os msicos, que tambm se viam no papel de compositores, levaram suas melodias para que todos votassem em quais deveriam entrar ou no no lbum, sem revelar quem era autor do qu, evitando qualquer favorecimento na escolha. Cada um foi responsvel por selecionar quatro de suas composies para apresentar ao grupo, prezando pela qualidade e no quantidade. Quer dizer, teoricamente era para ter sido assim.

- Quantas so, Serginho? - indagou Nando, aps ouvir cinco msicas do baterista.

- Ah, sei l... Umas dez, quinze... Acho que eu me empolguei, n?

- Putz... Voc e todo mundo.

Melodias que deveriam ser reduzidas drasticamente nos prximos encontros. Tudo bem que seria timo ter mais canes prprias no disco do Roupa Nova para que depois recebessem os direitos autorais. Mas at que ponto essa disputa exagerada de melodias seria saudvel para os seis? A produo deles era grande! Chegava o Serginho com quatro msicas, Kiko com mais cinco... E escolhamos as melhores, diria Miguel Plopschi. Apenas Paulinho no compunha.

- Hum... Acho que esse refro se encaixa nessa melodia.

- Acho que essa melodia podia ser uma ponte...

Opinavam ele e Sullivan, com os integrantes do Roupa Nova anotando tudo.

- Quando eles aceitavam as opinies, eles arrumavam - conta Sullivan, que via tudo isso como se fosse um jogo. Melodia todos faziam bem, mas Nando, Cleberson e Ricardo faziam mais. Para s depois das melodias definidas eles revelarem o nome dos escolhidos.



Aeroporto do Galeo, Rio de Janeiro, e o avio para os Estados Unidos ainda no havia levantado voo. Os passageiros estavam naquela fase de entrar, procurar seus assentos e guardar a bagagem no compartimento superior, quando Nando esbarrou em Willie de Oliveira, ex-vocalista do grupo Rdio Txi.

Eles comearam a conversar e assim a viagem seguiu. Apesar das duas bandas terem surgido no incio da dcada de 1980, o Roupa Nova nunca havia tocado com a Rdio Txi at ento, o que s ocorreria em 25 de novembro de 2007, no programa Tudo  possvel, da Record, apresentado, na poca, por Eliana. Mas os integrantes se conheciam devido aos vrios encontros na noite musical carioca, e at mesmo pelas confuses que as pessoas faziam trocando o nome dos dois grupos. A diferena  que, enquanto o Roupa Nova acumulava sucessos com a mesma formao, a Rdio Txi no s havia trocado de vocalista em 1983, como havia se dissolvido em 1987.

- Willie, por que a Rdio Txi acabou?

- Ah, Nando... A gente estava brigando muito...

- Mas  toa?

- Ah, bicho, banda  um troo difcil, n? Tudo  motivo. Ainda mais quando voc comea a ganhar dinheiro.

- Sei...

- Direito autoral  uma merda, cara! Se a msica faz sucesso, uns dois recebem e acabou! No tem muito jeito... A gente ainda era quatro... E vocs que so seis?

Ao chegar em casa, naquele dia, Nando pensou muito sobre a conversa que havia tido com Willie e nas ltimas reunies, com discusses em excesso, do Roupa Nova. Uma batalha pelo direito autoral que provocava tenso e presso sobre a cabea e a criao dos integrantes. Afinal, qual msica entraria no prximo disco? A do Serginho ou a do Feghali? A do Kiko, a do Cleberson, ou a dele? Quem abocanharia o direito autoral daquele LP? Se eu no fizer alguma coisa, a gente no dura mais dois anos. Nando via os primeiros sinais do que poderia ser a runa do grupo. E sozinho, sem comentar com ningum, bolou um plano para o novo disco do Roupa Nova.



Ricardo Feghali estava dormindo quando veio uma ideia de melodia. E veio de uma forma to forte e real para os seus sonhos que ele acabou acordando durante a madrugada.

- Preciso gravar isso!

E desesperado, antes que se esquecesse, saiu correndo pela casa, at chegar ao piano e registrar em um pequeno gravador. Uma melodia que teria a letra de Nando e falaria sobre uma recada amorosa de quem diz sim, embora jure o tempo todo que est dizendo no. A primeira cano de trabalho do novo LP, e mais um sucesso enorme de pblico: Vcio.

 como um vcio

Voc vem me procurar

Como faz desde o incio

Cada vez que quer voltar

Alm disso, o tecladista faria a letra de uma melodia de Nando, que seria outro hit do Roupa Nova: Meu universo  voc, fortalecendo a qumica para parcerias musicais entre os dois integrantes. A nica melodia do baixista, que teria forte presena no LP atravs das letras.

Em Chama, Nando fez uma letra pensando no nascimento de seu filho Luiz Guilherme, em 1985, que completaria 3 anos de idade em 1988.

Pelo brilho da manh

Sinto acesa a chama, tenho voc aqui

Novamente aconteceu

Uma luz antiga que nunca se apagou

Fogo no corao...

Em dolos, os Beatles entrariam como destaque - a eterna referncia do grupo - e teria como parmetro a cano Any Time At All, do quarteto. Tudo nesta msica do Roupa seria feito como os garotos de Liverpool faziam - da afinao  mixagem, com baixo e bateria de um lado, e piano, voz e violo do outro. E ainda, de quebra, uma guitarra de doze cordas igualzinha a de John Lennon.

Quem gerou

O som de uma gerao

E me levou pra dentro da cano?

A histria da assaltante de bancos, Lili Carabina, ganhou vida em 1988 com o filme de Lui Farias. Sob o ttulo Lili, a estrela do crime, Beth Faria interpretou a personagem da trama e inspirou outra composio de Nando Tipos fatais - apesar de no fazer parte da trilha do filme.

Um charme mortal

Capaz de querer

Sempre mais e mais

Um tipo fatal

Pior do que eu

Carregou meu corao

E, por fim, em Filhos, Nando falou sobre a sua descoberta como pai - realidade da maioria dos integrantes do Roupa Nova. Uma cano que contaria com a participao de seu querido pai, Nilson, que completou a msica com uma quadra de versos, fechando o crculo com a sua experincia de vida - alinhavando a msica para trs geraes: av - pai - filho, como mencionaria o material de divulgao do LP.

Chega pra c

Quero brincar com voc

Deixa eu ser muito mais

Que um amigo

Um trabalho intenso de composio por parte de Nando***** e que no seria em vo.



Em 1988, A Cor do Som tinha encerrado suas atividades, e outros grupos mais antigos haviam sofrido mudanas importantes, como as sadas de Claudio Nucci do Boca Livre e a de Flvio Venturini do 14 Bis - ambos rumo  carreira solo. Entre os mais recentes, o Kid Abelha j tinha trocado de guitarrista (Pedro Farah por Bruno Fortunato), passado por dois bateristas, e o baixista Leoni, havia anunciado a sua sada para montar outra banda. Quando voc faz sucesso, todo mundo diz que voc  o mximo. No  o Kid Abelha que  o mximo: voc  o mximo. E, quando no se tem cabea, e num sucesso to rpido, o que mais se quer  acreditar nisso,19 diria Leoni anos mais tarde.

A estrela Cazuza havia sado do Baro Vermelho para se lanar sozinho no mercado, e apenas trs integrantes originais do grupo persistiam. Nas palavras do baixista D, do Baro: Comeou uma competio, uma disputa de poder, uma coisa horrorosa, neurastnica, havia dio puro entre a gente.20 A Blitz havia acabado, a Rdio Txi e o Herva Doce tambm. E at mesmo o sucesso estrondoso do RPM, que se lanou em 1985, j havia terminado duas vezes!

J o Roupa Nova, existente desde 1980, continuava com os mesmos seis integrantes em 1988, lanando seu mais novo trabalho: Luz.



A turn do novo LP do Roupa Nova deu seu pontap no final de 1988, com shows no Olympia, em novembro, em So Paulo, e em dezembro, no Caneco. No mesmo ms, fizeram uma turn no exterior, nas cidades de Nova York, Nova Jersey e Boston nos Estados Unidos, onde a banda aproveitava para comprar instrumentos. Em janeiro de 1989 foi a vez do Paraguai, e s a partir de maro o Roupa se embrenhou pelos estados do Brasil.

Com doze msicas no lbum, apenas uma tinha a participao de um letrista convidado: Ronaldo Bastos em Estrela da manh. Tambm faziam parte do LP as canes: Camaleo, S voc e eu - primeira composio de Paulinho no grupo -, Romntico demais e Do jeito que quiser. Um disco que ganhou o nome de Luz porque foi a palavra que mais se repetiu, por coincidncia, em todas as canes, alm de ser uma necessidade, na opinio dos msicos, para a situao econmica do pas, de moral baixa naquela poca.

Porm, o ponto mais importante deste trabalho na carreira do Roupa Nova talvez tenha ficado nas entrelinhas. Explicando: na contabilizao final das parcerias nas composies, o repertrio teve sete msicas de Nando, sete de Ricardo Feghali, quatro de Kiko, trs de Serginho, duas de Cleberson, e uma de Paulinho. E nenhum dos integrantes notou como Nando batalhou para chegar a esse nmero, tendo a maior parte das obras em seu nome. Eu s poderia propor alguma coisa diferente se eu tivesse de cima. Ento eu trabalhei muito pra eu ter mais do que eles. Foi completamente intencional, revela o baixista.

- , agora vocs vo me ouvir! - disse ele, em uma das reunies com o grupo, aps o lanamento do LP Luz. - Gente, vamos dividir o direito autoral? A msica  bonita? ! A letra  bonita? ! Mas o arranjo t bonito, a bateria que o Serginho fez, a voz que o Paulinho botou, o vocal que a gente bolou, a guitarra do Kiko, a ideia de arranjo do Cleberson e do Feghali, o meu baixo...

E, antes que algum deles pudesse contestar, Nando frisou:

- Eu tenho a maioria do Luz, com o Feghali. Eu que vou sair perdendo! E eu abro mo!

Uma atitude desenfreada do baixista em tentar diminuir as vaidades, igualar o dinheiro e salvar a carreira do grupo. Um sentimento descrito na cano Seu jeito & meu jeito, tambm no LP de 1988, composta por Nando, e que seria vista por todos os integrantes como uma msica de amor. Ningum percebeu sobre o que o baixista realmente estava falando naquela letra. E sempre esteve ali, debaixo do nariz, registrado no Luz, o carinho que ele tinha pela banda:

Cada dia  mais difcil te dizer

Que eu consigo ser feliz

Todo tempo com voc

E mesmo assim eu me sinto muito s

No  fcil ser aquele

Que segue dizendo:

- Tudo vai melhorar!

Mas ficar de mal com a vida

Muito pouco vai mudar

Tudo aquilo que fazemos

Pouco a pouco, se volta contra ns

Cada dia  mais difcil de viver

Sem vender o corao

Eu s quero ter a chance

De provar pra voc

Que eu tenho alguma razo

Creia, todos sero felizes

Ou ento, ningum ser

Depende de ns

E de ningum mais

Tentar ser feliz


Sem olhar pra trs

 tempo de ver

O que vale mais

Eu entendo que apenas um sorriso

No torna tudo bom

Mas no penso que seu modo de ver

Seja s a soluo

Eu no quero ser aquele

Que fala de sonho pra voc no chorar

Mas um pouco de carinho

Mal no pode provocar

No disco Frente e versos, de 1990, a regra j estaria valendo: no encarte, o crdito de quem comps a msica, mas no contrato o direito autoral dividido por seis. O que seria uma cooperativa autoral. Como diria Kiko sobre a atitude do grupo: No tem um com uma BMW entre os seis. Fica todo mundo de fusquinha. A primeira banda brasileira a, de fato, fazer isso em relao ao dinheiro. Uma iniciativa que poderia acalmar os nimos dos integrantes para que eles pudessem compor em paz, focados na qualidade, embora tambm pudesse gerar comodismo e a falta de empenho para compor, a partir do momento em que o dinheiro j estava garantido! Mas, enfim, depois da deciso de dividir os direitos autorais, a sorte estava lanada.



Notas

* No cenrio das bandas da dcada de 1980, Manoel Poladian conseguiria contratar o RPM, o Capital Inicial e os Tits.

** Apenas duas msicas contaram com letristas convidados: Ronaldo Bastos em A fora do amor, e Tavinho Paes em De volta pro futuro.

*** Tambm se destacariam nesse LP: A fora do amor, Na mira do corao, Cristina, De volta pro futuro e Mgica.

**** O Prmio da Msica Brasileira passou por diversas fases. Por mais de dez anos foi chamado de Prmio Sharp (1987 a 1998). Tambm recebeu os nomes de Prmio da Msica Brasileira (2001) e Prmio TIM de Msica (2003 a 2008). Desde 2010, o prmio  patrocinado pela Vale.

***** Demais compositores das canes: Feghali em Chama, Kiko e Feghali em dolos, Kiko em Tipos fatais e Serginho em Filhos.



CAPTULO 33

MAIS QUE A LUZ DAS ESTRELAS

O Roupa Nova sofreu uma mutao durante a sua carreira, e os crticos passaram a se orientar apenas pelo repertrio. No pela qualidade musical deles.

Mariozinho Rocha

Acho que as pessoas veem o Miguel e veem a janela!  como um sol de vero queimando no peito... Quer coisa mais pop do que isso? Ou Se voc v estrelas demais...  pop pra caramba! E isso  Mariozinho! Mas no... O Mariozinho tem um cast de elite e o Miguel  pop. Ento o Roupa Nova  pop... No! A gente sempre foi pop!, contesta Feghali sobre as duras crticas que receberam aps o disco azul, mesmo fazendo um estrondoso sucesso com o pblico. A tal ponto que ganharam, inclusive, o apelido na indstria fonogrfica de Midas da Msica Brasileira, ao transformar em ouro todos os trabalhos seguintes, em uma mistura assumida de baladas + grandes hits + povo (isso tudo em uma poca de crise econmica no Brasil, com arrochos salariais do Sarney e grandes surtos inflacionrios). O que a crtica, no geral, j esquecendo as bandas de rock e sem afinidade com o termo pop, passou a chamar exclusivamente de brega.

Pop seriam as canes que agradam os jovens - que se tornou consumidor de produtos culturais, depois da Segunda Guerra Mundial, atravs dos meios de comunicao de massa. Gnero - que desde os anos 1950 passou por estilos como rock, romntico, brega, rap, sertanejo, sendo redefinido por cada gerao atravs dos tempos - de msicas leves, vocal e ritmos agradveis aos ouvidos, letras fceis de serem cantadas, refres fortes, melodias para serem memorizadas e assobiadas. Uma simplicidade na apresentao que no quer dizer simplria, como alertou o msico Nando Reis: Eu detesto a ideia da apropriao inteligente. Como quem diz: Ah, isso  to qualquer nota que qualquer um pode fazer. Ento ns, que somos cults e inteligentes, vamos fazer de brincadeirinha msicas bregas. O caralho! Quem sabe fazer, sabe!

Caractersticas musicais e de comportamento que poderiam ser atribudas a figuras como Frank Sinatra, Bob Dylan, Beatles, Rod Stewart, ABBA, Bee Gees e Elton John. No Brasil, estariam presentes na Jovem Guarda, no Tropicalismo, e nas verses adocicadas do rock nos anos 1980* de nomes como Michael Sullivan, Paulo Massadas, Lulu Santos e Kid Abelha. Como afirma Sullivan: Artista quer vender sua arte, quer que o aplaudam, que o amem,  sua maneira de viver. (...) Tem artista que pensa na emoo dele, mas voc tem que chegar no povo. Esse  o nosso lema e no vamos mudar nunca. Artistas pop e que, muitas vezes, se tornariam populares ao ampliar seu alcance de pblico, independente da idade.

Popular  o que cai nas graas das rdios,  o que a massa consome, como disse certa vez a jornalista Patrcia Palumbo, especialista em msica brasileira. Mas vale dizer que todo artista, pop ou no, quer ser popular.21 E o Roupa Nova, no final dos anos 1980, apesar das crticas, j era popular com maestria.



- Eu no entendo, juro! A gente grava com todo mundo e o trabalho dos outros artistas  elogiado pra cacete. Mas quando o disco  nosso, eles caem de pau! Saco isso! - reclamou Nando, muito irritado, em uma das reunies com as duas empresrias.

Um integrante que, assim como a maioria do grupo, ainda vigiava cada palavra dita sobre o seu trabalho nos cadernos de cultura dos jornais, na esperana eterna de uma aprovao. Sem se conformar com o tratamento recebido por parte dos crticos, apesar do sucesso do Roupa Nova.

- Besteira, Nando... Eles esto pagando a sua conta?

- Val,  muito chato acordar, comprar o jornal e encontrar nego te chamando de cafona, falando mal do seu disco. Tem horas que isso cansa...

- Eu sei, mas vocs tm que olhar para o trabalho de vocs. No podem se importar com o que a imprensa fala. Seno vocs vo pirar! O veculo de vocs  rdio e televiso! Poxa, faam um trabalho benfeito, popular sem vergonha, sem medo de ser feliz!

- Mas parece sacanagem. A gente faz arranjos fodas para o MPB4, Rita Lee, Milton, Gal Costa... S gente grande da msica brasileira! Os LPs deles so elogiados, as pessoas gostam, a crtica acha lindo...

- Calma Ricardo... - disse Anelisa, tentando tranquilizar os nimos.

- Deve ser porque a gente veio dos bailes... - arriscou Serginho.

- Ou porque ningum aqui  da Zona Sul! Nego no sabe nem o que tem do outro lado do tnel! - disse Paulinho.

- J meteram a ripa at no Sapato velho! - completou Cleberson.

- Na boa, eu acho uma covardia: o cara no tem envolvimento nenhum com o disco! Apenas ouve e diz: gostei ou no gostei. Voc compe aquela cano com o maior amor! Saiu de voc, cacete! E o cara chega e mete o malho? - disse Kiko, muito nervoso com o que vinha lendo sobre a banda.

- S porque a gente no quebra tudo, no reclama nem fala que t tudo uma droga! Caramba, comeamos do zero, fazendo bailes em lugares que as pessoas no acreditam! A nossa dedicao devia ser um exemplo e no motivo de crtica! Devia ser inspirao para outras pessoas! A gente t tentando o tempo inteiro, estamos ralando, buscando o melhor! Mas no... O que a gente faz fica parecendo falso, oba-oba,  mole? Merda - disse Nando, estourado.

O clima pesou, o olhar dos seis msicos pesou e ningum mais falou nada. Pelo menos no naquele dia.



- P, a gente no consegue emplacar nenhuma! - comentou Valria para uma amiga, sobre a dificuldade do Roupa Nova sair nos jornais, ainda no disco azul, s vsperas da segunda turn de 1986 no Caneco.

O grupo era citado nas agendas dos jornais e nas crticas dos LPs, mas ela queria uma matria que divulgasse a banda, mostrasse seu trabalho e, lgico, seu sucesso.

- Hum... Talvez eu consiga te ajudar... - disse a outra, ligando para combinar um jantar com um amigo, naquele final de semana, em sua casa.

Tratava-se de um editor conceituado e influente chamado Artur Xexo, que topou encontr-las no sbado para comer, beber, bater um papo sobre a vida e jogar uma biribinha. Trs dias depois do encontro, o telefone da empresria tocou, com uma pauta do Jornal do Brasil para sair no dia 17 de setembro daquele ano, sobre os dez dias de Caneco. Com quase meia folha de Roupa Nova, na primeira pgina do Caderno B.



Imagine o Sonho de Valsa, bombom mais que tradicional, subitamente alado  condio de chocolate do ano, em 1986. Agora, tente imaginar o Roupa Nova, grupo que comeou h dez anos em bailes de subrbios, e nunca vendeu mais de 50 mil cpias de seus discos, alcanando de repente a marca de 500 mil cpias com o ltimo LP. Assim era a introduo da matria sobre o grupo, no Jornal do Brasil, sob o ttulo Gosto de bombom, aps chamar o conjunto, na descrio da pgina, de adocicado.

E as espetadas de leve no iriam parar: Nessa histria do Roupa Nova, que se chama sucesso, tudo  to previsvel quanto o gosto de um Sonho de Valsa, a comear pela temporada de dez shows que o grupo inicia esta noite no Caneco. E a frmula, embora no explique esse surto de vendagem de discos, contm apenas dois ingredientes: competncia e uma srie de msicas ao gosto das rdios FMs, que tocaram, tocam e tocaro  exausto os hits que o grupo apresenta esta noite.

Deixando para o final a opinio dos integrantes sobre o trabalho de outros msicos: O Paralamas  legal pra caramba, diz Cleberson. Aquele cara, comenta Nando, evitando dizer o nome,  RPM: Ruim Pra Meireles. Alm do sentimento de Kiko sobre o sucesso da banda: at que enfim, a gente merecia.

Uma matria despretensiosa, assim como o jantar de Valria.



As aventuras da Blitz, lanado em 1982 pela EMI-Odeon, com produo de Mariozinho Rocha, foi o disco de estreia da Blitz, banda da Zona Sul carioca. O lbum, com cores fosforescentes na capa e logotipo inspirado na antiga logomarca dos X-Men, foi obra da dupla Gringo Cardia e Luiz Stein, que estavam no incio de carreira e eram scios no estdio A Bela Arte. E a esttica das histrias em quadrinhos com um teor pop  la Andy Warhol, associada ao sucesso conquistado pela trupe de Evandro Mesquita, fez com que os designers se tornassem os mais requisitados pelo mercado da msica. Nos anos 1980, foi moda convid-los para fazer capas de discos, e nem o Roupa Nova ficou de fora dessa. Sugesto da RCA para o lbum Herana, muito bem recebida por Valria.

- Vai ser timo! Eles so modernos e podem dar um visual superbacana pro disco.

O que ela no poderia imaginar  que Luiz Stein, que ficou  frente desse projeto, manteve a linha Blitz no quesito cor e misturou na capa laranja com verde. Valria quase caiu pra trs quando foi pegar a arte, prestes a levar para a grfica e com o cronograma j todo atrasado para o lanamento.

- No vai ficar isso!

- Como no, Valria? No gostou?

- Luiz, j chamam meus artistas de brega o tempo inteiro! Se eles aparecem com um negcio laranja e verde vo cair de pau!

- Mas o trabalho  meu!

- Mas o artista  meu e quem t pagando somos ns!

- No, Valria, voc no vai mudar a arte.

- Olha, na Blitz  lindo,  outra conversa! Com o Roupa Nova no d.

- Mas...

- Se voc consegue entender, que bom. Se no entende? No posso fazer nada. Tem a ver com a banda e com a forma como eles j so vistos. A leitura vai ser outra! Pode tirar isso da!

Valria no se lembra se chegou a acertar aquilo com o Roupa Nova ao vivo ou por telefone. O que se sabe  que a capa do Herana ficou preta e branca com um verde de leve. Sem o laranja de Luiz Stein, que at hoje olha meio torto para a empresria.



Apesar das crticas, o grupo Roupa Nova supera o rtulo de brega e conquista o pblico. A prova disso  uma temporada de sucesso no Caneco (Rio), um pblico mdio por show de 7 mil pessoas e 200 mil cpias vendidas em apenas cinco semanas, no novo LP Herana, dizia o incio da matria de Rosani Alves, Roupa Nova deixa o sucesso como herana, publicada na revista Amiga, em 1987. Alm disso, o texto trazia declaraes dos integrantes um pouco menos inflamadas sobre o assunto.

Nando afirmou que: ou voc pega um repertrio, mesmo no gostando, mas achando que vai estourar e transa o disco; ou voc faz exatamente o contrrio, escolhendo o que mais o agrada; ou ainda, procura consenso entre dois extremos. Ns procuramos esse equilbrio. Selecionamos as msicas que nos agradam e que julgamos agradar o pblico tambm, e montamos nosso LP. Agora, no sabemos dizer se isso  brega ou no.

J Ricardo Feghali mandou seu recado: No fazemos msica para os crticos. Nosso trabalho  nica e exclusivamente dedicado ao pblico, pois preferimos 7 mil pessoas dentro de um estdio do que cinco crticos l atrs, nos assistindo. De modo geral, as pessoas que se dizem crticos especializados no sabem tocar um nico acorde, pois criticam o que no conhecem, e geralmente o que  suceso de crtica, no Brasil,  fracasso de pblico.

Os msicos do Roupa Nova, com o sucesso de plateia a seu favor, tentavam amenizar as crticas falando abertamente sobre o assunto nas entrevistas. Dando a sua verso sobre os fatos, para que as pessoas no fossem contaminadas ou, pelo menos, para aliviar um pouco a dor.



A turn internacional do Roupa Nova, no disco Herana, tambm ganhou os jornais, aps 110 shows para mais de 500 mil pessoas, contando Brasil, Bolvia, Paraguai, Uruguai e Portugal. Com duas de suas msicas (Dona e Linda demais) entre as dez mais da parada de sucesso portuguesa, a banda teve ainda o seu LP entre os mais vendidos, assim como o compacto com Dona, do repertrio de Roque Santeiro, novela que foi exibida em Portugal em 1987, brigando com nomes como Phil Collins e Michael Jackson.

Porm, at em se tratando de terras estrangeiras, o tema brega no saiu de pauta. A jornalista Helena Carone, no Jornal do Brasil, por exemplo, escreveu em 1988: Nem a plateia portuguesa resistiu aos pirosos msicos do Roupa Nova. Doze mil pessoas foram ao rubro nas quatro apresentaes que o grupo fez em Lisboa e na Cidade do Porto, em abril. Traduzindo: pirosos  o mesmo que bregas e ao rubro corresponde  nossa expresso ao delrio.22

E essa insistncia no tema  que cansava.



As emissoras de FM abandonam o rock e fazem a opo preferencial pela msica suave e amorosa, trouxe a revista Veja, na matria Frequncia romntica, publicada em 25 de novembro de 1987. Canes, rotuladas de bregas segundo o texto, que seriam cantadas por nomes como Adriana, Rosana, Fbio Jnior, Marquinhos Moura, Sandra de S e Roupa Nova. Msicas de batidas muito forte, gritadas, acabaram cansando os ouvintes, explicou Marco Antnio Simes, coordenador da popular FM 105. O que Otvio Ceschi Jnior, da rdio Cidade, definiu como: Camos na real. No adiantava nada ficarmos sentados na avenida Paulista pensando em Manhattan. Temos de tocar o que o pblico brasileiro quer ouvir.

Deste modo, Lobo, ousado e provocativo, lanou o disco o Rock errou, em 1986, tendo na capa ele vestido de padre ao lado de uma mulher pelada com um manto sobre a cabea. Mas a cano que estourou nos rdios foi a balada Revanche. O Baro Vermelho voltou com tudo ao mercado aps a sada de Cazuza no final dos anos 1980, com o lbum Na calada da noite, e a cano O poeta est vivo caiu no gosto das pessoas. Tambm balada. J o Roupa Nova veio com Herana, em 1987, e emplacou canes como Volta pra mim e A fora do amor. Todas baladas!** O Brasil  baladeiro, somos romnticos! Isso t na gente, diz o tcnico Flvio Senna. E o Roupa Nova tinha dificuldade de arrumar msicas mais agitadas que fizessem sucesso.

O que tambm acontecia com bandas como o Kid Abelha - carimbando hits romnticos como Por que no eu? ou Como eu quero. A ponto de Leoni comentar: Eu ficava preocupado com o preconceito da imprensa. Gente como Pepe Escobar, que s gostava de coisas desconhecidas e criticava at o U2 quando tinha discos lanados no Brasil. Me preocupava com o prestgio do Kid Abelha. E o Andr Midani dizia: Os Beatles no tinham o menor prestgio no comeo! Roberto Carlos no tinha prestgio! A histria est do lado de vocs! Mas a vinha algum e dizia que, se trabalhssemos mais uma balada, iramos nos tornar o Roupa Nova - e ficvamos apavorados com essa possibilidade.23

Manifestaes de amor que, como diria o poeta Fernando Pessoa, no poderiam ser diferentes se no fossem ridculas.



Eles fazem um trabalho que  digestivo, que  popular. E a crtica, no geral, detesta quem faz sucesso,  como se fosse crime. Eu vejo isso o tempo inteiro, comenta o produtor Guto Graa Mello, pelo lado da indstria fonogrfica, sobre a postura da crtica especializada em relao ao Roupa Nova. Com um discurso bem parecido ao de Mariozinho Rocha: A maior parte dos crticos musicais gosta do lado B e dos malditos. Fez sucesso? Vendeu disco?  bola preta. At hoje  assim, infelizmente, com rarssimas excees.

Julgamentos que, muitas vezes, so cclicos e temporais, como uma moda que vem e passa. Houve uma passeata contra Roberto Carlos e, hoje, todos adoram!, relembraria o produtor Max Pierre. Do mesmo modo que Guilherme Arantes e Michael Sullivan, vistos como bregas na dcada de 1980, seriam no futuro chamados de cult pelos jornais. Nas palavras de Guilherme Arantes: no reinado do pop-rock, era vetado ao homem ter sentimentos. E eu, como o Erasmo Carlos, no tinha pudor nenhum de rasgar as emoes. Agora, estou me vingando da isolada que esse pessoal me deu. A mesma coisa que me fez maldito ali, hoje me d a chance de perdurar.24

E Sullivan teria seu trabalho elogiado por compositores como Arnaldo Antunes, ao classificar suas melodias como emocionantes e incrveis, combinadas a letras muito diretas. O preconceito que sofre  o preconceito contra o sucesso, de gente que espera algo mais complexo, quando a grande fora da msica popular est na adequao entre letra e msica.25

Para Ronaldo Bastos, isso tudo  reflexo do jeito provinciano de se fazer crticas no Brasil - que se mantm at hoje. Para ele, bregas so as pessoas que sustentam esse tipo de julgamento: Tem umas colunas de JB que as referncias so as coisas que acontecem na garagem em Nova York. E dos anos 1980 pra c ficou isso. A diferena  que antes as composies eram honestas, o cara achava isso mesmo. Mas hoje no,  falso. Virou uma instituio to grande que parece que s isso importa. O Roupa Nova t alm disso.



Lus Augusto de Biase, na FM 105, perguntou uma vez para Ricardo Feghali, em entrevista que foi ao ar em junho de 1988:

- O que voc daria de presente? Para quem e o qu?

- Rapaz, presente  uma coisa difcil...

- Mas no d pra pensar em algo rapidinho?

- No sei... Presente  um negcio muito difcil. Daria um presente...

E Paulinho atropelou o tecladista sem perder a piada:

- O LP do Gilliard pro Jamari Frana!

Provocando gargalhadas no estdio da emissora - brincadeiras da banda que fazia a festa nas rdios, como grandes artistas populares que eram, independente de seus desafetos.



Jamari Frana, realmente, foi um dos crticos que mais cutucou o Roupa Nova em suas colunas, com comentrios do tipo Entrou msica na novela? Cuidado para no virar Roupa Nova!, ou ento dizendo, com tom pejorativo, que no show do grupo, se bobear, tocava at um sambinha. Falou tanto que, em um destes momentos, a banda no se aguentou e invadiu a redao do Jornal do Brasil, depois de um compromisso realizado no mesmo prdio.

- Cad o Jamari? Hein? Chama ele aqui! - falou Nando, ao lado dos outros msicos, bufando, diante do olhar espantado de um dos jornalistas.

Segundo o baixista, uma coisa  um Cesar Camargo Mariano pegar o disco do Roupa Nova e falar: No gosto da faixa trs. Acho o andamento mal escolhido, a sequncia harmnica  fraca. Podiam ter feito melhor. Outra muito diferente  ouvir crtica do Jamari! Tem gente que nasceu pra fazer. Tem gente que nasceu pra dizer como o outro acha que ele deve fazer. E qual  a arte desse cara para ele poder falar alguma coisa? O Jamari teve banda e nunca foi nada!

Porm, no seria naquela tarde que Nando teria sua resposta. Jamari (in)felizmente no estava no prdio, para frustrao do baixista mais que indcil, que teria que engolir a tal da crtica.

- Tudo bem... Uma hora eu consigo encontrar um desses caras...



Nando abriu o jornal, ainda de manh, e deu de cara com uma crtica de um jornalista sobre o disco Luz.

- Hunf... L vem - disse ele, desanimado, antes de tomar o caf, j esperando o pior.

At porque o ttulo da crtica dava a entender que o Roupa Nova fazia o que a gravadora mandava, e no o que os seis msicos queriam.

- Sabia... Ele no gostou do disco - comentou o baixista ao ler as primeiras linhas, ficando cada vez mais chateado com as palavras do jornalista.

A crtica dizia que a RCA mandava no direcionamento do trabalho deles e que o conjunto era preso aos padres do mercado. Alm disso, taxava as composies do lbum de fracas e de pouca consistncia. E, por fim, dizia: A hamornia pobre de Nando, na msica Meu universo  voc. O que fez com que o baixista, de raiva, arremessasse longe o jornal.

- A? Ento vamos ver.

E tudo isso aconteceu s vsperas do dia em que o Roupa Nova receberia os jornalistas na RCA para falar sobre o disco Luz.



Nando chegou mais cedo para as entrevistas na RCA, aps o lanamento do disco de 1988, e, sem falar nada, entrou na sala reservada pela gravadora para o evento, com um ar malicioso. Encostou um violo na parede, colocando em cima da mesa uma prancheta com papel e lpis, e sentou-se em uma cadeira, sem dar um pio, apenas mantendo os olhos fixos para a porta de entrada. Um comportamento estranho e, por que no, preocupante.

Tudo bem que aquele seria um dia puxado para todos da banda, que receberiam em uma salinha, desde cedo, diversos jornalistas para falar do novo trabalho. Mas se tratava de uma rotina de divulgao com a qual eles j estavam acostumados. Qual era a do Nando? E que raios aquele violo e aquela prancheta estavam fazendo ali?

Em seguida surgiram os outros integrantes para ento eles comearem a receber a imprensa. Qual  o segredo da unio de vocs?, Como vocs enxergam este novo disco de carreira?, Por que o nome Luz?, Vocs acham que, agora, esto se firmando como compositores? Entrou o primeiro jornalista, o segundo, o terceiro, at que de repente cruzou a porta quem Nando estava esperando, ansiosamente. Nada menos o jornalista que fizera a tal crtica.

- Oi, gente, tudo bem? - disse ele, meio sem graa, se posicionando entre os seis msicos. - Escuta, eu queria perguntar...

Nando o interrompeu, j com o violo nas mos, educadamente.

- Rapidinho, antes de voc perguntar... D pra voc afinar, por favor?

- Por qu?

- Eu queria tocar um negcio pra voc, mas ele t meio desafinado. Afina pra mim?

E o jornalista, j com a pele rosada, negou o pedido do baixista.

- Eu no sei afinar violo.

- Voc no toca violo?

- No, no...

- Hum...

E, quando ele ia abrir a boca para voltar para (ou comear) a entrevista, Nando retomou o assunto, com seu tom normal de voz, sem se alterar:

- Qual instrumento voc toca?

- No, no... Eu no toco nenhum instrumento.

Nisso, ele j estava vermelho, apesar de no entender aonde o baixista queria chegar. Constrangidos, os outros msicos permaneciam mudos.

- Pra a... No t entendendo bem... Qual  a trade do acorde de d maior?

- Como assim?

- Meu filho, quais so as trs notas que formam o acorde de d maior? - repetiu Nando, com um tom j impaciente.

- Eu no sei isso! - disse o jornalista, tambm com a voz alterada.

Para a conversa ento desandar de vez a partir da.

- No? Mas isso  harmonia! Voc no sabe harmonia?

- No, eu no sei.

- No? Ento voc escreveu isso aqui baseado em qu? - disse o baixista, de forma agressiva, puxando o jornal que estava guardado. - A hamornia pobre de Nando Algum falou pra voc que a harmonia da minha msica  pobre? Porque este aqui no  voc! Voc no sabe o que  harmonia!

- Mas...

- E ainda me acusa de escrever as coisas que os outros mandam! Se voc no sabe o que  harmonia e essa ideia no  sua, ento algum botou na sua cabea!! T fazendo o mesmo do que t me acusando! Vamos fazer o seguinte? Vai estudar harmonia!

- Nando... - tentava o jornalista, em vo, para o baixista que ainda parecia ter muito o que falar.

- Nando, nada! Vou te mostrar uma coisa que talvez voc no tenha percebido...

E, colocando o violo em cima de sua perna, ele comeou a tocar e cantar:

Mais que a luz das estrelas

Ah! Meu universo  voc

Mantendo o mesmo andamento e harmonia, trocando apenas a letra.

When I find myself in times of trouble,

Mother Mary comes to me,

Speaking words of wisdom,

Let it be

Para depois voltar com:

Mais que a luz das estrelas

-  a mesma harmonia, meu filho!  a do Let It Be, dos Beatles! Que  a mesma de Linda, s voc me fascina.... No  uma harmonia pobre.  mundial,  clssica! E tem outras msicas lindas com essa mesma harmonia!

E, pegando flego, Nando continuou falando diante do jornalista, roxo, com a boca tremendo e as mos suando frio:

- Aprende: harmonia  a sequncia de acordes que voc toca! No tem nada a ver com a msica. Voc pode fazer com essa harmonia vinte msicas e no  plgio!  harmonia, uma sequncia de acordes! E eu no acabei! - falou o baixista, virando para trs para pegar a prancheta com uma folha de papel para o crtico e outra para ele. - Toma aqui! Algum a conta dez minutos. Eu vou escrever um verso e ele vai fazer outro! Depois a gente compara pra ver qual  mais bonito.

- Mas eu no sei fazer verso! - gritou o jornalista.

- Ento por que o meu verso  pobre? Voc no sabe fazer nenhum? Faz um pra eu poder dizer se gostei! A  justo!

- Para Nando, para com isso... - pediu o crtico, afastando a prancheta de sua mo, muito nervoso, a voz embargada, prestes a cair em prantos.

- P, cara, como  que voc faz um negcio desses? Ainda escreve que a RCA manda no trabalho da gente!

- Mas esse ttulo no  meu!  do editor-chefe!

- Ah no, agora eu no t entendendo mesmo... Ento o editor batizou a sua matria?

- Isso  comum no jornal... - respondeu ele, fungando, tentando conter as lgrimas.

- E voc concorda?

- No, no.  muito agressivo.

- Pra a... Ento voc deixou um editor batizar sua matria? E por que eu no posso deixar o produtor produzir o meu disco?  a mesma merda! T me acusando de qu? Presta ateno, p! Voc assinou uma crtica em que o ttulo no  seu?

E levantando da cadeira, enfurecido, meio que j desistindo daquele papo, Nando olhou na cara do jornalista e afirmou, tentando manter a voz mais calma:

- O problema  que voc pe essa porra na rua e todo mundo l como se fosse verdade.

Encerrando naquele segundo a entrevista.

O pessoal da RCA, que assistiu  cena junto com os msicos, depois indagou o baixista:

- Poxa, Nando...

Que no baixou a bola nem na hora, nem depois.

- Poxa, o qu? No foi com voc!

Nando hoje assume que lidava mal com as crticas, mas relembra este episdio sem um pingo de arrependimento. Naquele dia, um jornalista sairia da sala da RCA chorando, destrudo, levando nas costas Jamari Frana, Ana Maria Bahiana, Antnio Carlos Miguel, Jos Emilio Rondeau e tantos outros crticos.



No final dos anos 1980 j era possvel encontrar matrias como a da Veja de 30 de novembro de 1988, de ttulo Reis da Estrada. Roupa Nova inicia turn no pas com Luz, em que considera o grupo como um caso nico na msica brasileira. A revista situaria a banda entre o rock, o brega e a MPB:

Cada um de seus ltimos trs discos vendeu mais de 500 mil cpias - o que coloca a banda entre as mais bem-sucedidas da msica jovem, ao lado dos Tits, Legio Urbana e Paralamas do Sucesso. A maioria dos fs de rock, no entanto, coloca o Roupa Nova no mesmo caldeiro da msica brega, onde esto Wando, Benito di Paula e Amado Batista. J os astros da MPB no passam sem o Roupa Nova - seus msicos so constantemente convidados a participar de discos de Gal Costa, Ney Matogrosso, Simone e Beto Guedes, entre outros. Mas, ao perguntar a essas estrelas da MPB quem so os melhores grupos jovens nacionais, poucos ousam incluir o Roupa Nova entre eles.

Alm disso, o texto afirmava que assistir ao show do Roupa Nova no Caneco ou em qualquer outro lugar do pas era ter contato com um fenmeno tipicamente brasileiro - o grupo de baile -, que segue a trilha do sucesso na contramo do show business. Reflexo do trabalho exaustivo e persistente feito em parceria com Anelisa e Valria.



Anelisa estava grvida de uma menina, com um barrigo de sete meses, no final dos anos 1980, em turn com o Roupa Nova em Macei, quando o motorista do caminho surtou e foi embora, deixando o equipamento jogado em um canto, com uma barriguda desnorteada, catando todos os telefones para conseguir outro veculo do Rio de Janeiro. No mesmo perodo em que Valria tambm ficou grvida, dificultando ainda mais a presena delas durante as viagens.

- Olha, no vai dar pra gente continuar rodando o Brasil com vocs. Mas montamos uma estrutura bem legal e acredito que no ter problemas - comunicou Valria  banda em uma reunio no escritrio das duas empresrias em Ipanema, Zona Sul do Rio.

Porm, ao contrrio do que ela imaginara, a deciso no foi bem recebida pelos msicos, que queriam que elas continuassem viajando com eles, acostumados que estavam de ter uma das duas sempre por perto. O que gerou uma enxurrada de reclamaes e um clima ruim, pela primeira vez, entre elas e os seis integrantes.

- Gente, vamos fazer o seguinte: no queremos brigar com vocs! Ento vai, procurem outras empresrias, sigam a carreira de vocs! Ns no vamos viajar.  outro momento da vida.

Valria e Anelisa j sentiam que no daria para manter um relacionamento saudvel se eles no se separassem, naquele ano de 1989, ainda na divulgao do Luz. Optaram, ento, por estar longe a perder a amizade dos seis msicos.

- Foi muito ruim a sada delas. Sinto falta at hoje - diz Nando.

Histria de profissionalismo e dedicao que marcaria a vida de todos eles. O que Valria chamaria de anos de puro deleite e prazer!. Depois que eu trabalhei com o Roupa, nunca mais trabalhei com artista nenhum dessa forma. So seis cabeas que pensam, que batem o p, que fazem manha e que so danadas! A briga deles  sempre pelo melhor. E sofreram muito preconceito por terem vindo dos bailes e por no serem da Zona Sul, afirma Valria. J Kiko diria com admirao: O que  empresrio? Nada mais  do que o que elas faziam.

Duas empresrias que lutaram pelo grupo, enfrentando o mercado apesar das crticas, no intuito de construir uma identidade. E que, junto com os msicos, conseguiram resultados considerveis na indstria fonogrfica dos anos 1980: discos duplo de platina, homenagens, prmios, casas lotadas, composies prprias, uma imagem mais clean nos palcos e o sucesso do Roupa Nova nas rdios com os discos autorais, e no com os dos outros.

Viram o Linda demais ganhar o Sul do pas, o f-clube crescer, Paulinho cair do palco, Nando irritado com os jornalistas, Cleberson assumindo sua essncia de maestro, os filhos de Kiko crescendo, seu Z como roadie de Serginho, e Feghali cada vez mais produtor. Participaram com orgulho da formao da carreira de artistas de peso nacional, que marcaram aquela dcada com o seu som.

Uma banda elegante, como diria Ronaldo Bastos - independente dos rtulos de rock, brega, romntico ou pop:

Eu fui brindado com melodias sensacionais, gravaes muito bem tocadas por msicos excepcionais e com arranjos bem-acabados. E os shows so perfeitos! Se existe algo mais elegante do que isso, por favor, me comuniquem. Porque eu, que sou expert no assunto, no conheo nada melhor que uma cano benfeita, bem cantada e que as pessoas possam cantar juntas. E se o Roupa Nova faz isso, viva o Roupa Nova!



Notas

* Madonna e Michael Jackson, aliados ao surgimento da MTV, associariam ao pop tambm elementos como imagem, dana, e grandes espetculos. Os dois seriam conhecidos, mundialmente, como a Rainha e o Rei do Pop.

** Marcia Tosta Dias, no livro Os donos da voz, demonstra que os produtos romnticos so lucrativos porque o amor interessa a toda a gente. E que histrias ou produtos de quem vence na vida, histria de final feliz, sempre foram um valioso instrumento da indstria cultural. Msicas que entorpecem e satisfazem os sentidos e desejos do ouvinte.



PARTE V

TUDO DE NOVO

To depressa que no sei se tem fim ou comea outra vez

A partir de 1990



CAPTULO 34

E EU LIGO O RDIO SEM QUERER

O rdio  muito importante porque aproxima o artista do pblico instantaneamente. E as emissoras foram cativadas pelo talento deles.

Fernando Mansur

A consolidao do mercado de msica para jovens, a partir do pop-rock, foi um dos motivos para que a indstria fonogrfica do Brasil tivesse um crescimento em suas vendas na segunda metade da dcada de 1980. Mas no seria o suficiente para estabilizar o mercado de discos no pas nos anos 1990. Isso porque, alm da situao frgil de nossa economia, as canes internacionais ainda dominavam o cenrio, apesar das leis que obrigavam a execuo de msicas brasileiras. A venda da fita K7 - que era o produto pirateado - tinha aumentado, em detrimento  do LP, e as multinacionais haviam deixado de investir nas gravadoras tupiniquins.

No bastasse tudo isso, em 1990 o presidente eleito Fernando Collor anunciou medidas extremas para a economia do Brasil, como sequestro dos ativos financeiros e congelamento de preos e salrios. Planos de governo que fariam despencar o faturamento da indstria fonogrfica em mais de US$ 100 milhes. Enfim, se em 1989 eram vendidas 76,6 milhes de unidades (entre LP, K7 e o recente CD), em 1990 este total foi para 45,2 milhes. O que seria a mais grave crise do setor at ento.26

E ainda assim o Roupa Nova continuaria ganhando discos de ouro, enchendo shows, colocando msicas nos top 10 das AMs e FMs e vendo programadores das rdios brigando para lanar as novidades do grupo. Alm disso, os integrantes fariam muitas e disputadssimas entrevistas ao vivo.

A banda, naquela poca de crise, aproveitou de fato todas as oportunidades que a gravadora conseguiu para a divulgao dos LPs Frente e versos, em 1990; Ao vivo, em 1991; e The Best en Espaol de 1992. Conversas sempre muito animadas nas emissoras, com piadas e gracinhas, como se os msicos j estivessem prevendo os tempos difceis que viriam, especialmente para o Roupa Nova, naquela dcada de 1990 - depois do estouro do sertanejo, pagode, ax, e funk no pas.



As rdios passaram por um processo de popularizao no final dos anos 1980, incio dos anos 1990 - sendo possvel encontrar um aparelhinho ligado nas FMs dos bairros mais pobres aos mais ricos. O que faltava eram estas emissoras adequarem a sua programao musical ao gosto de um batalho de novos ouvintes, antes adeptos apenas das rdios AM,27 avaliou Paulo Srgio de Souza, quando atuava na programao da rdio Manchete.

E neste ponto, o Sistema Globo de Rdio sairia na frente ao tirar do ar, ainda em 1978, a rdio de rock Eldorado FM, ou melhor, Eldo Pop, dando lugar para uma outra emissora, de programao mais popular e com muita msica brasileira: a 98 FM. A primeira rdio de sucessos populares da histria do Rio de Janeiro, com programas famosos como o Good Times, s de flashbacks - criado por Robson Castro, sucedido posteriormente por Fernando Borges. A rdio chegaria, nos anos 1990, como lder de audincia, com artistas como o Roupa Nova sendo entrevistados, com frequncia, por locutoras como Mara Torres, em programas como o que foi ao ar em junho de 1990, no Especial com o Roupa Nova.

Mara: Feghali t pedindo a palavra? A palavra  sua.

Feghali: Vou contar uma histria. A gente no show do LP Luz, como tem essa admirao pelos Beatles... a gente fez o Yesterday a capella. S o vocal. Ento aconteceu de todo mundo Poxa, vem c, o Yesterday no t no LP? Como  que  esse negcio? A gente vai comprar o LP e Yesterday no t? Ento a gente quer dizer pro povo que: o Yesterday s vocal tambm est no disco [Frente e versos].

Serginho: Inclusive o Paul, quando soube que a gente no ia colocar a msica no disco, ficou chateado: P, eu viajei quilmetros de distncia pra chegar aqui e o disco de vocs t saindo e no vo colocar minha msica? Poxa 5.001 execues...

Feghali: Eu quero dizer que no foi por causa da vinda do Paul. Quando a gente decidiu fazer o Yesterday a capella a gente nem sabia que o Paul viria.*

Serginho: Foi mais ou menos o que aconteceu com Lumiar. O Lumiar fazia parte do primeiro show que era o LP com Cano de vero. Como Lumiar comeou a dar muito certo, no segundo LP, todo mundo perguntava: Vocs no vo colocar Lumiar? No vo colocar? E a gente acabou colocando! Ento da o Yesterday! No que Lumiar parea com Yesterday ou Yesterday parea com Lumiar...

Feghali: Mas as duas so do Beto Guedes. [Risos no estdio]

Nando: Agora, pro ano 2000, ns estamos preparando uma homenagem ao cara que veio no ano 2000: John Lennon... [Risos de todos]



A FM 105, do Sistema Jornal do Brasil, era conhecida na dcada de 1990 por tocar msica popular mais voltada para o estilo romntico. Era A rdio de bem com a vida para os ouvintes, que participavam ativamente de suas aes; e contava com programas como o Sala de Visitas, apresentado por Ana Flores. Nele a locutora recebia os artistas para falar de seus discos e fazia entrevistas que eram a alegria do povo - principalmente quando se tratava do Roupa Nova, com as perguntas inusitadas que a produo gostava de colocar no quadro. Foi o caso daquela participao do grupo em maio de 1994.

Ana: Ento, vamos l! Como voc faria pra vender a sua imagem? Tipo classificados.

Paulinho: Quem no  o maior, tem que ser o melhor.

Ana: Verdade, arrasou!

Paulinho: Se cabelo fosse bom no nasceria na perna.

Ana: Mais um!

Paulinho: Tem mais um, mas no posso dizer na rdio.

Serginho: Eu me venderia como um cara super-rigoroso em horrio. Cobro de todo mundo mesmo! Sou chato pra caramba. Mas sou sincero pra caramba. Quando gosto das pessoas eu vou at o fim. At que aquela pessoa me prove o contrrio. Eu sou um cara muito chato. Cobro muito das pessoas, mas sou muito sincero. Quando eu me dedico, quando eu me entrego, me entrego mesmo. Quem quiser comprar...

Paulinho: Pelo menos ele se vende, mas entrega. Tem gente que no entrega!

Ana:  verdade. Nando: Eu me vendo, mas no me compraria. [Muitos risos] Eu sou chato. Sou danado de chato! Me cobro o tempo todo. Acho que no fiz direito, devia ter feito melhor. Sou paranoico com essas coisas, mania de querer fazer na perfeio. Acho que eu no me compraria, no. Deve ser difcil morar comigo. Deve ser muito ruim.

Ana: E Feghali, como se venderia?

Feghali: Esse negcio de brincar  com o Paulinho mesmo. Agora  hora de falar srio! Eu t vendendo um digital-piano da Roland, um Proteus, um Rack e um Mixer.

Ana: Telefone pra contatos?

Feghali: Contatos Estdio Roupa Nova. Alis, ns temos um estdio com 32 canais agora! O artista que precisar,  s entrar em contato com a gente. Sensacional! J gravaram l: S & Guarabyra, Alceu Valena, Pepeu Gomes, Paralamas do Sucesso, vinhetas... Vendi o peixe ou no vendi?

Ana: Este que  um comercial serssimo!

Paulinho:  um negcio... Olha o sobrenome: Feghali!

Cleberson: Eu t com o Serginho, e t com o Nando. Vou fazer uma mixagem dos dois. Eu no sei se eu me venderia, porque tem hora que nem eu me aguento!

Kiko: Vende-se um churrasqueiro de primeira! Cerveja geladinha e tudo mais! Se voc quiser comprar, comparea l em Iguaba. O churrasco  uma delcia!

Paulinho:  churrasqueiro nas horas vagas. Nas horas de trabalho, vende-se um guitarrista na presso! [Mais risadas de todos]



- Oi, Bia, vamos marcar uma reunio? - perguntou Serginho, ao telefone, para Bia Aydar, logo aps a sada de Anelisa e Valria do Roupa Nova.

Nando ligaria, em seguida, para reforar a inteno da banda.

Bia e sua irm, Fernanda Nigro, eram conhecidas do mercado musical e j haviam atuado com nomes como Gonzago, Guilherme Arantes e o grupo Premeditando o Breque - famoso e conceituado na poca. Duas das poucas mulheres que atuavam como empresrias na indstria fonogrfica, assim com as irms Monique e Sylvinha Gardenberg.

Assim, considerando a recente experincia bem-sucedida com duas mulheres de personalidade forte, cham-las foi apenas uma consequncia.



Bia e Fernanda gostaram do grupo e at mesmo daquela confuso de todo mundo falar ao mesmo tempo, logo na primeira reunio. Assumiram, ento, a carreira do Roupa Nova a partir disso, e viajaram com eles, da mesma forma que faziam Anelisa e Valria. Eles so excelentes msicos! E desde 1990 at hoje  o que tem de melhor no mercado, declara Bia. Sendo que Fernanda era quem ia mais para a estrada com eles.

- Bia, voc tem que ver que loucura foram os shows! Todo mundo cantando tudo!

As duas tinham noo do sucesso deles, mas no tinham a menor ideia de como era na estrada. E tomaram um susto ao ver a mobilizao das pessoas por causa dos msicos, e a paixo dos fs que estavam por todos os cantos do Brasil, inclusive se hospedando no mesmo hotel do grupo durante as viagens.

- Oi, por favor, tem como colocar eles em outro andar? - pediu Bia, em uma turn, ao notar que o andar reservado para a banda estava todo tomado de fs. Segundo ela, Parecia o Lulu Santos na dcada de 1980. Aonde quer que eles fossem o povo ia atrs! Esses meninos aguentaram cada rojo... Era uma vida muito maluca! De quarta a domingo rodando o pas.



- Ai, caramba... A gente no consegue convencer os seis.  um ou outro! - comentou Fernanda com a irm, aps conversar com o grupo sobre as roupas e o visual deles.

Como convencer Serginho a cortar o cabelo? E Feghali a tirar o bigode? Ou Cleberson a colocar lente? Elas tinham uma atuao grande sobre o Roupa Nova, e tentaram influenciar na postura e em como eles se vestiam. Mas como conseguir unanimidade naquela votao democrtica?

- Quer saber, F?  assim que vai ficar!



- Vocs no tm uma vida de artista, mas uma vida de msicos! No  um cara que  o artista e fica em um camarim separado, e no outro os msicos! No podem brigar  toa! -argumentava Bia, na tentativa de apaziguar os nimos quando uma discusso boba comeava por causa do som.

Aquela era a principal razo de briga entre eles na poca em que elas eram as empresrias. E, com toda pacincia de me falando com os filhos, de mulher que tinha calma para lidar com homens, ela sentava com o grupo para conversar e tentar ajud-los, sem tambm invadir o espao de cada um.

- Gente, isso  muito pequeno. Vocs no precisam se desgastar por causa disso...

Tentando reativar, aos poucos, o companheirismo que existia entre eles. Depois do Roupa Nova, eu no peguei nenhum grupo que tivesse tanta cumplicidade.  diferente trabalhar com eles, afirma Bia.

E, segundo ela, para ser empresria da banda  preciso ser um pouco psiclogo. Eles so uma famlia que briga, se ama e se odeia.



Ricardo Feghali, que j botava a mo em todas as demos da banda, foi quem deu a ideia de montar o Roupa Nova Studios. Vislumbrava fazer demos melhores, com emoo e qualidade, e ganhar uma graninha com o aluguel do espao.

- Vamos? Quando a gente fizer a demo, valeu!

- Ih... Isso no vai dar certo! Uns vo trabalhar pra caralho e outros no! - disse logo de cara Nando.

J os outros integrantes torceram o nariz para a sugesto do tecladista. Mas Ricardo, como ensinara sua av Jandira, insistiu:

- Gente, t fazendo produes para a Polygram. Posso virar para um Mayrton Bahia da vida e falar: A gente faz quatro discos pra voc, e voc paga mais barato!  vista!

- Voc t maluco! O cara no vai topar! - recuou Cleberson, ao lado dos outros msicos, tambm desconfiados.

- E se ele topar?

- Ento vai l ver!

Como se eles no conhecessem aquele filho de libans... Feghali, na semana seguinte, falou com Mayrton, que topou a empreitada, e assim o estdio nasceu, tendo como funcionrio o tcnico Flvio Senna, que saiu da RCA para assumir toda a parte operacional do negcio, junto com Nestor e Sidinho.

- P, vocs podiam colocar o nome no estdio de Vcio! - sugeriu ele para o grupo, adorando aquela mudana na carreira aps tantos anos sendo exclusivo da RCA.

Com equipamentos novinhos e chefes que Flvio conhecia muito bem, o estdio estreou com os quatro discos prometidos para a Polygram, com base do Roupa Nova - entre eles, o da ex-paquita Andria Sorveto e o do cantor Conrado. Para depois, outros artistas migrarem suas produes para l.

- Gente, eu t em Los Angeles! Parece que eu t em um estdio de Los Angeles! - comemorou o Porquinho, Michael Sullivan, ao conhecer o local, que teria como seu primeiro trabalho, aps o pacote da Polygram, o disco de Alceu Valena, Sete desejos, gravado entre 1991 e 1992 e com produo de Guto Graa Mello e o sucesso La Belle de Jour.

Alm disso, passariam pelo Roupa Nova Studios: Paralamas do Sucesso, Pepeu Gomes, Jos Augusto, Faf de Belm e outros nomes da msica brasileira.



Para os locutores das rdios, era sempre uma aventura fazer entrevista com o Roupa Nova. Primeiro, porque eles tinham que decorar o nome de todos os seis integrantes e treinar para no trocar Serginho com Paulinho, Cleberson com Ricardo ou Kiko com Nando. Afinal, diferente das outras bandas, todos eles costumavam participar das conversas.

Fernando Mansur, por exemplo, que passou por vrias FMs, conta que sempre teve o cuidado de dizer, antes, o nome de cada um que ia falar - para no confundir o ouvinte, em casa, que no estava vendo quem era. Embora, os integrantes dificultassem s vezes. Oi, aqui  o Cleberson, e era o Feghali falando, ou vice-versa. O que provocava risos ao redor de um nico microfone.

Segundo, porque os msicos eram rpidos nas piadas. E, se o locutor no prestasse ateno nas conversas paralelas, acabava boiando no papo, ao vivo. Alm disso, coitado do profissional que deixasse passar uma informao, como fez Mara Torres, em uma das passagens do grupo pela 98 FM. A emissora conseguiu a entrevista antes de todas as rdios, e Mara no conseguiu ouvir ou ver o disco antes de encontr-los. E, lgico, eles notaram!

- J que voc no sabia, Mara, o LP se chama Luz - anunciou o tecladista, no microfone.

- Obrigada, Cleberson! No era pra tornar pblica a coisa, mas tudo bem. Eu assumo no ar! Eu no tenho esses problemas. Confessei no incio que o LP era uma novidade - respondeu ela, para depois morrer de rir de uma das piadas do grupo e ainda ser delatada, de novo, pelo tecladista.

- A Mara acaba de pr o casaco na boca pra no rir. Eu falo mesmo!

Esse era o terceiro problema ao entrevistar a banda: se controlar para no dar gargalhadas. Seja do Nando imitando Maguila, Paulinho fingindo ser gay ou quando os msicos se sacaneavam, fazendo pardias dos seus sucessos, como em Volta pra mim: Amanheci sozinho, na cama um vasinho... e Se te fiz algo errado. Pedro, volta pra mim. Ou em A viagem: Pra voc caber assim no meu abrao, Tio. E at Dona: Maradona, desses animais.



E os filhos continuavam a crescer nos anos 1990. Entretanto, neste momento, mais espertos, mais antenados com as informaes do mundo e tambm com a msica. Afinal, como eles poderiam no se inspirar nas atitudes dos pais? Como no se encantar ao ver seu dolo reproduzindo, ao vivo, aquele som to bonito, que o fazia danar, sorrir e dormir, desde criana? E quantas vezes esses meninos e meninas no ficariam quietos s para assistir a seu pai afinando um instrumento, achando aquilo a coisa mais maravilhosa que j viram. Canes que permaneceriam em suas vidas como traos genticos, de to fortes.

Assim, a menina Twigg, apesar de nunca ter sido influenciada pela famlia para seguir a carreira musical, comearia a cantar pela casa, experimentando seus graves e agudos, nos anos 1990, e at se apresentando em bares - quando j no morava mais com o pai, Paulinho. Os trs filhos de Cleberson tambm demonstrariam interesse pela msica desde cedo, inclusive cantando msicas religiosas com o pai, no piano. E com o tempo ficaria mais evidente a paixo de Marcio pela bateria, Marcelo pela guitarra e Mauricio pelo baixo.

J Carol, sete anos mais nova que Twigg, terminaria a dcada de 1990 gravando voz guia para as produes de Ricardo, enquanto Thiago investiria na bateria. Guilherme, filho de Nando, se encontraria com a guitarra, e Kikinho ficaria maluco ao ver o presente que Kiko trouxera de Nova York no final dos anos 1980: uma bateria juvenil! Seu primeiro contato com aquele instrumento grandioso, embora o seu fosse pequeno. Sem nunca sonhar que o melhor ainda estava por vir: a majestosa Ludwig, bateria dos Famks.

Kiko deu o instrumento de presente para o menino, em 1989, com quatro tons enormes e um bumbo de 24 polegadas! Um monstro que engolia Kikinho, da mesma forma que fazia com Serginho no incio de sua trajetria. E que ele montou orgulhoso em seu quarto, para acompanhar as viradas e as batidas dos discos do Kiss e do Roupa Nova. Embora sua me Suely reclamasse bastante daquele negcio enorme ocupando o quarto inteiro do garoto. Coisas de me...

E foi a partir da Ludwig que ele realmente comeou a aprender a tocar bateria. Criando, com os amiguinhos, uma banda cover do grupo americano New Kids On The Block, sucesso da garotada em 1991! E Kiko, babando a cria, anunciava para todo mundo que o filho fazia apresentaes no playground do prdio, em Bonsucesso.



O ano de 1991 foi o da segunda edio do Rock in Rio, novamente promovido pela Artplan e realizado por Roberto Medina. E o estdio do Maracan foi o local escolhido para receber a Cidade do Rock, com atraes internacionais como Faith No More, George Michael, Guns N Roses, INXS, Santana, Jimmy Cliff, Joe Cocker, e Prince, alm das nacionais, como Lobo, Sepultura, Leo Jaime, Paulo Ricardo (aps o fim do RPM) e Tits. Quarenta e quatro nomes que se apresentariam do dia 18 a 27 de janeiro.

O Roupa Nova ficou com o dia 22, uma tera-feira ensolarada e bonita na cidade - mesmo dia do grupo sensao composto por danarinos e cantores: New Kids On The Block. Duas bandas que agradavam muito os mais jovens e adolescentes. Ou seja, o que no faltou foi pai chorando e lamentando por a, por ter que se despencar ao Maracan, com uma estrutura arranjada, para levar os filhos. Tirando aqueles animados, que curtiram muito a ideia de ter que levar os filhos para, de lambuja, assistir aos shows.

Os seis msicos brasileiros entraram no palco depois dos Inimigos do Rei, por volta de 7 horas da noite, diante de um pblico comportado: crianas brincando com o squeeze da Coca-Cola, pessoas lendo o caderninho de brinde do CCAA - com a programao do dia e as letras das msicas internacionais -, alm de muita gente em um clima tranquilo, sem qualquer briga ou confuso. E a recepo da plateia para a entrada da banda foi a das mais calorosas.

Enquanto o sol ainda se despedia de todos, por causa do horrio de vero, o grupo tocou Sapato velho, Cano de vero, Volta pra mim e outros hits. Antes de Feghali puxar:

- Vamos fazer ginstica?

Botando todo mundo para se movimentar e pular numa aerbica improvisada ao som de Clarear. O mineiro Beto Guedes abrilhantou a noite ao participar de Lumiar e Todo azul do mar, emocionando a plateia. E, por fim, bailarinos danaram ao redor do grupo com Esse tal de repi en roll, reforando a ideia do espetculo que o Roupa Nova sempre buscou fazer.



Muitos msicos reclamaram, no Rock in Rio II, dos privilgios que a organizao dava para as atraes internacionais em detrimento das nacionais. Tanto em relao ao som quanto ao tratamento. E os integrantes do Roupa Nova acompanhavam de longe essas discusses, sem polemizar mais a histria. Porm, no teve muito como escapar. E logo aps sair do palco, com a adrenalina a mil, alm do cansao, eles tiveram que lidar com aquela diferena, ao vivo.

- Stop! - disse um homem de terno e gravata, de quase trs metros de altura e dois de largura, colocando a mo sobre o peito de Serginho e impedindo a passagem pelo corredor que dava acesso aos camarins.

- Hein? Tira a mo de mim! Acabei de tocar, deixa eu passar! - pediu Serginho, em uma mistura de constrangimento e raiva, colocando o corpo para frente, forando a passagem.

No entanto o homem, segurana dos New Kids On The Block, era o triplo do tamanho de Serginho. E facilmente jogaria ele para longe dali. Naquele corredor ningum iria passar - fosse msico famoso, estrela de Hollywood ou o Papa!

Uma experincia horrvel e decepcionante para a banda, como descreve Serginho: Jamais pensei que iramos ser tratados com total falta de respeito pela parte da direo do evento, que foi conivente com os gringos.



O parque do Ibirapuera possui 1,6 milho de metros quadrados de muito verde, museus, monumentos e pistas de ciclismo. Uma rea de natureza e sossego no meio de So Paulo, e um dos pontos de atraes artsticas e culturais da cidade, com um ginsio de 95 mil metros quadrados de capacidade para 11 mil pessoas em suas dependncias - local perfeito para comemorar os dez anos do Roupa Nova.

Bia e Fernanda embarcaram no sonho dos msicos e providenciaram tudo de primeira para aquela noite: som, equipamento, luz e um cenrio gigantesco. Tudo branquinho no palco, e limpo! Com todos os fios embutidos e telas como caixas de retorno - a primeira vez, de que se tem notcia, que isso foi feito no Brasil. Um mega-show, com uma estrutura faranica, de custos altssimos - e que no seriam pagos com bilheteria. Um espetculo com toda pompa que o grupo merecia.



Na vspera da festa dos dez anos estavam todos tensos devido  dimenso daquele show no Ibirapuera - msicos, empresrias e equipe tcnica. O palco era to grande que ocupava metade do ginsio, e to alto que f nenhuma conseguiria escalar aquela estrutura. E um sistema de Fly PA seria utilizado, com caixas de som enormes penduradas nas laterais do palco, algo que tambm no costumava ser feito no pas.

- Desce a outra um pouquinho - pediu Flvio Senna ao reparar que a talha que segurava uma das caixas havia travado, enquanto os msicos passavam o som no palco.

- No, no, tem que ficar na altura - disse Renatinho, um dos funcionrios da Gabisom, empresa responsvel pelo som.

- Bom, se voc t dizendo...

As caixas eram muito pesadas, algo em torno de trezentos quilos, que ficariam suspensos durante toda a apresentao. E a Gabisom sabia que o sistema de som deveria estar impecvel para os dez anos do Roupa Nova. Por isso, ainda na fase da montagem, Renatinho resolveu subir em uma das caixas para ver como estava, com Flvio Senna e Luiz Pavo, que cuidava da manuteno dos equipamentos, embaixo da estrutura.

Quando, de repente, o acidente aconteceu. Algo de segundos. A talha soltou justamente no momento em que Renatinho estava em cima da caixa e despencou com tudo l de cima. BUM! A caixa ao tocar o cho fez um barulho ensurdecedor, como se uma bomba tivesse estourado dentro do ginsio. E deixou todos os envolvidos, que j estavam tensos, em pnico!

Bia e Fernanda, achando que a caixa tinha acertado tambm Flavinho e Pavo, tiveram uma crise de choro. O que piorou ao ver Renatinho, desacordado, no meio da caixa, todo ensanguentado, com o fio dando curto-circuito sobre ele e o grid de luz, que havia quebrado. Uma cena horrorosa para um show que devia ser maravilhoso. E que s no teve mais estragos porque Flvio, por sorte, disse antes para o Pavo, ao olhar para cima:

- PA brasileiro, Pavo. Vamos sair daqui debaixo dessas coisas.

Saindo do lugar errado, na hora certa.

A ambulncia levou Renatinho com urgncia para o hospital, e Flvio Senna foi para cima dos diretores da Gabisom, como um leo, revoltado com o que acontecera:

- Isso  uma irresponsabilidade!

Transtornado por ter visto tudo de perto, e por ter quase sido acertado pela caixa, logo s vsperas da grande festa. Sabe aquela coisa de ser jovem, de no compreender e de achar que voc pode tudo? Aquele acidente foi muito ruim, conta ele.

No dia seguinte, cerca de 7 mil pessoas tomaram o ginsio do Ibirapuera, sem atinar para o PA empilhado do lado, sem saber que Renatinho estava no hospital com sessenta fraturas ou observar a mixagem meia-bomba de Flvio Senna, que depois do show iria embora sem falar com ningum. Sumindo de tudo e de todos durante quatro dias em uma praia no Guaruj.

As pessoas s viram o Roupa Nova surgir de dentro do palco, ovacionados, com sorrisos largos, apesar de toda apreenso - como heris, dolos de suas canes.



Em 1988, Alceu Valena veio com o LP Oropa, Frana e Bahia, ano em que Lulu Santos lanou o disco Amor  arte - Lulu Santos & Auxlio Luxuoso. Dois trabalhos gravados ao vivo e mixados por Flvio Senna, que ainda no havia ficado satisfeito com os resultados. Isso porque no primeiro lbum ele tinha feito de acordo com o desejo do produtor, e no segundo ele ainda no tinha conseguido aperfeioar a sua tcnica. O que s aconteceria no disco do Roupa Nova, em 1991.

Gravar ao vivo ainda era um projeto caro nos anos 1990, mas o grupo j tinha amadurecido bastante a ideia para, enfim, tentar. E os shows ento foram realizados no Alameda 555 em Niteri, nos dias 27, 28 e 29 de novembro - com tudo gravado por duas mquinas de 24 canais. Para se ter uma noo, naquela poca, os LPs gravados ao vivo no Brasil ficavam com uma mudana brusca e grosseira de som entre as msicas. Exatamente o que Flavinho no queria!

S que ele no contou para a banda que, para fazer essas passagens mais suaves, abaixando e aumentando o volume, ele teria que cortar os rolos das fitas na mo.

- Ih, Flvio, ficou muito longo esse trecho!

- ? Pra a!

E l ia ele no lixo pegar o pedao que havia cortado para colocar de novo.

- E agora, melhorou?

Deixando Serginho desesperado ao ver Flvio cortando os nicos registros dos shows de Niteri, no Roupa Nova Studios.

- Cara, tira essa tesoura da!

O que fazia o tcnico morrer de rir, cortando a fita na frente do baterista, aflito por ver pedaos dos rolos espalhados pelo cho. Cortes que se tornariam, como mgica, o LP Ao vivo da banda. Do jeitinho que Flvio queria.



As entrevistas com Ana Flores, no programa Sala de Visitas da FM 105, eram regulares para o Roupa Nova na primeira metade dos anos 1990. E foi ali que o grupo divulgou o seu disco espanhol e contou sobre as turns para o exterior, em entrevista que foi para o ar em agosto de 1992.

Nando: A gente t levando muita f nesse disco em espanhol. Ele  uma coletnea de dez anos de trabalho da gente. Foi feito com muito carinho! Foi mixado l em Los Angeles [por Moogie Canazio] e deve estar saindo agora em setembro. E a gente t jogando uma cartada muito alta com esse disco. Inclusive, eu queria aproveitar, sem fazer tipo nenhum, para agradecer ao pessoal dos Paralamas que tem dado a maior fora pra gente l fora. Eles comearam a fazer esse trabalho dois anos antes do Roupa Nova, e tem dado a maior fora pra gente, no s encontrando e falando Vai ser legal e tal, como falando do trabalho da gente l e ajudando. Acho que a gente, em breve, vai encontrar com eles l.

Ana: Que bom! A unio faz a fora, n?

Feghali: A gente j toca l fora em portugus, n?

Serginho: E j  pirateado l fora.

Ana: , eu estive em uma rdio em Portugal e tocava muito Roupa Nova. Demais! O trabalho de vocs l fora realmente t muito bom. Sendo divulgado, e agora com o espanhol ento... Abre mais ainda, n, Ricardo?

Kiko: E a gente tem notcia de msicas da gente sendo gravadas em espanhol j com outros grupos.

Nando: Muito rapidamente! A gente faz a msica, lana, e eles gravam l fora.

Kiko: A msica Felicidade, no caso, que foi gravada agora no disco mais recente da gente, j foi gravada l tambm.

Enquanto isso, no Brasil, os outros segmentos musicais - ax, pagode, sertanejo e funk - ganhavam mais corpo nas FMs e gravadoras. Sobressaindo-se at mesmo sobre as canes que o Roupa Nova conseguiria emplacar nas novelas, como Felicidade, citada por Kiko na entrevista de Ana Flores. Sucessos da televiso que sempre estiveram em sintonia com as ondas das rdios.



Nota

* Paul McCartney veio ao Brasil, pela primeira vez, em 1990, e fez um show para 184 mil pessoas no estdio do Maracan.



CAPTULO 35

NOVELA HITS

O trabalho do Roupa Nova representa popularidade. Os diretores e autores da Globo gostam muito.

Guto Graa Mello

Andr Midani foi para o Mxico, encarregado de instalar a gravadora Capitol/Odeon, fundada com 50% de capital mexicano do grupo Televisa, em 1964. Por conta disso, se aproximou dos canais de TV do pas, ganhando experincia em vrios aspectos ao retornar para o Brasil em 1967, quando assumiu a gerncia geral da Philips. O que culminou, principalmente, na proposta para a rede Globo da produo da trilha sonora de Vu de noiva, em 1969. A primeira telenovela brasileira com msicas feitas especialmente para o seu enredo.

Antes disso, as trilhas das telenovelas eram msicas incidentais, com pequenos temas se repetindo, em uma poca em que no existia hegemonia entre as emissoras Tupi, Excelsior, Paulista, Record, Globo e Bandeirantes. Uma simples parceria entre Philips e Globo, que viraria disco, com mais de 100 mil cpias vendidas, apontando claramente o potencial daquele negcio.

Daniel Filho forneceu as sinopses e Nelson Motta teve de convencer artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque e Marcos Valle a fornecerem msicas inditas. J que, naquele tempo, existia um preconceito com as novelas. Entretanto, depois do sucesso da venda dos discos da trilha sonora - o 19o mais vendido em 1970, segundo dados do Nopem -, e os altos ndices que a novela obteve, sendo de acordo com o Ibope o programa mais assistido durante o primeiro semestre de 1970, outro cenrio na indstria fonogrfica brasileira passou a surgir. Tanto que a Globo, mais que rapidamente, colocou a sua prpria gravadora, Som Livre, para fazer as trilhas, aps um ano de contrato com a Philips. O que se resumiria basicamente no seguinte esquema: com a sinopse nas mos, o produtor entraria em contato com todas as gravadoras para pesquisar o que estava sendo produzido no mercado, escolhendo msicas inditas ou no, e fazendo sua adequao.

Fortalecendo a marca de todos os envolvidos na interao entre trilhas sonoras e telenovelas. O que o diretor Daniel Filho chamaria de uma grande jogada de marketing, no qual um produto promove o outro.28 Ou seja, uma popularizao mtua de cano e novela, rede Globo e artistas musicais - nomes como Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethnia, Simone, Rita Lee e Roupa Nova.



Segundo Guto Graa Mello, que fora diretor musical da Globo, s a partir do respaldo de Milton Nascimento, medalho da MPB, e das outras gravaes feitas pelo Roupa Nova,  que os seis msicos passaram a ser respeitados pela classe musical artstica. Na opinio dele, chegou um momento em que a banda estava acima dos preconceitos, e o Roupa tornou-se, ento, figurinha fcil no gosto dos diretores e autores de telenovelas, como se o grupo tivesse as caractersticas fundamentais para bombar um personagem em uma produo. As pessoas se sentiam  vontade quando os msicos da banda chegavam para as reunies, eles tinham empatia.

- Tem que resolver esse personagem... T complicado. A gente precisa de algo mais alegre, romntico e jovem. Tem que pegar!

- Bota o Roupa Nova que d certo!

O que resultaria em mais de quarenta canes em trilhas sonoras de 31 telenovelas - de 1980 a 2012, entre composies prprias, participaes com outros artistas e tambm como intrpretes - sendo a maioria delas executadas na rede Globo. Alm de um disco de ouro pelo lbum Novela Hits, que seria lanado pela RCA em 1995. O que faria do Roupa Nova, com o decorrer dos anos, o recordista com o maior nmero de temas de novelas do Brasil, praticando na telinha o que eles aprenderam desde os bailes: o tom exato da comunicao direta com o pblico.



Asa Branca...  cidade arretada! Local onde Luiz Roque Duarte foi dado como morto e santificado pelo povo. Para l, e com vida, voltaria dezessete anos depois, para desfazer todo aquele mal-entendido. Causaria balbrdia entre os moradores e frisson na sua viva Porcina, que estava de romance com o todo-poderoso sinhozinho Malta - interpretado por Lima Duarte -, botando mais pimenta nas brigas interminveis daquele casal apaixonado.

- Eu me caso  contigo, Porcina. Eu me caso contigo na igreja, me caso contigo no juiz, me caso contigo como tu sempre quis! Vestida de vu e grinalda, flor de laranjeira como tu sempre sonhou. O que tu me diz? O que tu me diz, minha santinha? - dizia em uma das cenas sinhozinho Malta para Porcina, que, sorrindo de um canto a outro da orelha, como se aquela fosse a coisa mais bonita que ouvira, responderia alto:

- Te digo no!

E vai embora da casa do ex, enquanto a msica Dona entrava com tudo em cena, na voz de Serginho. No h pedra em teu caminho, no h ondas no teu mar... Uma cano que levaria as vendas do disco da novela s alturas! Alcanando quase a marca de 1 milho de unidades vendidas, sendo a segunda msica mais executada nas rdios do Brasil, em 1985.

Por essas e outras que Mariozinho afirma que a trilha de Roque Santeiro, produzida por ele, foi a que mais o emocionou em toda sua histria na rede Globo. Cada telespectador, com certeza, eleger a sua. E,  claro, ter na memria as msicas que marcaram cenas de sua prpria histria,29 diz ele. Canes e personagens que invadiram a casa dos brasileiros e fizeram parte da vida de muita gente.



O rei Petrus II est  beira da morte, e o reino de Avilan est prestes a ser governado pela sua mulher, a rainha histrica Valentine, em 1789, aps a Revoluo Francesa. E um dos conselheiros reais, Bergeron, temeroso sobre as artimanhas do feiticeiro do palcio, Ravengar, conversa com sua esposa Madeleine.

- Mas eu vou fazer! Um dia eu acabo com a misria desse pas! - diz ele, diante dos olhos apaixonados de Madeleine.

- Ai, eu te admiro tanto... De todos os conselheiros do rei voc  o nico que pensa nos pobres...

Ento, Bergeron se vira para o espelho e calmamente coloca em palavras sua revolta:

- A misria, minha querida Madeleine,  a pior das doenas.

Enquanto uma msica ao fundo, com uma guitarra fazendo a introduo, vai aumentando. E ele continua seu discurso inflamado:

-  um tumor maligno que acaba com o pas.  preciso extirp-lo pra sempre!

Tirando o leno que estava por cima de sua roupa, com raiva, deixando apenas a msica terminar a cena, Paulinho cantando Chama: Vai! E avisa a todo mundo que encontrar... At entrar outra cena com uma carruagem de cavalos.

E isso foi exibido na rede Globo no dia 13 de fevereiro de 1989, no primeiro captulo da novela Que rei sou eu, com Marieta Severo no papel de Madeleine, e o diretor/ator Daniel Filho como Bergeron. Uma produo bem-humorada, sem ser pastelo, que abrasileirou a Corte francesa, criticando a sociedade e o cenrio poltico do pas no final dos anos 1980. Um roteiro brilhante de Cassiano Gabus Mendes, com um elenco de primeira e msicas escolhidas a dedo - que, at hoje, deixam saudades em quem assistiu.



O Roupa Nova colecionava dez canes em onze novelas da televiso brasileira*, quando recebeu, em 1987, da TV Manchete a encomenda de fazer o tema de abertura da sua prxima produo: Corpo Santo. Uma novela que teria em seu elenco atores como Christiane Torloni, Reginaldo Faria, Mait Proena e Jos Wilker.

A melodia de Feghali iria ganhar letra de Nando, e tudo deveria ser feito com rapidez. Porm, se no bastassem as brigas do grupo pelos direitos autorais neste perodo, a vida do baixista estava de ponta cabea, com Regina passando por uma gravidez cheia de complicaes. E ele acabou escrevendo o tema, em casa, para entregar no dia seguinte, enquanto Regina estava no hospital perdendo o filho. Uma letra que saiu de uma vez s, juntando todos os seus sentimentos de conflito e tristeza, sem ter nada a ver com a novela da Manchete.

Quanto vale a chance

Pra quem tem a pressa de viver?

Abre o seu caminho

Sem ter tempo de se arrepender

Quem vai roubar o seu lugar no mundo?

Se o poder de crescer

De lutar e vencer

T batendo em voc

 o grito preso na garganta

 feito um medo sem motivo

Regina perderia trs bebs durante seu casamento com Nando, ficando entre a vida e a morte na ltima vez. E mesmo nas situaes delicadas de famlia, Nando no deixaria de entregar msicas ou fazer os shows pelo Roupa Nova. Chorando, muitas vezes, em cima do palco por problemas pessoais que estavam fora de seu controle. Eu vi o Guilherme nascer por sorte! Mas, se eu tivesse que tocar no dia, eu iria. No deixaria de ser pai por causa disso, relataria o baixista, que considera a msica do Corpo Santo uma das coisas mais bacanas que escreveu.



A revista Amiga registrou em seu nmero 901, edio de agosto de 1987, a nota: Roupa Nova abre o corpo com as vinhetas da rede Manchete. O texto afirma: Desde o ano passado, o grupo Roupa Nova vem se transformando num grupo quase oficial da TV Manchete. Alm de seus integrantes serem autores das vinhetas que abrem os principais jornais da emissora, assinam os arranjos das principais faixas da trilha de Corpo Santo e do tema de abertura na novela, Um lugar no mundo, de Feghali e Nando. O trabalho de vinhetas foi feito por ns durante alguns anos com o apoio do maestro Eduardo Souto Neto, que nos convidou a trabalhar tambm para a Manchete, explica Serginho. Outra emissora de televiso na qual o Roupa Nova tambm imprimiria sua identidade musical.



Guilherme, aos 4 anos de idade, em 1989, estava brincando, distrado, juntando pecinhas coloridas para que elas se transformassem em casas, carros e foguetes, enquanto Nando brincava com seu violo, Pete, no sof, em um dos quartos da casa. O menino esticava os olhos de admirao sobre o pai, nos intervalos das histrias inventadas, e Nando, de rabo de olho, via o filho concentrado. Pxa, ele t crescendo to rpido... E os dois ficariam ali durante horas, naquela tarde tranquila do Rio de Janeiro, curtindo a companhia um do outro, embora estivessem fazendo duas coisas completamente diferentes.

Quando de repente Nando comeou a bater o p, em um ritmo gostoso, que lembrava uma melodia que ele no conhecia. O msico ouvia muito, neste perodo, o pianista americano Bruce Hornsby, com a cano The Show Goes On, que podia at ser uma influncia da levada que ele estava tirando no violo. Mas a msica no era bem essa que estava vindo em sua mente. Hum... Legal isso! E ele foi ento desenvolvendo a ideia, tocando, repetindo harmonia, mudando viradas, para enfim ter, aps quarenta minutos, uma nova cano. Sem letra, sem ter noo do que poderia falar. Uma melodia que por si s j lhe parecia muito boa.



Mariozinho foi convidado pela rede Globo para atuar, em 1989, como diretor musical da emissora, depois do freelancer da produo da trilha sonora de Roque Santeiro. E passaria a ser responsvel pelas trilhas de novelas, minissries e aberturas dos programas. Mesmo ano em que recebeu do Roupa Nova uma msica pronta, com arranjo, tudo certinho, mas com uma letra em ingls sem sentido. Apenas para fazer a voz guia da cano - o que alguns chamam de monstro.

- Hum... Gostei disso. Vou mostrar pro Daniel.

Em seguida, ele apresentou aquela verso com o ingls doido para o diretor artstico Daniel Filho, na inteno de encaixar em Rainha da Sucata - prxima novela das oito.

- P, a msica  boa pra caramba! Poderia at ser a abertura! - comentou o diretor, empolgado ao ouvir a cano.

O que s no aconteceu por causa da febre chamada lambada que tomava o Brasil no incio dos anos 1990. Boni, vice-presidente de operaes, de olho nessa tendncia nacional, optou por Sidney Magal, com Me chama que eu vou, para abrir a produo, e a msica de Nando foi mandada por Mariozinho para compositores como Renato Ladeira. Porm, foi Aldir Blanc que entendeu a alma da protagonista da novela e a traduziu em versos. Uma cano que, aps ter o refro alterado, ganharia o nome de Corao pirata, destinada para ser tema de Regina Duarte, na pele da sucateira Maria do Carmo - uma mulher teimosa, que lutou na vida e venceu. E que lembrava outra moa de personalidade arretada, conhecida como Porcina.



Como a msica era para entrar na novela de 1990, Mariozinho se meteu na gravao de Corao pirata, da mesma forma que fazia com o Roupa Nova quando estava na Polygram. Disse o que e como queria. E Miguel tambm acompanhou esse processo de perto, j que se tratava de uma cano para entrar na Globo.

- Eu quero o Nando cantando!

- No, no... O Nando no canta legal. Vamos fazer com o Serginho - rebateu Miguel.

S que a msica no estava no tom do baterista. E ele logo se manifestou quando ouviu seu nome:

- R maior no d pra mim!

- Gente, vamos fazer em d ento - disse Miguel, tentando ganhar essa do Mariozinho.

No entanto, o produtor no sossegou e, aps ouvir Serginho, insistiu:

- Enfia no cu isso a! Eu quero o Nando, e em r maior!

- Mariozinho...

- Miguel, tem que fazer o uivo!** O Serginho no faz o uivo!

- Que uivo, caramba?

- Do refro! Nando, vai l!

Mas quem disse que o baixista estava animado pra cantar?

- Ai, cacete, por que ele no coloca o Serginho numa e o Paulinho na outra... - resmungou ele, entre os dentes e um pouco nervoso.

E l foi, mais uma vez, o baixista contrariado para o microfone.

- Ele cantou, mas foi a frceps! - Diverte-se hoje, Mariozinho ao lembrar o fato.

Como tambm brincaria Nando nas entrevistas, aps o incio da novela:

- Eu canto uma msica a cada dez anos. A primeira foi em 1980,*** agora em 1990 tem Corao pirata e eu j t preparando uma nova para 2000.

Uma gravao que saiu na marra e se tornaria um sucesso tambm fora da novela. Com Nando na voz principal, uivo no refro e em r maior.



Paulinho estava conversando com um amigo na rua, quando foi abordado por um desconhecido:

- Voc  aquele cara que canta no Roupa Nova, n no?

- L todo mundo canta, mas...

- T, t, t, eu sei, mas voc  o que canta mais, certo?

Pelo comeo da conversa j dava para ver que seria meio torto o rumo da prosa. Mesmo assim, Paulinho decidiu atender aquele cidado com a maior boa vontade, enquanto o f disparou a falar sobre o conjunto. Comentou canes, opinou sobre o trabalho e encheu de todo tipo de perguntas o vocalista, que respondia uma por uma, com toda a pacincia do mundo. S que a curiosidade do rapaz no acabava mais:

- Vem c, me conta uma coisa: voc fez Corao pirata baseado na sua vida, n?

- Hein?

- , a letra  inspirada em voc, pode confessar.

- Em mim? Espera um pouco, acho que voc entendeu mal...

- Hum... No sei, no. Voc  que no est querendo falar a verdade.

- Olha, para incio de conversa, essa letra no  minha,  do Aldir Blanc. E, depois, quem canta nessa msica  o Nando, nem sou eu!

Paulinho falou, explicou, mas nem o argumento usando o Nando como exemplo serviu para convencer o f:

- Ah,  o Nando? Bom, mas ele fala sobre voc?

- Por que voc t dizendo isso?

- Ah, principalmente por causa daquele trecho Eu compro o que a infncia sonhou... - cantou o f para Paulinho, que olhou assustado sem entender de onde ele tinha tirado aquela ideia maluca.

- Por que essa parte? Voc acha que eu sou milionrio?

- Aaaaah... Vai dizer que no? - respondeu o rapaz, com cara de quem duvida.

Parece piada, mas esse fato realmente aconteceu. Cleberson chegou a brincar com Paulinho, em uma entrevista, na tentativa de explicar o sucedido: Vai ver que ele achou que voc tinha cara de dono de sucata! Vai entender... Corao pirata, sucesso do disco Frente e versos, mexeu com o imaginrio de muita gente em 1990, talvez pela grande identificao existente entre a msica e Maria do Carmo, papel vivido por Regina Duarte, na novela da TV Globo Rainha da Sucata. A espalhafatosa mulher de negcios tornou-se uma das figuras antolgicas da televiso e, hoje,  at difcil saber se foi a cano que aumentou a popularidade da personagem com o pblico ou vice-versa. Mais uma vez ela, Regina Duarte, dando uma fora na carreira do Roupa com as novelas.

S que ao contrrio do que supunha o desconhecido que abordou Paulinho, Corao pirata mostrava a estampa que a personagem de Regina Duarte tentava manter para os outros: a imagem de algum que no se doa, que no ama e que no se permite chorar. Pura fachada. Os telespectadores cansaram de ver cenas dela chegando em casa aos prantos, em frangalhos, por causa de Edu, personagem do Tony Ramos. A mulher bem-sucedida, famosa e cheia de dinheiro que, no fundo, sofria por um amor no correspondido.

E no, com toda certeza, no: o Paulinho no estava milionrio.

As pessoas se convencem

De que a sorte me ajudou

Plantei cada semente

Que o meu corao desejou



Grandes msicas, nos Estados Unidos, foram feitas sob encomenda para espetculos, com compositores como Cole Porter, George Gershwin e Richard Rogers. No Brasil isso tambm aconteceu em alguns casos, como a letra de Carinhoso - feita por Joo de Barro em 1937, sobre a melodia de Pixinguinha, para Juju Balangands. Vinicius e Toquinho, por exemplo, fariam toda a trilha de O Bem-Amado, em 1973, e Marcus Viana se tornaria conhecido do grande pblico aps Sinfonia da natureza na abertura de Pantanal, em 1990.

No caso do Roupa Nova, muitas msicas foram encomendadas para novelas - e eles s vezes atuaram como compositores, outras como arranjadores ou intrpretes. Porm, na opinio de Guto Graa Mello, as melhores foram as espontneas. Eu recebia uns cinquenta CDs por semana! A vinha o Nando: Guto, a gravadora vai te mandar um negcio. D uma ouvidinha a! E era muito simples. Se eu gostasse, levava para a reunio em que a gente montava o disco. A gente tocava e, invariavelmente, a do Roupa estava dentro.



Porcina, Maria do Carmo, Helena e lvaro, Bergeron, Lucas, Maria Luz, Gui, Ulber, Cristal e Tony, Mirna, Alexandre, Fred e Goreti, e muitas outras figuras da televiso brasileira choraram, viveram seus romances e desenvolveram suas tramas ao som do Roupa Nova - principalmente, nos anos 1980 e 1990. Tudo isso nas novelas - da Globo, do SBT, da Manchete, da Band e da Record - que fizeram (e fazem) parte do imaginrio coletivo dos telespectadores.

Msicas que invadiram as casas e os sonhos das pessoas, como Cano de vero, na produo As trs irms, de 1981. Afinal, quem no se lembra do gal Kadu Moliterno interpretando Lucas, paixo das trs amigas: Maria Jos (Glria Pires), Maria da Glria (Mait Proena) e Maria Augusta (Ndia Lippi)? Ou da abertura de A viagem, de 1994, com msica de mesmo nome, e o amor alm da vida de Dinah (Christiane Torloni) e Otvio (Antnio Fagundes)?

Whisky a Go Go, de Um sonho a mais, em 1985, fez os jovens danarem, enquanto Dona, em Roque Santeiro, no mesmo ano, despertou a fora de mulheres e encantou os homens. Corao pirata, 1990, na novela Rainha da Sucata, catou os cacos de coraes em frangalhos, e De volta ao comeo mostrou as belezas de nosso pas pelas terras do coronel Jos Inocncio (Antnio Fagundes), em Renascer, 1993. E at a releitura de Esse tal de repi en roll - do Roupa Nova com a banda americana The Commodores - fez muita gente se divertir com as investidas hilrias do pobreto Doca (Cssio Gabus Mendes), que se passava pelo riquinho Eduardo Costabrava para conquistar Vitria Venturini (Lizandra Souto), em Meu Bem, Meu Mal, de 1990. Canes que cumpriram o seu papel de refletir o sentimento ou o estado dalma dos personagens, fossem eles mocinhos ou viles. Trilhas sonoras de casamentos, namoros e outras histrias da vida real, e que seriam lembradas assim como as novelas.



Notas

* A msica Sensual entrou nas novelas Direito de nascer (produo mexicana exibida no SBT) e Voltei pra voc (exibida na rede Globo). Ambas de 1983.

** De acordo com Nando, a inflexo que Mariozinho gosta, ele aprendeu ouvindo um cantor antigo chamado Harry Nilsson.

*** Nando cantou Bem Simples, contrariado, no disco que seria lanado em 1981.



CAPTULO 36

DE VOLTA AO COMEO

Foi ruim estar fora da mdia. S tocava sertanejo e pagode! E o Juca foi quem segurou essa poca complicada!

Cleberson Horsth

- E o Roupa Nova?

- Eles ficam. Pelo menos por enquanto.

Em 1987, a gravadora RCA Victor foi comprada pelo Grupo Bertelsmann, a BMG, e passou a ser chamada de BMG-Ariola. E, em 1993, o publicitrio Luiz Oscar Niemeyer assumiu a presidncia da companhia no lugar de Manolo Camero, levando como seu homem de confiana Mauro Scalabrin, com quem havia trabalhado na Mills e Niemeyer.* Juntos, eles fariam uma transformao na gravadora, com o objetivo de apagar a memria RCA e fazer tudo de novo com uma viso mais moderna. Em um momento em que a economia do pas passava por uma relativa estabilidade com o Plano FHC e depois o Plano Real, o mercado da indstria fonogrfica brasileira crescia novamente, aps a queda de preos dos CDs.

Assim que assumiram a gravadora, Niemeyer e Scalabrin fizeram uma reunio para ver quem continuava na companhia. E o Roupa Nova, por ter um posicionamento artstico comercial interessante e nmeros de venda favorveis, sobreviveu  primeira anlise. Um dos poucos artistas que restariam no cast da gravadora, que foi reduzido de 65 nomes em 1988 para 33 em 1994.



Alm da chegada de Niemeyer na gravadora, o Roupa Nova teria de lidar com outra mudana em 1993: a sada de Bia e Fernanda.

As irms, cansadas da estrada, decidiram largar todos os artistas com quem trabalhavam para se dedicarem a grandes eventos, como o show da Madonna no Brasil. E se despediram do grupo emocionadas pelo tempo que haviam passado com eles, deixando para trs a incgnita de quem poderia assumir a banda.

Por indicao de Miguel Plopschi, o grupo conheceu Juca Muller, que era empresrio do Fagner, tambm da BMG-Ariola, e trabalhava com o irmo Bernardo.



Os seis msicos j estavam sentados na sala do Roupa Nova Studios, quando Juca Muller chegou para conhec-los. Todos ao redor de uma mesa enorme, a menos de dois metros do empresrio, com expectativas distintas sobre o que esperar daquele encontro. Caramba... Eu vou ter que falar com todos eles ao mesmo tempo?, pensou Juca logo que se deu conta da situao. Um susto para quem j havia atuado com bandas, como o Hani-Hani, e que estava acostumado a interagir com apenas um dos integrantes, e no tinha intimidade com o histrico do Roupa Nova, nem era f. Hum... Quem deve ser o lder?

- Bom, Juca, a gente te chamou aqui porque... - comeou a falar Feghali para o empresrio, que j virou todas as atenes para o tecladista. Ento esse  o dono!

- Mas voc acompanha o nosso trabalho? - perguntou Kiko. Ento esse  o dono!

- E com outros grupos, Juca? Porque ns funcionamos com votao e... - comentou Serginho, com sua voz rouca, e a jugular saltando do pescoo. Nem parecendo o mesmo vocalista que cantava as msicas suaves do Roupa Nova. Ento  esse, cacete!

Milhes de perguntas para o empresrio, que se sentia perdido no meio daquele tiroteio sem saber se estava agradando, apesar de perceber todas as expresses faciais dos msicos diante das suas respostas. At porque cada um deles estava de um jeito! Paulinho, mudo, apenas o olhava falando. Nando fazia caras e bocas de quem estava preocupado. Kiko parecia mais animado, Cleberson, desconfiado. Serginho anotava palavras em um papel que ele no conseguia ler, e Ricardo parecia test-lo com suas questes. Putz, isso no vai dar certo...

Uma entrevista que durou algumas horas, at Ricardo se despedir do empresrio.

- Ento t, a gente te liga!

Com aquele tom tpico de Quem sabe um dia a gente se v!, Juca saiu dali desanimado e esgotado, achando que no ia conseguir a vaga, principalmente porque existiam outros empresrios interessados na banda. Bom, eu fiz o meu melhor. Porm, seu telefone tocou naquele mesmo dia.

- Vamos tentar!



Chitozinho e Xoror conquistaram o sucesso nacional aps a msica Fio de cabelo, na dcada de 1980, abrindo a porteira para que outras duplas sertanejas tambm se destacassem no mercado - como Leandro e Leonardo, Zez di Camargo e Luciano, Chrystian e Ralf, Joo Paulo e Daniel, Chico Rey e Paran e cantoras como Roberta Miranda. Artistas com tendncia romntica, que passaram a vender milhes de discos nos anos 1990 - alm de agradar o gosto das rdios do eixo Rio-So Paulo e, consequentemente, das novelas da rede Globo -, reforando o segmento e o crescimento do mercado de discos, como fariam tambm o pagode, o ax e o funk.

Porm, na contramo da popularizao das rdios, das canes e dos CDs, o Roupa Nova lanou um disco conceitual, em 1993, com onze releituras de compositores valorizados pelo grupo, como Milton Nascimento, Chico Buarque, Luiz Carlos S, Herbert Vianna, Z Rodrix e Gonzaguinha.** Uma tentativa de resistir s modas que tomavam o mercado, se reinventando e comeando de novo.

- Disco maravilhoso! - vibrou Mariozinho ao ouvir o novo trabalho, embora tenha achado uma escolha perigosa. - Mas vocs correm o srio risco de no atingir o pblico que vocs querem, e perder o que vocs j tm - afirmou Maneco, separando, em seguida, uma das faixas para entrar na novela Renascer e, por que no, ajudar o novo posicionamento da banda.***

Um LP que no poderia ter outro nome seno De volta ao comeo, com msicas adultas e voltado para a MPB. lbum que, na opinio de Juca Muller, venderia 1 milho de cpias se fosse lanado hoje, mas que, na dcada de 1990, no foi compreendido pelo pblico da banda, tampouco por Miguel Plopschi:

- Por que esse ovo quebrado na capa?



O primeiro show que Juca marcou para o Roupa Nova foi em uma faculdade de Caxias, no estado do Rio de Janeiro. E dali eles iriam direto para Fortaleza, onde tocariam no mesmo evento em que o Raa Negra.**** S que caiu uma chuva pesada antes do horrio marcado para Caxias, e os problemas comearam a aparecer:

- Pica-Pau, a gente vai ter que reconstruir o PA. Pifou uma caixa, tem que comprar! - pediu Juca, gastando o dinheiro que viria do lucro do show.

E isso antes de notar que seria impraticvel ter qualquer apresentao naquele ginsio, embora todos os msicos j estivessem l. Quer dizer, s se o pblico fosse de bote!

- A, fodeu! Perdemos o artista, velho! - disse Juca para seu irmo Bernardo, aps se convencer de que teria de cancelar o show.

- Mas a chuva no  culpa nossa, Juca!

- Bicho, primeiro show e essa tragdia? Imagina a carreira desses caras?



Certa vez, em entrevista para o nmero 31 da revista Bizz de 1988, Herbert Vianna, dos Paralamas, disse sobre ser msico: Com o passar do tempo, voc vai se tornando um escravo do que voc j fez, tem que superar seus prprios recordes... E a coisa j no  mais fazer msica,  superar ou pelo menos manter algo que voc j fez, e os nmeros e todas as presses... s vezes d vontade de parar. E foi o que o Roupa Nova sentiu na pele, nos anos 1990, ao ser recusado pelas rdios adultas, que achavam a banda brega, e tambm pelas populares, que no gostaram da nova proposta. Aquele dilema transformou 1993 em um ano de poucas execues nas FMs e de shows vazios com cachs baixos. Apresentaes que Juca s conseguiria marcar graas ao passado do Roupa Nova.



- Quantos espetculos temos nesse ms, Juca?

- Como  que , Serginho?

- Quantos espetculos temos nesse ms?

- Nenhum!

- Juca, quantos espetculos temos nesse ms?

- Ah, t, temos oito shows!

- No, ns temos oito espetculos...

Naquele dia, Juca desligou o telefone e se lembrou do primeiro show a que assistiu do grupo, ainda em 1989, quando ainda no trabalhava com eles. ... l no ginsio do Olaria foi um espetculo mesmo! Um cuidado com as apresentaes ao vivo que no apenas impressionaria Juca, mas que seria tambm para ele um aprendizado. O Roupa Nova compensa a rejeio dos falsos escritores de resenhas musicais atravs da modernidade. Um cara que falava mal do disco deles, ia ao show e dizia: Caraca! E eu levei isso para todos os meus artistas, pondera Juca.

Segundo o empresrio, no foi  toa que ele, aps conhecer a banda, ganhou oito prmios de shows e quatro de produo de DVD. Para recompensar seus fs, o Roupa Nova bota toda a energia deles nas apresentaes. E isso ningum vai tirar deles. So os caras que mais fazem isso.

Espetculos que traduzem o significado Roupa Nova para a plateia e que marcariam a carreira de Juca Muller.



- Tenho a grana para voc trazer o Roupa Nova aqui! - disse o contratante Jota Rodrigues para Juca, que estava angustiado para marcar mais shows para o grupo, mas sem dinheiro para viajar para Juazeiro do Norte como os msicos tinham se habituado.

Por isso, para valer a pena ir para o Nordeste, ele e Nestor correram atrs das agendas at conseguirem marcar outro show em Fortaleza. Deixando por ltimo a compra das passagens que, naquele ano, estavam com os preos nas alturas.

Juca estava ficando maluco por no fechar muitas datas para a banda, com Paulinho, Serginho e Cleberson - mais duros na poca - na sua orelha cobrando: Marca show, marca show! J Kiko, Nando e Ricardo, mais estveis financeiramente, queriam escolher com calma o lugar onde eles iriam tocar. Eles vo me xingar, mas no vai ter muito jeito, pensou ele, ao ver que para fazer os dois shows do Nordeste o Roupa Nova teria que viajar de...

- Fly?

-  Nando, Fly!

- Que porra  essa, Juca?

- Fly, bicho,  uma companhia maravilhosa! Nova no Brasil!

- Hum... No  uma que tem uns avies velhos? - questionou Nando, que morria de medo de voar e que, por isso mesmo, era o mais curioso sobre o assunto.

- Ih, no! Esses cacarecos esto l no Nordeste! Os daqui so diferentes!

- Sei...

- , Nando, tem que fazer! Vamos l! - afirmou Serginho, como se no houvesse dvida sobre ir para o Nordeste.

Ao contrrio de Ricardo, que queria mais informaes:

- E o nibus, Juca?  leito?

- Leito, leito porra... Lgico! - confirmou o empresrio, sem ter a menor ideia sobre o leito, tentando encerrar logo aquele interrogatrio! Amanh eu ligo para saber de verdade.

- No, senhor.  leito turstico, no deita tudo.

- Cacete, srio?

- Sim, s temos essa opo.

- T, t... Deixa como t.

Essa eu vou ter que encarar.

No ms seguinte, todos se dirigiram como combinado para o aeroporto do Galeo, prestes a entrar em uma aventura tpica de filme da Sesso da Tarde. Inclusive com o locutor anunciando: Um empresrio que vira a vida de todo mundo de cabea para baixo. E uma banda do barulho, que se mete em grandes apuros! No perca, hoje, s 4 horas da tarde.

O avio em que o Roupa Nova voaria j assustava s de olhar a carcaa. Lembrava muito aqueles avies antigos, marroquinos, com um branco muito sujo na sua lataria, com uma listra vermelha e outra verde passando pela marca Fly.

Isso fez Nando fechar a cara logo assim que eles chegaram  pista. Tomara que ele sente bem longe de mim, torcia Juca, aps ganhar olhares ameaadores do baixista. Mas foi exatamente perto do empresrio que o baixista fez questo de sentar, apenas com uma senhora entre eles.

- , Juca... Estamos fodidos... Nossa carreira acabou mesmo! Estamos viajando de Fly! - E gritando para Feghali, a algumas fileiras na frente, ele continuou. - Feghali! A nossa carreira acabou, Feghali! Estamos fodidos! Vamos tocar em Madureira! Famks de novo!

E olhou de volta para Juca, srio, querendo matar o empresrio! At porque ele tinha pavor de Boeing 727, justamente o avio em que ele estava naquele instante.

- , Juca!

- Fala, Nando...

- Esse avio t com excesso de peso!

- T doido? De onde voc tirou isso?

- Juca, ns estamos na fileira trinta e alguma coisa, n? Esse nmero costuma ser l no final. E a gente t no meio... Ento tem o dobro! - concluiu o baixista, se mexendo todo na cadeira, tentando achar uma posio confortvel, sem se preocupar com o espanto que causara na senhora do seu lado.

- Porra, Nando...

- Eu no tenho nada a ver com isso! Deve ter, pelo menos, 30% a mais de gente do que deveria! P, t tudo apertado! No consigo nem mexer a perna!

- E pode colocar mais cadeiras?

- Existe regra por uma razo, n? Olha ali! Aquilo, com certeza,  cadeira a mais.

- Ai, merda... - comentou Juca, entrando no desespero do baixista e passando um guardanapo na cara, o tempo inteiro, para enxugar o suor de nervoso.

- , e digo mais! Esse cara vai comer a pista do Galeo pra decolar! Quando estiver acima da gua! Ele tem que estar a 350 quilmetros por hora pra sair do cho. E com esse peso aqui...

- Nando, para de botar o terror, caramba!

- Isso  pra tu aprender que no se compra voo da Fly! No adianta, cara. Melhor no ir!

- Agora j comprei, oras. Chega! No vou te ouvir mais! - respondeu Juca, virando o rosto para o outro lado, tentando ignorar o baixista, que no calava a boca e falava alto para o avio todo ouvir:

- Vai ver... Ele vai correr, correr, correr... E l embaixo, quando no tiver mais pista,  que ele vai voar.

Juca abria o jornal, na sua frente, cobrindo qualquer contato visual com o msico. Ai, meu Deus, o equipamento do Roupa Nova parece que t empurrando o avio pra baixo, de to pesado! J a senhora, entre eles, agarrada no tero, comeava a rezar. E Nestor, na outra ponta, fumava desenfreadamente.*****

At que o avio acelerou tudo ainda parado, para depois disparar a velocidade e correr pela pista. Vruuum! Correu, e nada de sair do cho! Nando narrava os fatos para todos os passageiros do Boeing, que sacudia como em uma estrada de cho, no estilo off-road.

- Tem que ter mais cho!

J a senhora dizia baixinho:

- Ave Maria, cheia de graa...

E Juca, com os olhos fechados, falava entre os dentes:

- No, no, no...

- Mais cho!

- Bendita sois vs entre as mulheres...

- Ai, Deus, socorro, no...

- Ih, no vai dar... Mais cho!

- Agora e na hora de nossa morte. Amm.

- Porra, ns vamos pra gua! - berrou Juca, ao chegar na cabeceira da pista, quando o avio levantou com dificuldade a dianteira, subindo lentamente e fazendo muita fora, quase pegando fogo.

- Ufa! Quase, hein, Juca... Quase! - respirou aliviado, Nando, que estava to ou mais agitado que o empresrio, tentando se acalmar para conseguir viajar para Fortaleza naquele troo.

- U... No foi voc que me vendeu a passagem? - perguntou a senhora, que estava ao lado do baixista, para a comissria que passava no corredor naquele momento.

- Sou eu mesma. Eu trabalho de segunda  quinta na loja e, no final de semana, viajo! - afirmou a moa, com um sorriso no rosto, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo, acabando com qualquer possibilidade de sono de Nando!

- Juca! Que porra de companhia  essa? - e gritando de novo para Ricardo: - Feghali, voc t ouvindo? T ouvindo, Feghali? A mulher vende passagem e varre cho!

Para depois de alguns minutos aquela situao virar um caos completo: Ateno, senhores passageiros da Fly! Agora ns vamos fazer a demonstrao da nossa venda de biqunis, camisetas e bons, anunciou a companhia pelas caixinhas de som, antes de uma mulher sair da portinhola do avio empurrando um carrinho, que parecia de supermercado, com uma manequim em cima, sem braos, rindo, e de cabelos castanhos, vestida com um dos biqunis de bolinha, com a marca Fly, cheio de babadinhos nas laterais.

- Ah, no!

E dessa vez at o piloto ouviu os gritos de Nando.

- Que final triste, Juca Muller! Que final triste!



Ao chegar em Fortaleza, todos estavam com o corpo destrudo e emocionalmente abalados.

- Eu no aguento mais... Acabou a carreira mesmo - lamentou Feghali com Juca ao entrar no nibus que iria lev-los para o hotel.

Estava decepcionado com a realidade do Roupa Nova e sem vontade alguma de fazer o show  noite, que ainda por cima estaria vazio! Afinal, o contratante, que era professor e dono de um colgio, no havia divulgado o show do Roupa Nova. E em um lugar em que cabiam 3 mil pessoas, devia ter quinhentas. Espalhadas, em mesas, o que dava arrepio nos msicos!

- Cacete, Juca! As pessoas esto sentadas!

- Calma, Kiko...

Faz parte do Roupa Nova querer que o pblico fique em p, na frente do palco, danando e com espao. E quando isso no acontece, por alguma exigncia da casa, eles instigam as pessoas para que se levantem. Ou seja, se um salo repleto de mesas j seria razo contundente para estresse antes deles tocarem, o que diria ento aps uma viagem pela Fly!

Naquele dia, Juca Muller quase fugiu correndo para casa. Estava valendo voltar at com passagem da Fly. Principalmente aps presenciar, depois do show, o professor contratante entrando no camarim, de porre, abraando todos eles, feliz da vida.

- Perdi dinheiro, mas eu gosto de vocs!

Um dos poucos que, naquela noite, se divertiu.



- Voc no vai fazer um negcio grande pro Roupa Nova, no, cara? - cutucou Ricardo Feghali, sempre em busca de ideias geniais que motivariam o grupo, ainda mais naquela poca de vacas magras.

E, dessa vez, Juca Muller era quem estava na mira.

- T bom, vou - afirmou o empresrio, no meio de uma das milhes de reunies com o grupo, no Roupa Nova Studios, pensando de improviso o que poderia ser esse negcio grande. - Vou fazer um show na Quinta da Boa Vista!

- Ah, fala srio, Juca! - falou Feghali, morrendo de rir, como se achasse aquela sugesto estapafrdia.

- Vou, sim! Voc vai ver.

Juca saiu do estdio, determinado, e foi direto no Armazm das Fbricas falar com a gerente de marketing da empresa, que adorou a ideia e confirmou o patrocnio do evento. Depois acertou com a BMG o palco, alm de fechar parceria com a FM 105 para a divulgao do show e conseguir a Polcia Militar na segurana. Afinal, a apresentao seria aberta para o pblico.

Tudo se desenrolou to rapidamente que nem Juca acreditou quando chegou o dia 12 de junho, vspera do show na Quinta da Boa Vista, com quase tudo certo. Exceto por um detalhe: a chuva.



- Putz, fodeu.

Quando o telefone da casa de Juca tocava com ligao a cobrar, com seu irmo Bernardo na estrada com o Roupa Nova, era sinal de que alguma coisa no estava legal.

- T chovendo pra caramba aqui em Volta Redonda! - gritou Bernardo para ser ouvido, dentro de um orelho, com o mundo desabando em gua ao seu redor.

- Aqui tambm t chovendo pra cacete!

- E l, amanh?

- Vamos l, meu!

Ao acordar naquela manh de domingo, 13 de junho de 1993 - final de semana do Dia dos Namorados e data do espetculo do Roupa Nova na Quinta da Boa Vista -, as previses que Juca leu no jornal no foram das mais animadoras: A frente fria que se encontra sobre o litoral sul do Rio continua influenciando hoje o tempo em todo o estado. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, o tempo no Rio fica nublado, sujeito a chuvas ocasionais.

- Ocasionais? Fodeu mesmo.



Dizem que o parque da Quinta da Boa Vista, de mais de 560 mil metros quadrados, localizado em So Cristvo, Zona Norte do Rio de Janeiro, pertenceu a um comerciante muito rico da cidade, no final do sculo XIX. Um homem chamado Elias, que construiu, cercado pela natureza e no alto de uma colina, sua casa de campo. S que, de olho nas vantagens reais, Elias presentearia com sua morada a famlia real, assim que ela se estabeleceu no Brasil, em 1808. Quando ento o local, devido  boa vista que se tinha da baa de Guanabara, comearia a ser chamado por esse nome. Um terreno que, no domingo de 1993, estava alagado, com poas por todos os cantos.

Ai, caramba... Ser que vai encher?, pensou Juca ao parar o carro no estacionamento da Quinta, tenso por todos os comentrios que ouvira de conhecidos nos ltimos dias, como Voc  doido?! S o Roberto Carlos enche a Quinta. Estava ansioso e temeroso pela realizao do evento, embora no contasse para a banda. Nego falava ainda sem considerar a chuva! Meu Deus!

Assim, Juca desceu do carro e passou a contabilizar, mentalmente, cada pessoa que ele via entrando no parque. Mais um!, e olhava para o cu nublado, em busca de algum fio dourado e ensolarado de esperana. Chuvas ocasionais... Podia esperar o povo chegar, pelo menos. Povo que, contradizendo o medo de Juca, no parava de passar pelo grande porto do parque, formando um pblico de mais de 70 mil pessoas na hora do show!

Enfim, no se sabe se  uma sina, se a banda foi batizada por algum paj, ou se So Pedro  um f declarado, mas, repetindo a sorte da apresentao no Arpoador, foi s o Roupa Nova cantar Clarear que um solo abriu sobre o palco. E deu vida para aquele espetculo, com todo mundo da plateia cantando, em um domingo que prometia ser morto desde o incio. Reacendendo dentro da BMG uma motivao para um novo disco do grupo, que vinha com nmeros baixos de venda, e reacendendo dentro dos msicos outra fagulha de sucesso.

Na Quinta da Boa Vista nasceu a futura rainha de Portugal, D. Maria II, e o futuro imperador do Brasil, dom Pedro II, que cresceu, foi educado e brincou naquele enorme jardim, em So Cristvo. Mesmo local em que o Roupa Nova vislumbrou, em um perodo crtico de sua carreira, uma multido cantando suas canes - a mais bela e inebriante paisagem.



Cleberson no se sentia  vontade para colocar em ingls a voz guia de seus monstros. Por isso, gravava com um na na na em cima e, depois, passava para Serginho ou Paulinho substituir o na na na por palavras em ingls, o que facilitava a audio para quem fosse compor a letra, posteriormente. E foi dessa forma que nasceu Barbra Streisand! Uma melodia de Cleberson, que Paulinho cantou em ingls na demo, e que lembrava muito a interpretao da atriz e cantora americana em Deep In The Night.

Uma bonita cano que Mariozinho Rocha repassaria para Aldir Blanc, junto com o storyboard da prxima novela das sete da rede Globo. E que deixaria de ser Barbra Streisand para virar a abertura da produo global com o mesmo nome: A viagem. Excelente notcia para o grupo, que estava mais afastado da mdia at ento.

A msica seria o carro-chefe do lbum Vida Vida, de 1994, e mais um dos grandes hits da banda que renderia outro disco de ouro. Eles so muito persistentes, e aquilo me contagiou!, diz Juca, que acertou trs semanas de show no Imperator, com casa lotada na poca.

Uma apresentao que, da mesma forma que acontecera no Ibirapuera, no teria um fio no palco, com escadaria feita para o show, em um cenrio vermelho. Lembrando at os tempos ureos dos anos 1980.



L estava o Roupa Nova passando o som por horas, exageradamente catando os microerros musicais, antes de tocar em um dos dias do Imperator, quando Dom Pepe, diretor de palco da casa, abriu as portas para o pblico entrar.

- Que porra  essa, Pepe? - perguntou Nando, descendo do palco, correndo ao ver o que tinha acontecido, enquanto os outros integrantes colocavam seus instrumentos no lugar e saam de fininho.

- O que foi Nando? - perguntou, com cara de paisagem, o argentino ao ver o baixista esbaforido.

- Essa merda a! Voc mandou abrir a porta!

- Eu mandei porque eu mando na casa. E voc manda no seu conjunto!

Dom Pepe, lenda no Brasil como diretor de palco, tinha a fama de deixar tudo sempre do jeitinho que os artistas gostavam no camarim. Ele sabia como agradar as vontades e os desejos da maioria deles. Como tambm, por tabela, conhecia suas manias.



- E se a gente ficar esquecido?

- Nando, tambm no  pra tanto, n?

- Juca, contrata um cara pra falar da gente?

- No  isso que vai resolver, Ricardo. Eles no querem falar!

- Poxa, a gente bombou no Imperator e no saiu uma linha!

- No adianta encher uma casa de show, Kiko... No  isso que a mdia quer - dizia Juca, tentando tirar o peso da imprensa da cabea dos msicos.

Os integrantes estavam novamente em crise de identidade. Ao serem relegados dos jornais, nos anos 1990, viviam tudo de novo, desde os perrengues ao medo de separao e readequao ao mercado.

- Gente, eu entendo a dor de vocs. Mas vocs no podem deixar esse sofrimento crescer! O marketing do crtico  malhar, e o de vocs  fazer benfeito!

Palavras de um empresrio que tinha tudo a ver com a banda, na viso de Cleberson, e no media esforos para vender o grupo, na opinio de Nando. Com certeza era o cara que vestia a camisa do Roupa Nova, relembra o baixista.

Juca, uma testemunha de conversas interminveis entre seis parceiros que continuariam esperando por, pelo menos, um pouco de considerao.



- P, tem que comprar um Pr Neve, que  uma fortuna! - insistiam Feghali e Nando sobre comprar equipamento para o Roupa Nova Studios.

Porm, a resposta Mas de novo? passou a ser constante no resto da banda sobre um estdio que no podia parar no tempo. De modo que Nando e Feghali obteriam estes equipamentos para seus estdios pessoais.

At Flvio Senna embarcou em um negcio pessoal, arrematando o valor da Companhia dos Tcnicos, realizando o sonho de ter o seu prprio estdio. Uma separao com a banda, depois de tantos anos juntos, que iria ocorrer tecnicamente em julho de 1994, embora Flavinho continuasse sendo chamado para mixar discos do Roupa Nova. Foi muito triste deix-los. E dar essa notcia para eles foi uma das coisas mais difceis da minha vida. Enrolei at o ltimo minuto, conta Flvio, que se surpreendeu com a recepo calorosa dos msicos aps dizer que ia sair. Eu estava muito inseguro, achando que era uma coisa muito grande. Mas a forma como eles receberam, me desejando sucesso, foi gratificante! Foi um negcio que marcou.

E com tantas perdas, tcnicas e humana, a empresa do Roupa Nova no iria se sustentar no mercado, diminuindo o ritmo das gravaes. At que, no final da dcada de 1990, deixaria de ser um estdio para se tornar apenas o escritrio da banda.******



A sequncia de shows no havia engrenado, a situao da banda ainda era instvel no mercado e muitos dos msicos continuavam sem dinheiro, quando Serginho se converteu ao evangelismo. Um momento delicado para o resto do grupo que, aps sentir o distanciamento do baterista, teve medo de perd-lo.

Isso porque a primeira pergunta que Serginho fez para si em 1994, ao mudar de religio, foi: Quando devo sair do Roupa Nova?, esperando receber de Deus um sinal sobre o rumo de sua vida. Naquela poca, um bispo de uma das igrejas o incentivava a seguir carreira no segmento gospel.

- Cara, fica! Eu te garanto que vai dar certo! - tentou Juca, como tambm fizeram os outros integrantes da banda, ao descobrir que o baterista estava por um triz para sair, com valor definido, que resolveria todos os seus problemas financeiros, e uma proposta j formalizada por parte do bispo! - Vai melhorar, voc vai ver. Vai melhorar...

No entanto, no seria tambm dessa vez que a banda acabaria. Percebi que ser crente no  s empolgao, diria anos depois Serginho, confiante de que a sua postura no dia a dia j mostraria sua converso e a sua f - sem ter que precisar tambm converter sua msica ou abandonar a histria do Roupa Nova.



6/1 foi o nome do dcimo segundo disco de carreira do grupo, lanado em 1996 pela BMG-Ariola, com canes como Amar ..., Nossa histria, Pode chamar e Perdoa. Porm, o resultado de vendas do lbum foi fraco, e o relacionamento, que j no estava bom entre o grupo e a gravadora, ruiu.

Beto Boaventura estava entrando na companhia para assumir a direo artstica da BMG quando a banda passou pela sua porta, furiosa com o tratamento que estava recebendo da diretoria. Depois de 12 anos na gravadora e nove LPs de carreira, com grandes vendagens, os msicos esperavam mais foco e investimento no trabalho deles, independentemente dos outros segmentos dominando o pas, com casos tipo o do S Pra Contrariar - estourado na prpria BMG.

Os seis estavam decididos a rescindir com a gravadora e ficaram algumas horas conversando com Beto, mostrando o porqu dessa atitude. E o futuro diretor tentava mant-los na companhia, a todo custo e at o ltimo segundo.

- P, me d uma chance? T tomando posse amanh!

Paulinho, j na porta com os outros msicos para ir embora, o convidou:

- Quer ir comigo l no corredor?

- No corredor?

- ! Vou te mostrar porque estamos loucos pra sair dessa gravadora!

A BMG tinha um corredor enorme, com quadros de todos os LPs de destaque feitos pela empresa. E Paulinho fez questo de olhar um por um, na ida, a caminho da sala de Boaventura.

- Se voc vir nesse monto de quadros uma capa do Roupa Nova, a gente volta e fica aqui!

Beto andou pelo corredor, procurando um disco que pudesse ser a sua salvao! Olhou, olhou, olhou... E nada! Para s depois de alguns minutos voltar caminhando, desolado.



O Roupa Nova foi levado por uma fortuna para a Continental, que foi comprada pela Warner. E o presidente da companhia da Amrica Latina, um dos papas da msica, Andr Midani - homem de grandes histrias e passagens pela indstria fonogrfica brasileira, para no dizer mundial - convidou a banda para uma conversa, logo aps ser contratado, em Nova York. Perodo em que o Roupa Nova estava nos Estados Unidos, aps ganhar o prmio de Grupo Mais Executado da rdio Suave, de Manhattan.

No entanto, nem todos os integrantes do Roupa Nova puderam estar presentes na reunio, naquele incio de relacionamento com a nova gravadora, em 1997. E junto com o empresrio Juca Muller, apenas Paulinho e Nando se encontrariam com Midani, para ouvir consideraes sobre o mercado, a gravadora e, lgico, o trabalho do Roupa Nova. Uma palestra para os ouvidos do baixista, que levou, inclusive, um caderninho para anotar os conselhos, e que bebeu, maravilhado, cada uma daquelas palavras de experincia.

-  histrico... Depois de muitos anos, o povo no quer mais o novo. Voc tem uma poca de plantar e uma de colher! Pode gravar o que quiser. At um hino, que no vai adiantar... - disse Midani.

Nesse dia, a banda, apesar de no estar completa, deu sinais claros de que queria fazer um disco autoral como primeiro trabalho pela Warner. Um desejo constante da maioria dos artistas, mas que, talvez, no se enquadrasse na carreira da banda, naquele final dos anos 1990. Para o presidente da gravadora, um the best of logo de entrada, com um formato arrojado, aliado ao respaldo da marca Roupa Nova,  que teria um impacto incrvel no pblico e dentro da prpria companhia. Aos olhos de Midani, macaco velho no mercado fonogrfico, embora o grupo no estivesse vendendo discos como antes, continuava sendo uma mina de ouro! Era preciso apenas saber explorar essa capacidade musical para se fazer dinheiro.

- Esquece, Nando... Vocs no tm mais condies de lanar inditas! Vocs tm cinquenta sucessos! Ningum quer ouvir msica nova! O pblico quer as msicas que j so de vocs!

- Mas e se fizermos algo diferente e...

- O meio vai rejeitar. Escuta o que eu t te falando... No cometam o erro de sair com um lbum indito. Faam um projeto! Se no, vocs vo quebrar a cara.

Andr Midani no iria impor nada e no fundo sabia que, se o Roupa Nova insistisse no disco autoral, assim seria feito, infelizmente. Ele no brigaria com o artista, apesar de todo o dinheiro que a Warner estava disposta a gastar. Mas tambm seria um desperdcio no fazer sucesso com aqueles monstros da msica pop brasileira. Por isso, naquele encontro de trs horas, Midani tentou, frisou, e deixou clara a sua opinio sobre qual caminho a tomar. E, por fim, aps a reunio, ao acompanhar seus convidados at o elevador da Warner, puxou Juca pelo brao, discretamente, indagando de maneira incisiva:

- Voc tem noo do que tem na mo?

- Lgico que eu tenho!

- No, presta ateno - e falando um pouco mais devagar: - Voc tem noo do que tem na mo?

E Juca, com a expresso sria e confiante, respondeu:

- Tenho.

- Tudo bem... Vamos ver ento se voc domina isso a.



Notas

* Empresa responsvel pela promoo de grandes eventos da poca, como o show de Frank Sinatra, Paul McCartney, o Rock in Rio 1 e 2 e o Hollywood Rock 1, 2, e 3.

** Com exceo da msica Hello Mona Lisa, de autoria de Paulo Imperial e Santos Dumont, que iria gerar horas de discusso entre os tecladistas, antes de entrar no lbum.

*** A msica escolhida foi De volta ao comeo, de Gonzaguinha. Os integrantes costumam brincar que a letra de De volta ao comeo, de Gonzaguinha, : E o menino que viu a menina que viu o menino...

**** O segmento pagode tambm crescia muito nos anos 1990, com conjuntos como o Raa Negra, Negritude Jr., Exaltasamba, Molejo, Katinguel e, o grande vendedor de discos, S Pra Contrariar.

***** Apenas em 1998 foi proibido, por lei, fumar dentro dos avies.

****** No final dos anos 1990, o Roupa Nova tambm deixou de ter a casa em Higienpolis.



CAPTULO 37

ATRAVS DOS TEMPOS

O Roupa Nova tocava de acordo com um padro das bandas dos anos 1970. E a gente estava no final dos anos 1990!

Gil Lopes

- Voc quer alguma coisa pro disco de vocs? - perguntou Andr Midani, no final da reunio com Nando, Paulinho e Juca, em Nova York.

- Quero uma participao internacional.

- Hum... Depende de quem voc quer, Nando.

- O Peter Cetera ou o David Gates.

- O Cetera voc esquece!  antiptico e vai levar um ano pra responder! Pro Gates eu vou ligar agora.

- Agora?

- ! Na prxima segunda-feira, s 20 horas do horrio do Brasil, eu vou ligar para o escritrio de vocs. Esteja l para receber a ligao que eu vou dizer como esto as coisas.

Na segunda-feira, j no Brasil, o telefone tocou, pontualmente, no escritrio do Roupa Nova, como Andr Midani prometera.

- Nando! T tudo certo com o Gates! Ele s pediu pra vocs escolherem a msica e mandarem a cpia da base. Ah, e ele quer escolher o estdio pra voz. A gente paga aqui!

Assim, no primeiro semestre de 1997, Nando e Feghali foram para um estdio em Nashville, para encontrar o norte-americano David Gates, e gravar The Guitar Man. Gates, era um dos fundadores do Bread, banda de rock dos anos 1970, de canes meldicas, que eles tanto j haviam tocado pelos bailes da vida.



- Vou comprar um violino!

- De onde voc tirou essa agora, Ricardo?

- Ah, Nando, eu quero tocar violino no nosso show!

- P, mas  muito difcil.

- Vou comprar! Depois eu vejo isso.

Ricardo comprou o instrumento em um shopping de Nashville e aprendeu algumas canes para tocar um medley country nos shows do Roupa Nova. Coisas do neto de dona Jandira, irrequieto, que nunca acreditou no tal do impossvel.



Atravs dos tempos foi o CD do Roupa Nova lanado em outubro de 1997, com uma esttica que lembrava muito o estilo country, com fotos amareladas e envelhecidas dos msicos, em um galpo, com jaqueta de couro, blusa quadriculada e chapu de cowboy na cabea. E na capa vinha uma maria-fumaa que, assim como o Roupa Nova, se mantinha nos trilhos, sem desviar de seu caminho. Um veculo que, para eles, tambm poderia ser associado a Milton Nascimento, e puxava um trem-bala azul, como o da cano de Ronaldo Bastos, que deveria ser seguido. E que simbolizava junto  maria-fumaa uma fuso de tempos que estaria presente no disco, com composies inditas e verses de canes antigas.

O grupo no faria um the best of, como havia aconselhado Andr Midani, mas colocaria pitadas do passado no disco, como a verso para The End of The World, famosa com os Carpenters, que virou O sonho acabou,* ou a regravao de Me faa um favor, de S & Guarabyra. Alm da verso De ningum, para The Guitar Man de David Gates, tambm entrou O ltimo trem, conhecida atravs dos Monkees como Last Train to Clarksville. E apenas a verso de Happy Man, do Peter Cetera, no entrou no lbum, pois a autorizao no chegou a tempo.

Desse modo, em uma poca em que o sertanejo predominava no Brasil, os integrantes do Roupa Nova usaram suas influncias countries para se posicionar no mercado. E fizeram um disco que, como o De volta ao comeo, tambm no seria sucesso de pblico.



A equipe que havia contratado o Roupa Nova para a Warner-Continental foi mandada embora da companhia antes mesmo do CD Atravs dos tempos ficar pronto. E o pessoal que assumiu o lugar, no geral, via o Roupa Nova como uma banda ultrapassada e que deveria ser deixada na dcada de 1980. O que s fez esfriar o contato entre a gravadora, em So Paulo, e a banda, no Rio de Janeiro.

No bastasse a falta de incentivo da Warner para a banda, uma briga entre os msicos e Bernardo Muller mandaria para o espao a parceria entre eles e Juca, forando a banda a buscar outros profissionais no mercado, como Lus Andrade,** que diria:

- A carreira de vocs no tem mais salvao! A msica pop acabou!

Voltando para o inferno astral de todo conjunto musical, no final dos anos 1990: sem gravadora, e tambm sem empresrio.



O sonho do produtor Max Pierre sempre foi contratar o Roupa Nova para a gravadora em que estivesse trabalhando. E, atento ao mercado, aps perceber o fracasso de vendas de Atravs dos tempos pela Warner, achou que aquele era um excelente momento de se fazer uma proposta. Na poca vice-presidente artstico da Universal Music (antiga Polygram), Max acreditava que uma mexida no visual e na imagem do Roupa poderia ter efeitos surpreendentes de venda. As capas do Roupa so muito feias. Parece que a companhia no dava importncia pro visual deles. Acho que eu consigo deixar a banda com uma postura mais elegante!, arquitetava ele, entusiasmado com a ideia de t-los na Universal.

S que, antes de botar o plano em prtica, ele teria que quebrar a resistncia da gravadora com o nome Roupa Nova - seja com argumentos de mercado ou com aliados, como o gerente artstico Ricardo Moreira, velho conhecido do grupo, que havia feito sua divulgao em outras gravadoras.

- A gente faz um the best of ao vivo com os sucessos de toda a carreira deles! Traz pro nosso catlogo os hits da BMG e s depois faz um disco de carreira, com o Roupa Nova posicionado no mercado, j no top of mind do pblico.

Os discos ao vivo, ou acstico, estavam no auge no final dos anos 1990, reposicionando no mercado nomes como o da banda Tits, com o Acstico MTV (um dos recordistas de venda do gnero), e fortalecendo artistas como Rita Lee, Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho. Muitos destes trabalhos foram feitos sob a batuta de Max.

Sob esse aspecto, a proposta se tornou irrecusvel para a Universal (antiga Polygram), que decidiu comprar, em 1998, o sonho de Max Pierre e o passe dos seis msicos. Bons filhos que a casa retornavam, depois de um tenebroso inverno.***



Gil Lopes conheceu e gostou de Os Famks nos bailes da Tijuca, na sua pr-adolescncia. Depois acompanhou o sucesso do Roupa Nova, alm da sua participao em outros discos da msica brasileira. No final dos anos 1990, Gil atuava como empresrio de vrios nomes estourados no mercado pela Universal, como Simone, Engenheiros do Hawaii e, sobretudo, Paulo Ricardo. O msico, que havia partido para uma carreira solo romntica e bem diferente das canes que tocava com o RPM - como no sucesso Dois, parceria com o hitmaker Michael Sullivan -, se recolocou no mercado como um cantor popular, usando palet, gravata, cabelo curto e at casaco de zebra! Uma mudana brusca de imagem - exatamente o que o Roupa Nova precisava.

- Gil, a gente quer repaginar o Roupa Nova! - explicou Max Pierre, ao lado de Edison Coelho, vice-presidente de marketing da Universal.

Tinham esperana de que Gil pudesse ser o empresrio capaz de fazer uma transformao gigantesca no grupo. Uma misso que no seria para qualquer profissional, ainda mais considerando as seis cabeas teimosas dos msicos. Tinha de ter pulso! E Gil, que era f da banda, se sentiu orgulhoso por trabalhar com o Roupa Nova, apesar daquela rdua tarefa: pegar um artista, com o mesmo jeito, pose e som dos anos 1980, e fazer uma revoluo para torn-lo moderno. S que, na verdade, aquela mudana seria muito mais que isso.



O Roupa Nova confiava em Max Pierre e em suas ponderaes. Por isso, foi mais fcil para Gil Lopes se aproximar dos msicos e ser aceito como o mais novo empresrio da banda. Um profissional mais do que determinado a inaugurar uma nova fase na carreira deles. Disposto a jogar uma enxurrada de informaes goela abaixo dos integrantes, se fosse preciso! Para s ento chegar ao que ele chamaria de Roupa Nova 2000.

- Estou diante dos maiores msicos do Brasil!

Foi o que Gil disse para comear o papo, na primeira reunio com o grupo, contando as novidades que vira em sua ltima viagem para a Inglaterra, enchendo a cabea dos seis com as chamadas tendncias, e com diversos discos internacionais debaixo do brao, como Lighthouse Family, Seal e Robbie Williams. Britnicos que fizeram sucesso naquela dcada de 1990 e traziam formas mais modernas de se tocar. Como uma bateria mais leve, sem tantas viradas; um teclado quase pinkfloydiano - como instrumento meldico, para viajar, e que soasse mais, de pouco timbre e nota; uma guitarra no to agressiva; e um som mais constante, sem grande exuberncia, mas com tcnica e preciso.

O que o empresrio queria era mexer com a criatividade dos msicos, para que eles se redescobrissem. Sem aquele clima de j fizemos tudo que tnhamos pra fazer que Gil sentia nos integrantes. Um trabalho de reestruturao musical para o novo disco da banda, que seria visto, inicialmente, com muito receio por todos. Impresses negativas que Gil teria que aguentar se quisesse convenc-los do contrrio.



- Poxa, Gil! Voc nem olhou pra mim!

Gil, acostumado a trabalhar com cantores solos e bandas com lderes, se embananava com a questo de ter que dar ateno para todos os integrantes na mesma ocasio. Putz, tem uma luta de egos aqui... Todos so grandes msicos! Vou me estrepar para lidar com isso. E chegou a ouvir reclamaes como a de Kiko, aps uma das reunies em que ficou no meio dos seis. At porque, para ele, o Roupa Nova, em termos de imagem, tambm deveria ter um lder, chamado Serginho.

- Gente, banda tem que ter um cara que aparece mais!

- Pera, bicho, no tem que ter um cara aparecendo mais que o outro. Mesmo porque no tem um cara que compe mais que o outro. No curto isso, no.

Ttulo que o baterista recusava com veemncia.



Cuidar da sade dos seis integrantes tambm estava no cronograma de Gil Lopes - como fazer uma dieta alimentar, alm de exerccios para acabar com a barriguinha de cada um deles. Uma prtica que seria acompanhada diariamente por um nutricionista e por um personal trainer, e que deixaria os seis msicos mais elegantes para as fotos, e em forma para aguentar o tranco dos shows. Sugesto do empresrio, que no esperou nem um dia para dar incio ao programa.

Os integrantes ainda estavam avaliando, com calma, a ideia sobre ter um personal trainer, quando Andr, um homem enorme e musculoso, entrou pela porta do escritrio da banda:

- Amanh vocs esto malhando comigo!

Intimando os seis msicos para uma nova rotina, de exerccios na academia e alimentos leves nas refeies, como frango, salada e queijo minas.



- O fundamental  a qualidade musical, mas a gente precisa se comunicar melhor! T todo mundo gordo, ridculo com essas roupas! Vamos fazer uma faxina! Nos preparar para ento sermos percebidos pelo pblico e mdia. - enfatizou Gil Lopes, antes de falar o que cada um dos integrantes deveria mudar. - Feghali, seu cabelo t horrvel! Corta tudo ou pinta! E o bigode tambm! Cleberson, cabelo curtinho! Paulinho, tira esse rabo de cavalo! Serginho...

E, antes que ele pudesse terminar, as discusses j haviam tomado o ambiente, com todos os msicos muito alterados.

Feghali levantou da cadeira, nervoso, Paulinho fechou a cara, Cleberson falava mais alto, Kiko tentava acalmar os nimos, e de repente estavam todos brigando, simultaneamente, entre si e com Gil Lopes! O empresrio no tinha o menor tato para lidar com o grupo e, da sua forma apaixonada de lidar com as coisas, atropelava os msicos com agressividade. Seis pessoas que estavam acostumadas com profissionais que respeitavam o tempo de cada um deles e que viam, naquela forma torta de se expressar de Gil, a maior das ofensas.



- Isso  problema de comunicao!  lgico que se chegar malvestido, barrigudo, tocando a mesma coisa de quinze anos atrs, a imprensa vai falar! Vocs tm que municiar a mdia com motivos pra que ela perceba e abra espao! Os crticos no so msicos e no vo perceber, sozinhos, a qualidade de vocs.

Era a abordagem de Gil Lopes com os msicos sobre os problemas com os crticos. Direto na jugular e sem receio de mostrar seu pensamento. Na opinio do empresrio, no existia implicncia da imprensa com a banda, mas apenas adequao de pblico dos jornais.

- Eu acho legtimo dizer: Olha, eu vou tocar na novela, na rdio e um abrao! Mas quem compra O Globo?  adequao de pblico! Imprensa  pro Chico Buarque! Agora... Se vocs quiserem circular ali, tero que falar a lngua dela! - enfatizava, aos olhos receosos dos integrantes, Gil.

Um profissional da indstria fonogrfica que via o Roupa Nova do mesmo modo que o Roberto Carlos: de qualidade musical inquestionvel, mas que seguia um padro que no era o da crtica.



Kiko e Nando cortaram o cabelo bem curtinho e foram os primeiros a acatar os conselhos de Gil Lopes. Ricardo Feghali, depois de algumas semanas, se convenceu a tambm fazer a mesma coisa, exceto sobre um ponto: mexer no bigode. E at o f-clube se manifestou a favor de mant-lo intacto - o que lhe deu mais segurana sobre sua deciso.

- , Gil, cortei o cabelo. Agora, deixa eu me acostumar com essa ideia, t? Daqui a pouco eu tiro o bigode!

- No, Ricardo, voc tem que fazer o que t programado!

- No o cacete! Voc entrou no Roupa Nova agora! Primeiro voc faz o seu lance, e depois eu fao o meu!

Ah... O bigode! Pelos abaixo do nariz que se tornam estilo para alguns homens, ttulos para outros e, no caso de Ricardo, um elemento indelvel de sua imagem e personalidade. E, ao se olhar no espelho, ele passava os dedos pelo bigode. Pensaria no que seria de seu rosto sem aquele trao marcante? Afinal, depois de tantos anos com aquele el bigodon  la Frank Zappa, como ser, de novo, um homem comum de cara limpa? To exposto assim?



Como vou convencer o Feghali?, se questionava Gil enquanto dirigia seu carro, aps uma das reunies tensas com o Roupa Nova. P, tudo  motivo de briga! Ningum guarda pra depois. Isso cansa!, pensava, com as mos no volante, tentando tambm se adaptar  dinmica do grupo. Mas  aquela coisa, n... Deve ser por isso que eles esto h tanto tempo juntos. Parece at marido e mulher!

A banda havia comprado a ideia do empresrio de fazer exerccios, ouvir novos sons e se reinventar de maneira geral. E todos estavam animados em fazer isso! Porm, na hora de mexer no visual, os desgastes foram inevitveis! O foda  que um influencia o outro... E eu no tenho saco para convencer todos! Cacete... Gil sentia muita dificuldade de se entrosar com o grupo, devido  convivncia de muitos anos dos seis msicos. E, s vezes, se via como um intruso invadindo um ambiente fechado, proibido, com leis j muito bem definidas - para o qual ele deveria se provar para ser aceito. Hunf... Mas quem mandou, hein, Gil Lopes, mudar tudo ao mesmo tempo? Quem mandou? Olhando para as ruas concentrado, embora a cabea estivesse longe. S que eu vou conseguir... Ah vou!



O disco do Roupa Nova era para ser ao vivo, conforme queria a Universal Music e, principalmente, Max Pierre. No entanto, desde o incio da contratao, do mesmo modo que acontecera com a Warner, o grupo se mostrou inclinado a fazer outro lbum de carreira, com msicas novas. Um impasse que se estenderia durante as intervenes de Gil Lopes, que tambm no era a favor de um ao vivo. P, isso vai ser mais do mesmo. Seria subestimar a capacidade deles! Tem que ser algo novo!

O empresrio acreditava que o Roupa Nova poderia ser mais ousado em sua msica, sem perder suas caractersticas. E que a banda merecia e deveria alar um voo mais alto, que a posicionasse, inclusive, perante os crticos. A qualidade  impressionante, mas no tem algo de novo, que estimule as colunas especializadas... Tem que ser um trabalho em que qualquer um consiga perceber a exuberncia do que  o Roupa! Caramba, a cozinha**** da banda  a melhor do Brasil e uma das melhores do mundo!, refletia ele sobre o conceito do novo CD,  medida que as experimentaes de som propostas iam sendo colocadas em prtica pelos integrantes, gerando novas expectativas na banda sobre o seu prprio trabalho.



- P, bicho, isso  disco de estdio! No d pra se fazer ao vivo, no! - comentou Ricardo Feghali, ao perceber que teria uma complexidade tcnica para executar aquele novo som ao vivo.

Alm disso, para a banda, no havia mais sentido gravar uma reproduo idntica dos hits depois de tantas mudanas internas.

- E at mesmo pelo momento que a gente t vivendo... Esse lbum merece um registro de estdio! - complementou Nando.

- O Max  que no vai querer! - seguiu Kiko.

- No, gente, deixa comigo! Vamos preparar trs msicas pra ver!

- Novas? - indagou Serginho.

- No. Uma releitura das antigas.

Gil estava confiante no seu poder de persuaso com a gravadora por conta de seu xito com Paulo Ricardo. E entrou cheio de convico na sala de Max para mostrar as releituras modernas que o grupo havia feito dos seus sucessos, pegando de surpresa o vice-presidente artstico da Universal.

- Tem certeza, Gil?

Max Pierre apostava que um ao vivo seria incrvel para a banda. Entretanto, ele no iria passar por cima de Gil Lopes nesta resoluo. Ainda mais considerando as alteraes que todos da companhia j comentavam e viam nos integrantes - mais magros, bonitos e elegantes. Se um trabalho de estdio seria mais condizente com a nova fase da banda, ento, tudo bem. Mesmo que o melhor, na opinio dele, fosse um ao vivo.

- Tudo bem, do que voc precisa?

- Eu quero um grande tcnico!

Marcando, posteriormente, a gravao das canes no estdio do Roupa Nova, no Rio de Janeiro, e a mixagem em Los Angeles, por Moogie Canazio - com Nando e Feghali -, que j havia atuado com a banda nos tempos da RCA. Um disco que teria releituras de sucessos do grupo como Anjo, Seguindo no trem azul e Whisky a Go Go e mais quatro canes inditas. E que, por fim, no seria o que a Universal esperava, nem o que o Roupa Nova queria. Seria o projeto possvel, entre tantas discrdias, e que ficava no meio do caminho.



- Gil, escuta essa msica! - disse Feghali, mostrando para o empresrio sua mais nova parceria com Nando.

Uma cano com outra sonoridade e que sintetizava a concepo do disco.

Agora sim, mudei

Nascendo outra vez

Meu corao  novo

A msica, batizada de Agora sim daria o nome tambm ao CD, que apresentava um novo Roupa Nova. E mostrava o comprometimento integral da banda com a proposta de Gil Lopes, apesar das divergncias. Quando a gente entra  pra fazer direito!, explicaria Feghali sobre a validao dos seis msicos ao trabalho realizado com o empresrio, que entenderia: Provocados, eles respondem! E avanam na hora certa! O que no quer dizer que eles no tenham sofrido.



Zoo TV foi uma das turns mais famosas do cenrio pop mundial, tendo  frente Bono Vox, no incio dos anos 1990, e inaugurou um novo conceito sobre a imagem do U2 naquela dcada, com mais de 150 apresentaes por lugares como Amrica do Norte, Japo e Europa. Performances teatrais e irnicas foram vistas nos palcos por mais de 5,3 milhes de espectadores em uma grandiosa estrutura. E a linguagem moderna da turn se tornou referncia do perodo, como o estilo dos integrantes, moda no meio musical.

Gil Lopes acompanhou com curiosidade os desenlaces daquela turn pop. E no s assistiu a um dos shows em Nova York, como guardou em sua memria o cartaz do U2 com todos os integrantes, vestidos de preto, posicionados na escada de um avio. Hum... O Roupa, no disco passado, estava no trem...

- Gente, ns vamos estar agora em um avio! - anunciou o empresrio, antes de contratar um fotgrafo e pedir uma foto do Roupa Nova igual a do U2, em um dos avies no hangar da Varig.

Local onde o grupo tambm gravaria o clipe da msica Agora sim, com todos os msicos vestidos com roupas mais clssicas, de preto e culos escuro,  la Bono e companhia. Uma produo em que Gil tentaria destacar a presena de Serginho, cantando na frente da banda, a contragosto do baterista.

- Desce na frente, Serginho! - pedia a equipe do empresrio.

- Por que isso?

- Vai, vai! T gravando!

Um clipe de muitos closes no baterista, que faz a voz principal da cano, apesar de todos os protestos. E que conseguiria entrar na MTV, graas  sua esttica moderna, embora passasse nos horrios mais inspitos da programao.*****



A maior banda do Brasil era como Gil se referia ao Roupa Nova em suas comunicaes, aps o lanamento do disco Agora sim!, em 1999. A capa bem colorida, com recortes que lembravam colagem, trazia todos os msicos alinhados, com novos cortes de cabelo e mais magros. Uma banda moderna, no estilo MTV que se pretendia, e com um novo som.

Na viso de Nando, o Roupa Nova realmente estava dmod, velho visual e sonoramente. E esse lbum foi uma tentativa de desconstruir o grupo. A gente  que no estava preparado pra receber aquilo! Se algum estava certo, naquela poca, era o Gil!, afirma o baixista que desde ento passou a cortar curtinho o cabelo, e garante: A partir dali a sonoridade da banda mudou.

As nossas bases sempre foram muito lotadas, muita guitarra, coisa pesada! E nesse disco ficamos soft, liberamos espao, conta Ricardo Feghali, que considera este momento da carreira da banda como essencial para uma transio futura. O Roupa Nova  aquilo? No! Aquilo tambm  o Roupa Nova, diz o tecladista, que ainda manteria o bigode por algum tempo.

Porm, o trabalho no deu os resultados esperados, e as vendas da Universal, para um disco caro, ficaram em torno de 85 mil cpias. Posteriormente, s bateriam as 100 mil - conseguindo um disco de ouro - depois de um segundo lanamento com a insero da msica Deixa o amor acontecer, da novela Uga Uga.****** Resultado esperado por Gil, que estimava ainda a gravao de mais dois, trs discos, para s ento alcanar o objetivo do Roupa Nova 2000. Foi um momento de exerccio para os msicos, que foram realmente chacoalhados! Ns conseguimos! E eu achei que estvamos inaugurando uma nova fase da banda, diria ele, que tambm chegaria ao fim das gravaes exausto emocionalmente.

Eu acho que o Gil mexeu na alma deles e colocou coisas ali que eles no gostavam. Mas a misso dele, como empresrio, era convencer os caras a fazer. E eles fizeram!, relembra Ricardo Moreira que, junto de Max, independente das mudanas do Agora sim!, teria de se esforar mais para segurar a banda no cast da gravadora.



- Toquem umas quatro msicas do cacete no comeo! Depois no interessa!

- Como no, Gil?

- Feghali, no precisa falar com a plateia nem brincar como voc faz...

- Ah, bicho, voc t maluco! T com a cabea naqueles artistas frios da Inglaterra!

- Nada, cara, vocs so os primeiros do mundo! Tem que pensar assim!

- E voc no sabe como  a gente! Vai ver um show nosso, porra!

Os desentendimentos entre os msicos e Gil Lopes continuaram durante os shows da turn do Agora sim! - com ambas as partes esgotadas pela convivncia anterior. E, se de um lado o empresrio j estava cansado de tantos questionamentos, do outro, os msicos, ainda inseguros com tantas mudanas, pediam Gil mais prximo da banda.

- P, voc no vai ao show? - cobrou algumas vezes Ricardo Feghali.

-  o ltimo lugar pra eu ir! Quem tem que ir  o pblico!

- Gil, voc  o nosso empresrio, algum te contou?

- Eu preparo a estrutura pra vocs! O importante  o que fazer at ter sucesso de novo!

Briguinhas que foram arruinando qualquer tentativa de relacionamento entre eles, deixando o trabalho enfadonho e maante para todos, at ruir de vez.

- Ah, Serginho, quer saber? T fora! - disse Gil Lopes por telefone ao baterista, depois de mais cobranas.

- T pedindo as contas,  isso?

- Com certeza! Parei! No me interessa mais!

Talvez se Gil Lopes tivesse respirado, contado at dez e desligado o telefone, a ruptura no teria acontecido e o trabalho com a banda poderia ser retomado normalmente. Mas, no nvel em que estavam os dilogos, outra soluo no seria mais condizente do que essa. Eu estava diante dos maiores do Brasil e joguei no time em que eu gostaria de ter jogado! E foi um marco! O que me deu muita alegria e prazer. No entanto, demandou muito esforo e dedicao da minha parte. Me exigiu muito!, afirma ele. Um empresrio que depois, mais calmo, veria a discusso com Serginho como uma grande bobagem, embora tivesse sido fundamental. Pois s ele poderia dizer a paz e o alvio que sentiu ao se afastar do Roupa Nova.



- E agora? O que a gente faz? - perguntou Serginho para o grupo, aps contar sobre a sada de Gil Lopes.

Era o incio da turn do Agora sim!, com cerca de 50 mil cpias vendidas e quinze shows realizados! Perodo crtico para os seis msicos, que se viam em uma fase de adaptao na Universal e de readequao no mercado. Ou seja, eles no poderiam se dar ao luxo de errar na escolha do prximo empresrio. No naquele instante! E o ideal  que fosse algum em que eles j confiassem, uma pessoa que tivesse a cara do Roupa Nova e trouxesse para a banda um sentimento de que vai dar certo. Um profissional muito parecido com Juca Muller.



Juca, nesta fase, assumiu a funo de empresrio do Roupa Nova sem seu irmo, Bernardo. E, de sada, enfrentou o medo dos integrantes de no conseguir encher lugares de respeito no cenrio artstico, como o Olympia, em So Paulo, onde em outras pocas eles j haviam se apresentado com sucesso!

No fundo, o empresrio acreditava que era preciso a banda retomar a f no seu trabalho para voltar com tudo, como tantas vezes j vira acontecer com o Roupa Nova. Como se uma fagulha pudesse acender de novo o fogo do grupo, que podia ser lento nas decises - por menores que fossem - com 1 milho de votaes, questionamentos e brigas, mas que, depois do pavio aceso e resolues tomadas, ia para cima sem medir esforos. E ele no estava errado...



Bastaram dois shows maravilhosos no Olympia, com o total apoio de Juca Muller, para que os msicos do Roupa Nova voltassem a ter pique para uma agenda cheia de espetculos. Alm de inspirao para se jogar em um novo disco pela Universal, com o nome Ouro de Minas.

A gravadora, anteriormente, havia sugerido para a banda fazer um CD chamado Brazilian Friends, com releituras de brasileiros que haviam se lanado no mercado com nomes estrangeiros, cantando em ingls, como o famoso e querido Richard Young. Entretanto, os msicos no viram potencial na ideia, ainda que se tratasse de regravaes de sucessos, e convenceram Max Pierre de que homenagear os mineiros seria algo mais interessante. Pessoas como o padrinho Milton Nascimento, o amigo Ronaldo Bastos; e canes mais atuais, como To seu, ou mais antigas, como Nos bailes da vida, que receberia um texto pessoal de introduo na voz de Feghali, feito por ele e Nando - aprovado por Fernando Brant:

S quem toma um sonho

Como sua forma de viver

Pode desvendar o segredo

de ser feliz

Um projeto de retorno s origens de sua histria e de seu prprio nome, Roupa Nova.



Inicialmente o trabalho se chamaria Minas, sugesto de G Alves Pinto, responsvel pela direo de arte do lbum. No s pelo repertrio dos mineiros, mas tambm um trocadilho com as minas - Elba Ramalho, Zlia Duncan, Ivete Sangalo, Sandra de S e Luciana Mello - que participariam do disco, um contraponto feminino e charmoso naquele disco conceitual.*******

- P, o Milton tem um LP com esse nome... - lembrou Nando sobre o lbum de Bituca, de 1975.

O problema se resolveria com a insero da palavra Ouro.

Ivete Sangalo chegou cheia de energia para cantar O sal da terra e contente de estar ao lado de um dos grandes artistas da msica brasileira: Ah... Roupa Nova! S faltava essa figurinha no meu lbum! E, em poucos minutos, com aquele sorriso farto e olhos vvidos, ela se tornou um deles.

Feira moderna ficou com Zlia Duncan, baileira como o Roupa Nova.******** A cano receberia um arranjo incrvel, com uma pitada de ousadia no final, no qual uma base vai para frente e a outra para trs, se encontrando em plena harmonia. Uma inveno que qualquer um diria: Isso no vai prestar, e que deixou de queixo cado quem presenciou a gravao.

Elba Ramalho assumiu F cega, faca amolada, msica com o mesmo arranjo feito em 1983 pelo grupo para se apresentar em teatros, com algumas alteraes e um trecho de forr, especialmente pensado para a cantora paraibana. E Sandra de S, apaixonada pelo trabalho da banda desde os tempos dos Famks, botou presso em Tudo que voc podia ser. J Luciana Mello teve uma bonita presena em Nascente, fechando as participaes de um dos discos mais caprichados do Roupa Nova, que passou cinco meses dentro do estdio com outras msicas como Frisson, Nada ser como antes e De frente pro crime. Um lindo projeto de carreira, que tambm no seria o ao vivo da Universal.*********



O Roupa Nova fez muita coisa popular, sim, e no estamos querendo virar outra coisa, nem cuspir no prato em que comemos. Temos a inteno de investir na qualidade vertical de nosso pblico, e levar versos fortes, como os de Amor de ndio,********** a pessoas que, teoricamente, no estariam nem a para esse tipo de msica. Cantamos no Programa Raul Gil [na TV Record] semana passada e o pblico, jovem e bem popular - digo isso sem querer ser pejorativo -, cantou de ponta a ponta Amor de ndio. Hoje, h uma distncia muito grande entre a mquina da indstria musical e os ouvidos das pessoas.  muito violenta a distncia entre o que as pessoas querem ouvir e o que se oferece na mdia, disse Nando em entrevista para Marco Antonio Barbosa30 e Mnica Loureiro, em 2001, quando Ouro de Minas, finalmente, foi lanado. Disco considerado pela banda como o mais conceitual de sua histria.

O grupo abusou do expertise da gravadora em produzir medalhes da MPB para fazer um projeto conceitual e adulto. Contudo, o CD, assim como acontecera com De volta ao comeo, no seria entendido pelo pblico do Roupa Nova, nem ganharia o disco de ouro com suas vendas - para a decepo dos msicos e da Universal! Um disco na opinio do gerente artstico Ricardo Moreira, mas que frustraria as expectativas da gravadora, interessada no sucesso popular daquela banda que escolheu fazer o disco amarelo, da RCA.



Produtor que se preze no resiste em usar o Roupa para outros trabalhos, quando a banda  prata da casa. Desta maneira, os msicos participaram de outros discos da Universal - como compositores, msicos, arranjadores e produtores. Entre os exemplos, as participaes de Feghali nos CDs de Alex Cohen, Anglica, Babi, e Sandy & Jnior.*********** Uma das canes de Feghali, com Nando e Kiko, seria um dos grandes sucessos na carreira dos filhos de Chitozinho: A lenda.

Primeiro, eles mandaram a melodia, com a letra em ingls para Max Pierre, que sugeriu:

- Vamos botar orquestra!

Depois o trio mandou a letra, que conquistou Sandy & Jnior, tornando-se a faixa bnus do CD Quatro Estaes - O Show. A cano teve arranjo de Ricardo, Nando e Kiko, foi gravada por todos os integrantes do Roupa Nova, exceto Paulinho, e tambm contou com Moogie Canazio como produtor e engenheiro de udio. Um trabalho do qual ele se orgulha de ter participado: A lenda no seria o que foi se no fosse o Roupa Nova. E no estou falando da composio, t falando da colaborao da obra. Quando uma msica  boa, voc toca ela no violo e ela continua boa. Mas existem colaboraes que so inestimveis, e essa  um grande exemplo.

A lenda ganhou clipe que estreou no Fantstico, verses em espanhol e ingls, foi uma das msicas mais tocadas nas rdios brasileiras no incio de 2000 e se tornou obrigatria na carreira de Sandy & Jnior, que naquele momento tambm tornavam-se campees de vendas na indstria fonogrfica. Ah, e h quem diga que foi a cano mais importante da histria da dupla.



Voc entrega uma msica pro Roupa Nova e eles conseguem tirar cada coisa..., refletia Juca Muller, em seu escritrio, depois do lanamento de Ouro de Minas, no apenas olhando para a carreira do grupo, mas tambm para a influncia dos msicos em outros discos. A lenda tocou no mundo inteiro! E se tivesse sido tocada por qualquer msico de estdio jamais sairia da forma que saiu. Sem contar o que eles fizeram na dcada de 1980! Estiveram em tantos discos importantes da msica brasileira... Guerreiro menino, Profana, o Rita Lee de 1982! Como se eles tivessem entranhados na nossa histria musical. No  possvel que a gente no consiga voltar ao topo! Dar uma virada nessa situao, conjecturava o empresrio.

Depois das 70 mil cpias vendidas com o ltimo CD, Juca sentia um distanciamento da gravadora quanto  carreira da banda, uma falta de interesse que, consequentemente, se reverteria em falta de investimento. Como se os seis integrantes importassem para a companhia apenas como msicos de estdio. E, sentado em sua mesa, ele rabiscava palavras sem sentido em uma folha em branco, enquanto seus pensamentos vagavam por aquele problema. O que teria acontecido se a gente tivesse seguido o conselho do Midani? Um the best of?! Que  o que a Universal queria desde o incio! E era o que mais vendia dos tempos de BMG..., dizia ele em voz alta, sozinho na sala, ao se lembrar de um levantamento da BMG que mostrava que de 100 mil discos vendidos do Roupa Nova, na dcada de 1990, dez eram de carreira e noventa de coletneas. Vamos ver ento se voc domina isso a... , o cara da Warner sabia do que estava falando... E eu deixei passar! Podamos ter feito um ao vivo, ou melhor, um acstico!

A conversa com Andr Midani, no final da reunio em Nova York, ia e voltava nas lembranas de Juca, que tentava entender se ele havia perdido o timing para a tal grande mudana. Ser? Como empresrio da banda, ele tinha que ser capaz de orientar os integrantes para a melhor deciso, insistir e brigar, se fosse o caso! E tinha de ter pulso firme para isso.

Por fim, ele reviveu o perodo complicado financeiramente que passou com o conjunto no passado, as dificuldades ainda presentes, analisou a realidade do mercado e dos meios de comunicao, que poucas vezes divulgavam o Roupa Nova. Ponderou a passagem da banda por quase todas as gravadoras do Brasil, considerou o talento e a trajetria dos msicos, e terminou com uma s pergunta feita por Midani, martelando em sua cabea: Voc tem noo do que tem na mo?



Notas

* O sonho acabou entrou na novela das seis, Anjo Mau, da Rede Globo, como tema de Fred e Goreti, em 1997.

** Lus Andrade atuou como empresrio do grupo de pagode Molejo.

*** Foi na Polygram que a banda gravou seus trs primeiros trabalhos como Roupa Nova. Companhia que seria fundida com a Universal nesse perodo.

**** O termo cozinha se refere aos instrumentos que seguram o andamento da msica, como a bateria, percusso e baixo. Na opinio de Gil Lopes, Serginho  o melhor baterista do pas, e Nando, o melhor baixista. E os dois, juntos, para ele, so perfeitos em termos de sincronia e qumica musical.

***** Em 2012, ainda era o nico clipe do grupo disponvel no site da MTV.

****** A primeira edio j trazia a cano Bem Maior, a pedido de Mariozinho Rocha, parte da trilha sonora da novela Suave Veneno, da Globo

******* Sandy tambm havia sido convidada para participar do Ouro de Minas cantando Princesa, mas no teve data vivel para a gravao. Ana Carolina tambm seria convidada, mas estava em plena turn.

******** Zlia Duncan atuava como backing vocal da Banda B, acompanhando o Rei do Samba-Rock, Bebeto, nos bailes.

********* O grupo tambm queria gravar canes como Sol de Primavera, conhecida na voz de Beto Guedes, e Vento, famosa com o Jota Quest. No entanto, no ficaram satisfeitos com os arranjos que fizeram e preferiram no mexer no repertrio.

********** Amor de ndio, com o Roupa Nova, entrou na novela Estrela-Guia, da Globo, em 2001, e em Desejo Proibido, em 2007.

*********** Ricardo e Nando compuseram Aprender a amar, para o disco Quatro Estaes, (1999). Alm disso, o CD Identidade (2003) tem arranjos de Feghali em quase todas as faixas.



CAPTULO 38

SE APRONTA PRA RECOMEAR

O Roupa Nova  ame-o ou deixe-o.

Juca Muller

Um disco acstico, como j indica a palavra,  um trabalho em que os instrumentos funcionam sem eletricidade, o que em ingls  chamado de unplugged (desplugado). Nesse formato,  comum encontrar os violes, contrabaixos acsticos, violinos, pianos, flautas e percusso, entre outros instrumentos. No Brasil, esse tipo de lbum comeou a ser feito nos anos 1990, impulsionado pela marca MTV, com nomes como Baro Vermelho, Gilberto Gil, Tits, Os Paralamas do Sucesso, Jorge Benjor, e at o rei Roberto Carlos. Um trabalho que valorizava o artista e, por que no, o ajudava a se (re)posicionar no mercado fonogrfico e vender discos! A prpria Universal j havia feito alguns projetos nesse formato de the best of, com Rita Lee e Cssia Eller. S que, naquele ano de 2001, foi Juca Muller que cismou com a ideia:

- Gente, vocs tm que fazer um Acstico!

- Ah, Juca, todo mundo j fez!

- Mas o Roupa Nova no, Cleberson! Nando, voc no se lembra da conversa com o Midani? A parte do the best of?

- Eu me lembro, Juca... Mas a gente j fez algumas coisas e no deu certo.

- No do jeito que ele falou. Vocs tm muitos sucessos... Feghali?

- Eu gosto disso, cara. Acho que devemos fazer! Mas a gente tem que conversar melhor.

Eram muitas dvidas e a maioria delas seguindo uma tendncia pessimista. O empresrio encontrou forte resistncia interna de incio, e tudo indicava que o assunto se tornaria morno por um breve perodo entre as reunies do Roupa Nova, como costumava acontecer quando nem todos os msicos estavam satisfeitos ou convencidos de uma determinada ideia. Juca os conhecia bem e sabia que teria de ter pacincia se quisesse, de fato, o tal do Acstico.



- Eu quero fazer o Acstico, Nando. Vai ser legal!

Feghali e Nando moravam na Barra, um do lado do outro. E o tecladista estava sentado no banco de carona do carro de Nando, enquanto ele dirigia para casa, quando tocou no assunto.

- Ah, cara... Eu no sei, no. Me preocupa demais esse trabalho!

- Por que, Nando? Eu acho, de verdade, que pode ser foda! A gente tem muita msica que as pessoas no conhecem!

- P, Feghali, a gente no  os Eagles! Beleza, no caso deles a banda sumiu e depois voltou! Agora, a gente t a, entendeu? No acho que vai dar certo fazer porque no somos os Eagles! Somos o Roupa Nova.

- No, bicho, vai dar certo sim! O momento  para o Acstico!



- Hein, gente? Vamos fazer um Acstico?

Resposta negativa pela milsima vez para Juca, e um carrilho de questionamentos dos msicos. Como seria isso? Vamos ter a marca da MTV? No pode ser feito de qualquer jeito! E onde iramos gravar? No vamos parecer oportunistas por explorar esse formato consagrado pelo pblico? Em termos de som, Serginho at se mostrava apto a tocar a bateria com mais delicadeza e Cleberson gostava da possibilidade de abusar dos pianos, mas Kiko no conseguia imaginar sua guitarra nesse contexto.

- Vai perder a principal caracterstica do instrumento!

Uma situao que prosseguiu indefinida por meses, com alguns poucos avanos, na velocidade de um grande e gordo elefante branco. At o dia em que um dos integrantes falou mais alto. E nem foi o empresrio que explodiu com tanta demora e indeciso, muito menos Feghali, j convencido da ideia, mas um geminiano genioso, que bem poderia ser o baixista dos Eagles.

- P, ningum vai pegar os instrumentos no Acstico, no? Hein? Vamos tentar, caramba!

Pronto. O grupo ligou na tomada ningum sabe como, energia de 220 volts, e a coisa pegou no tranco. Todos estavam dentro. Coisas inexplicveis e peculiares do Roupa Nova.



A conversa de Juca com a Universal tambm no foi das mais empolgantes para fazer o Acstico. Afinal, aps os discos Agora sim! e Ouro de Minas, a animao e a disponibilidade j no eram mais as mesmas para se trabalhar com o Roupa Nova. A conta do grupo estava no vermelho depois de dois discos caros que no haviam dado retorno, e a gravadora no via motivo para colocar mais dinheiro em um artista da dcada de 1980, principalmente em um projeto caro como o Acstico! Uma companhia vive de nmeros e as reunies de A&R - Artists and Repertoire: seo responsvel pelo desenvolvimento artstico dos msicos - eram muito prticas na hora de reavaliar o seu cast. E naquela circunstncia o Roupa Nova estava mais para uma promessa do que uma realidade.

Por outro lado, Max Pierre acreditava muito no projeto e ainda se lamentava por no ter feito o ao vivo em 1999. Eu tenho certeza de que teria sido um golao. Por isso, apresentou a proposta para a Universal, que topou participar da empreitada se a MTV aceitasse realizar o show. No entanto, a diretora artstica da emissora, Anna Butler, foi enftica:

- O Roupa Nova no  MTV!

Diferente do clipe de Agora sim, o Acstico da banda teria sucessos de Michael Sullivan, Paulo Massadas, Ed Wilson... E no foi aprovado por Anna Butler para levar a chancela da emissora! O argumento da diretora era de que a banda no fazia o perfil da audincia, embora a mesma MTV j tivesse feito, naquele perodo, acsticos de nichos no to comuns na sua programao, como o pagode - com o Art Popular. Alm disso, outros artistas caracterizados pela dcada de 1980 teriam seu MTV Acstico, como Lulu Santos, Kid Abelha ou Ira! Mas, enfim, no havia discusso e a palavra final era dela.

A recusa da MTV foi uma geleira sobre as expectativas de Max, dos msicos, de Juca, e da gravadora, que tentaria em seguida a Multishow como uma opo. Porm, essa emissora tambm no se interessou pelo disco, considerado caro pela Universal, transformando o projeto do Acstico em uma miragem para o Roupa Nova.

- Olha, agora no vai dar. Vamos deixar pro ano que vem!



Agora no, Deixa pra depois, ouviu Juca Muller da diretoria da Universal tambm no ano seguinte, 2002, enquanto os integrantes do Roupa Nova tocavam nos discos de outros artistas, como Sandy & Jnior. Puta que o pariu... Eles s querem o Roupa como msicos de estdio!, pensou o empresrio, que insistia com o Acstico dentro da gravadora, embora recebesse desculpas diferentes a cada instante.

- A BMG t querendo um percentual. Acho que o Acstico vai encrencar de vez.

- T de sacanagem, Max... E a Universal?

- Ah, Juca, acho que a companhia no vai ceder, no...

A editora da BMG tinha direito sobre a gravao dos maiores sucessos da banda e, sem esses hits, revisitar a carreira do Roupa Nova perderia todo propsito. Pssimo sinal para o empresrio, que comeou a refletir sobre outras possibilidades, at porque ele sabia que, se as duas empresas no entrassem em acordo, o Acstico poderia virar a prpria Lenda.



O impasse entre a BMG e a Universal continuou durante o segundo semestre de 2003. Entretanto, o grupo j estava planejando como seria o Acstico para maro de 2004, considerando que at a data prevista este grande detalhe j estaria sanado. E, quanto mais o tempo passava com essa incerteza, mais desesperado ficava Juca Muller:

- Max, joga limpo! O que a gente precisa fazer para ter o Acstico?

- A Universal no tem dinheiro para o projeto, Juca! Para bancar as participaes, por exemplo, precisamos de grana!

- Porra, o Milton Nascimento j t confirmado, o Nando Reis t quase! No  possvel que seja to impossvel para a gravadora completar o que falta.

- Olha, voc  o empresrio, no ? Acha um patrocnio que a gente coloca o Chitozinho e Xoror no DVD!

Max, apesar de todo crdito que tinha com a banda, no peitaria a gravadora para aceitar o projeto. No entanto, se eles entrassem com o dinheiro, ficaria mais fcil a Universal produzir. Essa poderia ser uma sada para o projeto, e Juca no poderia deixar escapar. Desse modo, o empresrio foi para a Secretaria de Cultura, a Prefeitura do Rio de Janeiro, e rodou por muitos outros lugares na cidade em busca de investimento.

- Max, no rolou.

- Juca, a Universal no tem dinheiro para esse projeto. No sei como podemos resolver essa questo. Quem sabe, se...

Mais reunio, negociao, alternativas e desgaste com a Universal. Aquilo j estava cansando e parecia que o projeto no iria sair. Uma novela que no tinha fim e reunia com frequncia Juca Muller e os msicos na sala de Max Pierre.

- Podemos fazer no Universal Up! Fica mais barato gravar no espao da gravadora e...

No local sugerido por Max cabiam em mdia 350 pessoas - pequeno para as pretenses da banda e do empresrio, que estourou:

- Voc no tem noo do que  o Roupa Nova!

Uma frase dita em tom to rspido que at os integrantes da banda olharam torto para Juca. Era uma relao de muitos anos, na qual cada um conhecia os defeitos e as qualidades do outro! E para o empresrio perder a compostura era porque ele acreditava muito no Acstico, se bobear, mais do que eles. Parecia at Anelisa e Valria brigando com Manolo pela continuidade da turn do disco azul, na RCA, em 1986.



- Universal Up  foda, hein... - disse Nando, impaciente, para Feghali, ao sair da sala de Max, do lado de Juca.

- Cara, pra sair de uma crise tem que fazer um projeto grande! Pequeno no serve!

Juca ia mais  frente, macambzio. Voc tem noo do que tem na mo? Vamos ver ento se voc domina isso a... Ai, caramba, que merda... No notava que os dois msicos continuaram o papo em busca de outras solues, listando todas as pessoas que poderiam ajud-los de alguma forma. E assim ele seguiu, viajando em suas memrias, at ser acordado pela mo de Nando em seu ombro, como se pedisse para ele parar: Juca?, fazendo a mais inesperada das perguntas:

- Voc consegue produzir isso?

- Er, ah, o qu? Vocs esto falando do Acstico?

- , Juca. Voc consegue produzir? - confirmou Feghali, olhando ansioso para o empresrio, esperando por um sim tanto quanto Nando.

- No... Quer dizer, consigo, gente! Vamos nessa!

Sem ter a menor ideia se ele seria realmente capaz.

- Beleza. A gente vai arrumar um cara para bancar isso a.



Feghali ficou muito nervoso nas semanas posteriores, com medo de no conseguir o dinheiro para o Acstico. Como a gente vai fazer se no rolar?, se perguntava em sua casa, entre um telefonema e outro tentando marcar reunies com amigos e conhecidos que poderiam ser seus investidores. Poxa, cada um construiu sua vida a seu modo. E somos seis pessoas completamente diferentes... Estava tenso e com receio do futuro do Roupa Nova. J faz quase trs anos do lanamento do nosso ltimo disco...  merda...

- Sr. Ricardo, pode entrar - chamou a secretria de um possvel patrocinador, interrompendo os devaneios negativos de Feghali, que respirou fundo e focou em seu objetivo antes de entrar na sala principal do escritrio. O no eu j tenho. E eu vou conseguir!

Uma reunio que, para o tecladista, pareceu ter durado a eternidade, apesar de o empresrio, f do Roupa Nova, ter dito logo no incio.

- Vamos ento!

- H?

- Vamos nessa, Ricardo! Qual  o prximo passo?

Acalmando o corao de um filho de libans por, pelo menos, ter mais uma chance.



O patrocinador comprou a ideia do Acstico tanto quanto Juca e, na primeira reunio com o empresrio, pediu a planilha de custos para garantir que no faltaria nada! Demonstrava disposio visvel para as centenas de discusses da banda - embora Juca gostasse de reforar:

- Isso vai dar muito dinheiro, pode acreditar! A gente vende muito disco de coleo!

Porm, ainda restava discutir se valeria a pena sair da Universal. Afinal, a gravadora se mostrava claramente distante em relao ao trabalho do Roupa Nova, e o Acstico deveria ser perfeito em sua produo!

- Vamos fazer um selo!

Juca tambm trabalhava com os Detonautas e havia acompanhado a gravao do primeiro disco dos roqueiros chamado Silver Tape - um trabalho independente, que depois seria repaginado pela Warner e lanado novamente com o nome Detonautas Roque Clube, em 2002.

- ... Tem artistas tomando esse rumo... J falei pra vocs!

Nando, antenado, era outro que falava sobre o assunto desde a criao do Phonomotor Records,* em 1999, selo fundado pela cantora Marisa Monte, com distribuio pela EMI.

- P, e a gente sempre quis um selo pra lanar novos talentos... Podamos fazer as duas coisas! Nada melhor do que o seu produto para reforar o seu selo, n? - disse Feghali, tambm inclinado a sair da Universal.

- E, sendo o nosso selo, d pra aceitar o percentual da BMG, j que a msica  nossa mesmo. O dinheiro vai voltar pra gente! - completou Kiko.

Os seis integrantes iriam ruminar essa deciso por algum tempo, mas a verdade  que, naquele ponto da carreira, no existiam muitas opes. Eles j haviam passado por quase todas as gravadoras - exceto a Sony Music (antiga CBS) -, e a Universal no cederia os direitos de gravao das msicas que tinha para outra empresa, a no ser a do Roupa Nova. O que eles ento tinham a perder? No tinha muito que fazer. Era uma aposta grande nossa. Ou vai ou vai. Era o tudo ou nada, relembra Cleberson. Como tambm diz Nando: No foi questo de ter uma ideia. No tinha outro jeito!

Assim, o contrato com a Universal foi rescindido, mas a gravadora faria a distribuio do Acstico.



Depois da resciso do Roupa Nova com a Universal, Max Pierre se comprometeu a acompanhar Juca Muller at So Paulo, para procurar um lugar para o show do Acstico, que havia sido cogitado para uma casa de Bonsucesso, no Rio de Janeiro. O preo precisava caber no oramento, e o palco ser no centro do espao, como Feghali desenhara, para ter o efeito desejado na gravao, o que tornava a procura complicada. Os dois passaram em alguns estabelecimentos famosos da cidade, como o Via Funchal, e no encontraram nada dentro desse perfil.

- , Juca, no deu...

- Parece que no, Max... Bom, eu vou ficar aqui mais um dia. Quem sabe?

Juca estava empenhado em fazer aquilo dar certo! S no sabia ao certo como. O que no dava era voltar para o Rio de Janeiro de mos abanando.

- Hum... Tem o Rossi! - disse ele, falando sozinho pela Paulista, aps se despedir de Max, como se tivesse achado um tesouro muito valioso. - Ser que eu tenho o nmero dele aqui?

Ele parou na calada para olhar suas anotaes na mochila e os contatos do telefone. Todo atrapalhado no meio de pessoas apressadas saindo ou voltando do trabalho.

E ali mesmo, exasperado, ligou para Rossi, diretor artstico do Olympia, regio Oeste de So Paulo, para falar do seu problema, cheio de esperanas sobre a casa de shows.

- Oi, Juca, vem pra c! Vamos conversar.

Ao chegar ao Olympia, o empresrio cumprimentou Rossi com os detalhes do Acstico na ponta da lngua: palco no meio, oramento, importncia do show etc. Enquanto ele falava acelerado e sem parar, Rossi acompanhava os trejeitos de Juca com um semblante tranquilo, rindo s vezes de toda aquela agitao.

-... e o palco  para estar no meio. Como se eles estivessem em uma arena, com o pblico por todos os lados! Eu sei que isso  difcil, mas...

- Respira, Juca! Vamos fazer o Acstico. Vai ter show do Rappa no final de semana anterior ao que voc quer, em abril. Acabando a apresentao deles no sbado, os funcionrios entram, desmontam tudo e a gente monta o palco que voc precisa.

O empresrio perdeu a fala, engasgou e quase caiu da cadeira.

-  isso que voc ouviu! Vamos fazer esse show aqui, no Olympia. E d para fazer com esse oramento!

Mais que depressa, Juca pegou a planta do local e passou por fax para os integrantes do Roupa Nova aprovarem. S que o documento era bem tosco, com garranchos de dados rabiscados ao redor da estrutura.

- Huumm... Sei no, Juca. A gente deu uma olhada, mas, sei l... No sei se  o que queremos - disse Feghali, por telefone.

- Cara,  aqui! T te falando. Bora fazer esse projeto! O lugar  perfeito e...

Mais telefonemas, mais conversas e, por fim, um santo e milagroso OK - que parecia at cantado por um coro de anjos ao p do ouvido de Juca. Haja lbia para convencer os seis msicos, ainda mais  distncia! Ufa... Mas naquele dia nada pararia o empresrio.

Assim, quem passou pela porta do Olympia no entendeu muito bem. Saindo da casa de shows, por volta das 21 horas, um homem de altura mediana, cabelos grisalhos, com seus 50 e poucos anos, parecia dar pulinhos enquanto se dirigia para o ponto de txi. De punho cerrado e sorriso constante no rosto, parecia at um garoto...



No final de 2003, Juca Muller era o responsvel pelos compromissos dos Detonautas, estourado nas rdios brasileiras, e atuava tambm como empresrio da Blitz, que tentava voltar ao cenrio musical. Tudo isso junto com o Roupa Nova saindo da Universal, legalizao do novo selo, acertos sobre a distribuio do DVD, novo contrato com a gravadora, estrutura do Olympia, concepo e contratao de profissionais para o Acstico. Algo grandioso e que poderia significar a derrocada da banda e tambm do empresrio, no caso de um fracasso. No adianta fazer coisas boas, as pessoas s se lembram das ruins. No posso falhar! Acima de tudo, era preciso manter os msicos ativos e estveis emocionalmente para a criao artstica do DVD (estdio, convidados, arranjos, gravao etc.). Pelo menos, eles deram uma trgua nas brigas feias... Em suma, apostas feitas, hora de girar a roleta.

Vai dar certo! Vai dar certo!, era o que o empresrio repetia toda vez que se encontrava com um dos integrantes, tenso! Isso quando ele no ligava para um deles.

E, para ser mais contundente, a partir do dia 26 de dezembro, ele passou a fazer uma contagem regressiva coletiva. Toda manh, ele chegava em seu escritrio, pregava um papel na parede para todo mundo ver e passava outro, por fax, com as mesmas palavras, para a casa de cada um dos msicos do Roupa Nova. Mudando sempre o nmero da frase, em uma escala decrescente:

Faltam 120 dias para a gravao do DVD. O que voc est fazendo para o projeto?



Dali para frente, as pessoas foram sendo escolhidas por Juca, de acordo com o oramento, para trabalhar na produo do DVD. O maestro foi o primeiro profissional a ser definido - no mesmo dia do acordo entre Roupa Nova e Olympia, no qual estava acontecendo um evento fechado do Fbio Jr. O cantor, em 2003, lanou seu CD e DVD ao vivo, e o maestro da produo era Adriano Machado, que, embora no tivesse experincia com trabalhos grandes como o Acstico, adorou a proposta e acertou a participao.

Rodrigo Carelli assumiu a direo do projeto, e Santiago Ferraz convenceu Juca durante a entrevista para a funo de produtor executivo, apesar de no ter feito at ento nenhum DVD de relevncia no mercado. E foi ele quem ajudou Juca na escolha dos cmeras para a gravao.

- S um detalhe, Juca: eles nunca gravaram um show! At hoje, s trabalharam com transmisso de jogo de futebol!

- Puta que o pariu, Santiago...

Um segredo que Juca compartilhou apenas com seu fiel escudeiro Nestor, que trabalhava havia anos com a banda. Os dois atuaram no escritrio do empresrio, no Leblon, durante 120 dias ininterruptos - de dezembro a abril -, indo at as 22 horas ou virando a noite, se fosse preciso. E, se o grupo entrava com a parte artstica do DVD, Nestor foi o responsvel por fornecer, na parte tcnica, tudo o que era necessrio para o projeto. A minha relao com o Santiago era de vida ou morte. Ou ns dois amos sair muito bem, ou esquece, comenta hoje o empresrio. Um produtor que esteve para ser demitido pelos integrantes do Roupa Nova inmeras vezes, durante o processo!

- Vamos chamar a Joana para fazer esse DVD! Demite ele!

- No, no, no...

Sendo readmitido, quase sempre no mesmo dia, por seis msicos que estavam cabreiros quanto ao sucesso do projeto, sobretudo porque tinha muita gente nova envolvida! Eles estavam sem o amparo daqueles profissionais que se acostumaram a ter por perto. Nem o tcnico Flvio Senna pde fazer o show por causa de data, dando lugar a Renato Luis (O Bolonha), em quem eles no tinham essa confiana cega e absoluta.

- No vai ter mais DVD, Juca Muller. Acabou tudo!

Frase que o empresrio ouviria de alguns integrantes, em situaes de crise, at dias antes da gravao, tendo a tiracolo o seu revide favorito para aquela afirmao: Vai dar certo.



Juca e Nestor foram para So Paulo inmeras vezes durante o perodo da produo do DVD e, quando iam de carro, na passagem por Aparecida, paravam um pouquinho.

O empresrio, religiosamente, pedia proteo e energia positiva para o Acstico do Roupa Nova. Atirando para todos os lados para garantir o sucesso do DVD, sem desprezar tambm a ajuda dos cus.



O adiamento da gravao do Acstico, de maro para abril de 2004, acarretou na desistncia das participaes de Milton Nascimento e Nando Reis, devido s datas incompatveis. No entanto, a produo conseguiu assegurar o maestro Eduardo Souto Neto na execuo do Tema da vitria - do Ayrton Senna -, Chitozinho e Xoror para cantar a indita J nem sei mais, e Ed Motta, que, alis, iria sugerir a cano.

- P, Feghali, acabei de comprar o primeiro vinil de vocs num sebo!

- Caracoles! Srio? - perguntou, surpreso, o tecladista para Ed Motta, colecionador de bolaches, tendo cerca de 30 mil ttulos em sua coleo.

- , o meu estava todo arranhado... T ouvindo muito Bem simples. Pode ser essa?

Uma mistura interessante entre artistas de escolas musicais distintas para estrear pelo selo Roupa Nova Music. O equilbrio entre o sofisticado e o popular - o que os msicos tentaram fazer durante toda a carreira.



Os shows do Rappa aconteceram nos dias 16 e 17 de abril, no Olympia, continuando a turn do seu mais recente trabalho O silncio que precede o esporro (2003) - primeiro disco aps o desligamento definitivo do baterista Marcelo Yuka. A banda havia retornado dos Estados Unidos e o pblico compareceu em peso para ouvir msicas do ltimo lbum e dos antigos como Hey Joe, O homem bomba e Minha alma.

No comeo, houve uma resistncia dos funcionrios do Olympia em fazer o show do Roupa Nova aps a turma do vocalista Marcelo Falco. Isso porque eles teriam de desmontar a estrutura atual e construir uma nova dentro da casa de show, com o palco no centro e caixas novas chegando sem testes prvios.

- Vai ter hora extra pra cacete! - reclamaram Ftima e Alejandro, que trabalhavam com Rossi.

S que no teve conversa com o diretor do Olympia:

- Eu quero fazer isso, e ser feito! Acabou a apresentao do Rappa? Eu quero que arranquem tudo!

Assim, logo que acabou o show na madrugada de sbado, de prontido j estavam Juca e Nestor, esperando os funcionrios do Olympia para desmontar aquele esqueleto musical. Porm, as horas foram passando e ningum chegava para tirar o cenrio e o equipamento do Rappa, sendo que a previso era a de que s 6 horas da manh j no tivesse vestgio do show anterior.

E, de repente, BAM! A porta abriu e vrios homens apareceram para retirar os pertences do Rappa, e a funo terminou ao meio-dia, com seis horas de atraso. Com o espao liberado, s 14 horas os operrios da casa puderam dar incio ao projeto do Acstico, com o acompanhamento de Juca e Nestor - que mudaram a rotina do escritrio do Leblon para passar cinco dias e cinco noites no Olympia, em So Paulo.



Segunda-feira, faltando quatro dias para a primeira apresentao.

- Ftima, quantos ingressos vendidos?

- Cerca de trezentos pra sexta e trezentos pro sbado, Juca.

- Trezentos?? E isso  bom ou ruim?

- Fala com o Rossi.

- J vi tudo... - disse Juca, balanando a cabea em sinal de reprovao.

- Imagine isso tudo vazio?? So 1600 pessoas para encher! Se o pessoal do Roupa souber desses nmeros, nem embarca para So Paulo! - completou Nestor, com risos de nervoso.

- Nestor, se um deles ligar perguntando sobre bilheteria, voc mente! Diz que t bombando! T bombando! Caramba...



Uma das mudanas feitas no Olympia para o Acstico foi em relao ao som. Os funcionrios tiveram de tirar todo o equipamento existente para botar as caixas novas, que ainda iriam chegar, em posies estratgicas para atingir a plateia por todos os lados. Caixas de ltima gerao saindo direto da embalagem para serem ligadas pela primeira vez, com a misso de agradar msicos perfeccionistas com a qualidade do som. E que, alis, chegaram com apenas trs dias de antecedncia da gravao.

- Voc conhece isso, n, Santiago? - perguntou Juca, temeroso do que poderia escutar.

- ... - disse o produtor olhando com curiosidade, segurando o queixo, como se estivesse analisando a cena. - So colmeias... Caixas colmeias...

- J pilotou uma dessas, n?

- Humm... - e contorcendo a boca, como se tentasse se lembrar de algo. - Eu vi em um festival no sei onde e...

- Meu Deus! No acredito... - interrompeu Juca, com os olhos de quem tinha acabado de ver uma assombrao, se afastando de Santiago s pressas, para no se arrepender do que ainda poderia ouvir.

- T bom, vamos l, vamos em frente. Deus tem que olhar por mim! Socorro...



Quinta-feira, dia anterior  primeira apresentao do Roupa Nova no Olympia, e Marcelo Sabia ainda no havia conseguido acertar a recepo do som para realizar a gravao. E, se no escalasse aquele transtorno para a organizao geral do DVD, a sua funo seria prejudicada e, por consequncia, o show.

- Olha, eu no sou diretor, no sou nada! Sou apenas engenheiro. Mas se em duas horas o udio no chegar l dentro, o DVD t cancelado!

No que ele pudesse realmente fazer isso. No entanto, todos estavam com a corda no pescoo, muito empenhados para que aquela produo fosse impecvel. E nada melhor do que mais presso sobre a cabea da equipe, para tornar o som uma questo de prioridade.



At que chegou o grande dia: 23 de abril, data da primeira gravao do DVD do Roupa Nova. Coincidentemente, Dia de So Jorge, santo guerreiro, protetor daqueles que precisam de coragem para os momentos difceis. Segundo a tradio, ele defende e favorece seus fiis com vitrias em batalhas, injustias e demandas complexas. Exemplo do que fez em vida.

A crena diz que, nesta data (303 d.C.), o soldado Jorge da Capadcia (Turquia) foi torturado e decapitado em Nicomdia (Palestina), pelos homens do imperador Diocleciano. Ele teria sido morto por se manter cristo e por converter com sua f os prprios romanos. O mesmo Jorge que teria lutado contra um drago e libertado uma princesa, prestes a ser devorada pelo animal - lenda que possui vrias verses.

Assim, devotos do mundo inteiro comemoram no dia 23 de abril o dia do Grande Mrtir, que teve, inclusive, sua orao gravada por nomes da msica brasileira como Jorge Benjor, Fernanda Abreu e Zeca Pagodinho. E que tambm ganhou canes inspiradas em sua luta, como Lua de So Jorge e Cavaleiro de Jorge, de Caetano Veloso. Alm disso, inmeras igrejas foram erguidas em sua homenagem, como a capela construda no Centro de Treinamento do Corinthians, que tem o soldado como padroeiro.

Juca Muller no era devoto do santo. Porm na igreja do Timo, naquela sexta-feira, podia-se notar um ingresso deixado no p da imagem de So Jorge, com a impresso: Show no Olympia do grupo Roupa Nova - gravao do DVD ROUPAcstico.



Eram 22 horas de sexta-feira! Faltavam minutos para o show comear e o Roupa Nova ainda passava o som. Olha esse trecho aqui Passa esse pedao de novo? Vamos acertar essa entrada mais uma vez? Detalhes, detalhes que no iriam acabar nunca se dependessem deles. Essa foi a cena que Juca encontrou s vsperas de as pessoas entrarem para um espetculo marcado para s 22h30, no Olympia.

E logo se lembrou de Dom Pepe, no Imperator, no Rio de Janeiro, abrindo a porta para o pblico com eles ainda no palco. Eu no posso perder o controle da situao, no agora! Dava para perceber que os msicos estavam agitados tocando, procurando problemas. Juca conhecia aquele ciclo perfeitamente: um fica aflito e passa para o outro, que passa para o outro e uma poeira de nervosismo se levanta, a ponto de deix-los cegos para enxergar a soluo. Eu preciso fazer alguma coisa. E em p na rea da plateia, no estilo Felipo com seus jogadores, Juca arrumou uma gritaria em um combinado de desespero e motivao:

- PORRA! Ns chegamos aqui pra isso? Estamos na vspera desse DVD! Pelo amor de Deus, parem com esse ensaio! No tem mais tempo!

- Mas, Juca...

- Mas nada! Vocs j cansaram de passar as msicas! Ser que no d pra confiar no trabalho de vocs, cacete? Chega! Vai dar certo!

E, por incrvel que parea, a coisa melhorou. Eles se acalmaram e foram para o camarim aguardar a entrada definitiva no palco. Sem mais atrasos.



Com o palco no meio, no deu para fazer a entrada dos seis msicos pelo camarim. Portanto, todos os integrantes tiveram que esperar pela deixa da produo em um corredor pequeno, apertado, em fila e sem a viso da casa. O corao de todos batia acelerado, como se eles fossem jogadores de futebol prestes a entrar em campo em uma grande final.

- E a, vi!  agora! - gritou Ricardo Feghali para os outros cinco, no meio da fila, com a respirao ofegante, satisfeito por estar vivendo aquela experincia.

- Uhu! Vamos nessa, gente! - vibrou Kiko, na frente da fila, apertando os dedos, prontos para deslizar pelas cordas do violo.

J Serginho, atrs, alongava o pescoo, enrijecido com tanta tenso. Cleberson, entre Feghali e Nando, sorria de nervoso, limpando os culos e colocando no rosto algumas vezes, e Paulinho, no final da fila, podia sentir seu pulso disparado, com as palmas do pblico, que gritava e assoviava. Roupa Nova, Roupa Nova, era a nica coisa que dava para se ouvir l de dentro. E Nando encostou a mo no ombro de Cleberson, dizendo mais baixo, aps receber um tapinha de apoio de Paulinho.

- Sorte.

Os mesmos seis que se encontraram em 1978, ainda como Os Famks, e que sob o nome Roupa Nova emocionaram pessoas, tocaram com dolos, lotaram shows, brigaram com crticos e entre si, choraram, se divertiram e festejaram prmios. Tudo bem... Seis msicos mais velhos, mais cansados, sem estrelas nos olhos e no to velozes como os heris. Mas com o mesmo anseio de serem amados.

- Podem entrar! - avisou a produo, antes de a porta se abrir e a luz tomar, enfim, aquele corredor.



Estrelas de seis pontas no teto, como se estivessem em um mbile gigante, giravam enquanto as luzes danavam entre elas, com msicos de apoio, orquestra e maestro j posicionados no palco. E a banda entrou em cena para fazer o the best of de Midani, o ao vivo de Max Pierre, o acstico de Juca e o projeto dos sonhos do Roupa Nova, que abriu o show com Whisky a Go Go, com a sonoridade descoberta no Agora sim!

Todos os integrantes estavam muito bonitos, vestidos com cores mais clssicas, como preto, branco e listras mais suaves; mais magros, de cabelos curtos e sem barba. E Ricardo Feghali, inclusive, sem o bigode, como tanto pedira Gil Lopes. Ele tinha razo! Eu tinha que tirar mesmo!, comentaria depois o tecladista.

Entre sucessos, a indita  flor da pele ganhou um tmido coro do pblico, que aprendia a nova cano com os msicos. Nando mostrou a faceta de composio do grupo ao falar sobre Sandy & Jnior, duas crianas que costumavam assistir aos shows do Roupa Nova em Campinas, s vezes na beira do palco.

- E hoje a gente tem a honra de ver uma cano que saiu desse palco, uma msica do Kiko, letra do Ricardo Feghali e do Nando, virar um sucesso nacional na voz dessas crianas.

Arrancando gritos de fs, surpresas, ao ouvir A lenda! Fazendo uma verso diferente, aps Feghali abrir nos teclados.

Bem simples, que Mariozinho Rocha praticamente obrigara Nando a gravar, ganhou a participao de Ed Motta, f da banda desde moleque. E o baixista, sorridente, apesar de toda tenso, afirmou:

- As coisas mais simples e sofisticadas se confundem. E a msica  a linguagem mais direta que no precisa de nada pra se explicar.

O pblico comemorou ao ouvir Meu universo  voc e nem reparou que Feghali saiu do piano e Cleberson do rgo, simultaneamente, trocando de lado e de instrumentos no meio da msica. Batendo as mos no breve instante em que se encontraram no palco. Vibrantes ainda que inquietos.

Kiko admirou Chitozinho e Xoror cantando junto com a banda a msica J nem sei mais. E, embora estivesse longe das guitarras possantes, muitas vezes olhava para cima, tomando ar, sentindo a grandiosidade que era aquele evento para a carreira deles.

Como fazia desde o incio do Roupa Nova, Paulinho se sentou no cho, cheio de charme, para cantar Coraes psicodlicos. Sem fazer tantas poses dessa vez e sem vestir aquele bluso branco estrelado que as fs adoravam, mas feliz por estar ali. E Eduardo Souto Neto, que acreditou na banda ainda em 1979, ao cham-la para gravar a mensagem de Ano-Novo da rdio Cidade, se emocionou ao executar o tema de Ayrton Senna como havia feito nos anos 1980 na rede Globo, acompanhado de senhores msicos que ele tanto admirava.

J Serginho puxou a ltima msica daquela apresentao. Uma cano que terminaria com todos os seis integrantes, sem seus instrumentos, na frente do palco, levando o ritmo nas palmas e ao som do surdo da percusso. Uma composio dos eternos parceiros Nando e Feghali, Razo de viver:

Me d a mo

Cante a cano

Faz a sublime roda do amor girar

Segue a voz do corao

E ensina o mundo a se amar

L no final

H um lugar

Ondas de puro amor vo nos envolver

Segue a voz do corao

E ensina o mundo a se amar

Outra vez

Outra vez... Marcando naquela ocasio o comeo do selo Roupa Nova Music e de uma nova fase, na qual o pblico poderia levar para casa, pela primeira vez, o que de melhor o Roupa Nova sempre soube fazer: seus espetculos! Com Cleberson, Nando, Serginho, Paulinho, Kiko e Ricardo terminando a cano de mos dadas. Um do lado do outro.



O segundo dia no Olympia foi melhor do que eles esperavam, com uma recepo esfuziante do pblico e um material maravilhoso para a segunda etapa do projeto: a mixagem, com o amigo Flvio Senna, no Blue Studio, do produtor Guto Graa Mello. Ali, o nervosismo dos integrantes do Roupa Nova continuou, como se eles ainda carregassem o peso de uma crise sem perspectiva de melhora, apesar da gravao do show ter sido bem-sucedida. Todos se cobravam demais e, muitas vezes, se perdendo em questes de ego e insegurana.

- Esse instrumento est muito alto!

- No t!

- Claro que est.

- Ah, ento vai todo mundo pra...

- Reunio!!

Reunio. Equipamento desligado, Flvio Senna esperando, at eles se resolverem aps horas de discusses. Ningum se metia na conversa, nem Juca nem Flvio. Era s trancar a porta e deixar o pau quebrar que em algum momento eles se entenderiam. E, quando dava, Paulinho era um dos que fugia para tomar um caf e ficar um pouco longe da confuso. Ah, o que eles resolverem por mim t legal.

As disputas, na verdade, iam muito alm de uma definio de volume: Voc no pode se meter no meu instrumento, Eu posso, sim!, Quem te deu esse direito?, e por a afora. Parecia mais uma tentativa desastrada e atrapalhada de entender o conceito de conjunto e o que cada um representava naquele grupo. O que mostrava que, por mais que eles no tivessem uma liderana - na tentativa de preservar a liberdade individual dos componentes -, a banda tambm tinha suas dificuldades por conta da mesma democracia. Afinal, todos ali eram lderes.

Guto, que morava no terreno do estdio, cansou de passar na mixagem e encontrar uma situao estranha:

- E a, gente? Como estamos?

- Estamos nada! Acabou o DVD!

Com outra situao mais estranha ainda aps dois dias:

- T tudo certo, Guto! Vamos de novo!

Um conjunto perfeccionista ao extremo que, na viso do produtor, faz msica entre as reunies: Nunca vi igual! Todos tm que concordar com tudo! O que  impossvel! E que, ainda assim, conseguiria terminar a mixagem, depois de meses, com a mesma formao e lanamento do trabalho previsto para setembro.

E o Roupa Nova, outra vez, no acabou.



A divulgao do DVD teve fora mxima de todos os envolvidos: cases para lojistas, radialistas, participao da banda em eventos etc. - graas  parceria entre o Roupa Nova Music e a Universal. Juca lidava diretamente com os lucros do selo, e as mudanas se faziam a passos largos. S faltava uma coisa: a televiso. E sobrou para ele pegar o carro e ir para a rede Globo conversar com Wagner Farias, um dos diretores do programa Domingo do Fausto.

Era sexta-feira, final do dia, quando o empresrio sentou ao lado de Wagner com o DVD:

- Do caralho, do caralho! - repetia o diretor ao ver as imagens.

E ele passou horas assistindo, enquanto Juca falava sobre como o trabalho tinha sido feito, a qualidade da produo e a reao instantnea das vendas. Foi quando, de repente, algum que passava pelo Projac cumprimentou o diretor, interrompendo o papo: E a, Wagner! Este ento acenou com a mo, sorriu, virou para Juca e mandou sem rodeios:

- 7 de novembro! Pode marcar na sua agenda.

Nunca fora to longo o caminho da sala de Wagner Farias at a sada da emissora. Isso porque Juca sabia a importncia para um intrprete de aparecer em um Domingo do Fausto, no lanamento de um trabalho, e como aquilo poderia reverter em vendas. Era como se ele j estivesse vislumbrando tudo o que ocorreria depois com o ROUPAcstico.

Durante todo o trajeto, repleto de satisfao com o seu papel cumprido como empresrio, ele revisitava tudo o que tinha acontecido anteriormente - desde os tempos de crise na dcada de 1990 aos conflitos com as gravadoras. No acredito que vou ver o grupo de novo estvel financeiramente! Com outros fs, independente, no topo do mercado, e sem se submeter aos mandos e desmandos de uma multinacional, refletia Juca, orgulhoso de toda jornada, que ainda poderia servir de exemplo para outros grupos no Brasil, onde a autogesto at ento era pouco praticada. Era uma sensao definitivamente muito boa.

Assim, em um final de tarde ensolarado de 2004, Juca saiu do Projac com o Fausto debaixo do brao e o sentimento de que a sua maior participao na carreira do Roupa Nova, nesses onze anos juntos, havia sido a insistncia no Acstico at o ltimo segundo. Como diria Cleberson, anos depois: O Juca falava do Acstico sem parar! Nesse ponto, o mrito  dele!

Ou Nando: Ele  querido pra mim. Estvamos nervosos e tivemos que peitar pra fazer! Foram trs anos esperando, e a Universal dizendo que no. E o Juca teve do nosso lado o tempo inteiro. Ele foi muito importante!

Uma relao de anos de cumplicidade. Era quase um stimo Roupa Nova!, como definiria Ricardo Feghali.

E foi por isso que as pessoas que passavam pelos portes da rede Globo juraram que tinham visto um homem de altura mediana, cabelos grisalhos, com seus 50 e poucos anos, dando saltos enquanto se dirigia para o carro. De punho cerrado e sorriso constante no rosto, parecendo at um garoto...



Nota

* O primeiro lbum a sair pelo selo foi da Velha Guarda da Portela, com produo de Marisa. Todos os projetos da cantora so lanados pelo Phonomotor. Alguns discos antigos da cantora tambm foram relanados por este selo.



CAPTULO 39

OS CORAES NO SO IGUAIS

Antes tudo flua mais fcil. Mas a presso aumentou conforme cresceu a responsabilidade.

Paulinho

O trabalho ROUPAcstico foi uma virada na carreira da banda, que voltou a vender muitos discos no mercado fonogrfico brasileiro, a aparecer na mdia, alm de estourar as lotaes das casas de shows do pas. Na verdade, seu pblico se tornou muito maior do que se percebia na dcada de 1980, com pessoas de todas as classes sociais, cores e geraes comparecendo aos espetculos. Talvez porque os jovens que viveram o incio da banda com sucessos como Cano de vero, Sapato velho e Whisky a Go Go tivessem envelhecido - assim como os integrantes do grupo, agora na faixa dos 50 anos - e tido seus filhos, noras, genros e netos. Outros jovens, como no passado.

J nas primeiras semanas do ROUPAcstico, constatou-se a venda de 25 mil cpias de CDs e 10 mil de DVDs, e a Universal, que fabricou de incio apenas 5 mil discos, precisou correr para dar conta. Segundo dados da Universal, o trabalho chegou  incrvel vendagem de 320 mil CDs e 220 mil DVDs - o equivalente aos certificados de platina duplo e platina triplo pela ABPD, respectivamente.* Assim, segundo a ABPD, o ROUPAcstico entraria na lista dos 20 CDs e 20 DVDs mais vendidos do Brasil, em 2005, na estreia do seu selo Roupa Nova Music. E ainda receberia o disco de ouro pelo DVD em Portugal!

Nesse mesmo ano, o Roupa Nova seria um dos destaques no Prmio Tim de Msica Brasileira ao receber os ttulos de Melhor Grupo e Melhor Disco de 2005, categoria Cano Popular. E na internet, no Google, a busca do nome Roupa Nova seria cerca de trs vezes maior que a mdia antiga, a partir de novembro de 2004, aps a exibio do Fausto. Sem esquecer que no Orkut seriam criadas as principais comunidades de fs do grupo, reunindo no decorrer dos anos, na maior delas, mais de 170 mil pessoas - com troca de informaes, fotos e vdeos. Ricardo Feghali seria um dos moderadores, dialogando diretamente com os fs, contato antes feito basicamente nos shows. O que se estenderia, no futuro, para Twitter, Facebook, blogs e, inclusive, para o prprio site do grupo, com bate-papos realizados ao vivo no chat - com 75% dos internautas entre 16 a 25 anos, conforme pesquisa realizada pelo site oficial da banda, tendo  frente Ricardo. Pessoas que, alis, se identificariam carinhosamente como Famlia Roupa Nova.

Os f-clubes, alis, se multiplicariam por vrios lugares do Brasil, como So Paulo, Distrito Federal, Goinia, Aracaju, Fortaleza, Recife, Londrina e at fora do pas, como Argentina. Admiradores do Roupa Nova que, em menos de um ano, abarrotariam as mais de duzentas casas de shows dessa turn, tornando o retorno do sexteto para o Rio de Janeiro, no Caneco, no dia 8 de julho de 2005, uma verdadeira festa.



- Ai, cacete, isso t uma baguna! - falou Juca, perdido no meio de papeladas sobre a sua mesa, ao perceber quantas coisas estavam em sua mo ao mesmo tempo, em 2005.

A mudana de vida aps o Acstico tinha sido muito rpida para todos os envolvidos. E, naquele momento, o seu escritrio era responsvel por trs artistas, uma gravadora e uma produtora que eram dele, uma outra empresa que ele resolvera abrir de energia solar, e mais o Roupa Nova bombando em todo pas.

- Venda de CD, DVD, promoo, falar com os divulgadores, turn... Aaah! Eu preciso delegar algumas tarefas... Vou ficar maluco!

Alm do mais, o Roupa Nova era o tipo de artista que exigia muita ateno, em todos os sentidos. E tambm cobrava de perto o andamento das coisas. Nando acompanhava a questo financeira dos shows, Kiko via o dinheiro da gravadora, e Feghali? Tudo e ainda mais um pouco: do banquinho que estava errado na apresentao aos grandes planos da banda! E, por isso mesmo, os msicos perceberiam, facilmente, os deslizes do empresrio.

- E o Nando ainda me chamou pra eu ser scio da empresa! Putz... Mais uma sociedade com o Roupa seria meu fim. No ia aguentar, no ia... T fodido...



- Os fs esto pedindo o Acstico 2 na internet! - comunicou Ricardo Feghali para o grupo, em uma das reunies.

- Outro, gente? - reagiu Juca, achando aquela ideia precipitada demais.

- , eles tm escrito na comunidade que sentiram falta dos outros sucessos.

E Cleberson complementou, rindo:

- Tambm... S de cara, pro 1, a gente separou 53 msicas!

- Tudo bem, tudo bem. Mas vamos devagar... O Acstico d pra durar mais tempo!

- Ser, Juca?

- Ricardo, ns temos que pensar em algo to grande quanto o ltimo projeto. No  apenas repetir o formato.

- Acho besteira...

- Bom, eu no concordo!



Mariozinho Rocha se afastou do Roupa Nova com os anos, embora continuasse sendo requisitado pela banda para dar suas opinies, principalmente nas decises cruciais:

- A gente t pensando em um Acstico 2. O que acha?

E ele, categoricamente, afirmou para Nando:

- Acstico  o 1, n... No tem um segundo.

No era de praxe, no mercado, fazer um projeto como esse. Talvez porque fosse complicado para a maioria dos artistas ter material relevante para dois trabalhos seguidos de hits.

- Mas tem muita msica de fora, Mariozinho!

- No existe isso de Acstico 2, Nando. Inventa outra coisa!

Posteriormente, outros artistas lanariam o Acstico 2, como Lulu Santos, Zeca Pagodinho, as bandas Nenhum de Ns, Engenheiros do Hawaii, e duplas sertanejas como Bruno & Marrone e Fernando & Sorocaba. No entanto, em 2005, todas as cabeas-chave que os msicos procuraram em busca de conselho foram unnimes em dizer:

- No faz.

E ainda assim eles iriam insistir.



- Voc  um caso raro na medicina, Serginho! Voc usa falsas cordas pra cantar - explicou o otorrino para o baterista, aps analisar a garganta do msico e fazer alguns exames.

Os testes mostraram que ele tinha um calo antigo nas cordas vocais, que impediriam que, normalmente, Serginho cantasse.

- Mas como  que eu...

- Voc fora exageradamente! Mais do que a sua musculatura pode aguentar. So quase ondas fantasmagricas que te ajudam a cantar. E  por causa desse desgaste constante que voc t sentindo muita irritao.

- Hum... Parece que eu t gritando o tempo inteiro... Quando t no telefone ento...

- O tmpano tambm j no  a mesma coisa, n?

- E tem como resolver? - perguntou Serginho, j tenso com a possibilidade de parar de cantar.

- A gente pode amenizar com uma cirurgia e tratamento fonoaudilogo.

- Mas eu vou precisar largar...

- Ei! Voc vai precisar de um repouso de quarenta dias. O Roupa Nova te espera.

Em novembro de 2003, Serginho fez a cirurgia. Em 2005 ele continuaria fazendo exerccios para reeducar o modo de falar e de cantar. Alm disso, ele sentia incmodo da coluna, aps os shows, devido a um problema crtico de hrnia de disco que desenvolvera mais velho. Resultado de anos intensos de estrada e bateria.



Se a guitarra quebra, pode ser trocada. Se o teclado se torna obsoleto,  apenas deixado de lado. Se uma das cordas do baixo arrebenta, compra-se outra. Se a umidade desafina a bateria, se ajusta de novo o tom. Porm, a voz de um vocalista  insubstituvel. E, se ela fica debilitada por causa de algum exagero ou cansao, dificilmente d para recuperar. A voz apenas muda, diminui, ou some para sempre.

Paulinho nunca foi o tipo de cantor que enrola lenos no pescoo ou deixa de beber gelado, at porque, segundo ele, seu mdico j explicou que O gelo no faz nada! At se voc estiver gripado. No entanto, quando mais novo, apesar das contraindicaes, ele bebeu muito usque durante os shows do Roupa Nova. Ia embora quase meio litro do destilado, com Paulinho cantando a noite inteira! E ele levava, muitas vezes, sua prpria garrafa para as apresentaes, para evitar uma bebida qualquer.

Mas em 2005 o ritmo era outro! E, se ele bebesse essa quantidade, com seus 53 anos, provavelmente cairia do palco. Entretanto, a voz parecia reclamar dos abusos anteriores, com uma leve rouquido, tosse, e dificuldade de alcanar algumas notas. Sem o brilho que tinha antigamente - deixando o vocalista e a banda preocupados.

- Cara, voc precisa ver isso! Ningum mandou pisar na jaca!

Ao trocar de otorrino, Paulinho descobriria que estava com problemas de refluxo, que queima as cordas vocais e causa prejuzos srios  voz. Comearia o tratamento, alm de fazer aula de canto e exerccios fonoaudiolgicos. Porm, antes de tudo, faria uma srie de exames pedida pelo profissional, que havia desconfiado, inclusive, de algo mais grave no esfago. Um check-up completo e, embora o vocalista no soubesse, mais do que necessrio.



O Roupa Nova foi um dos convidados para participar do programa Um barzinho, um violo - em homenagem aos quarenta anos da Jovem Guarda -, dirigido por Guto Graa Mello, para ser exibido pela Multishow no dia 29 de abril de 2005. Uma gravao que posteriormente viraria CD e DVD, com outros nomes da msica brasileira, como Caetano Veloso, Daniela Mercury, Ney Matogrosso, Sandra de S, Fernanda Takai e Rodrigo Amarante.

Entre canes como A namoradinha de um amigo meu, Lobo Mau e S vou gostar de quem gosta de mim, o sexteto ficou com a verso de Rossini Pinto para Bus Stop, de Graham Gouldman, mais conhecida como Pensando nela.

Tarde fria, chuva fina, e ela a esperar

Conduo pra ir embora, mas sem encontrar

Entretanto, um pequeno contratempo atrapalhou na hora da execuo:

- Tarde chuva... Desculpe. De novo! - pediu Paulinho, aps errar a letra algumas vezes, interrompendo a msica cantada em coro pelo pblico presente.

Ao que Nando, rindo, brincou no microfone:

- Tarde chuva, fina fria...

E todos, concentrados - principalmente o vocalista -, repetiriam a primeira parte. S que dessa vez com as palavras certas:

- Tarde fria, chuva fina...

Arrancando aplausos da plateia e o sinal empolgado de OK de Guto, perto das cmeras. O erro passaria no programa da Multishow, e Paulinho comentaria nos bastidores:

- Tarde chuva, fria fina, tarde fina, tarde fria, chuva fina... Fica essa confuso! De resto t tudo certo.

Um deslize que seria perdoado pelo pblico, que curtiria a leitura de Pensando nela feita pelo Roupa Nova, mas que deixaria cabreiro o vocalista, que vinha esquecendo, com frequncia, muitas outras coisas em sua rotina. Alguns dos integrantes do grupo tambm ficariam apreensivos, pois notavam suas distraes acima do normal.

- Ih, o que foi mesmo que eu falei?

Sem imaginar que as falhas da memria eram decorrentes de algo muito mais srio.



Do mesmo modo que a Multishow teve o Roupa Nova em sua programao, assim fez a MTV, em novembro de 2005. No entanto, no da maneira que a banda gostaria. O sexteto apareceu no primeiro lugar de uma das listas do Top Top, programa que apresentava os 10 mais de temas variados, como As 10 msicas que mudaram o mundo, ou Os 10 piores vocalistas, ou at Os 10 msicos mais comedores, sempre com uma pitada de humor, sem se preocupar necessariamente com a veracidade dos fatos. E, no caso, a lista em que o grupo apareceu na emissora foi a desastrosa Cachorro Morto, na qual tambm estava Elton John.

A tal categoria se referia a artistas que j deveriam ter se aposentado, que j estariam mortos no cenrio musical, apelando para aparecer na mdia, e a quem s faltava enterrar. E o programa justificava o primeiro lugar para o conjunto da seguinte maneira:

O Roupa Nova  um cachorro que j nasceu morto na msica. Primeiro, porque todo mundo na banda canta, e os vocalistas principais so o baterista, o baixista e o percussionista! Depois, porque nos shows do grupo, cabe at cover de Linkin Park e Avril Lavigne.

O que os funcionrios da emissora talvez no estivessem esperando  que os seus telespectadores, mais jovens, fossem se importar com a tal brincadeira. Afinal, aquela era uma banda da dcada de 1980, e o seu pblico - como afirmou o Top Top - tambm j havia envelhecido! Bom, pelo menos era o que eles achavam aps o sucesso do ROUPAcstico, que eles haviam recusado em fazer.

A emissora, aps a exibio do tema Cachorro Morto, recebeu uma enxurrada de reclamaes atravs de e-mails, redes sociais e telefones. Fs, muitos deles adolescentes, que assistiram ao programa e viram no tratamento da MTV uma falta de respeito em relao ao passado e ao presente do Roupa Nova. E foram tantas as manifestaes que a MTV no s pediu desculpas  banda em um dos programas em dezembro, como tambm apresentou uma lista no Top Top com Os 10 artistas que mais receberam reclamaes dos fs. E, vejam s, em segundo lugar estavam os admiradores do Roupa Nova. Atrs apenas dos fs do Ringo Starr.



Na semana em que o Cachorro Morto foi ao ar, o Roupa Nova foi um dos convidados para tocar no programa Todo Seu, de Ronnie Von, na TV Gazeta. E Ricardo Feghali, aborrecido com mais aquela rejeio da MTV, no aguentou ficar calado:

- A gente fica muito chateado em ver algumas pessoas retardadas como, por exemplo, os VJs da MTV - e, olhando para a cmera, ele continuou com o discurso inflamado: - MTV! A gente no precisa de vocs pra NADA! No queremos! No precisamos de vocs pra nada!

E Kiko berrou do seu lugar:

- Cachorro morto  a me!

O cantor e apresentador Ronnie Von, que tambm teve seu grande sucesso com o Roupa Nova na dcada de 1980,** ainda corroborou:

- Mas  isso mesmo! Tem que botar pra fora! Quer que eu fale? Eu falo tambm!

E se despediu do grupo, j se dirigindo para o outro canto do estdio a fim de prosseguir com o programa. Porm, Feghali no percebeu que eles ainda estavam no ar e voltou para contar para Ronnie Von os detalhes:

- A gente cheio de prmio, show cheio pra caramba e os caras botam: Cachorro Morto, primeiro lugar, Roupa Nova.

- Ns estamos no ar! Um beijo! - avisou o apresentador para o tecladista, que recuou ao notar as cmeras. Morrendo de rir, Ronnie Von explana em voz alta: - Mas que  isso, gente?... Esse  o maior grupo vocal que existe no nosso pas!

J Feghali entrou no camarim, com o pulso acelerado, cansado de ter que aturar desaforo ainda com seus 52 anos de idade.



Kiko tirou um de seus dias de folga para passar as fitas da famlia de VHS para DVD. E comeou a tarefa pelos aniversrios dos dois filhos.

Na primeira fita, viu sua mulher, Suely, falando com Nyvia, apontando para a cmera:

- Manda um beijo pro papai! E a criana, com a mozinha pequena, mandou beijos estalados para Kiko, que s veria a filmagem posteriormente.

- Beijo, papai!

Na segunda fita, foi a vez de assistir a um tio falando com Kikinho:

- Manda beijo pro papai!

- Beijos, papai!

O que foi deixando o guitarrista injuriado.

- Cacete! Eu no estive em nenhum aniversrio das crianas? Nenhum?

E pegou todas as fitas VHS das festas das crianas, desesperado para encontrar pelo menos algum registro dele ao lado dos filhos. Passou por uma, duas, trs fitas... E sempre a mesma coisa. Caramba... Mas eu fui um pai presente! No acredito nisso... Quanto mais ele procurava, mais chateado ficava. Pensava em quantas vezes se ausentou da vida de sua famlia em momentos importantes como um aniversrio, em funo dos shows do Roupa Nova. At desistir e sentar no sof, desanimado:

- Porra... Em quinze anos, eu s fui a um aniversrio... Que merda...



Sem ter formao musical acadmica e sem tocar qualquer instrumento, a filha de Paulinho, Twigg, comeou a compor letra e msica. E suas apresentaes como cantora passaram a ser mais frequentes nos bares e nas casas de shows do Rio de Janeiro, apesar da formao em turismo e hotelaria. Uma garota com seus 20 e poucos anos, de personalidade forte, sorriso largo e olhos grandes que surpreenderia Paulinho no palco.

P... T a, rapaz... No sabia que ela estava to bem!, refletia ele, calado, na primeira vez que a vira ao vivo, enquanto a filha destrinchava um repertrio com influncias do jazz, blues e R&B. Nossa... O posicionamento dela, a afinao... T to legal! E o carisma dela  grande... No  que ela leva jeito?, emocionado, assistindo ao show.

Paulinho nunca foi de dar opinio no trabalho da filha e no gostava de se meter em suas decises. No incentivou e nem desencorajou a garota pela carreira da msica. Embora afirmasse para os amigos, orgulhoso, que se a filha pedisse para ele compor, ele faria!

Por outro lado, Twigg tambm nunca pediu conselho ou direcionamento para o vocalista. E, se dependesse dela, ningum saberia que Paulinho era seu pai - para que o seu trabalho pudesse ficar em evidncia por si s. Ela estava determinada em se tornar Twigg, no mercado fonogrfico, e no a filha de um dos maiores cantores do Brasil.

Desse modo, em 2011, ela lanaria seu primeiro CD, chamado Twigg, e continuaria sem misturar as carreiras, com a postura de no procurar o pai, que tambm no se intrometeria em seus passos. Ainda assim, ela escolheria para o seu disco a regravao de No deixe terminar, a mesma msica cantada por Paulinho no disco de 1978, de Os Famks.



As falhas de memria de Paulinho foram piorando no decorrer de 2005. O vocalista, com receio de se expor nos shows e tambm nas reunies da banda, foi ficando mais calado, concordando com tudo que fosse decidido pelos outros cinco, se isso significasse menos discusso e embate entre eles. Naquela poca, o desgaste do grupo com Juca Muller s aumentava.

O empresrio continuava contra o projeto de Acstico 2, apesar de ter aceito fazer no primeiro semestre de 2006. Alm disso, parecia ainda mais enrolado com tantos compromissos simultneos, sem energia e disponibilidade para azeitar a relao entre ele e o Roupa Nova.

No t legal, isso..., pensava o empresrio, orgulhoso, sem ter coragem de admitir para os msicos que as demandas estavam pesadas. Acreditava ser possvel manter a qualidade do seu trabalho, por mais que tivesse contratado duas produtoras naquele instante e sentisse estar perdendo o controle. J pressentindo o que estava para acontecer.

A fatdica reunio entre os msicos e ele aconteceu no dia 1o de janeiro de 2006, no escritrio da banda, na Barra. E o assunto ficaria em pauta por mais dois dias, no mesmo local, at Serginho confirmar para Juca: No vai ter jeito mesmo...

Chateado pelo fim daquela parceria de anos, passando um pouco mal e chorando muito, Juca saiu do escritrio do Roupa Nova, pegou um txi e partiu.

Nesse ponto, eu no tenho mgoa. Eles sempre foram corretos comigo. Porm, naquele dia, eu fiquei triste, claro! Os momentos que convivi com eles foram inesquecveis. E eu respeito a banda, hoje, como instituio, como empresa, mas muito mais pelos caras! Eles so autnticos!, diria depois o empresrio sobre este captulo de sua vida. Ciente de que ele se tornou muito mais respeitado no mercado fonogrfico depois do que fizera com o Roupa Nova.



Com a sada de Juca e o projeto Acstico 2 prestes a ser realizado, a banda deu incio  busca urgente de um novo empresrio. Os integrantes conversaram com vrios profissionais interessados em assumir o Roupa Nova, entre eles, Srgio Pitta - conhecido no meio artstico e responsvel pela produo do Jota Quest. A proposta dele era que seu irmo, Marcelo Pitta, que tinha de trs a quatro anos de experincia no ramo,*** ficasse  frente de todo o processo. Um homem baixinho, de cabelos grisalhos e aparncia tranquila.

- Bom, gente, ns pensamos em...

Marcelo recebeu os seis msicos no escritrio dele com seu irmo e falou sobre como via a carreira deles e o que poderiam fazer juntos - embora estivesse controlando a emoo de estar perto de dolos de sua adolescncia. P, so os caras que explodiram Cano de vero no Brasil inteiro!, lembrava-se ele nos poucos minutos de silncio em que ficou quieto.

- Ento  isso! A gente aguarda a resposta de vocs.

Sabendo que os msicos ainda conversariam com outros possveis empresrios. Entre eles, a velha raposa do showbiz, Manoel Poladian - aquele mesmo que havia levado o RPM s alturas em sua passagem relmpago pelo cenrio musical dos anos 1980.



Eu sou mais um promotor de shows do que empresrio. Como empresrio, eu me sinto um pouco cansado porque tenho que lidar com o ego dos artistas.  o que Manoel Poladian diz sobre sua atuao no Brasil, h mais de quarenta anos lidando com grandes nomes da msica, como Tits, Rita Lee, Erasmo Carlos, Jorge Benjor, Roberto Carlos e Ray Conniff. Um currculo extenso em que a produo de shows  a sua principal matria-prima. E foi precisamente quem o Roupa Nova considerou para esta sua nova fase de carreira. O maior manager desse pas, como diriam Nando e Ricardo Feghali.

- Voc  a minha aposentadoria, Poladian! Vai pegar a carreira dessa banda e levar aos pncaros do dinheiro pra eu me aposentar em seis anos! - brincava Nando, e o empresrio morria de rir. - Eu t falando srio! A sua funo aqui  ampliar o que ns j temos!

- Vamos l ento, Nando! Vou montar uma estrutura profissional do meu jeito, OK?

Poladian considerava a parte artstica do Roupa Nova a melhor do Brasil. Entretanto, no gostava da parte empresarial e de logstica de carreira do grupo. Achava que tinha muito palpite em um lugar s, ou muito paj e pouco ndio, como diz a expresso popular - seis msicos que opinavam e ouviam a opinio das esposas e at dos amigos, para depois ento votar! E, por causa disso, o empresrio tentaria imprimir sua viso e a sua voz sobre a famosa democracia do grupo. Afinal, ningum ali teria mais experincia do que ele para direcion-los para um objetivo profissional adequado. No era para isso que ele havia sido chamado?

O maior transtorno, porm, seria conciliar a postura de um empresrio acostumado com artistas que entregam a vida em suas mos com a de seis msicos que no gostam de abrir mo de suas vidas. Donos do seu prprio selo.



Arax na linguagem tupi significa lugar onde primeiro se avista o sol, e era o destino do Roupa Nova no dia 22 de abril de 2006, de acordo com a agenda de shows do Poladian. Para chegar at l, o grupo deveria pegar um voo para So Paulo, fazer uma conexo para Uberlndia, onde entraria em um nibus. Dentro dele, o grupo ainda rodaria cerca de 180 quilmetros para s ento se apresentar na cidade do Alto Paranaba, fazendo, aps o espetculo, todo esse caminho de volta - com o agravante do cansao.

- O que voc tem, Cleberson? - perguntou Kiko, no caf da manh do aeroporto de Uberlndia, antes deles retornarem para So Paulo.

- Nada no, Kiko.

- P, cara, tu no t legal, no. Caf e po de queijo e voc no t comendo?

- No t com vontade... T meio enjoado...

- Ixi, enjoado? Talvez se tomasse um remdio e...

- J olhei... No tem farmcia aqui, no...

O estmago de Cleberson estava dando voltas, aps o caminho percorrido de nibus, e ele achava que aquilo era apenas um incmodo passageiro por causa da viagem. Ai, meu Deus... Eu s no posso vomitar aqui!, pedia ele em silncio, com horror de se expor em pblico. Cleberson detesta vmito. Imagina vomitar na rua? S que o enjoo no parava. Putz, t com uma dor de cabea... Agora mais essa? Enxaqueca?, lamentou ele antes de pegar um comprimido na mochila, que tomava por conta prpria para essas dores.

E foi s o avio decolar para aquele mal-estar aumentar bastante. O estmago parecia vir na garganta, e um aguaceiro na boca fez Cleberson entrar em pnico, suando frio, com tremedeira nas mos. No vou vomitar! No posso fazer isso no meio de todo mundo! Como vou fazer?, e quanto mais ele pensava nisso mais nervoso ficava. No vai ter jeito! Vou ter que ir ao banheiro... Vou ter que vomitar. E olhava para o lado, na tentativa de pedir ajuda para o saxofonista Daniel Musy, mas ele estava dormindo. Ai, cad o Feghali! Vou pedir pra ele ir ao banheiro comigo! Todavia, ao virar para trs, ficou mais zonzo e viu o outro tecladista tambm dormindo. Ai, caramba, t todo mundo dormindo! No vai ter jeito, no vai ter jeito... Eu vou ter que ir sozinho. No t conseguindo aguentar, pensava, j se apoiando na cadeira para segurar e levantar. No entanto, ao fazer o mnimo de fora para cima, caiu, de novo, sentado na cadeira. E tudo girava! Meu Deus! O que t acontecendo?!

- O senhor t se sentindo bem? - indagou a aeromoa ao passar pela fileira de Cleberson, percebendo o tecladista molhado de suor, enxugando o rosto com um guardanapo, embora o ar-condicionado do avio estivesse mais do que gelado!

- Acho que no... Me faz um favor? Me arruma mais uns saquinhos desse? Porque eu acho que isso aqui vai ser pouco - disse ele, apontando para os plsticos da cadeira da frente.

Aguentou apenas mais alguns minutos, at a aeromoa retornar com mais saquinhos, para enfim vomitar. S que no melhorou em seguida. Muito pelo contrrio! Cleberson no conseguia parar de vomitar, e tossia muito, fazendo muito barulho, acordando Daniel Musy, que estava ao lado, e o senhor que estava na fileira de trs, perto de Ricardo.

- Oi, oi... Desculpe te acordar, mas seu amigo t passando muito mal! Acho que  alguma coisa sria, porque ele no para de vomitar!

Isso porque Cleberson no tinha comido nada de manh!

- Ai, Ricardo, eu quero sair daqui...

- Calma, cara, calma... O avio j vai descer. Estamos chegando... - dizia Feghali, tentando acalm-lo, por mais aflito que estivesse. S espero que no seja nada srio.

Assim que o avio pousou, Cleberson foi tirado em uma cadeira de rodas direto para uma ambulncia, onde foi medicado at chegar ao pronto-socorro do aeroporto em Congonhas, de So Paulo, acompanhado por Feghali.

- Enfermeira, pelo amor de Deus! Eu no aguento mais vomitar! Me d, por favor, um remdio! - implorava o tecladista.

Ele no perdeu a conscincia e estava com o corpo modo, com muita dor no estmago, na costela e na garganta. Alm de estar com os dois olhos virados, cada um para um lado.

Sem exames especficos, ningum ali podia dizer se era algo grave. Por isso, os prprios funcionrios da unidade de sade indicaram: Ns fizemos todos os procedimentos pertinentes e no adiantou.  melhor lev-lo para um hospital. Tambm disponibilizaram uma ambulncia para que Ricardo fosse com Cleberson para o hospital Paulistano, onde o tecladista faria uma bateria de exames antes de o mdico diagnosticar:

- Eu no vou te esconder nada. O senhor teve um AVC.

- Caramba, bicho... E eu vou ter sequela?

- Ainda  cedo pra dizer. Por enquanto, ainda vamos te manter na UTI.

Quando o mdico saiu, Cleberson ainda meio desconcertado ouviu a enfermeira ligar a televiso, na Band, onde estava comeando o Programa Raul Gil. Justamente o programa gravado com o Roupa Nova, de Homenagem ao Compositor, com muitos depoimentos de amigos, familiares e msicos. E, no qual, todos eles haviam se emocionado muito.

- O senhor quer assistir?

- No, no... No quero, no.



Cleberson entrou na UTI no dia 23 de abril, s 14 horas, e s saiu s 21 horas, quando sua presso regularizou. Feghali ficou por perto at a hora em que a famlia do tecladista chegou, para s depois voltar para o Rio de Janeiro. Todos muito assustados com o estado de sade do tecladista.

Manoel Poladian, ao saber do ocorrido, voou para So Paulo para acompanhar o caso do msico, internado, que parecia que no seria liberado to cedo. Aquilo colocava em risco a agenda de shows do Roupa Nova, com mais de 140 espetculos marcados, alm da gravao do Acstico 2, em maio. Inclusive com uma apresentao no final de semana seguinte, em Manaus.

- S falta vocs terem a ideia de chamar uma pessoa pra tocar no meu lugar!

- Er... Ah... Hum... - engasgou o empresrio.

- O que foi Poladian? Desembucha!

- Ento, pois ... Sabe, na verdade... J chamaram.

Cleberson, que estava com culos especiais no rosto por conta da viso torta, deu um pulo da cama! A presso disparou no ato e ele, muito nervoso, agarrou o telefone do lado da cama para ligar para o Ricardo.

- Cleberson, no precisa ficar as...

- Poladian, o papo j no  mais com voc.

Discando os nmeros, que sabia de cor, reclamando muito enquanto a ligao no completava:

- V se pode? Eu nunca fiquei de fora de um show do Roupa Nova!

Cleberson chiou bastante no ouvido dos outros integrantes, pelo telefone, com as enfermeiras correndo atrs dele, malucas, para amans-lo. E ele s sossegou quando foi vencido pela exausto e dormiu.



O arranjador e tecladista Rodrigo Tavares conhecia tudo de Roupa Nova e foi quem segurou as pontas na ausncia de Cleberson, fazendo at as notas iguais as do mineiro. No entanto, Poladian conseguiu adiar a gravao do Acstico 2, que seria em maio de 2006, para junho, nos dias 14 e 15, com um show extra no dia 16, no Tom Brasil, em So Paulo. E Cleberson, que havia acabado de deixar o hospital, pde comparecer - apesar de no estar ainda nos seus melhores dias.

Branco, com uma feio bem plida e culos especiais sobre os olhos, o tecladista tocou todos os dias, meio grogue, aptico, vigiado por Sandra, uma amiga e neurocirurgi, que o empresrio colocara para seguir os passos do msico.

Ele terminou todas as apresentaes como se estivesse com duzentos quilos sobre suas costas. Tendo em mente o que o mdico dissera ao lhe dar alta: Foi milagre voc no ter tido sequela! E outra: imagine se tivesse sido no meio da estrada? Em uma cidadezinha pequena, sem recurso algum? Voc podia ter morrido!



Apesar do susto com o AVC, Cleberson continuou ignorando qualquer outra dor do seu corpo que parecesse estranha - sem procurar mdico ou fazer exames. Ah, depois passa. E falava sobre seus problemas de sade como se eles fossem coisas normais e corriqueiras.

Como no dia em que, na porta de um hotel em So Paulo, aps o show do Roupa Nova, comentou com algumas fs que sentia um pouco de dor na prstata. Logo depois de falar do AVC, e listar seus hbitos nada saudveis de dormir tarde e tomar muito caf. O que chamou a ateno de uma das garotas que estava na roda.

- Mas como  essa dor?  sempre que voc vai ao banheiro? - Questionou Rafinha, enfermeira do Hospital So Luiz, que, embora estivesse presente apenas para acompanhar a amiga, f do Roupa Nova, no resistiu em perguntar mais sobre o que estava acontecendo com o tecladista. Sem imaginar que o quadro, na verdade, era grave.

- Olha, voc precisa ver um mdico! Eu sei, no sou urologista, mas voc no t bem.

- Nada... - respondia Cleberson sorrindo, estendendo o papo de exame, resultados, sintomas, sem perceber as fs partindo ou a madrugada chegando.

- Foi o Dr. Glauco que ficou com voc, aps a operao do AVC? Eu conheo ele! - falou Rafinha.

E Cleberson ficou ali at o sol amanhecer, para ento se despedir dela e voltar para o Rio de Janeiro.

- Bom, voc tem meu telefone, n? Qualquer coisa me liga! - disse ele para Rafinha, que posteriormente iria pesquisar mais sobre doenas de prstata, conversar com mdicos da rea e insistir de todas as formas para ele se cuidar, ao saber que as dores estavam piorando - seja falando ao telefone ou por mensagens como No quero te assustar, mas hoje um homem se internou aqui, com um problema igual ao seu e era cncer. Beijos, Rafa. Para enfim convenc-lo a se tratar meses depois.

Cleberson iria operar de novo, s que por causa da prstata. E j separado da ex-mulher, iria ouvir ao lado de Rafinha, o mdico dizer:

- Ainda bem que operamos. Voc no tinha mais que 6 meses.

Uma relao que lhe traria uma nova casa, sade, uma pequena filha/enteada chamada Gabi, cuidados, carinho - e pela qual ele decidiria viver.



Mais srio, sem fazer piadas ou brincadeiras como era de costume. Foi assim que Paulinho entrou para a gravao do primeiro dia de show, no Acstico 2. Inseguro com os lapsos de memria, que o colocavam em situaes descabidas, o vocalista queria apenas cumprir o seu papel com exatido. E tremia s de pensar na possibilidade de fazer algo errado naquele projeto to importante do Roupa Nova. Ainda sem procurar um neurologista para avaliar sua sade mental, Paulinho preferia pensar que era coisa da idade. E que poderia, de repente, passar.

Porm, tinha uma msica nova no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma msica nova: Retratos rasgados. Cano, alis, que j havia sido disponibilizada com antecedncia para os fs - que treinaram com afinco durante a semana para fazer bonito perante seus dolos e no entenderam nada quando Paulinho soltou frases trocadas no primeiro refro: Retratos rasgados/ Deixam marcas no meu corao/ Mentiras jogadas/ So pedaos soltos pelo cho.

Nando riu contido na hora, Serginho disparou a rir l de trs da bateria, e Feghali fez aquela cara que o vocalista j conhecia de P, Paulinho. O que contribuiu mais ainda para transformar aquele errinho bobo em um caos. Ao entrar na segunda parte, Paulinho, j nervoso, mandou um: Eu te falei/ na na na na na na/ Pena que foi mal/ Eu te ensinei/ na na na na na na ... coisa e tal. E seguiu por toda cano, sem coragem de olhar para o rosto dos msicos, com vontade de gritar como se estivesse em um ensaio: Para tudo! O que foi mais ou menos o que Feghali fez ao terminar a msica.

- Gente, vamos gravar de novo! - avisou o tecladista para o pblico, virando em seguida, de forma rspida, para uma pessoa da produo, que estava na beira do palco: - Por favor, me d a letra da msica?

E a colocou no cho, na frente de Paulinho, como se dissesse: Agora voc no tem mais desculpa! Uma presso, sob os olhares da plateia e das cmeras, que tornou a segunda gravao muito pior do que a primeira, com o vocalista errando a letra inteira, do comeo ao fim! Quer dizer, sem chance de chegar ao fim.

- Pra, no d - disse Paulinho, ao notar a baderna que havia feito com a letra de Retratos rasgados.

O vocalista olhou para Feghali como se pedisse ajuda, tenso, querendo sumir dali! No mnimo, ser teletransportado para outro lugar ou, quem sabe, outro tempo no qual sua mente no falhasse tanto. Meu Deus... O que t acontecendo comigo?, pensava ele, antes de ouvir o tecladista:

- Vai de novo!

E l foi para uma terceira tentativa, j sentindo a mistura de nervosismo e gargalhadas que vinha dos fs.

Ver o Roupa Nova errando, ao vivo, era algo extraordinrio para a plateia. Uma falha humana que era bonita e apenas comprovava: Eles tambm podem errar como os seres mortais e normais. Entretanto, muitos passaram a compartilhar com o vocalista seu sentimento de aflio, formando uma torcida fiel de Paulinho, rezando baixinho, e prendendo a respirao ao v-lo tentar mais uma vez.

Com os joelhos um pouco dobrados para conseguir enxergar a letra da msica no cho, Paulinho foi cantando, cantando. Doido para aquilo acabar logo! Passando, s vezes, a mo na nuca, como se quisesse espantar todos os olhares que estavam pesando em seu pescoo. Contando os minutos para ir embora e j imaginando a dura que tomaria nos bastidores. Desanimado, mas cantando. At conseguir alcanar o final, quando seu inconsciente bobeou ao cantar: s vezes acho que tudo acabou em vez de s vezes acho que me deu valor.

No segundo dia de gravao, para o desespero da banda, mais erros na letra de Retratos rasgados****, com Paulinho ainda mais abalado do que no dia anterior. E apenas no terceiro dia de show, quando as cmeras j no estavam mais ligadas, o vocalista acertou a msica. Fato inaceitvel para aquele virginiano.

Claudia Leitte, que fez uma participao especial no show, tambm teria que cantar de novo a msica Um sonho a dois por conta de palavrinhas no lugar errado. No entanto, Paulinho seria o nico que, aps este DVD, iria enfim procurar um mdico.



Alm de Claudia Leitte e Toni Garrido, o ROUPAcstico 2 tambm contou com a presena de Marjorie Estiano, em Flagra, e Pedro Mariano, na cano  cedo. Este ainda comentaria no material extra do DVD: Depois de um tempo de estrada, os seus grandes dolos, suas referncias, passam a ser parceiros de msica! (...) E a administrao disso na cabea  muito maluca!

Uma mensagem de Rita Lee foi exibida durante a apresentao do sexteto, no Tom Brasil, na qual a cantora relembrou a participao do grupo no seu disco de 1982 - O que mais vendeu!, destacaria Roberto de Carvalho. E com a estrela, smbolo do Roupa Nova Music, desenhada no palco sob seus ps, os msicos registrariam sucessos como Felicidade, Vcio, Tmida, Voo livre, Cartas e Chama. O que se tornaria outro produto campeo de vendas na indstria fonogrfica e daria, mais uma vez, em 2007, o Prmio Tim da Msica Brasileira de Melhor Grupo para o Roupa Nova na categoria Cano Popular.

Lanado em novembro de 2006, em menos de um ms o DVD ROUPAcstico 2 j tinha vendido mais de 60 mil cpias, ganhando, posteriormente, o certificado de platina duplo, com mais de 100 mil DVDs vendidos, segundo dados da Universal. O CD tambm receberia o disco de ouro ao ultrapassar as 70 mil cpias, conforme a ABPD. E o melhor: tanto o DVD do ROUPAcstico 2 quanto o ROUPAcstico estariam na lista dos DVDs mais vendidos no Brasil naquele ano. Ou seja, perspectivas de mais shows lotados por onde quer que a banda passasse.



O doutor Paulo Niemeyer Filho, considerado um dos melhores neurocirurgies do pas, foi quem atendeu Paulinho.

- Eu quero que voc faa todos esses exames.

Para s depois de ver os resultados conseguir chegar a uma concluso:

- Olha, eu t bobo de estar conversando com voc aqui!

- Mas por qu?

- Paulinho... O que eu t vendo aqui  uma cicatriz de um vazamento sanguneo, causado por um pico hipertensivo! Uma marca de sangue que seu organismo ainda no absorveu.

- E isso quer dizer que...

- Voc teve um AVC e no soube! E eu sou capaz de afirmar que foi em cima do palco! Cheio de adrenalina no sangue, fazendo o que voc gosta.

- T de sacanagem...

E o mdico sorrindo, aliviado, disse:

- ... As pessoas no acreditam, mas a felicidade supera muitas coisas...

- ...

- E a sua presso? Continua alta? Paulinho, a gente precisa acompanhar isso. Vou te encaminhar para um cardiologista, t?

Paulinho entrou em parafuso com as informaes do mdico e, em segundos, reviveu o dia em que seu pai chegou em casa, tombado no banco de carona do carro. Um homem que morreu depois, de Alzheimer, com a memria muito ruim. E olha que ele no fez nem metade das coisas que eu fiz nessa vida... Meu pai nem bebia! Lembrou-se da notcia do infarto fulminante de sua me, que tambm tinha uma rotina regrada. Ela se cuidava, ia ao mdico direitinho... O que adiantou? E do falecimento de seu av, que tambm sofreu um infarto. E no, no, no mesmo! Ele no queria morrer.



Presso alta: um mal com o qual que todos os seis msicos passariam a conviver no decorrer dos anos - j no to jovens para aguentar estresses desnecessrios, nem trancos mais fortes no corao. Por isso, ao sentir uma presso na cabea, em uma das reunies do Roupa Nova no escritrio, Kiko pediu para a produo chamar o rapaz da farmcia que havia ali perto.

No entanto, quando o farmacutico chegou  sala, todos os msicos se empolgaram para saber como estava sua presso. Pareciam crianas que enfrentam fila, ansiosas, para ganhar doce: Mede a minha! A minha tambm! Depois a minha!, embora nenhum deles estivesse sentindo absolutamente nada! Cleberson estava bem, assim como Kiko, Serginho, Nando e Feghali. Com exceo de Paulinho que, apesar de estar tranquilo sentado na cadeira, apontou problema, sua presso estava 18 por 10.

O vocalista, que j havia comeado a se tratar com um cardiologista, foi direto ao seu consultrio. E as explicaes no foram das melhores:

- Essa presso alta  a mais perigosa!  aquela que voc s vai sentir quando estiver no 21! Vou trocar seu remdio - disse ele para Paulinho, que se olhava no espelho e via uma bomba-relgio.



A postura incisiva de Poladian de tomar conta de tudo do Roupa Nova continuou causando atritos entre eles. Os integrantes sentiam que estavam perdendo o controle dos shows, do agenciamento, para ficar  merc das decises do empresrio. Um paraso para muitos artistas brasileiros que veem neste formato a oportunidade perfeita de se preocupar apenas com a criao. Alm disso, Poladian no comparecia aos shows da banda e fazia a mesma coisa que Gil Lopes: criava a estratgia, a logstica e trazia o dinheiro. Mas no ficava do lado dos seis integrantes - o que gerava uma srie de desentendimentos.

Desta forma, depois de dez meses de trabalho, em janeiro de 2007, o grupo decidiu mais uma vez mudar de manager, pedindo que Poladian comparecesse a uma reunio no escritrio do grupo. Nando foi de carro at o aeroporto para buscar o empresrio, que estava chegando de uma viagem do exterior, sem saber do que se tratava a conversa.

- Infelizmente, no t rolando Poladian. Ns queremos terminar nossa parceria com voc - comunicou Feghali, causando espanto no empresrio, que no esperava a notcia.

- Mas vocs receberam alguma proposta?

- No, no... So formas diferentes de lidar com as coisas. No t funcionando...

- T, mas e a agenda? Vocs tm que honrar! Tm muitos shows marcados!

- A gente faz s os que esto completamente certos, tudo bem?

- No vou dizer que eu concordo com isso, mas...

Manoel Poladian, incrdulo com o que escutara, saiu sem rumo da sala deles e desceu do prdio para pegar um txi. Poxa, pra me pegar no aeroporto eles vo! Agora, na hora de ir embora, eu que me vire!, fazendo sinal para um dos carros parado no ponto em frente.

- Oi, boa tarde! O senhor poderia me levar  Copacabana?

Sentou-se no banco de trs, inconformado com a atitude da banda, doido para desabafar com algum. E por que no com o motorista?

- Amigo, vou lhe contar... Hoje eu vi uma das coisas mais estranhas da minha vida! No vou ficar chocado porque eu no dependo deles! E nem vou enfartar porque a minha sade  boa. Mas eu era empresrio do Roupa Nova at uma hora atrs... Agora, eles cancelaram e no querem cumprir nem metade dos shows! Nunca vi uma produtividade e uma desfeita to grande! Ser que  porque eu no sou capacho? Eu no entendo!

- Cara, vou te dizer... Maior coincidncia... O antigo empresrio deles veio no meu txi, saindo do mesmo estdio, h um ano, chorando por ter sido mandado embora.

- Mentira!

- ... Acontece...

Assim, no carro, Poladian seguiu para a praia de Copacabana, para o show da Rita Lee, da qual era empresrio havia mais de trinta anos. J no escritrio, os msicos do Roupa Nova, mais confiantes, ligavam para um profissional do qual todos haviam gostado desde o incio:

- Pitta? Vocs ainda tm interesse?



A tradicional Festa Nacional da Cerveja, a Fenacer, de Divinpolis (MG), foi marcada para os dias 27 a 30 de abril de 2007, s vsperas do feriado do dia 1o de maio. E com o tema Ns podemos mudar o mundo, a organizao montou uma enorme estrutura no palco, com uma passarela comprida que os artistas deveriam percorrer se quisessem ficar prximos do pblico - estimado para 25 mil pessoas. Entre os nomes que se apresentariam estavam Marcelo D2, Pitty, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Lulu Santos, Camisa de Vnus e Roupa Nova - um dos primeiros shows da banda com Marcelo Pitta como empresrio, pela MP Produes.

- Oi, vem c, no tem como tirar essa passarela? - perguntou Pitta sem sucesso, para um dos idealizadores do evento, ao se deparar com aquele monstro separando a parte principal do palco dos espectadores.

O palco principal era muito alto e distante do pblico. A passarela era comprida e levava para outro plat mais baixo - este sim perto das pessoas. E o grupo, na hora do show, acabou ficando dividido, com Cleberson e Serginho muito distantes de todos - imperceptveis para a multido -, enquanto Paulinho, Kiko, Nando e Feghali transitavam, nem sempre juntos, por aqueles espaos vazios. Enfim, a banda ficou completamente segmentada e com dificuldade de se aproximar do pblico. Razo para... brigas.

- Caralho! Voc quer acabar com a minha carreira?! - gritou um deles ao bater os olhos em Pitta, no camarim.

Seguido pelos outros, que comearam a discutir entre si, transformando os bastidores em um inferno, deixando o empresrio arrasado por aquela estreia confusa e agressiva.

Caramba... A banda com quase 30 anos, e vai acabar na minha mo? Logo comigo? Que  isso... T ferrado! O que eu vou falar pro mercado? Que o Roupa Nova acabou na minha gesto, cara? Puta que o pariu!, pensava Pitta, ao caminhar para o seu quarto de hotel. Eles no podem esquentar tanto a cabea com essas coisas... No  possvel! Levando mais alguns meses para perceber que ele presenciaria 486 brigas iguais ou piores que aquela. E que, mesmo assim, o Roupa Nova no iria acabar.



- E a? Voc vai fazer o Sul com o Roupa Nova? - perguntou Manoel Poladian em um de seus telefonemas para Marcelo Pitta.

- Claro! Por que no?

- Ento voc t me devendo uma comisso!

- Mas por que eu t te devendo?

- Porque eu ia fazer!

- Ah, t bom...



Para trabalhar com o Roupa Nova  preciso ter pacincia com a dinmica j existente entre eles e saber observar, chegar de mansinho, sem perturbar o ambiente j construdo.  preciso ter o cuidado de no se perder no meio de tantas opinies, sabendo ainda se impor, sem arrogncia, sendo muito direto e transparente com todos os integrantes, alm de prtico.

Pitta foi se adequando ao ritmo dos seis e, acima de tudo, tentou perceber as diferenas entre eles, como cada um reagia ou respondia s aes para saber exatamente onde pisar. Porm, isto no o impediria de ser pego de surpresa, s vezes, pelos temperamentos distintos dos msicos - como aconteceria em uma de suas viagens com a banda, em turn pelos Estados Unidos.

O itinerrio era ir, no domingo, de Nova York para Boston, e trs vans de sete lugares transportariam os msicos, alguns parentes e a equipe de produo. O que seria algo em torno de quatro horas de viagem, com cada motorista seguindo as instrues do GPS - j que ningum sabia o caminho.

Assim, o condutor da van de Pitta digitou no aparelho Boston. E, ao ser perguntado Trajeto mais rpido ou caminho mais curto?, considerando o trnsito daquele dia ele apertou Curto. No entanto, o motorista do carro em que estava Serginho escolheu Rpido, e cada um foi para um lado, sem notar que haviam optado por rotas diferentes.

Era um domingo movimentado em uma das maiores cidades do mundo. Os txis amarelos dominavam as ruas, com famlias, namorados, amigos e turistas - dos negros aos hispnicos. Uma mistura caracterstica e catica da Big Apple que atrasaria, pelo menos, um dos veculos.

- Pitta, onde vocs esto? - perguntou Serginho, pelo rdio.

- Cara, t parado no engarrafamento!

- Engarrafamento? Putz, ferrou! Ns estamos perdidos. Para o carro a!

- J estou parado, Serginho. No d pra fazer mais nada.

- Como no, Pitta? Para esse carro! - gritava o baterista, angustiado, fora de controle, sem ter a menor ideia de onde estava. - Para o carro, Pitta! Assume a direo!

- No faz o menor sentido isso que voc t dizendo... Eu no vou assumir a direo. No conheo porra nenhuma aqui! Tem motorista profissional!

- Caramba, Pitta! Faz agora o que eu t falando!

- Serginho... - disse Pitta, respirando e contando at dez para no perder a calma como o baterista, que estava enlouquecido.

- Porra, t querendo me foder, n?

- Ah... Quer saber?

O empresrio, muito irritado, desligou o rdio - o que no costuma fazer, independente da ocasio - e jogou longe o aparelho, bufando de dio, buscando dentro de si a serenidade que tinha ido para o espao. Aquilo deixou um climo na van entre as outras pessoas que estavam presentes, mudas e constrangidas. Especialmente por notarem o baixo astral do empresrio depois do ocorrido. At que o gelo se quebrou:

- Ento... Vocs j ouviram aquela do portugus? - perguntou Kiko que, inesperadamente, disparou a contar piadas, das mais batidas s mais elaboradas.

E arrancava alguns risos de quem estava na van, embora Pitta continuasse emburrado e de braos cruzados. Rindo enquanto contava, fazendo vozes malucas, poses e imitando os personagens, at ganhar de Pitta risos tmidos, que foram escapando com as palhaadas do guitarrista, que fazia na van praticamente um show particular.

Um repertrio vasto que duraria as quatro horas de viagem para Boston e deixaria a alma do empresrio mais leve. Naquele dia, Pitta entendeu uma das razes para os seis msicos ainda estarem juntos, aps tantos anos.



Paulinho encontrava seu cardiologista de trs em trs meses, para tentar normalizar a presso. E, se sentisse qualquer dor estranha, tinha a liberdade para ligar para o mdico, independente da hora, mesmo que estivesse em outra cidade e fosse interurbano:

- Minha perna t inchada, com umas marcas vermelhas esquisitas... E, se eu aperto de leve a pele, di!

- Onde voc t Paulinho?

- Campina Grande. Daqui a pouco a gente vai tocar. Fala com a Elaine aqui.

Disse o vocalista, passando o telefone para sua namorada, mulher com quem ele moraria junto, depois de mais velho, e com quem viveria no maior clima famlia. Muito longe daquele solteiro da juventude.

- Eu tenho quase certeza que ele t fazendo uma tromboflebite.

- Ele j t entrando no palco! O que eu fao?

- Leva ele para um hospital no instante que acabar!

Elaine no falou nada sobre as suspeitas do mdico para Paulinho, antes do show. Mas no perdeu tempo em arranc-lo do camarim quando tudo terminou, levando o vocalista direto para uma clnica, s 3 horas da manh. A sorte era que o mdico de planto era cardiologista e fez questo de fazer pessoalmente o exame na perna.

-  tromboflebite!

- Mas t muito ruim?

- Olha, se eu fosse voc, eu no viajaria. Operava hoje mesmo!

O vocalista ficou apavorado com essa frase, achando que poderia morrer no dia seguinte, e ligou no mesmo instante para o seu cardiologista, que corroborou a anlise.

Paulinho passou por uma cirurgia e retirou uma safena da virilha para baixo, evitando que o trombo atingisse seu corao. No entanto, o choque da notcia ficou, e fez com que o msico, que j estava com a memria avariada e tinha fama de ser desligado, se tornasse ainda mais na dele, evitando ao mximo se envolver com qualquer briga por bobagem do Roupa Nova. Vou diminuir as picuinhas, as besteiras... Isso no vai me levar a nada!

- Voc tem que se cuidar, Paulinho. Seu histrico familiar no  bom, e o seu corpo t reclamando de tudo que j fez. Voc no pode se estressar! Voc quer morrer?

- Parei, parei, bicho. No discuto mais. - Prometeu ele para o seu cardiologista e para si mesmo.



No mundo, Frank Sinatra, Nat King Cole e Bob Dylan j haviam gravado discos com canes natalinas. No Brasil, no existe ser vivo que no conhea o CD de Natal da Simone, que vendeu mais de 1 milho de cpias em todo o pas. Mas em 2007 foi a vez de o Roupa Nova lanar, pelo seu selo com distribuio pela Universal, o trabalho Natal Todo Dia. Com doze canes inspiradas no dia 25 de dezembro, entre elas a verso de Heal The World, de Michael Jackson, feita por Nando sob o ttulo A paz, eleita pelo grupo como faixa a ser trabalhada.

A gente precisa dar um jeito de chegar ao Rei! Aquele se tornou o objetivo da banda depois que o CD ficou pronto, no intuito de conseguir uma participao no Especial de Final de Ano da rede Globo. Cada um pegou uns dois CDs para mandar, por conhecidos, a um nico destinatrio: Roberto Carlos. E todos torceram os dedos. Se ele recebeu todos os CDs que a gente mandou, deve ter uma coleo! D at pra montar uma banquinha e vender. Brincou depois Marcelo Pitta.

At que um dia o telefone do empresrio tocou:

- O Roberto quer conversar com vocs! - disse do outro lado da linha, Luciana, secretria do homem, fazendo bambear as pernas de Pitta, f declarado do Rei.



Pitta acordou ansioso naquele dia de outubro de 2007 - data marcada para ir com o Roupa Nova no estdio de Roberto Carlos, na Urca, no Rio de Janeiro. P, eu vou conhecer o Rei!, comemorava ele, escolhendo sua melhor roupa para a ocasio to especial, antes de sair de casa. Ai, ele podia gostar de A paz..., torcia o empresrio, que mais parecia uma criana prestes a encontrar o Papai Noel, e precisou se conter muito ao v-lo de pertinho.

Roberto Carlos recebeu a banda e Pitta com muito prazer em seu estdio. E, logo que eles chegaram, colocou o CD Natal Todo Dia para escutar com calma, ao lado deles. Passou pela A paz, Ento  Natal, Natal Branco, Volte nesse natal, com a participao de David Gates, e ouviu o disco inteirinho, sem dizer uma palavra. Matando todos os neurnios dos msicos e do empresrio com a tenso. Depois, voltou para ouvir A paz e tocou a cano mais umas cinco vezes seguidas. Com todo mundo ao seu redor, olhando de soslaio uns para os outros. At que se fez o aguardado pronunciamento:

- Vou gravar essa msica!

Pitta no resistiu e caiu em prantos. O empresrio, emocionado por estar pela primeira vez na frente de Roberto Carlos, que escolheu a msica que ele precisava, chorava copiosamente. J os integrantes da banda riam, sem entender nada. Serginho dava gargalhadas! E ele, apesar das sacanagens dos msicos, no conseguia parar de chorar.

- Vamos pegar um vinho aqui pra brindar! - sugeriu Roberto, mantendo aquele clima de festa ao brindar com todos. E principalmente com Pitta, que o tocara com aquela reao mais do que espontnea.



A gravao do Especial do Roberto Carlos aconteceria no HSBC Arena, no dia 1o de dezembro. Justamente a data em que o Roupa Nova tinha show no Vivo Rio, no Rio de Janeiro.

- Pitta, vocs tm que estar l no mximo s 22h30, t? - pediu Roberto Carlos, aps dizer a data do evento.

- Roberto, no d! Pode ser s 23 horas? - respondeu de imediato Pitta, j vendo de rabo de olho a cara fechada de alguns dos msicos, pensando ao mesmo tempo: Meu Deus! Eu t dizendo no pro Rei!

- Pitta, no mximo s 23 horas, l!

O Roupa Nova tinha show s 21 horas no Vivo Rio, no Aterro do Flamengo, na Zona Sul da cidade. E o HSBC ficava na Zona Oeste, na Barra da Tijuca, a cerca de 40 quilmetros de distncia.

- Gente, vamos antecipar o show?

- Pitta, t maluco? Cancela!

- Nando, como eu vou cancelar o show agora?

- Cara, a gente no pode se atrasar pra essa gravao. Voc sabe disso!

Deixando o empresrio sem ter para onde correr. Caraca, cancelar o show? Agora?



- Paulo, preciso de um favor - falou Pitta, no telefone, para Paulo Amorim, responsvel pela administrao do Vivo Rio. - Preciso cancelar o show do dia 1o do Roupa Nova - disse, receando que poderia encontrar entraves no seu pedido devido a um desentendimento antigo entre os dois no meio musical.

- Se voc cancelar, eu vou te multar!

- Caralho, mas o Rei chamou a gente pro Especial de Final de Ano. O Roupa Nova nunca participou do especial do Rei.

- Pode cancelar. Mas eu vou te ferrar!

A banda estava com trs datas no Vivo Rio: 30 de novembro, 1 e 2 de dezembro - sexta, sbado e domingo. A ideia de Pitta era cancelar apenas o espetculo do dia 1. Na verdade, havia sido um exagero marcar os trs dias no mesmo final de semana em uma casa que estreava.

- Vamos transferir? A gente explica pro pblico!

- No. Vou te foder!

- Ento vamos antecipar o show? Pelo menos para as 20h30!

- No, tambm no d!

Pitta desligou furioso o telefone e avisou pro grupo, apesar dos protestos.

- Ns no vamos cancelar. Vamos fazer!

- Porra, Pitta! - bradou Nando, como tambm fizeram os outros integrantes, como se tivesse faltado colho para o empresrio cancelar a apresentao.

- No vai ter como, Nando. A multa vai ser astronmica! Ns vamos fazer sim! Nem que eu tenha que montar uma operao de guerra! - avisou Pitta, irredutvel.



A primeira medida de Pitta foi pagar comercial e bombardear os ouvintes das rdios: O show de sbado acontecer s 21 horas. Rigorosamente no horrio. Chegue mais cedo. A segunda foi pedir para a banda terminar o show s 22h20: Por favor, prestem ateno no horrio! E a terceira, e mais arriscada medida, foi alugar duas vans para levar os msicos para o aeroporto Santos Dumont, e dois helicpteros para voar dali at a Barra da Tijuca.

Mas onde aterrissar? Existia um heliporto dentro do HSBC, que seria maravilhoso para o esquema, porm os bombeiros no liberaram sua utilizao e a equipe da MP Produes precisou quebrar a cabea para arrumar uma soluo, vasculhando na internet e ligando para todos os seus contatos em busca de algum que tivesse um heliporto naquela redondeza. At achar um judeu, dono de uma concessionria da Peugeot Ago, f do Roupa Nova, que autorizou a descida.

O problema  que eles perderiam mais tempo, no percurso na Barra, do heliporto at o HSBC. E para no ter erro tudo deveria ser cronometrado.

A notcia correu que o Roupa Nova faria o Especial do Roberto Carlos em dezembro. E o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, interessado no assunto, ligou para o empresrio em busca de uma nota para a coluna Gente Boa, do jornal O Globo.

- Pitta, o que vai acontecer? Vocs vo fazer o show no Vivo Rio ou o Roberto Carlos?

- Vamos fazer os dois.

- E como vai ser essa logstica? - perguntou Joaquim, no telefone, antes de obter como resposta toda a histria das rdios, vans e helicpteros, e publicar no dia seguinte:

O Roupa Nova montou um megaesquema com direito a dois helicpteros e vrios carros - para cumprir sua agenda amanh. A banda est programada para fechar a gravao do programa do Roberto Carlos, marcado para comear s 21 horas em Jacarepagu, e vai voando para o MAM, onde, reza a lenda, ir se apresentar pontualmente uma hora depois.

- Cacete, no acredito nisso! - berrou Marcelo Pitta, inconformado ao ler no jornal as informaes trocadas e o sarcasmo no comentrio sobre a pontualidade da banda.

Ligou em seguida para Joaquim, pedindo pelo menos uma errata. S que, dessa vez, o jornalista no atendeu.



O primeiro especial do Roberto Carlos produzido pela TV Globo foi exibido em 1974, tornando-se uma tradio da emissora, com a participao dos artistas da casa e de conceituados msicos brasileiros. Todavia, naquele ano de 2007, o evento teria tambm pblico pagante, pessoas que esperavam avidamente para ouvir, ao vivo, clssicos como Emoes e Como vai voc, alm de sucessos da Jovem Guarda como Negro Gato e Splish Splash. E o Roupa Nova, em funo do show no Vivo Rio, seria o ltimo convidado.

- Porra, Pitta! Caralho! Cad o Roupa Nova? - perguntou o diretor da emissora, Roberto Talma, srio, com sua voz forte, quase matando o empresrio de susto.

Marcelo Pitta ficou andando de um lado para o outro no estacionamento do HSBC, esperando os msicos, para controlar a ansiedade de todos, enquanto a banda se apresentava no Vivo Rio, sem pecar na qualidade.

- Pitta, cad eles?

- To chegando, Luciana, to chegando! - avisou o empresrio, s 22h15, para a secretria de Roberto, que ia de tempos em tempos ao estacionamento ver se os msicos haviam aparecido. Afinal, o show j estava rolando!

- E a, Pitta?

- Esto vindo, Talma! Calma!

Olhando para o relgio, aflito, por ver os ponteiros marcando 22h30, sem nenhum sinal dos seis. J era pra produo ter me acionado! Entrando em total desespero ao receber a informao, pelo rdio, de que o Roupa Nova s conseguira terminar o show s 22h40.

- Eles s esto saindo da agora? Ai, cacete! Vai dar merda...

No instante em que Gilberto Gil passava pelo estacionamento.

- Boa noite.

Fazendo cara de Deve ser o coitado do empresrio do Roupa Nova.

- Boa noite! - respondeu Pitta, suando por todos os poros do corpo, tentando sair da mira da porta do estacionamento, como tentasse se esconder entre os carros.

Todo mundo s deve estar falando sobre a gente l dentro... Fodeu... 22h50... 22h55... E nada do Roupa Nova! O Roberto Carlos j estava at cantando outras msicas que no estavam no set list para segurar o pblico. Sorrindo, tranquilamente, com se estivesse tudo nos conformes. Quando, de repente, Pitta avistou as vans em uma velocidade alucinante atravessando a cancela, com os seis msicos saindo dos carros como loucos.

Passou pelo corredor dos camarins, correndo junto com a banda, ainda suando frio. Alcione vendo isso, em p, de uma das portas, gritava, batendo a mo, para motivar o grupo: Vai, corre, corre, corre! Vambora! Vambora! Com os seis integrantes trocando de roupa, colocando os microfones sem fio atrs, pegando os instrumentos, esbaforidos, para correr para o palco. Com Roberto Carlos anunciando: Vou chamar agora uma banda fantstica! Uma banda de sucesso desde que comeou. Roupa Nova! Com alguns integrantes ainda atrapalhados, se arrumando.

- Nando! O baixo! - berrou Pitta, quando o baixista j estava com um dos ps no palco, voando em seguida para pegar o instrumento e entregar na mo dele. - Toma aqui. Vai, vai!

Enquanto Ricardo Feghali dizia no microfone:

- Roberto, sou seu f!

- Eu tambm sou f de vocs, viu, bicho? O Roupa Nova faz parte da vida de todo brasileiro que gosta de qualidade e de boa msica.

Para s depois Serginho dar a deixa.

- Vamos l ento?

Eles tocaram o hit da Jovem Guarda, Se voc pensa, colocando depois cerca de 9 mil pessoas para danar com o Whisky a Go Go. A paz foi a ltima cano que a banda cantou ao lado do Rei, tambm com a participao dos meninos do coral Canarinhos de Petrpolis, em meio a uma chuva de papel picado. Encerrando a maratona, s no dia seguinte, ao realizar o ltimo dia de apresentao, no domingo, no Vivo Rio.



No d dvidas de que o selo Roupa Nova Music deu liberdade para a banda que, de 2006 para 2007, no s apostou em um ROUPAcstico 2, como tambm inventou um trabalho com canes natalinas do dia para noite. E isso apesar de todos os percalos enfrentados pelos integrantes e do confronto com as multinacionais que continuaria de outro modo, como colocaria Serginho: As gravadoras pegam nossa foto, invertem no Photoshop e pem na loja sem nenhum critrio. Ns no sabemos nem quantos discos o Roupa Nova tem, tantas so as coletneas!31

Alm disso, pelo selo, eles tambm poderiam lanar trabalhos de outros artistas, como fariam no futuro com o CD Roupa Nova convida Daniel Musy, no qual o instrumentista interpreta sucessos da banda, e com o CD Amanh, do trio S, Rodrix & Guarabyra, que marcaria o ltimo registro em estdio de Z Rodrix, antes de sua morte, em maio de 2009. Como definiria S: Esse disco, infelizmente, representa a despedida de um amigo de quarenta anos.

Enfim, as possibilidades haviam ampliado e j dava para sentir no final de 2007 que a msica do Roupa Nova poderia respeitar apenas a sua criatividade e vontade. Segundo Serginho, a prioridade do selo deles seria a arte, e no o comrcio. Dando a chance para que os seis pudessem sonhar com projetos mais ousados, caros, ou distantes. Quem sabe at uma gravao em Londres.



Notas

* De 2004 a 2005, com a queda nas vendas dos discos no Brasil, a Associao Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) baixou o certificado de ouro para 50 mil cpias e o de platina duplo para 250 mil, no caso do CD. Para DVD, o ouro equivalia a 25 mil cpias. Depois de 2006, o platina triplo representaria 150 mil DVDs vendidos.

** Em 1984, Ronnie Von gravou um disco inteiro com o Roupa Nova, tendo Cachoeira como grande hit no Brasil. Em seu programa Todo Seu, ele chegou a brincar com o grupo: Nessa msica eu entrei de bobeira. Porque, na verdade, o sucesso  de vocs! Fizeram tudo! Arranjo, cantaram, pintaram o diabo!

*** Marcelo Pitta j havia atuado com nomes como Emmerson Nogueira, Wilson Sideral, Danni Carlos e Cidade Negra.

**** A msica Retratos rasgados, de Feghali, Nando, Kiko e Serginho, foi regravada pela dupla sertaneja Victor & Leo no CD Boa Sorte pra Voc, de 2010.



CAPTULO 40

NOW I LONG FOR YESTERDAY

O no a gente j tem. Vamos tentar o talvez.

Ricardo Feghali

Que merda... Esse cara no sabe rufar...

- De novo Ringo! - pediu George Martin para o baterista, no dia 11 de setembro de 1962, no estdio da EMI que ficava em Londres.

O produtor estava l para a gravao do primeiro disco de uma banda de Liverpool, que conhecera atravs do empresrio Brian Epstein. E, de incio, nem tinha achado nada de extraordinrio nas msicas ou nos cantores que Brian apresentara. Mas o som era interessante e, por isso, fez um teste de gravao com o quarteto em junho. S que aquele baterista no era o que ele havia conhecido!* Mas Andy White, baterista experiente de estdio, estava no local para o caso de alguma eventualidade, embora Ringo no soubesse.

George escolheu para o seu primeiro single as canes PS I Love You e Love Me Do - justamente a msica que Ringo no acertava de jeito nenhum! E, de fato, aquela era sua primeira gravao em um estdio. Ele transparecia nervosismos em suas batidas e ficava cada vez mais tenso quando George pedia que ele repetisse. E s deixou o produtor aparentemente satisfeito depois de tocar dezessete vezes! Alvio passageiro para Ringo, que no entenderia nada ao ver, depois, Andy White sentado na bateria para gravar PS I Love You.

Saindo rapidamente do estdio, furioso e decepcionado, sentando nas escadas da portaria, para tomar um ar.

Ningum falou nada. Nem Ringo, que se sujeitou a tocar maracas na gravao dessa faixa, com a pior das caras e o pensamento fumegando. Que merda... Como  falso esse negcio... Bem que me avisaram: eles colocam outros msicos para fazer seus discos! Ah... Eu no consigo. Se eu no sirvo para as gravaes  melhor eu sair do conjunto!

Ringo no saiu da banda, e o compacto simples Love Me Do foi lanado no dia 4 de outubro de 1962 - com ele na faixa principal, Love Me Do, e Andy White no lado B, com PS I Love You. E os amigos, parentes e admiradores dos quatro rapazes de Liverpool puderam, pela primeira vez, enviar milhes de pedidos s estaes de rdio para tocar o disco.

Os msicos John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr no iriam surpreender o mundo com este LP - como ambiciosamente eles esperavam. Mas aquele era apenas o comeo e, por mais que eles sonhassem, no conseguiriam prever o que aconteceria no futuro! Muitas outras canes ainda seriam gravadas, e tantas outras bandas nasceriam inspiradas em suas letras e melodias. E, por fim, eles deixariam mais do que marcas naquele estdio da EMI, nmero 3 - imortalizado pelo nome de sua rua, Abbey Road.



Ol,

Tudo bem?

Sou de uma banda no Brasil chamada Roupa Nova.

Irei para Londres, daqui a alguns meses, e gostaria de conhecer o estdio.

Adoraria fazer uma masterizao no Abbey Road.

Como a gente pode fazer?  possvel?

Atenciosamente,

Ricardo Feghali

Oi,

Sim,  possvel agendar essa visita.

Avise-nos quando vier, que a gente mostra o estdio pra voc.

Abbey Road Studios

Diversos avisos no site do estdio tentam espantar os fs enlouquecidos dos Beatles, que encaram aquele espao, ainda utilizado para gravaes, como um encantado santurio, um lugar sagrado, com os ltimos vestgios dos deuses da msica que passaram pela Terra. E o beatlemanaco Feghali, que estava para tirar frias com a famlia, em 2007, sabia destes impedimentos quando mandou o e-mail para l. Por isso, colocou o Roupa Nova no texto. Uma pequena mentirinha que poderia lhe abrir portas. Afinal, se o comunicado do site dizia O Abbey Road  um estdio de trabalho e negcio, e como tal no abre para o pblico em geral, para visitas ou tours, ele ento inventaria um negcio.



Os meses voaram e Feghali se esqueceu de mandar um e-mail para o Abbey Road Studios, avisando as datas corretas em que estaria em Londres, s se lembrando da balela que havia inventado sobre a masterizao quando estava na Inglaterra.

- Ah, vamos l ver o que  que d! - disse ele para os filhos, que tambm tinham curiosidade de conhecer o estdio, com a mesma vivacidade de um menino de 12 anos chamando o coleguinha para fazer arte. - Se a gente entrar por esta avenida, fica mais fcil... - comentou, j olhando no mapa e fazendo conjecturas sobre como chegar  rua certa.

Desse modo, colocou o mapa no bolso e seguiu para o seu destino, acompanhado dos filhos Carol e Thiago, alm dos sobrinhos. Andava pelas ruas de Londres animado para pisar no mesmo estdio dos seus dolos e tirava fotos no meio do caminho, sem comprometimento com o relgio. Passeou bastante, at avistar uma casa georgiana, branquinha, no bairro St. Johns Wood, com uma plaquinha: Abbey Road Studios.

E entrou com a maior cara de pau de que se tem notcia no Lbano.

- Oi, tudo bem? Eu mandei e-mail pra c tem um tempinho... Eu sou de uma banda do Brasil e falei com uma pessoa do booking. Ela me disse que eu poderia conhecer o estdio.

- Certo. E qual  o nome dessa pessoa? - perguntou o funcionrio, de maneira fria, com aquele sotaque britnico forte, olhando para os jovens que estavam ao redor do msico.

Todos traziam sorrises no rosto, estavam alegres, sem a menor pinta de compromisso profissional. J Feghali comprimia os olhos como se tentasse puxar um nome da memria - encenando um tpico esquecimento.

- Paula?

- No tem ningum com esse nome, aqui, no.

- Hum...

E o funcionrio continuou naquele de tom de vamos falar srio agora.

- O que  que voc queria?

Como se ainda existisse alguma esperana.

- Eu queria conhecer o estdio!

- Ah, sim... Sinto muito, mas infelizmente no d.

- Nem rapidinho? A gente no demora!

- Eu sei, eu sei... O problema  que se deixarmos entrar todos que quiserem s conhecer o estdio rapidinho vai virar uma baguna. Faz o seguinte: toma aqui um carto! Voc entra na internet e faz um tour virtual pelo estdio! Tenha uma boa tarde - disse, deixando um cartozinho nas mos do tecladista, que dava um sorriso amarelo enquanto pensava: Mas esse eu j fiz!



- Um disco de inditas gravado em Abbey Road... Podia ser verdade! P, mas nego vai encrencar se eu falar isso... - resmungava Ricardo Feghali, enquanto mexia na mesa do seu estdio, antes de meter a mo na massa para produzir o trabalho de outro artista. - A gente precisa fazer uma coisa doida! O que adianta ter um selo com medo de arriscar? No d pra viver de passado... - continuava, compenetrado, olhando para a tela do computador, que atualizava alguns programas antes de ligar. - Quer saber? Foda-se.

Na reunio seguinte, ele esperou todos os msicos chegarem.

- Vem c, por que a gente no faz um trabalho de msicas inditas? Mas...

- L vem voc com esse papo de...

- ... gravar no Abbey Road?

Nando no esperava aquela proposta do tecladista, muito menos os outros msicos, que reagiam todos ao mesmo tempo.

- Abbey Road, Feghali?

- Tu t de brincadeira...

- Cara, voc  doido...

E o tecladista, teimoso, se mantinha irredutvel.

- Por que no? A gente s vai saber tentando!

- O pblico no quer mais ouvir msica nova... O Midani tem razo.

- Nando, a gente faz um DVD! Eu tenho certeza de que os fs vo curtir! Pode rolar uma identificao maior com as msicas.

E Pitta completou:

- Cara, isso tambm no  uma verdade absoluta. Voc v o Santana? O cara, com trinta anos de carreira, lanou Supernatural em 1999 e vendeu milhes de cpias!

- Eu sei, gente... Mas tem at estudo internacional sobre isso! Quanto mais hits voc tem, mais difcil fica emplacar outro. O seu trabalho passa a competir com o seu acervo!

- Por isso vale a pena fazer um negcio especial! Vamos aproveitar que o selo  nosso, o dinheiro tambm, e vamos abusar! Vamos pra Londres! A gente tem esse direito.

- Ah, cara, isso no  muita viagem, no?

- Kiko, a gente tem que renovar!

- Sei l...  muita novidade pra um produto s, no? Inditas em Londres? E, na boa, deve ser difcil pra caralho conseguir gravar l! Voc  maluco, cara...

- Se voc no  maluco, voc no chega a lugar nenhum! Vamos arriscar! J imaginou, voc tocando no Abbey Road? A gente no estdio DOS CARAS?

Ir to longe para gravar msicas inditas, que poderiam no cair no gosto dos fs, era um projeto ousado. Tpico de Ricardo Feghali. Porm, a ideia de tocar em Abbey Road, local sagrado para o Roupa Nova, era uma proposta tentadora para todos - a realizao de um sonho, aps mais de trinta anos na estrada. Estar no lugar onde tudo comeou. Onde canes incrveis foram gravadas, para depois chegarem s lojas de discos, s rdios e invadirem as suas vidas - provocando profundas e irremediveis mudanas para todos os seis. Enfim, gravar em Abbey Road seria revisitar o passado, enfrentar o sentido de sua existncia e dar voz a um velho desejo.



- J t vendo tudo! Um tcnico ingls provavelmente no vai conhecer o Roupa Nova e vai colocar um estagirio no lugar. A gente vai querer mexer, o cara no vai deixar. Porra, se sai uma briga com um tcnico desses no estdio acabou o disco! Bom, o que eu quero dizer com isso: eu acho que ns temos que ter um tcnico brasileiro. E esse tcnico  o Moogie.

Nas reunies da banda, cogitou-se contratar um profissional de Londres, que poderia trazer uma sonoridade local, o que seria uma contribuio diferente e enriquecedora para o DVD. No entanto, a maioria foi contra. Principalmente depois da sugesto de Nando.

Moogie Canazio tem no seu currculo grandes nomes da msica, como Maria Bethnia, Joo Gilberto, Tom Jobim, Eric Clapton, Diana Ross, Barbra Streisand e Ray Charles. E, como diria Ricardo Feghali, tem o ouvido que a banda gosta. Moogie j havia atuado em outros trabalhos com o Roupa Nova desde o incio dos anos 1980, no s nos discos da banda, como tambm nos de outros artistas como Rita Lee e Sandy & Jnior. E, se no bastasse isso, tinha ampla experincia internacional, prmios na bagagem como o Grammy e gravaes em estdios importantes como o prprio Abbey Road.

- Moogie, quer ser o nosso coprodutor?

Ah, sim, alm de ser apaixonado pela banda e tambm beatlemanaco - o que tornaria a viagem ainda mais interessante.



Moogie Canazio  o tipo de profissional que se envolve e se dedica integralmente ao que acredita. E se for preciso vira a noite para fazer o melhor trabalho! Aficionado por msica, sobretudo a brasileira, e amante dos pequenos prazeres da vida, trata-se de um engenheiro de udio com mais de trinta anos de experincia - sendo, no mnimo, vinte morando em Los Angeles. Um bon-vivant que se esconde atrs do bigode e da barba branca, do estilo rocknroll do tnis e da cala jeans, e do entusiasmo contagiante por DVDs como o do Roupa Nova em Londres.

E foi ele quem falou, pela primeira vez, sobre os seis msicos para a gerente do Abbey Road, Colette Barber, abusando da boa impresso que havia deixado no estdio nos trabalhos anteriores e abrindo as portas para que a negociao tivesse andamento. Banda do Brasil? Deixe-me dar uma olhada.** Alm de sugerir para o grupo a gravao de uma cano a capella no AIR Lyndhurst, tambm chamado de AIR Studios.

- Vocs precisam conhecer esse estdio! Acreditem em mim!

O AIR Studios foi fundado por George Martin, o mesmo produtor que impulsionou a carreira dos Beatles em 1962, e funciona em um local que fora uma igreja no passado. Uma construo lindssima de 1880, de traos vitorianos, que daria uma beleza visual forte ao DVD. E que faria parte do cronograma de gravao dos clipes do Roupa Nova com um octeto de cordas, ao lado de tomadas ao ar livre na cidade, no Hyde Park e no rio Tmisa de barco.

Seriam 15 dias contados em Londres, e nenhum minuto deveria ser desperdiado. Por isso, todo o projeto j foi amarrado do comeo ao fim no Brasil, assim como foram feitas as marcaes nos dois estdios, por Nando. O baixista, apesar de ter receios sobre um trabalho de inditas, adora viajar e se rendeu a Londres. Portanto ele, alm de definir com o grupo as msicas e os arranjos que entrariam, passou horas no telefone conduzindo os contatos internacionais, junto de Moogie e Pitta na organizao. Tenso e preocupado em passar a melhor imagem dos brasileiros para os gringos. O clssico para ingls ver.



Let Me Out, da banda inglesa Bens Brother, era a cano que estava tocando na FM quando Nando ligou o rdio. Hum... Parece com o estilo do Roupa. A msica fazia parte do primeiro lbum dos ingleses Beta Male Fairytales e se tornou sucesso no Brasil aps entrar na trilha da novela de 2008, Duas Caras, da rede Globo.

O baixista ficou com aquilo na cabea. Dias depois, retomou a referncia no Midivirto Studio, na casa de Nando, quando chegou a vez de trabalhar a harmonia de Reacender.

- Engraado, isso t me soando como Bens Brother...

S que ningum reconheceu a banda! Bom, pelo menos at o baixista colocar o CD com a tal da msica da novela.

So let me out or let me in... A cano tinha a levada que eles estavam procurando para Reacender, e era impressionante como os trabalhos dos dois grupos se pareciam. Semelhanas que no paravam por a. Em entrevista para a Jovem Pan Online, por exemplo, na passagem da banda pelo Brasil, em julho de 2008, ao serem indagados sobre o porqu da grande aceitao dessa cano por parte dos brasileiros, o guitarrista Kiris Houston disse: No Brasil as pessoas gostam de letras, mas tambm de sentimento. Acho que a nossa msica faz sucesso porque as pessoas aqui gostam de ouvir canes que tocam a alma e o corao.

Um discurso bem parecido com o do Roupa Nova.



- Sabe aquele motorista que dirigiu a van pra gente, nesse ltimo show de So Paulo? - perguntou Serginho, no telefone, para Nando, com a voz um pouco animada.

- Sei... Por qu?

- Ento, no carro a gente falou sobre aquela msica do Bens Brother que parece com Reacender, lembra?

- T... Mas e da?

- Olha que coisa maluca: coincidentemente foi esse motorista que dirigiu para a banda aqui no Brasil. E parece que eles conhecem o nosso trabalho!

- T de sacanagem...

- No! Ele at me passou o contato deles.

- Hum... Quer tentar?

- Ah, vamos chamar os caras!

Jamie Hartman e Kiris Houston no s moravam em Londres, como pertinho do Abbey Road. Kiris, ainda por cima, era um britnico louco pelo Brasil e chegou a morar, inclusive, em Salvador. Embora nem todos os integrantes da banda pudessem comparecer, os dois aceitariam gravar uma verso bilngue de Reacender (Shine) - com Jaime cantando com Paulinho, e Kiris fazendo o violo de doze cordas. Uma participao especial, cheia de coincidncias, que validaria uma antiga frase dos seis msicos, de que tudo acontece na hora certa com o Roupa Nova.



Em tempos de internet,  possvel fazer a pr-produo de um disco inteiro com cada um dos msicos em sua casa. No entanto, o Abbey Road resgatou a criao coletiva e presencial dos seis msicos, com encontros dirios durante dois meses. Uma dedicao que resultaria em dez msicas inditas, entre elas: Toma conta de mim, Cantar faz feliz o corao, Chamado de amor e Quero voc, que seriam lanadas ainda em outubro de 2008, em um EP*** como uma prvia do que estava por vir. Alm disso, o projeto de Londres teria quatro regravaes, uma faixa bnus para entrar no DVD e, claro, uma releitura dos Beatles. Neste caso, como Yesterday e Hey Jude j haviam entrado no ROUPAcstico, a deciso ficou entre Because, Eleanor Rigby e Shes Leaving Home, que foi a que ganhou a votao - com arranjo de Cleberson.

Para registrar as imagens da gravao de todas as canes, os quatro clipes do DVD e os bastidores da empreitada, Joana Mazzucchelli, da Polar Filmes, foi a diretora convidada - fechando a equipe de 23 pessoas para viajar para Londres com os msicos. Uma grande estrutura na qual o selo Roupa Nova Music no poupou - como faria durante toda sua estadia na Inglaterra. Um investimento grande que facilmente seria vetado pelas multinacionais por onde o grupo passara.

Assim, no dia 12 de outubro de 2008, o Roupa Nova embarcou, disposto a gastar o que fosse preciso para fazer um trabalho perfeito e audacioso. Levando nas malas: equipamentos, instrumentos, msicas e sonhos, que no haviam envelhecido.



Era um dia cinzento e frio em Londres quando os seis msicos desembarcaram, deixando os nibus vermelhos de dois andares, que circulavam pelas ruas, ainda mais vermelhos. E do vidro fum do carro, a caminho do hotel, pubs tradicionais, museus, txis pretos e as charmosas cabines retr de telefone pareciam transportar a banda para um tempo muito distante. As folhas de outono cobrindo os parques, que antes eram verdes, davam o tom marrom da estao, e o cansao de todos pela viagem de avio ia cada vez mais ficando para trs.

A primeira parada foi para deixar as malas, em um dos melhores hotis da cidade - uma mordomia de rei que o Roupa Nova se permitiu. E enquanto todos faziam o check-in no saguo do prdio, de arquitetura neoclssica tradicional com tons contemporneos, outros hspedes entravam, de todas as partes do mundo. Muitos deles ricos e milionrios, como um sheik que, simplesmente, parou um caminho de mudana em frente ao hotel e ordenou:

- Pode descarregar!

Assinando um cheque de estadia permanente para um dos quartos e pagando uma quantia adicional pelo direito do cofre, onde ele poderia guardar todo seu tesouro.

Do hotel, o grupo, com todos os integrantes muito bem-vestidos, seguiram para o estdio, que fica perto do centro da cidade. Passando pela rua Grove End Road, no bairro St. Johns Wood, com seus prdios baixos, de muitas rvores e plantas nos muros das construes, at chegar  faixa de pedestres mais famosa da msica, na qual John, Paul, George e Ringo registraram a capa de um dos discos mais importantes da histria do rocknroll e que tambm se chama Abbey Road. Prximo a um muro branco cheio de rabiscos, no qual os fs deixam recados e desenhos perdidos para os Beatles, apesar de ele ser repintando com frequncia. S depois entraram com uma comitiva na mesma casa georgiana, branca, com uma extensa e larga escada, em que Feghali havia sido barrado durante as suas frias.

Vem c, esses caras so magnatas no Brasil?, cochichou um dos estagirios do estdio para o seu chefe, ao ver o filho de libans entrando, cheio de pose, sorrindo para todos os funcionrios, olhando para todos os cantos do prdio para no perder nenhum detalhe e andando devagar como se pisasse em nuvens.



A gravao do Roupa Nova aconteceria no Estdio 2 do complexo Abbey Road - a nica sala que jamais foi reformada e conserva, inclusive, alguns equipamentos usados na poca dos Beatles. Meu Deus, quem diria... Eu aqui!, refletia Feghali enquanto passava levemente os dedos sobre as paredes e os aparelhos. Virou o rosto para cima para ver o teto, reparou no cho, admirou os quadros com os olhos brilhando. E pensar que tudo comeou com uma pianola desajeitada que minha v arrumou... Moleque pra caramba. E eu achando que estava abafando!, ria ele, sozinho, sem notar o que os outros msicos estavam fazendo.

O melhor foi a cara da me quando eu coloquei aquela nota de Cr$ 100 na cmoda! Hunf... E ela achando que eu no iria levar essa vida pra frente..., pensava ele, se afastando de todos, caminhando pelo estdio sem perceber o trajeto que fazia. Ainda inventei Los Panchos e toquei com a minha irm! Putz... A Jandira tinha que estar aqui pra ver isso... Depois de todos os perrengues dos bailes, de no ter dinheiro pra comer, das brigas dos nossos pais e das nossas tantas mudanas, eu estou, aqui, em Abbey Road! Eu consegui. Andando at alcanar de novo os degraus da entrada, de frente para o estacionamento, sentou um pouco, enquanto contemplava tudo que estava a seu redor - aquele mesmo menino que se surpreendeu ao ouvir All My Loving em portugus e que registrou a cano no seu gravadorzinho. E essa escada! Quantas vezes John Lennon no passou por aqui? Ou Paul, George, Ringo... Quantas vezes eles no sentaram aqui, como eu?

Ai... Respira..., suspirou o tecladista, segurando para no chorar, embora lgrimas teimassem em escorrer pelo seu rosto. E meu pai me chamando de veado! To duro com algumas coisas... Se ele falou, estava falado! V... No precisava daquele tapa! Imagina se eu fao um negcio desse com o Thiago, hoje? Ou com a Carol? Mas tambm... Ele veio de outra poca, de outro pas... Coitado, querendo que eu fosse mdico-militar. Nada a ver com msica! Olha onde eu t! Nada a ver comigo... No instante em que Kiko, ao descer pelas escadas, encostou-se a seu ombro.

- H? Desculpe, Kiko... Falou alguma coisa? - disse ele com a voz embargada para o guitarrista que, com todo o carinho, perguntou:

- Vmbora?



Em agosto de 1969 ainda faltava a imagem da capa do 12o disco dos Beatles, que se chamaria Everest.**** No entanto, escalar o pico mais alto do mundo, na cordilheira do Himalaia, s para tirar uma foto no era uma das tarefas mais fceis. E os quatro msicos no conseguiram chegar a um acordo sobre isso! Cogitaram fretar um jato particular para l, falaram sobre contratar alpinistas e outras ideias estapafrdias que no vingaram. At que Paul resolveu ser prtico e tirar a foto ali mesmo e chamar o lbum de Abbey Road.

Uma sugesto que se tornaria real com alguns policiais de trnsito, em uma rpida sesso de seis fotos, em quinze minutos, na manh do dia 8 de agosto de 1969, com os msicos atravessando a faixa de pedestres perto do estdio, onde foram registradas mais de 90% de suas canes. Foto que, no futuro, seria cone da cultura pop, com pardias to famosas quanto  original. Alm de representar, na opinio de muitos beatlemanacos, o melhor LP da banda.

O sucesso do disco rebatizou o estdio da EMI, que passou a adotar, oficialmente, o nome da rua, em 1970. E uma cmera foi instalada no alto da via, para filmar a faixa de pedestres 24 horas por dia, mostrando os turistas fazendo todos os tipos de pose enquanto atravessam. Imagens que podem ser vistas, a qualquer minuto, no site do Abbey Road Studios.



Apesar de estar longe do Brasil, Ricardo Feghali continuou dando notcias para os fs sobre o Roupa Nova pelo Orkut, na internet. Ele mandava, de tempos em tempos, mensagens sobre o que eles estavam fazendo na Terra da Rainha.

Ricardo Feghali

Chegamos galera! Daqui a 10 min vamos passar na frente da cmera! Acessem http://www.abbeyroad.com/Crossing pra gente matar a saudade!

Alm de aparecer na cmera do Abbey Road, de vez em quando, mandando beijos, dando tchauzinho e fazendo careta para quem estivesse na internet. Aumentando, e muito, os acessos do site do estdio, que nunca fora to popular.



Moogie sabia perfeitamente onde Ringo posicionava a sua bateria nas gravaes, em Abbey Road. E no passou essa informao adiante, nem comentou o que faria. Apenas pegou o instrumento do Serginho e o montou exatamente no mesmo lugar, de modo que os outros aparelhos fossem dispostos em torno. Sei l... Pode rolar uma linha cruzada se ele souber. Vai que se emociona e se atrapalha?, ponderava o engenheiro de udio em seus pensamentos, tambm comovido por compartilhar aquela viagem com a banda.

Impressionante como eles mantm aquele frescor, a coisa adolescente de fazer o melhor sempre e o tempo inteiro. Os mesmos msicos que eu conheci em 1982, na Som Livre, fazendo o vocal de Os males do Brasil so do Ruy Maurity! Nossa... Quanto tempo...E agora revivendo um momento dos caras que nos inspiraram a ser o que somos. E com um sorriso no canto da boca os fitava discutindo os detalhes de uma das canes, antes de tocar. Seis msicos nervosos, mas felizes, e que se sentiam como os garotos de ontem.



- Eu t preocupado com o horrio...

- Calma, Nando. T andando bem. Estamos no quarto dia de estdio, com quase todas as bases gravadas! Amanh mesmo a gente deve acabar essa parte.

- P, Moogie, ainda tem o AIR Studios, e as externas, n...

- Deixa as externas por ltimo. Vamos focar aqui primeiro - disse o engenheiro de udio para o baixista, que no parava quieto em um lugar.

Nando se debatia em mil consideraes sobre o trabalho que estavam realizando em Londres. No pode dar nada de errado... Cacete! Esse deve ser o DVD mais caro que estamos fazendo!, enquanto mirava a estrutura de primeira mo em que a banda estava. E ainda por cima fazendo um DVD de inditas... Bom, j que vamos fazer, que seja o melhor! Juntando algumas notas da viagem, para guardar na mochila. E mesmo assim eu no duvido nada de nego meter o pau... A crtica d porrada no Roupa Nova desde 1981! Um inferno... 

Agora vo falar que a gente veio pra Londres pra profanar o templo da msica..., lamentava-se o baixista, rabiscando alguns nmeros nos papis das contas da banda. Vo ter que engolir a gente, isso sim. P, conseguimos montar um selo e vender muitos discos com quase 30 anos de carreira! Quem poderia prever... que teramos dinheiro, depois de velhos, para bancar do prprio bolso um DVD gravado em Londres?! E precisa ser perfeito. Precisa ser..., torcia ele, enquanto fechava as coisas para conversar com a administrao do Abbey Road.

E imaginar que eu t aqui hoje por causa da bandinha do Aplicao. Eu mal sabia o que era um baixo!, sorriu de leve o Mnimo, ao se lembrar das inmeras canes que havia tocado e escrito em sua trajetria, e das bandas pelas quais havia passado como o The Kilroys, Os Beatos, Excitation e Os Famks, at se tornar Roupa Nova. Eu nunca fui msico por essncia, como os outros. Eu gosto at mais de escrever do que de tocar! Putz, e ainda falta eu acabar a letra de uma msica pra esse DVD...

Mas eu no vou desistir disse para si, baixinho, antes de entrar na sala de Colette Barber. Cansado, mas sem perder a pose de neto de seu Bernardino - um verdadeiro mandi.



Enquanto isso, com os dedos frenticos, no Orkut:

Ricardo Feghali

Oi, gente! Vamos gravar agora uma surpresa especialmente para vocs! Acho que vocs vo gostar.

Feghali descobriu na internet que os fs adotaram Lembranas como um hino, para cantar durante as viagens dos shows da banda, de um estado para o outro. Principalmente por causa do seu refro: Corao, que ama to longe / Mal pode esperar, o certo momento de voltar. Uma msica gravada pelo Roupa Nova, pela primeira vez, no disco 6/1 de 1996 e que no DVD de Londres ganhou um tratamento visual especial com mensagens de alguns dos integrantes - deixando os fs alvoroados com a notcia. Em um clima aconchegante, intimista, no estdio, como se todos os msicos estivessem em volta de uma fogueira tocando violo.



Vai amanhecer
 A luz
 J vem
 E a sombra da tristeza se desfaz

Cantava Paulinho em uma das cabines do estdio, antes de Jamie Hartman colocar a voz em Reacender (Shine), at ser interrompido por Moogie.

- Pra a, Paulinho. Dois minutos e j te chamo de novo.

Ai, que merda... Tenho que me concentrar, desejava o vocalista durante o breve intervalo que o engenheiro de udio pediu. Garganta, AVC, presso, tromboflebite... P, tudo de uma vez s! Eu t cansado..., refletia, pegando a letra da cano que estava  sua frente em um suporte. A gente j fez tanta coisa... Show com a rdio Cidade, Milton Nascimento, David Coverdale e agora estamos em Londres! Cacete, nunca imaginei pisar aqui... S o Ricardo mesmo... E eu preciso relaxar, esquecer dos problemas... P, eu ouvi Beatlemania com 12 anos, eu me vestia como eles! E eu no vou aproveitar agora? S a minha me sabe o quanto eu enchi o saco dela pra ganhar aquela bota, com salto e fecho clair do lado, pensou ele, esticando um pouco os lbios no que poderia ser um sorriso. E at meu pai, que era contra essa histria de banda, chegou a curtir... Emprestou grana pra gente! E gostou de me ver cantando, eu sei que gostou... Meu pai..., suspirou, com os olhos mareados e o rosto na diagonal, na direo do cho, parado, longe. No, eu no quero errar mais... Eu s quero melhorar... Eu tenho que melhorar.

- Paulinho, t OK agora. Podemos?



- O que essa mesa j escutou, hein? - comentou Moogie com Cleberson, que estava ao lado, passando os dedos sobre a mesa da EMI, que havia tirado do armrio do Abbey Road.

- Mas ela  velha assim?

-  do tempo dos caras! E os ajustes dela so fixos. A sonoridade da sala com os microfones Neumann M50, passando pelos pr-amplificadores mais o compressor dessa mesa?  mgico! - contou o tcnico, empolgando Cleberson com o papo.

- Voc sabe que eu comecei tocando guitarra, n?

- Foi?

- Bicho, o Paulo, um amigo meu, deixou a guitarra dele comigo e a ficou. Era muito legal... Eu ficava a tarde inteira tirando as msicas, enquanto ele trabalhava... Eu no tocava nada! - disse morrendo de rir o tecladista, enquanto os olhos passeavam pela mesa de som.

- E ficava contigo?

- Ah, ele tinha o trabalho dele, um monte de coisas pra fazer, e eu no tinha grana pra comprar uma guitarra. Era uma Supersonic!

- Mas era guitarr...

- P, fiquei maluco com Day Tripper!

E ele cantarolava baixinho a cano, batendo os ps, lembrando-se das vezes em que tocou aquela msica, em seu quarto, com a guitarra de Paulo. Com seu pai reclamando de que ele no fazia mais nada da vida. Depois no queria que eu fosse msico...

- Ah, sim... Todo mundo queria ser guitarrista nessa poca! - e sorrindo, animado, Moogie continuou. - Eu cheguei a virar a noite na porta das Lojas Americanas pra comprar o Help! Bicho, aquele LP deu um n na minha cabea! Que som era aquele? No tinha nada igual na poca!

- No mesmo... E meu pai querendo que eu tocasse acordeom! No tinha condio! - disse com um sotaque mineiro forte, como se estivesse na frente de Boanerges.



- Kiko, vi uma guitarra que  a cara da Nyvia! - disse Regina, mulher de Nando, que tambm havia viajado com a banda para Londres.

Tratava-se de uma guitarra rosa, que tinha, embaixo das cordas, um desenho enorme da Hello Kitty - personagem preferido da filha de Kiko. E este, lgico, no resistiria em comprar o instrumento para a garota, embora ela no tocasse guitarra. Afinal, Nyvia tinha loucura por aquela gata branca fofinha, que usa um lao ou uma flor na orelha!

Porm, a guitarra meiga de Nyvia, aps o roadie se esquecer do instrumento certo, pararia na mo de Feghali em um dos clipes externos do Roupa Nova,***** e tambm nos shows da turn. O que geraria rebulio nas fs, que dariam de presente para o msico guitarras de cartolina, cordo, ventilador e outros objetos fofos da Hello Kitty. E isso apesar dele avisar, brincando: , eu no sou isso que voc esto pensando, no, hein? Ficando ainda por um bom tempo nas estradas com ela! At tomar vergonha na cara... e mandar fazer uma guitarra rosa s para ele.



Depois de horas de gravao no Abbey Road, mais um intervalo do Roupa Nova. Ou seja, mais uma mensagem de Feghali no Orkut.

Ricardo Feghali

Vcs no sabem como fico feliz bem pertinho de vcs! Hora do almoo! Vamos l para as cmeras de novo, daqui a 10 minutos!



A gerente do Abbey Road entrou esbaforida no Estdio 2 para falar com Moogie:

- O que t acontecendo? Nosso servidor caiu trs vezes hoje!

- Como assim caiu?

- A gente t com uma mdia de quatro, cinco mil acessos simultneos no site por dia, e o servidor no t aguentando! E vem tudo de l do Brasil! Como o Roupa Nova  a nica banda brasileira que t aqui, eu pensei...

E o tcnico caiu em gargalhadas:

- Ah... Com certeza... So os fs querendo ver o que t rolando aqui. E os msicos tambm incentivam indo para a frente das cmeras! Coisa de f, normal... E no vai parar no!

- Voc acha? - perguntou ela, desnorteada, j respondendo antes de Moogie dizer qualquer coisa: - T, t... Bom, eu precisava confirmar isso com voc. Ns j estvamos ficando preocupados. Mas tudo bem... Pelo menos  por um bom motivo. O que s mostra o quanto eles so queridos no Brasil, n? Que loucura...

Moogie, sorrindo, colocou a mo nos ombros dela:

- Eu te avisei que o Roupa Nova no era qualquer banda...



Eu cresci ouvindo esse cara e agora t gravando no mesmo lugar que ele! Meu Deus... Isso  inacreditvel!, vibrava Serginho, que parecia estar vivendo de fantasia desde o instante em que entrara em Abbey Road. A mesma emoo que sentira ao ir  Ordem dos Msicos com seu pai, aos 10 anos de idade, para conseguir uma liberao prvia de msico. Quando meu pai poderia dizer que aquelas latas de leite em p me trariam aqui?... E os LPs que ele comprava? Seriam cruciais para a minha vida. Ah, meu pai... E em um dos poucos intervalos da gravao, sentado na bateria, ele fazia os movimentos que treinava quando garoto ao ouvir Ringo Starr na vitrola. Antes de se levantar para fazer uma pergunta importante para um dos assistentes de estdio do Abbey Road:

- Pete, onde o Ringo botava a bateria?

E tranquilamente, como se estivesse respondendo a uma pergunta qualquer do tipo Que horas so?, ele diz apontando:

- Ali, onde t a sua.

A expresso de susto do Serginho foi imediata.

- He-Hein? Ali?

Onde ele j tinha tocado vrias canes. No seu devido lugar durante as gravaes em Londres - como a realizao de um sonho deveria ser.



Kiko se manteve mais quieto desde a chegada do Roupa Nova ao Abbey Road, apesar daquele sorriso que mais parecia um dia ensolarado de Bonsucesso. Sem se apegar aos casos do lugar, o guitarrista preferiu trabalhar, concentrado, o tempo inteiro, para suportar a emoo que sentia ao estar naquele estdio, segurando qualquer choro que pudesse vir fora de hora. Porm, no ltimo dia de gravao, antes de ir embora, ele se isolou. Parou, suspirou e deixou virem todas as lembranas das quais ele se esquivou durante as duas semanas que estivera l.

A briga com sua me para que ela comprasse um violo, seu pai tocando ukulele, o show que seu Barros arrumou na rdio... Tudo isso passava pela memria de Kiko na velocidade da luz, invadindo sua alma de histrias. Seu Barros... Fazia cada loucura pela gente! E ainda viu o Roupa Nova tocar... To bom... Sentado, em uma cadeira, sozinho, no estdio, com os olhos congelados no nada.

E, nesta posio, ele se lembrou do violo emprestado de Gilberto, que ele no mais devolveria, das aulas com Valtinho. Vento que balana as palhas do coqueiro... Minha primeira msica. Das outras bandas que formara com os amigos: The Mads, Os EREDAS, Kiko Micas by Music, Los Panchos! Da tentativa frustrada de morar sozinho aos 13 anos de idade, e da volta vergonhosa para casa, do roubo do carretel e da educao que recebera de seus pais. Da separao de seu amigo Elias, e dos perigos da rua, das furadas em que havia se metido quando moleque, e das pessoas o chamando de marginal. P, at a minha sogra achava que eu era um delinquente... E a msica me trouxe aqui! Meu sonho de ouro...

E, claro, tambm se lembrou de Suely e seus incontveis e incondicionais apoios, de sua filha Nyvia e seu filho Kikinho - com os mesmos nomes que seu pai pedira. Eu s consegui por causa deles.... De sua me lutando contra o cncer, e de seu pai - aquele que o entendera, pela primeira vez, quando Cla o proibira de continuar tocando... Recordou-se daquela briga perto do banheiro que teria sido sua alforria, sua possibilidade real de escolha e da aceitao de seus pais que ele tanto queria. Ah, meu velho, se voc estivesse aqui pra me ver... Eu no me conformo... Caindo em lgrimas, se debruando sobre os braos, apoiados na perna, em um choro compulsivo e longo, pesado e sofrido. Sob os olhares dos cinco integrantes do Roupa Nova, tambm no estdio, que respiraram fundo e preferiram continuar  distncia.



- Cara, eu no posso acreditar na minha ignorncia musical... - disse Olga FitzRoy, assistente de Moggie quando assistiu ao Roupa Nova cantando, depois de quase 15 dias intensos de trabalho em Londres.

Estava pasma ao ver como aquela banda era incrvel em termos de qualidade - algo que ela, profissional da rea, ignorava. Tanto ela quanto os funcionrios do Abbey Road ficaram com a mesma boa impresso do grupo, naquele trmino de gravao. Para eles, uma banda que de desconhecida passou a ser respeitada. Tanto que o sexteto foi convidado por Colette Barber para posar para uma foto oficial do site do estdio, como um dos destaques.

Foi um dos projetos que mais mexeram comigo, na minha vida. No era s um espao. Significou chegar ao Abbey Road, vitoriosos e vencedores naquilo que a gente elegeu fazer nas nossas vidas! Influenciados pelos caras! Era um looping interminvel, conta Moogie sobre aquelas duas semanas em Londres. E que coincidentemente, contaria com a visita relmpago de Sean Lennon, filho de John Lennon, conhecendo o estdio pela primeira vez.

A rotina, sem dvida nenhuma, foi puxada, com todos chegando ao meio-dia e saindo, s vezes,  meia-noite - praticamente sem abandonar o estdio para cumprir  risca o cronograma. Porm, todos estavam satisfeitos e se divertindo muito com o DVD. Msicos entregues em sua trajetria, com o mesmo objetivo. Era uma troca constante e nada deu errado. Todos ns ramos um nico tomo, era uma simbiose. Uma coisa que lembrava a outra, a outra, a outra e que voltava  primeira. E a nossa unidade foi o que mais me chamou a ateno. Ns ramos um corpo e alma, relembra Moogie que, assim como os seis msicos, deixaria o Abbey Road j cheio de saudade.



Antes de se despedir do Abbey Road, os msicos decidiram fazer um agrado a Colette Barber pelo timo atendimento que receberam. E, para carimbar a sua estadia na memria da gerente do estdio, tambm no economizaram.

- Pitta, vai l na Tiffany e compra uma joia pra ela?

Principalmente depois de terem conseguido realizar tudo o que havia sido planejado.

Presenteando a britnica com uma joia, to brilhante quanto as expectativas de todos para aquele projeto. Sabe como , os magnatas mais felizes do Brasil...



Aps assinar o nome Roupa Nova no concorrido muro branco, perto do complexo de estdios, os seis msicos seguiram para o hotel. E dos carros ainda puderam ver o estdio Abbey Road se distanciando, at sumir de vista. Com umas gotinhas de chuva marcando o vidro da janela, tornando a viso um pouco molhada e embaada, passaram por palcios londrinos que no se destacavam na paisagem, repassando na memria, em silncio, os momentos que tiveram no santurio do rocknroll. Sensaes que no estariam nas fotos.

J no dia 28 de outubro de 2008, a banda retornaria ao Brasil para continuar a mixagem e masterizao. E o DVD Roupa Nova em Londres s seria lanado em maro de 2009, aps o acerto do grupo com a Microservice, que a partir de ento se encarregaria da fabricao da mdia e de todos os servios relacionados  comercializao de CDs e DVDs do selo Roupa Nova Music. Um produto que venderia 25 mil cpias em menos de vinte dias - considerado DVD de ouro pela ABPD, em 2009 -, ultrapassando posteriormente a casa dos 50 mil, que representaria o platina. Juntos, CDs e DVDs de Roupa Nova em Londres passariam a marca de 100 mil unidades vendidas. Um trabalho que, apesar de no ter uma divulgao na mdia conforme as expectativas de todos os envolvidos, significaria uma das maiores conquistas do Roupa Nova, mais maduro e independente.



Em 1997, foi fundada a Academia Latina de Gravao - composta por renomados profissionais de diversas nacionalidades da indstria fonogrfica falantes de portugus ou espanhol. Estabeleceu-se, a partir disso, a premiao do Grammy Latino: uma homenagem s conquistas tcnicas e artsticas, sem qualquer relao com vendagem ou posies em paradas de sucesso. Algo como o Oscar da msica, o prmio mais alto que um artista latino poderia receber - no qual s a indicao j se torna um feito -, com os vencedores das categorias escolhidos pela votao de seus membros.

- ! O Grammy  NOSSO! - gritou no telefone para Marcelo Pitta o assessor de imprensa do Roupa Nova, Carlos Xavier, comemorando ao ver o resultado do evento que acontecia em Las Vegas, nos Estados Unidos, naquele dia 5 de novembro de 2009.

- T de sacanagem... Mentira!

-  nosso!  nosso!

- NO ACREDITO!

Pitta no botava a menor f que o Roupa Nova pudesse levar esse prmio, tanto que incentivou a banda a no viajar naquele perodo, ainda mais considerando a agenda cheia de shows. Os seis msicos apenas gravaram uma mensagem com Serginho falando sobre a importncia de um Grammy, um prmio que abre muitas portas, e Paulinho brincando: E tem gente que acha que o Grammy no compensa. Crentes de que a participao da banda ficaria s nisso.

- Nando? O Grammy  nosso! - berrou Pitta, assim que o baixista atendeu ao telefone.

- Para de brincadeira...

Quase matando do corao o baixista, que mal conseguiu segurar o telefone, deixando o aparelho cair das suas mos com a notcia. Doido para sair pulando pela vizinhana, avisando o mundo inteiro de que o Grammy era do Roupa Nova.

- O GRAMMY  NOSSO! O GRAMMY  NOSSO!

Gritando em casa que nem maluco, enquanto ligava para os outros msicos, espalhando as boas-novas. Fazendo a festa pela estatueta dourada em formato de gramofone: o Grammy Latino de Melhor lbum de Pop Contemporneo Brasileiro de 2009.

Para abocanhar o prmio, o Roupa concorreu com grandes nomes da msica brasileira como Jota Quest, Rita Lee, Ivete Sangalo e Skank. Com um sotaque americano, o locutor anunciou os indicados, e a apresentadora, falando em espanhol, deu o veredicto Em Londres, Roupa Nova - seguido de alguns gritos isolados na plateia. A melhor e mais inesperada homenagem que os seis msicos poderiam receber pelo trabalho feito com tanto zelo. Uma das poucas bandas brasileiras a gravar um DVD em Abbey Road e a nica a ganhar um Grammy por esse tipo de projeto. Com seus quase 30 anos, o Roupa Nova era enfim aclamado pelo pblico e por profissionais da indstria fonogrfica internacional, deixando o seu nome marcado em um lugar mais que especial. E que iria muito alm de um muro branco.



Notas

* Ringo Starr tocou com os Beatles em Hamburgo, na poca ainda como baterista do Rory Storm and the Hurricanes. Ele tinha acabado de entrar no lugar de Pete Best.

** Primeiro, a banda tentou fazer um projeto realizado pelo Abbey Road, mas como a proposta era muito cara, o grupo decidiu alugar o estdio e apenas dizer que foi gravado l.

*** EP  a abreviao de Extended Play. No geral, estes discos contm em torno de quatro faixas.

**** O nome surgiu por causa do pacote do cigarro favorito do engenheiro de som do estdio da EMI, Geoff Emerick: Everest - o mesmo nome da montanha, que daria um visual incrvel para o lbum do grupo.

***** O videoclipe  da msica Cantar faz feliz o corao, com todos os integrantes em um barco, passando pelo rio Tmisa. E foi Feghali quem escolheu tocar com a Hello Kitty.



CAPTULO 41

O SOM DE UMA GERAO

O Roupa Nova  uma banda muito amada, e t mais do que consagrada. T a h mais de 30 anos, e no vai sair da nunca mais.

Marcelo Pitta

A msica faz parte da sua vida desde o dia em que voc nasce - ou mesmo antes de voc vir ao mundo, quando ainda  um feto, de acordo com diversos cientistas. Primeiro, so as palavras dos adultos que variam de acordo com o sotaque, volume, entonao, amplitude do som e outras caractersticas que transformam aqueles barulhos em melodias. Algumas delas agitadas, outras animadas e h ainda aquelas to calmas que te do vontade de dormir. Como as canes de ninar - que na voz suave de uma me, no violo tocado de um pai, tio, ou no colo de avs viram sonferos poderosos. E a voc descobre que a msica tambm pode te fazer muito bem.

Depois voc comea a ouvir canes que tocam nos aparelhos de sua casa, e que tomam o espao do lar por causa de sua famlia ou vizinhos. Independente de quando voc nasceu, estava l uma vitrola, um rdio, tocador de CD, DVD, MP3, Blu-Ray ou qualquer outra tecnologia que, como se fosse encantada, permitiu que voc ouvisse vozes de pessoas que no estavam ali. Msicas que pareciam ter viajado lguas para chegar at voc.

Voc grita, chora, ri, imita e, com o tempo, tambm se enxerga como um desses emissores de som. E alguns sortudos ainda tm a chance de descobrir, desde pequeno, como fabricar outras notas musicais, com instrumentos que viram na mo de um adulto ou, s vezes, reproduzidos em formato de brinquedo.

Os desenhos, as propagandas, as novelas e os filmes que voc assiste na televiso tambm lhe apresentam canes, e at quando voc faz aniversrio cismam em cantar para voc. Alis, em todos os rituais da sua vida existiro canes, e vai ser praticamente impossvel no se lembrar desses instantes ao ouvi-las de novo.

Seus amigos fazem um churrasco, uma festa  noite, de dia, na praia ou em um stio e a msica  que d o clima deste encontro. Voc se apaixona, e as melodias romnticas te fazem flutuar; toma um fora, e as canes de amor no correspondido parecem ler seu corao! Se voc namora no carro, alguns ritmos calientes esquentam a relao, e at quando voc casa uma msica toca na igreja. Experincias que, na sua interpretao, do um novo significado para essas canes, e vice-versa. E a msica, ento, se torna um pouco de voc.

De modo que, sem pedir permisso, a msica te inspira, emociona, acessa recordaes e sentimentos escondidos e, s vezes, os liberta. E, por causa dela, voc chora, se diverte, vibra, se irrita, comemora, se desespera, ama e sonha. Ela apenas entra na sua vida e fica.



No lanamento de um dos CDs do Roupa Nova, aps o Acstico, a produo organizou uma noite de autgrafos e tambm um espao aberto de perguntas e respostas para o pblico. Porm, depois de duas ou trs questes feitas diretamente para os integrantes, os fs comearam apenas a contar seus casos.

- Eu hoje t casado por causa de vocs! Meu universo  voc estava tocando na rdio quando beijei pela, primeira vez, minha mulher. E acho que ajudou. Obrigado, viu?

- Ouvi muito Cano de vero no rdio. Bons tempos aqueles... Alis, s dava ela nas festas com os amigos! Eu tenho recordaes maravilhosas por causa dessa msica.

- E eu passei por alguns momentos difceis no incio dos anos 1980. Mas a msica Assim como eu me deixava melhor e me dava fora pra superar. Bom... Era isso.

- Oi, meu nome  Maria e descobri que estava grvida quando ouvi Dona na novela. Hoje eu no posso ouvir essa msica que eu choro. Meu filho j  um rapaz de quase 30 anos e  f do grupo tanto quanto eu.

- Bom, eu decidi que ia ser msico depois de assistir ao show de vocs. E agora t realizando um sonho ao disputar um concurso internacional de bandas. Legal, n?

- J eu me apaixonei por um moo de olhos verdes que adorava assoviar Volta pra mim. Pena que a gente terminou...

- Meu pai cantava pra mim Seguindo no trem azul, no violo. E agora eu morro de saudades dele ao escutar essa cano.



- Outros artistas dizem ter fs. Ns costumamos dizer que temos amigos - disse Kiko em um dos shows, arrancando aplausos esfuziantes da plateia. Um carinho que os msicos tambm demonstrariam para o pblico de outras maneiras. Como o que aconteceu com Joyce, em So Joo de Meriti, ao jogar no palco uma camisa do Fluminense para o Feghali e ouvir:

- Obrigado, Joyce!

Ou o que ocorreu com Ana, de So Lus, do Maranho, que acompanha o grupo desde os 15 anos de idade, e quase caiu para trs ao se deparar com o tecladista, quatro anos depois, em um dos hotis da cidade a chamando pelo nome: Aninha!

Algo que Feghali, principalmente, faria com frequncia por todo o Brasil, durante os espetculos. Ainda mais depois do surgimento das redes sociais onde ele passou a ver as fotos das pessoas que esto na comunidade do Roupa Nova - decorando, aos poucos, os nomes e a fisionomia de cada um. Para poder apontar, reconhec-los no meio da plateia e, assim, retribuir toda considerao daqueles amigos.



- Quanto tempo falta? - perguntou a noiva, nervosa, para o recente marido, dentro de um fusquinha, todo incrementado e bonito para o casamento.

Ela estava com um buqu vermelho nas mos e usando um vestido lindo, branco, longo e bordado, que sua tia fizera. E o noivo estava com smoking escuro, com um pouco de gel no cabelo, gravata-borboleta preta no pescoo, uma flor na lapela e o principal: um relgio no pulso.

- Acho que est marcado para as 22 horas.

- E que horas so?

- 21h30. Calma, vai dar tempo!

- Eles so pontuais!

- J estamos perto, acelera a, motorista! - disse ele, batendo de leve na poltrona da frente.

Estava to ansioso quanto ela, mas com um sorriso no rosto por aquele dia to especial em sua vida. O fusquinha corria pelas ruas de Presidente Prudente, no interior de So Paulo, em uma noite em que todas as ruas pareciam estar mais iluminadas. O motorista, tambm trajado a rigor, sabia que s dependia dele para aquele evento se tornar um sucesso e, por isso, pisou no acelerador. Conseguindo chegar, em quinze minutos, na porta do Tnis Clube, na Washington Lus.

Ela, ento, deu a mo direita pra ele e segurou com a outra o buqu, para entrar no clube - com os passos acelerados, mas sem perder a pose. E ele decidiu dobrar o palet e coloc-lo sobre o seu brao que ainda estava livre, junto com as entradas.

- T todo mundo olhando - disse ela baixinho, entre os dentes, sem graa, enquanto se aproximava do salo.

- Tudo bem - respondeu ele, retribuindo os sorrisos que ganhavam pelo caminho at alcanar o local do show.

A casa estava lotada, com pessoas ansiosas pela entrada do Roupa Nova, mas que no deixariam de notar os noivos, vestidos com toda classe, descendo as escadarias do salo em direo  rea VIP. E foi s um puxar as palmas para o pblico vir abaixo, com gritos de alegria e outras retribuies de carinho. Isso aconteceu em um sbado de 2009, e poucos dos fs presentes conheciam o casal apaixonado. No entanto, melhor do que ningum, eles entendiam.



Sandra resolveu fazer uma faxina em sua casa, em um dia qualquer de 2009. Fundadora do primeiro f-clube oficial do Roupa Nova, na dcada de 1980, ela no era mais uma menina de 20 anos nessa poca, mas ainda guardava as vrias fichas dos scios, fotos com a banda e muitas histrias entre as cartas e os recortes de jornais.

Aps a divulgao do f-clube no disco Herana, Sandra recebeu cartas do Brasil inteiro, com vrios pedidos de inscrio. E ela respondia uma por uma, no s satisfazendo as dvidas dos fs sobre o Roupa Nova como tambm pegando seus dados bsicos, como nome completo, endereo e data de nascimento para fazer uma fichinha, antes de guard-la em uma caixa de sapatos - que funcionava como seu arquivo. Pedia tambm uma foto 3x4 de cada um dos scios e, com o tempo, ia decorando todos os nomes e rostos. Pessoas que perguntavam coisas do tipo: Quando o Roupa Nova vem  minha cidade? O Kiko gosta de macarro? Quando o Paulinho nasceu? O Serginho  f dos Beatles? Qual  a marca dos teclados do Cleberson e do Ricardo? Tem como passar a agenda da banda? Questes que hoje poderiam ser respondidas com uma simples busca na internet.

- Gente, os questionrios...

Curtia ela, ao encontrar todos os questionrios que mandou para os seis msicos, por Valria. Sandra digitava na mquina os dados pessoais que gostaria de saber, como formao escolar, ator predileto, filme, disco ou o que cada um deles achava sobre amor, poltica e imprensa. A partir dessas informaes escritas pelos integrantes, ela digitava um release para mandar para os scios. Um f-clube que duraria at a sada das empresrias Valria e Anelisa - perodo em que ela tambm comeou a trabalhar.

Meu Deus, eu no me lembrava disso..., comentou ao se deparar com um jornal de 1996, guardado com carinho por causa de uma das fotos da notcia. Sandra conhecia todos os fs e o que cada um deles gostava de saber sobre o grupo. E por isso no titubeou em reconhecer, na matria, o rosto de Samuel, um baixista scio do f-clube que adorava o Roupa Nova e tinha, em Guarulhos, uma banda de garagem chamada Utopia, formada com seu irmo Srgio e o amigo Bento. Vi o Roupa Nova no Chacrinha, e o Nando estava com um baixo bege... Qual  a marca?, perguntou, em uma das cartas, o baixista, que fazia covers de rock, sem sonhar o que ainda lhe aconteceria.

Era 4 de maro de 1996 quando Sandra comprou aquele jornal e percebeu a foto do mesmo Samuel que lhe escrevia. Baixista de uma banda irreverente conhecida em todo pas como Mamonas Assassinas e que, infelizmente, havia falecido em um trgico acidente areo. To novo..., pensou ela, lembrando-se de todas as cartas que havia trocado com o msico contando sobre o Roupa Nova e os baixos de Nando.

Naquele distante dia de maro, Sandra pegou sua caixa de sapatos, tirou a ficha de Samuel e escreveu  caneta, embaixo da data de nascimento, a data de sua morte com uma cruz do lado. Dobrou a notcia que havia sado no jornal e tambm guardou, antes de sentar no sof e ligar a televiso, para assistir  transmisso do enterro do baixista, seguido por cerca de 65 mil fs.

Uma ficha de inscrio, de nmero 276, e um jornal que ela tambm no conseguiria jogar fora em 2009.



Vou colocar no show os melhores clipes com vdeos e fotos para a msica Corao da Terra: Mandem o material!, anunciou Ricardo Feghali na rede social provocando uma enxurrada de cerca de 1.500 vdeos para a cano. A partir desse montante, ele selecionou os que mais gostou, editou, fez um nico vdeo e passou em uma das apresentaes da banda, com o crdito de todos os autores. Fs como Zez, Neto, Aty, Juliana e Ingrid, uma menina de 15 anos, de Campina Grande, que desatou a chorar ao ver seu nome na tela do Roupa Nova. Feliz por fazer parte, de alguma forma, do show dos seus dolos.



Amanheci sozinho
 Na cama um vazio

Cantava a banda de rock Fresno, em uma de suas vrias passagens de som antes do show - todos os integrantes nascidos nos anos 1980 e fs do Roupa Nova. Como diria o guitarrista Lucas Silveira: quem  msico percebe como as canes da banda so bonitas e benfeitas. Sabe de onde aquilo veio e se emociona at mais. Assim, eles adotariam Volta pra mim como uma daquelas msicas que no poderiam ficar de fora do repertrio da banda. Desde uma roda de viola a uma vinheta gravada para a MTV, em 2008, com todos eles elegantes, com ternos brilhosos dos conjuntos antigos.

O grupo, que surgiu em Porto Alegre em 1999, quando est  vontade, entre amigos, faz vocal para cantar Volta pra mim e ainda imita com a boca os sons dos instrumentos da gravao original. Alm disso, eles brincam com frases clssicas dos shows do Roupa Nova, como o Ento grita!, que Paulinho diz no meio da cano.*

Msicos que respeitam e se inspiram em grandes msicos. E que aceitariam no ato o convite do Roupa Nova para uma participao especial no DVD 30 Anos - ao vivo, embora no fosse para tocar Volta pra mim, mas pra fazer um verdadeiro Show de Rockn Roll.



O DVD de comemorao dos 30 anos da banda foi gravado em So Paulo, no Credicard Hall, nos dias 2 e 3 de julho de 2010. Alm do Fresno, tambm foram convidados o Padre Fbio de Melo para cantar A paz, e Sandy para fazer um dueto com Serginho em Chuva de prata - cano que ela j havia gravado em 2001 com Jnior. Porm, nada seria mais emocionante para os seis msicos do que reencontrar, no palco, Milton Nascimento.

Durante a carreira do Roupa Nova, no faltaram oportunidades de eles estarem juntos, aps a primeira gravao de Nos bailes da vida, em 1981. Seja ao vivo, como em 1988, quando Milton aproveitou a passagem por Portugal para prestigiar a turn do show Herana, no Coliseu, na Cidade do Porto - quatro dias de apresentaes com casa lotada, reunindo 12 mil pessoas em um dos pontos musicais sagrados do pas. Seja por meio de canes, como em 1993, quando a banda regravou Maria Maria, no disco De volta ao comeo, e tambm como em 2001, no lbum Ouro de Minas, com obras como F cega, faca amolada, Nada ser como antes, Raa e Nos bailes da vida. Um trabalho de que Bituca gostou muito. O que me toca  que eles tm um carinho muito grande por mim e eu por eles. Ento, de tudo que a gente conversa sai uma coisa bonita, diz. Por isso, estar do lado daqueles seis baileiros cantando Nos bailes da vida, naquele final de semana, seria reviver essa histria.

Milton esteve nos dois shows em Sampa e tambm no Rio de Janeiro, e fez questo de destacar isso com orgulho, como um amigo fiel que no poderia faltar ao aniversrio do outro: Estive nos dois lugares! Nem todo mundo pde ir tantas vezes. Daqueles que ainda reclamam pelo que no aconteceu. Se eles no tivessem me chamado iam ter comigo! Um mineiro que, a partir da msica, fez amigos.



S quem toma um sonho
 Como sua forma de viver
 Pode desvendar o segredo
 de ser feliz

Tocou Ricardo Feghali, sozinho no violo, na abertura do primeiro dia de gravao do DVD de 30 anos - com os seis msicos j no palco. Versos compostos por ele e Nando para o comeo de Nos bailes da vida, anunciando a importncia dos versos que ainda estavam por vir. Uma cano que se tornou, no decorrer dos anos, um hino para o grupo, uma guia para seus passos, a concretizao de um sonho. A deixa perfeita para que a Orquestra Sinfnica Villa-Lobos entrasse, e no telo do palco o ano de 1978 se tornasse 1979, para enfim surgir a frase E o sonho comea..., no instante em que Milton Nascimento aparece sob as palmas do pblico.

Bituca entrou devagarinho, sem chapu, e com culos da cor marrom, com um casaco sobre uma blusa tambm marrom, naquela noite fria de So Paulo. Sob o palco, o telo passava um clipe que ele conhecia muito bem: os seis msicos novinhos, em uma gravao em preto e branco, feita em 1984, em sua homenagem, para o programa Bar Academia, da TV Manchete. Muitas emoes para um mineiro, ansioso, por se apresentar, pela primeira vez ao vivo, com a banda.

A cantora Elis Regina disse em uma ocasio que, se Deus cantasse, cantaria com a voz de Milton. E era exatamente esse vozeiro que todos estavam esperando para cantarolar Foi nos bailes da vida..., enquanto o grupo tocava. Porm, pelo menos naquele incio, ele no conseguiu. Sua voz mal saiu e por pouco ele no chorou. Me deu um aperto no peito! Apesar de ter gravado com eles, de ter tocado essa msica vrias vezes, ali no palco foi diferente. Eu fiquei doido! Existe uma unidade ali. E, pra mim, foi um presente que eles me deram, uma ddiva, contaria ele depois. E isso tambm seria registrado em uma mensagem para o DVD do grupo: Vocs me procuram muito pouco, tocam muito pouco comigo, e quando eu chego aqui acontece isso? Isso no se faz! A gente tem corao.  ser humano apesar de no parecer.

Talvez porque ali fechasse mais um ciclo em sua vida, como acontecera ao assistir a Contatos imediatos do terceiro grau quando mais novo. Como se todos os elementos de sua trajetria estivessem alinhados e justificados naquele momento. Era como se ele se sentisse mais vivo. Cantando uma cano que era sua e do amigo Fernando Brant, e que significava a existncia dele e do Roupa Nova. Com as lembranas do que eles eram e do que haviam se tornado. Todos mais velhos, no palco, e vitoriosos. Tendo como pano de fundo um clipe que o levava at 1984, em um programa cheio de homenagens para a sua carreira. Com os seus seis afilhados, de novo, ao redor, o envolvendo com acordes e vozes, da melhor maneira que eles poderiam fazer. Os mesmos baileiros com quem ele gravara aquela cano em defesa dos que amam a msica. No importando se quem pagou quis ouvir, foi assim.



Mais um! Mais um! Mais um!, pediu a plateia no final do show no primeiro dia da gravao do DVD de 30 anos. Normal para uma banda to querida como o Roupa Nova. Porm, ao ver Feghali entrar com o violo, no palco, os fs comearam a cantar, sozinhos, uma msica que nem estava no roteiro. Algo totalmente inesperado.

Corao, que ama to longe
 Mal pode esperar, o certo momento de voltar

A mesma msica dedicada por eles para os fs, no DVD de Londres, sendo naquele instante dedicada de volta. E isso sem ter feito sucesso em rdio ou em qualquer outra mdia. Feghali, com o olhar incrdulo, decidiu acompanhar as pessoas enquanto elas cantavam. Ao passo que os outros integrantes foram surgindo aos poucos no palco e retomando seus instrumentos. Exceto Nando, que no resistiu e desatou a chorar. No acredito... A gente no puxou isso! A minha msica!, pensava ele enquanto escondia o rosto com as mos.

Feghali, letrista dessa cano, ao perceber o baixista emocionado, depois de puxar mais uma vez o refro da msica com a plateia, o chamou:

- Vem c, Nando!

Que se aproximou do meio do palco, cujo cho trazia estampado o nmero 30 - que se tornaria smbolo deste trabalho. E, limpando as lgrimas, ele abraou o tecladista e beijou o seu rosto, tambm agradecido por aquela resposta espontnea das pessoas. Feliz por fazer parte, de alguma forma, daquela multido.



O trabalho Roupa Nova 30 Anos - ao vivo** chegou s lojas no dia 29 de outubro de 2010 e, em menos de um ms, vendeu 100 mil cpias, sendo 50 mil CDs e 50 mil DVDs - ganhando disco de platina para os dois produtos.*** A turn do Ao Vivo duraria dois anos e seria assistida por um pblico formado por muitas famlias, s vezes representadas por trs geraes distintas. Mais de 1 milho de espectadores, no Brasil inteiro! O Roupa voltava a ser pauta para as TVs, jornais e para as rdios como h muito tempo no se via, apesar das tmidas resenhas dos crticos, agora em blogs, sobre o DVD. Como a de Mauro Ferreira, em seu site Notas musicais:

No fim das 36 msicas distribudas em 23 faixas (o CD contabiliza 16 faixas), o saldo  positivo. Primeiro, pelo fato de que os msicos do Roupa Nova so compositores hbeis na criao de boas canes romnticas de acento (pop)ular.  inegvel o apelo de suas msicas. Segundo, porque eles sabem animar um baile com seus vocais harmoniosos e com sua competncia tcnica como msicos.

Deixando para trs severas restries ao seu trabalho, embora tambm no tenha cado nas graas da imprensa, o Roupa Nova completava 30 anos de uma carreira madura, com seu prprio selo, e de muito sucesso. Referncia para figuras da msica brasileira, como Fagner, f do grupo desde o Guerreiro menino: Alm de entender como manter uma banda unida, eles tm uma vida, uma identidade prpria. Eles se confundem em uma coisa chamada Roupa Nova. Uma convivncia produtiva, criativa e bonita, pela qual eu tenho o maior respeito e amor.

Sobre as censuras, Zizi Possi diria: Como  difcil voc manter um grupo de talento! E esses meninos sempre foram bombardeados. Um bando de gente dizendo o que acha que a gente devia estar fazendo, em vez de olhar o que a gente est fazendo. E na opinio do produtor Ricardo Moreira: Eles esto mais calejados, aprenderam o que  o Roupa Nova. No d pra negar o que eles fizeram.

Marcelo Sussekind, produtor e ex-integrante de A Bolha e tambm do Herva Doce, falaria sobre o preconceito em relao ao Roupa Nova, at mesmo no meio artstico:  o melhor time de msicos que se pode encontrar. Esse tipo de sentimento s pode vir de quem no conhece a banda. Tem muita bandinha no mercado que no sabe de nada. Quando falam mal sempre me manifesto contra. O baterista dos Paralamas do Sucesso, Joo Barone, seria categrico: Eles so uma grande instituio, um grupo acima do bem e do mal em relao  crtica.

Depoimentos habituais de profissionais da indstria fonogrfica que compartilham com os seis integrantes a mesma paixo.



- Nana, vamos ao show do Roupa Nova?

- Ah, Ronaldo... Um programinha melhor, que tal?

- Vamos!

- Roupa Nova, Ronaldo? Tenha d!

- Nana, voc vai gostar.

E a cantora, j sentindo que o compositor insistiria...

- Vou te dizer, hein? Voc me arruma cada uma...

Naquele dia, Nana Caymmi, intrprete de renome da MPB, foi contrariada para a apresentao do Roupa Nova, no Rio de Janeiro. E s aceitou o convite por causa de seu amigo, Ronaldo Bastos. Porm, no final do show, a situao era outra. L estava Nana, por conta prpria, em p, ao lado da mesa, danando muito e cantando, animada, todas as msicas daquela banda completamente popular. Algo que costuma acontecer com quem vai ao show do grupo apenas para acompanhar a me, o amigo ou a namorada. Como se todo mundo, independente de seu gosto musical ou preconceito, guardasse dentro do seu imaginrio, pelo menos, uma cano do Roupa Nova.



Caramba... Eu vi esse grupo nascer, pensava Maurcio Alves, enquanto se arrumava para o show dos 30 anos, no Rio de Janeiro. Com um ar de nostalgia em suas lembranas sobre os amigos e muita saudade. Eu participei de tantos coros nas gravaes... At meus cunhados entraram uma vez! P, levei vinho no Clarear! Rindo muito em seu quarto, ao calar o sapato e recordar de vrios casos do seu tempo de comissrio, em que era solteiro, e viajava com a banda para todos os cantos do Brasil. Fui tcnico deles, vi Serginho se transformando em um dos melhores bateristas do pas, eles tocando com Milton. Eu vi tudo de perto!

Ele pegou a chave do carro em cima da cmoda, e foi em direo  cozinha para beber um copo dgua. Eu comecei a sair com a minha mulher na poca do disco amarelo. Nossa, quanto tempo... Fui ao show do Arpoador com ela... E agora eu vou levar meu filho! ... O Roupa Nova fez parte da minha vida. Ficando com uma cara de paisagem na porta de casa, enquanto esperava seu filho para sair.



Samuel R. de Alvarenga nasceu em uma famlia musical. Seu pai era psiclogo, mas tambm um letrista, apreciador de belas canes e comprador voraz de discos. Seu tio, por parte de me, era msico antes de ser mdico e chegou a ganhar festivais em Minas Gerais, alm de compor algumas obras com seu pai. E na casa de sua v, onde Samuel passaria boa parte de sua vida, se respiravam lindas harmonias e composies.

- Eu juntei aqui um dinheirinho da mesada. Me leva para loja de discos? Eu quero comprar um dos Beatles - pedia ele para seu pai, Wolber.

Samuel reunia em sua coleo LPs internacionais como os dos Rolling Stones, Led Zeppelin, e nacionais como os do pessoal do Clube da Esquina ou dos artistas de rock da poca, como 14 Bis, A Cor do Som e Roupa Nova.

- Opa! Vai ter show do Roupa Nova? - comemorava o menino ao ver o cartaz da banda, no ginsio que ficava do lado de sua casa - um lugar em que o grupo se apresentava com frequncia.

No que ele pudesse entrar, afinal, ainda tinha apenas 15 anos. Mas da varanda de sua casa dava para escutar o show inteiro! E ele no perderia esse espetculo por nada no mundo.

Clarear, baby clarear/ Pelo menos um pouco de sol / Eu s quero clarear..., cantava ele, danando amarrado e curtindo uma das canes que fariam parte da trilha sonora de sua juventude. Antes de ele tambm realizar seu sonho, ao formar sua primeira banda, compor suas primeiras canes at se tornar conhecido no pas inteiro como Samuel Rosa, guitarrista e compositor do Skank - uma das principais bandas do Brasil na dcada de 1990. E que no deixaria de contar, nas rodas de amigos, que o primeiro grande show de rocknroll que ouviu em sua vida foi o do Roupa Nova. To marcante como se ele tivesse visto.



De longe, na plateia, sentada no colo da me enquanto o Roupa Nova tocava, a criana balanava as mos no ar, como se estivesse tocando uma bateria. Imitava cada movimento que seu pai fazia no palco. Era Heitor que, desde os primeiros anos de idade, nos anos 1990, quando ainda mal sabia que teria que escolher uma profisso quando crescesse, admirava Serginho como msico, e a banda da qual ele fazia parte.

O que naturalmente aconteceria com todos os filhos do conjunto, criados em um ambiente musical, de agenda lotada de shows, vocais armados em rodas de violo, ensaios constantes e instrumentos em todos os lugares, discos de ouro e de platina na parede, clipes na TV e canes no rdio. Crianas que chamariam os outros integrantes da banda de tios e que tambm se acostumariam a sempre t-los por perto.

- Tio Nando no toca baixo, ele arranja o baixo - diria Kikinho.

O mesmo garoto que esperneava para estar no palco, com sua guitarra de plstico idntica a do pai, e que se definiria como baterista, mais velho - assim como o prprio Heitor se tornaria baterista; alm de Thiago, filho de Feghali; Pedro Paulo, filho de Paulinho; e Marcio, filho de Cleberson.

No caso do tecladista, ele tomaria um susto ao notar que seus trs filhos haviam se tornado msicos profissionais.****

Eles tm o dom, mas esto fazendo contra a minha vontade!, diz Cleberson, preocupado com as dificuldades do mercado fonogrfico brasileiro. At hoje, se a gente no matar um leo por dia, a gente sai do cenrio! Mesmo depois de tudo que passamos com Os Famks e o Roupa Nova. Parecendo at seu pai, Boanerges, apreensivo pela possibilidade do filho passar aperto, apesar de apoiar as iniciativas dos trs. O cara tem que ser feliz no que faz. E, infelizmente, o dinheiro  necessrio, mas no pode vir na frente. Como tambm diria Feghali sobre Carol e Thiago:  uma carreira muito difcil. Agora, se eles optarem por ela, vou apoiar.

Mas como ignorar a msica, tendo em casa uma das grandes bandas do Brasil? Como no experimentar os palcos, no tocar um instrumento, ou segurar a voz para no cantar as canes, se foi isso que eles aprenderam durante tantos anos? E como considerar outras profisses depois de crescer com o Roupa Nova? Como no fazer da msica tambm seu sonho? Cada um dos filhos lidaria com essas questes do seu jeito, e alguns considerariam outros rumos para a sua vida. Mas nem sempre seria fcil abdicar desse caminho - seja para ser mdico, consultor de imveis, engenheiro civil ou piloto de avio. Embora eles tivessem a certeza de que a msica continuaria sempre ali.



- Eu s queria uma pequena participao deles no meu casamento - pediu um f, no telefone com Pitta.

- Mas como?

- Que eles entrassem junto com a gente tocando violo.

- Junto com vocs tocando violo? Putz... No d... A gente faz o show completo. E  uma estrutura muito grande...

- S que  coisa rpida!

E, com muito respeito pelo sentimento do noivo, o empresrio explicou, do outro lado da linha, o trabalho que daria para a banda abrir aquela exceo para ele, entre tantos outros pedidos que recebiam dos fs - em um perodo de agenda cheia, com apresentaes de quarta a domingo. Algo que ficaria muito caro.

- Tudo bem. Eu entendo. Mas diz que eu liguei, t?

Despedindo-se do f, impressionado com o nmero de pessoas que o procura sonhando em ter o Roupa Nova tocando no seu prprio casamento ou aniversrio! Nunca vi isso com outra banda!, pensou ele ao desligar o telefone. Enquanto, naturalmente, se lembrava dos momentos felizes que viveu, nos anos 1980, com a cano Anjo.



Em maro de 2012, o Roupa Nova embarcou em um novo projeto para sua carreira: a gravao de um DVD durante trs dias em um cruzeiro, em alto-mar, com a participao dos fs. A viagem havia sido sugerida por Pitta desde 2007, quando esse tipo de evento ainda no era comum no Brasil, com o cruzeiro com Roberto Carlos ainda na sua terceira edio. Porm, Kiko foi contra a ideia naquela poca, com um argumento incontestvel: ele sentia enjoo.

E o projeto morreu. S retornando para os planos da banda quatro anos depois, quando o guitarrista resolveu ignorar suas condies fsicas.

- Pitta, vamos fazer um cruzeiro!

O que ganharia outra repercusso com a sugesto de Feghali***** de se fazer um DVD da viagem. O que representaria uma logstica precisa para o sucesso do projeto, com produtoras envolvidas, convidados embarcando, shows da banda, acomodao de todos, alm das burocracias relacionadas ao navio com as quais Pitta no estava acostumado. Por isso, o empresrio no respirou at chegar as vsperas da data do cruzeiro, com tudo encaminhado. Para s depois disso avisar para a banda:

- Gente, eu no vou! Eu passo mal! E, se eu passar mal, fodeu! - Comunicado que foi ignorado em peso.

Na semana seguinte, dito e feito: todos estavam no porto de Santos para entrar no navio MSC Armonia, acompanhados de famlia, amigos, fs e muitos remdios contra enjoo na bolsa.



Para o desespero de Pitta, tinha tudo para dar errado o cruzeiro do Roupa Nova, marcado para o dia 24 de maro de 2012. Primeiro, o dlar teve alta de 20% logo na semana em que eles lanaram o projeto. Depois, um cruzeiro na costa da Itlia naufragou em janeiro, assustando possveis passageiros. E, para fechar o quadro favorvel, em fevereiro morreu um tripulante do MSC Armonia, com tosse e febre. O que fez com que a Anvisa retivesse o navio ainda no cais para investigar a existncia de um possvel surto.

Entretanto, o evento seria a oportunidade perfeita para os fs ficarem mais prximos. O que garantiu que, apesar dos imprevistos, mais de 90% das cabines da embarcao fossem ocupadas - com cerca de 1.800 pessoas. Alm disso, o transatlntico pde sair do porto de Santos no dia 24, com sucesso, tendo em seu roteiro Bzios e Ilhabela antes de retornar para o estado de So Paulo no dia 27 de maro - com trs dias de shows do Roupa Nova, para seiscentas pessoas por vez.

Os msicos, nesse perodo, circularam no convs nos intervalos das gravaes, deram autgrafos, conversaram com os fs e s no curtiram mais o sol por conta da produo do DVD. Mas gostaram tanto da experincia que j esto pensando em uma segunda edio, com pocket shows, bate-papos e outros eventos intimistas para que os fs possam se aproximar mais dos integrantes. E vice-versa.



Nando alugou um estdio grande, no Rio de Janeiro, e convocou o Roupa Nova para demonstrar um projeto que h tempos carregava na cabea. Um musical dos anos 1960 todo enredado, que contava uma histria com personagens atravs das canes e poderia ser lanado no futuro - tambm pela Roupa Nova Music. E que mais uma vez, como de costume, s dependeria deles para se tornar realidade.

Alm disso, neste perodo, outros profissionais comearam a procurar Marcelo Pitta, com a proposta de projetos paralelos sobre a banda, como filmes e peas - algo que at ento nunca havia acontecido. Em mais de trinta anos de carreira, o grupo nunca tivera um produto ou um especial baseado em sua trajetria, apesar de estar entranhado na histria da Msica Popular Brasileira. Seria o prestgio artstico que eles tanto lamentaram no ter, o reconhecimento como um dos fenmenos do Brasil, depois de tanta dedicao e comprometimento.

Eu acho que as pessoas decidiram fazer esses trabalhos porque so meio que fs, comenta Pitta sobre os projetos que recebeu, idealizados por grandes produtores nacionais de teatro e cinema. Assim como surgiria uma jovem escritora interessada em registrar, pela primeira vez, a biografia do Roupa Nova. Uma banda que ela conheceu ainda na infncia, pelo disco azul, por causa da famlia. O primeiro show a que ela assistira em sua vida, aos 7 anos de idade, em uma das matins do Caneco, no Rio de Janeiro, na dcada de 1980.

- Sabia que  o Roupa Nova que t tocando nessa msica com o Milton? - dizia ela para os colegas da escola, na faixa de 5 a 8 anos, como se estivesse passando para frente um grande segredo, embora as outras crianas no estivessem a fim de saber.



A gente nunca sabe como vai ser o nosso futuro e mesmo assim a gente inventa histrias, faz planos e alimenta expectativas sobre o que acontecer em nossas vidas. Seja daqui a minutos, um ano, cinco, dez ou quem sabe at trinta!  natural do ser humano se antecipar em seus pensamentos em busca de como ser o final de uma viagem ou de um livro, daquele romance que mal comeara ou daquela carreira que voc iniciou aos 20 e poucos anos. Voc se pergunta, inclusive, como ser o rosto daquele filho que ainda no nascera, e o que vai ser dele quando crescer!

Afinal, a gente tem pressa de viver, pressa de confirmar se vai ser feliz - como se essa sensao tambm s pudesse existir no final. Vai valer a pena investir? Eu vou gostar, ou eu vou sofrer? No seria melhor desistir? Uma ansiedade perturbadora que pode, facilmente, deixar muitos sonhos adormecidos, como se eles nunca sequer tivessem existidos e como se todas as nossas escolhas fossem parte de uma grande conta matemtica, de prs e contras de possveis frustraes, e no de desejos.

Dos pequenos aos estratosfricos; dos caros aos baratos; daqueles mais possveis de serem realizados e outros que parecem coisa de filme; experincias solitrias ou coletivas; dos usuais aos mais malucos; para quando estivermos velhos ou para quando ainda formos novos - a verdade  que sonhos todos ns temos. Seja voc, Joo, Maurcio, Sandra, Samuel, Milton... Ou talvez Cleberson, Kiko, Nando, Paulinho, Ricardo e Serginho. S que a diferena, entre cada um de ns, est no que vamos fazer com eles.

Em 1988, no programa Um Domingo com o Roupa Nova, o radialista Lus Augusto de Biase, da FM 105, perguntou para o Roupa Nova: O que voc quer que acontea, no futuro, na vida do grupo e particularmente? E ainda no incio de carreira, com oito anos de banda, sem garantia de nada, os seis falaram sobre seus anseios e vontades para os ouvintes.

Nando disse que, basicamente, gostaria que o grupo continuasse unido, at no poder mais tocar. E que o Roupa Nova continuasse passando mensagens positivas para as pessoas, deixando essa coisa boa na vida de cada uma delas. Alm disso, contou sobre um projeto que tinha na cabea: um disco todo enredado, contando uma histria com personagens atravs das canes. E afirmou, determinado: Eu tenho esse sonho e ainda vou fazer esse disco!

Cleberson tambm falou sobre a banda continuar unida, mas sendo, no futuro, dona de seu prprio trabalho. E desejou que o progresso musical de todos fosse contnuo. J Ricardo disse que seria muito triste chegar uma hora em que tivesse que se despedir de um deles. E, por isso, frisou que o mais importante seria eles continuarem juntos.

Kiko pediu pelo estdio Roupa Nova, e Serginho concordou com a ideia, assegurando que seria maravilhoso administrar uma coisa gerada por eles. E que tivesse, talvez, roupinhas novinhas. J Paulinho, aps todos falarem, apenas destacou o que seria essencial para ele. A gente continuar juntos e o trabalho rolar at o pessoal estar de bengala. Um dando no outro de bengala. Firme e forte...

Sonhos que no seriam jamais esquecidos... como msica.



Notas

* Muitos fs passaram a cantar as msicas do Roupa Nova com as frases que os integrantes costumam dizer nos shows - registradas na discografia desde o Ao Vivo.

** A estrutura do palco do show desse DVD foi desenhada por Feghali.

*** A partir de janeiro de 2010, a Associao Brasileira de Produtores de Discos definiu 20 mil CDs para disco de ouro, e 40 mil para platina.

**** Marcelo  guitarrista, Mauricio  baixista, e todos os trs cantam.

***** Essa seria a primeira vez que um integrante do Roupa iria dirigir e roteirizar o DVD da banda.



EPLOGO

SEIS POR UM

23 de agosto de 2013

Rio de Janeiro

Oi,

Tudo bem?

s vezes eu acho que voc t de sacanagem comigo, sabia? Poxa, tinha que pegar pesado daquele jeito na reunio? Parece at que no me conhece mais... T, voc vai dizer que  besteira, mas, na boa?, no fiquei bem com aquilo, no. So essas coisinhas que irritam! Acumulam durante nossos mais de trinta anos. , rapaz... L se foram, no mnimo, 33 anos s de Roupa Nova. Um belo marco, diriam os jornais. O pior  que eu ainda tenho as minhas dvidas sobre essa nossa histria e, em dias como esse, me vejo pensando nas escolhas que fizemos. Se tudo isso tem valido a pena.

Voc t cansado? Eu tambm! E nem assim eu posso parar. Eu tenho gente que depende de mim, contas pra pagar, mulher, casa e filhos pra sustentar. Se eu fosse sozinho, mais novo, seria mais fcil. Poderia at comear tudo de novo, por que no? Fazer uma carreira solo, despontar em um grupo internacional, viver trocando de bandas ou, sei l, talvez ser arquiteto, desenhista, veterinrio, escritor, mdico, advogado... S que depois dos 50, 60 anos, com a sua histria carimbada, se reinventar parece papo de maluco. E coragem pra fazer isso? Onde eu acho?

Sabe, de vez em quando eu penso seriamente se eu no devia ter te deixado. E eu sei que as pessoas ao meu redor tambm se questionam sobre isso. Uma vez, cheguei at a ouvir de um conhecido: Voc poderia ter tido mais sucesso na vida. E ele falou cheio de razo, com uma voz to proftica que me deu arrepio. S que, pra te dizer a verdade, at hoje no entendi o que ele quis dizer. Mais sucesso seria o qu? Melhor do que temos hoje? Poderia, teria, iria, ah, que inferno!

Ah, vai, desculpa... Hoje eu t um pouco de saco cheio. Talvez seja a idade que me faa ficar sem pacincia - fora o fato de te conhecer muito! Suas qualidades e, principalmente, seus defeitos... No mudou nada.  preciso calma para tolerar erros repetidos, ou voc acha que eu brigo com voc  toa? T, tudo bem, s vezes sou eu quem pisa na bola. P, mas  difcil manter essa relao, n? Precisava ser to diferente? Alis, como  que a gente conseguiu?

Nem eu sei...

E, se no bastasse a gente, ainda vinha a imprensa pra completar! Romnticos demais, bregas demais, famosos demais, alienados demais, baileiros demais. Demais... Roupa Nova: excelentes msicos, mas... Mas?

Sem contar as inmeras vezes em que a gente, apesar de brigados, teve que responder aquela fatdica pergunta: Qual  o segredo dessa unio? E com uma cara tima falvamos sobre nossa democracia e igualdade, como se nada estivesse acontecendo. Uma deciso que at hoje eles no entendem o que nos custou. Qual  o segredo dessa unio? Quantas vezes voc j ouviu isso, tem noo?

Agora v! Depois de tudo que a gente passou, nossos filhos vo pelo mesmo caminho. Vai entender... Marcio passa horas no pro tools, Marcelo t com banda e Mauricio s quer saber de rocknroll! Twigg lanou seu primeiro disco solo como cantora, voc viu? E, imagine, gravou uma msica dos Famks! To bonitinha... Thiago, Pedro Paulo e Heitor escolheram a bateria, e at a Carol chegou a tocar com Kikinho. Sem contar o Guilherme, que resolveu seguir outra carreira, embora continue arrebentando na guitarra. E vou te dizer que eu tenho o maior orgulho dele, sabia?

Eles cresceram, n... E Nyvia, que casou? Ela estava to linda naquele dia... Voc reparou? Sem esquecer dos mais novos, Rebecca e Victor. P, esse garoto mal chegou e j me d vontade de ficar em casa o dia inteiro. Na boa? Eu t velho para ficar distante, de novo, de um filho. Nascimento, aniversrio, doena, primeiros passos... Por que eu no posso apenas viver?

Ai... Tanta coisa... No sei se isso acontece com voc mas, em alguns momentos, quando fecho os olhos, eu vejo tudo voltar. Voc me avisando sobre a doena da minha me, a falta de dinheiro para comer, as crticas ferrenhas dos jornais, e meu pai morrendo de forma brutal. Exagerei na bebida, no caf, tive dois AVC, tromboflebite, presso alta, e s eu sei como foi ruim ouvir do mdico: Sinto muito, no vai dar. E eu tive medo de morrer. Desloquei o brao, quebrei a clavcula, ferrei minha coluna, cai do palco, e apareci s de cueca! T, eu confesso... Isso foi engraado...

E quando eu dormi na gravao dos Motokas? O que foi aquilo? P, bicho, no entendi nada... Alis, quanta coisa a gente j fez, n? Tocamos com o Marcos Valle, Carlos Daff, Cludia Telles, Jane Duboc, fomos produzidos pelo Big Boy e paramos na rdio Cidade! Estivemos no MPB 80, nas rdios e em boa parte das novelas. Lgico, depois de ter mandado nossos discos para Deus e o mundo! Madrugando para estar nas emissoras. At trabalhamos na Globo, com baile no dia seguinte! Maestro Cip, Geraldo Vespar, Eduardo Lages, Jlio Medaglia... Caramba... Aquilo sim  que foi uma escola.

... A gente fez coisas que eu nunca imaginava. Tocamos com David Coverdale, Steve Hackett, David Gates... Os caras que a gente imitava nos bailes! Inventei, inclusive, de gravar em Abbey Road, no santurio dos Beatles, e voc me dizendo que isso era maluquice! Eu te falo, a gente sempre tem que arriscar...

Ganhamos disco de ouro, de platina, e tivemos pessoas essenciais do nosso lado... Se lembra de Anelisa e Valria brigando com o Manolo, gritando: E voc no entende de Roupa Nova!? Ou do Juca com o Max Pierre, ou do Milton Nascimento vestindo a nossa camisa para imprensa. Dos conselhos da Rita, da amizade de Ronaldo Bastos, do carinho do Fagner, do nosso guru Mariozinho... Tanta gente...

Eu sei, s vezes eu exagero. E me importo com besteiras que eu no deveria mais me importar. Mas, sei l... Sempre foi assim, no? A gente brigando o tempo inteiro para ser o melhor! Discutindo por causa de detalhes, por horas, para passar coisas boas para as pessoas e ser uma referncia musical no pas! O ponto, que eu fico pensando,  que talvez ns j tenhamos nos tornado esses caras... E por que  que no d s pra relaxar?

Eu t falando isso agora, mas eu tambm s me dou conta disso quando estamos no palco. Quando eu vejo, hoje, depois de trinta anos de carreira, todo mundo cantando todas as nossas canes. Msicas que tomaram vida prpria e se tornaram parte de outras histrias. Palavras e melodias que construmos, sozinhos, e que no nos pertencem mais.

Na verdade, a gente t h tanto tempo juntos que eu me esqueo do que voc se tornou pra mim. Meu parceiro, scio, amigo, cunhado, irmo. Um grande msico que me d segurana de estar nos palcos e que eu no tenho mais medo de perder. ... Talvez seja por isso que eu no mea palavras pra falar com voc... Voc  a minha famlia, cacete!

Ah, vai, me desculpa... Eu no tenho esse direito. No com voc, no depois de tanto tempo... Eu sei, a gente erra e vai continuar errando... Mas eu no posso deixar de acreditar que a gente no pode ser melhor!

O que eu sei  que fico muito feliz ao olhar pro meu lado e encontrar aquele mesmo cara, cheio de sonhos, que eu conheci nos bailes do subrbio do Rio de Janeiro, de guitarra em punho, baixo pesado, teclado velho, bateria gasta e uma voz forte no microfone.

, meu velho, se cuida...
 E obrigado.

Ass: Roupa Nova



NOTAS BIBLIOGRFICAS

1 - Matria publicada no Caderno C do Jornal do Commercio, no dia 29 de maro de 2007, por Jos Teles.

2 - A composio dessa carta foi feita a partir dos depoimentos dos entrevistados.

3 - Os dados so do site A Vitrine do Rdio, que tambm considera as msicas internacionais nos rankings. Em 15o estaria Chuva de Prata, registrada por Gal Costa & Roupa Nova.

4 - ALEXANDRE, Ricardo. Dias de luta. O Rock e o Brasil dos anos 80. So Paulo: DBA, 2002.

5 - DAPIEVE, Arthur. BRock: o rock brasileiro dos anos 80. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.

6 - ALEXANDRE, Ricardo. Dias de luta. O rock e o Brasil dos anos 80. So Paulo: DBA, 2002.

7 - RODRIGUES, Rodrigo. As aventuras da Blitz. So Paulo: Ediouro, 2008.

8 - ALEXANDRE, Ricardo. Dias de luta. O Rock e o Brasil dos anos 80. So Paulo: DBA, 2002.

9 - Pesquisa publicada em 2 de dezembro de 1989, na pgina 2 do Caderno 2 do Estado de So Paulo.

10 - O rock faz o som nas danceterias, matria da pgina 9 do Caderno B, do Jornal do Brasil, publicada em 8 de maro de 1985.

11 - Roupa Nova em apelo banal, matria da pgina 5 do Caderno B, do Jornal do Brasil, publicada em 1o de novembro de 1984.)

12 - Citao encontrada no release do Roupa Nova de 1985.

13 - Esse caso foi contado pelo prprio Ronaldo Bastos. Embora, alguns afirmem que isso aconteceu por causa da cano Trem azul, do L e do mesmo Ronaldo Bastos. 

14 - Citao encontrada no release do Roupa Nova de 1985.

15 - Legio, RPM, Tits, Paralamas, Ira!, Capital, Plebe, Engenheiros & Mercenrios debatem o futuro do rock no Brasil. Revista Bizz, nmero 31. 

16 - Grupos para mastigar em conjunto, matria de 20 de novembro de 1983 publicada na Folha de So Paulo, Ilustrada. 

17 - ALEXANDRE, Ricardo. Dias de luta. O Rock e o Brasil dos anos 80. So Paulo: DBA, 2002.

18 - ALEXANDRE, Ricardo. Dias de luta. O Rock e o Brasil dos anos 80. So Paulo: DBA, 2002.

19 - ALEXANDRE, Ricardo. Dias de luta. O Rock e o Brasil dos anos 80. So Paulo: DBA, 2002.

20 - ALEXANDRE, Ricardo. Dias de luta. O Rock e o Brasil dos anos 80. So Paulo: DBA, 2002.

21 - Sobre a MPB e a Msica Pop Brasileira, matria disponvel no portal da Gazeta do Povo, no Caderno G. Acessado em 17/05/2012. 

22 - Os pirosos do sucesso, matria publicada no Caderno B, do Jornal do Brasil, em 23 de junho de 1988. 

23 - ALEXANDRE, Ricardo. Dias de luta. O Rock e o Brasil dos anos 80. So Paulo: DBA, 2002. 

24 - Brega nos anos 1980, Guilherme Arantes  celebrado por nova gerao, matria de Marcus Preto publicada em 17 de maio de 2012, na Ilustrada online da Folha de So Paulo. 

25 - Bombardeado pela crtica, o brega Michael Sullivan agora  reverenciado pela MPB, matria de Leonardo Lichote publicada em 11 de maio de 2010, na seo TV e Lazer do Extra online.

26 - Dados citados no livro Os donos da voz, de Mrcia Tosta Dias, pela Boitempo Editorial, de 2000.

27 - Frequncia romntica, matria publicada na Veja em 25 de novembro de 1987. Pginas 147 e 148.)

28 - FILHO, Daniel. O circo eletrnico - fazendo TV no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

29 - Artesos que vestem cenas com sons, matria do site do Dirio de Pernambuco de 18 de agosto de 2002. Acessado em 24/05/2012.

30 - Matria publicada no dia 14 de agosto de 2001 no site CliqueMusic da Uol. O mesmo jornalista Marco Antnio Barbosa escreveria a crtica do disco e chamaria o trabalho de redundante e manjado.

31 - Entrevista publicada por Marcos Paulo Bin, no dia 3 de novembro de 2004, no site Universo Musical.



REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

Mas ainda sirvo se voc quiser...

(Sapato Velho)

Discografia:

Para conferir a discografia completa do Roupa Nova, acesse: www.livroroupanova.com.br.

Livros:

ALBIN, Ricardo Cravo. Dicionrio Houaiss Ilustrado Msica Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Paracatu, 2006.

ALEXANDRE, Ricardo. Dias de Luta / O Rock e o Brasil dos anos 80. So Paulo: DBA, 2002.

ALZER, Luiz Andre. MARMO, Hrica. A vida at parece uma festa: toda a histria dos Tits. 4a ed. Rio de Janeiro: Record, 2005.

ALZER, Luiz Andr Brando Frana. CLAUDINO, Mariana Costa. Almanaque Anos 80. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

ARAJO, Paulo Cesar. Eu no sou cachorro, no. Rio de Janeiro, Record: 2002.

ARAJO, Paulo Cesar. Roberto Carlos em detalhes. So Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2006.

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BORGES, Mrcio. Os sonhos no envelhecem - histrias do Clube da Esquina. 4a ed. So Paulo: Gerao Editorial, 2002.

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TURNER, Steve. The Beatles: A Histria por Trs de Todas as Canes (em portugus). So Paulo: Cosac Naify, 2009.

Peridicos:

Amiga, Backstage, Batera, Bem Paran, Bizz/Showbizz, Bravo, Carcia, Correio do Povo, Cover Guitarra, Cult, Dirio de Pernambuco, poca, Estado do Paran, Estado de So Paulo, Extra, Folha de So Paulo, Gazeta do Povo, Isto , Jornal da Tarde, Jornal do Brasil, Jornal do Commercio, Jornal do Ouvinte, Jornal Hoy, Jornal Vicentino, Keyboard, Manchete, Modern Drummer, O Dia, O Globo, Pipoca Moderna, Pop, Revista Brasileira de Histria, Rock Verde e Amarelo, Senhor, Shopping Music, Somtrs, Teclado & udio, Tribuna da Imprensa, ltima Hora e Veja.

Websites:

Abbey Road, Blogs, flogs e sites oficiais de todos os f-clubes reconhecidos pelo Roupa Nova, Billboard, Caneco, Cinemateca.gov, Clique Music, Dicionrio MPB, Discos do Brasil, Encyclopedia Britannica, Google Maps/Street Views, Grammy, IBGE, Instituto Memria Musical, site oficial da Jovem Guarda, Locutor.info (Rdio Cidade), Rdio Cidade Fazendo Escola FM, Rede Manchete, Redes Sociais (Facebook, Youtube, Orkut e Twitter), sites oficiais de todos os artistas citados na obra, Site oficial da casa de show Whisky A Go Go, Sites das prefeituras de todas as cidades citadas na obra, Museu da Pessoa, Memria Globo, Prmio da Msica Brasileira, Roupa Nova, Universo Musical, Western Music Association.

Rdio:

Rdio Nacional:

Sintonia Fina (Darci Marcelo): 1982/Maio, 1983/Maro, 1984/Fevereiro

60 Minutos Especiais ( Darci Marcelo): 1983/Julho

Globo AM

Especial com o Roupa Nova (Haroldo Jr.): 1994/Abril

Globo FM:

Especial Roupa Nova (Francisco Barbosa e Mara Torres): 1987/Junho

FM105

Salada Mista (Fernando Mansur): 1987/Julho, 1988/Maio, 1988/Novembro

Salada Mista (Carlos Alberto): 1990

Sala de Visitas (Ana Flores): 1991/Dezembro, 1992/Agosto, 1993/Junho, 1994/Maio

Um domingo com o Roupa Nova (Lus Augusto de Biase): 1988/Junho

98 FM:

98 FM Especial (Mara Torres): 1987/Agosto, 1988/Outubro, 1990/Junho

Entrevista (Mara Torres): 1992/Janeiro

Emoes (Mara Torres): 1989

Especial com o Roupa Nova (Ana Flores): 1996/Maio

Programa da Galera (Carlos Alberto): 1994/Junho

CBN:

CBN: Revista CBN com o Paulinho (Tnia Morales): 2009/Maio

CBN: Sala de Msica com Ricardo Feghali (Joo Carlos Santana): 2009/Julho

Televiso:

Programas, do perodo de 1980-2013, da Band, Globo, Record, SBT, TV Corcovado, TV Manchete e TVE. Alm de todas as novelas destas emissoras que contaram com msicas do Roupa Nova.

Msica:

Coleo de LPs As 30 Mais (Os Motokas), DVD Bailo do Ruivo ( Nando Reis), LP Bons Tempos (Rdio Cidade), LP do Congregation, LPs dos Famks de 1972, 1973, 1975 e 1978, LP Tudo aconteceu no Bobs, todas as canes citadas na obra, e todos os LPs, CDs e DVDs do Roupa Nova.

Fontes:

Anelisa Cesrio Alvim, Aramis Barros, Bia Aydar, Carlos Daf, Carlos Lincoln, Cssio Tucunduva, Cludia Telles, Cleberson Horsth, Clever Pereira, Everson Dias, Ivan Romero, Eduardo Souto Neto, Erasmo Carlos, Fagner, Fernanda
 Nigro, Fernando Brant, Fernando Mansur, Flavio Senna, Gil Lopes, Guto Graa Melo, Hugo Degenhardt, Jairo Pires, Jandira Feghali, Jane Duboc, Juca Muller, Kiko, Lafayette, Lus Carlos Bimbo, Luiz Carlos S, Manoel Poladian, Marco Antnio, Marcelo Pitta, Marcio Antonucci, Mariozinho Rocha, Maurcio Alves, Mauro Scalabrin, Max Pierre, Michael Sullivan, Miguel Plopschi, Milton Nascimento, Moogie Canazio, Nando, Nestor, Paulinho, Paulo Srgio Valle, Renato Ladeira, Ricardo Feghali, Ricardo Moreira, Ronaldo Bastos, Sandra Vieira, Sergio Luiz, Tavito, Valria Machado Colela e Zizi Possi.



NDICE ONOMSTICO

Foram considerados nomes de personalidades brasileiras e internacionais, alm de profissionais da msica.

A

ABBA

Abreu, Fernanda

Abreu, Silvio de

Adour, Fernando

Adriana

Adriani, Jerry

gua Brava

Albert, Morris (Maurcio Alberto)

Alcione

Aldo Vaz

Alvarenga, Samuel R. de

Alves, Maurcio

Alves, Rosani

Alvim, Anelisa Cesrio

Aly na Skyna

Amado, Jorge

Amarante, Rodrigo

Amelinha

Analfabitles

ngela Maria

Anglica

Antnio Carlos & Jocafi

Antnio, Marco (vocalista de Os Dallans)

Antnio, Marco

Antonucci, Marcio

Antunes, Arnaldo

Anysio, Chico

Arago, Diana

Arantes, Guilherme

Arajo, Beth

Arajo, Guilherme

Ariza

Asdrbal Trouxe o Trombone

Asimov, Isaac

Augusto, Joo

Augusto, Jos

Avancini, Walter

Aydar, Bia

Azevedo, Leno (ver Leno e Lilian)

Azymuth

B

Babenco, Hector

Babi

Baca

Bag, Mario

Bahiana, Ana Maria

Baker, Ginger

Banks, Tony

Baptista, Cludio Csar Dias

Baro Vermelho

Barber, Colette

Barbosa, Haroldo

Barbosa, Marco Antonio

Bardot, Brigitte

Barone, Joo

Barra, Rubinho

Barrichello, Rubinho

Barro, Joo de

Barros, Aramis

Barros, Paulo Csar

Barros, Renato

Barroso, Jlio

Bastos, Ronaldo

Batista, Amado

Beatles, The

Beatos, Os

Bee Gees

Belm, Faf de

Bellard, Hugo

Benjor, Jorge

Benson, George

Bethnia, Maria

Beauvoir, Simone de

Biafra

Biase, Lus Augusto de

Big Boy

Bin, Marcos Paulo

Birkin, Jane

Bittencourt, Lincoln

Black Power, Paulo

Black Rio

Blanc, Aldir

Blitz

Bloch, Adolpho

Boca Livre

Bolha, A (The Bubbles)

Bonaparte, Napoleo

Bonf, Tavynho

Borges, Fernando

Borges, L

Borges, Mrcio

Botezelli, J.C.

Braga, Paulinho

Branco, Marcelo Castelo

Brewer, Don

Brizola, Alberto

Brown, James

Bruce, Jack

Buarque, Chico

Bulco, Mrcia

Burgh, Christie (Jess)

Burke, Charles

Buschmann, Friedrich

Butler, Anna

C

Cadaxo, Oswaldo

Calmon, Waldir

Camero, Manolo

Camisa de Vnus

Campello, Celly

Canazio, Moogie

Candia, Jurema de

Canibais, Os

Canturia, Vinicius

Capital Inicial

Cardia, Gringo

Cardoso, Elizeth

Carelli, Rodrigo

Carequinha

Carlos, Danni

Carone, Helena

Carpenter, Karen

Carqueja, Jos Srgio da Cruz (Srgio Bruxa, Srgio Nariz)

Carvalho, Guti

Carvalho, Roberto de

Casanovas

Cas, Regina

Cash, Johnny

Castro, Robson

Cataldo, Alceu (pai)

Cataldo, Alceu Roberto

Cataldo, Francisco Roberto (Kiko)

14 Bis

Cattany & Rimadi

Caveiras, Os

Caymmi, Nana

Cazuza

Celso Blues Boys

Csar, Augusto

Ceschi Jnior, Otvio

Chacrinha

Chagas, Walmor

Chandler, Chas

Charles, Ray

Cher

Chicago

Chico Rey e Paran

Chitozinho

Chitozinho e Xoror

Chopin, Frdric

Chrystian & Ralf

Cidade Negra

Ciribelli, Mylena

Clapton, Eric

Clarke, Arthur C.

Clevers, The

Cliff, Jimmy

Close, Roberta

Cocker, Joe

Coelho, Edison

Cohen, Alex

Cole, Nat King

Colela, Valria Machado

Colla, Carlos

Collins, Phil

Collor, Fernando

Combo, Gerson King

Companhia Mgica

Conniff, Ray

Conrad, Gerson

Conrado

Consuelo, Baby (Baby do Brasil)

Cor do Som, A

Cord, Ronnie

Corra, Renato

Costa e Silva

Coverdale, David

Crimson, King

Crosby, Bing

Crosby, David

Cunha, Cludio

Curiel, Gonzalo

D

Dadi

Daff, Carlos

Dalto

Daltrey, Roger

Dapieve, Arthur

Davidson, Jorge

Davis, Mark (Fbio Jr.)

Davis, Miles

Dazinho

D

Deep Purple

Deodato, Eumir

Detonautas

Diamante, Ronaldo

Dias, Everson

Dias, Joo

Dias, Marcia Tosta

Dickinson, Bruce

Djavan

Dod

Dominguinhos

Donato e seu Conjunto

Doors, The

Duarte, Lima

Duarte, Mauro

Duarte, Regina

Duboc, Jane

Duncan, Zlia

Duprat, Rogrio

Duran, Dolores

Dusek, Eduardo

Dylan, Bob

E

Earth, Wind & Fire

Ed Wilson (Edson Vieira de Barros)

Ed Lincoln e seu Conjunto

Edson Frederico

Eduardo, Gil

Edwards, Bernard

Eliana

Elis Regina

Elisabeth, Tnia

Eller, Cssia

Elliot, Don (Ralf)

Emerson, Lake & Palmer

Engenheiros do Hawaii

Epstein, Brian

Erasmo Carlos

Escobar, Pepe

Eumir Deodato e Os Catedrticos

Excitation

F

Fbio

Fbio Jr.

Fagner

Fagundes, Antnio

Faith No More

Falco, Marcelo

Falco, Waldemar

Farah, Pedro

Faria, Beth

Faria, Reginaldo

Farias, Wagner

Fef

Feghali, Carol

Feghali, Jeanette Gergi

Feghali, Thiago

Feital, Diana

Feital, Paulo C.

Fernando Brant

Ferraz, Santiago

Ferreira, Mauro

Fevers, The

Fiel Filho, Manoel

Figueiredo, Joo

Filho, Daniel

Filippi, Bruno De

Fitzgerald, Ella

Flores, Ana

Floriano

Fortuna, Perfeito

Fortunato, Bruno

Frampton, Peter

Frana, Jamari

Frejat, Roberto

Fresno

Fromer, Marcelo

G

Gabriel, Ana

Gabriel, Peter

Gainsbourg, Serge

Gal Costa

Galhardo, Carlos

Gardenberg, Monique

Gardenberg, Sylvinha

Garrido, Franklin

Garrido, Toni

Gates, David

Geisel, Ernesto

Genesis

Geremias, Ger

Gershwin, George

Gian e Giovani

Gil, Gilberto

Gilberto, Joo

Golden Boys

Gomes, Dias

Gomes, Mario

Gomes, Pepeu

Gonalves, Nelson

Gonzaga, Carlos

Gonzaga, Luiz (Gonzago)

Gonzaguinha

Gordon, Dennis (Fernando Jos)

Gouldman, Graham

Grand Funk Railroad

Grupo Raa

Guedes, Beto

Guedes, Lulu

Guimares, Luiz Fernando

Guimares, Ulysses

Guns N Roses

Gypsy

H

Hackett, Steve

Harrison, George

Hartman, Jamie

Hendrix, Jimi

Henley, Don

Herva Doce

Herzog, Vladimir

Hinds, Srgio

Hoorelbeke, Peter

Hornsby, Bruce

Horsth, Marcelo

Horsth, Marcio

Horsth, Mauricio

Houston, Kiris

Hungate, David

I

INXS

Ira!

Iron Maiden

Ives, Burl

J

Jabor, Arnaldo

Jaburu

Jackson, Michael

Jaime, Leo

Javan, Acio

Jess

Jethro Tull

Joanes, Jamil

Joanna

Joo Paulo e Daniel

Joo Penca & Seus Miquinhos Amestrados

Jobim, Tom

John, Elton

Joias, Os

Jonson, Ben

Joplin, Janis

Jordans, The

Jorge Cludio

Jota Quest

Joyce

Jnior (Sandy e Jnior)

Jnior

K

Kid Abelha

Kikinho


Kilroys, The

Kimball, Bobby

Knapp, Lilian

Kubitschek, Juscelino

Kubrusly, Mauricio

L

Lacerda, Carlos

Lacet, Walter

Ladeira, Renato

Lafayette

Lafayette e seu Conjunto

Lages, Eduardo

Lany, Roberto

Latorraca, Ney

Lzaro, Marcos

Leandro e Leonardo

Leo, Nara

Led Zeppelin

Lee, Rita

Legey, Aloysio

Legio Urbana

Leitte, Claudia

Lemos, Ademir

Lemos, Carlos

Leno e Lilian

Lennon, John

Lennon, Sean

Leoni

Lima, Heitor

Lima, Marina

Lima, Pedrinho

Lincoln, Carlos

Lincoln, Ed

Lincoln Olivetti e seu Conjunto

Lincoln Olivetti e Los Rebeldes

Lins, Ivan

Lippi, Ndia

Liszt, Franz

Livi, Roberto

Lobo

Lobato, Monteiro

Lopes, Gil

Los Panchos Villa

Loureiro, Mnica

Louzeiro, Jos

Lozinha (Heloisa Carvalho),

Luiz, Romilson

Lukather, Steve

Luna

M

Macal, Jards

Machado, Adriano

Machado, Expedito (Tom & Dito)

Maciel, Edmundo

Maclean, Dave

Maclean, Steve (Hlio Manso)

Maestro Cip

Magal, Sidney

Magalhes, Joo Luiz

Magro, Srgio

Magro

Maia, Arthur

Maia, Luizo

Maia, Tim

Malheiros, Alexandre

Mancini, Henry

Manso, Hlio

Mansur, Fernando

Maranho, Chico

Maranho, Jota

Maral, Mestre

Marcelo D2,

Marcelo, Darci

Marcos, Antnio

Mariana

Mariano, Cesar Camargo

Marinho, Roberto

Martin, George

Ms, Daniel

Massadas, Paulo

Matogrosso, Ney

Maxwell, Guilherme

May, Brian

Mazzucchelli, Joana

McCartney, Paul

McGovern, Maureen

Medaglia, Jlio

Medina, Roberto

Melo, Padre Fbio de

Mello, Guto Graa

Mello, Luciana

Mello, Luiz Antonio

Melo, Maurcio

Melodia, Luiz

Mendes, Cassiano Gabus

Mendes, Cassio Gabus

Mendona, Paulinho

Mercury, Daniela

Mercury, Freddie

Mesquita, Evandro

Michael, George

Midani, Andr

Miele

Migliacci, Franco

Miguel, Antnio Carlos

Miltinho

Miranda, Aurora

Miranda, Roberta

Mitchell, Mitch

Molica, Fernando

Moliterno, Kadu

Monica, Aldo Della

Monte, Marisa

Moon, Scarlet

Moore, Gil

Moraes, Marcelo Leite de

Moraes, Vinicius de

Moreira, Moraes

Moreira, Ricardo

Moreira, Sidinho

Moreno, Luis

Motta, Ed

Motta, Nelson

Motta, Rui

Motta, Zez

Moura, Fernando

Moura, Marquinhos

Moura, Roberto M.

MPB4,

M

Muller, Juca

Muniz, Lauro Csar

Murilo, Sergio

Murray, Gordon

Mutantes

N

Nanini, Marco

Nascimento, Milton (Bituca)

Nash, Graham

Neto, Ramalho

Neves, Ezequiel

Neves, Tancredo

New Kids On The Block

Niemeyer Filho, Paulo

Niemeyer, Luiz Oscar

Nigro, Fernanda

Nilsson, Harry

Nobre, Dudu

Nogueira, Emmerson

Nova, Marcelo

Nucci, Claudio

O

O Tero

Oasis

Oiticica, Hlio

Oliveira, Angelino de

Oliveira, Dalva de

Oliveira, Jos Bonifcio de (Boni)

Oliveira, Willie de

Olivetti, Lincoln

Os Famks

Os Motokas

Os Novos Baianos

Os Super Quentes

Osmar

P

Paich, David

Painel de Controle

Palumbo, Patrcia

Paralamas do Sucesso, Os

Paula, Benito di

Paul McCartney & Wings

Paulinho Ovelha

Paulo Ricardo

Pavo, Luiz

Pedro Paulo (Pep)

Peixoto, Cauby

Pel

Peninha

Pequeno, Diana

Pereira, Clever

Pestana, Ccero

Pierre, Max

Pilo, Fernando

Pinheiro, Paulo Csar

Pink Floyd

Pinto, G Alves

Pinto, Rossini

Piquet, Nelson

Pires, Glria

Pires, Jairo

Piska

Pitta, Marcelo

Pitta, Srgio

Pitty

Pixinguinha

Piza, Daniel

Plopschi, Miguel

Poladian, Manoel

Pops, The

Porcaro, Jeff

Porcaro, Steve

Portela, Vav da (Norival Reis)

Porter, Cole

Portugus, Fernando

Possi, Zizi

Premeditando o Breque

Presley, Elvis

Prince

Proena, Mait

Prost, Alain

Q

Queen

Quincy Jones

R

Rabello, Claudio

Raa Negra

Rdio Txi

Ramalho, Elba

Ramalho, Z

Ramos, Tony

Rappa, O

Red Hot Chili Peppers

Red Snakes, The

Redding, Noel

Reis, Dilermando

Reis, Nando

Renato e seus Blue Caps

Renato, Jos

Ribeiro, Evandro

Richards, Keith

Richie, Lionel

Rimsky-Korsakov

Rivers, Johnny

Roberto Carlos

Roberto, Luiz

Rocha, Mariozinho

Rodgers, Nile

Rodrigues, Arnaud

Rodrigues, Jota

Rodrigues, Rodrigo

Rodrix, Z

Rogers, Richard

Rolling Stones, The

Romero, Ivan

Rondeau, Jos Emilio

Roque, Chico

Rosana

Rosberg, Keke

Ross, Diana

Rotay, Heleno

Roth, Thomas

RPM

Ruban

Rush

Russo, Renato

Rutherford, Michael

S

S & Guarabyra (S-Rodrix &Guarabyra)

S, Luiz Carlos

S, Roberta

S, Sandra de

Sabia, Marcelo

Salgado, Mauro

Salomo, Waly

Sandoval, Eldio

Sandy

Sandy & Jnior

Sangalo, Ivete

Sangue da Cidade

Santana, Carlos

Santiago, Emlio

Santos, Luclia

Santos, Lulu

Santos, Mister Funk

Santos, Osmar

Santos, Paulo dos

Satriani, Joe

Savaget, Edna

Scalabrin, Mauro

Schiavon, Luiz

Secos & Molhados

Seixas, Raul

Senna, Ayrton

Senna, Flavio

Sepultura

Srgio Luiz

Serguei

Severo, Marieta

Sfat, Dina

Sideral, Wilson

Sigelmann, Carlos

Silva, Aguinaldo

Silva, Antengenes

Silva, Bezerra da

Silva, Jos Antnio

Simes, Marco Antnio

Simonal, Wilson

Simone

Sinatra, Frank

Sion, Carlos Alberto

Sirena, Dody

Skank

S Pra Contrariar

Sodr, Raimundo

Soluo

Som Imaginrio

Sorveto, Andria

Sousa, Maurcio de

Souto Neto, Eduardo

Souto, Lizandra

Souza, Okky de

Souza, Paulo

Souza, Paulo Srgio de

Spielberg, Steven

Starr, Ringo

Stein, Luiz

Stevens, Tony (Jess)

Stewart, Rod

Stills, Stephen

Streisand, Barbra

Sullivan, Michael (Ivanilton de Souza)

Sunshines, The

Super Bacana

Supertramp

Sussekind, Marcelo

Sweepers, The

Sykes, John

T

Takai, Fernanda

Talma, Roberto

Tambay, Patrick

Tapajs, Dorinha

Tapajs, Maurcio

Tapajs, Paulinho

Tavares, Rodrigo

Tavito

Taylor, James

Taylor, Roger

Telles, Cludia

Three Dog Night

Timteo, Glauco

Tits

Tom & Dito

Toquinho

Torloni, Christiane

Tornado, Toni

Torres, Jonas

Torres, Mara

Toto

Townsend, Carlos

Townshend, Pete

Travassos, Patrycia

Travolta, John

Trio Esperana

Truffaut, Franois

Tucunduva, Cssio

Tucunduva, Cristina

Turner, Keith

Turner, Tina

Tutuca Borba

Twigg

U

Ultraje a Rigor

Uncle Jack (Fbio Jr.)

V

Valena, Alceu

Valle, Marcos

Valle, Paulo Srgio

Vannucci, Augusto Csar

Vantuil

Veloso, Caetano

Venturini, Flvio

Vespar, Geraldo

Viana, Malu

Viana, Marcus

Vianna, Herbert

Vieira, Luiz

Vilhena, Bernardo

Villa Lobos, Heitor

Villar, Lcio Flvio

Viola, Paulinho da

Von, Ronnie

W

Wakeman, Rick

Wanderla

Wanderley, Walter

Wanderley e seu Conjunto

Waldir Calmon e seu Conjunto

Wando

Watts, The

Wellington, Nelson

White, Andy

Whitesnake

Who, The

Wilker, Jos

Wonder, Stevie

Wrigg, Ivan

X

Xexo, Artur

Xuxa

Y

Yes

Young, Richard ( Ricardo Feghali)

Yusim, Liliane

Z

Zeca Pagodinho

Zez di Camargo e Luciano

Zizinho



Este e-book foi desenvolvido em formato ePub pela Distribuidora Record de Servios de Imprensa S.A.



Tudo de Novo

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